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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sociedade nua</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Andr&eacute; Gobi</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Textos com ofensas de cunho sexual dividindo espa&ccedil;o com fotos e ilustra&ccedil;&otilde;es de corpos femininos parcial ou totalmente nus, an&uacute;ncios de casas de prostitui&ccedil;&atilde;o, ironia e pornografia dividindo o espa&ccedil;o das p&aacute;ginas. Poderia muito bem ser uma revista ou website de 2020, certo? Errado. Duas revistas publicadas em fins do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do XX: <i>O Rio nu e Sans dessous </i>publicavam esse conte&uacute;do diverso especialmente para atrair e divertir o p&uacute;blico masculino. As publica&ccedil;&otilde;es foram o ponto de partida para a pesquisa que resultou na obra <i>Clich&ecirc;s baratos: sexo e humor na imprensa ilustrada carioca do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX</i>, da historiadora Cristiana Schettini, professora do Instituto de Altos Estudios Sociales da Universidade Nacional de General San Mart&iacute;n (Unsam) e pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Cient&iacute;ficas y T&eacute;cnicas (Conicet), na Argentina.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro lan&ccedil;ado em formato eletr&ocirc;nico pela Editora da Unicamp, como parte da cole&ccedil;&atilde;o <i>Hist&oacute;ri@ Ilustrada</i>, vinculada ao Centro de Pesquisa em Hist&oacute;ria Social (Cecult), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa e a publica&ccedil;&atilde;o contaram com o apoio da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp). "O livro &eacute; uma breve hist&oacute;ria de um conjunto de publica&ccedil;&otilde;es ilustradas, praticamente desconhecidas hoje, que se dedicaram a um estilo peculiar de humor sexual e er&oacute;tico no come&ccedil;o do s&eacute;culo XX", afirmou Schettini. De acordo com ela, essas publica&ccedil;&otilde;es retratavam de forma ir&ocirc;nica e er&oacute;tica a vida noturna carioca e as a&ccedil;&otilde;es de sociabilidade entre cidad&atilde;os de diversas classes sociais, origens e of&iacute;cios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a17fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PARA HOMENS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Consideradas "leituras para homens", as narrativas dessas revistas destilavam atribui&ccedil;&otilde;es morais e raciais acompanhadas de desenhos ou fotografias que exibiam curvas de corpos femininos, vestidos ou n&atilde;o, estimulando o desejo masculino. As representa&ccedil;&otilde;es das mulheres variavam entre ilustra&ccedil;&otilde;es e fotografias sendo que essas exerciam maior fasc&iacute;nio sobre os consumidores do que os desenhos realizados por artistas (muitas vezes, copiados de revistas francesas).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pesquisadora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em L&oacute;gica e Metaf&iacute;sica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Priscila Cupello, tamb&eacute;m analisou representa&ccedil;&otilde;es femininas em publica&ccedil;&otilde;es entre as d&eacute;cadas de 1920 e 1930, como <i>A ma&ccedil;&atilde;</i>, revista que circulou entre 1922 e 1929. Segundo ela, tamb&eacute;m nessa revista a mulher era representada de forma depreciativa. "Encontramos representa&ccedil;&otilde;es de mulheres belas, jovens e atraentes, muitas vezes em cenas de cunho sexual ou nuas, mas suas caracter&iacute;sticas psicol&oacute;gicas eram as da mulher ardilosa, ambiciosa e interesseira", diz Cupello. "A ideologia embutida nos discursos da revista denunciava casamentos por interesse e o desejo de ascens&atilde;o social feminina. J&aacute; os homens eram representados como tendo muitos bens materiais, mas sendo submissos aos caprichos femininos", explica a pesquisadora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PROSTITUI&Ccedil;&Atilde;O EM PAUTA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Uma das se&ccedil;&otilde;es mais populares da <i>Rio nu</i> se chamava "Nas zonas", dedicada &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o e atuando, segundo Schettini, "como uma conex&atilde;o direta da revista com o mercado do sexo", com fofocas sobre frequentadores de casas de prostitui&ccedil;&atilde;o, an&uacute;ncios e at&eacute; amea&ccedil;as que divertiam os leitores. Esse era um tipo de entretenimento que servia para preencher o tempo livre, em especial a vida noturna de parte de uma sociedade rec&eacute;m-sa&iacute;da da escravid&atilde;o, que dava os primeiros passos em um regime republicano e que lidava com as transforma&ccedil;&otilde;es de uma cidade, o Rio de Janeiro. E, nesse contexto, a prostitui&ccedil;&atilde;o passou a exercer um fator de sociabilidade, em que sujeitos de origens sociais distintas, de alguma forma, se cruzavam. De forma geral, as mulheres envolvidas nesse mercado do sexo viviam em condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias, tanto social quanto economicamente. Havia poucas perspectivas em um pa&iacute;s onde o &iacute;ndice de alfabetismo era alto, com poucas oportunidades de trabalho, e a prostitui&ccedil;&atilde;o parecia ser uma forma de sobreviv&ecirc;ncia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A falta de op&ccedil;&otilde;es e o desemprego s&atilde;o fatores que ainda hoje est&atilde;o relacionados &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o. Mariana Luciano Afonso, pesquisadora do Laborat&oacute;rio de Mem&oacute;ria e Hist&oacute;ria Oral Simone Weil da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), que estudou as representa&ccedil;&otilde;es sociais de prostitutas na cidade de S&atilde;o Paulo e na regi&atilde;o de Sorocaba nos dias atuais, constatou que a maioria das mulheres que acabavam se prostituindo na rua, j&aacute; havia passado por casas de prostitui&ccedil;&atilde;o e vinha de uma situa&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica fragilizada. "No geral &eacute; um perfil de mulheres em situa&ccedil;&atilde;o de pobreza, com baixa escolaridade (desde mulheres que nunca se alfabetizaram at&eacute; outras que no m&aacute;ximo completaram o ensino m&eacute;dio) e uma trajet&oacute;ria profissional marcada por trabalhos prec&aacute;rios e pelo desemprego. Nesses contextos, a prostitui&ccedil;&atilde;o se apresenta como uma alternativa de obter ganhos um pouco maiores do que em trabalhos muito precarizados e mal pagos", aponta Afonso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VIOL&Ecirc;NCIA E OBJETIFICA&Ccedil;&Atilde;O </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com a pesquisadora da USP, boa parte dessas mulheres tiveram as vidas atravessadas por muitas viol&ecirc;ncias at&eacute; chegarem &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o. &ldquo;&Eacute; muito comum que elas vivenciem, simultaneamente, viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero no contexto familiar; viol&ecirc;ncia contra mulher em espa&ccedil;os p&uacute;blicos; viol&ecirc;ncia do Estado; viol&ecirc;ncia do racismo estrutural e a viol&ecirc;ncia das priva&ccedil;&otilde;es impostas pela pobreza&rdquo;, constata Afonso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Separadas por contextos hist&oacute;ricos distintos, as hist&oacute;rias da prostitui&ccedil;&atilde;o mais recentes e aquelas que emergem das p&aacute;ginas das revistas publicadas na virada do s&eacute;culo XIX para o XX t&ecirc;m em comum a viol&ecirc;ncia. Conforme explica, Schettini, as narrativas que preenchiam as p&aacute;ginas das revistas que foram objeto da pesquisa funcionavam como uma esp&eacute;cie de educa&ccedil;&atilde;o sexual para seus leitores, mas reiterando a prerrogativa masculina de satisfazer seu desejo sem limites. &ldquo;Na verdade, n&atilde;o h&aacute; nenhum registro nas hist&oacute;rias de aventuras sexuais dessa imprensa em que a viol&ecirc;ncia sexual fosse condenada ou sequer reconhecida como tal&rdquo;, diz a autora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, essa imprensa exercia tamb&eacute;m uma esp&eacute;cie de &ldquo;publicidade&rdquo; para essas mulheres, principalmente para as propriet&aacute;rias das casas de entretenimento. Por meio das publica&ccedil;&otilde;es, elas constru&iacute;am suas imagens p&uacute;blicas e negociavam alian&ccedil;as com outras mulheres e seus frequentadores, al&eacute;m de resolver conflitos. Schettini traz uma reflex&atilde;o importante sobre a situa&ccedil;&atilde;o das prostitutas no per&iacute;odo analisado em sua pesquisa. &ldquo;Num mundo t&atilde;o desfavor&aacute;vel como aquele, elas encontraram maneiras de participar do destino que suas imagens tomaram, pelo menos em alguns momentos. N&atilde;o se trata de romantiz&aacute;-las, mas de reconhecer que, &agrave;s vezes, elas sabiam mais do que podemos imaginar sobre como intervir na produ&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o de suas imagens&rdquo;, finaliza a historiadora.</font></p>      ]]></body>
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