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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Plurais em todas as dimensões: os sistemas agrícolas tradicionais]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   AGRICULTURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Plurais em todas as dimens&otilde;es: os sistemas agr&iacute;colas tradicionais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Coletivo Folhas Compostas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Coletivo Folhas Compostas &eacute; resultado do encontro entre os saberes dos povos ind&iacute;genas, quilombolas e comunidades locais e o conhecimento cient&iacute;fico, partindo do pressuposto de que o encontro &eacute; sempre a uni&atilde;o da pluralidade de formas, de estatutos e de subst&acirc;ncias. O coletivo re&uacute;ne Adryan Nascimento, Amanda Horta, Anna Maria Andrade de Castro, Augusto Postigo, Carla Dias, Dannyel S&aacute;, Diego Amoedo, Ilma Neri, Katia Ono, Laudessandro Marinho da Silva, Lucybeth Arruda, Luiz Marcos de Fran&ccedil;a Dias, Nurit Bensusan, Raquel Pasinato e Roberto Rezende</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O QUE S&Atilde;O SISTEMAS AGR&Iacute;COLAS TRADICIONAIS?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Comp&otilde;e e define sistemas agr&iacute;colas tradicionais o conjunto organizado de conhecimentos, saberes, t&eacute;cnicas, cultura material, regras sociais e pr&aacute;ticas de um grupo cultural associado ao uso e manejo da biodiversidade e das paisagens vinculados a um territ&oacute;rio espec&iacute;fico &#91;1&#93;. O car&aacute;ter sist&ecirc;mico de seu conte&uacute;do diz respeito &agrave;s diversas dimens&otilde;es que fazem parte do conjunto e a forma como culturalmente se integram. Na acep&ccedil;&atilde;o do termo como um todo dada acima, a palavra agr&iacute;cola n&atilde;o se restringe &agrave; ideia de cultivo, mas abarca no&ccedil;&otilde;es como domestica&ccedil;&atilde;o, manejo, cuidado e mesmo familiariza&ccedil;&atilde;o &#91;2&#93;, compreendendo assim diferentes pr&aacute;ticas em diferentes paisagens. S&atilde;o exemplos desse significado mais amplo algumas pr&aacute;ticas extrativistas e agroflorestais, que est&atilde;o sempre vinculadas a um territ&oacute;rio e, portanto, a um sistema cultural espec&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; o termo "tradicional" poderia, dado seu uso corriqueiro, remeter &agrave; ideia de antiguidade, passado, e mesmo a algo localizado no tempo e que n&atilde;o se modifica. No entanto, os sistemas agr&iacute;colas tradicionais s&atilde;o parte integrante de sistemas mais amplos de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos e, nesse sentido, din&acirc;micos e em permanente desenvolvimento, n&atilde;o se configurando, portanto, em cole&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica de conhecimentos e pr&aacute;ticas, mas antes em formas de produ&ccedil;&atilde;o din&acirc;micas de diversidade e conhecimento. A ideia de tradicional remete, assim, ao car&aacute;ter hist&oacute;rico, territorial e cultural do sistema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atualmente, tem sido globalmente reconhecida a import&acirc;ncia de tais sistemas para: 1) a produ&ccedil;&atilde;o e conserva&ccedil;&atilde;o de diferentes paisagens; 2) a produ&ccedil;&atilde;o e conserva&ccedil;&atilde;o da agrobiodiversidade; 3) a seguran&ccedil;a alimentar; 4) o enfrentamento e mitiga&ccedil;&atilde;o da crise clim&aacute;tica; e 5) o conjunto dos conhecimentos e formas de existir do humano. Desse modo, sistemas agr&iacute;colas tradicionais (SATs) e <i>globally important agricultural heritage systems</i> (GIAHS), respectivamente nos &acirc;mbitos nacional e internacional, s&atilde;o tamb&eacute;m termos atualmente endere&ccedil;ados a um conjunto de pol&iacute;ticas e programas que procuram reconhecer, valorizar e salvaguardar esses sistemas, sua import&acirc;ncia e os benef&iacute;cios e servi&ccedil;os que prestam. O GIAHS &#91;3&#93;, incorporado pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e Agricultura (FAO) desde 2015, tem por objetivo principal "identificar e salvaguardar os SATs de relev&acirc;ncia global, as paisagens a eles associadas, a agrobiodiversidade e os conhecimentos tradicionais, catalisando e estabelecendo um programa de longo prazo para apoiar tais SATs, de forma a trazer benef&iacute;cios globais, nacionais e locais, e promover sua conserva&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica e a gest&atilde;o sustent&aacute;vel".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, o reconhecimento dos SATs como patrim&ocirc;nios imateriais da sociedade brasileira se d&aacute; por demanda das comunidades detentoras dos sistemas junto ao Instituto do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional (Iphan) em sua pol&iacute;tica de salvaguarda do patrim&ocirc;nio imaterial. Dois SATs obtiveram registro junto ao Iphan: o Sistema Agr&iacute;cola Tradicional do Rio Negro e o Sistema Agr&iacute;cola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, foram listados 17 exemplos de SATs &#91;4&#93;, que d&atilde;o ideia da diversidade de situa&ccedil;&otilde;es que podem ser englobadas pelo termo  -  ou por termos correlatos como sistemas agroflorestais tradicionais  -  e, consequentemente, pelas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e legisla&ccedil;&otilde;es associadas. Considerando a sociobiodiversidade nacional, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar a diversidade de sistemas desse tipo existentes e que merecem ser conhecidos e valorizados pelo conjunto da sociedade e por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de valoriza&ccedil;&atilde;o e salvaguarda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conjunto desses sistemas, se considerados em n&iacute;vel global, representam uma resist&ecirc;ncia e uma alternativa a processos herdados da chamada revolu&ccedil;&atilde;o verde, caracterizados pela eros&atilde;o da diversidade de variedades e esp&eacute;cies vegetais (conservadas apenas em bancos de germoplasma) com as quais a esp&eacute;cie humana convive de diferentes maneiras ao longo de sua hist&oacute;ria. Os sistemas agr&iacute;colas tradicionais, em oposi&ccedil;&atilde;o a isso, s&atilde;o formas n&atilde;o predat&oacute;rias de rela&ccedil;&atilde;o dos humanos com o territ&oacute;rio e outras esp&eacute;cies. Os diferentes povos e grupos e seus sistemas tradicionais conservam e promovem a diversidade agr&iacute;cola: "&#91;...&#93; enquanto os bancos de germoplasma espalhavam-se pelo mundo, grupos ind&iacute;genas, comunidades e agricultores familiares tradicionais continuavam os processos de diversifica&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola conservando, sob cultivo, diversas variedades de importantes esp&eacute;cies de plantas." &#91;5&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O QUE OS SATS T&Ecirc;M QUE A AGRICULTURA CONVENCIONAL N&Atilde;O TEM?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os praticantes da agricultura do cuidado &#91;6&#93; reconhecem que as rela&ccedil;&otilde;es sociais n&atilde;o s&atilde;o restritas exclusivamente aos seres humanos e cultivam as esp&eacute;cies vegetais considerando a ag&ecirc;ncia das plantas e dos outros seres n&atilde;o humanos. Nesse sentido, as pr&aacute;ticas de manejo dos SATs est&atilde;o imbricadas aos processos biol&oacute;gicos, ecol&oacute;gicos e ecossist&ecirc;micos nas por&ccedil;&otilde;es de terras de uso coletivo sob controle das popula&ccedil;&otilde;es minorit&aacute;rias nas franjas do mundo, na maioria das vezes cercadas pelas terras apropriadas pelo capital. Locais onde a terra &eacute; para o trabalho e n&atilde;o para o neg&oacute;cio; e onde produzir n&atilde;o est&aacute; no centro da vida, apesar de ser uma dimens&atilde;o importante da vida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento da integralidade de todos os fen&ocirc;menos &eacute; o que ancora as tomadas de decis&otilde;es para a experimenta&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua realizada por esses cientistas da terra. Portanto, a diversidade &eacute; o elemento fundamental que os caracteriza. Os nutrientes obtidos pelas plantas s&atilde;o disponibilizados atrav&eacute;s dos ciclos de energia e mat&eacute;ria retroalimentados pelos pr&oacute;prios componentes desses fluxos e, por isso, a favor da vida. Mediante um complexo e din&acirc;mico arranjo n&atilde;o-hier&aacute;rquico de muitas esp&eacute;cies que envolve desde os seres produtores (esp&eacute;cies vegetais), passando pelos consumidores (esp&eacute;cies animais) e por fim os decompositores (fungos e bact&eacute;rias), os SATs produzem os pr&oacute;prios nutrientes que as plantas obt&ecirc;m para o seu crescimento em um mosaico de cons&oacute;rcios distintos de esp&eacute;cies conforme as manchas de solos ativamente transformadas pelas rela&ccedil;&otilde;es entre as esp&eacute;cies, incluindo tecnologias de manejo extremamente minuciosas. Os solos dos SATs s&atilde;o produtos vivos dessas intera&ccedil;&otilde;es e vice-versa. Uma coisa n&atilde;o existe sem a outra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mesmo acontece com a &aacute;gua, que flui, literalmente, exercendo uma jornada cont&iacute;nua ao longo dos corpos d'&aacute;gua superficiais, subterr&acirc;neos e atmosf&eacute;ricos e atrav&eacute;s dos mundos n&atilde;o humanos. Assim, o abastecimento h&iacute;drico dos SATs est&aacute; intimamente relacionado &agrave; regula&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por outro lado, a chamada agricultura convencional parte do pressuposto falacioso da supremacia humana e de seu pretenso controle sobre as demais esp&eacute;cies e o planeta como um todo. Essa no&ccedil;&atilde;o aliada a arranjos sociais hier&aacute;rquicos, ao estabelecimento de unidades produtivas pautadas nas monoculturas voltadas para a exporta&ccedil;&atilde;o ("comoditiza&ccedil;&atilde;o"), ao trabalho for&ccedil;ado, ao cultivo de plantas inicialmente sem quaisquer rela&ccedil;&otilde;es com outras esp&eacute;cies locais, a rela&ccedil;&otilde;es de coer&ccedil;&atilde;o entre as esp&eacute;cies, &agrave; mercantiliza&ccedil;&atilde;o das terras, ao confinamento de mulheres e de gr&atilde;os constituem os esteios da <i>plantation</i> que alavancou a conquista e expans&atilde;o europeia e formatou o agroneg&oacute;cio atual. Lucros enormes e mis&eacute;rias complementares advindos desse modelo resultam em uma s&eacute;rie de impactos socioambientais desastrosos. Para come&ccedil;ar, uma transforma&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica das pessoas e das plantas no sentido da homogeneiza&ccedil;&atilde;o tornando-as pass&iacute;veis de controle e ordenamento externos. &Eacute; como diz Kampot Ikpeng &#91;7&#93;, em refer&ecirc;ncia aos impactos da agricultura do despejamento: "Hoje em dia o tempo est&aacute; mudando e as pessoas est&atilde;o perdendo a percep&ccedil;&atilde;o do que vai acontecer, porque o tempo est&aacute; ficando imprevis&iacute;vel. O tempo est&aacute; mudando as pessoas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sob o jugo da domina&ccedil;&atilde;o antr&oacute;pica, a agricultura do despejamento praticada pelo agroneg&oacute;cio a partir da concep&ccedil;&atilde;o da <i>plantation</i> deixa um rastro de destrui&ccedil;&atilde;o que vai al&eacute;m da exaust&atilde;o dos insumos que a sustentam e da desertifica&ccedil;&atilde;o. Como aponta Tawaiku Juruna &#91;8&#93;, "a floresta tem muitos donos, que abandonam os locais quando a floresta &eacute; destru&iacute;da".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SISTEMA AGR&Iacute;COLA TRADICIONAL DO RIO NEGRO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em novembro de 2010, o Instituto de Patrim&ocirc;nio Humano Art&iacute;stico Nacional (IPhan) registrou o Sistema Agr&iacute;cola Tradicional do Rio Negro como patrim&ocirc;nio cultural do Brasil no <i>Livro de Registros dos Saberes  -  Bens Culturais Imateriais </i>&#91;9&#93;. Este reconhecimento foi antecedido de uma s&eacute;rie de pesquisas e articula&ccedil;&otilde;es feitas desde 2006 e ensejou expectativas por uma nova fase na regi&atilde;o onde os setores p&uacute;blicos locais, estaduais e federais articulassem uma agenda de interven&ccedil;&otilde;es participativas a fim de valorizar e salvaguardar o jeito de fazer ro&ccedil;a, os produtos da agricultura e todos os conhecimentos ind&iacute;genas associados ao sistema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O SAT Rio Negro &eacute; entendido como um conjunto de saberes e modos de transmiss&atilde;o de conhecimentos que se relacionam entre si e dentre eles est&atilde;o: a diversidade das plantas cultivadas, as t&eacute;cnicas de manejo da ro&ccedil;a e floresta e dos quintais (os espa&ccedil;os de cultivo), o sistema alimentar (as receitas e processos de elabora&ccedil;&atilde;o dos produtos da ro&ccedil;a), os utens&iacute;lios de processamento e armazenamento e, por fim, a conforma&ccedil;&atilde;o de redes sociais de troca de plantas e conhecimentos associados. O cultivo da mandioca brava (<i>Manihot esculenta</i>), por meio da t&eacute;cnica de coivara e da rede de troca de saberes e plantas, &eacute; a base desse sistema, compartilhado por mais de 20 povos ind&iacute;genas, os quais vivem ao longo do rio Negro, em um territ&oacute;rio que abrange os munic&iacute;pios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e S&atilde;o Gabriel da Cachoeira, no noroeste amaz&ocirc;nico, at&eacute; as fronteiras com a Col&ocirc;mbia e a Venezuela.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sistema, os utens&iacute;lios de processamento da massa de mandioca e os cultivares s&atilde;o considerados seres com atributos semelhantes aos dos humanos, com sentimentos e sociabilidade. O repert&oacute;rio de artefatos n&atilde;o &eacute; passivo  -  o forno de torrar a farinha, por exemplo, sabe, junto com a pessoa que torra, se ela vai ficar boa ou n&atilde;o. As mandiocas se comunicam entre si e com as mulheres, que s&atilde;o as donas das ro&ccedil;as. Essas caracter&iacute;sticas orientam a gest&atilde;o do uso e produ&ccedil;&atilde;o desses bens compondo um aspecto do valor patrimonial do sistema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A agricultura no rio Negro &eacute; antigu&iacute;ssima, h&aacute; registros que marcam quatro mil anos de pr&aacute;tica agr&iacute;cola na regi&atilde;o, mas os povos ind&iacute;genas dizem que esse marco temporal &eacute; recente, suas narrativas de origem alcan&ccedil;am tempos anteriores a esse. A enorme diversidade de manivas do rio Negro &#91;10&#93;, como um reservat&oacute;rio de variedades, mostra que os povos ind&iacute;genas prestam um servi&ccedil;o a toda humanidade, n&atilde;o s&oacute; ao Brasil, resguardando e manejando essas variedades como fazem cientistas em laborat&oacute;rios-banco de esp&eacute;cies. A maneira de fazer ro&ccedil;a do rio Negro, o sistema de queima, plantio e capoeiras de longa dura&ccedil;&atilde;o, o trabalho de experimenta&ccedil;&atilde;o das agricultoras que valorizam novas variedades oriundas de sementes e a intensa circula&ccedil;&atilde;o de plantas cultivadas, entre as agricultoras vizinhas e parentes, favorece a manuten&ccedil;&atilde;o de uma alta diversidade de variedades, assegurando a seguran&ccedil;a alimentar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SISTEMA AGR&Iacute;COLA TRADICIONAL DOS QUILOMBOLAS DO VALE DO RIBEIRA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Sistema Agr&iacute;cola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira (SATQ) foi reconhecido em 2018, pelo Iphan, como patrim&ocirc;nio cultural do Brasil. Esse sistema &eacute; desenvolvido pelas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudoeste do estado de S&atilde;o Paulo &#91;11&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos territ&oacute;rios quilombolas do Vale do Ribeira existem formas de manejar a floresta cujo objetivo central &eacute; prover alimentos e, para tanto, essas popula&ccedil;&otilde;es mobilizam conhecimentos extremamente complexos e relacionados em torno da ro&ccedil;a tradicional. O trabalho agr&iacute;cola abrange o cultivo nas ro&ccedil;as de coivara itinerantes, a diversidade de plantas manejadas, o preparo dos alimentos, a cultura material associada, os arranjos produtivos locais, as redes de comercializa&ccedil;&atilde;o e os contextos de transmiss&atilde;o de conhecimento e de consumo alimentar que envolvem express&otilde;es de m&uacute;sica e dan&ccedil;a &#91;12&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ro&ccedil;a conhecida na literatura por itinerante, tamb&eacute;m chamada de toco e coivara, &eacute; um sistema milenar praticado pelos povos origin&aacute;rios das Am&eacute;ricas, tamb&eacute;m encontrada em outros continentes, como o africano. De uma forma resumida, consiste em escolher uma &aacute;rea de mata adequada para o plantio de determinada cultura, cortar a floresta, queimar com t&eacute;cnica de aceiro, plantar, colher e cultivar essa &aacute;rea por cerca de tr&ecirc;s a quatro anos, abandonar para regenera&ccedil;&atilde;o natural e seguir para outra &aacute;rea. Podemos dizer que &eacute; um manejo das capoeiras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O SATQ articula &aacute;reas de ro&ccedil;as individuais e coletivas, quintais e manejo de &aacute;reas florestadas e agroflorestadas. As ro&ccedil;as est&atilde;o ligadas &agrave;s express&otilde;es do catolicismo popular que caracteriza a vida religiosa das comunidades &#91;13&#93;. Os alimentos cultivados fornecem a base da alimenta&ccedil;&atilde;o servida nas celebra&ccedil;&otilde;es e a motiva&ccedil;&atilde;o de algumas festas s&atilde;o promessas que pedem bons resultados agr&iacute;colas promovendo atitudes rituais com as planta&ccedil;&otilde;es e criando uma dimens&atilde;o sagrada com a ro&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; tamb&eacute;m uma converg&ecirc;ncia entre os calend&aacute;rios festivo e agr&iacute;cola, que se refere &agrave; no&ccedil;&atilde;o de tempo ampliado e ciclicamente cont&iacute;nuo. Todos os anos o ciclo se completa e se reinicia continuamente, assim como os cultivos, feitos no presente para a colheita futura, garantindo as sementes e mudas para que um novo ciclo de plantio-colheita possa acontecer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As comunidades quilombolas detentoras do SATQ historicamente participaram de circuitos comerciais no Vale do Ribeira e s&atilde;o reconhecidas na regi&atilde;o como detentoras de significativa agrobiodiversidade. Com a cria&ccedil;&atilde;o da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), os quilombolas deram um passo importante para a constru&ccedil;&atilde;o da autonomia na comercializa&ccedil;&atilde;o dos alimentos dessas comunidades, organizando e coordenando o aumento do volume vendido, a melhoria do pre&ccedil;o pago e a maior regularidade na venda e pagamento. As consequ&ecirc;ncias desse processo de valoriza&ccedil;&atilde;o da agrobiodiversidade dessas comunidades foram o reconhecimento de cultivos diversos, fazendo frente &agrave; monocultura, e no respeito &agrave;s sazonalidades dos alimentos gerando recursos financeiros fundamentais para a composi&ccedil;&atilde;o da renda dos quilombolas, apesar das transforma&ccedil;&otilde;es por que passa a regi&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TERRA DO MEIO: AS COLOCA&Ccedil;&Otilde;ES, O SISTEMA DOS BEIRADEIROS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O termo <i>coloca&ccedil;&atilde;o</i> remete para a forma como se deu a abertura de seringais em boa parte da Amaz&ocirc;nia e, de maneira mais intensa, justo nos per&iacute;odos de auge dos pre&ccedil;os da borracha nativa da Amaz&ocirc;nia nos mercados internacionais. O primeiro per&iacute;odo se situa entre o final do s&eacute;culo XIX e a primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XX; e o segundo, com forte incentivo e participa&ccedil;&atilde;o do estado nacional, durante o per&iacute;odo da Segunda Guerra Mundial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os trabalhadores trazidos do Nordeste nessas duas oportunidades eram em sua maioria homens solteiros e provenientes de regi&otilde;es do semi&aacute;rido. Quando chegavam, os migrantes eram colocados<i>,</i> sozinhos ou em dupla, em postos de trabalho denominados por isso mesmo <i>coloca&ccedil;&otilde;es</i>. A <i>coloca&ccedil;&atilde;o</i> correspondia desse modo a um territ&oacute;rio que, a partir da margem do rio ou de um afluente, prolongava-se para o interior, comportando de duas a tr&ecirc;s <i>estradas de seringa. </i>As <i>estradas de seringa </i>eram trilhas na floresta que interligavam entre 150 e 200 seringueiras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ocorre que ao longo dos anos de vida na floresta, e de rela&ccedil;&atilde;o com ela e seus seres, o que era inicialmente um posto de trabalho isolado se constituiu em territ&oacute;rio. Com o tempo, os seringueiros constitu&iacute;ram fam&iacute;lia (muitas vezes com mulheres ind&iacute;genas capturadas nos embates iniciais com os povos ind&iacute;genas pelo territ&oacute;rio), aprenderam na rela&ccedil;&atilde;o com a floresta a <i>botar </i>ro&ccedil;a, a ca&ccedil;ar e pescar no ambiente da floresta. O estranhamento inicial se converteu em modo de vida e os descendentes dos migrantes em <i>beiradeiros</i>. As coloca&ccedil;&otilde;es s&atilde;o at&eacute; hoje a unidade territorial b&aacute;sica do povo beiradeiro e o seu funcionamento como sistema a base de seu modo de vida e cultura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma coloca&ccedil;&atilde;o, que corresponde a uma localidade beiradeira atual, &eacute; a unidade territorial de uma fam&iacute;lia ou de uma fam&iacute;lia ampliada (com pais e filhos e/ou filhas casadas). Ela compreende a casa de morada, o terreiro, a casa de farinha, ro&ccedil;as, capoeiras, piques de castanha, estradas de seringa, trilhas de ca&ccedil;a e de extrativismo vegetal, ref&uacute;gios de ca&ccedil;a, pontos de pesca, porto e outros elementos. Dessa maneira, sua amplitude n&atilde;o &eacute; dada pela ideia de uma &aacute;rea poligonal com limites definidos, mas sim por um conjunto de trilhas na floresta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse sistema das coloca&ccedil;&otilde;es gerou uma forma muito pr&oacute;pria de organiza&ccedil;&atilde;o espacial do povo beiradeiro, caracterizada pela baixa densidade populacional e distribui&ccedil;&atilde;o das coloca&ccedil;&otilde;es afastadas e relativamente isoladas umas das outras por grandes extens&otilde;es de floresta, resultando em um sistema de baix&iacute;ssimo impacto, altamente resiliente, marcado pelo conhecimento e uso de uma diversidade de paisagens florestais, com pouqu&iacute;ssima &aacute;rea desmatada por fam&iacute;lia (terreiros e ro&ccedil;as).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sistema das coloca&ccedil;&otilde;es dos beiradeiros da Terra do Meio garantiu que os descendentes dos migrantes nordestinos n&atilde;o dependessem tanto do patr&atilde;o e de suas mercadorias para sua subsist&ecirc;ncia e qualidade de vida. Garante na atualidade que os beiradeiros possuam uma diversidade de produtos da floresta para a comercializa&ccedil;&atilde;o sem que para isso a floresta precise ser derrubada. Esse sistema demonstra, sobretudo, que &eacute; poss&iacute;vel estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o e um modo de vida baseado na floresta em p&eacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os beiradeiros da Terra do Meio, hoje com a parceria de ind&iacute;genas da mesma regi&atilde;o, se organizaram em uma rede de produ&ccedil;&atilde;o e comercializa&ccedil;&atilde;o de produtos da floresta oriundos do sistema de coloca&ccedil;&otilde;es e dos modos de produ&ccedil;&atilde;o dos diferentes povos ind&iacute;genas. Um dos desafios enfrentados por beiradeiros e ind&iacute;genas nesse movimento &eacute; o reconhecimento por parte da sociedade envolvente e do mercado dos valores associados aos modos de vida e sistema locais de produ&ccedil;&atilde;o que s&atilde;o inerentes aos seus produtos florestais n&atilde;o madeireiros. Nesse sentido, o reconhecimento p&uacute;blico e pol&iacute;ticas de salvaguarda do sistema tradicional das coloca&ccedil;&otilde;es como um dos sistemas de produ&ccedil;&atilde;o humano  - , que a partir de um territ&oacute;rio espec&iacute;fico agregam ao planeta diversidade cultural, manuten&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o de agrobiodiversidade, manejo de diferentes paisagens florestais, contribui&ccedil;&atilde;o para a seguran&ccedil;a alimentar e enfrentamento das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas  -  &eacute; fundamental para a manuten&ccedil;&atilde;o no tempo desse sistema.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TERRIT&Oacute;RIO IND&Iacute;GENA DO XINGU</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A regi&atilde;o das cabeceiras dos rios Xingu e Araguaia, no Mato Grosso, &eacute; mundialmente reconhecida pela extraordin&aacute;ria diversidade de esp&eacute;cies, paisagens e processos biol&oacute;gicos que ocorrem nessas &aacute;reas onde os biomas Cerrado e Amaz&ocirc;nia se misturam, intrinsecamente ligada a uma sociodiversidade peculiar. Aqui o papel das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas para a estrutura e composi&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia &#91;14, 15&#93; &eacute; not&aacute;vel. A fertilidade e composi&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica nas terras pretas de &iacute;ndio &#91;16&#93; e a import&acirc;ncia da ocupa&ccedil;&atilde;o humana e do fogo no Cerrado &#91;17&#93; s&atilde;o exemplos j&aacute; consagrados de como as rela&ccedil;&otilde;es entre os humanos, as esp&eacute;cies vegetais e o ambiente podem gerar diversidade e moldar ecossistemas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, a coloniza&ccedil;&atilde;o pela sociedade nacional, a partir da introdu&ccedil;&atilde;o da pecu&aacute;ria intensiva e da agricultura industrial desde meados do s&eacute;culo XX, alterou drasticamente o modo de ocupa&ccedil;&atilde;o e o modelo hegem&ocirc;nico de rela&ccedil;&otilde;es nesses territ&oacute;rios. Assim, grande parte das rela&ccedil;&otilde;es milenares que as sementes nativas engendraram foi rompida. Neste sentido, o desmatamento alterou bruscamente o fluxo do ciclo reprodutivo das esp&eacute;cies vegetais: elimina&ccedil;&atilde;o das matrizes fontes das sementes, fragmenta&ccedil;&atilde;o e interrup&ccedil;&atilde;o da dispers&atilde;o populacional e comprometimento da viabilidade do solo para o estabelecimento de novos indiv&iacute;duos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Territ&oacute;rio Ind&iacute;gena do Xingu (TIX) &#91;18&#93;, as pr&aacute;ticas agr&iacute;colas se fundamentam em uma rela&ccedil;&atilde;o profunda com o ambiente que, mesmo dentro do territ&oacute;rio, &eacute; bastante heterog&ecirc;neo. Localizado numa zona de transi&ccedil;&atilde;o, ao norte, a vegeta&ccedil;&atilde;o &eacute; amaz&ocirc;nica de baixo porte; ao sul, a marca forte do Cerrado se apresenta na vegeta&ccedil;&atilde;o campestre e nos campos de murundu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na busca por manchas de terras pretas, esses povos que ocupam a regi&atilde;o norte do TIX caminham pela floresta, abrindo clareiras na paisagem florestal para cultivar seus produtos. Escolher onde abrir clareiras &eacute; um processo que requer o conhecimento &iacute;ntimo da floresta, com refinado sistema de classifica&ccedil;&atilde;o das paisagens, de reconhecimento e descri&ccedil;&atilde;o de tipos de cobertura vegetal e caracter&iacute;sticas de solo. Al&eacute;m disso, h&aacute; anos as capoeiras de terra preta v&ecirc;m sendo manejadas por esses povos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; diferen&ccedil;as entre as aldeias, as formas de fazer ro&ccedil;a e de manejar o fogo entre os habitantes do norte e do sul do TIX, o que se nota, por&eacute;m, &eacute; que t&eacute;cnicas que eram precisas perdem sua efici&ecirc;ncia diante das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e da din&acirc;mica da floresta alterada pela destrui&ccedil;&atilde;o que circunda o territ&oacute;rio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cada um dos 16 povos que habitam o TIX, institui uma rela&ccedil;&atilde;o bastante singular com o ambiente que habita, expressa nos in&uacute;meros mitos da cultura oral desses povos, com destaque para os mitos de origem.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SATS E AS MUDAN&Ccedil;AS CLIM&Aacute;TICAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; muitas interfaces entre os SATs e as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas. Os sistemas produtivos com mais diversidade resistem melhor &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, al&eacute;m disso, eles colaboram na redu&ccedil;&atilde;o do impacto que muito da agricultura e da pecu&aacute;ria exercem sobre a din&acirc;mica do clima.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A agropecu&aacute;ria &eacute; respons&aacute;vel por uma parcela significativa das emiss&otilde;es de gases de efeito estufa. &Agrave; medida que tais emiss&otilde;es acontecem e o clima se transforma, a agricultura convencional &eacute; cada vez mais impactada. Em &acirc;mbito planet&aacute;rio, a FAO &#91;19&#93; estimou que a contribui&ccedil;&atilde;o da agricultura, silvicultura e outras mudan&ccedil;as de uso da terra s&atilde;o respons&aacute;veis por cerca de 21% no total das emiss&otilde;es globais de gases de efeito estufa. A agricultura convencional, derivada da chamada revolu&ccedil;&atilde;o verde, aumentou a produ&ccedil;&atilde;o, mas a um gigantesco custo social, cultural e ecol&oacute;gico, traduzido em polui&ccedil;&atilde;o ambiental; perda de biodiversidade; mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas; degrada&ccedil;&atilde;o dos solos; eros&atilde;o da agrobiodiversidade, dos conhecimentos associados a ela e dos modos de vida dos detentores desses saberes; e decl&iacute;nio da sa&uacute;de humana e da qualidade de vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; muitos dados mostrando que a resili&ecirc;ncia para eventos extremos clim&aacute;ticos est&aacute; relacionada com a diversidade presente nos sistemas produtivos. Assim, numa perspectiva global, os SATs contribuem para combater os efeitos da crise clim&aacute;tica e, em especial, a perda acelerada de biodiversidade. Segundo o &uacute;ltimo relat&oacute;rio da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Servi&ccedil;os Ecossist&ecirc;micos (IPBES na sigla em ingl&ecirc;s), 25% das esp&eacute;cies animais e vegetais do planeta est&atilde;o sob risco de extin&ccedil;&atilde;o &#91;20&#93;  -  o que corresponde a cerca de um milh&atilde;o de tipos de animais e plantas. Essa perda decorre principalmente dos modelos econ&ocirc;micos predominantes, que seguem incentivando sistemas convencionais de plantio e cria&ccedil;&atilde;o com cada vez menos esp&eacute;cies para a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, colocando em risco a seguran&ccedil;a alimentar em um mundo cada vez mais quente, minando paisagens diversas e os conhecimentos associados &agrave;s esp&eacute;cies.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A FAO tem sinalizado que considera os sistemas agr&iacute;colas tradicionais como parte da solu&ccedil;&atilde;o para garantir a seguran&ccedil;a alimentar diante da crise clim&aacute;tica. A ag&ecirc;ncia &eacute; a respons&aacute;vel pelo Tratado de Recursos Fitogen&eacute;ticos para Alimenta&ccedil;&atilde;o e Agricultura (Tirfaa), que versa sobre a conserva&ccedil;&atilde;o e o uso sustent&aacute;vel desses recursos e reconhece o papel passado, presente e futuro dos agricultores tradicionais na gera&ccedil;&atilde;o de inova&ccedil;&atilde;o em agricultura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A agricultura &eacute; uma das atividades humanas que vem sendo e ser&aacute; mais impactada pela mudan&ccedil;a clim&aacute;tica. Nos &uacute;ltimos anos, os impactos da crise clim&aacute;tica se tornaram a maior amea&ccedil;a &agrave; seguran&ccedil;a alimentar &#91;21, 22&#93;. H&aacute; um conjunto de respostas a essa situa&ccedil;&atilde;o conhecido como agricultura climaticamente inteligente, que tem como objetivo aumentar a produ&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel de alimentos, adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica, resili&ecirc;ncia e redu&ccedil;&atilde;o de gases de efeito estufa. Os sistemas agr&iacute;colas tradicionais s&atilde;o um elemento importante nesse conjunto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A import&acirc;ncia dos SATs para a seguran&ccedil;a alimentar, por&eacute;m, vai muito al&eacute;m da produ&ccedil;&atilde;o de alimentos em si. Sua riqueza est&aacute; na complexidade de intera&ccedil;&otilde;es entre plantas, humanos e outros animais, das quais resultam incrementos de diversidade ao longo do tempo. Essa diversidade &eacute; tanto biol&oacute;gica quanto de conhecimentos associados. Se, por um lado, os SATs geram processos de diversifica&ccedil;&atilde;o de variedades e esp&eacute;cies vegetais, e a cria&ccedil;&atilde;o de ambientes para a vida de diversos animais, por outro, esses processos se constroem e reconstroem a partir do desenvolvimento de conhecimentos associados &agrave; paisagem e &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es decorrentes das formas de manejo. Nos SATs, os sistemas de diversidade culturais e ecol&oacute;gicos coexistem e evoluem em intera&ccedil;&atilde;o. Eles s&atilde;o resultado de saberes altamente especializados transmitidos por gera&ccedil;&otilde;es e que envolvem desde o cultivo da terra, a ecologia das plantas e as t&eacute;cnicas de transforma&ccedil;&atilde;o dos elementos da natureza atrav&eacute;s de processos simb&oacute;licos e produtivos particulares. Essas formas de manejo est&atilde;o associadas a conhecimentos tradicionais que operam a partir de outros sistemas classificat&oacute;rios, levando a resultados distintos e a caminhos inovadores para a solu&ccedil;&atilde;o de problemas ambientais. Esses conhecimentos derivados de SATs e seus detentores foram mobilizados pelo IPBES, por exemplo, para interpretar e buscar solu&ccedil;&otilde;es para a diminui&ccedil;&atilde;o global no n&uacute;mero de polinizadores, situa&ccedil;&atilde;o que agrava a crise alimentar do planeta &#91;23&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; ainda uma outra conex&atilde;o pouco explorada entre os SATs e o combate &agrave; crise clim&aacute;tica: a caracteriza&ccedil;&atilde;o de florestas tropicais manejadas como sistemas agr&iacute;colas tradicionais. Pesquisas arqueol&oacute;gicas e de ecologia hist&oacute;rica t&ecirc;m mostrado que sistemas de manejo de povos e comunidades tradicionais amaz&ocirc;nicos produzem florestas diversas. Que a diversidade de boa parte da Amaz&ocirc;nia resulta do manejo minucioso realizado por ind&iacute;genas ao longo de s&eacute;culos, que envolve a sele&ccedil;&atilde;o de variedades e esp&eacute;cies, e a cria&ccedil;&atilde;o de pequenas perturba&ccedil;&otilde;es nas matas que abrem a possibilidade de diversifica&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies entre por&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas de floresta &#91;24, 25&#93;. Essa pr&aacute;tica segue sendo realizada n&atilde;o apenas por povos ind&iacute;genas, mas tamb&eacute;m por ribeirinhos, quilombolas e outros povos tradicionais contempor&acirc;neos</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A aplica&ccedil;&atilde;o do conceito de SAT para as &aacute;reas manejadas por povos e comunidades tradicionais na Amaz&ocirc;nia nem sempre &eacute; evidente, pois esses sistemas de manejo n&atilde;o resultam necessariamente na domestica&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies utilizadas. O manejo de plantas &uacute;teis associado &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de biodiversidade na Amaz&ocirc;nia opera por l&oacute;gicas que escapam &agrave; domestica&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies. Esse manejo resulta no incremento de plantas &uacute;teis nas proximidades das &aacute;reas habitadas e na hiperdomin&acirc;ncia de determinadas esp&eacute;cies no bioma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse tipo de manejo n&atilde;o necessariamente resulta em domestica&ccedil;&atilde;o, podendo levar a processos que s&atilde;o melhor definidos como familiariza&ccedil;&atilde;o &#91;26&#93;. Os SATs amaz&ocirc;nicos combinam os ro&ccedil;ados, que s&atilde;o &aacute;reas de reprodu&ccedil;&atilde;o de cultivos domesticados e de ciclo curto, com as matas do entorno dos locais habitados, com esp&eacute;cies de ciclos maiores, familiarizadas pela cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os prop&iacute;cios a sua reprodu&ccedil;&atilde;o. Essas esp&eacute;cies vegetais tamb&eacute;m produzem alimentos que atraem animais que fazem parte da dieta. Ou seja, esses SATs amaz&ocirc;nicos, al&eacute;m de produzirem biodiversidade, contribuem para a manuten&ccedil;&atilde;o de grandes estoques de carbono nas esp&eacute;cies vegetais e animais que comp&otilde;em os sistemas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Em 2008, pesquisadores associados ao processo de reconhecimento do Sistema Agr&iacute;cola Tradicional do Rio Negro junto ao Iphan elaboraram da seguinte maneira a defini&ccedil;&atilde;o de sistemas agr&iacute;colas tradicionais: "Por sistema agr&iacute;cola tradicional ou territorializado entendemos o conjunto formado pelas pr&aacute;ticas e saberes de manejo dos espa&ccedil;os e dos recursos biol&oacute;gicos vinculados a uma certa base territorial e a certos grupos culturais, incluindo-se os conceitos e normas, bem como a cultura material e sistema alimentar". Em recente publica&ccedil;&atilde;o sobre os SATs no Brasil, define-se "Sistema Agr&iacute;cola Tradicional (SAT) como um conjunto estruturado, que &eacute; formado por elementos interdependentes: plantas cultivadas e cria&ccedil;&atilde;o de animais, redes sociais, artefatos, sistemas alimentares, saberes, normas, direitos e outras manifesta&ccedil;&otilde;es associadas. Esses elementos envolvem espa&ccedil;os e agroecossistemas manejados, formas de transforma&ccedil;&atilde;o dos produtos agr&iacute;colas e cultura material e imaterial associada, bem como sistemas alimentares locais que interagem e resultam na agricultura, na pecu&aacute;ria e no extrativismo". Ver &#91;4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Sobre domestica&ccedil;&atilde;o e familiariza&ccedil;&atilde;o na Amaz&ocirc;nia, ver &#91;25&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Segundo defini&ccedil;&atilde;o da FAO: "Globally Important Agricultural Heritage Systems" (GIAHS) are outstanding landscapes of aesthetic beauty that combine agricultural biodiversity, resilient ecosystems, and a valuable cultural heritage. Located in specific sites around the world, they sustainably provide multiple goods and services, food, and livelihood security for millions of small-scale farmers. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.fao.org/giahs/en" target="_blank">http://www.fao.org/giahs/en</a>. Acesso em 26 de outubro de 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Eidt, J.S.; Udry, C. (editoras t&eacute;cnicas). (2019) <i>Sistemas Agr&iacute;colas Tradicionais no Brasil. Cole&ccedil;&atilde;o Povos e Comunidades Tradicionais</i>, vol 3. Bras&iacute;lia: Embrapa, 351 p.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Santonieri, L.R. (2015) "Agrobiodiversidade e conserva&ccedil;&atilde;o <i>ex situ</i>: reflex&otilde;es sobre conceitos e pr&aacute;ticas a partir do caso da Embrapa/ Brasil". Unicamp: tese de doutorado.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Adotamos aqui os termos "agricultura do cuidado", derivada da ideia de economia do cuidado em contraste com a "agricultura do despejamento", express&atilde;o derivada da "economia do despejamento", cunhada por Chamayou (2020) para designar uma economia que despeja suas externalidades sobre outros agentes. Por exemplo, as consequ&ecirc;ncias das monoculturas de soja, como desmatamento, contamina&ccedil;&atilde;o de solos e de cursos d'&aacute;gua e perda de diversidade gen&eacute;tica s&atilde;o "despejados" sobre a sociedade e n&atilde;o compensados pelos produtores dessa commodity, nem embutidos em seu pre&ccedil;o. Ver em Chamayou, G. (2020) <i>A sociedade ingovern&aacute;vel  -  Uma genealogia do liberalismo autorit&aacute;rio</i>. S&atilde;o Paulo: Ubu Editora.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Kampot Ikpeng &eacute; cacique da aldeia Moygu, do povo Ikpeng.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Tawaiku Juruna, da aldeia Tuba Tuba, do povo Yudja.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. O <i>Livro de Registro dos Saberes </i>foi criado pelo Iphan para receber os registros de bens imateriais que re&uacute;nem conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades. O Sistema Agr&iacute;cola Tradicional do Rio Negro est&aacute; dispon&iacute;vel em <a href="http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/75" target="_blank">http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/75</a>. Consultado em 21 de janeiro de 2021.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. O rio Negro &eacute; o maior produtor de diversidade de manivas do Brasil  -  e do mundo, j&aacute; que a mandioca &eacute; uma planta de origem brasileira  -  e essa regi&atilde;o se caracteriza tamb&eacute;m por uma alt&iacute;ssima diversidade de outras plantas cultivadas. Em um dos levantamentos, em uma pequena amostra geogr&aacute;fica, com entrevistas e visitas aos ro&ccedil;ados, realizado de 2006 a 2009, foram encontrados 110 tipos de manivas e 329 tipos de outras plantas cultivadas por 28 fam&iacute;lias na sede municipal de Santa Isabel e em duas comunidades vizinhas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Os territ&oacute;rios quilombolas do Sistema Agr&iacute;cola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira est&atilde;o nos munic&iacute;pios de Iguape-SP (quilombo Morro Seco), Canan&eacute;ia-SP (quilombo Mandira), Jacupiranga-SP (quilombo Po&ccedil;a), Eldorado-SP (quilombos Pedro Cubas, Pedro Cubas de Cima, Sapatu, Andr&eacute; Lopes, Ivaporunduva, Galv&atilde;o, Abobral e S&atilde;o Pedro), Iporanga-SP (quilombos Piririca, Nhunguara, Porto Velho, Bombas, Pil&otilde;es, Maria Rosa e Praia Grande) e Ita&oacute;ca-SP (quilombo Cangume). Os quilombos onde o SATQ acontece h&aacute; mais de 400 anos fazem parte do maior e mais importante remanescente de Mata Atl&acirc;ntica do Brasil, reconhecida em 1992 pela Unesco, como Reserva da Biosfera e Patrim&ocirc;nio Natural da Humanidade.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Instituto Socioambiental (ISA). <i>Dossi&ecirc; Sistema Tradicional Agr&iacute;cola dos Quilombolas do Vale do Ribeira</i>. 2017.  Dispon&iacute;vel em <a href="http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossi%C3%AA_relat_1(1).pdf" target="_blank">http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossi%C3%AA_relat_1(1).pdf</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Andrade, A. M.; Tatto, N. <i>Invent&aacute;rio cultural de quilombos do Vale do Ribeira</i>. S&atilde;o Paulo: Instituto Socioambiental, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Levis, C. et al. "Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition". <i>Science </i>355, 925 - 931, 2017.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Ter Steege et al. "Hyperdominance in the Amazonian tree flora". <i>Science 3</i>42: 1243092, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Neves, E. G.; Petersen, J. B.; Bartone, R. N.; Silva, C. D. "Historical and socio-cultural origins of Amazonian Dark Earths". In: J. Lehmann, D. C. Kern, B. Glaser, and W. I. Woods (eds), <i>Amazonian Dark Earths: origin, properties, management</i>. (Berlin: Springer Science and Business Media), 29 - 50, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Melo, A.S.; Justino, F.; Lemos, C.F.; Sediyama, G.; Ribeiro, G. "Suscetibilidade do ambiente a ocorr&ecirc;ncias de queimadas sob condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas atuais e de futuro aquecimento global". <i>Rev. Bras. Meteorol</i>, 26, 401 - 418, 2011.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Territ&oacute;rio Ind&iacute;gena do Xingu (TIX) &eacute; o nome adotado, desde 2017, pelos 16 povos ind&iacute;genas que habitam as cabeceiras e a parte alta do Rio Xingu  -  Aweti, Ikpeng, Kalapalo, Kamaiur&aacute;, Kawaiwet&eacute;, Kis&ecirc;dj&ecirc;, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahuku&aacute;, Naruv&ocirc;tu, Tapayuna, Trumai, Waur&aacute;, Yawalapiti, Yudja  -  para designar a &aacute;rea de 2,8 milh&otilde;es de hectares em que habitam. A &aacute;rea &eacute; composta pelo Parque Ind&iacute;gena do Xingu, criado em 1961, e outras tr&ecirc;s terras ind&iacute;genas cont&iacute;guas, demarcadas a partir da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1998: Wawi, Batovi e Pequizal do Naruv&ocirc;tu. Embora seja um territ&oacute;rio extenso, o TIX &eacute; apenas uma das extremidades do amplo corredor de &aacute;reas protegidas distribu&iacute;das ao longo da bacia do Rio Xingu.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Food and Agricultural Organization FAO. "The State of Food and Agriculture 2016 (SOFA): Climate change, agriculture and food security". Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2016. <a href="http://www.fao.org/3/a-i6030e.pdf" target="_blank">http://www.fao.org/3/a-i6030e.pdf</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. IPBES Global Assessment, 2019. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://ipbes.net/news/Media-Release-Global-Assessment" target="_blank">https://ipbes.net/news/Media-Release-Global-Assessment</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Tripathi A. et al. "Paradigms of climate change impacts on some major food sources of the world: a review on current knowledge and future prospects". <i>Agric Ecosyst Environ</i>, 216: 356-373, 2016.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Islam, M. T.; Nursey-Bray, M. 	"Adaptation to climate change in agriculture in Bangladesh: the role of formal institutions". <i>J Environ Manage</i>, 200: 347-358, 2017.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. Lyver, P.; Perez, E.; Carneiro da Cunha, M.; Rou&eacute;, M. (eds). "Indigenous and local knowledge about pollination and pollinators associated with food production: outcomes from the global dialogue workshop". (Panama 1-5 December 2014). Paris, Unesco, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Clement, C. R. et al. "The domestication of Amazonia before European conquest". <i>Proc. R Soc. B </i>282:20150813, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. Bal&eacute;e, W. "The research program of historical ecology". <i>Annu. Rev. Anthr. </i>35, 75-98, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. Fausto, C.; Neves, E. G. "Was there ever a Neolithic in the Neotropics? Plant familiarization and biodiversity in the Amazon". <i>Antiquity</i>, 92.366: 1604-1618, 2018.    </font></p>     ]]></body>
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<label>3</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Segundo definição da FAO: "Globally Important Agricultural Heritage Systems" (GIAHS) are outstanding landscapes of aesthetic beauty that combine agricultural biodiversity, resilient ecosystems, and a valuable cultural heritage. Located in specific sites around the world, they sustainably provide multiple goods and services, food, and livelihood security for millions of small-scale farmers]]></source>
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