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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O c&eacute;rebro no mundo digital</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ana Maria Haddad Baptista</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v73n1/a12fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Obra: <i>O c&eacute;rebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era</i>    <br>   Autora: Maryanne Wolf     <br>   Tradu&ccedil;&atilde;o: Rodolfo Ilari e Mayumi Ilari    <br>   Editora: Contexto     <br>   Ano de publica&ccedil;&atilde;o: 2019    <br>   P&aacute;ginas: 256</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A obra <i>O c&eacute;rebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era</i> (Editora Contexto, 2019) &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o extremamente significativa para pesquisadores, professores e, na verdade, para todos os p&uacute;blicos, que tenham um interesse m&iacute;nimo sobre quest&otilde;es que envolvam a leitura e seus processos decorrentes. Incluindo-se o universo digital. O livro se divide em nove cartas dirigidas aos leitores, e cada carta mostra um ponto a ser destacado e pensado a respeito do que Maryanne Wolf busca evidenciar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A autora n&atilde;o segue aquele padr&atilde;o, quase piegas, de usar um vocabul&aacute;rio supostamente mais did&aacute;tico. O texto do livro &eacute; forte e firme sem subtrair sua fluidez e sedu&ccedil;&atilde;o. Em suas palavras: "Estas cartas s&atilde;o um convite que fa&ccedil;o para considerar um conjunto improv&aacute;vel de fatos referentes &agrave; leitura e ao c&eacute;rebro leitor, cujas implica&ccedil;&otilde;es v&atilde;o levar a mudan&ccedil;as cognitivas importantes em voc&ecirc;, na pr&oacute;xima gera&ccedil;&atilde;o e possivelmente na nossa esp&eacute;cie" (p.09).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Maryanne Wolf &eacute; uma neurocientista que possui pesquisas importantes que detectam os mecanismos de nosso c&eacute;rebro no ato da leitura em seus mais diversos suportes. A sua forma&ccedil;&atilde;o human&iacute;stica, assim como seu percurso enquanto pesquisadora, se traduzem em uma sensibilidade rar&iacute;ssima. O talento equilibrado com o compromisso de atingir os objetivos propostos na obra. Uma pesquisadora que defende quest&otilde;es de leitura e alfabetiza&ccedil;&atilde;o em diversos pa&iacute;ses do mundo, atualmente &eacute; diretora do Center for Dyslexia, Diverse Learners, and Social Justice na UCLA (Universidade da Calif&oacute;rnia) e professora da Tufts University.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um ponto de destaque da primeira carta &eacute; um alerta fundamentado a respeito do processo de leitura. "Cada m&iacute;dia de leitura favorece certos processos cognitivos em detrimento de outros" (p.16). Eis uma quest&atilde;o instigante. Em outras palavras: a leitura digital em seus mais variados suportes provoca efeitos diferentes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; leitura impressa. Ou seja, em que medida a leitura digital compromete os aspectos cognitivos da humanidade? Ser&aacute;, a autora nos indaga, que a frequ&ecirc;ncia di&aacute;ria de leitura das m&iacute;dias digitais n&atilde;o estaria impedindo os processos cognitivos mais demorados como "o pensamento cr&iacute;tico, a reflex&atilde;o pessoal, a imagina&ccedil;&atilde;o e a empatia da leitura profunda?" (p.17).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, a autora adverte, felizmente, que n&atilde;o &eacute; contra a leitura realizada por meio de <i>tablets</i> e outros suportes digitais. Pelo contr&aacute;rio, tem incentivado tal tipo de leitura. No entanto, busca um caminho vi&aacute;vel para que os leitores consigam ler em qualquer m&iacute;dia, mas que alcancem a profundidade exigida pela leitura do impresso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cabe observar que as cartas, endere&ccedil;adas a n&oacute;s leitores, s&atilde;o atravessadas por poemas e cita&ccedil;&otilde;es de grandes nomes da literatura universal que d&atilde;o ao livro um tom bastante especial. Aquele tom ensa&iacute;stico em que o autor pode, realmente, esbanjar criatividade e inventividade sem qualquer preju&iacute;zo do ponto de vista conceitual. Nessa medida, o livro n&atilde;o somente oferece conceitos importantes, mas uma rica bibliografia, em termos de literatura, para que possamos usufruir. Lembrando, na esteira de Deleuze, de que a literatura, assim como a filosofia e as ci&ecirc;ncias, tamb&eacute;m cria conceitos. A literatura n&atilde;o nasceu para ser citada, apenas, como mera ep&iacute;grafe de ensaios ou registros mais "acad&ecirc;micos". A literatura produz conceitos importantes. Vamos lembrar, inclusive, que Freud, somente para ficarmos com um exemplo, se valeu, veementemente, da literatura para construir seus conceitos mais profundos a respeito da psicologia e da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um aspecto de suma import&acirc;ncia que se pode destacar da segunda carta e que a deixa perplexa n&atilde;o s&atilde;o "as m&uacute;ltiplas fun&ccedil;&otilde;es sofisticadas do c&eacute;rebro, mas a sua capacidade de ir al&eacute;m de suas fun&ccedil;&otilde;es originais (que recebemos como parte de nosso equipamento biol&oacute;gico) - como a vis&atilde;o e a linguagem - para desenvolver capacidades totalmente desconhecidas, como as de ler e de lidar com n&uacute;meros" (p.26). Isto &eacute;, prossegue a autora, o c&eacute;rebro humano possui uma plasticidade incr&iacute;vel que, desta forma, realoca suas fun&ccedil;&otilde;es mais antigas e adquire novas fun&ccedil;&otilde;es que se desdobram. Ou seja: o c&eacute;rebro tem a capacidade, constante, de aprender coisas novas a todo momento. A autora destaca que ler &eacute; um processo que deve ser aprendido. A capacidade de ler n&atilde;o &eacute; inata no homem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na terceira carta o que merece a nossa aten&ccedil;&atilde;o - redobrada - &eacute; a &ecirc;nfase que a autora d&aacute; aos aspectos cognitivos operados pelo c&eacute;rebro humano que conduzem ao pensamento profundo quando estamos lendo. Ou seja, a leitura &eacute; um ato muito mais importante para o pensamento do que se possa imaginar. Existem "camadas cognitivas sob a superf&iacute;cie das palavras que nos convidam a descobrir pensamentos que n&atilde;o podem ser vislumbrados em nenhum outro lugar" (p.53). E justamente neste ponto a pesquisadora norte-americana entra no cerne da quest&atilde;o da obra: em que medida a leitura por meio de <i>tablets</i> e outros meios digitais n&atilde;o estaria subtraindo, em diversos graus, a aten&ccedil;&atilde;o, qualitativa, que a leitura impressa exige?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na terceira carta existe um outro ponto essencial apontado por Maryanne Wolf: somente a leitura profunda, como convoca a impressa, sem os desvios que, muitas vezes a leitura digital provoca, possibilita colocar-se no lugar do outro. Sentir-se mais pr&oacute;ximo das situa&ccedil;&otilde;es existenciais propostas em romances e outros registros textuais. Transportar os leitores para fora de si mesmos. E que ao retornarem se sintam renovados, acrescidos de novas formas de se ler o mundo que os rodeia. Tal dimens&atilde;o indicada pela autora &eacute; o ponto chave para a compreens&atilde;o de um mundo que vai al&eacute;m do nosso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A autora chama tamb&eacute;m a aten&ccedil;&atilde;o para os aspectos mais ligados aos cognitivos. Elucida a import&acirc;ncia dos processos de an&aacute;lise conduzidos pela leitura profunda. Para que o ser humano chegue a hip&oacute;teses e conceitos ele usa "processos cognitivos mais sofisticados que mobilizamos durante a leitura profunda" (p.72).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na quarta carta a autora nos alerta sobre as leituras digitais em todos os n&iacute;veis e graus. Nessa medida, nos coloca a par de estudos bastante recentes que denunciam o quanto somos distra&iacute;dos pelas mais variadas fontes de m&iacute;dia. Com isso a qualidade de nossa aten&ccedil;&atilde;o teve um s&eacute;rio preju&iacute;zo. "Enquanto sociedade, somos continuamente distra&iacute;dos por nosso ambiente, o que nossos circuitos de homin&iacute;deos favorece e incentiva. N&atilde;o vemos ou ouvimos com a mesma qualidade de aten&ccedil;&atilde;o, porque vemos e ouvimos demais, nos acostumamos e pedimos mais" (p.89). Estaria a&iacute; o grande perigo!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quinta carta nos coloca, entre outros pontos, em que medida "os circuitos de leitura ainda n&atilde;o formados no jovem, defrontam-nos com desafios singulares e com um conjunto complexo de quest&otilde;es: em primeiro lugar, os primeiros componentes cognitivos no circuito de leitura que se desenvolverem ser&atilde;o alterados pela m&iacute;dia digital, antes, durante e depois que as crian&ccedil;as aprenderem a ler? Em particular, o que acontecer&aacute; com o desenvolvimento de sua aten&ccedil;&atilde;o, mem&oacute;ria e conhecimento de fundo - processos que sabemos serem afetados nos adultos pelas multitarefas, pela rapidez e pela distra&ccedil;&atilde;o? Em segundo lugar, supondo que sejam afetados, as mudan&ccedil;as ir&atilde;o alterar a configura&ccedil;&atilde;o dos circuitos de leitura experiente resultantes e/ ou a motiva&ccedil;&atilde;o para formar e sustentar capacidades de leitura profunda?" (p.127-128). Neste momento do livro a autora toca num ponto bastante fr&aacute;gil para que possamos pensar numa estrat&eacute;gia de manuten&ccedil;&atilde;o de um equil&iacute;brio entre as diferentes m&iacute;dias, cujos efeitos s&atilde;o negativos, sobre a leitura, todavia, sem perder as contribui&ccedil;&otilde;es de ambas. Um dos maiores desafios propostos pela leitura da obra em refer&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na sexta carta s&atilde;o colocados alguns resultados de pesquisas, efetivas e de diversos continentes do mundo, em que se constatam que a leitura de livros para as crian&ccedil;as &eacute; &uacute;til para a forma&ccedil;&atilde;o do futuro leitor, embora nada possa garantir nada. Na verdade, declara a autora, estamos num momento de transi&ccedil;&atilde;o, ou seja, do impresso para o digital. E n&atilde;o podemos desconsiderar a coexist&ecirc;ncia dos dois registros. Tudo deve ser visto com muito cuidado, apreens&atilde;o e de forma cr&iacute;tica. Maryanne Wolf n&atilde;o deixa de considerar que os diferentes contextos, no caso das crian&ccedil;as e jovens, devem ser analisados severamente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A s&eacute;tima carta traz uma pesquisa quase alarmante em rela&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos. A autora denuncia, de acordo com indicadores nacionais e internacionais, o quanto as crian&ccedil;as americanas est&atilde;o defasadas em seus desempenhos no que se refere a quest&otilde;es de leitura (velocidade e compreens&atilde;o de texto), se comparadas com as crian&ccedil;as de outros pa&iacute;ses ocidentais e orientais. "Mais perturbador ainda, cerca de metade de nossas crian&ccedil;as afro-americanas ou latinas, no quarto ano, n&atilde;o alcan&ccedil;a um n&iacute;vel 'b&aacute;sico' de leitura, muito menos proficiente. Isso significa que n&atilde;o decodificam suficientemente bem para entender o que est&atilde;o lendo, o que vai impactar quase tudo que deveriam aprender em seguida, incluindo a matem&aacute;tica e outros assuntos" (p.177). Sugere, com veem&ecirc;ncia, o quanto as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas norte-americanas deveriam investir muito mais na &aacute;rea educacional. Enfatiza, inclusive, a forma&ccedil;&atilde;o dos professores. E, em especial, investimentos focados nos primeiros anos escolares dos estudantes norte-americanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A oitava carta conduz &agrave; necessidade do futuro circuito de leitura ter como base a compreens&atilde;o dos limites e das diversas possibilidades que o letramento e as bases do digital dever&atilde;o proporcionar. Coloca-nos, tamb&eacute;m, a necessidade, j&aacute; observada h&aacute; d&eacute;cadas, diga-se de passagem, de uma educa&ccedil;&atilde;o que integre, de forma efetiva, diversas &aacute;reas do conhecimento. Nenhuma disciplina, afirma a autora, conseguir&aacute;, isoladamente, proporcionar a abrang&ecirc;ncia de um universo cheio de desafios. Em seguida a autora faz propostas mais efetivas que contemplam um equil&iacute;brio entre o registro digital e o impresso, al&eacute;m de propostas curriculares, nas quais ela acredita, que poderiam atenuar as defici&ecirc;ncias de escolariza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, na nona carta, a autora faz uma bel&iacute;ssima reflex&atilde;o, na esteira de Heidegger, sobre o poss&iacute;vel perigo de uma "ingenuidade tecnol&oacute;gica". Em outras palavras: o perigo de deixarmos de lado o pensamento meditativo visto que os suportes digitais exigem uma velocidade que deixa de lado o aspecto qualitativo de nossas leituras. Na verdade, conclui a autora, entre outras coisas, a leitura profunda exige uma aten&ccedil;&atilde;o que transita entre o meditativo e o contemplativo. Precisamos ficar sempre atentos a posturas equilibradas. N&atilde;o deixar de lado os benef&iacute;cios da leitura digital. Mas, em especial, n&atilde;o ignorarmos que a leitura impressa &eacute; de suma import&acirc;ncia para o pensamento cr&iacute;tico e tamb&eacute;m para a educa&ccedil;&atilde;o de nossas sensibilidades.</font></p>      ]]></body>
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