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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Atr&aacute;s do "art nouveau"</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mariella Augusta</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bacharel em direito, mestre e doutora em literatura brasileira e portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP), possui p&oacute;s-doutorado em teoria liter&aacute;ria pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp). Atualmente desenvolve pesquisa em literatura inglesa (teatro) na FFLCH-USP. Colaborou com a Folha de S. Paulo. Desenvolve trabalhos interart&iacute;sticos em teatros e centro culturais. O conto "Atr&aacute;s do art nouveau" foi reescrito do livro O fio de Cloto (Editora &Iacute;cone, 2004)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atr&aacute;s de minha casa morava uma sombra. Era uma grande casa esparramando-se em janelas por todos os lados, tingida por um branco cuja castidade perdera-se toda na express&atilde;o mortu&aacute;ria do verde e do cinza que o pincel dos dias escorria pelo seu corpo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">L&aacute; fora, diferentes n&iacute;veis surpreendiam perspectivas onde cresciam murtas e ciprestes que, mesmo acanhados pela decad&ecirc;ncia de duas gera&ccedil;&otilde;es, cobriam de frescura solene aquele lugar onde o in&iacute;cio do s&eacute;culo vinte congelara sua compet&ecirc;ncia de ser agrad&aacute;vel; onde qualquer um se abandonaria, esquecido pela urg&ecirc;ncia e pela vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atr&aacute;s dessa casa morava uma sombra. Quando o dia morria nos confins da escurid&atilde;o, ela aparecia. Vinha da fartura das tumbas e do fogo da cruz para atravessar, com seu passo of&iacute;dio, os umbrais dos que em sua vida dormiam. Levando na carne a cor agourenta da noite, andava sem fim, sem trope&ccedil;os, num caminhar atrevido, circense.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todas as noites a esperava a fim de v&ecirc;-la passar e passar e passar. Acreditava que divid&iacute;amos a agonia da noite sem destino, quando ela apenas ia se depositando na minha vida inteira  -  como os abismos que a consci&ecirc;ncia inscreve no corpo  -  inoculando, nos meus nervos, sem querer, o veneno que eu chamaria para sempre de amor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o era com coragem que eu ficava, mas com o risco calculado dos her&oacute;is e dos ego&iacute;stas que querem todas os brinquedos da caixa. Como os vagabundos que moram na rua, arrisqueime naquele pacto insalubre com a noite, j&aacute; nas primeiras horas da vida, quando ainda n&atilde;o existiam os preju&iacute;zos da verdade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ficava pelo fantasma, que vivendo entre chacais e le&otilde;es, na beira do horror, movia-se leve em sua calada peregrina&ccedil;&atilde;o  -  leve como a lua suspensa no c&eacute;u e a infinidade de estrelas pronta para cair.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E se nunca me feriu, tampouco gozamos de qualquer estima. Poderia inventar uma mem&oacute;ria com o calor e as dimens&otilde;es de ent&atilde;o. Mas, como ningu&eacute;m h&aacute; para testemunhar o passado, devo confessar que sua not&aacute;vel presen&ccedil;a apenas desconsiderava a minha intromiss&atilde;o. Eu a admirava e ela era o objeto. Casamento morgan&aacute;tico. Amor verde que eu tencionava sazonado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda posso me lembrar da primeira vez que minha fantasmag&oacute;rica h&oacute;spede se voltou para mim. Protegida pelo compacto <i>art nouveau</i> de minha janela, e pelo choro de minha m&atilde;e assombrando o quarto ao lado, ousei acender a luz. Sem forma, sem susto ou &iacute;mpeto, ela se virou; talvez por simples respeito &agrave;quela que se lhe faltasse n&atilde;o teria vida a minha sombra. N&atilde;o me arrastou em sua ca&ccedil;ada, n&atilde;o transfigurou meu rosto e nem reconheceu a minha cara emotiva. Ainda assim, esbocei um sinal. Iria com ela at&eacute; as profundezas donde se agitara  -  a tola submiss&atilde;o dos que amam. Nunca mais o fiz. Compreendi sua discri&ccedil;&atilde;o. Estava diante de um voo, sem rede, sem pouso, convicto como os justos, mostrando que, ali, solid&atilde;o n&atilde;o equivaleria jamais a sofrimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Noites havia em que sua liberdade a furtava de mim. Em muitas dessas passagens de abandono, ouvi aqueles gritos atormentados, disformes, variados, soltos, verdadeiros. Gritos t&atilde;o agudos que em sua r&aacute;pida travessia cortavam o ar brilhando e doendo. Os mesmos gritos que me levaram at&eacute; a sua m&aacute;scara medieval desaparecida entre os v&atilde;os obsedados por um gozo sem sintomas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mesmo que tivesse algu&eacute;m a quem contar naqueles dias, n&atilde;o poderia  -  tampouco posso agora. Contudo, desde que o tempo me trancou em casa, e foi desenhar nas cinzas as minhas mem&oacute;rias, peguei-me escavando gavetas. E como o homem &eacute; o h&aacute;bito, ainda anoto o estrato, a dureza e o padr&atilde;o da gema, s&oacute; que n&atilde;o me ocupo mais dos ju&iacute;zos, do futuro e da felicidade. Sou agora livre como livres s&atilde;o as crian&ccedil;as com seus s&oacute;is azuis e suas luas negras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foram aquelas noites de vig&iacute;lia que autorizaram o absurdo, tornando toda escolha um enigma, sacudindo a terra sob a metaf&iacute;sica dos meus p&eacute;s com medo de altura. Noites &agrave;s quais sempre volto, buscando reaver o sinais daquela besta que, embora despertasse os medos mais ancestrais, parecia trazer alguma ordem &agrave; casa deixada pelo pai que passeava nos infernos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por mais austera que seja a necessidade, o amor reinventa o tempo - ainda mais aquele que corria no escuro. Portanto, n&atilde;o posso precis&aacute;-lo. Sei que se desprendeu de nossas vidas como dinheiro daquele que deve; que correu para o nada, enquanto estive im&oacute;vel, noite atrav&eacute;s de noite; acorrentada &agrave;quele estranho encontro. An&ecirc;mica, tr&ecirc;mula, sentenciada &agrave; sucumb&ecirc;ncia. Cala-se quando se descobre menor. O amor &eacute; esse entendimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pavorosamente, um dia, exibida ao sol, estava a minha sombra. Os olhos estrangulados, a pele coberta por veste hirsuta, o sangue seco em sua boca arregalada. Materializada pelo toque obsceno da morte. Trazida a meu testemunho, nua, desmascarada. Vendo-a assim, t&atilde;o improv&aacute;vel, compreendi que a melhor maneira de amar era de l&aacute; mesmo, por detr&aacute;s da janela.</font></p>      ]]></body>
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