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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20220009</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sete de Setembro: 200 Anos de Comemorações da Independência. Festas cívicas celebrando a Independência do Brasil tiveram diferentes significados ao longo do tempo]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Sete de Setembro]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Festas Cívicas]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Sete de Setembro: 200 Anos de Comemora&ccedil;&otilde;es da Independ&ecirc;ncia. Festas c&iacute;vicas celebrando a Independ&ecirc;ncia do Brasil tiveram diferentes significados ao longo do tempo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Hendrik Kraay</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Professor de hist&oacute;ria na Universidade de Calgary (Canad&aacute;). Possui doutorado pela Universidade de Texas em 1995 e p&oacute;s-doutorado na Universidade de British Columbia, tendo sido professor visitante estrangeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2004. Seu livro "Days of National Festivity in Rio de Janeiro, Brazil, 1823-1889 ganhou o Warren Dean Prize, conferido pela Conference on Latin American History.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">H&aacute; dois s&eacute;culos, os brasileiros comemoram a Independ&ecirc;ncia no dia 7 de setembro. As formas das comemora&ccedil;&otilde;es, bem como o significado atribu&iacute;do ao dia, n&atilde;o permaneceram inalterados durante esses anos. Sempre foi dif&iacute;cil enquadrar o povo no 7 de setembro, pois o dia comemora o ato de um monarca e sua comemora&ccedil;&atilde;o foi dominada por interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Sete de Setembro, Independ&ecirc;ncia, Festas C&iacute;vicas</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Para a maioria dos brasileiros, os dias nacionais s&atilde;o atualmente feriados, dedicados ao lazer e n&atilde;o ao civismo. As interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia, outorgadas pelo monarca, aceitas por um povo patriota, s&atilde;o cada vez mais contestadas por historiadores empenhados no esfor&ccedil;o de resgatar os projetos populares derrotados durante a constru&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio, um processo nada pac&iacute;fico nem consensual. Mas ainda n&atilde;o se inventou uma forma popular de comemorar o dia da Independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Desde a d&eacute;cada de 1820, festejar o 7 de Setembro foi um ato pol&iacute;tico, atrav&eacute;s da qual se debatia a natureza do Estado e da na&ccedil;&atilde;o. O que significa o Grito do Ipiranga e o regime imperial estabelecido em 1822-24? Desde ent&atilde;o, a tend&ecirc;ncia dominante na comemora&ccedil;&atilde;o do 7 de Setembro refor&ccedil;a interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia ao festejar a atua&ccedil;&atilde;o do primeiro imperador, o que implica marginalizar a participa&ccedil;&atilde;o popular. Tentativas de dar uma interpreta&ccedil;&atilde;o popular a esse ato fundador do Brasil ou de promover festejos e interpreta&ccedil;&otilde;es populares da Independ&ecirc;ncia enfrentaram resist&ecirc;ncia e tiveram relativamente pouco sucesso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>As primeiras comemora&ccedil;&otilde;es: D&eacute;cadas de 1820 e 1830</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Para a maioria dos brasileiros, os dias nacionais s&atilde;o atualmente feriados, dedicados ao lazer e n&atilde;o ao civismo. As interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia, outorgadas pelo monarca, aceitas por um povo patriota, s&atilde;o cada vez mais contestadas por historiadores empenhados no esfor&ccedil;o de resgatar os projetos populares derrotados durante a constru&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio, um processo nada pac&iacute;fico nem consensual. Mas ainda n&atilde;o se inventou uma forma popular de comemorar o dia da Independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a09fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Desde a d&eacute;cada de 1820, festejar o 7 de Setembro foi um ato pol&iacute;tico, atrav&eacute;s da qual se debatia a natureza do Estado e da na&ccedil;&atilde;o. O que significa o Grito do Ipiranga e o regime imperial estabelecido em 1822-24? Desde ent&atilde;o, a tend&ecirc;ncia dominante na comemora&ccedil;&atilde;o do 7 de Setembro refor&ccedil;a interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia ao festejar a atua&ccedil;&atilde;o do primeiro imperador, o que implica marginalizar a participa&ccedil;&atilde;o popular. Tentativas de dar uma interpreta&ccedil;&atilde;o popular a esse ato fundador do Brasil ou de promover festejos e interpreta&ccedil;&otilde;es populares da Independ&ecirc;ncia enfrentaram resist&ecirc;ncia e tiveram relativamente pouco sucesso.<sup>1</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">J&aacute; em 1823, todavia, a Assembleia Constituinte resolveu que o dia 7 de setembro fosse designado feriado nacional. O dia foi festejado com salvas de artilharia, parada militar, missa na capela imperial, cortejo no pal&aacute;cio (com a antiga cerim&ocirc;nia do beija-m&atilde;o), e espet&aacute;culo de gala no teatro. Essa festa c&iacute;vica surpreendeu o embaixador dos Estados Unidos, que ainda considerava a Aclama&ccedil;&atilde;o como a "verdadeira" data da Independ&ecirc;ncia. Nesse mesmo ano, D. Pedro designou o 7 de setembro e o 12 de outubro dias equivalentes de festividade nacional e, em 1826, o parlamento consagrou o 7 de setembro como dia de festividade nacional em comemora&ccedil;&atilde;o da Independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">At&eacute; a abdica&ccedil;&atilde;o do primeiro imperador e sua volta a Portugal em 1831, as duas datas foram festejadas de maneira semelhante na Corte e nas capitais provinciais. Todavia, concentram interpreta&ccedil;&otilde;es diferentes da origem do Imp&eacute;rio. O dia 12 de outubro destacava uma vis&atilde;o conservadora em que o monarca pairava acima da na&ccedil;&atilde;o &agrave; qual concedera a Independ&ecirc;ncia e a constitui&ccedil;&atilde;o. Outros interpretavam o dia 7 de setembro como uma conquista popular. Evaristo Ferreira da Veiga explicou em 1830 que Pedro havia voluntariamente abra&ccedil;ado a causa brasileira, tornando-se "digno de reinar sobre os brasileiros por un&acirc;nime escolha da nossa recente associa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica". Nessa mesma &eacute;poca, um exaltado (liberal radical) chegou a declarar que a Independ&ecirc;ncia era uma conquista "verdadeiramente do povo". Exaltados pernambucanos foram &agrave;s ruas do Recife em 1829 para festejar o dia com uma alegoria &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o e um hino em que juraram sua inten&ccedil;&atilde;o de defender os seus direitos.<sup>2</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Essas tentativas de dar uma interpreta&ccedil;&atilde;o liberal radical e mesmo popular ao 7 de Setembro revelam os grandes debates sobre o significado da pr&oacute;pria Independ&ecirc;ncia que ecoam na hist&oacute;ria brasileira. Todavia, nas d&eacute;cadas de 1820 e 1830, consolidou-se um padr&atilde;o de comemora&ccedil;&atilde;o caracteristicamente imperial em que havia pouco espa&ccedil;o para essas manifesta&ccedil;&otilde;es populares. Atrav&eacute;s do que se qualificava de festas oficiais, governos procuravam se legitimar na Corte e, em escala menor, nas prov&iacute;ncias. O dia come&ccedil;ava com salvas de artilharia &agrave; aurora. De manh&atilde;, cantava-se um <i>te-d&eacute;um</i> na capela imperial ou na matriz da capital provincial. Na Corte, o imperador dava beija-m&atilde;o e, nas prov&iacute;ncias, cortejava-se o retrato imperial. As tropas faziam descargas, e &agrave; noite havia um espet&aacute;culo de gala no teatro (com vivas ao dia, &agrave; monarquia e &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es imperiais), enquanto se iluminavam as fachadas dos edif&iacute;cios p&uacute;blicos, bem como as das casas particulares. &Agrave;s vezes, constru&iacute;am-se monumentos aleg&oacute;ricos ef&ecirc;meros nas pra&ccedil;as e montavam-se espet&aacute;culos de fogos de artif&iacute;cio, ao som de m&uacute;sica, tudo para entreter e edificar o povo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a09fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>Ainda n&atilde;o se inventou uma forma popular de comemorar o dia da Independ&ecirc;ncia.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os jornais publicavam longos artigos de fundo em que analisavam o significado do dia e relacionavam-no &agrave; conjuntura pol&iacute;tica. Em 1838, o <i>Correio Mercantil</i>, de Salvador, saudou a atua&ccedil;&atilde;o do "imortal D. Pedro", cujo "grito da Independ&ecirc;ncia do Brasil (...) ecoou entusiasticamente em todos os cora&ccedil;&otilde;es brasileiros, desde o soberbo Amazonas at&eacute; o rico Prata". Fustigou os "fascinados pela quim&eacute;rica liberdade" republicana e sustentou que a verdadeira liberdade requeria a uni&atilde;o e a obedi&ecirc;ncia ao monarca, uma condena&ccedil;&atilde;o da rec&eacute;m-derrotada revolta liberal, a Sabinada. Essa interpreta&ccedil;&atilde;o conservadora da Independ&ecirc;ncia, atribu&iacute;da &agrave; atua&ccedil;&atilde;o do futuro imperador, que teria dado a liberdade ao seu povo e assegurado a unidade nacional, seria recorrente no discurso imperial e receberia o selo do historiador Francisco Adolfo Varnhagen na d&eacute;cada de 1850.<sup>3</sup> Em 1850, outro peri&oacute;dico baiano, de linha liberal (e ent&atilde;o oposicionista), <i>O S&eacute;culo</i>, lamentou "o desprezo (...) pelas institui&ccedil;&otilde;es &#91;e&#93; as viola&ccedil;&otilde;es das leis da constitui&ccedil;&atilde;o". Sem rejeitar o Imp&eacute;rio, entendia-o como um projeto ainda inacabado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Depois do dia, os peri&oacute;dicos avaliavam os festejos realizados. Para os &oacute;rg&atilde;os oficiais, as festas oficiais eram sempre muito concorridas e os vivas correspondidos entusiasticamente pelo povo, que aflu&iacute;a em massa &agrave; pra&ccedil;a, e pelo p&uacute;blico mais seleto que enchia o teatro. Para os peri&oacute;dicos oposicionistas, tudo corria pelo contr&aacute;rio - pouca concorr&ecirc;ncia, vivas mal correspondidos e povo indiferente. Apesar das avalia&ccedil;&otilde;es diversas das festas realizadas, todo concordavam que o dia devia ser comemorado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Segundo Reinado: Festejando a monarquia</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Atrav&eacute;s dessas comemora&ccedil;&otilde;es, as elites imperiais se aproximavam do poderoso s&iacute;mbolo da monarquia e representavam publicamente sua posi&ccedil;&atilde;o na hierarquia social. Os artigos sobre esses rituais realizados simultaneamente em todo o espa&ccedil;o imperial convidavam os leitores dos jornais a se imaginarem parte de uma comunidade maior, a na&ccedil;&atilde;o brasileira, bem como a participarem das discuss&otilde;es pol&iacute;ticas ventiladas nas p&aacute;ginas dos jornais. Ap&oacute;s presenciar o 7 de setembro de 1858 no Rio de Janeiro e de ler os relatos sobre a comemora&ccedil;&atilde;o do dia nas prov&iacute;ncias, um jornalista franc&ecirc;s concluiu que, "em todos os lugares, festejou-se o 7 de setembro com o mesmo entusiasmo, a mesma unanimidade que no Rio de Janeiro". Outras na&ccedil;&otilde;es teriam inveja do patriotismo brasileiro, acrescentou.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Apesar dessas avalia&ccedil;&otilde;es, a pr&aacute;tica e a ret&oacute;rica do civismo imperial exclu&iacute;am muitos. Tanto os peri&oacute;dicos oposicionistas como os governamentais concordaram que uma festa c&iacute;vica digna de si era um evento ordeiro, dominado pelas "honradas fam&iacute;lias e sociedade". A ilumina&ccedil;&atilde;o noturna das ruas e pra&ccedil;as possibilitava o tr&acirc;nsito de "fam&iacute;lias" nos espa&ccedil;os urbanos transformados para a festa. Cabia &agrave; pol&iacute;cia afastar elementos indesej&aacute;veis; em 1858, as quitandeiras africanas foram retiradas de uma pra&ccedil;a da Corte para a constru&ccedil;&atilde;o de um arco triunfal. Com frequ&ecirc;ncia, os jornais reclamaram da presen&ccedil;a de capoeiras nas ruas durante os festejos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As festas "populares" (isto &eacute;, n&atilde;o organizadas pelo governo) da segunda metade da d&eacute;cada de 1850 na Corte, promovidas pela Sociedade Ipiranga e outras associa&ccedil;&otilde;es patri&oacute;ticas, tamb&eacute;m obedeciam a esse padr&atilde;o. Em 1857 o Rio de Janeiro desfrutou de "tr&ecirc;s noites de ilumina&ccedil;&atilde;o, salvas, gir&acirc;ndolas e foguetes a mais n&atilde;o poder, m&uacute;sicas em coretos e pelas ruas, jantares e reuni&otilde;es patri&oacute;ticas". "Milhares de cidad&atilde;os de todas as classes e posi&ccedil;&otilde;es" se levantaram cedo em 1859 "para saudarem o alvorecer do primeiro dia nacional". A categoria de cidad&atilde;o, embora ampla pelos padr&otilde;es oitocentistas de cidadania, todavia exclu&iacute;a muitos brasileiros, n&atilde;o obstante o uso de s&iacute;mbolos ind&iacute;genas para representar a na&ccedil;&atilde;o (Figura 1) e as tentativas das sociedades patri&oacute;ticas da d&eacute;cada de 1850 de libertar escravos em homenagem ao dia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A presen&ccedil;a - ou aus&ecirc;ncia - do povo, bem como a sua atua&ccedil;&atilde;o, fazia parte importante das descri&ccedil;&otilde;es dos festejos oficiais do 7 de setembro, mas quando ele saiu do seu lugar, era condenado. Em 1848, quando exaltados foram para as ruas em 7 de setembro para disputar as elei&ccedil;&otilde;es municipais no Rio de Janeiro, os jornais conservadores denunciavam os "gritos sinistros de <i>vivas</i> e <i>morras</i> que soltava um magote de povil&eacute;u aluminado por archotes"; peri&oacute;dicos liberais relataram que o povo apenas deu vivas "aos objetos de nossos cultos" e condenaram a pol&iacute;cia que dispersou "os que festejavam com vivas e m&uacute;sica o dia 7 de setembro".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A vis&atilde;o conservadora do 7 de setembro foi imortalizada no bronze da est&aacute;tua equestre de D. Pedro, inaugurado em 1862 na Pra&ccedil;a da Constitui&ccedil;&atilde;o (atual Pra&ccedil;a Tiradentes) no Rio de Janeiro (Figura 2). Ao representar o primeiro imperador no ato de proclamar a Independ&ecirc;ncia e de outorgar a Constitui&ccedil;&atilde;o (epis&oacute;dios separados por 18 meses), o monumento fundido na Fran&ccedil;a destaca a &iacute;ntima conex&atilde;o entre a Independ&ecirc;ncia, a monarquia e o regime constitucional no civismo oitocentista. As figuras ind&iacute;genas, associadas &agrave; natureza, que simbolizavam os grandes rios brasileiros, foram duramente criticados: "Que parte tiveram estes &iacute;ndios e aqueles jacar&eacute;s na Independ&ecirc;ncia", se perguntou um escritor? A est&aacute;tua foi tamb&eacute;m criticada por uma nova gera&ccedil;&atilde;o de liberais. A Independ&ecirc;ncia de um povo n&atilde;o deve ser personificada por um pr&iacute;ncipe oportunista que concedeu a constitui&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s dissolver a Assembleia Constituinte, argumentou Te&oacute;filo Otoni. Sua hist&oacute;ria da Independ&ecirc;ncia come&ccedil;ou com a Inconfid&ecirc;ncia Mineira e a revolu&ccedil;&atilde;o republicana de 1817 em Pernambuco, mas a atua&ccedil;&atilde;o do futuro imperador desviou esse processo do seu curso natural.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a09fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O decl&iacute;nio das sociedades patri&oacute;ticas cariocas no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1860, bem como as longas agruras da Guerra do Paraguai (1864-1870) que, segundo Alexandre Jos&eacute; de Melo Moraes Filho, "liquidou" o patriotismo imperial, abriram o espa&ccedil;o para a Sociedade Comemorativa da Independ&ecirc;ncia do Imp&eacute;rio.<sup>4</sup> Fundada em 1869 por oper&aacute;rios e homens da classe m&eacute;dia baixa da Corte, procurou restaurar o civismo da d&eacute;cada de 1850 ao organizar festas populares em torno da est&aacute;tua equestre. Construiu coretos na Pra&ccedil;a da Constitui&ccedil;&atilde;o e convidou o povo a saudar a aurora do grande dia. No final da d&eacute;cada de 1870, uma "formid&aacute;vel massa humana", se aglomerava anualmente na pra&ccedil;a para esse ato. O monumento, inaugurado com tanta pompa em 1862, n&atilde;o se tornara o foco de comemora&ccedil;&otilde;es oficiais e fora tomado pelo povo carioca que, ao que parece, havia apreendido as li&ccedil;&otilde;es do civismo impl&iacute;citas na comemora&ccedil;&atilde;o do 7 de setembro da d&eacute;cada de 1850. A sociedade foi inicialmente louvada pela imprensa da Corte, mas a partir do final da d&eacute;cada, foi criticada por celebrar a Independ&ecirc;ncia "caricatamente"; sua atua&ccedil;&atilde;o era "cada vez mais grotesca", segundo outro peri&oacute;dico, e <i>O Mequetrefe</i> retratou com desprezo a diversidade racial e a origem social baixa dos que festejavam na pra&ccedil;a em 1885 (Figura 3). Um escritor republicano condenou o "m&iacute;sero povo" que n&atilde;o percebia que a est&aacute;tua era "uma prova do poder e da tirania imperial".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Depois do falecimento do seu presidente em 1886, a Sociedade Comemorativa foi reorganizada sob a chefia de um senador e outros "cidad&atilde;os de elevada posi&ccedil;&atilde;o social" que pretendiam "fazer revigorar - se n&atilde;o nascer - o amor &agrave; p&aacute;tria". Eles n&atilde;o aceitavam o patriotismo popular representado pelos milhares de populares que costumavam festejar a Independ&ecirc;ncia em torno da est&aacute;tua equestre. Organizaram desfiles escolares para tornar os "futuros cidad&atilde;os (...) mais aptos para a vida social" e ensin&aacute;-los que "em todos os atos da vida, mister se faz a ordem".</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>Em rea&ccedil;&atilde;o &agrave; grande conquista popular da aboli&ccedil;&atilde;o e &agrave; popularidade da monarquia, refor&ccedil;avam-se interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia e do 7 de setembro.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Na mesma &eacute;poca, em Floren&ccedil;a (It&aacute;lia), o pintor Pedro Am&eacute;rico apresentou seu grande quadro ao Imperador que viajava ent&atilde;o pela Europa. Al&eacute;m dos erros hist&oacute;ricos admitidos pelo artista, o quadro inclui apenas uma figura popular, o tropeiro que olha a cena, aparentemente sem compreend&ecirc;-la. Nos &uacute;ltimos anos da monarquia, em rea&ccedil;&atilde;o &agrave; grande conquista popular da Aboli&ccedil;&atilde;o e &agrave; popularidade da monarquia, refor&ccedil;avam-se interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia e do 7 de setembro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Rep&uacute;blica, ditadura... o que comemorar?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Apesar de se considerar um novo regime, a Rep&uacute;blica proclamada em 1889 n&atilde;o pode acabar com todos os s&iacute;mbolos brasileiros consagrados pelo Imp&eacute;rio.<sup>5</sup> Como o hino nacional do Imp&eacute;rio, que n&atilde;o foi substitu&iacute;do pela Rep&uacute;blica, o 7 de setembro sobreviveu os ataques dos cr&iacute;ticos que o julgavam incompat&iacute;vel com o novo regime. Em 1893, Rodrigo Ot&aacute;vio deixou claro a sua simpatia pelo 21 de abril, data da execu&ccedil;&atilde;o de Tiradentes em 1792. O alferes mineiro era um "exemplo proveitoso" dos que trabalhavam pela "independ&ecirc;ncia e liberdade da p&aacute;tria". Uma rep&uacute;blica teria sido o resultado da Independ&ecirc;ncia, n&atilde;o fosse a "ing&ecirc;nua generosidade deste povo" para com D. Pedro. O 7 de setembro de 1822, enfim, n&atilde;o passava de mera separa&ccedil;&atilde;o de Portugal e os anos de 1822 a 1889 foram um "lapso anacr&ocirc;nico na hist&oacute;ria do Brasil".<sup>6</sup> Nesses primeiros anos da Rep&uacute;blica, jacobinos exigiam a remo&ccedil;&atilde;o da est&aacute;tua equestre, a "mentira de bronze", que para eles, maculava a pra&ccedil;a, cujo nome foi mudado para Pra&ccedil;a Tiradentes em homenagem ao inconfidente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nos primeiros anos da Rep&uacute;blica, festejava-se muito pouco o 7 de setembro. O dia era demais identificado com o Imp&eacute;rio, e o novo regime preferia investir na comemora&ccedil;&atilde;o da sua funda&ccedil;&atilde;o em 15 de novembro. Jornalistas saudosos do Imp&eacute;rio lamentavam a aus&ecirc;ncia de festas populares e oficiais no 7 de setembro e, em 1895, Olavo Bilac julgou D. Pedro inteiramente "desmoralizado".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nesse ano, todavia, foi registrado pela primeira vez um desfile militar no 7 de setembro no Rio de Janeiro, ind&iacute;cio de que o novo regime, agora uma rep&uacute;blica civil, pretendia tomar o dia para si. No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, o 7 de setembro reconquistou seu lugar central no civismo brasileiro, mas tomou formas autorit&aacute;rias ou conservadoras. &Agrave; medida que o Imp&eacute;rio passava para a hist&oacute;ria, era mais f&aacute;cil tratar o 7 de setembro como a data da funda&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o, ver a monarquia como parte leg&iacute;tima da hist&oacute;ria nacional e descartar as interpreta&ccedil;&otilde;es radicais impl&iacute;citas na comemora&ccedil;&atilde;o de Tiradentes. Na Bahia, a Liga de Educa&ccedil;&atilde;o C&iacute;vica, fundada em 1903, distribuiu bandeiras nacionais e panfletos explicativos dos feriados nacionais para escolas estaduais, no intuito de criar "cidad&atilde;os honestos, fortes e patriotas". Promoveu desfiles escolares no 7 de setembro, que se enquadravam bem nas formas mais militarizadas e regimentadas de comemorar o dia (Figura 4). A cultura patri&oacute;tica militarizada tamb&eacute;m floresceu em escolas paulistas nas d&eacute;cadas de 1910 e 1920, em que evolu&ccedil;&otilde;es militares e desfiles em dias de festividade nacional faziam parte da educa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica.<sup>7</sup> Em 1921, nada menos de 13.000 soldados fizeram manobras no Rio de Janeiro em homenagem ao dia.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>O centen&aacute;rio da Independ&ecirc;ncia apresentou um Brasil moderno, "civilizado", europeu, pronto a tomar seu lugar entre as grandes na&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o havia espa&ccedil;o para o povo.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O centen&aacute;rio da Independ&ecirc;ncia, comemorada com a Exposi&ccedil;&atilde;o Internacional, aberta ao p&uacute;blico na capital da Rep&uacute;blica em 7 de setembro de 1922, apresentou um Brasil moderno, "civilizado", europeu, pronto a tomar seu lugar entre as grandes na&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o havia espa&ccedil;o para o povo, a n&atilde;o ser visitar a exposi&ccedil;&atilde;o para ser instru&iacute;do no que tinha de mais moderno no mundo.<sup>8</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O Estado Novo - a ditadura de Get&uacute;lio Vargas (1937-1945) - criou a Semana da P&aacute;tria, do Dia do Soldado (25 de agosto, o anivers&aacute;rio do Duque de Caxias) ao 7 de setembro, e militarizou ainda mais a comemora&ccedil;&atilde;o da Independ&ecirc;ncia. Influenciado pelos espet&aacute;culos dos regimes fascistas europeus, o governo Vargas organizou grandes paradas de alunos das escolas p&uacute;blicas durante a Semana da P&aacute;tria e encheu est&aacute;dios de futebol com coros de jovens para entoar hinos patri&oacute;ticos, o canto orfe&ocirc;nico sob a batuta de Heitor Villa-Lobos. Assim, deu-se continuidade &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o do povo em um projeto nacional capitaneado pelo governo. Atrav&eacute;s do r&aacute;dio e do cinema, esses espet&aacute;culos foram divulgados pelo pa&iacute;s.<sup>9</sup> Em Santa Catarina, o canto orfe&ocirc;nico assumiu formas coercitivas quando o governo estadual usou o como meio de assimilar os filhos de imigrantes.<sup>10</sup> Um futuro presidente do Brasil que, quando menino, participou de um espet&aacute;culo da Semana da P&aacute;tria estado-novista, se lembrou da "parada gigantesca em apoio ao governo".<sup>11</sup></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O regime militar (1964-1985) procurou se legitimar ao revigorar a comemora&ccedil;&atilde;o das datas j&aacute; consagradas, como o 7 de setembro. Durante os seus anos mais repressivos, houve o que uma historiadora qualificou de "febre comemorativa" que culminou em 1972, o sesquicenten&aacute;rio da Independ&ecirc;ncia.<sup>12</sup> Nesse ano, o Brasil convenceu o governo portugu&ecirc;s a trasladar o corpo de D. Pedro ao Brasil. Os restos mortais do primeiro imperador chegaram em 21 de abril e foram levados para todos os capitais estaduais at&eacute; serem internados no Ipiranga em 7 de setembro.<sup>13</sup> A essa altura, os desfiles militares do 7 de setembro eram t&atilde;o comuns que o antrop&oacute;logo Roberto DaMatta os identificou em 1976 como um "dos tr&ecirc;s modos b&aacute;sicos por meio dos quais se pode <i>ritualizar</i> no mundo brasileiro", ao lado do carnaval e da prociss&atilde;o religiosa.<sup>14</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Com o fim do regime militar, o patriotismo militarizado perdeu seu significado para muitos, embora permanecesse vivo nos meios militares e conservadores. Como em outros pa&iacute;ses, os dias nacionais s&atilde;o atualmente feriados; nesses dias, os brasileiros preferem frequentar sua praia predileta a assistir a uma solenidade c&iacute;vica. Atualmente, &eacute; dif&iacute;cil imaginar uma forma popular de comemorar a Independ&ecirc;ncia, pois o 7 de Setembro &eacute; t&atilde;o identificado com interpreta&ccedil;&otilde;es conservadoras da Independ&ecirc;ncia. Aos historiadores empenhados no projeto de repensar a Independ&ecirc;ncia e de resgatar os projetos populares marginalizados ou derrotados cabe fundir uma nova compreens&atilde;o do 7 de Setembro que possa ser comemorado de uma maneira popular.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Na Bahia, a Independ&ecirc;ncia do Brasil &eacute; celebrada no dia 2 de julho*</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Diferentemente do que aconteceu do Sul, a Proclama&ccedil;&atilde;o da Independ&ecirc;ncia n&atilde;o produziu efeitos imediatos na Bahia. Ao contr&aacute;rio, a opress&atilde;o dos militares portugueses aumentou sendo preciso lutar para expuls&aacute;-los do pa&iacute;s. Do mesmo modo, o 7 de setembro n&atilde;o possui o mesmo significado para os baianos, que veem o 2 de julho como a verdadeira data de sua independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A data permanece na mem&oacute;ria patri&oacute;tica dos baianos que, desde ent&atilde;o, estabeleceram a tradi&ccedil;&atilde;o de comemor&aacute;-la anualmente, em uma festividade repleta de simbolismo. O primeiro deles &eacute; rito do fogo simb&oacute;lico, que representa a uni&atilde;o dos povos que lutaram pela independ&ecirc;ncia. O fogo &eacute; aceso no dia 30 de junho na Igreja de Nossa Senhora do Ros&aacute;rio, em Cachoeira, no rec&ocirc;ncavo baiano. Ent&atilde;o, uma tocha percorre diversas cidades, sendo passada de m&atilde;o em m&atilde;o por atletas amadores, oficiais do ex&eacute;rcito, atletas profissionais, artistas e l&iacute;deres pol&iacute;ticos com destino &agrave; cidade de Salvador, no bairro de Piraj&aacute;, onde se acende uma pira no dia 1 de julho.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O auge da comemora&ccedil;&atilde;o &eacute; um grande desfile popular que percorre v&aacute;rias ruas hist&oacute;ricas at&eacute; o largo do Campo Grande ou pra&ccedil;a Dois de Julho. Como a festividade tem uma grande conex&atilde;o com as causas populares, ela n&atilde;o poderia deixar de celebrar seus her&oacute;is, quase todos origin&aacute;rios das camadas mais pobres da popula&ccedil;&atilde;o. Eles s&atilde;o celebrados nas figuras simb&oacute;licas do Caboclo e da Cabocla, que representam o ex&eacute;rcito que lutou na guerra formado por soldados regulares e volunt&aacute;rios, brancos pobres, tupinamb&aacute;s, negros libertos e pessoas escravizadas enviadas pelos seus senhores. Por todo o caminho, essas duas figuras simb&oacute;licas recebem dos passantes flores, frutas e bilhetes com pedidos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No dia 2 de julho, o cortejo refaz a passagem do ex&eacute;rcito pelas ruas. O festejo sai do Largo da Lapinha, onde acontece queima de fogos, execu&ccedil;&atilde;o do Hino Nacional e hasteamento da bandeira. Depois, segue at&eacute; o Pal&aacute;cio Rio Branco, parando por v&aacute;rios pontos da cidade e realizando v&aacute;rias homenagens. O retorno acontece por volta das 14h, quando h&aacute; uma Cerim&ocirc;nia C&iacute;vica no 2.º Distrito Naval, no Com&eacute;rcio. Depois, o cortejo segue at&eacute; o Campo Grande, onde h&aacute; o hasteamento das bandeiras, execu&ccedil;&atilde;o do Hino Nacional pelas bandas de m&uacute;sica da Marinha, Ex&eacute;rcito e Aeron&aacute;utica, coloca&ccedil;&atilde;o de Coroas de Flores no Monumento ao 2 de Julho, acendimento da pira do Fogo Simb&oacute;lico e execu&ccedil;&atilde;o do Hino ao 2 de Julho. O dia termina com o Encontro de Filarm&ocirc;nicas vindas de diversas cidades baianas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os carros com as figuras do Caboclo e da Cabocla ficam tr&ecirc;s dias em exposi&ccedil;&atilde;o na pra&ccedil;a do Campo Grande, para contempla&ccedil;&atilde;o e devo&ccedil;&atilde;o popular. O retorno das imagens ocorre dia 5 do mesmo m&ecirc;s com outra grande fanfarra, geralmente &agrave; noite e regido por grandes orquestras, estudantes, m&uacute;sicos, institui&ccedil;&otilde;es, charanga e batucadas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O Cortejo do 2 de Julho foi tombado como bem cultural pelo Instituto do Patrim&ocirc;nio Art&iacute;stico e Cultural da Bahia (IPAC) em 2006. Desde 2013, o 2 de julho integra o calend&aacute;rio das efem&eacute;rides nacionais, gra&ccedil;as a um projeto assinado pela ent&atilde;o presidenta Dilma Rousseff. O intuito da festa &eacute; ser do povo para o povo, relembrando um dos epis&oacute;dios mais importantes da hist&oacute;ria da Bahia - e do Brasil.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">1. A maior parte deste artigo &eacute; um resumo do argumento apresentado em Kraay, H. Days of National Festivity in Rio de Janeiro, Brazil, 1823-1889. Stanford: Stanford University Press, 2013. Alguns trechos desse livro foram publicados em portugu&ecirc;s: Kraay, H. Ritual c&iacute;vico e pol&iacute;tica na rea&ccedil;&atilde;o mon&aacute;rquica: Rio de Janeiro e Salvador, 1837-1841. In Almanack (Guarulhos) 20, pp. 66-84. dezembro de 2018; Kraay, H. Alferes Gamboa e a Sociedade Comemorativa da Independ&ecirc;ncia do Imp&eacute;rio, 1869-1889. In Revista Brasileira de Hist&oacute;ria (S&atilde;o Paulo) 30, no. 61, pp. 15-39. 2011; Kraay, H. A inven&ccedil;&atilde;o do Sete de Setembro, 1822-1831. In Almanack Braziliense (S&atilde;o Paulo) 11, pp. 52-61. maio de 2010; Kraay, H. Na&ccedil;&atilde;o, estado e pol&iacute;tica popular no Rio de Janeiro: festas c&iacute;vicas depois da Independ&ecirc;ncia. In Nacionalismo nas Am&eacute;ricas, Pamplona, M.A.; Doyle, D. (orgs.). Rio de Janeiro: Record, 2008, pp. 329-354; Kraay, H. "Sejamos brasileiros no dia da nossa nacionalidade": comemora&ccedil;&otilde;es da Independ&ecirc;ncia no Rio de Janeiro, 1840-1864. In Topoi (Rio de Janeiro) 14, pp. 9-36. janeiro-junho de 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">2. Santos, L.N.R. Lumin&aacute;rias, m&uacute;sicas e "sentimentos patri&oacute;ticos": festas e pol&iacute;tica no Recife (1817-1848). Tese de Doutorado em Hist&oacute;ria, Universidade Federal Fluminense, 2018, pp. 123-126.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">3. Varnhagen, F.A. Historia geral do Brazil. 2 vols. Rio de Janeiro: E. &amp; H. Laemmert, 1854-1857.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">4. Mello Moraes Filho, A.J. Festas e tradi&ccedil;&otilde;es populares do Brasil. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1946 &#91;1895&#93;, p. 152</font><!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">5. Carvalho, J.M. A forma&ccedil;&atilde;o das almas: o imagin&aacute;rio da Rep&uacute;blica no Brasil. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1990.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">6. Octavio, R. Festas nacionaes: com uma introdu&ccedil;&atilde;o de Raul Pompeia. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1893.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">7. Bittencourt, C.M.F. As "tradi&ccedil;&otilde;es nacionais" e o ritual das festas c&iacute;vicas. In O ensino da hist&oacute;ria e a cria&ccedil;&atilde;o do fato. Jaime Pinsky (org.). S&atilde;o Paulo: Contexto, 1988, pp. 43-72.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">8. Motta, M.S. A na&ccedil;&atilde;o faz 100 anos: a quest&atilde;o nacional no centen&aacute;rio da Independ&ecirc;ncia. Rio de Janeiro: Ed. da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas, 1992.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">9. Parada, M. Educando corpos e criando a na&ccedil;&atilde;o: cerim&ocirc;nias c&iacute;vicas e pr&aacute;ticas disciplinares no Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">10. Unglaub, T.R.R. A pr&aacute;tica do canto orfe&oacute;nico e cerim&ocirc;nias c&iacute;vicas na consolida&ccedil;&atilde;o de um nacionalismo ufanista em terras catarinenses. In Revista Linhas 10, no. 1, pp. 105-127. janeiro a junho de 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">11. Cardoso, F.H. com Winter, B. The Accidental President of Brazil: A Memoir. New York: Public Affairs, 2006, p. 39.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">12. Chirio, M. F&ecirc;tes nationales et r&eacute;gime dictatorial au Br&eacute;sil. In: Vingti&egrave;me Si&egrave;cle, 90, p. 97. abril de 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">13. Almeida, T.S.A. O regime militar em festa. Rio de Janeiro: Apicuri, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">14. DaMatta, R. Carnavais, malandros e her&oacute;is: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997 &#91;1976&#93;, p. 45.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">* Reda&ccedil;&atilde;o Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura.</font></p>      ]]></body><back>
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