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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As referências indígenas no Modernismo: do caráter antropofágico à reantropofagia. Todo o repertório indígena vem de fontes indiretas, presença que se dá pela ausência]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>As refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas no Modernismo: do car&aacute;ter antropof&aacute;gico &agrave; reantropofagia. Todo o repert&oacute;rio ind&iacute;gena vem de fontes indiretas, presen&ccedil;a que se d&aacute; pela aus&ecirc;ncia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Adriana Vilar de Menezes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista e divulgadora cient&iacute;fica, editoraadjunta da Revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, e estudiosa da An&aacute;lise de Discurso</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Onde estavam os ind&iacute;genas na Semana de Arte Moderna de 1922? Se por um lado o grande evento modernista em S&atilde;o Paulo foi marcado pela aus&ecirc;ncia de artistas ind&iacute;genas, por outro as refer&ecirc;ncias da cultura dos povos tradicionais estiveram muito presentes no Modernismo, constituindo sua ess&ecirc;ncia antropof&aacute;gica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>O momento alto do Modernismo paulista &eacute; totalmente impens&aacute;vel sem as refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas, sem a percep&ccedil;&atilde;o - para usar uma frase do Manifesto Antrop&oacute;fago - de que &lsquo;j&aacute; t&iacute;nhamos a l&iacute;ngua surrealista&rsquo; (algo que Raul Bopp mobiliza em &lsquo;Cobra Norato&rsquo; e sobre o qual teoriza depois); (o Modernismo) &eacute; impens&aacute;vel sem a percep&ccedil;&atilde;o de que as formas modernas estavam, por assim dizer, &lsquo;aqui&rsquo;</i>", destaca o professor Alexandre Nodari, do Departamento de Literatura e Lingu&iacute;stica e dos Programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Letras e Filosofia da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esta "presen&ccedil;a" dos povos tradicionais, embora significativa, acontece assim de forma indireta - ou seja, sempre por autoria de artistas n&atilde;oind&iacute;genas. Por&eacute;m, mesmo com a aus&ecirc;ncia de artistas ind&iacute;genas na Semana de Arte Moderna de 1922 e com a apropria&ccedil;&atilde;o de elementos de sua cultura por artistas n&atilde;o-ind&iacute;genas, os povos origin&aacute;rios foram important&iacute;ssimos para a est&eacute;tica do Modernismo. Na avalia&ccedil;&atilde;o do artista ind&iacute;gena Denilson Baniwa, os modernistas eram pessoas da elite brasileira que viajavam para Paris e visitavam as fazendas dos seus pais no Brasil, e que num certo momento, para atender a uma demanda externa, se viram em busca de uma identidade, "de um sentido nacionalista ou brasileirista". "<i>Mas isso nasceu na Europa e fez com que os modernistas tivessem uma emerg&ecirc;ncia de se dizerem brasileiros</i>". Nestas circunst&acirc;ncias, diz o artista, "<i>eles esqueceram de fazer isso com cuidado e s&oacute; conseguiram pegar uma parcela da cultura ind&iacute;gena, de uma maneira que o ind&iacute;gena fica caricato</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de a presen&ccedil;a de temas e figuras ind&iacute;genas em 1922 ter sido escassa, sobretudo se comparada ao que seria visto depois, na segunda metade da d&eacute;cada de 20, quando essas refer&ecirc;ncias se tornariam centrais, "<i>no geral, os artistas fizeram, naquele momento, o que era poss&iacute;vel fazer</i>", afirma Eduardo Sterzi, professor de Teoria Liter&aacute;ria no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Teoria e Hist&oacute;ria Liter&aacute;ria da mesma universidade. A leitura que o pesquisador faz &eacute; que os artistas "<i>combinaram uma vis&atilde;o que passava inevitavelmente por certo exotismo, um certo olhar marcadamente de fora (afinal n&atilde;o eram eles mesmos ind&iacute;genas), com uma compreens&atilde;o por vezes especialmente aguda do pensamento ind&iacute;gena. Isto se v&ecirc; exemplarmente em &lsquo;Macuna&iacute;ma&rsquo;, onde a imagina&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica transtorna e transforma a pr&oacute;pria forma do romance, e na Antropofagia oswaldiana, cujo ponto de partida &eacute; um entendimento &iacute;mpar do que estava em quest&atilde;o na antropofagia ritual tupinamb&aacute; - e, nisto, Oswald &eacute; um disc&iacute;pulo direto de (Michel de) Montaigne, com seu ensaio genial sobre os &lsquo;canibais&rsquo;</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem as refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas, portanto, Sterzi acredita que, "<i>em seu conjunto desdobrado no tempo, para al&eacute;m da Semana, o Modernismo brasileiro teria sido muito diferente disto que conhecemos hoje, e certamente muito menos interessante do que &eacute;</i>".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fonte de inspira&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os povos amer&iacute;ndios aparecem no Modernismo por volta de 1927/28, quando h&aacute; uma inflex&atilde;o no movimento modernista paulista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas que inspiraram os modernistas, o professor Alexandre Nodari cita os pr&oacute;prios relatos coloniais, especialmente sobre povos tupis, e o Dicion&aacute;rio Tupi-Guarani do jesu&iacute;ta Antonio Ruiz de Montoya, al&eacute;m das obras de proto-etn&oacute;grafos e compiladores/tradutores de mitos, entre os quais Nodari destaca "O selvagem", de Jos&eacute; Vieira Couto de Magalh&atilde;es, e o livro de Capistrano de Abreu sobre os Kaxinaw&aacute; (hoje autodenominados Huni-Ku&#297;) cujo t&iacute;tulo &eacute; "R&atilde;-txa hu-n&iacute; ku-i, a L&iacute;ngua dos Caxinau&aacute;s do Rio Ibua&ccedil;u, Afluente do Muru", por J. Capistrano de Abreu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; ainda, segundo Nodari, "<i>A Lenda de Jurupari",</i> da regi&atilde;o do Rio Negro, escrita em nheengatu pelo ind&iacute;gena Maximiano Jos&eacute; Roberto e traduzida ao italiano por Ermano Stradelli (os "originais" teriam se perdido); a "<i>Poranduba amazonense"</i>, de Barbosa Rodrigues; e <i>"Lendas em nheengatu e em portugu&ecirc;s"</i>, de Brand&atilde;o de Amorim. "Obra que L&uacute;cia S&aacute; Rebello diz que devemos considerar n&atilde;o uma <i>fonte</i> modernista, mas uma <i>obra</i> ela mesmo modernista", diz o professor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nodari finaliza suas cita&ccedil;&otilde;es de refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas com obras os mitos taurepang e arekuna sobre Makunaim&icirc;, transcritos pelo antrop&oacute;logo alem&atilde;o Theodor Koch-Gr&uuml;nberg a partir dos relatos de Mayulua&iacute;pu e Akuli, que serviram de inspira&ccedil;&atilde;o para M&aacute;rio de Andrade em sua obra "Macuna&iacute;ma", lan&ccedil;ada em 1928 (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n2/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>O que M&aacute;rio de Andrade fez foi pegar este mito e transformar na imagem do que seria o brasileiro. Ele pegou v&aacute;rias partes do mito. Mas foi uma inspira&ccedil;&atilde;o bem errada, porque M&aacute;rio de Andrade n&atilde;o tinha conhecimento dos Macuxi</i>", declara Baniwa. Ele conta que o mito Makunaim&icirc; &eacute; origin&aacute;rio do povo Macuxi, de Roraima, etnia &agrave; qual pertencia o artista Jaider Esbell, que se declarava neto da entidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>Makunaim&icirc; &eacute; como um deus, uma entidade, que existiu no come&ccedil;o do mundo, na cria&ccedil;&atilde;o dos Macuxi. Ele n&atilde;o &eacute; bom nem ruim. N&atilde;o &eacute; uma pessoa cheia de v&iacute;cios e malandragem, como no livro. Mas eu n&atilde;o tenho raiva de M&aacute;rio de Andrade, nem penso que ele &eacute; ladr&atilde;o. Tanto que eu estou servindo ele na minha obra ("ReAntropofagia", 2019), porque acho interessante. Ningu&eacute;m vai comer o que n&atilde;o gosta. Al&eacute;m disso, se n&atilde;o fosse M&aacute;rio de Andrade, n&atilde;o existiria o Iphan (Instituto do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional), t&atilde;o importante para a cultura ind&iacute;gena</i>", diz Baniwa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Resposta ind&iacute;gena</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para o artista, o que houve "<i>foi um atropelamento do tempo das coisas que acabou por desconfigurar estas criaturas transformando mais em um s&iacute;mbolo do movimento, sem que houvesse respeito ao mito. Mas foi importante tudo acontecer para que hoje os artistas ind&iacute;genas pudessem reivindicar estes lugares. Tudo segue um ciclo. O que est&aacute; acontecendo hoje &eacute; uma ReAntropofagia, que &eacute; o nome da minha obra. &Eacute; um retorno a este lugar, para revermos o que foi perdido em 1922</i>", conclui Denilson Baniwa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Baniwa pintou em 2019 o quadro "ReAntropofagia" (2019, t&eacute;cnica mista com base acr&iacute;lica, 100cm x 120cm), que hoje est&aacute; em comodato na Pinacoteca de S&atilde;o Paulo, onde permanecer&aacute; at&eacute; 2023. A tela retrata a cabe&ccedil;a de M&aacute;rio de Andrade cortada dentro de um cesto. "<i>O trabalho em si &eacute; uma cr&iacute;tica ao Modernismo, mas muito mais que uma cr&iacute;tica ele &eacute; uma oferenda, para que os artistas ind&iacute;genas possam devorar, possam se servir. &Eacute; como se eu juntasse o repert&oacute;rio modernista e entregasse aos ind&iacute;genas para que comam e desenvolvam sua arte. &Eacute; sobre antropofagia ap&oacute;s tantos anos de coloniza&ccedil;&atilde;o e sequestro da arte e cultura ind&iacute;genas</i>", explica Baniwa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"O momento alto do Modernismo paulista &eacute; totalmente impens&aacute;vel sem as refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas."</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alexandre Nodari v&ecirc; na obra de Baniwa, "ReAntropoagia", um car&aacute;ter pol&ecirc;mico e agon&iacute;stico, "no bom sentido". "<i>Ele participa junto a manifesta&ccedil;&otilde;es de outros artistas ind&iacute;genas contempor&acirc;neos, como Gustavo Caboco e Jaider Esbell, que recentemente nos deixou, de um gesto eminentemente cr&iacute;tico que consiste, creio, n&atilde;o em colocar Macuna&iacute;ma e a Antropofagia em quest&atilde;o, afinal, Denilson prop&otilde;e a re-antropofagia, mas de recoloc&aacute;-los como quest&atilde;o, o que a monumentaliza&ccedil;&atilde;o do Modernismo na historiografia e nas escolas impedia de fazer</i>", diz o professor. "<i>A pot&ecirc;ncia disso est&aacute; em que se trata de uma resposta ind&iacute;gena a essa monumentaliza&ccedil;&atilde;o, o que muda os termos da quest&atilde;o</i>", conclui.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chances para a eternidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sterzi lembra que Esbell narra uma conversa dele com Makunaim&icirc; sobre o livro de M&aacute;rio de Andrade, em que seu av&ocirc; teria lhe dito: "<i>Meu filho eu me grudei na capa daquele livro. Dizem que fui raptado, que fui lesado, roubado, injusti&ccedil;ado, que fui tra&iacute;do, enganado. Dizem que fui besta. N&atilde;o! Fui eu mesmo que quis ir na capa daquele livro. Fui eu que quis acompanhar aqueles homens. Fui eu que quis ir fazer a nossa hist&oacute;ria. Vi ali todas as chances para a nossa eternidade. Vi ali toda a chance poss&iacute;vel para que um dia voc&ecirc;s pudessem estar aqui junto com todos. Agora voc&ecirc;s est&atilde;o juntos com todos eles e somos de fato uma car&ecirc;ncia de unidade. Vi voc&ecirc;s no futuro. Vi e me lancei. Me lancei dormente, do transe da for&ccedil;a da decis&atilde;o, da cegueira de lucidez, do cora&ccedil;&atilde;o explodido da grande paix&atilde;o. Estive na margem de todas as margens, cheguei onde nunca antes nenhum de n&oacute;s esteve. N&atilde;o estive l&aacute; por acaso. Fui posto l&aacute; para nos trazer at&eacute; aqui</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com isso, o professor Eduardo Sterzi conclui que Jaider Esbell compreendia que "<i>figura&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas como aquela do &lsquo;Macuna&iacute;ma&rsquo;, por mais que comportassem &lsquo;apropria&ccedil;&otilde;es&rsquo;, prepararam o terreno para que os pr&oacute;prios ind&iacute;genas aparecessem, agora, como agentes decisivos do panorama cultural contempor&acirc;neo</i>", conclus&atilde;o esta que se alinha ao que Denilson Baniwa declara sobre o ciclo das coisas e a reantropofagia. O professor Sterzi continua: "<i>E isso n&atilde;o s&oacute; no Brasil. Basta ver a presen&ccedil;a das obras do pr&oacute;prio Jaider Esbell na Bienal de Veneza atualmente em cartaz.</i>" Para o professor, "<i>&lsquo;Macuna&iacute;ma&rsquo; &eacute; uma das mais potentes figura&ccedil;&otilde;es liter&aacute;rias, isto &eacute;, ficcionais, da singularidade do pensamento ind&iacute;gena</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Alexandre Nodari, quando Jaider Esbell afirma que Makunaim&icirc; decidiu colocar seu nome na capa da obra de M&aacute;rio de Andrade, "<i>isso ressitua todo o debate sobre a autoria e a presen&ccedil;a ind&iacute;genas na obra, bem como o que &eacute; uma obra, o que &eacute; a literatura, quais as ag&ecirc;ncias em jogo nela, quem fala e o que fala quando lemos, etc.</i>". Ele acredita que o que se coloca "<i>para n&oacute;s n&atilde;o-ind&iacute;genas</i>" &eacute; o que fazer diante dessa "<i>resposta ind&iacute;gena que ressitua a quest&atilde;o em outros termos</i>". O professor acredita que "<i>n&atilde;o se trata de tentar resolv&ecirc;-la num passe de m&aacute;gica, rejeitando em bloco M&aacute;rio e Oswald de Andrade, num gesto n&atilde;o ausente de autopenit&ecirc;ncia crist&atilde;, misto de culpa e mecanismo compensat&oacute;rio. Acredito que devamos, como diria Donna Haraway, ficar com o problema, ficar com a quest&atilde;o, que, depois da resposta ind&iacute;gena, j&aacute; virou outra, e tentar entender os termos e as consequ&ecirc;ncias dessa altera&ccedil;&atilde;o de perspectiva, o que ela diz sobre n&oacute;s, nossa arte e nossas rela&ccedil;&otilde;es ainda eivadas de colonialidade</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sterzi tamb&eacute;m identifica na obra de M&aacute;rio e Oswald "<i>um salto gigante para al&eacute;m da maioria das obras anteriores com tem&aacute;tica ind&iacute;gena</i>", visto que levaram a s&eacute;rio a singularidade do pensamento amer&iacute;ndio, "<i>que se tratava de uma, digamos sem medo da palavra, filosofia</i>". Segundo o professor, este salto fica evidente sobretudo se suas obras s&atilde;o comparadas &agrave;s obras rom&acirc;nticas, "<i>que transformavam muitas vezes os primeiros habitantes desta terra em avatares de her&oacute;is europeus</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sterzi cita como uma exce&ccedil;&atilde;o anterior ao Modernismo o poema &eacute;pico "<i>O Guesa"</i>, de Joaquim de Sous&acirc;ndrade, "<i>com sua figura&ccedil;&atilde;o protoantropof&aacute;gica de um her&oacute;i ind&iacute;gena dos Andes que perambula pelas Am&eacute;ricas, chegando at&eacute; Nova York, isto &eacute;, at&eacute; o centro do capitalismo financeiro em consolida&ccedil;&atilde;o</i>". Al&eacute;m disso, o pesquisador considera o poema "<i>O trovador</i>", de M&aacute;rio de Andrade, que se encerra com o verso "<i>Sou um tupi tangendo um ala&uacute;de</i>", a refer&ecirc;ncia mais consistente &agrave; tem&aacute;tica ind&iacute;gena, na literatura, na &eacute;poca da Semana de Arte Moderna. Ainda em 1922 ele foi publicado em seu livro "<i>Pauliceia desvairada"</i>. O professor lembra que, apenas alguns anos depois, em 1928, o autor publicou "<i>Macuna&iacute;ma"</i>. Tamb&eacute;m em 1928, foi publicado "Antropofagia", de Oswald de Andrade (<i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>, 1928), mesmo ano em que Tarsila do Amaral apresentou "<i>Abaporu"</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todos estes temas e figuras ind&iacute;genas tornaram-se fundamentais para a defini&ccedil;&atilde;o do Modernismo brasileiro, afirma Sterzi, que menciona ainda a obra de Raul Bopp, "Cobra Norato", de 1931. "<i>Paralelamente, Vicente do Rego Monteiro publicou na Fran&ccedil;a, em 1925, o &aacute;lbum &lsquo;Quelques visages de Paris&rsquo;, uma fic&ccedil;&atilde;o em que tanto os desenhos de lugares caracter&iacute;sticos da capital francesa quanto os poemas que os comentam s&atilde;o atribu&iacute;dos a um chefe ind&iacute;gena deslocado da Amaz&ocirc;nia para l&aacute;</i>", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas tamb&eacute;m ser&atilde;o decisivas na obra musical de Villa-Lobos. "<i>Mas temos de tomar cuidado na data&ccedil;&atilde;o dessa presen&ccedil;a, porque o compositor frequentemente alterava a posteriori as datas de suas obras, de modo a se conferir uma certa presci&ecirc;ncia (por exemplo, quanto &agrave; import&acirc;ncia dos motivos ind&iacute;genas) que, no entanto, &eacute; mais prov&aacute;vel que venha do contato com os demais artistas que trabalharam antes com tais temas</i>", afirma Sterzi.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"As sociedades amer&iacute;ndias n&atilde;o s&atilde;o, como no romantismo, situadas no passado, na origem j&aacute; ultrapassada da Na&ccedil;&atilde;o, mas tratadas no presente, como vivas e, al&eacute;m disso, como exemplos de futuro."</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Debate pol&iacute;tico</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&atilde;o refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas que introduzem os modernistas no debate da elite pol&iacute;tica e intelectual paulista da virada do s&eacute;culo, afirma Alexandre Nodari. Na ocasi&atilde;o, a quest&atilde;o era sobre os Guaian&aacute;s, ind&iacute;genas que habitavam a regi&atilde;o da capital na &eacute;poca da Conquista e que seriam os antepassados "em&eacute;ritos", por assim dizer, dessa elite, pontua o professor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ele explica que a pol&ecirc;mica girava em torno de saber se os Guaian&aacute;s eram povos tupis ou tapuias (n&atilde;o tupi), "<i>o que tinha grandes implica&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas e pol&iacute;ticas, j&aacute; que essa divis&atilde;o (muito mais simb&oacute;lica que real), constru&iacute;da nos tempos coloniais e fortalecida durante o indianismo rom&acirc;ntico do Imp&eacute;rio, visava separar &lsquo;bons&rsquo; selvagens (tupi) e &lsquo;maus&rsquo; selvagens (tapuia), e o debate evidenciava que os Kaingang, que se opunham e resistiam &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da estrada de ferro Noroeste, eram descendentes dos Guaian&aacute;s (ou os pr&oacute;prios), o que dificultava justificar a sua elimina&ccedil;&atilde;o, como defendido explicitamente por Ihering</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas o Modernismo paulista se torna, de fato, uma quest&atilde;o pol&iacute;tica, quando, em 1929, aparece, "<i>em contraponto &agrave; Antropofagia</i>", diz Nodari, o "Manifesto nheenga&ccedil;u verdeamarelo", do grupo modernista &agrave; direita que daria depois no Integralismo. "<i>O manifesto reproduz a separa&ccedil;&atilde;o tupitapuia, e busca situar os &iacute;ndios tupis no passado, como tendo se &lsquo;assimilado&rsquo; voluntariamente. Agora, tudo isso n&atilde;o se d&aacute;, sem sombra de d&uacute;vida, sem conflito e de maneira homog&ecirc;nea</i>", diz o professor.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Modernismo amaz&ocirc;nico</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as obras citadas por Alexandre Nodari que mostram como os artistas modernistas se mobilizaram sobre a quest&atilde;o pol&iacute;tica dos tupi e tapuia, ele destaca o contato e o di&aacute;logo que Raul Bopp travou com &iacute;ndios, ribeirinhos, e intelectuais da Amaz&ocirc;nia durante sua estada na regi&atilde;o. "<i>Se abrirmos o escopo para al&eacute;m do modernismo paulista, e formos analisar a presen&ccedil;a, fontes e refer&ecirc;ncias ind&iacute;genas no modernismo amaz&ocirc;nico, como tem feito Aldrin Figueiredo e Heraldo Galv&atilde;o Jr. sobre o Par&aacute;, por exemplo, ter&iacute;amos um quadro totalmente diferente deste cen&aacute;rio paulista</i>", explica o professor. A primeira diferen&ccedil;a est&aacute; na mobiliza&ccedil;&atilde;o e positiva&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es, mitos e concep&ccedil;&otilde;es de uma multiplicidade de povos ind&iacute;genas. "<i>Isso quebra o &lsquo;tupicentrismo&rsquo; que dominou o indianismo rom&acirc;ntico, devido ao bin&ocirc;mio tupi-tapuia mencionado</i>", conclui.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alexandre Nodari menciona, ainda, uma s&eacute;rie de manifesta&ccedil;&otilde;es sobre quest&otilde;es ind&iacute;genas contempor&acirc;neas (o protesto contra a catequiza&ccedil;&atilde;o de povos amer&iacute;ndios, a defesa do n&atilde;o-contato com povos que se isolaram, etc.) na "Revista de Antropofagia". "<i>As sociedades amer&iacute;ndias n&atilde;o s&atilde;o, como no romantismo, situadas no passado, na origem j&aacute; ultrapassada da Na&ccedil;&atilde;o, mas tratadas no presente, como vivas e, al&eacute;m disso, como exemplos (mas n&atilde;o modelos) de futuro, ou &lsquo;roteiros&rsquo;, como diz o &lsquo;Manifesto Antrop&oacute;fago&rsquo;, que, ademais, colocam em quest&atilde;o a possibilidade de uma identidade &uacute;nica e fechada do pa&iacute;s</i>", finaliza o professor.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leia mais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. NODARI, A.; AMARAL, M. C. A. A quest&atilde;o (ind&iacute;gena) do Manifesto Antrop&oacute;fago. <i>Revista Direito &amp; Pr&aacute;xis,</i> 2018, v. 9, n. 4, p. 2461-2502.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. NODARI, A. A Metamorfologia de Macuna&iacute;ma: Notas Iniciais. <i>Cr&iacute;tica Cultural,</i> 2020, v. 15, n. 1, p. 41-67.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. NODARI, A. A oca de Cl&oacute;vis de Gusm&atilde;o: sobre a p&aacute;gina antrop&oacute;faga na revista O Q A (O que h&aacute;). <i>Revista Landa,</i> 2021, v. 10, n. 1, p. 188-243.</font></p>      ]]></body>
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