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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciência à sombra das árvores: Amazônia acumula conhecimento científico fundamental para o país]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia &agrave; sombra das &aacute;rvores: Amaz&ocirc;nia acumula conhecimento cient&iacute;fico fundamental para o pa&iacute;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Engenheira agr&ocirc;noma, doutora em Ci&ecirc;ncia do Solo, especialista em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, professora titular aposentada da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos, e apaixonada por trabalhar e escrever sobre Ci&ecirc;ncia</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><i>Amaz&ocirc;nia! Amaz&ocirc;nia!</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <i>Quem te ama?</i>    <br> <i>Nas quebradas do sil&ecirc;ncio &minus; capoeira, mato adentro, terras do sem fim - uma cunha violada cava a cava, enterra o Uirapuru baleado por grileiros que com posseiros disputaram a terra, e ouve uma can&ccedil;&atilde;o de consumo em videotape...</i></font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Loureiro (1985) &#91;i&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">H&aacute; s&eacute;culos a Amaz&ocirc;nia faz parte do imagin&aacute;rio de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro e muitas delas s&oacute; a conhecem por filmes, fotografias, novelas e s&eacute;ries televisas. Proliferam as propostas para seu desenvolvimento sustent&aacute;vel, vindas de diferentes institui&ccedil;&otilde;es nacionais e estrangeiras. Cr&ocirc;nicas de descobrimento, relat&oacute;rios de viagens cient&iacute;ficas, obras liter&aacute;rias de cronistas de viagem e de mission&aacute;rios nos s&eacute;culos XVI e XVII apresentavam a Amaz&ocirc;nia como um cen&aacute;rio grandioso e misterioso. Atualmente, a Amaz&ocirc;nia abriga grandes e m&eacute;dias cidades, mais de 180 povos ind&iacute;genas, mais de mil comunidades quilombolas, seringueiros e outras comunidades tradicionais em meio &agrave; floresta e &aacute;reas ilegalmente desmatadas (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a12-fig01.jpg">Figura 1</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Nesse in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, sustentabilidade tornou-se objetivo e meta de in&uacute;meros projetos e produtos. Mudan&ccedil;as no clima, impactos ambientais, pandemia da COVID-19, crescimento de movimentos migrat&oacute;rio e de pol&iacute;ticas de xenofobia t&ecirc;m marcado a hist&oacute;ria mundial recente."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As imagens constru&iacute;das por muitos desses primeiros viajantes ajudaram a compor estere&oacute;tipos a respeito da regi&atilde;o. Nelson Sanjad, pesquisador do Museu Paraense Em&iacute;lio Goeldi (MPEG), aponta que desde o in&iacute;cio da coloniza&ccedil;&atilde;o os agentes da Coroa portuguesa tiveram clara percep&ccedil;&atilde;o da diversidade biol&oacute;gica e cultural da Amaz&ocirc;nia. Cabe destacar que, como nos primeiros s&eacute;culos ap&oacute;s o descobrimento da Am&eacute;rica, os limites n&atilde;o eram claros, parte das pesquisas eram feitas em territ&oacute;rios do bioma Amaz&ocirc;nia no Brasil e em pa&iacute;ses lim&iacute;trofes. Por isso ocorreram expedi&ccedil;&otilde;es longas e complexas para demarcar os limites amaz&ocirc;nicos, a partir de 1753 at&eacute; o in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">H&aacute; muito conhecimento cient&iacute;fico sobre esta floresta &uacute;mida que cobre a maior parte da Bacia Amaz&ocirc;nica da Am&eacute;rica do Sul, da qual 60% de seus 5,5 milh&otilde;es de km<sup>2</sup> se encontram no Brasil &#91;ii&#93;. Os outros 40% se distribuem por sete pa&iacute;ses da Am&eacute;rica do Sul (Bol&iacute;via, Peru, Equador, Col&ocirc;mbia, Venezuela, Guiana e Suriname) e um europeu, a Fran&ccedil;a, que se faz presente por meio do departamento ultramarino Guyane (aqui denominado Guiana Francesa). No s&eacute;culo XIX, v&aacute;rios pesquisadores foram atra&iacute;dos pela Amaz&ocirc;nia e ocorreram v&aacute;rias expedi&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a12-qua01.jpg">Quadro 1</a>). Destaque especial deve ser dado &agrave; cientista alem&atilde; Emilia Snethlage, primeira mulher a ocupar um cargo como pesquisadora em uma institui&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica brasileira, o Museu Paraense (atual Museu Paraense Em&iacute;lio Goeldi), fundado em 1866 (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a12-fig02.jpg">Figura 2</a>). A contribui&ccedil;&atilde;o de colaboradores locais (ind&iacute;genas, ribeirinhos, escravizados, imigrantes...) foi decisiva para as expedi&ccedil;&otilde;es naturalistas (e continua sendo), inclusive do ponto de vista de contribui&ccedil;&otilde;es importantes para o conhecimento cient&iacute;fico &#91;iii&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Sob outra perspectiva, Marilene da Silva Freitas, professora titular da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e coordenadora do Laborat&oacute;rio de Estudos Interdisciplinares das Ci&ecirc;ncias Sociais na Amaz&ocirc;nia do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o Sociedade e Cultura na Amaz&ocirc;nia (PGSCA), afirma: "<i>&eacute; um esc&acirc;ndalo que 65% das fam&iacute;lias amazonenses sofram atualmente com a escassez de alimentos, conforme levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;sticas (IBGE)</i>", problema que tem sido agravado pelas cheias severas registradas nos rios do Amazonas em 2022.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"&Eacute; preciso conceber, construir, pensar coletivamente, criando espa&ccedil;os onde os saberes dessas popula&ccedil;&otilde;es dialoguem em condi&ccedil;&otilde;es de igualdade com o conhecimento cient&iacute;fico, sem que seja considerado subsidi&aacute;rio ou subalterno."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>S&eacute;culo XX at&eacute; hoje - Ci&ecirc;ncia para a Amaz&ocirc;nia desenvolvida na Amaz&ocirc;nia</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Se do s&eacute;culo XVI ao XIX a ci&ecirc;ncia na Amaz&ocirc;nia se pautou pelos estudos de recursos naturais dispon&iacute;veis, na virada do s&eacute;culo XIX para o s&eacute;culo XX o foco passa a ser o desenvolvimento da regi&atilde;o. O ciclo da borracha, que se iniciara em 1880 atraindo milhares de pessoas para a regi&atilde;o, provocou um r&aacute;pido crescimento de cidades como Manaus e Bel&eacute;m, que passaram a contar com energia el&eacute;trica, linhas de bondes el&eacute;tricos, servi&ccedil;os de telefonia, &aacute;gua encanada, sistema de esgoto e ilumina&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Em consequ&ecirc;ncia do <i>boom</i> da economia extrativista do l&aacute;tex, a ci&ecirc;ncia na Amaz&ocirc;nia tamb&eacute;m se desenvolveu. A Escola Livre de Instru&ccedil;&atilde;o Militar do Amazonas, criada em 1908, foi transformada em Escola Universit&aacute;ria Livre de Man&aacute;os, em 1909 &#91;iv&#93;, e depois em Universidade de Manaus, em 1913, para ent&atilde;o ser desativada em 1926.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Como parte de uma proposta pol&iacute;tica de expans&atilde;o demogr&aacute;fica e econ&ocirc;mica, o Presidente Get&uacute;lio Vargas criou a Escola de Engenharia do Par&aacute; (1931), num projeto de industrializa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, e o Instituto Agron&ocirc;mico do Norte (IAN - 1939) &#91;v&#93;, com a fun&ccedil;&atilde;o de impulsionar a agricultura em substitui&ccedil;&atilde;o ao extrativismo da borracha. Destaca-se tamb&eacute;m nesta &eacute;poca a proposta de cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Internacional da Hil&eacute;ia Amaz&ocirc;nica (IIHA), aprovada em 1946 em sess&atilde;o da Confer&ecirc;ncia Geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura (Unesco) em Paris. O IIHA deveria reunir Bol&iacute;via, Peru, Equador, Col&ocirc;mbia, Venezuela, Fran&ccedil;a, Gr&atilde;-Bretanha e Holanda, pa&iacute;ses com interesses imediatos na regi&atilde;o, e foi proposta por Paulo Estev&atilde;o de Berredo Carneiro, cientista e representante brasileiro na Unesco. Ap&oacute;s in&uacute;meras idas e vindas, a Conven&ccedil;&atilde;o Constitutiva do IIHA foi arquivada pela C&acirc;mara dos Deputados em 1951, sem nunca ter sido levada &agrave; vota&ccedil;&atilde;o no plen&aacute;rio &#91;vi&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Ao longo do s&eacute;culo XX, destacam-se tamb&eacute;m a cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz&ocirc;nia (INPA - 1952); e da Superintend&ecirc;ncia da Borracha (Sudhevea - 1967), convertida, em fevereiro de 1989, junto com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) e a Superintend&ecirc;ncia de Pesca (Sudepe), em Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&aacute;veis (Ibama). No in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI h&aacute; ainda a cria&ccedil;&atilde;o da Universidade do Estado do Amazonas (UEA - 2001), da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM - 2002) e do Instituto Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Amazonas (IFAM - 2008).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Cabe destacar a cria&ccedil;&atilde;o em 2009, do Museu da Amaz&ocirc;nia (Musa), que ocupa 100 hectares da Reserva Florestal Adolpho Ducke, do INPA, em Manaus. Bel&eacute;m j&aacute; possu&iacute;a o MPEG desde do s&eacute;culo XIX e, como apontam Velthem e Candotti (2019) na publica&ccedil;&atilde;o comemorando seus 150 anos, atualmente os museus e suas cole&ccedil;&otilde;es devem permitir um necess&aacute;rio ir e vir entre pesquisadores, colecionadores, t&eacute;cnicos e interlocutores. No caso da Amaz&ocirc;nia, povos ind&iacute;genas devem poder acessar o que foi dito, escrito, coletado sobre eles e entre eles iniciativas que visam o desenvolvimento e devem ser parceiros na estrutura&ccedil;&atilde;o e na documenta&ccedil;&atilde;o dos itens de patrim&ocirc;nio que foram musealizados. E essa &eacute; a proposta do Musa, um museu a c&eacute;u aberto, de cultura e mem&oacute;ria popular. Ennio Candotti, diretor do Musa, destaca que museus a c&eacute;u aberto existem desde o final do s&eacute;culo XIX em grandes centros ou distantes deles, principalmente em comunidades ind&iacute;genas, quilombolas, ribeirinhas, de quebradeiras de coco, de pescadores e de pequenos agricultores tradicionais, entre outros. O Brasil abriga v&aacute;rios deles, incluindo o Inhotim, maior museu a c&eacute;u aberto do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Candotti, que foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) por quatro mandatos, aponta que a diferen&ccedil;a do Musa para outros museus a c&eacute;u aberto &eacute; que "<i>as &aacute;rvores da floresta do Musa s&atilde;o originais, est&atilde;o no ecossistema onde se encontram h&aacute; mil&ecirc;nios, contam uma hist&oacute;ria evolutiva de milhares ou milh&otilde;es de anos</i>". Ganhador do Pr&ecirc;mio Kalinga de Populariza&ccedil;&atilde;o da Ci&ecirc;ncia, concedido pela Unesco, e um dos fundadores da <i>International Union of Scientific Communicators</i>, associa&ccedil;&atilde;o com sede em Mumbai, Candotti aponta que um desafio do Musa, e de outros museus <i>in situ</i>, &eacute; contar esta hist&oacute;ria evolutiva (da filogenia) com exemplos ao vivo em seu ecossistema original. Os museus ao ar livre ou jardins bot&acirc;nicos <i>ex-situ</i> em geral apresentam c&oacute;pias, que "imitam" os originais e est&atilde;o localizados em ecossistemas artificialmente adaptados para que cres&ccedil;am: "mas os polinizadores, insetos fungos microrganismos n&atilde;o s&atilde;o originais", salienta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>A Ci&ecirc;ncia na Amaz&ocirc;nia: estrat&eacute;gias antigas, olhares modernos</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nesse in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, sustentabilidade tornou-se objetivo e meta de in&uacute;meros projetos e produtos. Mudan&ccedil;as no clima, impactos ambientais, pandemia da COVID-19, crescimento de movimentos migrat&oacute;rio e de pol&iacute;ticas de xenofobia t&ecirc;m marcado a hist&oacute;ria mundial recente. Alternativas s&atilde;o apontadas e o termo bioeconomia tornou-se obrigat&oacute;rio nas discuss&otilde;es sobre desenvolvimento sustent&aacute;vel. A Amaz&ocirc;nia, considerada a &aacute;rea de maior diversidade no planeta, tornou-se a menina dos olhos de segmentos que incluem o vice-presidente da Rep&uacute;blica General Mour&atilde;o, a Frente Parlamentar da Bioeconomia (que n&atilde;o conta em sua Comiss&atilde;o Executiva com nenhum representante da Amaz&ocirc;nia) e diversos representantes do Agro brasileiro. Nurit Bensusan, ec&oacute;loga e coordenadora do tema Biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA), em entrevista recente ao <i>"O Joio e o Trigo"</i> aponta acertadamente que o termo bioeconomia n&atilde;o &eacute; uma novidade, mas do jeito que as discuss&otilde;es est&atilde;o sendo feitas est&atilde;o sendo ignorados "<i>o trabalho que as popula&ccedil;&otilde;es tradicionais j&aacute; faziam, buscando valoriza&ccedil;&atilde;o dos recursos, e conhecimentos dos territ&oacute;rios onde est&atilde;o</i>" (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a12-fig03.jpg">Figura 3</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Freitas assinala que "<i>a abordagem interdisciplinar de problemas como pobreza, meio ambiente, desenvolvimento, entre outros, permite que a pesquisa na Amaz&ocirc;nia tenha outro foco, e que a Amaz&ocirc;nia n&atilde;o seja apenas um lugar de realiza&ccedil;&atilde;o das pesquisas de pessoas muito bem-intencionadas, claro, mas que n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma inser&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o e nem pretendem ter</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Num esfor&ccedil;o de conciliar conhecimento cient&iacute;fico com valoriza&ccedil;&atilde;o do conhecimento local, in&uacute;meros projetos de desenvolvimento j&aacute; foram - e continuam sendo - propostos. Muitos defendem o uso de tecnologias de ponta para promover o desenvolvimento na regi&atilde;o, alguns envolvem institui&ccedil;&otilde;es da Amaz&ocirc;nia como o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz&ocirc;nia (Imazon) e o INPA. Destaca-se aqui o Programa Terceira via Amaz&ocirc;nica - Amaz&ocirc;nia 4.0, liderado pelo meteorologista Carlos Nobre, com dire&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do bi&oacute;logo Ismael Nobre, al&eacute;m de outros membros do Grupo de Pesquisa Amaz&ocirc;nia em Transforma&ccedil;&atilde;o, do Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados da Universidade de S&atilde;o Paulo (IEA/USP). O Amaz&ocirc;nia 4.0 &eacute; resultado de uma parceria do IEA-USP com o Imazon, com financiamento do Instituto Arapya&uacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Segundo Carlos Nobre, pesquisador colaborador do IEA-USP, o Amaz&ocirc;nia 4.0 visa "<i>trazer inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas da ind&uacute;stria 4.0 para agregar valor aos produtos da biodiversidade da Amaz&ocirc;nia, mas que tem pouqu&iacute;ssima penetra&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e continua at&eacute; hoje nos mercados de produtos alimentares, para as ind&uacute;strias para f&aacute;rmacos, e combinar com conhecimentos ancestrais dos povos ind&iacute;genas e comunidades locais que h&aacute; mil&ecirc;nios vivem com a floresta em p&eacute;, tiram da floresta em p&eacute; todo seu bem-estar social, ambiental, econ&ocirc;mico e  de sa&uacute;de</i>". Nobre destaca o papel dos Laborat&oacute;rios Criativos da Amaz&ocirc;nia cujo objetivo &eacute; "<i>demonstrar na pr&aacute;tica, n&atilde;o s&oacute; na teoria, que &eacute; poss&iacute;vel levar para a Amaz&ocirc;nia modernas tecnologias da ind&uacute;stria 4.0 para agrega&ccedil;&atilde;o de valor aos produtos de v&aacute;rias cadeias de produtos da floresta</i>".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"N&atilde;o faz sentido dizer que vamos repensar a economia da Amaz&ocirc;nia, se ela n&atilde;o for uma nova economia de fato, com o protagonismo dos povos da floresta e n&atilde;o usando esses povos e seus conhecimentos como subs&iacute;dio para economia que preda a ociobiodiversidade."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O primeiro Laborat&oacute;rio ser&aacute; levado para quatro comunidades da Amaz&ocirc;nia que ser&atilde;o capacitadas para o desenvolvimento de ecossistemas de inova&ccedil;&atilde;o, sustentabilidade e neg&oacute;cios sustent&aacute;veis, sendo tr&ecirc;s para a cadeia do cacau e um para a cadeia do cupua&ccedil;u. S&atilde;o iniciativas importantes cujo sucesso depende tamb&eacute;m do di&aacute;logo e da compreens&atilde;o dos anseios das popula&ccedil;&otilde;es locais. Como aponta Bensusan, "&eacute; preciso conceber, construir, pensar coletivamente, criando espa&ccedil;os onde os saberes dessas popula&ccedil;&otilde;es dialoguem em condi&ccedil;&otilde;es de igualdade com o conhecimento cient&iacute;fico, sem que seja considerado subsidi&aacute;rio ou subalterno".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Bensusan, que no momento da elabora&ccedil;&atilde;o desta mat&eacute;ria se encontrava na Reserva Extrativista do Iriri, Altamira (PA), aponta que n&atilde;o faz sentido dizer que vamos repensar a economia da Amaz&ocirc;nia, se ela n&atilde;o for uma nova economia de fato, com o protagonismo dos povos da floresta e n&atilde;o usando esses povos e seus conhecimentos como subs&iacute;dio para economia que preda a ociobiodiversidade, subalterniza essas comunidades e serve apenas aos mesmos de sempre. E acrescenta, "<i>esses povos possuem conhecimento valioso ecol&oacute;gico, que eles usam para manejar as esp&eacute;cies com que trabalham e cuja produ&ccedil;&atilde;o pode ser valorizada, incluindo em seu pre&ccedil;o a manuten&ccedil;&atilde;o da integridade da floresta e de seus servi&ccedil;os ambientais. Al&eacute;m disso, h&aacute; um gigantesco cabedal de conhecimentos que em parcerias equitativas entre comunidades, pesquisadores e empresas, com incentivo e fomento &agrave; pesquisa, poderia gerar inova&ccedil;&atilde;o a partir da biodiversidade amaz&ocirc;nica</i>". Afinal, pensar cientificamente exige uma rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca com a realidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;i&#93; LOUREIRO, J. J. P. <i>Cantares amaz&ocirc;nicos</i>. S&atilde;o Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1985.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;ii&#93; No Brasil, o termo Amaz&ocirc;nia se refere ora &agrave; forma&ccedil;&atilde;o florestal, ora &agrave; regi&atilde;o geogr&aacute;fica, ora ao bioma e ora ao conceito institu&iacute;do pelo governo brasileiro - a Amaz&ocirc;nia Legal - que abrange aproximadamente 5 milh&otilde;es de km<sup>2</sup> de florestas e biomas, incluindo a Floresta Amaz&ocirc;nica brasileira, parte do Pantanal e parte do Cerrado, ocupando 61% do territ&oacute;rio nacional, e se estendendo pelos estados do Acre, Amazonas, Rond&ocirc;nia, Par&aacute;, Mato Grosso, Amap&aacute;, Tocantins e Maranh&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;iii&#93; MOREIRA, I. C. O Escravo do Naturalista. <i>Ci&ecirc;ncia Hoje</i>, v. 31, n. 184, p. 40-48.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;iv&#93; Cabe destacar que embora a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) tenha sido criada em junho de 1962, o Conselho Diretor da Funda&ccedil;&atilde;o UFAM decidiu que a data de comemora&ccedil;&atilde;o da instala&ccedil;&atilde;o da universidade seria a mesma data cria&ccedil;&atilde;o da primeira universidade brasileira, a Escola Universit&aacute;ria Livre de Man&aacute;os. Com isso, a UFAM tem sido considerada a universidade mais antiga do Brasil, antecedendo a Universidade Federal do Paran&aacute;, criada em mar&ccedil;o de 1913.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;v&#93; O IAN realizava experimentos no Par&aacute;, Amazonas, Maranh&atilde;o, Piau&iacute; e nos ent&atilde;o territ&oacute;rios do Amap&aacute;, Rio Branco, Acre e Rond&ocirc;nia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&#91;vi&#93; Detalhes sobre a proposta de cria&ccedil;&atilde;o do IIHA podem ser encontrados em MAGALH&Atilde;ES, R.C.S.; MAIO, M.C. Desenvolvimento, ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica: o debate sobre a cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Internacional da Hil&eacute;ia Amaz&ocirc;nica. <i>Hist&oacute;ria, Ci&ecirc;ncias, Sa&uacute;de - Manguinhos</i>, Rio de Janeiro, v. 14, Supl 1, p. S169-S189, dez. 2007.</font></p>      ]]></body>
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