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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Mulheres na ci&ecirc;ncia brasileira: legados e o caminho para desconstru&ccedil;&atilde;o social</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Priscylla Almeida</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Jornalista e produtora de conte&uacute;do para &aacute;reas de sa&uacute;de e ci&ecirc;ncia, marketing e publicidade. Apaixonada por filmes, gatinhos e pela rotina din&acirc;mica que a comunica&ccedil;&atilde;o traz: o contato com gente, a curiosidade de assuntos diversos, a troca.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O quanto a ci&ecirc;ncia &eacute; essencial? Seu desenvolvimento impacta diretamente na resolu&ccedil;&atilde;o de problemas e na constru&ccedil;&atilde;o social de um pa&iacute;s. Muitos apostam nisso para despertar o interesse nas &aacute;reas de Ci&ecirc;ncias, Tecnologias, Engenharias e Matem&aacute;tica (STEM). Hoje existem cerca de 6,9 milh&otilde;es de cientistas no mundo, segundo o <i>Alper-Doger Scientific Index</i> (ou simplesmente <i>AD Scientific Index</i>) publicado pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos neste ano. Por&eacute;m, deste total, apenas 33% s&atilde;o mulheres, de acordo com o relat&oacute;rio "<i>Women and the Digital Revolution</i>" da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura (Unesco) &#91;1&#93;. No Brasil, elas consistem em 43,7% dos pesquisadores cient&iacute;ficos, segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O fato de n&atilde;o termos muitas mulheres em espa&ccedil;os p&uacute;blicos de poder e de decis&atilde;o, corrobora com essa discrep&acirc;ncia. "<i>Homens em posi&ccedil;&otilde;es hierarquicamente superiores acabam por reproduzir as desigualdades de g&ecirc;nero e dificultam a ascens&atilde;o feminina, independentemente de suas compet&ecirc;ncias e qualifica&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas</i>", alerta Fernanda de Negri, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (IPEA).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Compara&ccedil;&otilde;es e constru&ccedil;&atilde;o social</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Por que as mulheres n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o numerosas em posi&ccedil;&otilde;es de lideran&ccedil;a? De acordo com levantamento realizado pela empresa de auditoria Grand Thorton no in&iacute;cio deste ano, mulheres ocupam 38% dos cargos de lideran&ccedil;a no Brasil. Ou melhor, por que n&atilde;o existe ao menos um equil&iacute;brio na quantidade de homens e mulheres em posto de tomada de decis&atilde;o? H&aacute; um contexto hist&oacute;rico, intr&iacute;nseco e dif&iacute;cil de engolir. "<i>Na minha opini&atilde;o pessoal esse fen&ocirc;meno &eacute; resultado de, at&eacute; pouco tempo atr&aacute;s, a mulher ter sido colocada em uma posi&ccedil;&atilde;o subalterna na sociedade</i>", analisa De Negri. "<i>Nesse contexto, infelizmente, sobrevivem os antagonismos e a falsa ideia de uma superioridade masculina. Corpos, capacidades, habilidades, comportamentos das mulheres s&atilde;o inferiorizados e socialmente representados assim</i>", afirma Carla Cabral, professora da Escola de Ci&ecirc;ncias e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN/ECT) e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ensino de Ci&ecirc;ncias Naturais e Matem&aacute;tica (PPGECNM).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Desafios ao longo da vida</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Viv&ecirc;ncias de mulheres cientistas embasam e aproximam dessa realidade que infelizmente real&ccedil;am os n&uacute;meros. "<i>A minha experi&ecirc;ncia pessoal como estudante vinda de escola p&uacute;blica antes da exist&ecirc;ncia de cotas sociais, mulher na f&iacute;sica e algu&eacute;m que n&atilde;o abriu m&atilde;o de seu desejo de subir na carreira &eacute; um ac&uacute;mulo de preconceitos</i>", comenta Marcia Cristina Bernardes Barbosa, professora do curso de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em F&iacute;sica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), al&eacute;m de membro da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias (ABC) e da Academia Mundial de Ci&ecirc;ncias (TWAS). J&aacute; Cabral descreve: "<i>N&atilde;o s&atilde;o poucos os relatos de alunas e colegas mulheres sobre 'brincadeiras' preconceituosas de professores a desqualificar sua intelig&ecirc;ncia para c&aacute;lculos. Tamb&eacute;m j&aacute; fui discriminada por ser mulher e ser uma mulher cientista</i>".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"H&aacute; mulheres excepcionais que conseguiram vencer este grande obst&aacute;culo de subir em uma carreira desenhada por homens. Por&eacute;m, est&aacute; na hora da ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m ser feita por mulheres n&atilde;o excepcionais, j&aacute; que, homens n&atilde;o t&atilde;o excepcionais conseguem ter carreiras cient&iacute;ficas h&aacute; s&eacute;culos."</b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os desafios enfrentados por pesquisadoras sobressaem em uma vida profissional, tendo de mostrar compet&ecirc;ncia a mais para comprovar determinada posi&ccedil;&atilde;o sob influ&ecirc;ncias biol&oacute;gicas e sociais. "<i>Mais trabalho, mais intelig&ecirc;ncia, mais determina&ccedil;&atilde;o, sacrificar outras dimens&otilde;es da vida. Assumir, por vezes, posturas sem emo&ccedil;&atilde;o ou afeto</i>", analisa Cabral. N&atilde;o &eacute; incomum que haja a expectativa de poss&iacute;veis falhas em carreiras constru&iacute;das sob moldes masculinos, como em &aacute;reas de STEM. "<i>Compet&ecirc;ncia no &acirc;mbito acad&ecirc;mico na vis&atilde;o dos avaliadores requer continuidade, agressividade e assertividade. Mulheres t&ecirc;m descontinuidades naturalmente geradas pela maternidade e n&atilde;o somos educadas para sermos agressivas e assertivas. Pergunto: ser&aacute; que a constru&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica realmente necessita de agressividade e assertividade? Que compet&ecirc;ncia &eacute; esta que nos pedem?</i>" questiona Barbosa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Ainda hoje, somos v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia apenas pelo fato de sermos mulheres. Somos discriminadas no trabalho e em espa&ccedil;os p&uacute;blicos, mesmo em sociedades mais avan&ccedil;adas."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Legados</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Mesmo sob percal&ccedil;os no decorrer desses 200 anos de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia no Brasil, os legados deixados por grandes mulheres s&atilde;o muitos, mas, de forma injusta, s&atilde;o esquecidos e n&atilde;o reconhecidos adequadamente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Este s&atilde;o os casos das cientistas Ana Primavesi (1920-2020), agr&ocirc;noma pioneira na preserva&ccedil;&atilde;o do solo e recupera&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas degradadas no pa&iacute;s. Graziela Maciel Barroso (1912-2003), uma importante bot&acirc;nica brasileira Mar&iacute;lia Chaves Peixoto (192-1961) matem&aacute;tica e engenheira e primeira mulher brasileira a ingressar na Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias. Elisa Frota Pessoa (1921-2018), uma das primeiras f&iacute;sicas no pa&iacute;s e uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF). Entre tantas outras mulheres a serem citadas, pode-se incluir as cientistas que concederam entrevistas para a constru&ccedil;&atilde;o desta mat&eacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">"H&aacute; mulheres excepcionais que conseguiram vencer este grande obst&aacute;culo de subir em uma carreira desenhada por homens. Por&eacute;m, est&aacute; na hora da ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m ser feita por mulheres n&atilde;o excepcionais, j&aacute; que, homens n&atilde;o t&atilde;o excepcionais conseguem ter carreiras cient&iacute;ficas h&aacute; s&eacute;culos", analisa Barbosa (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a15-fig01.jpg">Figura 1</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A hist&oacute;ria da sociedade mostra que a posi&ccedil;&atilde;o das mulheres vem sendo modificada, gradativamente. Sobretudo pela contribui&ccedil;&atilde;o da luta feminista conquistando, assim, espa&ccedil;os. Por&eacute;m, como destaca De Negri, "<i>muito do que vemos hoje no mercado de trabalho e, especificamente nas profiss&otilde;es cient&iacute;ficas, ainda &eacute; fruto desta sociedade desigual</i>". E esse 'ainda' incomoda, se faz cansativo. "Ainda hoje, somos v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia apenas pelo fato de sermos mulheres. Somos discriminadas no trabalho e em espa&ccedil;os p&uacute;blicos, mesmo em sociedades mais avan&ccedil;adas. <i>Quem dir&aacute; em sociedades extremamente mis&oacute;ginas que ainda existem em muitos pa&iacute;ses</i>", comenta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Caminho</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A desconstru&ccedil;&atilde;o de preconceitos, por mais clich&ecirc; (e cansativo) que seja, &eacute; o incentivo e parte de um caminho que resulta na melhoria do espa&ccedil;o feminino. "Temos que ter pol&iacute;ticas para permitir a concilia&ccedil;&atilde;o da carreira e fam&iacute;lia, debater o tema da equidade de g&ecirc;nero, de ra&ccedil;a, de condi&ccedil;&atilde;o social ativamente em todos os n&iacute;veis de ensino, discutir o desenho da carreira e eliminar o ass&eacute;dio'', elenca Barbosa (<a href="/img/revistas/cic/v74n3/a15-fig02.jpg">Figura 2</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Temos que ter pol&iacute;ticas para permitir a concilia&ccedil;&atilde;o da carreira e fam&iacute;lia, debater o tema da equidade de g&ecirc;nero, de ra&ccedil;a, de condi&ccedil;&atilde;o social ativamente em todos os n&iacute;veis de ensino, discutir o desenho da carreira e eliminar o ass&eacute;dio."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">E esses processos em busca de equidade e uma sociedade mais consciente s&oacute; nos faz avan&ccedil;ar, j&aacute; que os feitos das mulheres em nossa hist&oacute;ria cient&iacute;fica s&atilde;o imensur&aacute;veis. "<i>H&aacute; muitos ganhos sociais ao pensarmos em uma ci&ecirc;ncia mais solid&aacute;ria e contextualizada, pr&oacute;xima &agrave; vida dos cidad&atilde;os e cidad&atilde;s, especialmente em um pa&iacute;s com demandas sociais urgentes como o nosso</i>", analisa Cabral. "<i>&Eacute; essa consci&ecirc;ncia que vai permitir ter um olhar mais cr&iacute;tico, para ver os discursos que nos levam a ter de correr muito mais para alcan&ccedil;ar a linha de chegada, depois de um caminho sinuoso, desviando de obst&aacute;culos sociais e culturais</i>". E h&aacute; que se lembrar que a ci&ecirc;ncia est&aacute; tamb&eacute;m perpassada por diversos outros preconceitos &eacute;tnicos, culturais e sociais, al&eacute;m de barreiras econ&ocirc;micas, que restringem as oportunidades e o acesso &agrave;s carreiras cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas para milh&otilde;es de meninas e meninos nascidos no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">1. UNESCO (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura). <i>Women and the digital revolution (chapter 3).</i> Paris: UNESCO Science Report, 2021.    </font></p>      ]]></body><back>
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<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
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