<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252022000400002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20220056</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciência para uma sociedade melhor: a ciência é um dos motores que transformam a sociedade e produz um mundo melhor]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Zarbin]]></surname>
<given-names><![CDATA[Aldo José Gorgatti]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
<xref ref-type="aff" rid="AAF"/>
<xref ref-type="aff" rid="A A"/>
<xref ref-type="aff" rid="A3"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Paraná Departamento de Química ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF2">
<institution><![CDATA[,Academia Brasileira de Ciências  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF3">
<institution><![CDATA[,Royal Society of Chemistry  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2022</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2022</year>
</pub-date>
<volume>74</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>01</fpage>
<lpage>06</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252022000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252022000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O artigo faz uma reflexão e uma contextualização sobre a profunda dependência existente entre o conhecimento científico e a qualidade de vida humana, e demonstra como a ciência é fundamental para melhorar a sociedade.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ciência e Sociedade]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Benefícios da Ciência]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ciência e Soberania]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10.5935/2317-6660.20220056 ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia para uma sociedade: a ci&ecirc;ncia &eacute; um dos motores que transformam a sociedade e produz um mundo melhor</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Aldo Jos&eacute; Gorgatti Zarbin</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor titular do Departamento de Qu&iacute;mica da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR). &Eacute; membro titular da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias, fellow da Royal Society of Chemistry (UK) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Qu&iacute;mica (SBQ, 2016-2018)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O artigo faz uma reflex&atilde;o e uma contextualiza&ccedil;&atilde;o sobre a profunda depend&ecirc;ncia existente entre o conhecimento cient&iacute;fico e a qualidade de vida humana, e demonstra como a ci&ecirc;ncia &eacute; fundamental para melhorar a sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Ci&ecirc;ncia e Sociedade; Benef&iacute;cios da Ci&ecirc;ncia; Ci&ecirc;ncia e Soberania.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O processo evolutivo que culminou no surgimento da esp&eacute;cie <i>Homo sapiens</i> trouxe consigo o aperfei&ccedil;oamento de uma das caracter&iacute;sticas intr&iacute;nsecas mais fascinantes dos seres vivos, que &eacute; a curiosidade. Nascemos curiosos, e desenvolvemos a curiosidade durante todo o per&iacute;odo que nos mantemos vivos. A ci&ecirc;ncia, palavra de origem latina (<i>Scientia</i>) que significa conhecimento, &eacute; fruto dessa curiosidade perenal, lapidada pela intelig&ecirc;ncia que nos foi presenteada pela evolu&ccedil;&atilde;o. Quando o ser humano come&ccedil;ou a fazer perguntas, elaborar hip&oacute;teses, testar experimentos e equacionar as respostas encontradas, ou seja, quando o m&eacute;todo cient&iacute;fico passou a fazer parte da rotina dos nossos ancestrais, a vida come&ccedil;ou a melhorar. N&atilde;o coincidentemente, foi o per&iacute;odo em que nossos antepassados come&ccedil;aram sutilmente a se organizar em sociedades. O dom&iacute;nio da ci&ecirc;ncia para conseguir produzir fogo, para forjar ferramentas, para construir habita&ccedil;&otilde;es, para preparar vestimentas, para produzir alimentos, distingue a esp&eacute;cie humana das dos outros animais e garantiu (e garante) sua sobreviv&ecirc;ncia e ascend&ecirc;ncia sobre todas as outras esp&eacute;cies, permitindo seu reinado absoluto sobre o planeta Terra. O conhecimento cient&iacute;fico que possibilitou manipular os diferentes materiais foi t&atilde;o importante que definiu as diferentes eras da pr&eacute;-hist&oacute;ria e do in&iacute;cio da civiliza&ccedil;&atilde;o: Idade da Pedra Lascada, quando se conseguiu dominar pedras para criar ferramentas de prote&ccedil;&atilde;o e de ca&ccedil;a; Idade da Pedra Polida, quando o dom&iacute;nio e conhecimento cient&iacute;fico permitiu desgastar de forma planejada determinados tipos de minerais para providenciar propriedades como o corte; Idade do Cobre, Idade do Bronze e Idade do Ferro, com o dom&iacute;nio da fundi&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rio para produ&ccedil;&atilde;o de metais e ligas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Decorridos alguns milhares de anos desses per&iacute;odos hist&oacute;ricos, a presen&ccedil;a da ci&ecirc;ncia e da tecnologia (que &eacute; a aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica do conhecimento cient&iacute;fico) no nosso cotidiano est&aacute; intimamente ligada a todas as atividades simples que praticamos diariamente. E de t&atilde;o enraizada em nossas vidas, a depend&ecirc;ncia absoluta que possu&iacute;mos pela ci&ecirc;ncia passa despercebida pela maioria da popula&ccedil;&atilde;o, como se tudo isso sempre tivesse existido, ou tivesse simplesmente chegado por encomenda, sem o cabedal cient&iacute;fico que lhe sustenta. Todas as atividades humanas no S&eacute;culo XXI, do instante em que se acorda ao instante em que se vai dormir, incluindo o per&iacute;odo de sono, dependem de algum conhecimento trazido pela ci&ecirc;ncia e incorporado aos padr&otilde;es da sociedade dessa &eacute;poca. Eletricidade, &aacute;gua tratada e pot&aacute;vel, produtos de higiene, f&aacute;rmacos, materiais para vestimenta e prote&ccedil;&atilde;o, produtos para a constru&ccedil;&atilde;o de casas e edif&iacute;cios, transporte, comunica&ccedil;&otilde;es, alta produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, divers&atilde;o, entretenimento... absolutamente tudo o que nos cerca e que melhora a qualidade de vida, a sa&uacute;de e o bem-estar, &eacute; fruto direto da ci&ecirc;ncia gerada em algum momento que algu&eacute;m perguntou: por qu&ecirc;?</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Todas as atividades humanas no S&eacute;culo XXI, do instante em que se acorda ao instante em que se vai dormir, incluindo o per&iacute;odo de sono, dependem de algum conhecimento trazido pela ci&ecirc;ncia e incorporado aos padr&otilde;es da sociedade dessa &eacute;poca."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O impacto da ci&ecirc;ncia na qualidade de vida da popula&ccedil;&atilde;o pode ser mensurado de v&aacute;rias maneiras, mas nada &eacute; t&atilde;o evidente quanto a compara&ccedil;&atilde;o na expectativa de vida. No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX a expectativa de vida m&eacute;dia de um cidad&atilde;o comum variava entre 35 a 45 anos (de acordo com o pa&iacute;s). A ci&ecirc;ncia trouxe os antibi&oacute;ticos, as vacinas, o saneamento b&aacute;sico, os equipamentos de prote&ccedil;&atilde;o, a melhor compreens&atilde;o do funcionamento dos organismos, o desenvolvimento de novos f&aacute;rmacos, aparelhos para identifica&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as, a compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre h&aacute;bitos (como o tabagismo e o sedentarismo) e a incid&ecirc;ncia de enfermidades espec&iacute;ficas, e o resultado desse grande desenvolvimento cient&iacute;fico foi um aumento da expectativa m&eacute;dia de vida que nos dias atuais fica ao redor dos 80 anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um aspecto fascinante da rela&ccedil;&atilde;o inequ&iacute;voca entre o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia e a melhoria na vida da popula&ccedil;&atilde;o &eacute; o fato de que muitas das conquistas cient&iacute;ficas que fazem parte do nosso cotidiano foram obtidas a partir de conhecimento gerado para outros fins. Por exemplo, uma das maiores revolu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas da hist&oacute;ria da humanidade se deu no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a chamada mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. A mec&acirc;nica qu&acirc;ntica desafiou o senso comum e estipulou novos paradigmas. Novas leis foram propostas para compreender a natureza, em contraponto &agrave;s muito bem estabelecidas pela F&iacute;sica cl&aacute;ssica. Essa teoria, criada para compreender e explicar a estrutura b&aacute;sica da mat&eacute;ria, estava (e est&aacute;) na base do advento de toda a tecnologia de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o do mundo atual: internet, transmiss&atilde;o e armazenamento de dados, telecomunica&ccedil;&otilde;es, etc. Se algu&eacute;m dissesse a Max Plank, Niels Bohr, Erwin Schr&ouml;dinger, Werner Heisenberg, entre outros grandes cientistas respons&aacute;veis pela mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, que o estudo que estavam conduzindo nos 30 primeiros anos do s&eacute;culo XX seria respons&aacute;vel pela revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica que se viu no final do s&eacute;culo, eles certamente o considerariam um lun&aacute;tico. Mas gra&ccedil;as ao conhecimento existente, e &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o natural sobre ele, toda essa realidade se tornou poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O exemplo da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica e seus desdobramentos traz consigo a resposta para uma pergunta frequente, que pode estar carregada de ingenuidade ou m&aacute;-f&eacute;: qual ci&ecirc;ncia se deve fazer? A resposta &eacute;: todas. Basta haver perguntas sem respostas. N&atilde;o h&aacute; conhecimento in&uacute;til. Muitas vezes n&atilde;o se tem uma aplica&ccedil;&atilde;o direta de algo que se est&aacute; pesquisando, mas em algum momento o conhecimento gerado ser&aacute; importante para algo relevante. Cada nova resposta a alguma pergunta &eacute; um tijolo, que sozinho muitas vezes n&atilde;o tem serventia, mas que nas m&atilde;os de pessoas corretas, e na presen&ccedil;a de muitos outros tijolos, pode ser o bloco de constru&ccedil;&atilde;o de algo novo. E fundamentalmente, o conhecimento gerado pode ser aproveitado em muitas outras &aacute;reas, diferentes daquela que foi originalmente planejado. &Eacute; importante, portanto, n&atilde;o se deixar levar pelo anacronismo do falso embate entre ci&ecirc;ncia b&aacute;sica e ci&ecirc;ncia aplicada, entre uma ci&ecirc;ncia que serve e outra que n&atilde;o serve, entre uma ci&ecirc;ncia que pode gerar produtos e outra que n&atilde;o produz tecnologia. A aplica&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do cient&iacute;fico, e a quem ele ser&aacute; destinado, muitas vezes s&oacute; se percebe quando esse conhecimento j&aacute; existe.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Ci&ecirc;ncia se faz em Institui&ccedil;&otilde;es respeitadas e robustas de pesquisa e ensino, e necessita de muito investimento em pessoas, equipamentos, infraestrutura, material de consumo, etc."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O falso dilema sobre qual ci&ecirc;ncia se deve fazer se torna extremamente relevante quando o assunto &eacute; financiamento cient&iacute;fico. A imagem do cientista maluco, barbado e com cabelo despenteado, com jaleco sujo e amassado e trabalhando no laborat&oacute;rio no fundo de sua casa, &eacute; po&eacute;tica para livros de hist&oacute;ria e filmes de Hollywood, mas n&atilde;o tem nenhum paralelo com a realidade. Ci&ecirc;ncia se faz em institui&ccedil;&otilde;es respeitadas e robustas de pesquisa e ensino, e necessita de muito investimento em pessoas, equipamentos, infraestrutura, material de consumo, etc. Por ser um bem precioso cujos resultados devem servir &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, tais investimentos devem majoritariamente ser oriundos de recursos p&uacute;blicos, como ocorre em absolutamente todos os pa&iacute;ses do mundo. E esse investimento deve ser garantido para todas as &aacute;reas do conhecimento: Ci&ecirc;ncias Exatas, Ci&ecirc;ncias da Terra, Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas, Engenharias, Ci&ecirc;ncias da Sa&uacute;de, Ci&ecirc;ncias Agr&aacute;rias, Lingu&iacute;stica, Letras, Artes, Ci&ecirc;ncias Sociais Aplicadas, Ci&ecirc;ncias Humanas. Isso n&atilde;o significa que n&atilde;o se deva induzir ou priorizar &aacute;reas estrat&eacute;gicas, ou &aacute;reas de compet&ecirc;ncia local, ou &aacute;reas que respondam rapidamente a demandas emergenciais. O planejamento estrat&eacute;gico &eacute; um desafio fundamental na implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas cient&iacute;ficas, deve sempre ser realizado, e depende de um conhecimento global das compet&ecirc;ncias (existentes ou a se fomentar) e das demandas do pa&iacute;s. As a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o e n&atilde;o devem ser excludentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ci&ecirc;ncia melhora a vida e produz uma sociedade melhor atrav&eacute;s de diferentes mecanismos. Inicialmente, possibilitando a cria&ccedil;&atilde;o de algo que n&atilde;o existia, e cujo advento impactar&aacute; positivamente na vida do indiv&iacute;duo e na organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade. Antibi&oacute;ticos e vacinas, como descrito anteriormente, s&atilde;o exemplos desse tipo de a&ccedil;&atilde;o. Outro exemplo &eacute; a chegada dos aparelhos televisores (que nos lares das fam&iacute;lias brasileiras se deu a partir de 1950), e dos telefones celulares a partir da d&eacute;cada de 1990, sendo dois eventos que ilustram com maestria o impacto da ci&ecirc;ncia nos h&aacute;bitos e costumes da popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s nos mostrar algo novo, a ci&ecirc;ncia melhora aquilo que j&aacute; existe. Mantendo o exemplo dos televisores, a evolu&ccedil;&atilde;o do conhecimento cient&iacute;fico permitiu a transi&ccedil;&atilde;o das TVs em preto e branco para a TV colorida, das TVs &agrave; v&aacute;lvula para as TVs com trans&iacute;stores; das TVs de tubo para as TVs de tela plana com telas de LEDs. E hoje o mercado possui televisores com nanotecnologia, possibilitando tamanhos de tela, resolu&ccedil;&atilde;o e intensidade de cores jamais imaginadas h&aacute; alguns anos. Cada uma dessas evolu&ccedil;&otilde;es &eacute; fruto de novo conhecimento cient&iacute;fico gerado, incorporado e adaptado &agrave; tecnologia j&aacute; existente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A evolu&ccedil;&atilde;o dos telefones celulares &eacute; ainda mais impressionante e muito mais c&eacute;lere. Dos chamados "tijol&otilde;es" que tinham a fun&ccedil;&atilde;o exclusiva de telefone e cujas baterias duravam menos de tr&ecirc;s horas, aos aparelhos ultrafinos que s&atilde;o verdadeiros computadores, respondem exclusivamente pelo toque na tela (tecnologia <i>touch screen</i>) e t&ecirc;m baterias que conseguem dar suporte a todas as fun&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas com grande durabilidade. A ci&ecirc;ncia envolvida nos diferentes componentes de aparelhos de telefone celular &eacute; complexa e multifuncional, e apesar dos avan&ccedil;os surpreendentes, ainda h&aacute; in&uacute;meros desafios cient&iacute;ficos a serem alcan&ccedil;ados, e que certamente ser&atilde;o encontrados, resultando em ofertas de produtos melhores e que facilitar&atilde;o ainda mais a vida da popula&ccedil;&atilde;o. Para ilustrar, tomemos somente o exemplo das baterias, que &eacute; o componente mais importante de um telefone celular. As baterias de &iacute;ons l&iacute;tio foram (e s&atilde;o) as respons&aacute;veis pela exist&ecirc;ncia dos dispositivos port&aacute;teis, como celulares, tablets e ipads. Seu funcionamento se baseia na combina&ccedil;&atilde;o de diferentes materiais, que t&ecirc;m a capacidade de intercalar reversivelmente &iacute;ons l&iacute;tio em sua estrutura, sendo que os processos de intercala&ccedil;&atilde;o e desintercala&ccedil;&atilde;o em diferentes polos da bateria acontecem nos ciclos de carga e descarga, consumindo energia quando est&aacute; sendo carregada e fornecendo energia durante a descarga. Al&eacute;m disso, um material que separa os dois polos (eletr&oacute;lito), tem a fun&ccedil;&atilde;o de carregar os &iacute;ons l&iacute;tio de um polo para outro durante esses processos. Esses eletr&oacute;litos nas baterias atuais s&atilde;o t&oacute;xicos e inflam&aacute;veis. Os desafios cient&iacute;ficos na &aacute;rea envolvem aumentar a capacidade das baterias (quantidade de carga que pode armazenar) e seu tempo de dura&ccedil;&atilde;o; substituir os &iacute;ons l&iacute;tio por outro &iacute;on, como s&oacute;dio e pot&aacute;ssio, mais baratos, mais abundantes e geopoliticamente distribu&iacute;dos de forma mais homog&ecirc;nea; substituir o eletr&oacute;lito t&oacute;xico e inflam&aacute;vel por eletr&oacute;litos &agrave; base de &aacute;gua; preparar baterias flex&iacute;veis que possam ser dobradas e esticadas sem perder capacidade e sem ser danificada; preparar baterias transparentes, que possam ser usadas acopladas a dispositivos geradores de energia, como c&eacute;lulas solares; dentre outros. S&atilde;o in&uacute;meras hip&oacute;teses, teorias, proposi&ccedil;&otilde;es, planejamento e realiza&ccedil;&atilde;o de experimentos, envolvendo diferentes materiais, sistemas, configura&ccedil;&otilde;es, para se tentar descobrir solu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas para cada um desses desafios (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a02fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra maneira da ci&ecirc;ncia transformar a sociedade &eacute; fornecendo respostas a situa&ccedil;&otilde;es inesperadas, e indicando caminhos para revert&ecirc;-las ou contorn&aacute;-las. Por exemplo, em 2015 se observou um n&uacute;mero significativo de crian&ccedil;as nascendo com microcefalia, principalmente em alguns estados da regi&atilde;o Nordeste do Brasil. A ci&ecirc;ncia brasileira, especialmente de pesquisadores da Fiocruz, deu uma resposta r&aacute;pida e contundente ao fen&ocirc;meno, associando-o &agrave; pr&eacute;via infec&ccedil;&atilde;o pelo Zika v&iacute;rus. Foi a primeira vez que essa associa&ccedil;&atilde;o foi relatada na literatura cient&iacute;fica, e permitiu que se providenciassem a&ccedil;&otilde;es de controle e combate ao mosquito transmissor do v&iacute;rus, que se planejassem cuidados paliativos a mulheres gr&aacute;vidas com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o ao mosquito, e se desenvolvessem pol&iacute;ticas p&uacute;blicas adequadas para minimizar tais ocorr&ecirc;ncias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, uma das maneiras pela qual a ci&ecirc;ncia tem um forte impacto social &eacute; a partir do seu papel central no desenvolvimento e soberania do pa&iacute;s, no desenvolvimento econ&ocirc;mico e na gera&ccedil;&atilde;o de empregos e riqueza, fatores importantes no caminho necess&aacute;rio para a diminui&ccedil;&atilde;o de desigualdades sociais. A ci&ecirc;ncia transforma mat&eacute;ria-prima ou <i>commodities</i> em tecnologia, aumentando sobremaneira seu valor agregado, e gerando empresas competitivas, robustas e independentes de flutua&ccedil;&otilde;es de humores do sistema financeiro global. Relat&oacute;rio da Comunidade Europeia mostra que o investimento p&uacute;blico em ci&ecirc;ncia e tecnologia tem um retorno equivalente a tr&ecirc;s a oito vezes o valor aplicado, em curto per&iacute;odo de tempo &#91;1&#93;, e que entre 20% a 75% das inova&ccedil;&otilde;es presentes no mercado n&atilde;o poderiam ter sido desenvolvidas sem a contribui&ccedil;&atilde;o da pesquisa realizada com financiamento p&uacute;blico. Dados do Fundo Monet&aacute;rio Internacional (FMI), indicam n&atilde;o haver desenvolvimento de tecnologias inovadoras, em todos os pa&iacute;ses do mundo, sem os investimentos p&uacute;blicos realizados em ci&ecirc;ncia e tecnologia &#91;2&#93;. Em outras palavras, a ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m &eacute; um excelente neg&oacute;cio, e os lucros se fazem sentir por toda a sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um exemplo did&aacute;tico e atual de um evento onde a ci&ecirc;ncia teve um papel de absoluto destaque, melhorando a qualidade de vida da popula&ccedil;&atilde;o e fazendo uma sociedade melhor, em todas as estrat&eacute;gias citadas anteriormente, e de forma absolutamente interdisciplinar, diz respeito &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o e enfrentamento da pandemia de COVID-19. A ci&ecirc;ncia identificou o v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia entendeu o mecanismo de a&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus (e ainda continua fazendo novas e novas descobertas); a ci&ecirc;ncia previu e compreendeu a forma de transmiss&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia identificou variantes do v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia desenvolveu vacinas (no plural) contra o v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia desenvolveu materiais corretos para m&aacute;scaras e a composi&ccedil;&atilde;o/formula&ccedil;&atilde;o correta do &aacute;lcool em gel para a preven&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia desenvolveu respiradores mec&acirc;nicos e materiais espec&iacute;ficos para pessoas internalizadas pelo cont&aacute;gio com o v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia identificou a inefici&ecirc;ncia de medicamentos fantasiosos que se tentou usar na preven&ccedil;&atilde;o contra o v&iacute;rus, e encontrou tratamentos adequados para situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas; a ci&ecirc;ncia est&aacute; compreendendo os efeitos colaterais (f&iacute;sicos e emocionais) do isolamento decorrente da presen&ccedil;a do v&iacute;rus; a ci&ecirc;ncia possibilitou a aproxima&ccedil;&atilde;o de pessoas isoladas atrav&eacute;s de videochamadas, e permitiu trabalho em casa (h<i>ome office</i>) e aulas on-line; a ci&ecirc;ncia ensinou com a experi&ecirc;ncia do passado de outras pandemias (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a02fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ci&ecirc;ncia &eacute; um dos motores que transformam a sociedade. Em uma &eacute;poca em que se obt&eacute;m excesso de informa&ccedil;&atilde;o (nem sempre confi&aacute;vel) em um toque das m&atilde;os, o conhecimento adquire uma import&acirc;ncia ainda mais relevante. A ci&ecirc;ncia &eacute; um instrumento poderoso, que surgiu para satisfazer a curiosidade natural do ser humano, e que s&oacute; faz sentido se for usada em prol do pr&oacute;prio ser humano. A ci&ecirc;ncia produz um mundo melhor.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. International Monetary Fund (IMF). <i>Fiscal policies for innovation and growth</i>. Washington, DC: IMF, 2016. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.imf.org/external/pubs/ft/fm/2016/01/pdf/fmc2.pdf" target="_blank">http://www.imf.org/external/pubs/ft/fm/2016/01/pdf/fmc2.pdf</a>. Acesso em: 19 set. 2022.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. European Commission (EC). <i>Value of Research Policy Paper by the Research, Innovation, and Science Policy Experts (RISE)</i>. Brussels: EC, 2015. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://commission.europa.eu/research-and-innovation_en" target="_blank">https://commission.europa.eu/research-and-innovation_en</a>. Acesso em: 19 set. 2022.    </font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<collab>International Monetary Fund</collab>
<source><![CDATA[Fiscal policies for innovation and growth]]></source>
<year>2016</year>
<publisher-loc><![CDATA[Washington, DC ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[IMF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<collab>European Commission</collab>
<source><![CDATA[Value of Research Policy Paper by the Research, Innovation, and Science Policy Experts (RISE)]]></source>
<year>2015</year>
<publisher-loc><![CDATA[Brussels ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[EC]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
