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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Etnologia: do primitivismo ao protagonismo indígena: os estudos etnológicos e os novos parâmetros para um diálogo de saberes e tradições de conhecimentos diferentes e de inclusão de novas epistemologias[subtitle]]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Etnologia]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10.5935/2317-6660.20220064 ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Etnologia: do primitivismo ao protagonismo ind&iacute;gena: os estudos etnol&oacute;gicos e os novos par&acirc;metros para um di&aacute;logo de saberes e tradi&ccedil;&otilde;es de conhecimentos diferentes e de inclus&atilde;o de novas epistemologias</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Edviges Marta Ioris</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem experi&ecirc;ncia na &aacute;rea de Antropologia, com &ecirc;nfase em etnologia ind&iacute;gena. Coordena o Arandu Laborat&oacute;rio de Estudos em Etnologia, Educa&ccedil;&atilde;o e Sociobiodiversidade (antigo N&uacute;cleo de Estudos de Povos Ind&iacute;genas - NEPI)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A etnologia brotou das preocupa&ccedil;&otilde;es em compreender as diferen&ccedil;as socioculturais das sociedades humanas no planeta, que foram se tornando cada vez mais vis&iacute;veis e presentes com a expans&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o do mundo europeu sobre os outros continentes. Do seu nascimento, como a "ci&ecirc;ncia dos povos primitivos" no s&eacute;culo XIX, aos dias atuais, muitos foram os seus desdobramentos at&eacute; alcan&ccedil;ar a compreens&atilde;o dos povos n&atilde;o ocidentais nos contextos de domina&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia a que estavam submetidos pelo projeto colonizador e conceb&ecirc;-los como sujeitos ativos, resilientes, em estreita rela&ccedil;&atilde;o com as din&acirc;micas do mundo ocidental, cuja alteridade constitui um grande campo de disputas e de poder. A etnologia que se desenvolveu no Brasil, focando os povos origin&aacute;rios, tamb&eacute;m brotou das preocupa&ccedil;&otilde;es com a conforma&ccedil;&atilde;o da diversidade &eacute;tnico-racial do pa&iacute;s e com o destino e o lugar reservados aos povos ind&iacute;genas na sociedade brasileira. Desenvolvendo abordagens e aportes te&oacute;ricos que se preocupavam com as din&acirc;micas e condi&ccedil;&otilde;es de suas continuidades, as investiga&ccedil;&otilde;es etnol&oacute;gicas buscaram apreender o mundo colonial no qual os ind&iacute;genas se encontravam, as mudan&ccedil;as provocadas nas suas organiza&ccedil;&otilde;es sociais, nas suas bases territoriais, nas suas cosmologias e modos de vida, mas tamb&eacute;m suas resist&ecirc;ncias, capacidade de reinven&ccedil;&atilde;o e protagonismo nas lutas por reconhecimento, direitos e bem viver. Sujeitos de seus projetos de vida, incluindo na academia, os ind&iacute;genas no presente pautam uma etnologia dial&oacute;gica, coet&acirc;nea e colaborativa, dando lugar ao di&aacute;logo de saberes e tradi&ccedil;&otilde;es de conhecimentos diferentes e de inclus&atilde;o de novas epistemologias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Etnologia; Povos Origin&aacute;rios; Alteridades; Colonialismos; Estado-Na&ccedil;&atilde;o; Protagonismo Ind&iacute;gena.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A etnologia e a diversidade sociocultural</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O termo <i>ethnologia</i> em seu sentido moderno &eacute; creditado ao historiador eslovaco Adam Franti&scaron;ek Koll&aacute;r (1718-83), chefe da biblioteca real em Viena, capital do ent&atilde;o Sacro Imp&eacute;rio Romano-Germ&acirc;nico, que o cunhou e definiu pela primeira vez em sua obra "<i>Amenidades da hist&oacute;ria e lei constitucional do reino da Hungria</i>", publicada em latim, em 1783. Estendendo o dom&iacute;nio da etnologia a "povos" (<i>gens</i>) e "na&ccedil;&otilde;es" (<i>populus</i>), Koll&aacute;r definiu etnologia como "<i>a ci&ecirc;ncia das na&ccedil;&otilde;es e povos, ou, o estudo dos eruditos atrav&eacute;s do qual eles investigam as origens, l&iacute;nguas, costumes e institui&ccedil;&otilde;es das v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es e, finalmente, a p&aacute;tria e suas antigas funda&ccedil;&otilde;es, para, ent&atilde;o, poder melhor julgar as na&ccedil;&otilde;es e povos de seus pr&oacute;prios tempos"</i> &#91;1&#93;. Interessado pela diversidade lingu&iacute;stica e cultural que constitu&iacute;a o reino multi&eacute;tnico e multil&iacute;ngue da Hungria, Koll&aacute;r encontrava-se entre os acad&ecirc;micos iluministas alem&atilde;es preocupados com a origem dos povos, das l&iacute;nguas, dos Estados, cujas reconstru&ccedil;&otilde;es hist&oacute;rico-descritivas usavam material etnogr&aacute;fico e lingu&iacute;stico. Suas preocupa&ccedil;&otilde;es ecoavam tamb&eacute;m aquelas sobre a aus&ecirc;ncia e as dificuldades de uma unidade pol&iacute;tica entre os povos germ&acirc;nicos, que impediam a conforma&ccedil;&atilde;o do Estado nacional na Alemanha, compreendidas como resultado da persist&ecirc;ncia e do apego &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es e aos costumes que resistiam aos avan&ccedil;os da modernidade. Contudo, as terminologias que empregavam eram oriundas da filosofia, hist&oacute;ria e geografia, ainda n&atilde;o formatando a etnologia enquanto um campo circunscrito de conhecimento. Por&eacute;m, &eacute; importante destacar que foi dessa tradi&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica que surgiu a formula&ccedil;&atilde;o do moderno conceito de cultura (<i>Kultur</i>), cuja compreens&atilde;o constituiu o cerne da antropologia, especialmente a que se desenvolveu adiante nos Estados Unidos sob a lideran&ccedil;a de Franz Boas &#91;2,3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ser&aacute; a partir do &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIX que a etnologia se consolidar&aacute; como um campo pr&oacute;prio de conhecimento, n&atilde;o apenas focando a conforma&ccedil;&atilde;o da diversidade dos povos no continente europeu, mas tamb&eacute;m lan&ccedil;ando seu olhar para fora, sobre os povos n&atilde;o ocidentais, dominados pela Europa desde o s&eacute;culo XVI. A conquista europeia sobre os demais continentes, que se intensifica em escala e complexidade desde ent&atilde;o, teve um papel importante na formula&ccedil;&atilde;o de novas no&ccedil;&otilde;es do Ocidente (o mundo ocidental), especialmente sobre a natureza humana e a diversidade de seus modos de vida. Os relatos, as narrativas daqueles exploradores europeus que se aventuravam nestes outros mundos cada vez mais publicizados, informavam sobre povos, pessoas, que se comportavam e falavam de modo muito diferente, tinham costumes ex&oacute;ticos, viviam nas matas, eram selvagens, canibais, habitavam continentes nunca antes imaginados, ou mencionados na B&iacute;blia; sobre quem tinham dificuldade de compreender como parte da humanidade. A constata&ccedil;&atilde;o desses povos e mundos t&atilde;o diferentes contribu&iacute;a n&atilde;o s&oacute; para imagin&aacute;rios de selvageria, canibalismos &#91;4&#93;, mas tamb&eacute;m para promover grandes mudan&ccedil;as no modo de pensar entre os intelectuais europeus, estimulando cada vez mais a seculariza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento, e as reflex&otilde;es sobre a natureza dos seres humanos, sua mente e suas institui&ccedil;&otilde;es. Ainda que distorcessem as realidades observadas, os relatos sobre os povos n&atilde;o ocidentais forneciam farto material aos pensadores europeus, que os tomavam para sustentar suas proposi&ccedil;&otilde;es e reflex&otilde;es filos&oacute;ficas, assim como se inspirou Jean-Jacques Rousseau nos relatos sobre "<i>le bon sauvage</i>" para afian&ccedil;ar as proposi&ccedil;&otilde;es de seu contrato social.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Al&eacute;m de contrapor e recha&ccedil;ar o etnocentrismo, a no&ccedil;&atilde;o de relativismo cultural tamb&eacute;m teve importante papel em ressaltar a diversidade sociocultural existente no mundo em seu pr&oacute;prio direito, no direito de existir diferentemente."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A expans&atilde;o do mundo europeu sobre os outros continentes intensificou os contatos entre os mais diversos povos, colocando-os cada vez mais pr&oacute;ximos e tornado comum e vis&iacute;vel a diferen&ccedil;a, a exist&ecirc;ncia de muitos outros mundos que n&atilde;o europeus, assim como a necessidade de compreender a diversidade sociocultural que se apresentava em todas as partes. Instigada pelos ideais iluministas que cultivavam o florescimento da ci&ecirc;ncia e da filosofia na Europa, a busca por esta compreens&atilde;o encontrar&aacute; suas principais respostas na conforma&ccedil;&atilde;o da antropologia no s&eacute;culo XIX, trazendo a etnologia para o centro de suas investiga&ccedil;&otilde;es e se consolidando como um campo de conhecimento pr&oacute;prio, com objeto e corpo te&oacute;rico-metodol&oacute;gico delimitado, especializado para explicar a diversidade sociocultural e o desenvolvimento das sociedades humanas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As publica&ccedil;&otilde;es de Charles Darwin, "<i>A Origem das Esp&eacute;cies</i>" (1859) e "<i>The Decend of Man</i>" (1871), traduzindo as novas compreens&otilde;es sobre a forma&ccedil;&atilde;o e a diversifica&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies no mundo natural, forneciam perspectivas de compreens&atilde;o tamb&eacute;m sobre a origem e a trajet&oacute;ria dos seres humanos e de seus coletivos. Do mesmo modo que as demais esp&eacute;cies, os seres humanos tamb&eacute;m apresentariam processos evolutivos sobre situa&ccedil;&otilde;es precedentes e, portanto, teriam em sua forma&ccedil;&atilde;o um primevo, um inaugural, do qual se havia partido at&eacute; alcan&ccedil;ar a civiliza&ccedil;&atilde;o, topo da escala evolutiva, onde se encontrava a sociedade europeia.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A partir das hist&oacute;rias particulares de cada cultura, apreendidas em seus pr&oacute;prios termos e direitos, nos processos pr&oacute;prios que teriam promovido e assegurado a sua exist&ecirc;ncia, o mundo pode come&ccedil;ar a se pensar como diverso culturalmente, a aceitar e valorar as diferen&ccedil;as como parte constitutiva da humanidade."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seu contraponto, sociedades e povos ent&atilde;o vistos como selvagens, com aus&ecirc;ncia de Estado, de escrita, foram concebidas como representa&ccedil;&otilde;es vivas dos prim&oacute;rdios da humanidade, seus ancestrais vivos, seus primevos, que por raz&otilde;es v&aacute;rias estariam estacionadas na escala da evolu&ccedil;&atilde;o humana. Elas se encontrariam no patamar mais inferior da evolu&ccedil;&atilde;o humana, e a compreens&atilde;o sobre estas "sociedades primitivas" deveria fornecer as explica&ccedil;&otilde;es para a origem e os processos evolutivos das sociedades humanas e de suas institui&ccedil;&otilde;es. A antropologia se concebe, ent&atilde;o, como a ci&ecirc;ncia dedicada &agrave; compreens&atilde;o dessa "humanidade primitiva" &#91;5&#93;, assentando seu m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o na teoria da evolu&ccedil;&atilde;o, que estabelecia os graus de desenvolvimento que a humanidade teria escalado; nas "sociedades primitivas" como objeto de estudo; e na compara&ccedil;&atilde;o entre as distintas sociedades. As diferen&ccedil;as passaram a ser explicadas pelos graus evolutivos, e s&atilde;o v&aacute;rios os estudos que se dedicam a entender a evolu&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia e do parentesco, da religi&atilde;o, das cren&ccedil;as, das cidades, do Estado, do direito ou da propriedade, visando descobrir as leis e a hist&oacute;ria da evolu&ccedil;&atilde;o humana em seu suposto ponto inicial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, esses estudos iniciais se pautavam em informa&ccedil;&otilde;es trazidas por comerciantes, mission&aacute;rios, agentes governamentais, e exploradores, que se encontravam nas col&ocirc;nias long&iacute;nquas, cujas descri&ccedil;&otilde;es se revelavam insuficientes, distorcidas, de pouca confiabilidade para a investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, e apontavam para a necessidade de levantamentos de campo junto a esses povos por profissionais treinados e capacitados. Esfor&ccedil;os nesse sentido logo come&ccedil;am a ser empreendidos, com expedi&ccedil;&otilde;es organizadas por profissionais altamente qualificados se lan&ccedil;ando ao conv&iacute;vio com os "primitivos", os "selvagens", para obter informa&ccedil;&otilde;es diretamente com eles sobre os seus modos de vida, como foi a expedi&ccedil;&atilde;o liderada por Alfred Haddon, em 1898, para as Ilhas do Estreito de Torres. Mas ser&aacute; especialmente com a etnografia de B. Malinowski &#91;6&#93;, "<i>Os Argonautas do Pac&iacute;fico Ocidental</i>" (1922), baseada em levantamentos obtidos atrav&eacute;s de longo trabalho de campo, de conviv&ecirc;ncia com os nativos (primitivos), com dom&iacute;nio da sua l&iacute;ngua, observa&ccedil;&atilde;o direta de seus comportamentos e rituais, que a moderna etnologia toma forma e conte&uacute;do, angariando for&ccedil;a e destaque.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atrav&eacute;s da descri&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise de um sistema de com&eacute;rcio, o <i>Kula</i>, que interconectava as popula&ccedil;&otilde;es costeiras das ilhas do Arquip&eacute;lago de Trobriand, na Nova Guin&eacute;, Malinowski apresenta sociedades organizadas em institui&ccedil;&otilde;es s&oacute;lidas e complexas, cujos costumes, comportamentos e cren&ccedil;as adquirem significados plenos, revelando a&ccedil;&otilde;es coerentes e integradas que asseguravam a sua funcionalidade e reprodu&ccedil;&atilde;o. A etnografia que constr&oacute;i, demonstrando os alcances em reproduzir e transmitir diferentes experi&ecirc;ncias de vida, desconstruiu imagens de aglomerados de cren&ccedil;as e costumes irracionais e desconexos que eram atribu&iacute;das a estes povos considerados selvagens, como pr&oacute;prios de sua primitividade. Assim, promoveu uma verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o na antropologia aos apresent&aacute;-los como sistemas de valores integrados, coerentes, intelig&iacute;veis, que ordenavam e davam sentido aos costumes e comportamentos. A diversidade dos coletivos humanos n&atilde;o poderia mais ser explicada como produto de est&aacute;gios de evolu&ccedil;&atilde;o, mas pela constitui&ccedil;&atilde;o de sistemas e complexos culturais atrav&eacute;s dos quais os serem humanos se associariam e se organizariam. O foco de investiga&ccedil;&atilde;o recairia sobre a integra&ccedil;&atilde;o das diferentes dimens&otilde;es da cultura que conformariam uma totalidade integrada, coerente, que deveria ser apreendida em seus pr&oacute;prios termos a partir da observa&ccedil;&atilde;o direta. Com essa apreens&atilde;o, estabeleceu as novas bases para a investiga&ccedil;&atilde;o etnol&oacute;gica, com levantamentos a serem obtidos diretamente do campo.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Ao come&ccedil;ar a olhar o mundo dos povos colonizados em sua rela&ccedil;&atilde;o com o colonizador, em sua coetaneidade e rela&ccedil;&otilde;es desiguais de poder, a etnologia estabeleceu novos par&acirc;metros para pensar as alteridades e as suas manuten&ccedil;&otilde;es, assim como ofereceu um espelho &agrave; sociedade ocidental para que pudesse tamb&eacute;m se mirar neste campo de poder."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em outro contexto, contemporaneamente, Franz Boas &#91;7&#93;, que havia partido da Alemanha, dedicava-se aos estudos sobre os povos nativos da costa noroeste dos Estados Unidos, entre os quais conviveu e desenvolveu extensas investiga&ccedil;&otilde;es com base na observa&ccedil;&atilde;o direta. Das suas investiga&ccedil;&otilde;es, entre as tantas contribui&ccedil;&otilde;es para o pensamento antropol&oacute;gico e compreens&atilde;o das sociedades humanas, Boas contrap&ocirc;s a vis&atilde;o de uma hist&oacute;ria linear e &uacute;nica para toda a humanidade, como se fosse part&iacute;cipe de uma &uacute;nica cultura que se desenvolvia atrav&eacute;s de diferentes est&aacute;gios de evolu&ccedil;&atilde;o, tal como era apregoada pelos antrop&oacute;logos evolucionistas, para demonstrar que as hist&oacute;rias s&atilde;o particulares de cada povo, e delas derivam suas distintas culturas e modos de vida. Para Boas, a conforma&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as culturais era resultante de raz&otilde;es hist&oacute;ricas, ambientais e psicol&oacute;gicas, que teriam atuado em suas configura&ccedil;&otilde;es, distinguindo uma cultura de outra. Os objetivos da etnologia, ent&atilde;o, deveriam ser o de buscar as raz&otilde;es e os processos que promoveram a exist&ecirc;ncia de determinados costumes e cren&ccedil;as, em s&iacute;ntese, "descobrir a hist&oacute;ria de seu desenvolvimento" &#91;7&#93;. Sendo as hist&oacute;rias plurais, as culturas das quais derivam tamb&eacute;m s&oacute; poderiam ser concebidas como plurais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Resultantes, portanto, de condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;rias particulares e espec&iacute;ficas, as culturas n&atilde;o poderiam ser mensuradas para hierarquizar os diferentes povos e, portanto, nenhuma cultura poderia ser compreendida como superior a outra, ou mais ou menos evolu&iacute;da. Defendia que para compreender uma cultura distinta da sua, o etn&oacute;logo deveria evitar ju&iacute;zos de valor, abandonando seus pr&oacute;prios c&oacute;digos culturais para buscar apreender os h&aacute;bitos da sociedade estudada a partir dos valores que ela possui. Com essas proposi&ccedil;&otilde;es, embora nunca tenha utilizado o termo, Boas pautou o relativismo cultural, que acabou sendo levado para o centro das discuss&otilde;es raciais que se configuraram no final do s&eacute;culo XIX e tomaram grande vulto nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX. Al&eacute;m de contrapor e recha&ccedil;ar o etnocentrismo, a no&ccedil;&atilde;o de relativismo cultural tamb&eacute;m teve o importante papel de ressaltar a diversidade sociocultural existente no mundo em seu pr&oacute;prio direito, no direito de existir diferentemente. A partir das hist&oacute;rias particulares de cada cultura, apreendidas em seus pr&oacute;prios termos e direitos, nos processos pr&oacute;prios que teriam promovido e assegurado a sua exist&ecirc;ncia, o mundo pode come&ccedil;ar a se pensar como diverso culturalmente, a aceitar e valorar as diferen&ccedil;as como parte constitutiva da humanidade. Ainda que seu percurso tenha sido, e continua sendo, um tanto turbulento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Das bases para a moderna etnologia lan&ccedil;adas por Boas ou Malinowski para a compreens&atilde;o da diversidade sociocultural, de suas estruturas mentais e organizacionais, tradi&ccedil;&otilde;es de conhecimento ou pressupostos cosmol&oacute;gicos, muitos foram os seus desdobramentos, adicionando novas concep&ccedil;&otilde;es e formula&ccedil;&otilde;es te&oacute;rico-conceituais e a propaga&ccedil;&atilde;o de novas escolas. Estes novos aportes de pesquisa promoveram progressos consider&aacute;veis para a compreens&atilde;o das din&acirc;micas e forma&ccedil;&otilde;es constitutivas das sociedades humanas, consolidando e destacando a etnologia como um campo s&oacute;lido e f&eacute;rtil de conhecimento entre as ci&ecirc;ncias humanas, a ponto de ser muitas vezes compreendida como sendo a pr&oacute;pria antropologia. Contudo, apesar do alargamento do campo de conhecimento etnol&oacute;gico na Europa e nos Estados Unidos, de novos paradigmas interpretativos, at&eacute; meados do s&eacute;culo XX os povos origin&aacute;rios das Am&eacute;ricas, da Oceania ou da &Aacute;frica continuavam sendo tomados como um "primitivo" e distanciado objeto de estudo, como se as suas organiza&ccedil;&otilde;es sociais e cosmologias fossem sistemas isolados e aut&ocirc;nomos e, principalmente, a-hist&oacute;ricos &#91;8,9&#93;. Tomando as sociedades n&atilde;o ocidentais como unidades autoexplicativas e atemporais, as an&aacute;lises etnogr&aacute;ficas ignoravam os processos de domina&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncia e exterm&iacute;nio a que estavam submetidos pelo projeto colonizador, cujos efeitos eram entendidos como obst&aacute;culos &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es ou de pouco interesse etnogr&aacute;fico &#91;10,11&#93;. A despeito dos manifestos avan&ccedil;os nos modos de produzir conhecimento, a etnologia parecia ainda ter dificuldades em quebrar o congelamento hist&oacute;rico atribu&iacute;do aos povos n&atilde;o ocidentais pelos antrop&oacute;logos evolucionistas, quando os estacionaram em um passado pr&iacute;stino, concebendo-os como exemplares sobreviventes de nossa ancestralidade. O interesse etnogr&aacute;fico continuava recaindo sobre aquele nativo supostamente ancorado em um passado remoto, ex&oacute;tico, sem hist&oacute;ria, sem coetaneidade com o etn&oacute;logo &#91;9&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ser&aacute; no p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial que a etnologia sofrer&aacute; grandes reviravoltas. Primeiramente, pelos efeitos do pr&oacute;prio conflito, que teve as ra&ccedil;as e as culturas, as intoler&acirc;ncias e o genoc&iacute;dio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua diversidade, no centro de suas motiva&ccedil;&otilde;es. Em seguida, pelos movimentos de independ&ecirc;ncia das na&ccedil;&otilde;es africanas que o sucederam, atrav&eacute;s dos quais se formularam severas cr&iacute;ticas aos modos como a etnologia dos pa&iacute;ses hegem&ocirc;nicos os havia descrito at&eacute; ent&atilde;o, assim como pelo entendimento da disciplina como forte instrumento da coloniza&ccedil;&atilde;o para o exerc&iacute;cio da domina&ccedil;&atilde;o &#91;12,13&#93;. Na Europa, por sua vez, foi sob a lideran&ccedil;a de Max Gluckman, na Escola de Manchester, Inglaterra, e de Georges Balandier, na Fran&ccedil;a, que encontraremos as principais cr&iacute;ticas &agrave; produ&ccedil;&atilde;o etnol&oacute;gica que desconsiderava os contextos da coloniza&ccedil;&atilde;o sobre os povos n&atilde;o ocidentais, atrav&eacute;s das quais propuseram novas perspectivas te&oacute;rico-metodol&oacute;gicas que apreendessem os processos de domina&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia decorrentes do projeto colonial e seus efeitos sobre as organiza&ccedil;&otilde;es sociopol&iacute;ticas e culturais desses povos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As no&ccedil;&otilde;es de <i>situa&ccedil;&atilde;o social</i> &#91;14&#93; e <i>situa&ccedil;&atilde;o colonial</i> &#91;12&#93; representaram uma ruptura nos modos de abordar os povos n&atilde;o ocidentais, ao destacar a dupla hist&oacute;ria que eles passam a experienciar com o advento do projeto colonizador europeu, e de como a domina&ccedil;&atilde;o imposta por uma minoria estrangeira, "racial" e culturalmente diferente, estava na base das transforma&ccedil;&otilde;es dos sistemas sociais tradicionais. O mundo que esses povos tradicionais passaram a vivenciar estava decisivamente atravessado pelas rela&ccedil;&otilde;es de poder colonial, e sua compreens&atilde;o exigia ser apreendida a partir do encapsulamento imposto por estas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o. Dessa perspectiva possibilitar-se-ia compreender tamb&eacute;m como, nas situa&ccedil;&otilde;es coloniais espec&iacute;ficas, configuraram-se os processos de adapta&ccedil;&atilde;o e recusas desses povos, pontos e estrat&eacute;gias de resist&ecirc;ncias, e de reinven&ccedil;&atilde;o dos modelos sociais tradicionais destru&iacute;dos. Os povos origin&aacute;rios, portanto, n&atilde;o poderiam ser concebidos como passivos e estacion&aacute;rios de um passado remoto, mas sujeitos ativos, em estreita rela&ccedil;&atilde;o com o mundo ocidental, cuja alteridade constitu&iacute;a um grande campo de disputas e de poder.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessas compreens&otilde;es das situa&ccedil;&otilde;es coloniais muitos foram os seus acr&eacute;scimos e reapropria&ccedil;&otilde;es, que permitiram melhores compreens&otilde;es sobre o mundo dos povos n&atilde;o ocidentais e das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o sofridas, mas tamb&eacute;m sobre o mundo do colonizador, sobre a constitui&ccedil;&atilde;o de suas institui&ccedil;&otilde;es e modos de imposi&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o. Ao come&ccedil;ar a olhar o mundo dos povos colonizados em sua rela&ccedil;&atilde;o com o colonizador, em sua coetaneidade e rela&ccedil;&otilde;es desiguais de poder, a etnologia estabeleceu novos par&acirc;metros para pensar as alteridades e as suas manuten&ccedil;&otilde;es, assim como ofereceu um espelho &agrave; sociedade ocidental para que pudesse tamb&eacute;m se mirar nesse campo de poder. Essa perspectiva ter&aacute; forte influ&ecirc;ncia na etnologia que se desenvolveu no Brasil (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Etnologia ind&iacute;gena no Brasil</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A etnologia que se desenvolve no Brasil, assim como no restante da Am&eacute;rica Latina, tem dedicado seus estudos e investiga&ccedil;&otilde;es aos povos origin&aacute;rios, constituindo-se como etnologia ind&iacute;gena. Todavia, Florestan Fernandes &#91;15&#93; nos assinala que a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da etnologia como ci&ecirc;ncia acad&ecirc;mica, no segundo quartel do s&eacute;culo XX, em um contexto de grandes transforma&ccedil;&otilde;es na sociedade brasileira, de cria&ccedil;&atilde;o do ensino universit&aacute;rio de ci&ecirc;ncias sociais, tinha a cargo n&atilde;o s&oacute; o estudo dos povos ind&iacute;genas, mas tamb&eacute;m dos negros, camponeses e imigrantes. Como destaca, a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da etnologia focada sobre esses tr&ecirc;s setores populacionais refletia sua vincula&ccedil;&atilde;o com as preocupa&ccedil;&otilde;es com os grandes temas nacionais e a discuss&atilde;o dos problemas brasileiros. Os est&iacute;mulos advindos para esta configura&ccedil;&atilde;o resultavam das preocupa&ccedil;&otilde;es com a quest&atilde;o ind&iacute;gena, ou, como identifica, o "problema ind&iacute;gena", que se colocara no pa&iacute;s desde que a coloniza&ccedil;&atilde;o se iniciou; com o "problema do negro", associado aos desdobramentos da aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura e sua inser&ccedil;&atilde;o na sociedade brasileira; e dos problemas relacionados aos imigrantes que adentravam o pa&iacute;s oriundos de v&aacute;rios continentes. No contexto de conforma&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o do estado nacional brasileiro, a presen&ccedil;a ind&iacute;gena, negra e de outras culturas estrangeiras foi sucessivamente tema das discuss&otilde;es com a composi&ccedil;&atilde;o da diversidade &eacute;tnico-racial do pa&iacute;s, e sobre o destino e o lugar a que estas lhes seriam reservados na sociedade brasileira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Frente a essas motiva&ccedil;&otilde;es, a etnologia que foi se conformando trazia preocupa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; de ordem te&oacute;rico-metodol&oacute;gica, mas tamb&eacute;m de ordem pr&aacute;tica, como a que se verificava junto ao Servi&ccedil;o de Prote&ccedil;&atilde;o aos &Iacute;ndios (SPI), principal promotor e financiador das pesquisas etnol&oacute;gicas com povos ind&iacute;genas. Como salienta Fernandes, frente aos escassos recursos financeiros ent&atilde;o destinados &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, o SPI, que necessitava de informa&ccedil;&otilde;es sobre os povos ind&iacute;genas com os quais atuava, oferecia oportunidades para os jovens pesquisadores conduzirem seus estudos etnol&oacute;gicos, cujos trabalhos tinham um sentido pr&aacute;tico de orientar as a&ccedil;&otilde;es do &oacute;rg&atilde;o indigenista. Ser&aacute; precisamente a partir da atua&ccedil;&atilde;o junto ao SPI que uma primeira gera&ccedil;&atilde;o de etn&oacute;logos brasileiros, com forma&ccedil;&atilde;o e preparo t&eacute;cnico, atrav&eacute;s de intenso trabalho de campo junto aos ind&iacute;genas, produzir&aacute; etnografias sobre os seus modos de vida, as quais suscitar&atilde;o discuss&otilde;es bastante originais nos modos de abordar os povos origin&aacute;rios no pa&iacute;s. Desses, destaca-se Darcy Ribeiro, que em 1952 passou a dirigir a Se&ccedil;&atilde;o de Estudos do SPI, para o qual tamb&eacute;m se juntaram Eduardo Galv&atilde;o e Roberto Cardoso de Oliveira. No ano seguinte, em 1953, Darcy Ribeiro criou o Museu do &Iacute;ndio, no qual, dois anos depois, organizou o primeiro curso de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em antropologia cultural do Brasil &#91;16&#93;. A atua&ccedil;&atilde;o desses etn&oacute;logos junto ao &oacute;rg&atilde;o indigenista tamb&eacute;m conferia uma especificidade da etnologia que desenvolviam, de aliar a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento &agrave; defesa dos povos ind&iacute;genas frente &agrave;s viola&ccedil;&otilde;es e esbulhos territoriais sofridos. O envolvimento deles na cria&ccedil;&atilde;o do Parque Ind&iacute;gena do Xingu, o primeiro no pa&iacute;s visando a prote&ccedil;&atilde;o da sociodiversidade dos povos nativos da regi&atilde;o, exemplifica as preocupa&ccedil;&otilde;es que tinham com o destino dos povos ind&iacute;genas (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; ent&atilde;o, os levantamentos dos povos ind&iacute;genas no Brasil haviam sido realizados majoritariamente por investigadores estrangeiros, que desde o s&eacute;culo XIX percorreram os interiores do pa&iacute;s e registraram a exist&ecirc;ncia de centenas de povos e etnias, como Karl von den Steinen &#91;17,18&#93;, que visitou a regi&atilde;o do Rio Xingu, em 1884 e 1887, at&eacute; suas nascentes. Representando o in&iacute;cio das expedi&ccedil;&otilde;es puramente etnogr&aacute;ficas na Am&eacute;rica do Sul, e as teorias evolucionistas que vigoravam na Europa no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIX, von den Steinen se dirigiu ao alto Xingu para estudar o que considerava os povos "primitivos" em seu estado de isolamento ou, como explicitou, "primitivos como sa&iacute;ram das m&atilde;os da natureza", visando entender a pr&eacute;-hist&oacute;ria do esp&iacute;rito, a origem da arte e dos variados elementos culturais &#91;19&#93;. Descreveu com detalhes desde os adornos, indument&aacute;rias, t&eacute;cnicas materiais e representa&ccedil;&otilde;es pl&aacute;sticas, rituais de magia e de dan&ccedil;a, mas tamb&eacute;m observou a viol&ecirc;ncia a que os ind&iacute;genas do Xingu eram vitimados, os quais eram "ca&ccedil;ados como feras" por n&atilde;o ind&iacute;genas. Sensibilizado, em seu retorno ao Rio de Janeiro, em confer&ecirc;ncia com a presen&ccedil;a da fam&iacute;lia Imperial, solicitou &agrave; Princesa Isabel que tomasse provid&ecirc;ncias para "proteger os naturais deste continente". Assim, semeou a ideia do que adiante se materializou com a cria&ccedil;&atilde;o do Parque Ind&iacute;gena do Xingu, em 1961, quando os ind&iacute;genas ainda continuavam sofrendo viol&ecirc;ncias e invas&atilde;o de seus territ&oacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Curt Nimuendaj&uacute; (Curt Unckel), jovem autodidata etn&oacute;logo de origem alem&atilde; que ganhou fama internacional, chegou no Brasil no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX e trabalhou junto aos povos ind&iacute;genas at&eacute; sua morte, que ocorreu no alto Rio Solim&otilde;es, Amazonas, em 1945. Percorreu o Brasil visitando e convivendo com muitos povos ind&iacute;genas, registrando seus modos de vida, cosmologias e rituais, al&eacute;m de montar muitos acervos enviados para museus do Brasil e da Europa. Nimuendaj&uacute; tamb&eacute;m trabalhou em v&aacute;rios momentos junto ao SPI, com destacada atua&ccedil;&atilde;o em defesa dos ind&iacute;genas, cuja postura indigenista &eacute; aventada como hip&oacute;tese para sua morte por envenenamento, por um civil da regi&atilde;o &#91;20&#93; (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As viol&ecirc;ncias sofridas pelos ind&iacute;genas, registradas pelos etn&oacute;logos desde von den Steinen, evidenciaram muito prontamente a necessidade de compreend&ecirc;-los nos seus respectivos contextos de domina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; nesse sentido que os etn&oacute;logos que estavam na Se&ccedil;&atilde;o de Estudos do SPI na d&eacute;cada de 1950, sa&iacute;dos dos rec&eacute;m-criados centros universit&aacute;rios, com longos e s&oacute;lidos levantamentos junto aos povos ind&iacute;genas, e tamb&eacute;m registrando as viol&ecirc;ncias contra os povos ind&iacute;genas, destacar&atilde;o a necessidade de compreend&ecirc;-los n&atilde;o como sistemas sociais estacion&aacute;rios da hist&oacute;ria, inexoravelmente fadados a desaparecer, como ent&atilde;o se apregoava. Suas pesquisas salientar&atilde;o a necessidade de compreender a sua presen&ccedil;a e perman&ecirc;ncia ap&oacute;s cinco s&eacute;culos de coloniza&ccedil;&atilde;o, ainda que em situa&ccedil;&otilde;es historicamente muito adversas. Em um contexto antropol&oacute;gico dominado pelas teorias da acultura&ccedil;&atilde;o, que preconizavam como inevit&aacute;vel o desaparecimento das culturas nativas frente aos avan&ccedil;os da sociedade ocidental, a perman&ecirc;ncia dos povos ind&iacute;genas e de seus referenciais culturais, apesar das viol&ecirc;ncias e vicissitudes do contato inter&eacute;tnico, for&ccedil;ava estes etn&oacute;logos a novas abordagens e aportes te&oacute;ricos que apreendessem as din&acirc;micas e as condi&ccedil;&otilde;es de suas continuidades.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Neste sentido, Darcy Ribeiro &#91;21&#93; destacou o avan&ccedil;o das diferentes frentes econ&ocirc;micas no pa&iacute;s e seus efeitos sobre os povos ind&iacute;genas e seus territ&oacute;rios e, atrav&eacute;s do conceito de transfigura&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica, apontou o preconceito da sociedade branca como principal barreira para a incorpora&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas na sua forma&ccedil;&atilde;o nacional. Roberto Cardoso de Oliveira, por sua vez, tomando a no&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&atilde;o colonial de George Balandier &#91;12&#93;, focou nas situa&ccedil;&otilde;es de contatos inter&eacute;tnicos e nos conflitos hist&oacute;ricos e estruturais para demonstrar como os ind&iacute;genas estavam inseridos em duras rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, como as dos sistemas de seringais na Amaz&ocirc;nia, nos quais era fundamental a sua m&atilde;o-de-obra. Saindo do SPI e se transferindo para o Museu Nacional, ao longo da d&eacute;cada de 1960, Cardoso de Oliveira dedicou-se ao projeto de pesquisa "&Aacute;reas de Fric&ccedil;&atilde;o Inter&eacute;tnica no Brasil" e outros estudos comparativos sobre a organiza&ccedil;&atilde;o social dos ind&iacute;genas, al&eacute;m de organizar cursos de especializa&ccedil;&atilde;o lato senso na &aacute;rea de Antropologia Social, ampliando a forma&ccedil;&atilde;o de etn&oacute;logos no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os estudos etnol&oacute;gicos desenvolvidos em diferentes "&aacute;reas de fric&ccedil;&atilde;o inter&eacute;tnica" no pa&iacute;s, assentados em s&oacute;lidos levantamentos de campo, come&ccedil;aram a produzir novos par&acirc;metros para compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es dos ind&iacute;genas com a sociedade regional na qual estavam inseridos. Assim, demonstraram como as rela&ccedil;&otilde;es entre essas duas sociedades em oposi&ccedil;&atilde;o (&eacute;tnica e economicamente), em fric&ccedil;&atilde;o, possuem din&acirc;micas e contradi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias, que revelam que, n&atilde;o obstante constitu&iacute;rem-se a partir de interesses diametralmente opostos, s&atilde;o, paradoxalmente, interdependes. Em muitas situa&ccedil;&otilde;es, essas rela&ccedil;&otilde;es se estabeleceram a partir da incorpora&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas como reserva de m&atilde;o de obra ou como produtores especializados de certos artigos para o com&eacute;rcio. A manuten&ccedil;&atilde;o dos referenciais &eacute;tnicos importava para o sistema de domina&ccedil;&atilde;o da sociedade regional assegurar a sobre-explora&ccedil;&atilde;o do trabalho e da produ&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas. Assinalando para a reprodu&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es coloniais sobre os povos origin&aacute;rios por uma sociedade branca, entendidas como colonialismo interno, encapsulando os modos de vida ind&iacute;genas, destaca que, "<i>o que fizemos foi penetrar na dimens&atilde;o pol&iacute;tica da situa&ccedil;&atilde;o de contato a fim de descrever e analisar a estrutura de poder subjacente: o poder na esfera tribal, tradicional, e como ele &eacute; transfigurado quando a sociedade ind&iacute;gena se insere em outra maior, mais poderosa que lhe tira sua autonomia</i>." &#91;22&#93; (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A etnologia ind&iacute;gena que se desenvolve a partir de ent&atilde;o, e se ampliar&aacute; nas d&eacute;cadas seguintes com v&aacute;rios desdobramentos e acr&eacute;scimos, constituindo uma importante corrente do pensamento etnol&oacute;gico no pa&iacute;s, que ajudar&aacute; a superar a vis&atilde;o dos povos ind&iacute;genas como sociedades est&aacute;ticas, a-hist&oacute;ricas, cujo interesse etnogr&aacute;fico repousaria precisamente na exotiza&ccedil;&atilde;o das suas diferen&ccedil;as, para compreend&ecirc;-los na rela&ccedil;&atilde;o com as din&acirc;micas gerais do mundo moderno, nos contextos de expans&atilde;o das frentes capitalistas que, desde que a coloniza&ccedil;&atilde;o se iniciou, t&ecirc;m afetado profundamente os modos de vida dos povos ind&iacute;genas. Permitiram, desse modo, apreender o mundo colonial dentro do qual os ind&iacute;genas se encontravam, e estudar as mudan&ccedil;as que se processaram nas suas organiza&ccedil;&otilde;es sociais, em suas bases territoriais, em suas cosmologias e modos de vida. Estudos como os de Silvio Coelho dos Santos (1973) &#91;23&#93;<sup> </sup>sobre os Xokleng em Santa Catarina, por exemplo, trouxeram compreens&atilde;o e visibilidade &agrave; continuidade de exist&ecirc;ncia dos povos ind&iacute;genas no sul do Brasil, sobre os quais se afirmava equivocadamente a sua extin&ccedil;&atilde;o, inclusive pela pr&oacute;pria antropologia &#91;24&#93;. Al&eacute;m de visibilidade e compreens&atilde;o, seus estudos tamb&eacute;m denunciavam as prec&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es dessa exist&ecirc;ncia, com seus territ&oacute;rios invadidos e vivendo de explorados trabalhos subalternos, assim como a viol&ecirc;ncia e o genoc&iacute;dio f&iacute;sico e cultural a que estes povos estiveram submetidos no processo de contato, e a subsequente "pacifica&ccedil;&atilde;o" empreendida pelo Estado, na virada para o s&eacute;culo XX.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao colocar os ind&iacute;genas nos duros contextos de domina&ccedil;&atilde;o em que se encontram, a etnologia tem possibilitado tamb&eacute;m conhecer melhor os processos hist&oacute;ricos de forma&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, dos seus regimes de viol&ecirc;ncia e apagamentos, de suas constitui&ccedil;&otilde;es regionais. Situa&ccedil;&otilde;es como as vividas pelos Xokleng, e demais ind&iacute;genas do Sul do pa&iacute;s, s&oacute; podem ser compreendidas no contexto de produ&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica do Brasil como <i>nation building,</i> no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIX, quando se elabora um projeto de na&ccedil;&atilde;o a partir dos debates sobre o fim da escravatura, migra&ccedil;&atilde;o e o branqueamento da popula&ccedil;&atilde;o brasileira &#91;8,25&#93;. A promo&ccedil;&atilde;o da vinda de imigrantes de origem europeia para ocupar territ&oacute;rios ind&iacute;genas no sul do pa&iacute;s constitu&iacute;a parte das estrat&eacute;gias do projeto de branqueamento que se pensava para a popula&ccedil;&atilde;o brasileira. A viol&ecirc;ncia, o exterm&iacute;nio, a apropria&ccedil;&atilde;o territorial e a sobre-explora&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o de obra ind&iacute;gena, assim como dos afrodescendentes, portanto, constitu&iacute;ram parte do projeto de na&ccedil;&atilde;o que se pautava em teorias raciais que professavam uma superioridade racial branca e a tomavam como meta civilizat&oacute;ria a ser alcan&ccedil;ada &#91;26&#93;. Compreender os ind&iacute;genas nos contextos maiores em que est&atilde;o inseridos, no projeto de constru&ccedil;&atilde;o de na&ccedil;&atilde;o, tem permitido aclarar como a sua presen&ccedil;a n&atilde;o tem sido contingente, pitoresca ou de pouca representatividade, mas, como Florestan Fernandes j&aacute; destacava, historicamente est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o direta com os grandes temas nacionais e a discuss&atilde;o dos problemas brasileiros. Essa perspectiva permite trazer &agrave; luz tamb&eacute;m de que modo os ind&iacute;genas t&ecirc;m sido agentes efetivos na forma&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o do Brasil. Para um tema de grande relev&acirc;ncia atualmente, nos permite tamb&eacute;m tra&ccedil;ar um olhar sobre as ra&iacute;zes da intoler&acirc;ncia e dos racimos t&atilde;o evidenciados na discursividade sobre a branquitude nos estados do Sul do pa&iacute;s &#91;27&#93;(<a href="#fig5">Figura 5</a>).</font></p>     <p><a name="fig5"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig05.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, ao compreender os ind&iacute;genas em contextos de domina&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia, foi poss&iacute;vel tamb&eacute;m apreender as ag&ecirc;ncias e as resist&ecirc;ncias dos ind&iacute;genas, seus processos de reinven&ccedil;&atilde;o e reconstru&ccedil;&atilde;o enquanto coletividades &eacute;tnicas, conhecer seus protagonismos e formas pelas quais conseguiram resistir, se reorganizar e atualizar sua cultura na contemporaneidade &#91;28&#93;. Com fortes desdobramentos para a etnologia ind&iacute;gena desde ent&atilde;o, exigindo novos aportes interpretativos, o destaque para as v&aacute;rias formas de resist&ecirc;ncia e protagonismos ind&iacute;genas trouxe novas compreens&otilde;es sobre a presen&ccedil;a, perman&ecirc;ncia e representatividade dos povos ind&iacute;genas no pa&iacute;s. A presen&ccedil;a ind&iacute;gena se afirma, portanto, n&atilde;o como sobreviv&ecirc;ncia de um passado que n&atilde;o fora poss&iacute;vel eliminar totalmente, mas como resultado de constante resist&ecirc;ncia e mobiliza&ccedil;&atilde;o frente ao projeto colonizador. Dessas, pode-se citar os v&aacute;rios movimentos de reafirma&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica que se registra no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XX, em regi&otilde;es de coloniza&ccedil;&atilde;o antiga, entre povos ind&iacute;genas que a literatura apresentava como extintos, conferindo uma contra narrativa aos modos como a historiografia e as inst&acirc;ncias do poder dominante os omitiram e renegaram a sua perman&ecirc;ncia, assim como reinserindo a tem&aacute;tica &eacute;tnica-ind&iacute;gena no &acirc;mbito das discuss&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es de poder, tanto locais como nacionais &#91;29,30&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mobiliza&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena para a elabora&ccedil;&atilde;o e aprova&ccedil;&atilde;o do Cap&iacute;tulo V da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, que assegurou os direitos territoriais aos povos origin&aacute;rios ou, mais recentemente, no combate &agrave; COVID-19 e aos avan&ccedil;os das pol&iacute;ticas anti-ind&iacute;genas, tamb&eacute;m s&atilde;o exemplos dos protagonismos dos ind&iacute;genas em defesa da vida, da continuidade dos seus modos de organiza&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica e cultural e dos direitos sobre seus territ&oacute;rios. Esses protagonismos t&ecirc;m forjado novas concep&ccedil;&otilde;es do exerc&iacute;cio do trabalho etnogr&aacute;fico e da rela&ccedil;&atilde;o do etn&oacute;logo com os interlocutores de pesquisa. Sujeitos protagonistas de seus projetos de vida, articuladores pol&iacute;ticos de largo alcance, os ind&iacute;genas no presente pautam a exig&ecirc;ncia por uma antropologia dial&oacute;gica, colaborativa e comprometida na defesa dos povos origin&aacute;rios por reconhecimento, direitos e bem viver. Importante trabalho neste sentido &eacute; a publica&ccedil;&atilde;o do livro "<i>A Queda do C&eacute;u: Palavras de um xam&atilde; yanomami</i>", elaborado em conjunto pelo l&iacute;der ind&iacute;gena Davi Kopenawa e o antrop&oacute;logo Bruce Albert &#91;31&#93; (<a href="#fig6">Figura 6</a>).</font></p>     <p><a name="fig6"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a10fig06.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O protagonismo que se registra com grande visibilidade posiciona os ind&iacute;genas em muitas frentes de luta e de ocupa&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os, inclusive o acad&ecirc;mico, com a forma&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios etn&oacute;logos, que t&ecirc;m trazido valorosas contribui&ccedil;&otilde;es para o conhecimento sobre os povos origin&aacute;rios, as suas rela&ccedil;&otilde;es com a sociedade ocidental, e para a condu&ccedil;&atilde;o da pesquisa etnol&oacute;gica. Trazendo informa&ccedil;&otilde;es de suas viv&ecirc;ncias, de suas rela&ccedil;&otilde;es com a ancestralidade, com conhecimento da l&iacute;ngua, da cosmologia e da hist&oacute;ria profunda de seu povo, os etn&oacute;logos ind&iacute;genas t&ecirc;m oportunizado novas compreens&otilde;es que dificilmente um n&atilde;o ind&iacute;gena teria condi&ccedil;&otilde;es de alcan&ccedil;ar, possibilitando novas epistemologias &agrave; produ&ccedil;&atilde;o do trabalho acad&ecirc;mico. A premiada tese de Luiz Henrique Eloy Amado &#91;32&#93;, ind&iacute;gena Terena, por exemplo, oferece uma revis&atilde;o cr&iacute;tica da produ&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica sobre seu povo, na qual assinala como, ainda que involuntariamente, historiadores e antrop&oacute;logos que escreveram sem o devido cuidado, desconsiderando a conjuntura hist&oacute;rica do povo Terena, ajudam a ecoar os argumentos utilizados por aqueles que s&atilde;o contr&aacute;rios ao reconhecimento formal de seus territ&oacute;rios. Partindo de sua hist&oacute;ria de vida, de seu n&uacute;cleo familiar, e adentrando farta documenta&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, o autor rebate a caracteriza&ccedil;&atilde;o dos Terena como estrangeiros, frisando, inclusive, a sua importante participa&ccedil;&atilde;o na Guerra do Paraguai, em que atuaram do lado brasileiro num conflito que lhes custou a expuls&atilde;o de seus territ&oacute;rios tradicionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desse modo, a pesquisa etnol&oacute;gica atual n&atilde;o comporta mais o romantismo (e o colonialismo) de seus tempos iniciais em busca de descrever um "outro" distinto, distante, ex&oacute;tico &#91;33&#93;. Os que outrora foram considerados distantes objetos de pesquisas est&atilde;o hoje lado a lado na academia, nos f&oacute;runs pol&iacute;ticos, coet&acirc;neos, lendo muito criticamente o que tem sido produzido sobre eles, e propondo novos modos de compreens&atilde;o sobre a presen&ccedil;a dos povos origin&aacute;rios e de suas rela&ccedil;&otilde;es com a sociedade ocidental e as din&acirc;micas do mundo moderno. Est&atilde;o ajudando a romper com dogmas e autoritarismos da ci&ecirc;ncia acad&ecirc;mica, para dar lugar ao di&aacute;logo de saberes e tradi&ccedil;&otilde;es diferentes, &agrave; inclus&atilde;o de novas epistemologias, e &agrave; pesquisa colaborativa e comprometida com o destino dos povos origin&aacute;rios e seu bem viver.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. VERMEULEN, H. F. The German Invention of V&ouml;lkerkunde:  ethnological discourse in Europe and Asia, 1740-1798. <i>In: </i>EIGEN, S.;  LARRIMORE, M. (eds.). <i>The German Invention of Race</i>. Albany: State  University of New York Press, 2006, pp. 123-145.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 2. PETSCHELIES, E. <i>As Redes da Etnografia Alem&atilde; no  Brasil (1884-1929). Tese (doutorado) em Antropologia Social. </i>Campinas (SP):  Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Estadual de Campinas,  2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. KUPER, A. <i>Cultura,  a vis&atilde;o dos antrop&oacute;logos</i>.  Bauru (SP): EDUSC, 2002.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 4. TAUSSIG, M. <i>Xamanismo, colonialismo e o homem  selvagem: um estudo sobre o terror e a cura</i>. Rio de Janeiro: Paz e Terra,  1993.     </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 5. KUPER, A. <i>A reinven&ccedil;&atilde;o da sociedade primitiva:  transforma&ccedil;&atilde;o de um mito. </i>Recife (PE): Editora Universit&aacute;ria da UFPE, 2008. </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 6. MALINOWSKI, B. <i>Os argonautas do Pac&iacute;fico ocidental  - Cole&ccedil;&atilde;o os Pensadores</i>. S&atilde;o Paulo (SP): Abril Cultural, 1978.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 7. BOAS, F. As limita&ccedil;&otilde;es do m&eacute;todo comparativo da  antropologia. <i>In: Antropologia cultural - Sele&ccedil;&atilde;o de textos de Celso Castro</i>.  Rio de Janeiro (RJ): Jorge Zahar, 2010.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 8. OLIVEIRA, J. P. <i>O Nascimento do Brasil e Outros  ensaios: "pacifica&ccedil;&atilde;o", regime tutelar e forma&ccedil;&atilde;o de alteridade</i>. Rio de  Janeiro (RJ): Contracapa, 2016.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 9. FABIAN, J. <i>O Tempo e o Outro emergente. </i>Em O  Tempo e o Outro: como a antropologia estabelece seu objeto. Petr&oacute;polis (RJ):  Editora Vozes, 2013.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 10. EVANS-PRITCHARD, E. E. <i>Os Nuer</i>. S&atilde;o Paulo:  Editora Perspectiva, 1978.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 11. L&Eacute;VI-STRAUSS, C. <i>Tristes tr&oacute;picos</i>. Lisboa:  Edi&ccedil;&otilde;es 70, 1976.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 12. BALANDIER, G. A no&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&atilde;o colonial. <i>Cadernos  de Campo</i>, 3(3), 107-131, 1993.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 13. FANON, F. <i>Em defesa da revolu&ccedil;&atilde;o africana</i>.  Portugal: S&aacute; de Costa, 1980.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 14. GLUCKMAN, M. An&aacute;lise de uma situa&ccedil;&atilde;o social na  Zulul&acirc;ndia Moderna. <i>In: </i>FELDMAN-BIANCO, B. (org.). <i>Antropologia das  sociedades contempor&acirc;neas. </i>S&atilde;o Paulo (SP): Global, 1987, pp. 227-267.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 15. FERNANDES, F. <i>A investiga&ccedil;&atilde;o etnol&oacute;gica no Brasil:  ensaios sobre aspectos da forma&ccedil;&atilde;o e do desenvolvimento das ci&ecirc;ncias sociais na  sociedade brasileira</i>. 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Entre os abor&iacute;genes do Brasil  Central. <i>Biblioteca Digital Curt Nimuendaj&uacute;</i>, 1940.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 20. OLIVEIRA, J. P. Curt Nimuendaj&uacute; e a hist&oacute;ria Ticuna:  elementos para uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre a etnografia e o estatuto da  etnologia. <i>Tellus, </i>13(24), 2013, p. 227-259.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 21. RIBEIRO, D. <i>Os &iacute;ndios e a civiliza&ccedil;&atilde;o: a  integra&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas no Brasil moderno. </i>S&atilde;o Paulo (SP):  Companhia das Letras, 1996.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 22. OLIVEIRA, R. C. <i>O &iacute;ndio e o mundo dos brancos. </i>S&atilde;o  Paulo (SP): Livraria Pioneira Editora, 1972.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 23. SANTOS, S. C. &Iacute;ndios e brancos no sul do Brasil: a  dram&aacute;tica experi&ecirc;ncia dos Xokleng. Florian&oacute;polis (SC): Edeme, 1973.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 24. MAYBURY-LEWIS, D. (org.). <i>Dialectical societies:  the G&ecirc; and Bororo of Central Brazil. </i>Cambridge: Harvard University Press,  1979.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 25. SCHWARCZ, L. M. <i>O espet&aacute;culo das ra&ccedil;as:  cientistas, institui&ccedil;&otilde;es e quest&atilde;o racial no Brasil 1870-1930. </i>S&atilde;o Paulo  (SP): Companhia das Letras, 1993.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 26. WITTMANN, L. T. <i>O vapor e o botoque: imigrantes  alem&atilde;es e &iacute;ndios Xokleng no Vale do Itaja&iacute;/ SC (1850-1926). </i>Florian&oacute;polis  (SC): Letras Contempor&acirc;neas, 2007.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 27. OLIVEIRA, J. P.; FREIRE, C. A. R. <i>A presen&ccedil;a  ind&iacute;gena na forma&ccedil;&atilde;o do Brasil. </i>Bras&iacute;lia (DF): Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o,  Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o Continuada, Alfabetiza&ccedil;&atilde;o e Diversidade; LACED/Museu  Nacional, 2006.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 28. OLIVEIRA, J. P. <i>O nascimento do Brasil e outros  ensaios: "pacifica&ccedil;&atilde;o", regime tutelar e forma&ccedil;&atilde;o de alteridades. </i>Rio de  Janeiro (RJ): Contra Capa, 2016.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 30. IORIS, E. M. Memory regimes, struggles over resources  and ethnogenesis in the Brazilian Amazon. <i>Vibrant</i>, 15(2), 2018, p. 1-23.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 31. KOPENAWA, D.; BRUCE, A. <i>A queda do c&eacute;u: palavras  de um xam&atilde; yanomami. </i>S&atilde;o Paulo (SP): Companhia das Letras, 2015.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 32. AMADO, L. H. E. <i>Vukap&aacute;navo: O despertar do povo  Terena para os seus direitos. Movimento ind&iacute;gena e confronto pol&iacute;tico. </i>Rio  de Janeiro (RJ): E-papers, 2020.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 33. OLIVEIRA, J. P.; QUINTERO, P. Para uma antropologia  hist&oacute;rica dos povos ind&iacute;genas: reflex&otilde;es cr&iacute;ticas e perspectivas. <i>Horizontes  Antropol&oacute;gicos</i>, 26(58), 2020, p. 7-31.    </font></p>      ]]></body><back>
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