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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10.5935/2317-6660.20220069 OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A perp&eacute;tua germina&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica: pensamento grego impactou significativamente meios acad&ecirc;micos e sociais e continua estimulando a reflex&atilde;o </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Francisco Marshall</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Historiador e arque&oacute;logo, professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atua no Departamento de Hist&oacute;ria (IFCH) e no Curso de Bacharelado em Hist&oacute;ria da Arte (IA). &Eacute; pesquisador da Funda&ccedil;&atilde;o Alexander von Humboldt e membro da Academia Nacional de Ci&ecirc;ncias de Buenos Aires. &Eacute; tamb&eacute;m ensa&iacute;sta, colunista na imprensa, produtor e dirigente cultural e criador de m&uacute;sica atual</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>A Gr&eacute;cia &eacute; para n&oacute;s um g&eacute;rmen: nem um modelo, nem um esp&eacute;cime entre outros, mas um g&eacute;rmen</i>."     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (Cornelius Castoriadis, 1987) &#91;1&#93;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com esta frase, o fil&oacute;sofo greco-franc&ecirc;s Cornelius Castoriadis (1922-1997) equacionou s&eacute;culos de relacionamento hist&oacute;rico com a Gr&eacute;cia, do mundo romano &agrave;s v&aacute;rias vagas neocl&aacute;ssicas modernas, alcan&ccedil;ando tamb&eacute;m nossos meios acad&ecirc;micos e sociais. Por um lado, recusa-se a idealiza&ccedil;&atilde;o que predominou at&eacute; Nietzsche, por outro, evita-se a redu&ccedil;&atilde;o da cultura grega &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de similaridade formal com qualquer cultura. Ciente destes embates, a interpreta&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria cl&aacute;ssica  avan&ccedil;a e perpetua um di&aacute;logo que jamais se esgota, onde as fontes antigas conferem solidez &agrave; forma&ccedil;&atilde;o cultural e &agrave; aquisi&ccedil;&atilde;o de linguagens, conceitos, teorias e m&eacute;todos e, estrategicamente, alimentam a reflex&atilde;o necess&aacute;ria e d&atilde;o pot&ecirc;ncia &agrave; incid&ecirc;ncia social das ideias. Nesses processos, atuam modos din&acirc;micos de pensar o passado, ampliados por met&aacute;foras do m&eacute;todo: arqueologia, origem, causa e fundamento, para pensarmos a fonte causal portadora de mem&oacute;ria, a pot&ecirc;ncia que rege por anterioridade, e g&eacute;rmen, gen&eacute;tica e genoma, para compreendermos que aquela mem&oacute;ria codificada pode vir-a-ser a qualquer momento, como fen&ocirc;meno do mundo atual. A hist&oacute;ria grega n&atilde;o est&aacute; soterrada, mas plantada em adubo do tempo, pronta para rebrotar, regada pelas ideias e demandas de cada era.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Homero e a supera&ccedil;&atilde;o de paradigmas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por seu compromisso com a mem&oacute;ria ancestral, com as formas do mito e com um modelo de sociedade aristocr&aacute;tica, Homero (s&eacute;culo IX a.C.) tornou-se o monumento ideal para gera&ccedil;&otilde;es de vanguarda contraporem-se e formularem novos paradigmas, para gregos e para a humanidade sua herdeira. A primeira grande contesta&ccedil;&atilde;o a Homero foi comportamental e est&eacute;tica, na obra de poetas como Safo (630-570 a.C.), mulher que comp&ocirc;s uma nova m&uacute;sica animada por sexualidade aut&ocirc;noma e plena &#91;2&#93;. O n&uacute;cleo do legado grego &eacute; pag&atilde;o e er&oacute;tico, e identifica-se com personalidades divergentes, seguras de si e plenas de vitalidade. Esse ethos aparece tamb&eacute;m nos versos iconoclastas de novos guerreiros, hoplitas, donos de suas armaduras e de seus destinos, como Arqu&iacute;loco de Paros (712-648 a.C.), prontos para desdenhar as estruturas de poder tradicionais &#91;3&#93;. Nossa rela&ccedil;&atilde;o com a poesia l&iacute;rica e com aquele mundo de cria&ccedil;&otilde;es admir&aacute;veis em todas as artes &eacute; &eacute;tica e est&eacute;tica, com o encanto de obras-primas geradas por mentes e atitudes insurgentes (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a15fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A interpreta&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria cl&aacute;ssica avan&ccedil;a e perpetua um di&aacute;logo que jamais se esgota, onde as fontes antigas conferem solidez &agrave; forma&ccedil;&atilde;o cultural e &agrave; aquisi&ccedil;&atilde;o de linguagens, conceitos, teorias e m&eacute;todos."</b></styled-content> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi nessa &eacute;poca arcaica (s&eacute;culos VII-VI a.C.), entre a obra de Homero e o apogeu cl&aacute;ssico (s&eacute;culos V e IV a.C.), tempo de crise social, que se elaboraram os marcos da revolu&ccedil;&atilde;o cultural grega. Al&eacute;m da nova poesia (er&oacute;tica ou l&iacute;rica), desenvolveram-se as religi&otilde;es de mist&eacute;rios, movimentos religiosos em contraponto ao credo ol&iacute;mpico, na era que viu surgir a p&oacute;lis, regida por leis pactuadas, e tamb&eacute;m novas tecnologias, como a escrita (750 a.C.) e a moeda (s&eacute;culo VII a.C.). Nesse cen&aacute;rio de transforma&ccedil;&otilde;es, ergueu-se a fortaleza mais possante da hist&oacute;ria do conhecimento, a filosofia, em Mileto, onde Tales (dito "o fen&iacute;cio", 625-558 a.C.) predisse com sucesso o eclipse de 28 de maio de 585 a.C.. Fazendo bom uso da fecunda heran&ccedil;a oriental, de astronomia e geometria, o primeiro fil&oacute;sofo fez da an&aacute;lise emp&iacute;rica um novo fundamento para o conhecimento, um mudo de evid&ecirc;ncias, associado ao poder de teorias l&oacute;gicas. Na escola de Mileto floresceu por s&eacute;culos o racionalismo especulativo, aplicado a cosmos, cidade e corpo, e da filosofia proveio a etiologia - an&aacute;lise da aitia, causa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Thauma</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No di&aacute;logo Teeteto, e em outras passagens, Plat&atilde;o (427-367 a.C.) faz S&oacute;crates declarar que "o espanto (thauma) &eacute; &uacute;nico princ&iacute;pio da filosofia" (155d); Arist&oacute;teles (384-322 a.C.), pensando em qual fator gera um fil&oacute;sofo, diz: "<i>todos come&ccedil;am espantando-se de que todas as coisas s&atilde;o como s&atilde;o</i>." &#91;4&#93;. H&aacute; no pensar grego o vigor de atos inaugurais, que desvelam conceitos para edificar vis&otilde;es complexas sobre o mundo, a vida, a sociedade, o indiv&iacute;duo e seus dilemas. Naquela cole&ccedil;&atilde;o de espantos, lemos a g&ecirc;nese vigorosa de ideias fundamentais, o gloss&aacute;rio dos conceitos com que se pode examinar o que importa, em qualquer era. Com a compreens&atilde;o do princ&iacute;pio de ordem - logos, avan&ccedil;amos para examinar o fundamento que &eacute; tamb&eacute;m origem com poder para ordenar (arch&eacute;) ou, como fez Anaximandro (610-547 a.C.), movemo-nos para a an&aacute;lise do &aacute;peiron (ilimitado) ou das aporias (perplexidades) que inquietaram Plat&atilde;o em seus di&aacute;logos de maturidade. Desde Tales e sua proposta f&iacute;sica, <i>t&oacute; hydor</i> - a &aacute;gua - para examinar o mundo por crit&eacute;rio emp&iacute;rico, aqueles fil&oacute;sofos nos fizeram ver que o conhecimento depende de evid&ecirc;ncia (tekm&eacute;rion), para com isso compreendermos o fundamento seguro que desloca o mito em favor de saberes determinados e comprovados. Com esse crit&eacute;rio formal, a evid&ecirc;ncia, nutriu-se o direito, a medicina, a hist&oacute;ria e todas as ci&ecirc;ncias beneficiadas pela an&aacute;lise objetiva de fen&ocirc;menos, em uma sociedade em que a norma (n&oacute;mos) escrita se imp&ocirc;s como patrim&ocirc;nio coletivo para dar seguran&ccedil;a ao conv&iacute;vio e seus conflitos. Que bela li&ccedil;&atilde;o para n&oacute;s, que temerariamente recuamos para as fantasias por vezes terr&iacute;veis do mito, desdenhando o valor elementar das provas e sua an&aacute;lise l&oacute;gica para estribar cada diagn&oacute;stico ou senten&ccedil;a - mormente as que podem alterar o destino de muitas vidas e de uma na&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a15fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>N&oacute;mos </i>e isonomia</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O exame do n&oacute;mos - norma, conven&ccedil;&atilde;o ou lei (tamb&eacute;m modo musical) - leva-nos ao quadro hist&oacute;rico mais importante do mundo grego, a elabora&ccedil;&atilde;o de ju&iacute;zos sobre a natureza da lei e suas transforma&ccedil;&otilde;es na vida em sociedade. Partimos, ent&atilde;o, da cr&iacute;tica social aguda, apresentada pelo &uacute;ltimo &eacute;pico, Hes&iacute;odo (s&eacute;culo VII a.C.), em "<i>Os trabalhos e os Dias</i>" &#91;5&#93;. Escrito em era de luta civil e pen&uacute;ria, o texto mostra a indigna&ccedil;&atilde;o do autor com seu irm&atilde;o, Perses, e com reis-ju&iacute;zes "<i>comedores de presentes" (dor&oacute;phagoi</i>), cuja iniquidade produz mal para todos - inclusive para quem julga beneficiar-se de injusti&ccedil;as. Ent&atilde;o o poeta antep&otilde;e o prefixo dys (torto, deformado) e forma a palavra que expressa a lei deturpada, de ju&iacute;zes corruptos e homens indevidamente ambiciosos, a disnomia, grande mal moral e social. Algumas d&eacute;cadas ap&oacute;s Hes&iacute;odo, S&oacute;lon de Atenas (638-558 a.C.), legislador (nomotheta) que encaminhou Atenas para sua moderniza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, retomou a palavra n&oacute;mos para pensar a boa norma que poderia conter a arrog&acirc;ncia (<i>hybris</i>) dos poderosos e levar ao equil&iacute;brio na polis, a eunomia, boa norma (<i>prefixo eu</i>), nome de um de seus poemas, em que se cantava e dan&ccedil;ava regra amig&aacute;vel para a p&oacute;lis &#91;6&#93; (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a15fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Duas gera&ccedil;&otilde;es ap&oacute;s as reformas de S&oacute;lon (594 a.C.), quando Atenas superou a tirania e avan&ccedil;ou para sua revolu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, na reforma de Cl&iacute;stenes (510-508 a.C.), agregou-se a nomos o prefixo iso para designar o regime em que se trataria da equaliza&ccedil;&atilde;o da sociedade por via jur&iacute;dica - a isonomia, termo com que os gregos designaram o que n&oacute;s chamamos democracia, e tomamos por modelo sem lhe observar corretamente fundamentos e pot&ecirc;ncias. A palavra democracia, utilizada pela primeira vez somente em 424 a.C., quando o regime j&aacute; vivia crises severas, designava soberania popular, motor da isonomia. Esta palavra, contudo, al&eacute;m da matriz jur&iacute;dica, implicava tamb&eacute;m a dimens&atilde;o pol&iacute;tica da assimetria econ&ocirc;mica, os conflitos entre ricos e pobres, e o imperativo de achar-se solu&ccedil;&atilde;o harm&ocirc;nica, para o bem de todos, na p&oacute;lis. &Eacute; preciso pensar a natureza e o poder de boas leis (<i>eunomiai</i>) para reformas sociais que solucionem conflitos, e n&atilde;o para regras deformadas que ampliem iniquidades (<i>disnomia</i>), como ocorre nas manipula&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas em se agravam a viol&ecirc;ncia e a mis&eacute;ria. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Da isonomia (democracia) cl&aacute;ssica, resta-nos aprender o modo ousado com que mobilizavam o conjunto de cidad&atilde;os, por meio de sorteios e muitas atribui&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas para todos, algo que tangenciamos, no Brasil, na experi&ecirc;ncia do or&ccedil;amento participativo, a partir de 1989 em Porto Alegre, ali&aacute;s insuflado pelo mesmo Castoriadis (aqui citado em ep&iacute;grafe) &#91;7&#93;. Carecemos igualmente de vers&otilde;es atualizadas do principal foro judici&aacute;rio ateniense cl&aacute;ssico, a <i>heliaia</i>, tribunal popular. &Agrave; falta deste ou de formas de controle popular da pr&aacute;tica judicial, expomo-nos a situa&ccedil;&otilde;es penosas, como os casos de <i>lawfare</i> recentemente evidenciados, ou vemos o risco da aliena&ccedil;&atilde;o de classe, cevando-se oligarquia no seio da democracia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Respondamos, ainda, &agrave;s cr&iacute;ticas vulgares &agrave; democracia cl&aacute;ssica: seus males, escravismo, ginecofobia e xenofobia, s&atilde;o conhecidos e hoje facilmente combatidos; n&atilde;o h&aacute; por que descartar o exame das rela&ccedil;&otilde;es entre aquela experi&ecirc;ncia e nossas condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, como o fez, admiravelmente, o historiador ingl&ecirc;s Moses Finley, nas obras "<i>Democracia antiga e moderna</i>" &#91;8&#93; e "<i>Escravid&atilde;o antiga e ideologia moderna</i>" &#91;9&#93;, avatares no trato da recep&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de mem&oacute;ria e hist&oacute;ria cl&aacute;ssicas. Mais que herdar palavra, precisamos compreender o fen&ocirc;meno hist&oacute;rico, e dar &agrave; sua mem&oacute;ria gen&eacute;tica as muta&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias em nossa era &#91;10&#93; (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a15fig04.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Emancipa&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Grau maior de nossa vida no pensamento grego realiza-se quando passamos a especular com palavras hel&ecirc;nicas e com elas criar conceitos atuais, modernos e enraizados no fecundo territ&oacute;rio cl&aacute;ssico. &Eacute; o que fez Immanuel Kant (1724-1804) em sua "<i>Fundamenta&ccedil;&atilde;o da metaf&iacute;sica dos costumes</i>" &#91;4&#93;, quando partiu do conceito antigo de autonomia, antes usado para designar a cidade que vive pelas pr&oacute;prias leis &#91;11,12&#93;, para passar a referir a independ&ecirc;ncia moral do indiv&iacute;duo. Foi neste contexto que Kant cunhou o neologismo complementar e oposto, heteronomia, que funde heteros (o outro) e nomos (regra), para designar os casos em que a norma &eacute; imposta de fora para dentro, pelo Estado ou pela religi&atilde;o, &agrave; custa da aquisi&ccedil;&atilde;o &eacute;tica dos princ&iacute;pios por op&ccedil;&atilde;o ou determina&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo. Desta matriz evoluiu um dos mais percucientes conceitos de &eacute;tica e filosofia pol&iacute;tica, tratado especialmente por Marcel Gauchet &#91;13&#93; para pensar religi&atilde;o, sociedade, poder, Estado e liberdade, do mundo antigo ao atual. Esta discuss&atilde;o se atualiza no momento em que cresce o poder da tutela religiosa e de outras fontes de informa&ccedil;&atilde;o manipuladoras na sociedade contempor&acirc;nea, &agrave; custa da liberdade individual e da democracia, exposta a um contrabando de princ&iacute;pios que pode feri-la letalmente. Resta-nos recuperar e renovar, a cada gera&ccedil;&atilde;o, o vigor das fontes do pensamento grego, para muitas e nobres finalidades, na necess&aacute;ria miss&atilde;o de ampliarmos os caminhos para a emancipa&ccedil;&atilde;o e a felicidade.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Da isonomia (democracia) cl&aacute;ssica, restanos aprender o modo ousado com que mobilizavam o conjunto de cidad&atilde;os, por meio de sorteios e muitas atribui&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas para todos, algo que tangenciamos, no Brasil, na experi&ecirc;ncia do or&ccedil;amento participativo."</b></styled-content> </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Esta discuss&atilde;o se atualiza no momento em que cresce o poder da tutela religiosa e de outras fontes de informa&ccedil;&atilde;o manipuladoras na sociedade contempor&acirc;nea, &agrave; custa da liberdade individual e da democracia, exposta a um contrabando de princ&iacute;pios que pode feri-la letalmente."</b></styled-content> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. CASTORIADIS, C. <i>A p&oacute;lis grega e a cria&ccedil;&atilde;o da democracia. In: As encruzilhadas do labirinto 2 - os dom&iacute;nios do homem</i>. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra, p. 268-275, 1987.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. SAFO. <i>Poemas e fragmentos</i>. Traduzido por Joaquim Brasil Fontes. S&atilde;o Paulo (SP): Editora Iluminuras, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. CORREA, P. C. <i>Armas e Var&otilde;es: a guerra na l&iacute;rica de Arqu&iacute;loco</i>. S&atilde;o Paulo (SP): Editora da Unesp, 1998.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. KANT, I. <i>Funda&ccedil;&atilde;o da Metaf&iacute;sica dos Costumes</i>. Coimbra: Edi&ccedil;&otilde;es 70, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. HES&Iacute;ODO. <i>Os Trabalhos e os Dias</i>. Introdu&ccedil;&atilde;o, tradu&ccedil;&atilde;o e coment&aacute;rios de Mary Camargo Neves Lafer, 3ª ed. S&atilde;o Paulo (SP): Iluminuras, 1990.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. BARROS, G. N. M. <i>S&oacute;lon de Atenas. A cidadania antiga</i>. S&atilde;o Paulo (SP): Humanitas FFLCH/USP, 1999.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. CASTORIADIS, C. <i>O futuro da democracia</i> &#91;YouTube&#93;. Confer&ecirc;ncia proferida em Porto Alegre em setembro de 1991. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Zdey-q6hDHo&amp;feature=share&amp;si=ELPmzJkDCLju2KnD5oyZMQ" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=Zdey-q6hDHo&amp;feature=share&amp;si=ELPmzJkDCLju2KnD5oyZMQ</a>. Acesso em: 03 nov. 2022.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. FINLEY, M. I. <i>Democracia antiga e moderna</i>. Rio de Janeiro (RJ): Graal, 1988.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. FINLEY, M. I. E<i>scravid&atilde;o antiga e ideologia moderna</i>. Rio de Janeiro (RJ): Graal, 1991.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. FINLEY, M. I. U<i>so y abuso de la historia</i>. Barcelona: Ed. Cr&iacute;tica, 1984.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. SCHNEEWIND, J. B. T<i>he invention of autonomy: a history of modern moral philosophy</i>. New York: Cambridge University Press, 1998.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. SWAINE, L. The origins of autonomy. <i>History of Political Thought</i>, 37(2), p. 216-237, 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. GAUCHET, M. A d&iacute;vida do sentido e as ra&iacute;zes do Estado. In: CLASTRES, P. et al., eds. <i>Guerra, religi&atilde;o e poder</i>. Coimbra: Edi&ccedil;&otilde;es 70, 1980.    </font></p>      ]]></body><back>
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