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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20220072</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O futuro da saúde: o que as ciências médicas aprenderam com a pandemia de COVID-19]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10.5935/2317-6660.20220072 REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O futuro da sa&uacute;de: o que as ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas aprenderam com a pandemia de COVID-19</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paula Gomes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Escritora, doutora em cinema e especialista em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao longo da hist&oacute;ria, diferentes &aacute;reas da ci&ecirc;ncia foram fundamentais para lidar com problemas de sa&uacute;de e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Paulo Saldiva, m&eacute;dico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), lembra que por muito tempo os sanitaristas, os projetos de planejamento urbano e os servi&ccedil;os de higiene p&uacute;blica foram muito mais eficientes em lidar com doen&ccedil;as do que a medicina. Esse quadro s&oacute; se altera na segunda metade do s&eacute;culo XIX, quando as ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas passam a acumular importantes descobertas no laborat&oacute;rio. "<i>Foi a descri&ccedil;&atilde;o das doen&ccedil;as sob o microsc&oacute;pio, as vacinas e o antibi&oacute;tico que aumentaram muito a expectativa de vida e a capacidade de lidarmos com as doen&ccedil;as</i>", afirma.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante a pandemia de COVID-19, a CT&amp;I foi essencial para o sequenciamento do DNA do v&iacute;rus e o desenvolvimento de vacinas. O enfrentamento da pandemia deixar&aacute; alguns legados para as ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas. Um deles &eacute; a tecnologia envolvida no desenvolvimento da vacina de RNA mensageiro. Ela permite que as vacinas carreguem uma parcela do c&oacute;digo gen&eacute;tico do v&iacute;rus que cont&eacute;m a "receita" para a produ&ccedil;&atilde;o de prote&iacute;nas. Munidas dessas instru&ccedil;&otilde;es, as c&eacute;lulas humanas s&atilde;o capazes de produzir prote&iacute;nas que constituem o v&iacute;rus. S&atilde;o essas prote&iacute;nas estranhas ao nosso corpo que estimulam o sistema imunol&oacute;gico a produzir anticorpos capazes de combat&ecirc;-las. Saldiva prev&ecirc; que essa nova tecnologia possibilitar&aacute; n&atilde;o somente o desenvolvimento de vacinas mais eficazes para diversos agentes infecciosos, mas tamb&eacute;m a cria&ccedil;&atilde;o de terap&ecirc;uticas contra doen&ccedil;as como o c&acirc;ncer: "<i>poderemos ativar o sistema imune contra prote&iacute;nas espec&iacute;ficas expressas pelas c&eacute;lulas tumorais. Ser&aacute; poss&iacute;vel inclusive desenhar um rem&eacute;dio espec&iacute;fico para aquele c&acirc;ncer daquele indiv&iacute;duo</i>." (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, o pesquisador pondera que esses avan&ccedil;os possivelmente beneficiar&atilde;o apenas parcelas mais ricas da popula&ccedil;&atilde;o mundial: "<i>A pandemia tamb&eacute;m mostrou que embora a ci&ecirc;ncia possa muito, n&oacute;s ainda n&atilde;o chegamos a uma solu&ccedil;&atilde;o para o dilema que acompanha o desenvolvimento tecnol&oacute;gico: essas novas tecnologias s&atilde;o desenhadas para quem mais precisa ou somente para quem pode pagar por elas? Teremos que decidir o quanto da ci&ecirc;ncia m&eacute;dica &eacute; commodity e o quanto da ci&ecirc;ncia m&eacute;dica &eacute; um bem comum</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O epidemiologista Pedro Hallal, professor do Departamento de Gin&aacute;stica e Sa&uacute;de da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), acredita que essa &eacute; uma das principais quest&otilde;es que precisam ser enfrentadas pelas ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas. A ind&uacute;stria curativa e individualizada ainda &eacute; muito mais potente do que a ind&uacute;stria coletiva e preventiva, e isso sobrecarrega os sistemas de sa&uacute;de nacionais, que n&atilde;o conseguem fazer frente a problemas que j&aacute; enfrentamos hoje e enfrentaremos ainda mais no futuro, como doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas e epidemias. "<i>A sa&uacute;de brasileira est&aacute; muito mais preparada para lidar com pessoas doentes do que com popula&ccedil;&otilde;es doentes. &Eacute; essa a l&oacute;gica que precisa mudar. A CT&amp;I precisa inverter essa pir&acirc;mide e investir mais em preven&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de, e menos em tratamento</i>".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Durante a pandemia de COVID-19, a CT&amp;I foi essencial para o sequenciamento do DNA do v&iacute;rus e o desenvolvimento de vacinas."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro legado da pandemia para as ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas &eacute; a experi&ecirc;ncia adquirida em vigil&acirc;ncia gen&ocirc;mica, que permite o monitoramento &aacute;gil de muta&ccedil;&otilde;es e variantes de agentes infecciosos. Os esfor&ccedil;os de vigil&acirc;ncia gen&ocirc;mica mobilizados no enfrentamento dessa pandemia foram in&eacute;ditos. As epidemias e pandemias do passado, quando comparadas a de COVID-19, se espalharam lentamente, de modo que n&atilde;o t&iacute;nhamos at&eacute; ent&atilde;o um modelo de monitoramento e resposta r&aacute;pida para muta&ccedil;&otilde;es e varia&ccedil;&otilde;es de agentes infecciosos. "<i>Basta lembrarmos que foi preciso mais de 100 anos para que a epidemia de c&oacute;lera atingisse todos os continentes. Foi preciso inventar o navio a vapor, o Canal de Suez e o Canal do Panam&aacute;</i>", aponta Saldiva. Hoje, com o adensamento populacional e o mundo interconectado, a vigil&acirc;ncia global e r&aacute;pida ser&aacute; cada vez mais fundamental.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A principal barreira para a vigil&acirc;ncia gen&ocirc;mica eficaz &eacute; a desigualdade econ&ocirc;mica entre os pa&iacute;ses. Em um cen&aacute;rio ideal, todos os pa&iacute;ses precisariam ter infraestrutura e profissionais especializados para sequenciar as amostras do agente infeccioso que circula em seu territ&oacute;rio. Estamos muito longe dessa realidade hoje. Poucos pa&iacute;ses apresentam esse tipo de autonomia de sequenciamento e isso &eacute; grave, pois, como visto na pandemia de COVID-19, quanto mais cedo se descobre uma muta&ccedil;&atilde;o ou variante, melhor - e elas podem ocorrer em qualquer pa&iacute;s. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Gulnar Azevedo e Silva, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acredita que a coopera&ccedil;&atilde;o entre pa&iacute;ses precisa avan&ccedil;ar muito para que possamos atingir um n&iacute;vel de vigil&acirc;ncia gen&ocirc;mica melhor no futuro: "<i>o mundo &eacute; globalizado e s&atilde;o enormes as desigualdades entre pa&iacute;ses e dentro deles. O apoio a pa&iacute;ses pobres que ainda encontram grande dificuldade de criar e manter seus sistemas de informa&ccedil;&atilde;o deve se dar a partir da coopera&ccedil;&atilde;o internacional e a troca de experi&ecirc;ncias. Ainda &eacute; grande o caminho a ser feito pelas ag&ecirc;ncias multilaterais no sentido de que este processo ocorra em todos os pa&iacute;ses</i>".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Aliados digitais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na d&eacute;cada de 1950 o conhecimento m&eacute;dico duplicava a cada 50 anos. Em 1980 esse n&uacute;mero caiu para sete anos, e hoje ele duplica em poucos meses. O fluxo e o volume de conhecimento ultrapassaram tanto a capacidade humana de absorv&ecirc;-los que se quisermos acompanh&aacute;-los em tempo real, ser&aacute; preciso contar cada vez mais com o aux&iacute;lio das m&aacute;quinas. A ci&ecirc;ncia de dados se tornar&aacute; t&atilde;o importante para as ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas que j&aacute; &eacute; esperado o desenvolvimento de algoritmos tanto preditivos quanto diagn&oacute;sticos e mesmo terap&ecirc;uticos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sobre a presen&ccedil;a cada vez mais ub&iacute;qua de sistemas de dados e intelig&ecirc;ncia artificial (IA) no exerc&iacute;cio da medicina, Hallal acredita que devem ser utilizados para antecipar problemas, e n&atilde;o resolv&ecirc;-los ap&oacute;s aparecerem: "<i>Ficou n&iacute;tido durante a pandemia de COVID-19 que, muitas vezes, lid&aacute;vamos com o eco dos problemas ao usarmos informa&ccedil;&otilde;es de mortes ao inv&eacute;s de casos novos, por exemplo</i>". Outro problema apontado por Silva &eacute; relativo ao processo de coleta destes dados, que precisa ser aprimorado para que os algoritmos possam nos fornecer informa&ccedil;&otilde;es mais precisas: "<i>&eacute; necess&aacute;rio a disponibilidade de dados de qualidade para que os modelos possam predizer de forma mais acurada os desfechos em sa&uacute;de. Portanto, o investimento em sistemas de informa&ccedil;&atilde;o com base em dados reais e de qualidade deve estar entre as prioridades das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de</i>." (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a18fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma preocupa&ccedil;&atilde;o recorrente ao discutir esse assunto &eacute; a possibilidade dos algoritmos tornarem a medicina menos humana. Saldiva acredita que n&atilde;o corremos esse risco. Pelo contr&aacute;rio: o pesquisador acredita que a ci&ecirc;ncia de dados e a IA ir&atilde;o libertar os m&eacute;dicos, que deixar&atilde;o de ser reposit&oacute;rios de conhecimento para se tornarem profissionais mais completos e emp&aacute;ticos. "<i>Liberando espa&ccedil;o, voc&ecirc; se dedica a outras coisas &#91;...&#93; Vamos poder dar aten&ccedil;&atilde;o a outros dom&iacute;nios na &aacute;rea da sa&uacute;de que pertencem ao campo das humanidades: o exerc&iacute;cio da alteridade, de se colocar no lugar do outro, desenhar uma perspectiva de tratamento que se adeque a valores, cren&ccedil;as e possibilidade econ&ocirc;micas de cada um. Eu prevejo que o futuro da medicina vai incorporar necessariamente um grande conte&uacute;do de humanidades</i>", diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A pandemia tamb&eacute;m mostrou que embora a ci&ecirc;ncia possa muito, n&oacute;s ainda n&atilde;o chegamos a uma solu&ccedil;&atilde;o para o dilema que acompanha o desenvolvimento tecnol&oacute;gico: essas novas tecnologias s&atilde;o desenhadas para quem mais precisa ou somente para quem pode pagar por elas?"</b></styled-content> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Do laborat&oacute;rio para as m&iacute;dias</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O enfrentamento da pandemia de COVID-19 demandou - ou catalisou - uma mudan&ccedil;a no paradigma comunicacional entre pesquisadores e sociedade. Hoje podemos acompanhar pesquisadores por meio de seus perfis pessoais e profissionais em redes sociais e tamb&eacute;m em novas plataformas de m&iacute;dia, como podcasts e canais de v&iacute;deo. Hallal avalia positivamente essa comunica&ccedil;&atilde;o direta do pesquisador com a popula&ccedil;&atilde;o, sem a necessidade de intermedi&aacute;rios. "<i>A CT&amp;I se reinventou durante a pandemia no que se refere a comunica&ccedil;&atilde;o: os pesquisadores tiveram que aprender a se comunicar diretamente com a popula&ccedil;&atilde;o, especialmente por meio da m&iacute;dia, em detrimento a um modelo antigo em que os pesquisadores se comunicavam prioritariamente com seus pares. Essa mudan&ccedil;a veio para ficar</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal mudan&ccedil;a, inclusive, pode se provar uma importante arma para o combate &agrave; desinforma&ccedil;&atilde;o, um mal que n&atilde;o &eacute; novo, mas que, com as redes sociais, se tornou muito maior e capaz de eclipsar esfor&ccedil;os e conquistas da ci&ecirc;ncia. "<i>Temos vacinas para p&oacute;lio h&aacute; mais de 70 anos, mas a p&oacute;lio est&aacute; voltando. Teremos que lidar e entender os fatores que impedem que as pessoas utilizem essa vacina, que v&atilde;o al&eacute;m da quest&atilde;o econ&ocirc;mica e tecnol&oacute;gica. Pertencem a valores culturais</i>", alerta Saldiva. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"O investimento em sistemas de informa&ccedil;&atilde;o com base em dados reais e de qualidade deve estar entre as prioridades das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de."</b></styled-content> </font></p>      ]]></body>
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