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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciência para a guerra e para a paz: uso militar ajudou a ciência a avançar, mas o papel da ciência na busca pela paz é fundamental]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10.5935/2317-6660.20220074 REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia para a guerra e para a paz: uso militar ajudou a ci&ecirc;ncia a avan&ccedil;ar, mas o papel da ci&ecirc;ncia na busca pela paz &eacute; fundamental</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista, escritora, divulgadora de ci&ecirc;ncias, editora executiva da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, e m&atilde;e apaixonada por escrever (especialmente sobre ci&ecirc;ncia)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Guerra e ci&ecirc;ncia t&ecirc;m um longo - e complicado - relacionamento. Em diversos momentos da hist&oacute;ria, a ci&ecirc;ncia foi empregada para fins b&eacute;licos, aprimorando estrat&eacute;gias, log&iacute;stica e armamentos. Por outro lado, isso fez a ci&ecirc;ncia avan&ccedil;ar, e muitas inova&ccedil;&otilde;es que surgiram no contexto militar hoje s&atilde;o utilizadas na sa&uacute;de, no transporte e no dia a dia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, a comunidade cient&iacute;fica desempenha um papel central na demarca&ccedil;&atilde;o de fronteiras para a cria&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o de instrumentos para a guerra, mas tamb&eacute;m para desenvolver padr&otilde;es e mecanismos &eacute;ticos que permitam evitar, cada vez mais, os conflitos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>A CT&amp;I tem potencial para desenvolver v&aacute;rios tipos de armas e temos tido exemplos disso h&aacute; anos. Mas acredito que nossa maior preocupa&ccedil;&atilde;o deva ser investir em CT&amp;I para que ela possa atuar no combate ao desenvolvimento de novas armas</i>", aponta Elisa Orth, vice-coordenadora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Qu&iacute;mica e professora do Departamento de Qu&iacute;mica da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR). A pesquisadora explica que a preocupa&ccedil;&atilde;o com o uso de armas mais letais - como as armas qu&iacute;micas e biol&oacute;gicas - levou &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de acordos internacionais, como a Conven&ccedil;&atilde;o Mundial sobre Armas Qu&iacute;micas, regulada pela Organiza&ccedil;&atilde;o para Proibi&ccedil;&atilde;o de Armas Qu&iacute;micas (<i>Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons - OPCW</i>). Este acordo internacional, assinado em Paris, em 1993, pro&iacute;be o desenvolvimento, a produ&ccedil;&atilde;o, a estocagem e o uso de armas. "<i>Mas vale ressaltar o boom dos c&aacute;lculos computacionais e machine learning,&nbsp;que t&ecirc;m grande potencial para desenvolver novas armas qu&iacute;micas</i>", alerta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tecnologias avan&ccedil;adas s&atilde;o vistas como elementos essenciais para um ex&eacute;rcito bem-sucedido. A Primeira Guerra Mundial ficou conhecida como "a guerra dos qu&iacute;micos" - isso porque, ao longo do conflito, cientistas de ambos os lados desenvolveram produtos qu&iacute;micos cada vez mais potentes (os mais usados foram o g&aacute;s de cloro, o g&aacute;s de mostarda e o g&aacute;s de fosg&ecirc;nio) e tamb&eacute;m elaboraram medidas contra os novos gases inimigos. Os f&iacute;sicos tamb&eacute;m tiveram uma importante participa&ccedil;&atilde;o, desenvolvendo tecnologias de comunica&ccedil;&atilde;o sem fio e m&eacute;todos baseados em som para detectar submarinos. Mas foi a Segunda Guerra Mundial que marcou o crescimento do uso militar da ci&ecirc;ncia, especialmente da f&iacute;sica. O conflito pode ser chamado de "a guerra dos f&iacute;sicos": al&eacute;m da bomba at&ocirc;mica (talvez a mais not&oacute;ria colabora&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica para a guerra), o desenvolvimento do radar foi fundamental, permitindo a detec&ccedil;&atilde;o de navios e aeronaves inimigas, assim como da criptografia matem&aacute;tica e da ci&ecirc;ncia de foguetes, com seus avan&ccedil;os tendo um efeito significativo em cada disciplina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, fundador e coordenador do N&uacute;cleo de Estudos Estrat&eacute;gicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor convidado do N&uacute;cleo de Pesquisa em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), a partir da Primeira Guerra Mundial, a comunidade cient&iacute;fica iniciou sua colabora&ccedil;&atilde;o com o esfor&ccedil;o de guerra das grandes pot&ecirc;ncias. No intervalo entre as duas guerras mundiais, as pot&ecirc;ncias estavam convencidas da import&acirc;ncia da pesquisa cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica para as guerras futuras. "<i>Mas foi a partir da Segunda Guerra Mundial que os militares tomaram consci&ecirc;ncia do car&aacute;ter estrat&eacute;gico da ci&ecirc;ncia e tecnologia na guerra moderna</i>", afirma em artigo para a revista ComCi&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O advento da Guerra Fria solidificou os v&iacute;nculos entre as institui&ccedil;&otilde;es militares e a ci&ecirc;ncia acad&ecirc;mica, particularmente nos Estados Unidos e na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Assim, o financiamento militar continuou a se expandir e se espalhou para as ci&ecirc;ncias sociais, naturais, e para campos totalmente novos, como a computa&ccedil;&atilde;o. "<i>Interven&ccedil;&otilde;es b&eacute;licas s&atilde;o, em sua maioria, causadas por escassez ou busca pelo controle de recursos como alimentos, &aacute;gua, minerais e, principalmente, fontes energ&eacute;ticas, e tamb&eacute;m dom&iacute;nio das rotas de escoamento e distribui&ccedil;&atilde;o desses recursos. O conhecimento cient&iacute;fico permite melhorias em todos esses processos</i>", explica Frederico Genezini, pesquisador do Instituto de Pesquisas Energ&eacute;ticas e Nucleares (IPEN).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ci&ecirc;ncia da guerra</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De todos os avan&ccedil;os cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos feitos durante a Segunda Guerra Mundial, poucos recebem tanta aten&ccedil;&atilde;o quanto a bomba at&ocirc;mica. Desenvolvidas durante o conflito em meio a uma corrida armamentista entre as pot&ecirc;ncias do Eixo (Alemanha, It&aacute;lia e Jap&atilde;o) e dos Aliados (Reino Unido, Fran&ccedil;a, Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e Estados Unidos), as bombas lan&ccedil;adas sobre Hiroshima e Nagasaki moldaram o s&eacute;culo XX e a posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos no cen&aacute;rio global. Essa corrida armamentista inaugurou uma nova era da ci&ecirc;ncia que mudou a diplomacia, o poder das for&ccedil;as militares e o desenvolvimento tecnol&oacute;gico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, a bomba at&ocirc;mica n&atilde;o foi o &uacute;nico avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico advindo do conflito. O primeiro sistema de radar pr&aacute;tico foi produzido em 1935 pelo f&iacute;sico brit&acirc;nico Robert Watson-Watt, e em 1939, a Inglaterra construiu uma rede de esta&ccedil;&otilde;es de radar ao longo de suas costas sul e leste. O uso do radar foi determinante para a guerra, pois ajudou as for&ccedil;as aliadas a detectar navios e avi&otilde;es inimigos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A guerra tamb&eacute;m avan&ccedil;ou as pesquisas sobre o motor a jato. A avia&ccedil;&atilde;o e os motores aeron&aacute;uticos eram uma preocupa&ccedil;&atilde;o militar mesmo antes da Segunda Guerra Mundial. Os motores a jato surgiram nos meses finais do conflito como forma de dar aos ca&ccedil;as uma vantagem sobre seus advers&aacute;rios. Em 1930, Frank Whittle, engenheiro ingl&ecirc;s da <i>Royal Air Force</i>, do Reino Unido, registrou a primeira patente da tecnologia. Com o in&iacute;cio da guerra, o governo brit&acirc;nico desenvolveu avi&otilde;es baseados nos projetos de Whittle. O primeiro avi&atilde;o aliado a usar propuls&atilde;o a jato decolou em 15 de maio de 1941. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Embora hoje exista muita informa&ccedil;&atilde;o, tecnologia e conhecimento dispon&iacute;veis, isso n&atilde;o significa que haja paz e justi&ccedil;a para todos."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi tamb&eacute;m durante a Segunda Guerra que os Estados Unidos come&ccedil;aram a desenvolver novas m&aacute;quinas para calcular trajet&oacute;rias bal&iacute;sticas. Apesar de j&aacute; estarem em desenvolvimento bem antes do in&iacute;cio do conflito, a guerra exigiu uma r&aacute;pida progress&atilde;o dessa tecnologia, resultando na produ&ccedil;&atilde;o de novos e mais potentes computadores. Um exemplo foi o <i>Electronic Numerical Integrator and Computer</i> (ENIAC). Com cerca de dois metros de altura, pesando 30 toneladas e ocupando 180 metros quadrados, o ENIAC conseguia realizar milhares de c&aacute;lculos em um segundo. Originalmente projetado para fins militares, o computador n&atilde;o foi conclu&iacute;do at&eacute; 1945, sendo lan&ccedil;ado ao p&uacute;blico apenas em 1946. Por&eacute;m, antes do ENIAC, na Gr&atilde;-Bretanha, o matem&aacute;tico e cientista da computa&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nico Alan Turing inventou uma m&aacute;quina eletromec&acirc;nica chamada Bombe que ajudou a decifrar os c&oacute;digos alem&atilde;es. Embora a m&aacute;quina de Turing n&atilde;o fosse tecnicamente um computador - especialmente considerando-se as m&aacute;quinas dos dias de hoje - o Bombe foi um precursor do Colossus, uma s&eacute;rie de computadores eletr&ocirc;nicos brit&acirc;nicos. A inven&ccedil;&atilde;o de Turing aparece no filme Enigma, de 2001. Enigma &eacute; uma m&aacute;quina eletromec&acirc;nica de criptografia utilizada pelos nazistas para transmitir mensagens aos seus submarinos atrav&eacute;s de c&oacute;digos ultra seguros. O filme de Michael Apted, embora seja uma obra ficcional, trata do embate real entre a intelig&ecirc;ncia alem&atilde; e inglesa e aborda parte da vida de Turing e o uso de sua m&aacute;quina para quebrar o c&oacute;digo nazista (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a20fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De certa forma, a pr&oacute;pria internet come&ccedil;ou como um projeto militar. A Rede da Ag&ecirc;ncia de Pesquisas em Projetos Avan&ccedil;ados (Advanced Research Projects Agency Network - ARPANET) come&ccedil;ou durante a Guerra Fria como uma forma de os militares dos Estados Unidos desenvolverem um sistema de compartilhamento de informa&ccedil;&otilde;es sem a necessidade de um centro de comando. Ao criar uma rede robusta e flex&iacute;vel, os Estados Unidos poderiam garantir que, em caso de cat&aacute;strofe, o acesso aos supercomputadores do pa&iacute;s permanecesse intacto. A tecnologia possibilitava que v&aacute;rios computadores se conectassem diretamente uns aos outros, permitindo que as pessoas compartilhassem informa&ccedil;&otilde;es em velocidades sem precedentes. A ARPANET deu as bases para a internet como a conhecemos hoje. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>Nos &uacute;ltimos anos, muita &ecirc;nfase tem sido dada ao desenvolvimento de armas e ve&iacute;culos aut&ocirc;nomos ou operados remotamente, que permitem reduzir drasticamente a perda de vidas em esfor&ccedil;os b&eacute;licos</i>", explica Guilherme Soares Zahn, pesquisador do Centro do Reator de Pesquisas (IPEN-CNEN). O pesquisador aponta que as armas "<i>inteligentes</i>" (que usam intelig&ecirc;ncia artificial) possibilitam a tomada de decis&otilde;es instantaneamente, o que permite a cria&ccedil;&atilde;o de novos campos de batalha. Um exemplo s&atilde;o os domos virtuais de seguran&ccedil;a que, por meio de c&aacute;lculos de bal&iacute;stica de m&iacute;sseis, permitem sua intercepta&ccedil;&atilde;o. Os pr&oacute;prios m&iacute;sseis tamb&eacute;m podem tomar decis&otilde;es na mesma velocidade. "<i>Essas duas mudan&ccedil;as, junto com diversas outras que v&ecirc;m sendo introduzidas a partir de avan&ccedil;os cient&iacute;fico-tecnol&oacute;gicos, v&ecirc;m mudando drasticamente a l&oacute;gica de conflitos b&eacute;licos, bem como trazendo diversos novos problemas &eacute;ticos &agrave; mesa de discuss&atilde;o</i>", diz.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de inicialmente terem sido desenvolvidas com fins b&eacute;licos, essas tecnologias continuaram avan&ccedil;ando e alcan&ccedil;aram outras finalidades, desta vez pac&iacute;ficas. O radar, por exemplo, tornou-se essencial para os meteorologistas avan&ccedil;arem no conhecimento dos padr&otilde;es clim&aacute;ticos e aumentou a capacidade de realizar previs&otilde;es meteorol&oacute;gicas. Os motores a jato agora s&atilde;o usados pelas companhias a&eacute;reas para transportar passageiros por todo o mundo. O desenvolvimento cont&iacute;nuo tornou os computadores progressivamente menores, mais poderosos e mais acess&iacute;veis. E n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel imaginar o mundo hoje sem a internet.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute;. V&aacute;rias outras inova&ccedil;&otilde;es - hoje comuns em nosso dia a dia - originaram-se atrav&eacute;s de pesquisas militares. Esse &eacute; o caso da borracha sint&eacute;tica. O suprimento global de borracha natural foi suficiente at&eacute; a Segunda Guerra Mundial, quando as pot&ecirc;ncias do Eixo cortaram quase todo o suprimento de borracha da &Aacute;sia (o maior fornecedor do produto). Como a borracha era essencial para as opera&ccedil;&otilde;es militares - utilizada desde esteiras de ve&iacute;culos e m&aacute;quinas, a cal&ccedil;ados, roupas e equipamentos de soldados - os Aliados foram for&ccedil;ados a encontrar materiais alternativos e assim desenvolveram a borracha sint&eacute;tica. O mesmo aconteceu com a supercola e a fita adesiva, criadas para suprir as necessidades dos ex&eacute;rcitos e hoje amplamente comercializadas. E tamb&eacute;m como o forno micro-ondas. Originalmente utilizada no desenvolvimento de radares (a capacidade de produzir comprimentos de onda mais curtos atrav&eacute;s do uso de um <i>magnetron</i> de cavidade resultou em maior precis&atilde;o em dist&acirc;ncias maiores), a capacidade de micro-ondas para cozinhar alimentos foi descoberta por acidente. Enquanto pesquisava o uso das micro-ondas em radares, o engenheiro norte-americano Percy Spencer notou que uma barra de chocolate em seu bolso havia derretido. Isso levou &agrave; percep&ccedil;&atilde;o de que o equipamento poderia ser reaproveitado para aquecer e cozinhar alimentos (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a20fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das inova&ccedil;&otilde;es mais importantes foi o GPS. Desenvolvido na d&eacute;cada de 1960, a ideia era usar sat&eacute;lites para determinar a posi&ccedil;&atilde;o de um usu&aacute;rio na Terra medindo sua dist&acirc;ncia de tr&ecirc;s sat&eacute;lites perif&eacute;ricos em um processo conhecido como trilatera&ccedil;&atilde;o. Embora o sistema tenha se tornado totalmente operacional em mar&ccedil;o de 1994, ele capturou o interesse do p&uacute;blico muito antes disso. Hoje, a tecnologia &eacute; usada em produtos como carros e telefones, e tamb&eacute;m &eacute; aplicada na pesquisa de terremotos e <i>geocaching</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>Um bom monitoramento, aliado a um trabalho eficiente de processamento da informa&ccedil;&atilde;o, permite a r&aacute;pida identifica&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es suspeitos que podem indicar potenciais ataques, tanto b&eacute;licos como criminosos</i>", aponta Genezini. Para o pesquisador, o monitoramento eficiente possibilita a identifica&ccedil;&atilde;o e a preven&ccedil;&atilde;o de crimes, bem como a solu&ccedil;&atilde;o dos crimes j&aacute; cometidos. No mesmo sentido, a comunica&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida, segura e eficiente entre os atores do sistema de preven&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial para a&ccedil;&otilde;es integradas e cir&uacute;rgicas, aumentando muito sua efici&ecirc;ncia e reduzindo os danos colaterais.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Os surpreendentes avan&ccedil;os alcan&ccedil;ados pela ci&ecirc;ncia nessas &uacute;ltimas d&eacute;cadas t&ecirc;m mudado nossas condi&ccedil;&otilde;es de vida, e as inova&ccedil;&otilde;es produzidas s&atilde;o uma oportunidade para desenvolver as sociedades e alcan&ccedil;ar a paz."</b></styled-content> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma quest&atilde;o de sa&uacute;de</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Junto com os avan&ccedil;os da tecnologia de micro-ondas e computadores, a Segunda Guerra Mundial trouxe mudan&ccedil;as importantes no campo da medicina. A necessidade de tratar milh&otilde;es de soldados exigiu o desenvolvimento e uso de novas t&eacute;cnicas que levaram a melhorias nas transfus&otilde;es de sangue, enxertos de pele e cirurgia, assim como o desenvolvimento de novos medicamentos. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A ci&ecirc;ncia foi se afastando das causas da guerra e assumindo as causas da paz, da democracia e da &eacute;tica."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante a Primeira Guerra Mundial, a pandemia de influenza (tamb&eacute;m conhecida como Gripe Espanhola) entre 1918 e 1919 impactou significativamente os ex&eacute;rcitos e motivou os militares norte-americanos a desenvolver a primeira vacina contra a gripe. Os cientistas come&ccedil;aram a isolar os v&iacute;rus na d&eacute;cada de 1930 e o Ex&eacute;rcito dos Estados Unidos ajudou a patrocinar o desenvolvimento de uma vacina contra eles nos anos 1940. A primeira vacina contra a gripe foi aprovada para uso militar em 1945 e para uso civil em 1946. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Previamente ao uso generalizado de antibi&oacute;ticos nos Estados Unidos, mesmo pequenos cortes e arranh&otilde;es podiam levar a infec&ccedil;&otilde;es fatais. O cientista escoc&ecirc;s Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, mas foi s&oacute; durante a Segunda Guerra que os Estados Unidos come&ccedil;aram a produzi-la em massa para o tratamento m&eacute;dico. Antes da tomada da Normandia, que iniciou a invas&atilde;o da Europa Ocidental ocupada pelos alem&atilde;es em 1944, os cientistas prepararam 2,3 milh&otilde;es de doses do medicamento. Da Segunda Guerra Mundial at&eacute; hoje, a penicilina continua sendo uma forma fundamental de tratamento usada para evitar infec&ccedil;&otilde;es bacterianas (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n4/a20fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ci&ecirc;ncia da paz</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se por um lado as armas ficaram mais sofisticadas, a ci&ecirc;ncia aplicada &agrave; sa&uacute;de, o desenvolvimento das ci&ecirc;ncias sociais em termos de constru&ccedil;&atilde;o de meios preventivos de resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos, a diplomacia e o direito internacional s&atilde;o o outro lado dessa moeda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"<i>O papel da ci&ecirc;ncia em todos os aspectos sempre &eacute; central. Ela que norteia como os avan&ccedil;os do conhecimento devem ser aplicados e como nos precaver. Ela que alerta sobre perigos e traz solu&ccedil;&otilde;es para problemas. Ela &eacute; o alicerce para o desenvolvimento de uma sociedade consciente e que busca a paz</i>", enfatiza Orth.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desta forma, a ci&ecirc;ncia &eacute; a chave para um futuro pr&oacute;spero e pac&iacute;fico. Desde sua proclama&ccedil;&atilde;o pela Confer&ecirc;ncia Geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura (Unesco) em 2001, o Dia Mundial da Ci&ecirc;ncia para a Paz e o Desenvolvimento &eacute; comemorado em todo o mundo para demonstrar porque a ci&ecirc;ncia &eacute; relevante para a vida cotidiana das pessoas e envolv&ecirc;-las em debates sobre essas quest&otilde;es. Ao vincular a ci&ecirc;ncia mais estreitamente &agrave; sociedade, a data visa garantir que os cidad&atilde;os sejam mantidos informados sobre os desenvolvimentos da ci&ecirc;ncia e ressalta o papel que os cientistas desempenham na amplia&ccedil;&atilde;o de nossa compreens&atilde;o do planeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Embora hoje exista muita informa&ccedil;&atilde;o, tecnologia e conhecimento dispon&iacute;veis, isso n&atilde;o significa que haja paz e justi&ccedil;a para todos. De acordo com dados da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), atualmente o mundo enfrenta o maior n&uacute;mero de conflitos violentos desde o fim da Segunda Guerra Mundial: no total, 25% dos habitantes do mundo est&atilde;o em &aacute;reas afetadas por conflitos. Para Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, os surpreendentes avan&ccedil;os alcan&ccedil;ados pela ci&ecirc;ncia nessas &uacute;ltimas d&eacute;cadas t&ecirc;m mudado nossas condi&ccedil;&otilde;es de vida, e as inova&ccedil;&otilde;es produzidas s&atilde;o uma oportunidade para desenvolver as sociedades e alcan&ccedil;ar a paz. "<i>As ci&ecirc;ncias melhoram nosso bem-estar, facilitam a vida cotidiana e derrubam as fronteiras que pareciam imut&aacute;veis nas &aacute;reas de medicina, transporte, comunica&ccedil;&atilde;o e partilha de conhecimentos. Al&eacute;m disso, s&atilde;o um motor de crescimento e riqueza</i>", afirmou Azoulay em declara&ccedil;&atilde;o no Dia Mundial da Ci&ecirc;ncia para a Paz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A import&acirc;ncia dessa intera&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e sociedade &eacute; que a CT&amp;I impacta a sociedade, determinando assim a extens&atilde;o de seu desenvolvimento, enquanto a sociedade pode influenciar o desenvolvimento da CT&amp;I em dire&ccedil;&atilde;o a comunidades pac&iacute;ficas. "<i>O desenvolvimento da ci&ecirc;ncia, que &eacute; um ramo que pressup&otilde;e colabora&ccedil;&atilde;o entre pa&iacute;ses, para al&eacute;m dos equipamentos e armamentos de dissuas&atilde;o, pode e deve influenciar na qualidade de vida, reduzindo a causa prim&aacute;ria de conflitos</i>", afirma Zahn.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seu texto "Ci&ecirc;ncia sem o Pent&aacute;gono", publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 1985, Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, afirma a import&acirc;ncia de usar a ci&ecirc;ncia para fins pac&iacute;ficos. Mais recentemente, em entrevista &agrave; Revista Pesquisa Fapesp no ano passado, Janine Ribeiro voltou a afirmar o papel fundamental da ci&ecirc;ncia na defesa da democracia. "<i>Houve um per&iacute;odo em que o desenvolvimento cient&iacute;fico esteve muito associado &agrave; pesquisa militar. Um grande exemplo foi o desenvolvimento da bomba at&ocirc;mica, por volta de 1945. Mas ocorreu uma mudan&ccedil;a interessante. A ci&ecirc;ncia foi se afastando das causas da guerra e assumindo as causas da paz, da democracia e da &eacute;tica. Foi se voltando mais para a quest&atilde;o da sa&uacute;de, do meio ambiente, da sustentabilidade</i>", afirmou.</font></p>      ]]></body>
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