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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O papel da universidade na pandemia: frente a uma série de desmontes, a universidade manteve-se fundamental, ativa e solidária em ações nas mais diversas áreas para o enfrentamento da maior crise do século]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O papel da universidade na pandemia: frente a uma s&eacute;rie de desmontes, a universidade manteve-se fundamental, ativa e solid&aacute;ria em a&ccedil;&otilde;es nas mais diversas &aacute;reas para o enfrentamento da maior crise do s&eacute;culo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Karina Francisco</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista, mestranda em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural, ama ler sobre ci&ecirc;ncia e fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pensar a pandemia &eacute; abranger todos os &acirc;mbitos da sociedade moderna: moradia, sa&uacute;de, economia, educa&ccedil;&atilde;o, transporte, alimenta&ccedil;&atilde;o e lazer, entre tantas outras &aacute;reas afetadas pelo coronav&iacute;rus. Tamb&eacute;m &eacute; lembrar de todas as a&ccedil;&otilde;es feitas para seu contingenciamento e os atores envolvidos nas pr&aacute;ticas, ideias, projetos e iniciativas. Entre eles, a universidade com certeza foi um dos mais importantes devido a suas in&uacute;meras iniciativas in&eacute;ditas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em uma segunda-feira agitada no Hospital Universit&aacute;rio da Universidade de S&atilde;o Paulo (HU-USP), Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, consegue um tempo em seu primeiro dia p&oacute;s-f&eacute;rias para conversar sobre algo que viu de perto: a pandemia. Ele se recordou de muitos epis&oacute;dios vividos, lamentou a perda de colegas e ficou visivelmente abalado com as mem&oacute;rias tristes. Como m&eacute;dico patologista, foi uma das pessoas que mais se debru&ccedil;ou no estudo do v&iacute;rus e seu contingenciamento, desde seu in&iacute;cio, em 2020. Em seus 40 anos como professor na universidade, pela primeira vez pode se debru&ccedil;ar em apenas uma fun&ccedil;&atilde;o: estudar o v&iacute;rus. N&atilde;o havia mais reuni&otilde;es de &oacute;rg&atilde;os colegiados, relat&oacute;rios, atividades corriqueiras de pesquisador, mas apenas um objetivo: descobrir como derrotar o v&iacute;rus, o que inclu&iacute;a de qu&ecirc; morriam as crian&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O m&eacute;dico se abalou ao contar sobre a primeira v&iacute;tima crian&ccedil;a. "Era uma crian&ccedil;a que tinha sido enviada pela m&atilde;e para cuidar de uma av&oacute; que morava na mesma comunidade porque na &eacute;poca se considerava que as crian&ccedil;as n&atilde;o eram afetadas pela doen&ccedil;a. E a crian&ccedil;a morre de COVID. Eu conversei com a m&atilde;e, me coloquei no lugar dela que, sem saber, tinha exposto a crian&ccedil;a e a perdera. Voc&ecirc; n&atilde;o consegue voltar indiferente a uma situa&ccedil;&atilde;o dessa", conta o pesquisador, acrescentando que nunca tinha sido religioso, mas naquele dia ele rezou. Rezou para tentar encontrar um sentido em tudo aquilo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Saldiva tamb&eacute;m relata, em meio ao caos que via no hospital, sobre seus pensamentos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s manifesta&ccedil;&otilde;es que negavam a exist&ecirc;ncia do v&iacute;rus ou sua alta letalidade. "Eu tenho um privil&eacute;gio doloroso de conhecer um pouco a doen&ccedil;a. Eu me defrontava, &agrave;s vezes, com manifesta&ccedil;&otilde;es na rua de gente que negava a exist&ecirc;ncia da doen&ccedil;a. Isso me causava desassossego e desconformidade. Porque morreram muitos colegas meus, morreu quem manteve a cidade funcionando para que os outros pudessem parar e essas pessoas n&atilde;o tinham muita alternativa na pandemia. S&atilde;o as mortes invis&iacute;veis".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pandemia reproduziu o imagin&aacute;rio da desigualdade brasileira. Saldiva lembrou da trag&eacute;dia da pandemia de COVID-19. Uma trag&eacute;dia que n&atilde;o pode ser esquecida ou amenizada com o tempo, precisa se manter na mem&oacute;ria do brasileiro. "Eu tenho esperan&ccedil;a que o mundo saia disso com uma vis&atilde;o um pouco mais solid&aacute;ria", finaliza o professor. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>As a&ccedil;&otilde;es </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; preciso manter na mem&oacute;ria o papel estrat&eacute;gico das universidades e seus profissionais e estudantes nessa jornada. As a&ccedil;&otilde;es tomadas dentro das universidades para colaborar com a mitiga&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus foram, na maioria das vezes, iniciativas individuais. Na maior parte dos casos, n&atilde;o houve uma reuni&atilde;o de Conselho Universit&aacute;rio ou uma decis&atilde;o da reitoria de quais a&ccedil;&otilde;es seriam tomadas para o enfrentamento da pandemia. N&atilde;o houve a&ccedil;&atilde;o coordenada ou um plano estrat&eacute;gico, mas houve solidariedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, diversas universidades em toda a extens&atilde;o territorial decidiram se envolver na luta. Um exemplo &eacute; a parceria entre o Centro de Estudos SoU_Ci&ecirc;ncia, situado na Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp) &#91;1&#93;, e a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Dirigentes de Institui&ccedil;&otilde;es Federais de Ensino Superior (ANDIFES), que juntos desenvolveram estudo com o intuito de mapear e compreender como as universidades p&uacute;blicas, institutos de pesquisa e tecnol&oacute;gicos, pesquisadores, estudantes, t&eacute;cnicos, professores e cientistas brasileiros trabalharam (e ainda trabalham) no enfrentamento da pandemia da COVID-19. Como principal produto desse trabalho conjunto, foi constru&iacute;do o painel informativo "Universidades em Defesa da Vida: atua&ccedil;&atilde;o das federais na pandemia da COVID-19" &#91;2&#93;, compondo um quadro sistematizado das a&ccedil;&otilde;es desenvolvidas pelas universidades p&uacute;blicas federais em diferentes &aacute;reas de conhecimento. O painel &eacute; composto por cinco eixos: organiza&ccedil;&atilde;o para atuar no contexto da pandemia; aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de; extens&atilde;o e solidariedade; pesquisa, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o; e a&ccedil;&otilde;es em comunica&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n1/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pesquisa apresenta uma perspectiva ampliada de garantia do direito &agrave; vida, abarcando a&ccedil;&otilde;es na linha de frente em sa&uacute;de e pesquisas relacionadas &agrave; preven&ccedil;&atilde;o, tratamento e controle da pandemia, a&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas de direitos humanos, combate &agrave; fome, redu&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidades sociais e apoio &agrave; educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, bem como informa&ccedil;&otilde;es acerca da produ&ccedil;&atilde;o bibliogr&aacute;fica no tema e estudos de casos sobre atua&ccedil;&otilde;es regionais, centros e temas emergentes e contribui&ccedil;&otilde;es mais not&aacute;veis. Pedro Arantes, coordenador do Centro de Estudos SoU_Ci&ecirc;ncia &#91;1&#93; e professor da Escola de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncia Humanas da Unifesp, participa da constru&ccedil;&atilde;o do painel e defende que ele &eacute; de extrema import&acirc;ncia para organiza&ccedil;&atilde;o em futuras crises e como mem&oacute;ria. "&Eacute; um painel que serve para mostrar quem esteve em defesa da vida nesse per&iacute;odo cr&iacute;tico da hist&oacute;ria brasileira. Estamos fazendo uma documenta&ccedil;&atilde;o para fortalecer o sistema, conhecer as boas pr&aacute;ticas, fazer com que universidades saibam fazer atua&ccedil;&otilde;es em momentos de crise e se preparem para novas situa&ccedil;&otilde;es como essa", justifica o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas os exemplos n&atilde;o param por a&iacute;. Os cursos de engenharia, representados por grupos de pesquisa, desenvolveram ventiladores mais baratos para que a fabrica&ccedil;&atilde;o fosse mais r&aacute;pida e menos custosa. A &aacute;rea da geografia montou um painel de acompanhamento dos casos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a &aacute;rea do ensino n&atilde;o foi diferente, as universidades tamb&eacute;m assessoraram a educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica nesse momento da transi&ccedil;&atilde;o para o ensino remoto, "atuando junto &agrave; secretaria de educa&ccedil;&atilde;o e diretorias de ensino com as escolas, &agrave;s vezes at&eacute; caso a caso, ajudando a construir material did&aacute;tico, ferramentas, softwares, ou treinando para uso dos softwares para fazer o ensino remoto", comenta Arantes. Esses s&atilde;o s&oacute; alguns exemplos do n&iacute;vel de envolvimento e resposta das universidades nesse per&iacute;odo cr&iacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Houve tamb&eacute;m uma parte de pesquisa socioecon&ocirc;mica, o pessoal, sobretudo da &aacute;rea de Economia e de Ci&ecirc;ncias Sociais, fez uma an&aacute;lise da crise do ponto de vista de perda de renda, aumento de pobreza, aumento da fome e efici&ecirc;ncia do aux&iacute;lio", exemplifica o pesquisador. Como aponta Remi Castioni, professor da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), as universidades trouxeram solu&ccedil;&otilde;es, acompanhamentos e ajudaram a popula&ccedil;&atilde;o nos mais diversos aspectos, nas mais diversas &aacute;reas, como &eacute; sua miss&atilde;o primordial. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b> "As universidades trouxeram solu&ccedil;&otilde;es, acompanhamentos e ajudou a popula&ccedil;&atilde;o nos mais diversos aspectos, nas mais diversas &aacute;reas, como &eacute; sua miss&atilde;o primordial."</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Os percal&ccedil;os </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao mesmo tempo em que se afirma o papel fundamental das pesquisas e a&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas, deve-se lembrar da falta de apoio e recursos que as universidades v&ecirc;m sofrendo h&aacute; anos com um desmonte estatal. Diminui&ccedil;&atilde;o de incentivos dos mais diversos, al&eacute;m de ataques sobre sua efici&ecirc;ncia, import&acirc;ncia, responsabilidade e postura. "O Brasil infelizmente foi pego despreparado dado o desmanche que n&oacute;s est&aacute;vamos vivendo de pol&iacute;ticas de ci&ecirc;ncia e tecnologia, de sa&uacute;de e ataques &agrave;s universidades nos &uacute;ltimos anos", explica Arantes. "Fomos pegos despreparados com as nossas institui&ccedil;&otilde;es fragilizadas com cortes de financiamento e os hospitais universit&aacute;rios, SUS e laborat&oacute;rios de pesquisa, todos de algum modo defasados em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; tecnologia, suprimentos, equipamentos, perda de pesquisadores e fuga de c&eacute;rebros", completa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mesmo com a precariedade e o sucateamento, a universidade p&uacute;blica manteve-se vital no enfrentamento da trag&eacute;dia da pandemia da COVID-19. Saldiva, dentro de um hospital universit&aacute;rio, viveu as transforma&ccedil;&otilde;es, sendo imposs&iacute;vel n&atilde;o comparar com uma t&aacute;tica de guerra. Os hospitais centrais decidiram atender apenas casos de COVID-19 e profissionais especializados nas mais diversas &aacute;reas foram atender pacientes cr&iacute;ticos na UTI. Um curso de telemedicina foi necess&aacute;rio para preparar esses profissionais de outras &aacute;reas e estudantes residentes, o que reduziu em 30% a mortalidade no hospital.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tudo isso em um contexto de desorganiza&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica por parte do governo. "Mesmo assim, a rea&ccedil;&atilde;o do sistema p&uacute;blico brasileiro foi heroica. Foi importante conseguir limitar o tamanho da trag&eacute;dia. Evidentemente que, se n&oacute;s tiv&eacute;ssemos uma a&ccedil;&atilde;o coordenada incentivada corretamente e apoiada pelo Governo Federal, o sucesso das iniciativas teria sido muito maior", completa Arantes. O professor tamb&eacute;m exemplifica a&ccedil;&otilde;es in&eacute;ditas desse per&iacute;odo como um sistema de compras p&uacute;blicas de vacina de quase 50 hospitais universit&aacute;rios para que houvesse insumos em maiores escalas e com maior desconto.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b> "Mesmo com a precariedade e o sucateamento, a universidade p&uacute;blica manteve-se vital no enfrentamento da trag&eacute;dia da pandemia da COVID-19."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os professores Saldiva e Arantes tamb&eacute;m real&ccedil;am a import&acirc;ncia das ag&ecirc;ncias de fomento nesse per&iacute;odo, que redirecionaram seus recursos para a &aacute;rea e aprovaram diversos projetos de conten&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus. A velocidade em que tudo aconteceu pela necessidade imposta foi muito maior do que o tempo m&eacute;dio em que a ci&ecirc;ncia ocorre - isso devido ao engajamento dos diversos atores do sistema. A resposta das universidades foi uma colabora&ccedil;&atilde;o que partiu de seus grupos, assim a&ccedil;&otilde;es coordenadas foram tomadas em uma escala in&eacute;dita. "Cria-se uma gest&atilde;o transdisciplinar de uma crise que &eacute; melhor do que qualquer projeto transdisciplinar acad&ecirc;mico, porque foi gerada a partir da necessidade. Voc&ecirc; aproximou mais saberes distintos com muita efici&ecirc;ncia porque havia essa necessidade", explica Saldiva. Sem o apoio da Federa&ccedil;&atilde;o, muitos sistemas se uniram, juntando secretarias estaduais, municipais, o pr&oacute;prio SUS e as universidades em a&ccedil;&otilde;es conjuntas n&atilde;o unificadas. As verbas complementares federais chegaram muito tardiamente em valores muito baixos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como relata o pesquisador, a universidade foi capaz de atingir regi&otilde;es remotas e contar com a participa&ccedil;&atilde;o da sociedade civil como doadora frente a uma necessidade, inclusive com o terceiro setor captando recursos. A universidade p&ocirc;de entender como as comunidades menos favorecidas se organizam e como &eacute; exequ&iacute;vel trabalhar com elas. A capacidade de colabora&ccedil;&atilde;o foi o papel estrat&eacute;gico das universidades nesse per&iacute;odo. Como Arantes pontua, "a maneira de mobiliza&ccedil;&atilde;o da pandemia n&atilde;o pode ser uma exce&ccedil;&atilde;o, deve ser a nova regra. O aprendizado &eacute; que a universidade claramente disse a que veio e para quem veio na garantia da vida da popula&ccedil;&atilde;o brasileira e assim deve continuar. Foi uma a&ccedil;&atilde;o voltada &agrave; sociedade numa intensidade tal que eu n&atilde;o lembro de outro momento da hist&oacute;ria brasileira. " (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n1/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Saldiva, esses momentos "ensinam como resolver problemas dram&aacute;ticos de uma forma diferente daquela que se faz dentro do gabinete, pois envolve a comunidade. Portanto, a pandemia, de alguma forma, cimentou ou aproximou elos de v&aacute;rios n&iacute;veis da sociedade que estavam meio frouxos". Arantes tamb&eacute;m lembra as tantas popula&ccedil;&otilde;es que foram auxiliadas pelas universidades que constantemente s&atilde;o invis&iacute;veis ao Estado e ficaram mais expostas ao risco de contamina&ccedil;&atilde;o: a popula&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria, de rua, ind&iacute;genas, idosos, popula&ccedil;&atilde;o com baixo grau de saneamento e acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel. Criaram-se redes de solidariedade entre essas popula&ccedil;&otilde;es, inclusive com combate &agrave; viol&ecirc;ncia que aumentou na pandemia, principalmente a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, infantil e contra idosos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As universidades estiveram presentes para todas essas pessoas, com aconselhamento jur&iacute;dico, solu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas, sess&otilde;es de terapia, atendimento na &aacute;rea de sa&uacute;de, comunicando as informa&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para todos se adaptarem. "Todo esse atraso do Governo Federal na assist&ecirc;ncia inicial foi muito cr&iacute;tico e as Universidades atuaram nessas condi&ccedil;&otilde;es", completa Arantes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Comunica&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma &aacute;rea que trouxe mudan&ccedil;as nesse per&iacute;odo foi a da comunica&ccedil;&atilde;o da universidade com a sociedade. "Foi muito importante que tais universidades ajudassem a combater as <i>fake news </i>e o negacionismo. Muitos professores colaboraram com a m&iacute;dia, os grupos de pesquisa passaram a colocar como prioridade estrat&eacute;gica sua comunica&ccedil;&atilde;o com a sociedade. A m&iacute;dia abriu espa&ccedil;os para cientistas falarem e deu para perceber que a ignor&acirc;ncia sobre ci&ecirc;ncia no Brasil est&aacute; diminuindo", destaca Arantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas esse &eacute; um caminho longo que ainda deve ser percorrido. Arantes tamb&eacute;m lembra que h&aacute; o desafio de entender melhor o tamanho do negacionismo e da <i>fake science</i>, al&eacute;m da maneira como ela est&aacute; contaminando a popula&ccedil;&atilde;o brasileira a um ponto tal que a ades&atilde;o a todas as campanhas de vacina&ccedil;&atilde;o est&aacute; reduzindo de uma forma dr&aacute;stica, e n&atilde;o s&oacute; a vacina contra a COVID.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que ainda falta para a universidade &eacute; se comunicar melhor com quem &eacute; de fora, explorar mais as redes sociais, com uma comunica&ccedil;&atilde;o profissionalizada, o que o professor Remi Castioni acredita que as universidades ainda n&atilde;o est&atilde;o preparadas devido ao seu modelo de comunica&ccedil;&atilde;o tradicional. "Ainda h&aacute; poucos produtos feitos por professores com informa&ccedil;&otilde;es de interesse da sociedade. N&oacute;s somos muito mais inundados por <i>fake news </i>do que propriamente coisas ligadas &agrave; ci&ecirc;ncia", explica o pesquisador. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b> "Em meio a toda a crise instaurada, a ci&ecirc;ncia provou que tem que ser pautada pelo bem comum e pelo interesse p&uacute;blico."</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>E agora?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pandemia n&atilde;o acabou, mas a rotina da universidade j&aacute; est&aacute; mais pr&oacute;xima do normal. Muitos projetos e iniciativas devem continuar e prosperar para uma universidade mais focada no interesse p&uacute;blico. "O Brasil tem um pacote de problemas e a universidade tem que fazer parte do pacote de solu&ccedil;&otilde;es", resume Saldiva.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em meio a toda a crise instaurada, a ci&ecirc;ncia provou que tem que ser pautada pelo bem comum e pelo interesse p&uacute;blico. Saldiva explica que "a universidade viu que tem que agir n&atilde;o s&oacute; pelo &iacute;ndice H de produtividade, mas com interesse p&uacute;blico e voltada para a solu&ccedil;&atilde;o de problemas". Com todas essas a&ccedil;&otilde;es, a ci&ecirc;ncia chamou aten&ccedil;&atilde;o para seu valor quando vinha sofrendo um desmonte sistem&aacute;tico de imagem. Como lembra o pesquisador, "houve um reconhecimento da popula&ccedil;&atilde;o frente &agrave;s universidades e centros de pesquisa que eram vistos como lugares dissociados do mundo real".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Agora &eacute; preciso repensar a universidade para melhor, como Arantes explica, criar "a ideia de uma universidade realmente p&uacute;blica. N&atilde;o uma universidade feita para os pesquisadores, pelos pesquisadores, mas uma universidade que est&aacute; profundamente conectada com os destinos do seu pa&iacute;s e do seu povo". O professor usa a express&atilde;o de Darcy Ribeiro, uma "universidade necess&aacute;ria", que queira defender o bem-estar para toda a sua popula&ccedil;&atilde;o, reduzir a pobreza, desigualdade, ampliar o pensamento brasileiro descolonizado. "Essa universidade sempre esteve latente, em constru&ccedil;&atilde;o, e tamb&eacute;m sempre sendo destru&iacute;da e constantemente colocada contra a parede", finaliza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. UNIFESP. <i>SoU_Ci&ecirc;ncia - Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ci&ecirc;ncia. </i> S&atilde;o Paulo (SP): UNIFESP, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. SOU_CI&Ecirc;NCIA. <i> Universidades em Defesa da Vida: atua&ccedil;&atilde;o das federais na pandemia da COVID-19. </i>S&atilde;o Paulo (SP): UNIFESP, 2020.    </font></p>      ]]></body><back>
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