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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20230023</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os sinais da Terra e as mudanças climáticas: uma aliança possível entre a antropologia e os conhecimentos tradicionais frente à crise climática e ambiental: Hierarquias e desigualdades sociais, raciais, econômicas e políticas, assim como de saberes, devem ser problematizadas na busca por soluções para o desenvolvimento sustentável]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Antropologia da ciência]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Os sinais da Terra e as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas: uma alian&ccedil;a poss&iacute;vel entre a antropologia e os conhecimentos tradicionais frente &agrave; crise clim&aacute;tica e ambiental: Hierarquias e desigualdades sociais, raciais,  econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas, assim como de saberes, devem ser problematizadas na busca por solu&ccedil;&otilde;es para o desenvolvimento sustent&aacute;vel</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Suzane de Alencar Vieira</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professora adjunta de antropologia na Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social da Universidade Federal de Goi&aacute;s (UFG). &Eacute; autora do livro "C&eacute;sio-137, drama azul: irradia&ccedil;&atilde;o em narrativas" (C&acirc;none, 2014) e do livro "Entre risos e perigos: artes da resist&ecirc;ncia e ecologia quilombola no Alto Sert&atilde;o da Bahia" (7Letras, 2023)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em um contexto de mobiliza&ccedil;&atilde;o pelo realinhamento sustent&aacute;vel do capitalismo, as ci&ecirc;ncias s&atilde;o convocadas para a cena p&uacute;blica para elucidar as transforma&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas e clim&aacute;ticas que amea&ccedil;am n&atilde;o apenas o modo de vida moderno-ocidental como tamb&eacute;m a continuidade das condi&ccedil;&otilde;es de vida dos seres vivos, dentre eles, os humanos. As discuss&otilde;es sobre o Antropoceno, contudo, tendem a apagar n&atilde;o somente a hist&oacute;ria colonial como tamb&eacute;m a pot&ecirc;ncia dos saberes dos povos n&atilde;o ocidentais sobre o meio ambiente. A antropologia contribui, na discuss&atilde;o sobre sustentabilidade, com problematiza&ccedil;&otilde;es sobre hierarquias e desigualdades sociais, raciais, econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas, como tamb&eacute;m sobre a hierarquia de saberes ordenada pelas ci&ecirc;ncias modernas que impedem o pleno reconhecimento de pr&aacute;ticas de conhecimentos e pensamento &eacute;ticos ecol&oacute;gicos dos povos tradicionais. A antropologia se posiciona em uma rela&ccedil;&atilde;o constitutiva com os conhecimentos que, ao longo da hist&oacute;ria colonial, foram desqualificados como cren&ccedil;as e representa&ccedil;&otilde;es e, assim, busca se tornar capaz de aprender com esses saberes subjugados e aliar-se a eles. Nesse sentido, o objetivo deste artigo &eacute; abordar, a partir da antropologia, a quest&atilde;o da objetividade dos conhecimentos tradicionais sobre meio ambiente, a partir de cat&aacute;strofes e mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas elucidadas por tecnologias de visualiza&ccedil;&atilde;o tradicionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Conhecimentos tradicionais; Desastres ambientais; Antropoceno; Desenvolvimento sustent&aacute;vel;  Antropologia da ci&ecirc;ncia.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A antropologia n&atilde;o &eacute; orgulhosa de sua cientificidade como a f&iacute;sica, a qu&iacute;mica, a biologia e outras ci&ecirc;ncias. &Eacute; uma disciplina que mant&eacute;m sempre viva sua capacidade de hesitar, inclusive, sobre seu pr&oacute;prio estatuto de "ci&ecirc;ncia". A antropologia se posiciona em uma rela&ccedil;&atilde;o constitutiva com os conhecimentos que, ao longo da hist&oacute;ria colonial, foram desqualificados como cren&ccedil;as e representa&ccedil;&otilde;es e, assim, busca se tornar capaz de aprender com esses saberes subjugados e aliar-se a eles.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos dizer que a antropologia &eacute; fruto de dois acontecimentos: da divis&atilde;o ontol&oacute;gica e epistemol&oacute;gica entre Natureza e Cultura que rege as ci&ecirc;ncias modernas e da inven&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo etnogr&aacute;fico que concedeu &agrave; antropologia o reconhecimento como ci&ecirc;ncia singular, ao mesmo tempo em que ofereceu um desvio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s ci&ecirc;ncias modernas e uma abertura para compor com outros planos de conhecimento e meios de pensamento n&atilde;o cient&iacute;ficos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As ci&ecirc;ncias estiveram no horizonte da disciplina, em grande medida, como um plano comparativo pressuposto na divis&atilde;o natureza e cultura e como contraponto nem sempre expl&iacute;cito das abordagens sobre pr&aacute;ticas de conhecimento n&atilde;o ocidentais. Os estudos antropol&oacute;gicos das pr&aacute;ticas cient&iacute;ficas propriamente ditas se organizaram, no final dos anos 1980, como uma &aacute;rea espec&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A antropologia da ci&ecirc;ncia e da tecnologia proposta por Bruno Latour (1994) &#91;1&#93; despontou no campo da disciplina e, no Brasil, encontrou na etnologia ind&iacute;gena e nos estudos de religi&atilde;o de matriz africana um terreno f&eacute;rtil para desenvolver a proposta de simetriza&ccedil;&atilde;o de saberes cient&iacute;ficos e n&atilde;o cient&iacute;ficos &#91;2&#93; e participar de quest&otilde;es centrais da vida coletiva que estavam, at&eacute; ent&atilde;o, no dom&iacute;nio das especialidades das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas e exatas como, por exemplo, as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, a Reuni&atilde;o de Antropologia da Ci&ecirc;ncia e da Tecnologia (REACT), que acontece desde 2007, estica e tensiona o fio das ci&ecirc;ncias para envolver os conhecimentos tradicionais e deslocar a hierarquia de conhecimentos que reputa alguns conhecimentos como cient&iacute;ficos e outros como tradicionais. Esse plano das ci&ecirc;ncias e das tecnologias, na antropologia, &eacute; tamb&eacute;m um campo de disputas em torno da inteligibilidade dos fen&ocirc;menos naturais e, em espec&iacute;fico, das cat&aacute;strofes ecol&oacute;gicas em curso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na urg&ecirc;ncia de enfrentar as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, a alian&ccedil;a com os povos tradicionais &eacute; estrat&eacute;gica para fecundar o pensamento cient&iacute;fico com outra &eacute;tica, sensibilidade e atitude diante da Terra. Essa alian&ccedil;a &eacute; decisiva para a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos ambientais mais plurais e para desencantar o torpor pol&iacute;tico diante da urg&ecirc;ncia de reagir a cat&aacute;strofes clim&aacute;ticas. Como a pesquisa antropol&oacute;gica pode se posicionar nesse debate atual do "desenvolvimento sustent&aacute;vel" estruturado por proposi&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas? O que a antropologia tem a dizer? Quais alian&ccedil;as podemos fazer com os conhecimentos tradicionais e outros conhecimentos n&atilde;o cient&iacute;ficos?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao aceitar o convite dos editores da revista <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i> para contribuir com o tema "Ci&ecirc;ncias B&aacute;sicas para o Desenvolvimento Sustent&aacute;vel" a partir da antropologia, gostaria de defender a necessidade vital de aprender com os conhecimentos ecol&oacute;gicos tradicionais e de incluir na mesa de debates quilombolas, ind&iacute;genas, agricultores familiares, pescadores e marisqueiros/as artesanais que resistem desde o in&iacute;cio da coloniza&ccedil;&atilde;o a viol&ecirc;ncias e cat&aacute;strofes. Esses s&atilde;o povos que nunca perderam o elo de respeito e responsabilidade com a terra. A presente mobiliza&ccedil;&atilde;o do ano internacional da sustentabilidade, o ano de 2023, traz consigo o impulso de um realinhamento poss&iacute;vel do modo de viver sobre a Terra. Para isso, &eacute; fundamental escutar as narrativas clim&aacute;ticas de moradores de assentamentos informais que se equilibram em &aacute;reas de risco e em empregos prec&aacute;rios, das v&iacute;timas da minera&ccedil;&atilde;o, dos contaminados por defensivos agr&iacute;colas e pela radioatividade e dos coletivos que vivenciam, no seu dia a dia, a destrui&ccedil;&atilde;o dos projetos de desenvolvimento, dos garimpos e dos desmatamentos (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A antropologia se desloca por m&uacute;ltiplos quadros de refer&ecirc;ncia, desde conhecimentos tradicionais a conhecimentos cient&iacute;ficos, para pensar a crise ecol&oacute;gica que amea&ccedil;a a vida na Terra. Al&eacute;m do alerta formulado por cientistas, que ganhou mais for&ccedil;a a partir da tese do Antropoceno, h&aacute; tamb&eacute;m alertas de cat&aacute;strofes ecol&oacute;gicas enunciados por povos tradicionais &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Antropoceno mobiliza um movimento cient&iacute;fico importante de alertas ecol&oacute;gicos que ressoam sobre o alinhamento sustent&aacute;vel do desenvolvimento econ&ocirc;mico, social e pol&iacute;tico. Mas corre o risco de se transformar em uma conversa em que somente os especialistas falam e a narrativa cient&iacute;fica se tornar uma hist&oacute;ria total que unifica &#91;4&#93;, lamina e imobiliza a heterog&ecirc;nese dos conhecimentos ambientais de coletivos capazes de pr&aacute;ticas ecologicamente mais sustent&aacute;veis e &eacute;ticas. Os conhecimentos tradicionais se mostram importantes n&atilde;o apenas para conhecer outros diagn&oacute;sticos do Antropoceno, mas para nos equipar com e experimentar outras formas de conhecer as altera&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas e atmosf&eacute;ricas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Na urg&ecirc;ncia de enfrentar as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, a alian&ccedil;a com os povos tradicionais &eacute; estrat&eacute;gica para fecundar o pensamento cient&iacute;fico com outra &eacute;tica, sensibilidade e atitude diante da Terra."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; por isso que, para abordar as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e a reorienta&ccedil;&atilde;o da sustentabilidade do futuro energ&eacute;tico do planeta, busco fazer ressoar, neste artigo, o alerta de terremotos na Indon&eacute;sia e no Peru e o alerta de desertifica&ccedil;&atilde;o de quilombolas e sertanejos sobre as mudan&ccedil;as nos fluxos das &aacute;guas e nos regimes de chuva no semi&aacute;rido baiano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sinais da Terra</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alguns povos, na &Aacute;frica, na &Aacute;sia e na Am&eacute;rica Latina, identificam a ocorr&ecirc;ncia de terremotos observando o comportamento dos animais. Os animais e as pessoas sentem nos seus corpos sinais de imin&ecirc;ncia de terremotos. Mas esse saber corporificado e reputado como tradicional levou muitos anos para chamar a aten&ccedil;&atilde;o dos cientistas enquanto um sistema de alerta de terremotos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; quase 20 anos, no dia 26 de dezembro de 2004, uma grande cat&aacute;strofe assolou doze pa&iacute;ses asi&aacute;ticos e com maior intensidade a costa da Indon&eacute;sia. Um terremoto de 9,1 graus na escala Richter provocou um tsun&acirc;mi que matou quase 227 mil pessoas. Os sensores mar&iacute;timos e as esta&ccedil;&otilde;es s&iacute;smicas n&atilde;o identificaram a imin&ecirc;ncia do terremoto e da tsun&acirc;mi com anteced&ecirc;ncia suficiente para alertar a popula&ccedil;&atilde;o costeira. Os animais ficaram muito inquietos, assim como algumas pessoas &#91;5&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Algumas horas antes do tsun&acirc;mi, elefantes deslocaram-se em dire&ccedil;&atilde;o &agrave;s montanhas. Aquelas pessoas atentas aos sinais dos animais acompanharam a debandada dos elefantes. Elas tamb&eacute;m se acomodaram em terrenos mais altos e, por isso, sobreviveram &agrave;quela cat&aacute;strofe. Antes desse evento no qual todo conjunto tecnocient&iacute;fico falhou em sua previs&atilde;o, essa sutil tecnologia tradicional de reconhecimento de sinais tect&ocirc;nicos parecia pouco intelig&iacute;vel aos olhos dos cientistas ocidentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No ano de 2011, um terremoto de grau 7 abalou a regi&atilde;o central do Peru. As c&acirc;meras instaladas no parque Nacional Yanachaga-Chemill&eacute;n captaram altera&ccedil;&otilde;es no comportamento de diferentes animais como aves e mam&iacute;feros. Os animais come&ccedil;aram a ficar agitados e a se deslocar de uma por&ccedil;&atilde;o a outra da reserva ecol&oacute;gica mais de 20 dias antes da ocorr&ecirc;ncia desse terremoto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir dessas cat&aacute;strofes, uma s&eacute;rie de estudos e pesquisas come&ccedil;ou a ser desenvolvida para entender como o comportamento de alguns animais poderia ser apreendido como bioindicadores de desastres. O deslocamento de manadas de elefante na Indon&eacute;sia, a agita&ccedil;&atilde;o de macacos, a migra&ccedil;&atilde;o de aves e de mam&iacute;feros nas florestas do Peru antes da ocorr&ecirc;ncia de grandes terremotos passaram a ser observados por cientistas. Os bi&oacute;logos e f&iacute;sicos Grant, Raulin e Freund (2015) &#91;4&#93; atribu&iacute;ram essa mudan&ccedil;a de comportamento &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de &iacute;ons na atmosfera. A hip&oacute;tese levantada foi de que o movimento das placas tect&ocirc;nicas liberaria uma grande quantidade de &iacute;ons positivos que se acumulariam na superf&iacute;cie, provocando nos animais maior produ&ccedil;&atilde;o de serotonina. Os humanos tamb&eacute;m sentem e reagem a essa concentra&ccedil;&atilde;o de &iacute;ons positivos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os estudos de Caitlin E. O'Connell-Rodwell (2007) &#91;6&#93; percorrem outra linha de investiga&ccedil;&atilde;o ao abordar a comunica&ccedil;&atilde;o entre os elefantes por vibra&ccedil;&otilde;es no solo. Os elefantes reconhecem bramidos por meio de vibra&ccedil;&otilde;es na superf&iacute;cie. A frequ&ecirc;ncia de um dos seus bramidos seria a mesma frequ&ecirc;ncia dos terremotos e, por esse motivo, essas ocorr&ecirc;ncias seriam melhor captadas por eles.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estamos diante de dois sistemas de alerta: um modo de composi&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica na qual os animais s&atilde;o mediadores de sinais e outra composi&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica na qual aparelhos como sism&oacute;grafos s&atilde;o constru&iacute;dos para detectar abalos s&iacute;smicos. Na ocorr&ecirc;ncia da cat&aacute;strofe, o primeiro dos sistemas foi mais eficaz do que o segundo. A associa&ccedil;&atilde;o entre sinais dos animais e sinais de fen&ocirc;menos tect&ocirc;nicos era considerada uma anedota ou crendice. Os sinais dos animais passaram a ser considerados como verdadeiros por ocidentais depois de grandes cat&aacute;strofes. A antropologia, por sua vez, frequentemente busca acompanhar saberes locais e levar a s&eacute;rio a leitura dos sinais da natureza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sinais dos tempos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao longo de 11 anos de di&aacute;logo e pesquisa etnogr&aacute;fica com comunidades quilombolas de Caetit&eacute;, no Alto Sert&atilde;o da Bahia, aprendi a olhar com mais aten&ccedil;&atilde;o para os sinais de animais e plantas para entender os fen&ocirc;menos atmosf&eacute;ricos. Os quilombolas me ensinaram a reconhecer no canto do p&aacute;ssaro co&atilde;, tamb&eacute;m conhecido como acau&atilde;, um sinal de que o tempo (meteorol&oacute;gico) est&aacute; prestes a mudar. Se, quando est&aacute;vamos lavando roupas na fonte, ouvimos a co&atilde; cantar, apressamo-nos em recolher as roupas da cerca, porque aquele canto &eacute; sinal de que pode estar a caminho uma forte ventania (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A interpreta&ccedil;&atilde;o de rastros e sinais foi, muitas vezes, tratado por folcloristas como tra&ccedil;os de um sert&atilde;o ex&oacute;tico. Entretanto, na perspectiva de uma etnografia dos conhecimentos que busquei desenvolver, esse reconhecimento de sinais figura como tecnologias de visualiza&ccedil;&atilde;o manejadas por camponeses e quilombolas em intera&ccedil;&atilde;o com o clima semi&aacute;rido. Em minhas pesquisas, essa leitura de sinais se disp&otilde;e como pr&aacute;ticas de adivinha&ccedil;&atilde;o e como vis&otilde;es divinat&oacute;rias que se diferenciam da previs&atilde;o cient&iacute;fica e se aproximam dos or&aacute;culos, como abordei em outro momento &#91;7,8&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Observar rastros e sinais caracteriza uma forma de inquirir o mundo, um modo de conhecer eventos ou fen&ocirc;menos ambientais. Ano ap&oacute;s ano, agricultores do Quilombo de Malhada, localizado em Caetit&eacute; (BA), observam que o sol est&aacute; mais baixo e, por isso, a <i>quentura </i>persiste bloqueando as transforma&ccedil;&otilde;es do "astro do tempo", plano celeste que corresponderia ao que comumente se designa como "atmosfera". Notam que, desde o in&iacute;cio dos anos 2000, o <i>astro do tempo</i> vem dando sinais de colapso e as varia&ccedil;&otilde;es entre tempos de seca e tempos das &aacute;guas est&atilde;o cada vez mais inconstantes. Esses sinais s&atilde;o enunciados como alertas de uma altera&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica profunda nos ciclos das plantas e no regime de chuvas da regi&atilde;o &#91;7&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A hist&oacute;ria dessas comunidades quilombolas de Caetit&eacute; envolve mais de dois s&eacute;culos de resist&ecirc;ncia a cat&aacute;strofes e viol&ecirc;ncias da coloniza&ccedil;&atilde;o, dos tempos de seca e fome, da escravid&atilde;o e do <i>cativeiro</i>. Na &uacute;ltima d&eacute;cada, os quilombolas v&ecirc;m lutando contra um projeto de parque e&oacute;lico no seu territ&oacute;rio e contra os efeitos da mina de ur&acirc;nio radioativo instalada na sua vizinhan&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os rastros da atividade da minera&ccedil;&atilde;o de ur&acirc;nio radioativo nos gases t&oacute;xicos e na contamina&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas s&atilde;o percebidos como sinais de uma mudan&ccedil;a ecol&oacute;gica que afeta a atmosfera, os ventos, o solo, as plantas e os corpos das pessoas e dos animais, reduzindo suas potencialidades produtivas. A instala&ccedil;&atilde;o das empresas de explora&ccedil;&atilde;o mineral e energ&eacute;tica nas imedia&ccedil;&otilde;es das comunidades n&atilde;o representou somente a apropria&ccedil;&atilde;o da terra ou da &aacute;gua, mas uma sens&iacute;vel altera&ccedil;&atilde;o nas pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade de criar a vida ali. &Eacute; a partir das altera&ccedil;&otilde;es na cria&ccedil;&atilde;o de gente, de plantas e animais que os quilombolas formulam quest&otilde;es sobre o problema da crise ecol&oacute;gica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Para ligar a rede insaci&aacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica, muitas chamas de outros mundos poss&iacute;veis s&atilde;o apagadas, muitas alternativas e modos de viver tradicionais ambientalmente sustent&aacute;veis s&atilde;o desligados."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os agricultores <i>assuntam </i>que as explos&otilde;es e as atividades de extra&ccedil;&atilde;o de rocha subterr&acirc;nea da mina de ur&acirc;nio radioativo est&atilde;o desencantando a m&atilde;e d'&aacute;gua e alertam para a mudan&ccedil;a na configura&ccedil;&atilde;o dos fluxos de &aacute;gua subterr&acirc;neos. V&aacute;rias fontes de &aacute;gua se esgotaram e o abastecimento de &aacute;gua depende atualmente da capta&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua das chuvas por cisternas acopladas aos telhados das casas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As observa&ccedil;&otilde;es de camponeses e quilombolas emitem um alerta especialmente preocupante em uma regi&atilde;o em risco de desertifica&ccedil;&atilde;o, conforme relat&oacute;rios do IPCC (<i>The Intergovernmental Panel on Climate Change</i>) sobre o semi&aacute;rido brasileiro. Embora o AR6, &uacute;ltimo relat&oacute;rio do IPCC &#91;9&#93;, reconhe&ccedil;a a lideran&ccedil;a das comunidades tradicionais na luta pela preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente, as comunidades tradicionais est&atilde;o presentes no relat&oacute;rio na caracteriza&ccedil;&atilde;o de grupos vulner&aacute;veis e n&atilde;o como detentores de conhecimentos e &eacute;ticas ecol&oacute;gicas pertinentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esses conhecimentos ecol&oacute;gicos se fundam em uma objetividade corporificada e situada nos territ&oacute;rios contaminados, esgotados e desvitalizados da minera&ccedil;&atilde;o. Esses saberes calibrados por essa objetividade enunciam outras media&ccedil;&otilde;es multiespec&iacute;ficas para se acercar das mudan&ccedil;as ecol&oacute;gicas e clim&aacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ali nas serras de Caetit&eacute;, entre comunidades camponesas e quilombolas, descortinam-se as tens&otilde;es sobre a matriz energ&eacute;tica do pa&iacute;s e os limites do desenvolvimento sustent&aacute;vel. A insustentabilidade da matriz energ&eacute;tica nuclear &eacute; documentada por v&aacute;rias den&uacute;ncias sobre a contamina&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas de Caetit&eacute; pela minera&ccedil;&atilde;o de ur&acirc;nio que marca o in&iacute;cio do ciclo do combust&iacute;vel nuclear no Brasil. Mas outra fonte de energia renov&aacute;vel ali instalada, a energia e&oacute;lica t&atilde;o valorizada pelo desenvolvimento sustent&aacute;vel, tamb&eacute;m representa uma amea&ccedil;a ao modo de vida quilombola. A fonte alternativa de energia n&atilde;o se coloca como uma escolha ali e vem cercando as comunidades quilombolas por mecanismos de sufocamento pol&iacute;tico e burocr&aacute;tico do arrendamento e da regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria que, ao longo de uma d&eacute;cada, vem obliterando o processo de titula&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio coletivo e tradicional quilombola.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"As comunidades tradicionais oferecem uma importante contribui&ccedil;&atilde;o para a discuss&atilde;o sobre desenvolvimento sustent&aacute;vel quando nos ajudam a reconhecer em 'atividades produtivas' como a monocultura, produ&ccedil;&atilde;o de energia 'limpa' e minera&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncias e formas extrativas que reverberam no plano das rela&ccedil;&otilde;es sociais, ecol&oacute;gicas e subjetivas."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os projetos de desenvolvimento de matrizes energ&eacute;ticas, concebidos como alternativas energ&eacute;ticas, n&atilde;o d&atilde;o espa&ccedil;o para a escolha coletiva, para o desejo de viver sem ter um parque e&oacute;lico e uma mina de ur&acirc;nio na sua vizinhan&ccedil;a. O setor energ&eacute;tico de matriz nuclear ou e&oacute;lica, considerado motor do desenvolvimento ou do desenvolvimento sustent&aacute;vel, pode representar a repress&atilde;o de outras &eacute;ticas ecol&oacute;gicas e modos de viver &#91;7&#93; (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a07fig03.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A proposta do desenvolvimento sustent&aacute;vel de transforma&ccedil;&atilde;o da matriz energ&eacute;tica &eacute; enunciada a partir dos problemas e contextos dos espa&ccedil;os urbanos do ocidente, distante dos lugares onde a produ&ccedil;&atilde;o de energia acontece. O desenvolvimento sustent&aacute;vel envolve um pacto t&aacute;cito que autoriza quais conhecimentos e sensibilidades importam no debate sobre matrizes energ&eacute;ticas. As comunidades tradicionais percebem as viol&ecirc;ncias dos empreendimentos de energias renov&aacute;veis e seus rastros de destrui&ccedil;&atilde;o nos planos pol&iacute;tico e ecol&oacute;gico. Para ligar a rede insaci&aacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica, muitas chamas de outros mundos poss&iacute;veis s&atilde;o apagadas, muitas alternativas e modos de viver tradicionais ambientalmente sustent&aacute;veis s&atilde;o desligados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>&Uacute;ltimas considera&ccedil;&otilde;es sobre a objetividade dos conhecimentos tradicionais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A antropologia pode ser uma via para encontrar um novo caminho narrativo para a crise clim&aacute;tica que descreva as viol&ecirc;ncias coloniais, raciais, assim como as altera&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas e cat&aacute;strofes clim&aacute;ticas reconhecidas pelas comunidades tradicionais. A antropologia mant&eacute;m uma janela aberta para outro mundo poss&iacute;vel, para outras maneiras de viver em sociedade, para mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas e epistemol&oacute;gicas na gest&atilde;o do destino comum. Nesse sentido, a antropologia pode se oferecer como um meio ou media&ccedil;&atilde;o para provocar uma perturba&ccedil;&atilde;o na divis&atilde;o entre saberes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se, como afirma Latour (1994) &#91;1&#93;, a crise ecol&oacute;gica &eacute; uma crise da objetividade das ci&ecirc;ncias ocidentais, o momento de emerg&ecirc;ncia clim&aacute;tica tamb&eacute;m &eacute; ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para acompanhar outras linhas de referencialidade de conhecimentos historicamente subordinados, desqualificados e inferiorizados. A antropologia trabalha para valoriza&ccedil;&atilde;o desses conhecimentos, e a antropologia da ci&ecirc;ncia, em especial, para fazer fremir a hierarquia de saberes que os imobilizou. Este &eacute; um momento oportuno para enunciar, desde a antropologia, o privil&eacute;gio da perspectiva minorit&aacute;ria dos povos exclu&iacute;dos da <i>episteme </i>moderna e habitar o "terreno dos saberes subjugados" que, como afirma Haraway (1995) &#91;10&#93;, podem oferecer "explica&ccedil;&otilde;es mais adequadas, firmes, objetivas, transformadoras do mundo".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As comunidades tradicionais oferecem uma importante contribui&ccedil;&atilde;o para a discuss&atilde;o sobre desenvolvimento sustent&aacute;vel quando nos ajudam a reconhecer em "atividades produtivas" como a monocultura, produ&ccedil;&atilde;o de energia "limpa" e minera&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncias e formas extrativas que reverberam no plano das rela&ccedil;&otilde;es sociais, ecol&oacute;gicas e subjetivas. Os conhecimentos tradicionais representam um ganho de perspectiva sobre as viol&ecirc;ncias que recortam nosso cotidiano onde os alertas clim&aacute;ticos reverberam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje precisamos de modo dram&aacute;tico n&atilde;o somente dos conhecimentos tradicionais como tamb&eacute;m de sua &eacute;tica ecol&oacute;gica para habitarmos um mundo afetado pela crise clim&aacute;tica, pela perda de biodiversidade e pelo aumento da variabilidade clim&aacute;tica e de eventos extremos. As ci&ecirc;ncias precisam aprender a fazer alian&ccedil;as com esses conhecimentos e reconhecer outras linguagens e sinais da Terra captadas pelos povos tradicionais &#91;11,12&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. LATOUR, B. <i>Jamais fomos modernos</i>: ensaio de antropologia sim&eacute;trica. S&atilde;o Paulo (SP): Editora 34, 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. CASTRO, E. V.; GOLDMAN, M. Abaet&eacute;, Rede de Antropologia Sim&eacute;trica (Entrevista concedida a Arist&oacute;teles Barcelos Neto, Danilo Ramos, Ma&iacute;ra Santi B&uuml;hler, Renato Sztutman, Stelio Marras e Val&eacute;ria Macedo). <i>Cadernos de campo</i>, S&atilde;o Paulo, n. 14/15, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. CABALLERO, I.; VIEIRA, S.; FUJIGAKI, A. Antropologia da vida diante da cat&aacute;strofe. <i>Revista Amaz&ocirc;nica</i>, Manaus, v. 14, n. 2, 2022.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. GRANT, R. A.; RAULIN, J. P.; FREUND, F. T. Changes in animal activity prior to a major (M = 7) earthquake in the Peruvian Andes. <i>Physics and Chemistry of the Earth</i>, Parts A/B/C, v. 85-86, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. ARANTES, J. T. Altera&ccedil;&atilde;o comportamental sinaliza, dias antes, a ocorr&ecirc;ncia de terremotos. <i>Ag&ecirc;ncia FAPESP</i>, S&atilde;o Paulo, 27 abr. 2015.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. O'CONELL-RODWELL, C. E. Keeping an "Ear" to the Ground: SeismicCommunication in Elephants. <i>Physiology</i>, v. 22, 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. VIEIRA, S. <i>Entre risos e perigos: artes da resist&ecirc;ncia e ecologia quilombola no Alto Sert&atilde;o da Bahia</i>. Rio de Janeiro (RJ): 7letras, 2023.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. VIEIRA, S. O Astro do Tempo e o fim da Era: a crise ecol&oacute;gica e a arte de assuntar entre os quilombolas do Alto Sert&atilde;o da Bahia. <i>ClimaCom Cultura Cient&iacute;fica - pesquisa, jornalismo e arte</i>, Campinas, v. 3, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. THE INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). AR6 Synthesis Report: Climate Change 2023. Geneva: IPCC, 2023.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. HARAWAY, D. Saberes localizados: a quest&atilde;o da ci&ecirc;ncia para o feminismo e o privil&eacute;gio da perspectiva parcial. <i>Revista Cadernos Pagu</i>, Campinas, v. 5, 1995.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. GUATTARI, F. <i>As tr&ecirc;s ecologias</i>. Campinas (SP): Papirus, 1990.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. MUMBUCA, A. Voo das abelhas da terra. <i>Caderno de Leituras</i>, Belo Horizonte, n. 117, 2017.    </font></p>      ]]></body><back>
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