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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Diversidade na ciência: a necessidade de borrar fronteiras: diversidade é fundamental para trazer novos olhares - e novas soluções - para a ciência e a sociedade]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Diversidade na ci&ecirc;ncia: a necessidade de borrar fronteiras: diversidade &eacute; fundamental para trazer novos olhares - e novas solu&ccedil;&otilde;es - para a ci&ecirc;ncia e a sociedade</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Engenheira agr&ocirc;noma, doutora em Ci&ecirc;ncia do Solo, especialista em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, professora titular aposentada da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos, e apaixonada por trabalhar e escrever sobre Ci&ecirc;ncia</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Olhando a Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia no s&eacute;culo XIX, podemos identificar rela&ccedil;&otilde;es entre nomes como George Morton, que prop&ocirc;s a Teoria da Inferioridade das Ra&ccedil;as, Charles Darwin, autor da Teoria da Sele&ccedil;&atilde;o Natural, e fatos como persegui&ccedil;&atilde;o a ind&iacute;genas e a popula&ccedil;&otilde;es negras e mesti&ccedil;as nas Am&eacute;ricas. Morton, em seu livro <i>"Crania americana" </i><a name="1a"></a><sup>&#91;<a href="#1b">i</a>&#93;</sup>, de 1839, exp&ocirc;s a teoria de que o cr&acirc;nio caucasiano seria mais avan&ccedil;ado do que os de ra&ccedil;as (como ele as classificava) mongol, malaia, americana (na qual agrupou cr&acirc;nios de popula&ccedil;&otilde;es nativas do continente) e et&iacute;ope (na qual abrigou cr&acirc;nios de origem africana). E fez isso partindo da medi&ccedil;&atilde;o do volume interior de centenas de cr&acirc;nios de diferentes origens. Ao ler o <i>Crania americana</i>, Darwin considerou Morton uma autoridade na discuss&atilde;o racial e em seu livro <i>"A origem das esp&eacute;cies",</i> publicado pela primeira vez em 1859, apoiou-se na teoria de Morton para tentar explicar a explora&ccedil;&atilde;o de ra&ccedil;as n&atilde;o brancas por ra&ccedil;as brancas, ainda que sem concordar com a escravid&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante mais de um s&eacute;culo, o determinismo biol&oacute;gico sustentou que as diferen&ccedil;as sociais e econ&ocirc;micas s&atilde;o herdadas. E mais, o chamado racismo cient&iacute;fico influenciou - e influencia - de forma expl&iacute;cita ou subjetiva, o comportamento de grande parte da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. Foi somente em 1981, com o livro <i>"A Falsa Medida do Homem",</i> de Stephen Jay Gould, professor da Universidade de Harvard, que o racismo cient&iacute;fico come&ccedil;ou a ser desmontado. Nesse trabalho, Gould defende a tese de que, ao longo da hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia, os cientistas que estudavam seres humanos permitiram, com base no pr&oacute;prio preconceito, que suas cren&ccedil;as sociais influenciassem suas an&aacute;lises e coleta de dados. Ainda que Gould admitisse que sua vis&atilde;o pol&iacute;tica influenciasse sua vis&atilde;o cient&iacute;fica de mundo, ele demonstrou n&atilde;o haver rela&ccedil;&atilde;o entre as ra&ccedil;as e seus n&iacute;veis de intelig&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O determinismo biol&oacute;gico envolve tamb&eacute;m outras facetas: homens seriam mais competentes em atividades cient&iacute;ficas do que mulheres; popula&ccedil;&otilde;es tradicionais n&atilde;o t&ecirc;m habilidades em ci&ecirc;ncia; popula&ccedil;&otilde;es da Europa, dos Estados Unidos, e de alguns pa&iacute;ses asi&aacute;ticos s&atilde;o mais inteligentes do que popula&ccedil;&otilde;es da Am&eacute;rica do Sul e da &Aacute;frica. Mas n&atilde;o faltam exemplos que contestam esses dogmas. Em 2018, a rede de televis&atilde;o americana <i>Public Broadcasting Service</i>, mais conhecida como PBS, um contraponto &agrave;s grandes redes comerciais que operam no pa&iacute;s, publicou uma lista de dez cientistas negros que os professores de ci&ecirc;ncias deveriam conhecer (<i>Ten Black Scientists that Science Teachers Should Know About</i>). Nela constam nomes de homens e mulheres norte-americanos - alguns identificados como <i>African-American</i>, ainda que tenham nascido nos Estados Unidos - que desenvolveram atividades destacadas de pesquisa cient&iacute;fica em diferentes ramos. A lista se inicia com George Washington Carver, um escravo nascido nos anos 1860, que se tornou bot&acirc;nico e professor, e inventou mais de 300 usos para o amendoim. Carter desenvolveu v&aacute;rios m&eacute;todos, incluindo um para evitar o esgotamento do solo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m em 2018, a Revista Galileu publicou uma lista de "23 cientistas negros que enfrentaram o racismo e entraram para a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia". Dentre esses, constam o senegal&ecirc;s L&eacute;opold S&eacute;dar Senghor e cinco brasileiros; todos os demais s&atilde;o estado-unidenses. Os brasileiros Milton Santos e Luiza Bairros j&aacute; faleceram. Mas S&ocirc;nia Guimar&atilde;es, Viviane dos Santos Barbosa e Simone Maia Evaristo, que tamb&eacute;m constam da lista, s&atilde;o provas vivas de que &eacute; um mito a ci&ecirc;ncia ser branca e masculina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A paulista Sonia Guimar&atilde;es foi a primeira mulher negra brasileira a se tornar doutora em F&iacute;sica e a lecionar no Instituto Tecnol&oacute;gico de Aeron&aacute;utica (ITA). Na adolesc&ecirc;ncia, trabalhava para poder pagar um cursinho e prestar vestibular para engenharia civil. Apesar de ser excelente aluna, um de seus professores a orientou a buscar os cursos menos concorridos. Guimar&atilde;es possui uma patente de detectores utilizados em m&iacute;sseis para identificar avi&otilde;es em movimento. Em entrevista concedida em 2018, comentou que "mais de 20 anos depois, o n&uacute;mero de mulheres &eacute; ainda restrito - entre os 110 aprovados em 2018 no ITA, apenas sete eram meninas". E acrescentou: o ITA "&eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o conservadora, masculina e branca. . . O conservadorismo pode at&eacute; desacelerar nosso processo, mas hoje j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais capaz de nos parar".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A baiana de Salvador Viviane dos Santos Barbosa &eacute; bi&oacute;loga e cursou Qu&iacute;mica industrial na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas apenas por dois anos. Em 1990, Barbosa foi para a Holanda estudar engenharia qu&iacute;mica e bioqu&iacute;mica na <i>Delft University of Technology</i>, onde concluiu o bacharelado em Engenharia Qu&iacute;mica e Bioqu&iacute;mica e o Mestrado em Engenharia Qu&iacute;mica, com foco em Nanotecnologia. L&aacute;, desenvolveu uma pesquisa com catalisadores que, por meio de uma mistura de pal&aacute;dio e platina, podem ser usados na produ&ccedil;&atilde;o de energia alternativa e no controle ambiental, reduzindo emiss&otilde;es de gases t&oacute;xicos. Em 2010, seu trabalho foi apresentado na <i>International Aerosol Conference</i>, em Helsink, na Finl&acirc;ndia, e recebeu a premia&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima entre 800 trabalhos concorrentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Simone Maia Evaristo, bi&oacute;loga, mestre em Infec&ccedil;&atilde;o HIV/Aids e especialista em Citologia Cl&iacute;nica, &eacute; um exemplo de mulher negra e cientista que percebe claramente que a ci&ecirc;ncia reflete a vis&atilde;o de mundo do cientista. Ela aponta: "um machista, por exemplo, n&atilde;o consegue incorporar a vis&atilde;o feminina; uma pessoa racista n&atilde;o consegue visualizar a contribui&ccedil;&atilde;o de uma pessoa negra. Ela fica no seu mundo, desenvolve seu trabalho e perde a grandiosidade das diferen&ccedil;as entre olhares e contribui&ccedil;&otilde;es distintas". E acrescenta: "no per&iacute;odo da escravid&atilde;o era 'normal' um cientista achar que uma pessoa podia ser escravizada".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Desenvolvimento da ci&ecirc;ncia reflete a hist&oacute;ria; e vice-versa</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se nos s&eacute;culos XVIII e XIX houve um grande desenvolvimento cient&iacute;fico, com importantes avan&ccedil;os na Qu&iacute;mica, na F&iacute;sica e na Biologia, e com populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia <a name="2a"></a><sup>&#91;<a href="#2b">ii</a>&#93;</sup>, o s&eacute;culo XX foi marcado por avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos, que caracterizaram a Segunda Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial (1850 at&eacute; o fim da Segunda Guerra Mundial) e a Terceira Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial, tamb&eacute;m conhecida como Revolu&ccedil;&atilde;o Tecno-cient&iacute;fica (ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial). Grandes avan&ccedil;os cient&iacute;ficos transformaram o setor produtivo agr&iacute;cola e principalmente o industrial. Ap&oacute;s a Segunda Guerra, o processo produtivo foi impulsionado pelo desenvolvimento tecnol&oacute;gico, Alemanha, Fran&ccedil;a e Inglaterra perderam a centralidade na ci&ecirc;ncia, e o desenvolvimento cient&iacute;fico se espalhou pelo mundo, em particular pelos Estados Unidos, R&uacute;ssia e Jap&atilde;o. A diversidade de culturas come&ccedil;ou a influenciar a ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; o in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970, o pensamento global predominante na ci&ecirc;ncia era de que o meio ambiente seria uma fonte inesgot&aacute;vel de recursos e, consequentemente, o aproveitamento dos recursos naturais seria infinito. Todos os ramos das ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas e aplicadas contribu&iacute;ram para isso. Por&eacute;m, no final do s&eacute;culo XX, alertas com rela&ccedil;&atilde;o a mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas come&ccedil;aram a p&ocirc;r em quest&atilde;o a ci&ecirc;ncia e o desenvolvimento tecnol&oacute;gico vigente: as temperaturas m&eacute;dias do planeta Terra estavam aumentando, devido &agrave; intensifica&ccedil;&atilde;o do efeito estufa <a name="3a"></a><sup>&#91;<a href="#3b">iii</a>&#93;</sup>. Um marco divisor foi a Primeira Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, tamb&eacute;m conhecida como Rio 92 ou Eco-92. A ci&ecirc;ncia e o desenvolvimento apregoado por um seleto grupo masculino, branco e europeu foi posta em xeque. Mas somente 20 anos depois, mais uma vez no Rio de Janeiro, a discuss&atilde;o sobre impactos no clima, inicialmente limitada a percep&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e cient&iacute;ficas, estendeu-se para o contexto muito mais amplo de sustentabilidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"No final do s&eacute;culo XX, alertas com rela&ccedil;&atilde;o a mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas come&ccedil;aram a p&ocirc;r em quest&atilde;o a ci&ecirc;ncia e o desenvolvimento tecnol&oacute;gico vigente."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os movimentos sociais, que surgiram como consequ&ecirc;ncia da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa e da Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial ainda no s&eacute;culo XIX, vinham crescendo pouco a pouco e se viram fortalecidos. Afinal, todos, independentemente de g&ecirc;nero, cor, op&ccedil;&atilde;o sexual e nacionalidade, estavam correndo s&eacute;rios riscos. Portanto, os impactos no ambiente n&atilde;o poderiam ser tratados de forma isolada das quest&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e sociais. E mais: a ci&ecirc;ncia realizada por um seleto grupo (masculino e branco) n&atilde;o estava dando conta de resolver a crise ambiental que se anunciava.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas, em particular as Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas e as Ci&ecirc;ncias Sociais (Antropologia, Sociologia e Hist&oacute;ria, por exemplo), foram fortalecidas por movimentos sociais, como os movimentos Negro, LGBT (atualmente LGBTQIA+) e Feminista. E mais, os movimentos visando &agrave; inclus&atilde;o de todos permitiram a inclus&atilde;o da cultura e da cosmovis&atilde;o e epistemologia ind&iacute;genas na produ&ccedil;&atilde;o de disserta&ccedil;&otilde;es, teses e artigos cient&iacute;ficos; homens negros e mulheres, de todas as origens, passaram a ter acesso ao ensino superior por meio de a&ccedil;&otilde;es afirmativas. Pouco a pouco, a diversidade come&ccedil;ou a invadir a academia (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a12fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A&ccedil;&otilde;es afirmativas: lutas, conquistas e desafios</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A&ccedil;&otilde;es afirmativas s&atilde;o pol&iacute;ticas p&uacute;blicas focadas em grupos que sofrem discrimina&ccedil;&atilde;o (&eacute;tnica, racial, de g&ecirc;nero, religiosa). Elas t&ecirc;m por objetivo promover a inclus&atilde;o socioecon&ocirc;mica de popula&ccedil;&otilde;es historicamente privadas do acesso a oportunidades. A premissa b&aacute;sica de a&ccedil;&otilde;es afirmativas &eacute; promover igualdade de acesso a oportunidades e s&atilde;o particularmente importantes em sociedades desiguais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a promulga&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988, houve substitui&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas assistencialistas contra a pobreza por uma legisla&ccedil;&atilde;o baseada na dignidade da pessoa (o artigo 1º, inciso III da Carta Magna) e da igualdade (caput do artigo 5º). E mais, o Pre&acirc;mbulo da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988, assegura "direitos sociais e individuais, a liberdade, a seguran&ccedil;a, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justi&ccedil;a como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos"; o Cap&iacute;tulo VIII inclui os direitos coletivos dos povos ind&iacute;genas e os direitos quilombolas se encontram no Artigo nº 68 das Disposi&ccedil;&otilde;es Constitucionais Transit&oacute;rias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas eram necess&aacute;rias a&ccedil;&otilde;es afirmativas efetivas. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) saiu na frente e, em 2001, com base na Lei 3.524/2000 aprovada na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), reservou 50% das vagas para estudantes egressos de escolas p&uacute;blicas. Em setembro de 2001, a Lei 3.708 da ALERJ estabeleceu a cota m&iacute;nima de at&eacute; 40% das vagas dos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o da UERJ e da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) para as popula&ccedil;&otilde;es negra e parda, incluindo nesta cota m&iacute;nima negros e pardos beneficiados pela Lei nº 3524/2000. Em 2003, foi a vez da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que reservou 40% das vagas nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o para candidatos afrodescendentes que cursaram o Ensino M&eacute;dio em escolas p&uacute;blicas. Em 2004, a Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) tornou-se a primeira universidade federal do Brasil a reservar 20% das vagas para negros (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a12fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, n&atilde;o havia uma lei que regulamentasse nem tornasse esse tipo de a&ccedil;&atilde;o afirmativa uma pol&iacute;tica de Estado. Em 2009, o Partido Democratas (DEM), herdeiro do Partido Arena que apoiou o regime militar, entrou no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma Argui&ccedil;&atilde;o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), para que todos os estabelecimentos de ensino superior suspendessem imediatamente os processos que envolvessem a aplica&ccedil;&atilde;o do tema "cotas raciais" para ingresso em universidades. A resposta do STF saiu apenas tr&ecirc;s anos depois, mas abriu o caminho para a aprova&ccedil;&atilde;o da lei 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, que instituiu a&ccedil;&otilde;es afirmativas para ingresso no ensino superior federal.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Empatia para lidar com as diferen&ccedil;as</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Elizabeth Fernandes Macedo, professora titular do Departamento de Estudos Aplicados ao Ensino da UERJ, aponta que &eacute; preciso reconhecer que a visibilidade que estas comunidades (quilombolas, extrativistas, povos ind&iacute;genas e outras comunidades tradicionais) v&ecirc;m conquistando, com muita luta pol&iacute;tica pelo direito de simplesmente existir, colocou em xeque o universalismo da ci&ecirc;ncia ou do erudito, que se transforma em conte&uacute;do escolar. "Ao ecoar o grito dessas outras formas de existir no mundo, torna qualquer pretens&atilde;o universalista uma impossibilidade em si", afirma. "Por outro lado, quando esses grupos sa&iacute;ram do lugar de silenciamento em que os colocamos por s&eacute;culos, tivemos contato com cosmologias que podem nos ajudar muito a reentender e reencantar nossa ci&ecirc;ncia e nossa educa&ccedil;&atilde;o. E a&iacute; n&atilde;o se trata de 'conte&uacute;dos', mas de outras perspectivas onto-epistemol&oacute;gicas, ou seja, uma tentativa de articular epistemologia e ontologia <a name="4a"></a><sup>&#91;<a href="#4b">iv</a>&#93;</sup>, sob o argumento de que s&atilde;o mutuamente implicadas", finaliza.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"As ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas, em particular as Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas e as Ci&ecirc;ncias Sociais (Antropologia, Sociologia e Hist&oacute;ria, por exemplo), se viram fortalecidas por movimentos sociais, como os movimentos Negro, LGBT (atualmente LGBTQIA+) e Feminista."</b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Para que a pesquisa cient&iacute;fica, b&aacute;sica ou aplicada, se mantenha relevante, &eacute; necess&aacute;rio romper com o antropocentrismo, com essa ideia de uma ci&ecirc;ncia que explora o mundo/ natureza para o bem do humano."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Macedo acrescenta que "pensar o mundo de forma relacional, uma novidade na discuss&atilde;o te&oacute;rica ocidental, &eacute; uma caracter&iacute;stica muito forte de cosmologias ind&iacute;genas, de povos da floresta, da cultura negra e quilombola". Ou seja, para que a pesquisa cient&iacute;fica, b&aacute;sica ou aplicada, mantenha-se relevante, &eacute; necess&aacute;rio romper com o antropocentrismo, com essa ideia de uma ci&ecirc;ncia que explora o mundo/natureza para o bem do humano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar das viol&ecirc;ncias a que os sujeitos "outrificados pela norma" s&atilde;o submetidos cotidianamente e, desconsiderando os &uacute;ltimos anos quando houve um desmantelamento das poucas pol&iacute;ticas que a sociedade brasileira tinha conseguido erigir nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, Macedo considera que temos pol&iacute;ticas importantes para as popula&ccedil;&otilde;es de baixa renda. Mas a desigualdade social no Brasil &eacute; enorme. Presidente da <i>International Association for the Advancement of Curriculum Studies</i>, a pesquisadora aponta que essa desigualdade n&atilde;o &eacute; apenas social: "o Brasil &eacute; estruturalmente racista, olig&aacute;rquico, machista e homof&oacute;bico. O muito que precisa ser feito n&atilde;o depende apenas de governos, ainda que uma maior representatividade da diversidade da popula&ccedil;&atilde;o no sistema pol&iacute;tico e jur&iacute;dico seja imperativa". Coordenadora do grupo de pesquisa <i>Curr&iacute;culo, cultura e diferen&ccedil;a</i>, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq) ela acrescenta que a centraliza&ccedil;&atilde;o curricular, na forma de curr&iacute;culos e/ou de livros/apostilas, n&atilde;o contribui para a redu&ccedil;&atilde;o de desigualdades; testagens nacionais centralizadas tamb&eacute;m n&atilde;o t&ecirc;m se mostrado um instrumento poderoso no sentido de reduzir desigualdades, muitas vezes servindo para cristaliz&aacute;-las.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Simone Evaristo, a partir de sua viv&ecirc;ncia de mulher negra, destaca que quando o cientista n&atilde;o consegue aceitar as diferen&ccedil;as, a ci&ecirc;ncia que faz fica baseada nos seus questionamentos dentro daquilo que acredita. Falta-lhe empatia, afirma Evaristo. Ela explica que "a natureza em si &eacute; diversa para contribuir, embelezar e estimular a cria&ccedil;&atilde;o de ideias". O cientista arrogante, que &eacute; aquele se sup&otilde;e superior, acha que a sua ideia e a sua perspectiva s&atilde;o absolutas. Com uma vasta experi&ecirc;ncia, Evaristo teve um caminho marcado pela invisibilidade, mas hoje se v&ecirc; mais livre: "Eu vejo que a mulher na ci&ecirc;ncia &eacute; batalhadora. N&atilde;o &eacute; derrotista! E a minha for&ccedil;a vem da paix&atilde;o pelo que eu fa&ccedil;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa for&ccedil;a pouco a pouco se faz cada vez mais presente no cotidiano de universidades e centros de pesquisa brasileiros. Ailton Alves Lacerda Krenak, l&iacute;der ind&iacute;gena, ambientalista, fil&oacute;sofo, poeta e escritor brasileiro da etnia ind&iacute;gena Krenak, professor <i>Honoris Causa</i> pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Anita Canavarro Benite, professora de qu&iacute;mica na Universidade Federal de Goi&aacute;s (UFG) e fundadora do grupo de Estudos sobre a Descoloniza&ccedil;&atilde;o do Curr&iacute;culo de Ci&ecirc;ncias (CIATA), do Instituto de Qu&iacute;mica da UFG, com a proposta de descolonizar o estudo de ci&ecirc;ncias; Enedina Alves Marques (1913-1942), primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil; Gersem Jos&eacute; dos Santos Luciano, ind&iacute;gena do povo Baniwa, de S&atilde;o Gabriel da Cachoeira (AM), professor do Departamento de Antropologia da UnB, que atua nas &aacute;reas de educa&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena e diversidade, movimento ind&iacute;gena e direitos ind&iacute;genas; Jo&atilde;o dos Santos Vila da Silva, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, com pesquisas na interface Tecnologia da Informa&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o (TIC) e Geotecnologias; Katemari Diogo da Rosa, professora de F&iacute;sica da UFBA, membro da <i>American Association of Physics Teachers</i>, da <i>National Organization of Gay and Lesbian Scientists and Technical Professionals</i> (NOGLSTP) e da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Pesquisadoras/es Negras/os (ABPN); e Maria Beatriz do Nascimento (1942-1995), historiadora e ativista no movimento negro, que fez pesquisa independente em quilombos, vistos como sistemas alternativos &agrave; estrutura escravagista, com continuidade em favelas, particularmente no caso do Rio de Janeiro, s&atilde;o alguns exemplos (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a12fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Macedo &eacute; precisa ao afirmar que "n&atilde;o se trata de juntar ou articular os polos, mas buscar outras formas de conceber nossa rela&ccedil;&atilde;o com o mundo, de conceber as rela&ccedil;&otilde;es que nos produzem, assim como ao que chamamos de mundo, na defesa da necessidade de borrar as fronteiras entre natureza e cultura; entre homem, mundo natural e m&aacute;quina; entre conhecimento e afetos".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a>&#91;<a href="#1a">i</a>&#93; <i>Crania Americana: or a Comparative View of the Skulls of the Various Aboriginal Nations of North and South America</i>, de Samuel George Morton (1799-1851). Dispon&iacute;vel em &lt;<a href="https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/51431" target="_blank">https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/51431</a>&gt;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=124681&pid=S0009-6725202300020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2b"></a>&#91;<a href="#2a">ii</a>&#93; Todos os 1.250 exemplares da primeira edi&ccedil;&atilde;o de "Sobre a origem das esp&eacute;cies por meio da sele&ccedil;&atilde;o natural ou a preserva&ccedil;&atilde;o de ra&ccedil;as favorecidas na luta pela vida", de Charles Darwin, foram vendidos no dia de seu lan&ccedil;amento, em 24 de novembro de 1859. O t&iacute;tulo foi reduzido para "A Origem das Esp&eacute;cies", na 6&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, lan&ccedil;ada em 1872. Fonte: J. E. Domingues, Ensinar Hist&oacute;ria. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/lancada-a-origem-especies-charles-darwin/" target="_blank">https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/lancada-a-origem-especies-charles-darwin/</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=124683&pid=S0009-6725202300020001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3b"></a>&#91;<a href="#3a">iii</a>&#93; Trata-se de um fen&ocirc;meno natural respons&aacute;vel pela manuten&ccedil;&atilde;o do calor na Terra, mas que vem apresentando uma maior intensidade em raz&atilde;o da polui&ccedil;&atilde;o do ar resultante das pr&aacute;ticas humanas. A descoberta do efeito estufa envolve quatro cientistas europeus: o matem&aacute;tico e f&iacute;sico franc&ecirc;s Jean-Baptiste Joseph Fourier (1768-1830), o f&iacute;sico brit&acirc;nico John Tyndall (1821-1893), o meteorologista sueco Nils Gustaf Ekholm (1848-1923) e o qu&iacute;mico sueco Svante Arrhenius (1859-1927).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="4b"></a>&#91;<a href="#4a">iv</a>&#93; A ontologia tem sido, tradicionalmente, um ramo da filosofia que trata do problema do ser e da realidade. A epistemologia tem por objeto o processo de conhecimento do sujeito, suas fontes e suas formas de produzir conhecimento cient&iacute;fico.</font></p>      ]]></body>
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<source><![CDATA[Crania Americana: or a Comparative View of the Skulls of the Various Aboriginal Nations of North and South America, de Samuel George Morton (1799-1851)]]></source>
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<source><![CDATA[A Origem das Espécies]]></source>
<year>1872</year>
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