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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma aliada invisível: como a Ciência Básica pode ajudar no combate a notícias falsas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma aliada invis&iacute;vel: como a Ci&ecirc;ncia B&aacute;sica pode ajudar no combate a not&iacute;cias falsas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paula Gomes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Escritora, doutora em cinema e especialista em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando se fala em negacionismo cient&iacute;fico, logo pensamos no movimento antivacina ou ent&atilde;o na parcela da popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o acredita no colapso clim&aacute;tico. &Eacute; pouco prov&aacute;vel que a ci&ecirc;ncia b&aacute;sica seja lembrada nesse debate, mas ela pode desempenhar um papel importante no enfrentamento da m&aacute;quina de desinforma&ccedil;&atilde;o presente nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ci&ecirc;ncia b&aacute;sica desperta pouco interesse de grandes ve&iacute;culos jornal&iacute;sticos e das m&iacute;dias sociais mediadas por algoritmos, mais interessadas em not&iacute;cias sobre as descobertas da ci&ecirc;ncia aplicada. Em decorr&ecirc;ncia da pouca visibilidade p&uacute;blica, muitos acreditam que a ci&ecirc;ncia b&aacute;sica seja menos relevante do que a ci&ecirc;ncia aplicada, ou que n&atilde;o tenha a capacidade de causar impacto significativo em nossas vidas. Bruno Rezende Souza, neurocientista e professor do Departamento de Fisiologia e Biof&iacute;sica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que na realidade as duas est&atilde;o t&atilde;o conectadas a ponto de ser imposs&iacute;vel falar dos avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia aplicada sem considerar as descobertas da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica que as precederam: "Sem ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, n&atilde;o existe ci&ecirc;ncia aplicada. Durante a pandemia, utilizamos a PCR (Rea&ccedil;&atilde;o em Cadeia da Polimerase, tecnologia que consiste na amplifica&ccedil;&atilde;o de uma regi&atilde;o espec&iacute;fica de DNA) para testar se a pessoa estava infectada ou n&atilde;o. Uma das bases da PCR &eacute; a enzima Taq polimerase, descoberta por cientistas que tinham a curiosidade em saber como bact&eacute;rias extrem&oacute;filas sobrevivem e se reproduzem em ambientes hostis" (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a13fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por n&atilde;o ter impacto imediato em nossas vidas, a ci&ecirc;ncia b&aacute;sica vira alvo f&aacute;cil quando se trata de realizar cortes de financiamento no setor. Thaiane Moreira de Oliveira, professora do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia da Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que as redes sociais potencializam esse problema: "Vivemos hoje em um regime de visibilidade no qual temas de grande interesse p&uacute;blico para a sociedade tendem a definir a aloca&ccedil;&atilde;o de recursos de investimento em ci&ecirc;ncia e tecnologia. A falta de visibilidade e, por consequ&ecirc;ncia, de financiamento adequado &agrave;s ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas, podem limitar o progresso da pesquisa".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O apagamento da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica no debate p&uacute;blico n&atilde;o gera impactos negativos somente para comunidade cient&iacute;fica, mas para toda a sociedade. Indiv&iacute;duos que apresentam um n&iacute;vel baixo de letramento cient&iacute;fico s&atilde;o mais suscet&iacute;veis a acreditar em not&iacute;cias falsas. Glaucius Oliva, professor do Instituto de F&iacute;sica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) acredita que, quanto mais cedo introduzirmos as crian&ccedil;as aos fundamentos da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, melhor: "A ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, se ensinada precocemente e de forma participativa e l&uacute;dica ('m&atilde;o na massa'), &eacute; o principal instrumento para o letramento cient&iacute;fico das pessoas, que certamente v&atilde;o adotar, por toda sua vida, a compreens&atilde;o da realidade baseada na evid&ecirc;ncia dos fatos e no m&eacute;todo cient&iacute;fico". O pesquisador aponta ainda que &eacute; preciso esse esfor&ccedil;o na inf&acirc;ncia, pois entre as crian&ccedil;as e jovens o interesse pela ci&ecirc;ncia b&aacute;sica &eacute; o predominante, movido pela curiosidade explorat&oacute;ria t&iacute;pica dessa fase (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n2/a13fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A falta de visibilidade e, por consequ&ecirc;ncia, de financiamento adequado &agrave;s ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas, podem limitar o progresso da pesquisa."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, Souza alerta que a exposi&ccedil;&atilde;o a not&iacute;cias falsas pode gerar um ru&iacute;do no processo de aprendizagem de crian&ccedil;as e jovens, que s&atilde;o bombardeadas cotidianamente com not&iacute;cias falsas na internet: "Muitos trabalhos demonstram que a primeira exposi&ccedil;&atilde;o ao conhecimento &eacute; a que geralmente fica, depois &eacute; muito dif&iacute;cil mudar. Por isso, dificilmente um sujeito muda de opini&atilde;o se recebe uma informa&ccedil;&atilde;o falsa antes de um conte&uacute;do acad&ecirc;mico. Vejo isso como um grande problema para professoras(es) do ensino fundamental e m&eacute;dio, pois al&eacute;m de ensinar o conte&uacute;do cient&iacute;fico, t&ecirc;m que desconstruir a desinforma&ccedil;&atilde;o levada para a sala de aula".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas talvez o maior desafio da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica seja interno. Katemari Rosa, professora do Instituto de F&iacute;sica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pondera que n&atilde;o basta s&oacute; melhorar o acesso da popula&ccedil;&atilde;o aos fundamentos da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, &eacute; preciso um esfor&ccedil;o mais amplo no sentido de reestruturar e reparar defici&ecirc;ncias hist&oacute;ricas do campo cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos principais problemas que afeta o campo &eacute; o perfil socioecon&ocirc;mico de quem faz ci&ecirc;ncia hoje no Brasil. O acesso &agrave;s universidades ainda &eacute; reservado a uma minoria privilegiada da popula&ccedil;&atilde;o, e os esfor&ccedil;os para democratizar a entrada e perman&ecirc;ncia de estudantes e pesquisadores no ambiente acad&ecirc;mico trazem resultados lentos e graduais. Nesse sentido, a comunidade cient&iacute;fica ainda &eacute; vista como um grupo social apartado da sociedade. "O que a gente produz de conhecimento enquanto conhecimento cient&iacute;fico, as verdades que a gente produz, as falas que a gente faz sobre ci&ecirc;ncia acabam n&atilde;o reverberando, n&atilde;o interagindo com essa grande parte da popula&ccedil;&atilde;o", afirma Rosa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Oliveira tamb&eacute;m acredita que o combate efetivo das not&iacute;cias falsas passa pela amplia&ccedil;&atilde;o do acesso da popula&ccedil;&atilde;o ao ambiente acad&ecirc;mico: "Combater esses movimentos e essas cren&ccedil;as implica em investir em iniciativas que promovam o acesso ao conhecimento cient&iacute;fico, sobretudo incentivando a participa&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o no pr&oacute;prio processo de produzir conhecimento cient&iacute;fico".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rosa acredita que, por ser elitizada, nossa comunidade cient&iacute;fica produz uma comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica desconectada da realidade da maioria das pessoas. Isso impede que ela seja bem-recebida e compreendida. No polo oposto, temos os propagadores de not&iacute;cias falsas, que dialogam com a popula&ccedil;&atilde;o por meio da linguagem acess&iacute;vel e da utiliza&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncias do seu cotidiano. "N&atilde;o adianta eu trazer a informa&ccedil;&atilde;o certa sem erros cient&iacute;ficos e conceituais se eu n&atilde;o consigo me conectar com quem est&aacute; recebendo essa mensagem. Essas conex&otilde;es s&atilde;o do n&iacute;vel pessoal, das representa&ccedil;&otilde;es sociais. Eu preciso me conectar com quem est&aacute; recebendo essa mensagem. Esse distanciamento que existe acaba influenciando na propaga&ccedil;&atilde;o do negacionismo cient&iacute;fico. As not&iacute;cias falsas t&ecirc;m um apelo de falar n&atilde;o s&oacute; na linguagem da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m de falar acerca de suas viv&ecirc;ncias".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, se ensinada precocemente e de forma participativa e l&uacute;dica ('m&atilde;o na massa'), &eacute; o principal instrumento para o letramento cient&iacute;fico das pessoas, que certamente v&atilde;o adotar, por toda sua vida, a compreens&atilde;o da realidade baseada na evid&ecirc;ncia dos fatos e no m&eacute;todo cient&iacute;fico."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, Rosa lembra que a pr&oacute;pria comunidade cient&iacute;fica, ao longo da sua hist&oacute;ria, praticou o negacionismo cient&iacute;fico, sobretudo em algumas &aacute;reas da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, como a F&iacute;sica. Tais pr&aacute;ticas, chamadas hoje de "epistemic&iacute;dio", consistiam em negar, escamotear ou roubar conhecimentos produzidos por comunidades sociais vulner&aacute;veis. "Quando a gente nega o conhecimento e as produ&ccedil;&otilde;es das popula&ccedil;&otilde;es negras ao longo da hist&oacute;ria (ou de popula&ccedil;&otilde;es de outros grupos historicamente vulnerabilizados), estamos produzindo um negacionismo cient&iacute;fico. Hoje existe uma preocupa&ccedil;&atilde;o com a ci&ecirc;ncia atual, mas a comunidade cient&iacute;fica parece se esquecer de que ela mesma  produz negacionismo em rela&ccedil;&atilde;o a conhecimentos de determinados grupos historicamente vulner&aacute;veis e oprimidos".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Alterar essa imagem da ci&ecirc;ncia, assumindo que ela possui suas falhas e limita&ccedil;&otilde;es, pode posicionar a popula&ccedil;&atilde;o mais perto da ci&ecirc;ncia e mais distante das not&iacute;cias falsas."</b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pesquisadora acredita que a autocr&iacute;tica pode trazer benef&iacute;cios para a ci&ecirc;ncia, sobretudo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Para isso, &eacute; preciso abandonar o discurso propagado pela pr&oacute;pria comunidade cient&iacute;fica, que caracteriza a ci&ecirc;ncia como uma verdade absoluta, superior e &agrave; prova de falhas. Alterar essa imagem da ci&ecirc;ncia, assumindo que ela possui suas falhas e limita&ccedil;&otilde;es, pode posicionar a popula&ccedil;&atilde;o mais perto da ci&ecirc;ncia e mais distante das not&iacute;cias falsas.</font></p>      ]]></body>
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