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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20230037</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Memória, trauma e Ditadura no Brasil: a literatura testemunhal de Renato Tapajós. O romance testemunhal &#8220;Em câmara lenta&#8221; amplia a circulação social de experiências vividas individualmente, mas produtos de condições que ressoam coletivamente]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Literatura testemunhal]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Mem&oacute;ria, trauma e Ditadura no Brasil: a literatura testemunhal de Renato Tapaj&oacute;s. O romance testemunhal &ldquo;Em c&acirc;mara lenta&rdquo; amplia a circula&ccedil;&atilde;o social de experi&ecirc;ncias vividas individualmente, mas produtos de condi&ccedil;&otilde;es que ressoam coletivamente</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Enio Passiani</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Professor do Departamento de Sociologia e dos Programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia e Seguran&ccedil;a Cidad&atilde; da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e editor-adjunto da revista Sociologias</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As sociedades capitalistas modernas ocidentais foram, ao longo do s&eacute;culo XX, sacudidas por eventos catastr&oacute;ficos e traum&aacute;ticos, como o Holocausto em territ&oacute;rio europeu, e as Ditaduras Militares na Am&eacute;rica Latina &ndash; acontecimentos que, desafiando qualquer tentativa de representa&ccedil;&atilde;o, convocam os(as) sobreviventes ao seu testemunho, como necess&aacute;ria luta hist&oacute;rica contra o seu esquecimento. Nesse sentido, a literatura, como forma figurada da mem&oacute;ria, constitui instrumento de luta contra a injusti&ccedil;a e a favor da repara&ccedil;&atilde;o, como que ocupando o vazio deixado pelo testemunho jur&iacute;dico, que, diante dos escombros da hist&oacute;ria, ou se cala ou &eacute; calado pelo poder pol&iacute;tico constitu&iacute;do. Contra o recalque patrocinado por nossas elites imp&otilde;e-se a literatura testemunhal, como &eacute; o caso do livro &ldquo;Em c&acirc;mara lenta&rdquo;, de Renato Tapaj&oacute;s, objeto de an&aacute;lise sociol&oacute;gica deste artigo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Literatura testemunhal; Ditadura Militar no Brasil; Trauma hist&oacute;rico; Mem&oacute;ria; <i>Em c&acirc;mara lenta</i>; Renato Tapaj&oacute;s.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Desde a Ditadura Militar, ao longo de seus 21 anos, e mesmo ap&oacute;s &ndash; inclusive bem recentemente, durante os quatro anos de governo fascista do agora ineleg&iacute;vel Jair Bolsonaro &ndash; parte consider&aacute;vel de nossas elites pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas, com o aux&iacute;lio de setores da m&iacute;dia e mesmo de intelectuais e pseudointelectuais, empreenderam e empreendem um revisionismo hist&oacute;rico que trata um regime de exce&ccedil;&atilde;o como revolu&ccedil;&atilde;o para o bem do pa&iacute;s, produzindo sil&ecirc;ncios e apagamentos atordoantes, instituindo uma pol&iacute;tica da mem&oacute;ria que pressup&otilde;e, igualmente, a fabrica&ccedil;&atilde;o de esquecimentos: dos(as) torturados(as), dos(as) assassinados(as), dos(as) desaparecidos(as). &Eacute; o que Feierstein (2019) &#91;1&#93; chamou de &ldquo;pacto denegativo&rdquo;, que consiste na (re)produ&ccedil;&atilde;o do consenso nunca explicitamente formulado acerca da representa&ccedil;&atilde;o do trauma; &eacute; a produ&ccedil;&atilde;o e a reprodu&ccedil;&atilde;o de mecanismos coletivos de aliena&ccedil;&atilde;o e distanciamento que geram uma esp&eacute;cie de desensibiliza&ccedil;&atilde;o diante das experi&ecirc;ncias traum&aacute;ticas, o que implica uma indiferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s v&iacute;timas e aos fatos e a&ccedil;&otilde;es que engendraram dor, ang&uacute;stia e morte &#91;2&#93;. Os esquecimentos e os silenciamentos produzidos e at&eacute; oficializados promovem o anestesiamento geral e a desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Tal pol&iacute;tica da mem&oacute;ria, por conseguinte, mant&eacute;m abertas feridas traum&aacute;ticas e instala um luto insuper&aacute;vel, contribuindo para que o passado n&atilde;o passe, comprometendo o nosso futuro, mesmo quando essa pol&iacute;tica &eacute; invocada em nome da concilia&ccedil;&atilde;o e da supera&ccedil;&atilde;o em prol da transi&ccedil;&atilde;o (supostamente) harm&ocirc;nica e saud&aacute;vel dos regimes autorit&aacute;rios para os democr&aacute;ticos &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Vivemos, ontem e hoje, aut&ecirc;nticas batalhas por cora&ccedil;&otilde;es e mentes que sup&otilde;em disputas acirradas em torno das mem&oacute;rias. Nesse contexto, assumem especial import&acirc;ncia os testemunhos das v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia estatal, que se estabelecem como esp&eacute;cie de contramem&oacute;rias &agrave;quelas hegem&ocirc;nicas, que se recusam a compartilhar uma concilia&ccedil;&atilde;o artificial, falaciosa e fr&aacute;gil entre o passado e o presente, entre v&iacute;timas do regime e seus torturadores e algozes.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;Desde a Ditadura Militar, parte consider&aacute;vel de nossas elites pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas, com o aux&iacute;lio de setores da m&iacute;dia e mesmo de intelectuais e pseudointelectuais, empreenderam e empreendem um revisionismo histórico que trata um regime de exce&ccedil;&atilde;o como revolu&ccedil;&atilde;o para o bem do pa&iacute;s, produzindo sil&ecirc;ncios e apagamentos atordoantes.&quot;</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Dentre tantas mem&oacute;rias traum&aacute;ticas, a arte testemunhal ocupa lugar de destaque. Os traumas, por sua pr&oacute;pria natureza, resistem &agrave; representa&ccedil;&atilde;o, uma vez que os acontecimentos traum&aacute;ticos provocam rachaduras na capacidade narrativa, criando certa impossibilidade de dar sentido a tais acontecimentos em virtude da dor experimentada que, a um s&oacute; tempo, pede o esquecimento para que n&atilde;o se repita e se reviva o momento de sofrimento, mas exige sua narra&ccedil;&atilde;o para que se possa ao menos tentar a sua supera&ccedil;&atilde;o. O trauma, segundo o j&aacute; citado soci&oacute;logo argentino Daniel Feierstein (2019) &#91;1&#93;, consiste na experi&ecirc;ncia que carece de representa&ccedil;&atilde;o em virtude de seu car&aacute;ter demolidor.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As artes, pontua Andreas Huyssen (2014) &#91;4&#93;, conseguem formular e comunicar aquilo que parece, &agrave; primeira vista, informul&aacute;vel e incomunic&aacute;vel; a pot&ecirc;ncia da imagina&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica encontra maneiras de dizer o indiz&iacute;vel. Ou seja: &ldquo;O trauma encontra na imagina&ccedil;&atilde;o um meio para a sua narra&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Seligmann-Silva, 2014) &#91;5&#93;. De acordo com Seligmann-Silva (2014) &#91;5&#93;, particularmente no contexto latino-americano, o testemunho est&eacute;tico adquiriu centralidade no &acirc;mbito da resist&ecirc;ncia &agrave;s ditaduras que assolaram o continente &ndash; e que ainda se fazem sentir, principalmente no Brasil &ndash; servindo de arma importante na luta contra o negacionismo e o sil&ecirc;ncio que geralmente acompanham o gesto genocida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nesse sentido, o romance testemunhal &ldquo;<i>Em c&acirc;mara lenta</i>&rdquo;, do belenense Renato Tapaj&oacute;s, ocupa, creio, posi&ccedil;&atilde;o destacada. Escrito durante a pris&atilde;o do autor (entre 1969 e 1974), publicado pela primeira vez em 1977, censurado e republicado em 1979, o romance apresenta narra&ccedil;&atilde;o com certa cronologia, mas sem ser linear, misturando presente e passado, que oscila entre primeira e terceira pessoas, com frases lacunares, que n&atilde;o encontram termo &ndash; revelando a dificuldade em verbalizar o evento traum&aacute;tico &#91;6,7&#93; &ndash; e cuja espinha dorsal que organiza todo o romance &eacute; constitu&iacute;da por uma cena recorrente, que se repete seis vezes ao longo da narrativa, mas nunca da mesma maneira, pois, a cada repeti&ccedil;&atilde;o, novas informa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o acrescentadas e a cena vai se completando aos poucos, lentamente, at&eacute; que o &uacute;ltimo excerto configure uma totalidade definida em detalhes, ocupando cerca de cinco p&aacute;ginas. &Eacute; como se todo o livro fosse uma tentativa de narrar o inenarr&aacute;vel, que surge aos peda&ccedil;os e em solavancos &#91;5&#93;. A experi&ecirc;ncia traum&aacute;tica produz uma mem&oacute;ria fragmentada, que encontra forma e express&atilde;o em uma narrativa igualmente fragmentada. A sintaxe, portanto, encontra-se fraturada, porque o pr&oacute;prio tempo do trauma &eacute; repetitivo e fragmentado &#91;8&#93; (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Reproduzo, para fins ilustrativos e argumentativos, o primeiro, o segundo e o terceiro trechos:</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Trecho 1:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><i>Como em c&acirc;mara lenta: ela se voltou para tr&aacute;s. Sua m&atilde;o descreveu um longo arco, em dire&ccedil;&atilde;o ao banco traseiro, mas interrompeu o gesto e desceu suavemente pela abertura da bolsa, escondida entre os dois bancos da frente, pouco atr&aacute;s do freio de m&atilde;o. O rosto impass&iacute;vel olhava para a maleta que o outro segurava, mas os dedos se fecharam sobre a coronha do rev&oacute;lver que estava na bolsa. E, num movimento &uacute;nico, corpo, rosto e bra&ccedil;o giraram novamente, o cabelo curto sublinhando o levantar da cabe&ccedil;a, os olhos, agora duros, apanhando de relance a imagem do policial que bloqueava a porta. O rev&oacute;lver disparou, clar&atilde;o e estampido rompendo o sil&ecirc;ncio (Tapaj&oacute;s, 2022, p. 13) &#91;9&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&ldquo;As artes, pontua Andreas Huyssen (2014), conseguem formular e comunicar aquilo que parece, &agrave; primeira vista, informul&aacute;vel e incomunic&aacute;vel; a pot&ecirc;ncia da imagina&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, nesse sentido, encontra maneiras de dizer o indiz&iacute;vel.&rdquo;</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Trecho 2:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><i>Como em c&acirc;mera lenta: o policial pediu para ver o que tinha na maleta e na maleta tinha uma metralhadora; ela se voltou para tr&aacute;s. Sua m&atilde;o descreveu um longo arco, em dire&ccedil;&atilde;o ao banco traseiro, mas interrompeu o gesto e desceu suavemente pela abertura da bolsa, escondida entre os dois bancos da frente, pouco atr&aacute;s do freio de m&atilde;o. O rosto impass&iacute;vel olhava para a maleta que o outro segurava, mas os dedos se fecharam sobre a coronha do rev&oacute;lver que estava na bolsa. E num movimento &uacute;nico, corpo, rosto e bra&ccedil;o giraram, o cabelo curto sublinhando o levantar da cabe&ccedil;a, os olhos, agora duros, apanhando de relance a imagem do policial que bloqueava a porta. O rev&oacute;lver disparou, clar&atilde;o e estampido rompendo o sil&ecirc;ncio. O policial atingido na testa, foi lan&ccedil;ado para tr&aacute;s, rolando no ch&atilde;o. As portas do carro se abriram simultaneamente e os tr&ecirc;s saltaram, disparando suas armas e correndo, cada um para um lado, por entre os carros parados no bloqueio e que ocupavam toda a rua. Ela atirou outra vez e outro policial, que levantava uma metralhadora, caiu. Ela correu por entre os carros e quase todos os policiais foram atr&aacute;s dela, atirando sempre (Tapaj&oacute;s, 2022, p. 21-22) &#91;9&#93;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Trecho 3:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><i>Como em c&acirc;mara lenta: ele percebeu que a rua estava bloqueada por uma batida policial. Olhou para os lados e percebeu que n&atilde;o havia por onde escapar: atr&aacute;s, outros carros j&aacute; paravam, cortando a possibilidade de manobrar e fugir pela contram&atilde;o. Parou o carro lentamente. Um policial aproximou-se e pediu os documentos. Ele os entregou; o policial examinou-os devagar. Estavam em ordem. Com os documentos na m&atilde;o, o policial deu a volta no carro, olhou pela janela onde ela estava, examinando o interior do carro para ver se havia algo de suspeito. Ela sorriu timidamente, como que acanhada com o exame. No banco traseiro, um outro companheiro segurava uma maleta escura; o policial pediu para ver o que tinha na maleta e na maleta tinha uma metralhadora; ela se voltou para tr&aacute;s. Sua m&atilde;o descreveu um longo arco em dire&ccedil;&atilde;o ao banco traseiro, mas interrompeu o gesto e desceu suavemente pela abertura da bolsa, escondida entre os dois bancos da frente, pouco atr&aacute;s do freio de m&atilde;o. O rosto impass&iacute;vel olhava para a maleta que o outro segurava, mas os dedos se fecharam sobre a coronha do rev&oacute;lver que estava na bolsa. E num movimento &uacute;nico, corpo, rosto e bra&ccedil;o giraram novamente, o cabelo curto sublinhando o levantar da cabe&ccedil;a, os olhos, agora, duros, apanhando de relance a imagem do policial que bloqueava a porta. O rev&oacute;lver disparou, clar&atilde;o e estampido rompendo o sil&ecirc;ncio. O policial, atingido na testa, foi lan&ccedil;ado para tr&aacute;s, rolando no ch&atilde;o. As portas do carro se abriram simultaneamente e os tr&ecirc;s saltaram, disparando suas armas e correndo, cada um para um lado, por entre os carros parados no bloqueio e que ocupavam toda a rua. Ela atirou outra vez e outro policial, que levantava uma metralhadora, caiu. Ela correu por entre os carros e quase todos os policiais foram atr&aacute;s dela, atirando sempre. Ela saiu da &aacute;rea do bloqueio, correndo pela margem de um barranco, enquanto ele dobrou uma esquina em outra dire&ccedil;&atilde;o e conseguiu escapar. Ela corria e atirava para tr&aacute;s, o vento batendo em seus cabelos. A carga do rev&oacute;lver se esgotou e ela continuou em sua corrida (Tapaj&oacute;s, 2022, p. 48-49) &#91;9&#93;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Observamos que a reitera&ccedil;&atilde;o apresentada em cada trecho assume uma fei&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria nada simples, primeiro porque n&atilde;o se limita a acrescentar informa&ccedil;&otilde;es a partir de um ponto espec&iacute;fico, em uma simples opera&ccedil;&atilde;o somat&oacute;ria, isto &eacute;, n&atilde;o se encerra um per&iacute;odo para, a partir dele, o autor apresentar novos elementos. Ou, simplesmente: n&atilde;o ocorre simples enxerto. &Eacute; como se o texto crescesse para frente e para tr&aacute;s, acrescentando informa&ccedil;&otilde;es nos dois sentidos, detalhando-a cada vez mais e, ainda, sinalizando passado e presente como tempos enganchados, imbricados e n&atilde;o compactados e estanques. Em segundo lugar, a modula&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria da itera&ccedil;&atilde;o ocorre igualmente a partir da repeti&ccedil;&atilde;o de palavras e trechos que servem, na mesma tacada, para ampliar o car&aacute;ter dram&aacute;tico da cena, provocando uma esp&eacute;cie de resson&acirc;ncia no/a leitor/a e, por fim, para conferir um ritmo cinematogr&aacute;fico sempre anunciado logo de cara: &ldquo;em c&acirc;mara lenta&rdquo;. No entanto, a meu ver, o manejo narrativo da cena f&aacute;-la oscilar entre a acelera&ccedil;&atilde;o e a lentid&atilde;o, cuja combina&ccedil;&atilde;o de ritmos serve para enfatizar aspectos distintos a cada recorr&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A repeti&ccedil;&atilde;o de cena que vertebra o romance n&atilde;o deixa ser uma esp&eacute;cie de prepara&ccedil;&atilde;o at&eacute; o brutal desenlace final, como se o autor estivesse n&atilde;o apenas nos preparando para o desfecho traum&aacute;tico, mas preparando-se a si mesmo para a narra&ccedil;&atilde;o do ato final. A estrat&eacute;gia narrativa adotada por Tapaj&oacute;s traduz literariamente o trabalho de elabora&ccedil;&atilde;o do trauma tal como proposto pela psican&aacute;lise. Para o psicanalista h&uacute;ngaro S&aacute;ndor Ferenczi (2011b) &#91;10&#93;, a situa&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica experimentada no passado continua a irromper no presente como uma lembran&ccedil;a da experi&ecirc;ncia vivida, uma experi&ecirc;ncia permanente recorrentemente revivida, produzindo um efeito duradouro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A reitera&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de experi&ecirc;ncias traum&aacute;ticas nos sonhos, como uma compuls&atilde;o, corresponde a uma esp&eacute;cie de ref&uacute;gio da alma atormentada na pr&oacute;pria doen&ccedil;a; &eacute; como se houvesse uma fuga para a doen&ccedil;a sob o impulso dos conflitos ps&iacute;quicos. No texto &ldquo;<i>Psican&aacute;lise das neuroses de guerra</i>&rdquo;, de 1918, Ferenczi, a partir de estudos anteriores aos seus, afirma que as neuroses de guerra n&atilde;o resultam de les&otilde;es mec&acirc;nicas, mas de uma &ldquo;como&ccedil;&atilde;o brutal&rdquo; que pode, inclusive, se manifestar muito depois da experi&ecirc;ncia traum&aacute;tica vivida no <i>front</i> de batalha. Pode haver um lapso de tempo entre a experi&ecirc;ncia vivida e os seus efeitos ps&iacute;quicos. O trauma produzido, a partir de experi&ecirc;ncias dolorosas no campo de batalha, prova, assinala Ferenczi, que o trauma prov&eacute;m de fora, imposs&iacute;vel de ser ligado a qualquer forma de representa&ccedil;&atilde;o, restando ao indiv&iacute;duo, por conseguinte, repeti-lo buscando, de algum modo, elabor&aacute;-lo. A repeti&ccedil;&atilde;o tem por fun&ccedil;&atilde;o conduzir o trauma a uma resolu&ccedil;&atilde;o, se poss&iacute;vel, definitiva. No caso do romance aqui discutido, o trauma encontrou na imagina&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria um meio para a sua narra&ccedil;&atilde;o &#91;11,12&#93; (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No entanto, o romance de Tapaj&oacute;s n&atilde;o se limita a narrar um trauma apenas individual. Muito pelo contr&aacute;rio. Primeiro porque a repeti&ccedil;&atilde;o dos epis&oacute;dios sobre a captura, tortura e morte da companheira &ndash; de lutas e amorosa &ndash; revela, no fundo, um trauma que n&atilde;o foi apenas de uma pessoa, mas de muitas, causada justamente pela viol&ecirc;ncia da Ditadura Militar &#91;7&#93;. Em segundo lugar, porque a narrativa testemunhal implica a necessidade de contar aos(&agrave;s) outros(as), tornar, em alguma medida, o(a) outro(a) participante da experi&ecirc;ncia vivida &#91;7&#93;, estabelecendo uma ponte com os(as) outros(as), vivos(as) e mortos(as), contempor&acirc;neos(as) &agrave; narrativa e os(as) que v&ecirc;m depois dela. Em suma, a narrativa testemunhal pressup&otilde;e a alteridade porque dela necessita. Nesse sentido, &ldquo;(...) a mem&oacute;ria do trauma &eacute; sempre uma busca de compromisso entre o trabalho de mem&oacute;ria individual e outro constru&iacute;do pela sociedade&rdquo; &#91;7&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O romance testemunhal, como &eacute; o caso do livro de Renato Tapaj&oacute;s, n&atilde;o deixa de representar uma esp&eacute;cie de trabalho coletivo de elabora&ccedil;&atilde;o do passado traum&aacute;tico, uma vez que permite e amplia a circula&ccedil;&atilde;o social de um conjunto de experi&ecirc;ncia dolorosas vividas individualmente, mas que s&atilde;o o produto de condi&ccedil;&otilde;es sociais e hist&oacute;ricas que ressoam coletivamente, possibilitando o reconhecimento da dor alheia &#91;4&#93;. Para Elizabeth Jelin (2021) &#91;13&#93;, &eacute; somente quando se estabelece o di&aacute;logo, a intera&ccedil;&atilde;o entre aquele(a) que narra e aquele(a) que escuta, &eacute; que se torna poss&iacute;vel construir os sentidos sobre o trauma hist&oacute;rico. A narrativa testemunhal, nos termos de Jelin, convida ao di&aacute;logo e estabelece a presen&ccedil;a de um &ldquo;eu plural&rdquo;, representativo de uma condi&ccedil;&atilde;o social e de um cen&aacute;rio de luta pol&iacute;tica. O romance testemunhal desfaz a dicotomia simples e redutora entre indiv&iacute;duo e sociedade; antes, revela a sua articula&ccedil;&atilde;o profunda.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&ldquo;O romance testemunhal n&atilde;o deixa de representar uma esp&eacute;cie de trabalho coletivo de elabora&ccedil;&atilde;o do passado traum&aacute;tico, uma vez que permite e amplia a circula&ccedil;&atilde;o social de um conjunto de experi&ecirc;ncias dolorosas vividas individualmente, mas que s&atilde;o o produto de condi&ccedil;&otilde;es sociais e hist&oacute;ricas que ressoam coletivamente.&rdquo;</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Por fim, no caso espec&iacute;fico do romance &ldquo;<i>Em c&acirc;mara lenta</i>&rdquo;, como j&aacute; sugerido aqui, h&aacute; uma &ldquo;labir&iacute;ntica trama de vozes&rdquo;, porque a fragmenta&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria traum&aacute;tica corresponde &agrave; fragmenta&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria voz narrativa, segundo Seligmann-Silva (2014) &#91;5&#93;. A meu ver, h&aacute; outra interpreta&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, de car&aacute;ter mais sociol&oacute;gico, a respeito de tal &ldquo;sintaxe fraturada&rdquo; que n&atilde;o descarta a de Seligmann-Silva, mas a ela se soma. A oscila&ccedil;&atilde;o do foco narrativo entre a primeira e a terceira pessoas do singular, entre um &ldquo;eu&rdquo; e um &ldquo;ele&rdquo; que narram, entre um narrador presente na a&ccedil;&atilde;o e um onisciente, demonstra que tal narrador &eacute; e n&atilde;o &eacute; o personagem central, que coincide e n&atilde;o coincide, ao mesmo tempo, ao autor, porque o narrador, assim como os demais personagens do romance, equivale a condensa&ccedil;&otilde;es figurativas de muitas experi&ecirc;ncias reais poss&iacute;veis, n&atilde;o se limitando a nenhuma delas em particular. Cada personagem n&atilde;o corresponde a uma singularidade, mas a comp&oacute;sitos de experi&ecirc;ncias, assemelhando-se mais a tipos sociais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&quot;<i>Em c&acirc;mara lenta</i>&quot;, assim como outras obras testemunhais, liter&aacute;rias e n&atilde;o-liter&aacute;rias, contribui para a constru&ccedil;&atilde;o de memórias coletivas sempre em disputa, &eacute; bom lembrar, em rela&ccedil;&atilde;o à Ditadura, visando à justi&ccedil;a e à repara&ccedil;&atilde;o, ajudando a inspirar o respeito pelos direitos humanos e a cristaliza&ccedil;&atilde;o de uma cultura mais democr&aacute;tica. Em um pa&iacute;s que, historicamente, promoveu a privatiza&ccedil;&atilde;o do trauma e impediu a constitui&ccedil;&atilde;o de uma memória p&uacute;blica, convenhamos, n&atilde;o &eacute; pouco...</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">1. FEIERSTEIN, D. <i>Memorias y representaciones</i>. Sobre la elaboraci&oacute;n del genocidio. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica, 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">2. LASCH, M. Em C&acirc;mara lenta: representa&ccedil;&otilde;es do trauma no romance de Renato Tapaj&oacute;s. <i>Remate de males</i>, Campinas, n. 30.2, p. 277-291, jul./dez. 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">3. SAVELSBERG, J. J. Viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos, lei e mem&oacute;ria coletiva. <i>Tempo Social - Revista de Sociologia da USP</i>, S&atilde;o Paulo, v. 19, n. 2, p. 13-37, nov. 2007.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">4. HUYSSEN, A. Os direitos humanos internacionais e a pol&iacute;tica da mem&oacute;ria: limites e desafios. <i>In</i>: HUYSSEN, A. <i>Culturas do passado-presente</i>: modernismos, artes visuais, pol&iacute;ticas da mem&oacute;ria. Rio de Janeiro: Contraponto/Museu de Arte do Rio, 2014.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">5. SELIGMANN-SILVA, M. Imagens prec&aacute;rias: inscri&ccedil;&otilde;es t&ecirc;nues de viol&ecirc;ncia ditatorial no Brasil. <i>Estudos de Literatura Brasileira Contempor&acirc;nea</i>, Bras&iacute;lia, n. 43, p. 13-34, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">6. SELIGMANN-SILVA, M. <i>Narrar o trauma</i>: a quest&atilde;o dos testemunhos de cat&aacute;strofes hist&oacute;ricas. <i>Revista Psicologia Cl&iacute;nica</i>, Rio de Janeiro, v. 20, n. 1, p. 65-82, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">7. SILVEIRA, T. O. A viol&ecirc;ncia e a fragmenta&ccedil;&atilde;o no livro em C&acirc;mara lenta, de Renato Tapaj&oacute;s. <i>Scripta Alumni</i>, Curitiba, n. 20, 2018.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">8. CANDIDO, A. Parecer. In: TAPAJ&Oacute;S, R. <i>Em C&acirc;mara Lenta</i>. S&atilde;o Paulo: Carambaia, 2022.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">9. TAPAJ&Oacute;S, R. <i>Em C&acirc;mara Lenta</i>. S&atilde;o Paulo: Carambaia, 2022.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">10. FERENCZI, S. Reflex&otilde;es sobre o trauma. <i>In</i>: FERENCZI, S. <i>Psican&aacute;lise IV</i>. Obras completas. v. 4. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">11. FERENCZI, S. Dois tipos de neurose de guerra (histeria). <i>In</i>: FERENCZI, S. <i>Psican&aacute;lise II</i>. Obras completas. v. 2. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">12. FERENCZI, S. Psican&aacute;lise das neuroses de guerra. <i>In</i>: FERENCZI, S. <i>Psican&aacute;lise III</i>. Obras completas. v. 3. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">13. JELIN, E. <i>Los trabajos de la memoria</i>. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica, 2021.    </font></p>      ]]></body><back>
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