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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Integração regional latino-americana: os desafios transcendem fronteiras. A formação de um bloco econômico pode proporcionar desenvolvimento, estimular a tecnologia e, especialmente, melhorar a qualidade de vida das populações da região]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Integra&ccedil;&atilde;o regional latino-americana: os desafios transcendem fronteiras. A forma&ccedil;&atilde;o de um bloco econ&ocirc;mico pode proporcionar desenvolvimento, estimular a tecnologia e, especialmente, melhorar a qualidade de vida das popula&ccedil;&otilde;es da regi&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Bianca Bosso</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Especialista em Jornalismo Cient&iacute;fico e Bacharela em Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas (Unicamp). Iniciou sua trajet&oacute;ria na Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica no ano de 2018. J&aacute; desenvolveu pautas para revistas como Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, ComCi&ecirc;ncia e Ci&ecirc;ncia Hoje, al&eacute;m de sites como Ag&ecirc;ncia Bori, Jornal da Unicamp, Portal Campinas Inovadora e blog Ci&ecirc;ncia na Rua</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Desde o final dos anos 1950, diversos especialistas defendem que a cria&ccedil;&atilde;o de blocos econ&ocirc;micos envolvendo as na&ccedil;&otilde;es latino-americanas pode ser uma ferramenta poderosa para alavancar a economia e valorizar a relev&acirc;ncia internacional da regi&atilde;o. Na &eacute;poca, o cen&aacute;rio p&oacute;s-guerra, marcado por crises financeiras, crescimento populacional e dificuldades de di&aacute;logo na comunidade internacional, era favor&aacute;vel a instigar o desejo de construir um conjunto mais influente de pa&iacute;ses, unindo for&ccedil;as de Estados vizinhos, mas, que at&eacute; ent&atilde;o, mantinham rela&ccedil;&otilde;es limitadas durante a resolu&ccedil;&atilde;o de seus desafios. Movidas por esse cen&aacute;rio surgem, nas d&eacute;cadas de 1950 e 1960, as primeiras tentativas de integrar a economia da Am&eacute;rica-Latina, lideradas pela Comiss&atilde;o Econ&ocirc;mica para a Am&eacute;rica Latina e o Caribe (CEPAL) e pela Associa&ccedil;&atilde;o Latino-Americana de Livre-Com&eacute;rcio (ALALC).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Apesar do conceito promissor e do cen&aacute;rio favor&aacute;vel, essas e outras iniciativas integracionistas enfrentaram desafios que, ao menos temporariamente, puseram fim ao sonho de unificar a economia latino-americana. Regimes pol&iacute;ticos, dificuldades econ&ocirc;micas e a aus&ecirc;ncia de mecanismos para tomadas de decis&otilde;es mais justas foram somente alguns dos obst&aacute;culos que levaram ao fim da ALALC e ao enfraquecimento da proposta do CEPAL. &ldquo;O avan&ccedil;o das rela&ccedil;&otilde;es e das articula&ccedil;&otilde;es do Brasil com os vizinhos data mais do fim do per&iacute;odo militar&rdquo;, explica Luciano Wexell Severo, ex-consultor da CEPAL e professor do curso de Ci&ecirc;ncias Econ&ocirc;micas - Economia, Integra&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento da Universidade Federal da Integra&ccedil;&atilde;o Latino-Americana (UNILA).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Com o colapso da ALALC e a democratiza&ccedil;&atilde;o, a constru&ccedil;&atilde;o de blocos econ&ocirc;micos regionais menores, formados apenas por parte dos pa&iacute;ses da regi&atilde;o, foi favorecida. Alguns dos frutos dessas agrega&ccedil;&otilde;es, como a Associa&ccedil;&atilde;o Latino-Americana de Integra&ccedil;&atilde;o (ALADI) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), persistem at&eacute; hoje e contribuem, por exemplo, para facilitar o com&eacute;rcio entre os pa&iacute;ses-membros (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Desafios</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Segundo M&aacute;rcio Bobik, professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Integra&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica Latina da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), os problemas econ&ocirc;micos internos ainda costumam ser os principais inimigos da coopera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica regional no s&eacute;culo XXI. O pesquisador conta que tais quest&otilde;es podem se manifestar de formas diferentes, como em taxas de c&acirc;mbio inst&aacute;veis e alta infla&ccedil;&atilde;o, que afetam os custos das opera&ccedil;&otilde;es entre os pa&iacute;ses, desencorajam investimentos e diminuem o poder competitivo em rela&ccedil;&atilde;o a outras na&ccedil;&otilde;es do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">M&aacute;rcio Bobik destaca tamb&eacute;m que, mesmo com o avan&ccedil;o de regimes democr&aacute;ticos na Am&eacute;rica-Latina, a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos pa&iacute;ses ainda se mostra como um dos desafios a ser superado. &ldquo;Tormentas pol&iacute;ticas internas, bem como diverg&ecirc;ncias em pol&iacute;ticas monet&aacute;rias e fiscais, dificultam a cria&ccedil;&atilde;o de um consenso em torno do avan&ccedil;o da integra&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirma o pesquisador. Ele explica que a pol&iacute;tica &eacute; apenas um dos problemas internos que pode dificultar o caminho at&eacute; a integra&ccedil;&atilde;o e que ainda n&atilde;o h&aacute; respostas sobre como incorporar a resolu&ccedil;&atilde;o desses problemas no processo integrativo.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&ldquo;Tormentas pol&iacute;ticas internas, bem como diverg&ecirc;ncias em pol&iacute;ticas monet&aacute;rias e fiscais, dificultam a cria&ccedil;&atilde;o de um consenso em torno do avan&ccedil;o da integra&ccedil;&atilde;o.&rdquo;</b></styled-content>   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nesse cen&aacute;rio, talvez, a uni&atilde;o com os pa&iacute;ses vizinhos seja uma alternativa para colaborar para a solu&ccedil;&atilde;o das tormentas internas de cada na&ccedil;&atilde;o - mas, para isso, &eacute; necess&aacute;rio que os l&iacute;deres pol&iacute;ticos entendam se e como o processo integrativo pode atuar como um facilitador. Para Luciano Severo, na Am&eacute;rica-Latina, &eacute; o Brasil quem deve disseminar essa no&ccedil;&atilde;o para os demais pa&iacute;ses: &ldquo;&Eacute; papel do Brasil atrair os pa&iacute;ses vizinhos para um processo de dinamismo econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico, democr&aacute;tico e socialmente inclusivo, fazendo com que eles se sintam beneficiados por esse processo de integra&ccedil;&atilde;o; todos esperam essa lideran&ccedil;a do Brasil&rdquo;. O pesquisador explica que as dimens&otilde;es continentais e o posicionamento geogr&aacute;fico do Brasil, que garante fronteiras diretas com nove dos 11 pa&iacute;ses sul-americanos, podem proporcionar uma articula&ccedil;&atilde;o comercial e econ&ocirc;mica in&eacute;dita: &ldquo;temos metade do territ&oacute;rio, metade da popula&ccedil;&atilde;o, metade da economia e mais de 60% da produ&ccedil;&atilde;o industrial da Am&eacute;rica do Sul. O Brasil tem que crescer e, com o seu crescimento, promover e estimular o crescimento dos vizinhos&rdquo;.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&ldquo;&Eacute; papel do Brasil atrair os pa&iacute;ses vizinhos para um processo de dinamismo econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico democr&aacute;tico e socialmente inclusivo.&rdquo;</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Para dar in&iacute;cio a essa estrat&eacute;gia, Luciano Severo menciona que, primeiro, &eacute; essencial impulsionar o fluxo comercial de produtos industriais dentro da Am&eacute;rica-Latina. &ldquo;Hoje, o Brasil vende para o mundo produtos de baixo valor agregado, sem muita intensidade tecnol&oacute;gica, como insumos b&aacute;sicos e mat&eacute;rias-primas. Quando observamos as rela&ccedil;&otilde;es com os pa&iacute;ses vizinhos, &eacute; diferente: vendemos produtos manufaturados, como motocicletas, autom&oacute;veis, ceifadeiras e tratores&rdquo;, explica. Com isso em mente, o ex-consultor da CEPAL defende que &ldquo;a capacidade de explorar a face mais desenvolvida e moderna da economia brasileira, a ind&uacute;stria, &eacute; com o mercado regional&rdquo;. Ele destaca que as trocas de produtos mais elaborados estimulam a economia, mas tamb&eacute;m s&atilde;o combust&iacute;veis potentes para a tecnologia, a ci&ecirc;ncia, a gera&ccedil;&atilde;o de empregos e renda e a capacita&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gicas, &aacute;reas de extrema relev&acirc;ncia em um processo que busca alavancar o desenvolvimento. &ldquo;&Eacute; essencial compreender que &eacute; importante vender <i>commodities</i> para a &Aacute;sia e para o mundo, mas &eacute; fundamental ampliar essa articula&ccedil;&atilde;o com os vizinhos&rdquo;, completa o professor (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Integra&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">De acordo com a linha de pensamento de Luciano Severo, o Brasil parece estar no caminho certo para tornar o sonho da integra&ccedil;&atilde;o uma realidade ainda mais difundida. No dia 30 de maio de 2023, cinco meses ap&oacute;s a posse de seu terceiro mandato, o presidente Lula reuniu em Bras&iacute;lia, pela primeira vez depois de oito anos, os 12 presidentes ou chefes de Estado de pa&iacute;ses da regi&atilde;o. &ldquo;H&aacute; claramente uma inten&ccedil;&atilde;o do governo brasileiro de voltar a estimular a articula&ccedil;&atilde;o regional. Por exemplo, o governo tem a ideia clara de voltar &agrave; carteira de projetos do COSIPLAN, o Comit&ecirc; Sul Americano de Infraestrutura e Planejamento, que est&aacute; paralisado desde 2017, 2018&rdquo;. O COSIPLAN &eacute; um importante articulador da integra&ccedil;&atilde;o infraestrutural e pol&iacute;tica na Am&eacute;rica-Latina, e iniciativas que direcionam &agrave; ades&atilde;o de seus projetos evidenciam a busca por uma maior uni&atilde;o com os Estados vizinhos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Para al&eacute;m das quest&otilde;es levantadas por Luciano Severo, M&aacute;rcio Bobik acrescenta que o caminho para estabelecer mecanismos integrativos mais complexos, com a promo&ccedil;&atilde;o de um mercado comum generalizado e, talvez, at&eacute; mesmo de uma moeda comum aos pa&iacute;ses latino-americanos, envolve mais uma s&eacute;rie de requisitos que ainda n&atilde;o s&atilde;o atendidos, mas devem come&ccedil;ar a ser discutidos a fim de avan&ccedil;ar no processo. &ldquo;&Eacute; necess&aacute;rio, pelo menos, a compatibiliza&ccedil;&atilde;o dos planos nacionais de desenvolvimento econ&ocirc;mico e a defini&ccedil;&atilde;o clara dos objetivos da integra&ccedil;&atilde;o. A estabilidade macroecon&ocirc;mica regional, que se manifesta pela baixa infla&ccedil;&atilde;o e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, por exemplo, e a estabilidade pol&iacute;tica e institucional dos pa&iacute;ses que se integram, tamb&eacute;m s&atilde;o essenciais&rdquo;, diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Para Luciano Severo, ao menos um desses requisitos j&aacute; tem resposta certa. O pesquisador defende que, al&eacute;m de proporcionar o desenvolvimento econ&ocirc;mico e financeiro, estimular a tecnologia e a uni&atilde;o entre os pa&iacute;ses, a forma&ccedil;&atilde;o de um bloco econ&ocirc;mico tem como principal objetivo e desafio melhorar a qualidade de vida das popula&ccedil;&otilde;es da regi&atilde;o. &ldquo;Aumentar o abastecimento de &aacute;gua pot&aacute;vel, o saneamento b&aacute;sico, a oferta de hospitais, de centros m&eacute;dicos, a oferta de institui&ccedil;&otilde;es de ensino, emprego com carteira assinada, de qualidade, com boa remunera&ccedil;&atilde;o&hellip; Essa &eacute; a finalidade&rdquo;, conclui.</font></p>      ]]></body>
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