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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O cerne do Pampa: conhecendo o mais austral dos biomas brasileiros</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fabiane Moreira Farias<sup>I</sup>; Carlos Augusto Riella de Melo<sup>II</sup>; D&eacute;bora da Cruz Pay&atilde;o Pellegrini<sup>III</sup>; Heinrich Hasenack<sup>IV</sup>; Maur&iacute;cio de Freitas Scherer<sup>V</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Farmac&ecirc;utica, doutora em Ci&ecirc;ncias Farmac&ecirc;uticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora associada na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Uruguaiana (RS), atuando nos cursos de Farm&aacute;cia, Enfermagem e Fisioterapia, e membro do corpo docente do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Farmac&ecirc;uticas (PPGCF-UNIPAMPA)    <br>   <sup>II</sup>Acad&ecirc;mico em Ci&ecirc;ncias da Natureza pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus Uruguaiana (RS), com gradua&ccedil;&atilde;o sandu&iacute;che (Brazilian Scientific Mobility Program) pela Universidade do Wisconsin, campus Oshkosh (EUA). &Eacute; professor e tradutor de ingl&ecirc;s. Autor do livro "O Homem que Enlouqueceu Nietzsche"    <br>   <sup>III</sup>M&eacute;dica veterin&aacute;ria (UFLA), mestre em Sa&uacute;de P&uacute;blica (ENSP/FIOCRUZ), doutora em Ci&ecirc;ncias Veterin&aacute;rias (UFRGS) e professora associada na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Uruguaiana (RS). Atua no curso de Medicina Veterin&aacute;ria e no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncia Animal (PPGCA)    <br>   <sup>IV</sup>Ge&oacute;grafo, mestre em ecologia e doutor em agroneg&oacute;cios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua como professor no Departamento de Ecologia do Instituto de Bioci&ecirc;ncias e no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Agroneg&oacute;cios do Centro de Pesquisas em Agroneg&oacute;cios, ambos na UFRGS. Tamb&eacute;m participa na Iniciativa MapBiomas, onde coordena o grupo do Bioma Pampa no Brasil    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup>V</sup>Ge&oacute;grafo, graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, &eacute; servidor p&uacute;blico da &aacute;rea de prote&ccedil;&atilde;o ambiental e conserva&ccedil;&atilde;o, atuando em gest&atilde;o de Unidade de Conserva&ccedil;&atilde;o, habitante do pampa e pecuarista familiar</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este artigo tem a proposta de levar o leitor por uma breve jornada pelo pampa, o mais resiliente e negligenciado bioma brasileiro, que constitui mais de 60% do territ&oacute;rio ga&uacute;cho. Aqui levamos nosso viajante virtual para conhecer aspectos geogr&aacute;ficos desse ambiente &uacute;nico, possibilitando conhecer a composi&ccedil;&atilde;o geol&oacute;gica dos diferentes solos da regi&atilde;o e a grande bacia h&iacute;drica que rega este ambiente. Em seguida, fazemos uma breve apresenta&ccedil;&atilde;o da biodiversidade do pampa ga&uacute;cho, tanto de sua fauna quanto de sua flora. Ent&atilde;o apresentamos os problemas ambientais que o bioma enfrenta, tais como a areniza&ccedil;&atilde;o e a perda de biodiversidade nativa frente a plantas e animais invasores e/ou introduzidos, mostrando ainda o que tem sido feito para mitigar o problema, em especial a cria&ccedil;&atilde;o e a manuten&ccedil;&atilde;o de Unidades de Conserva&ccedil;&atilde;o. Finalizamos o passeio apresentando ao leitor um pouco da hist&oacute;ria do pampa e da cria&ccedil;&atilde;o de seu tipo humano caracter&iacute;stico: o ga&uacute;cho, tratando de aspectos etnol&oacute;gicos, culturais e lingu&iacute;sticos. O objetivo deste texto n&atilde;o &eacute; aprofundar sobre nenhum dos aspectos tratados, mas apresentar um primeiro vislumbre, uma viagem r&aacute;pida de reconhecimento desse ambiente, que j&aacute; foi romanticamente chamado de "pa&iacute;s da solid&atilde;o", e que &eacute; t&atilde;o pouco conhecido pelos brasileiros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave: </b>Bioma pampa; Ga&uacute;cho; Biodiversidade; Unidades de Conserva&ccedil;&atilde;o.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sol de primavera se estende por sobre as colinas que se assemelham a um mar verde serpenteando at&eacute; onde a vista alcan&ccedil;a. Em meio a uma das tantas manchas de &aacute;rvores que se entremeiam &agrave;s eleva&ccedil;&otilde;es e baixios cobertos de gram&iacute;neas, uma raposa-dos-pampas (<i>Lycalopex gymnocercus</i>) atentamente observa, da sombra, a um jo&atilde;o-de-barro (<i>Furnarius rufus</i>) que recolhe a lama da chuva recente para a constru&ccedil;&atilde;o de seu ninho; com um princ&iacute;pio de ansiedade, o can&iacute;deo fica um pouco indeciso entre avan&ccedil;ar e arriscar perder sua presa ou esperar um pouco mais; alheio &agrave; amea&ccedil;a, o p&aacute;ssaro segue trabalhando a lama com o bico. A raposa retesa ainda mais seus ombros, pronta para o bote... de repente, o sil&ecirc;ncio das campinas &eacute; quebrado na dire&ccedil;&atilde;o do grande rio, chamado Uruguai, que corre a escassos 100 metros dali. Um grupo de ruidosos homens barbados, muitos vestindo negros h&aacute;bitos jesu&iacute;ticos, acaba de aportar balsas improvisadas na margem, fazendo destas descer algumas dezenas de cabe&ccedil;as de gado, fazendo os quero-queros (<i>Vanellus chilensis</i>) entoarem seu grito de alerta e o jo&atilde;o-de-barro desistir por hora da faina, indo se refugiar em uma das tantas manchas de floresta que pontuam &agrave;quele ambiente majoritariamente coberto por gram&iacute;neas e ervas. O que a raposa ou o p&aacute;ssaro sequer desconfiam, entretanto, &eacute; que aqueles homens europeus que adentram o ambiente com seu gado, sua religi&atilde;o e seu barulho naquele distante dia do s&eacute;culo 17 n&atilde;o mudaram apenas a sorte daquela ca&ccedil;ada: o ambiente onde aqueles animais moravam, o pampa ga&uacute;cho, nunca mais seria o mesmo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A proposta deste artigo &eacute; convid&aacute;-lo a embarcar em uma breve jornada por este que &eacute; o bioma mais resiliente e negligenciado do pa&iacute;s mais megadiverso do mundo, munido de um "novo olhar" aliado &agrave; ci&ecirc;ncia moderna, sem deixar de lado algumas hist&oacute;rias e reflex&otilde;es que auxiliar&atilde;o na elabora&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias inovadoras de conserva&ccedil;&atilde;o e sustentabilidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A geografia</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pampa &eacute; uma regi&atilde;o natural e pastoril caracterizado por plan&iacute;cies com colinas localmente chamadas de "coxilhas" - do espanhol <i>cuchillas </i>&#91;1&#93; - cobertas por campos, localizada no sul da Am&eacute;rica do Sul, embora em alguns lugares, como Uruguaiana, na Fronteira Oeste do Sul, e Rio Grande, no litoral ga&uacute;cho, se caracterizam por longas extens&otilde;es totalmente planas. Seu nome adv&eacute;m dos idiomas nativos aimar&aacute; e qu&eacute;chua, significando "plan&iacute;cie".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Geograficamente, o bioma pode ser caracterizado pela fisionomia campestre, ora sem e ora com a presen&ccedil;a de cap&otilde;es de mata, o de galeria estendendo-se por quatro pa&iacute;ses: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. No Brasil, o pampa restringe-se a metade meridional do Rio Grande do Sul, ocupando cerca de 193.836 km<sup>2</sup>, constituindo 63% do territ&oacute;rio do estado ou 2,3% do territ&oacute;rio nacional, sendo assim o segundo menor bioma brasileiro. Essa &aacute;rea de extens&atilde;o abrange 233 munic&iacute;pios ga&uacute;chos, fazendo limite apenas com o Bioma Mata Atl&acirc;ntica, ocupando as &aacute;reas geogr&aacute;ficas (geomorfol&oacute;gicas) conhecidas como Planalto da Campanha, Depress&atilde;o Central, Planalto Sul-Rio-Grandense e Plan&iacute;cie Costeira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pampa constitui-se de uma grande variedade de ecossistemas, os quais s&atilde;o distribu&iacute;dos em solos com caracter&iacute;sticas distintas, tendo o centro do Rio Grande do Sul &aacute;reas de bacia sedimentar, afloramentos cristalinos, gran&iacute;ticos e metam&oacute;rficos; na &aacute;rea litor&acirc;nea encontram-se dep&oacute;sitos de sedimentos relativamente recentes de origem marinha. J&aacute; a regi&atilde;o da Campanha, por&ccedil;&atilde;o das Miss&otilde;es, predominam solos de origem bas&aacute;ltica, mas na Campanha ocorrem tamb&eacute;m &aacute;reas de solos de origem sedimentar, basicamente de arenito, al&eacute;m de um tipo conhecido como "campos com areais", associado a dep&oacute;sitos superficiais arenosos com sua origem vinculada a processos fluviais e e&oacute;licos de clima semi&aacute;rido &#91;2&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Rio Grande do Sul tem uma extensa rede hidrogr&aacute;fica, subdivididos em tr&ecirc;s grandes regi&otilde;es: Uruguai, que inclui a bacia hidrogr&aacute;fica do Rio Uruguai, &agrave; qual tamb&eacute;m pertence &agrave; bacia do Rio Negro; Litor&acirc;nea; e Gua&iacute;ba, cobrindo a bacia hidrogr&aacute;fica do Lago Gua&iacute;ba. O pampa perpassa essas tr&ecirc;s regi&otilde;es, mas a principal a banh&aacute;-lo &eacute; a do Uruguai, que cobre cerca de 365.000 km<sup>2</sup> - 57% do Rio Grande do Sul -, estando a maior parte desta bacia englobada pelo pampa; o principal rio desta bacia &eacute; o Rio Uruguai (<a href="#fig1">Figura 1</a>) - nome que prov&eacute;m do guarani antigo, significando rio dos carac&oacute;is (<i>urugu&aacute;</i> &eacute; um tipo de caracol de &aacute;gua doce e <i>'y</i> &eacute; rio) -, o qual percorre 1.770 km com um caudal m&eacute;dio de 5 m<sup>3</sup>/s. Em todas as tr&ecirc;s bacias, al&eacute;m dos rios principais, h&aacute; centenas de pequenos afluentes, riachos, lagoas e lagos naturais permanentes e v&aacute;rias lagoas naturais sazonais, denominadas sangas, com destaque para a lagoa dos Patos, que com seus 10.144 km<sup>2</sup> &eacute; a maior laguna da Am&eacute;rica do Sul. H&aacute;, pois, bastante riqueza h&iacute;drica na regi&atilde;o, e n&atilde;o h&aacute; grande diferen&ccedil;a de vaz&atilde;o nas esta&ccedil;&otilde;es devido ao clima da regi&atilde;o ser subtropical, com chuvas regulares e, em geral, bem distribu&iacute;das ao longo do ano. Ainda sobre recursos h&iacute;dricos, a regi&atilde;o comporta, em sua maior parte, o Aqu&iacute;fero Guarani, com afloramentos desse cruzando a parte central da regi&atilde;o &#91;3&#93;.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a05fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao ponderar por fatores biof&iacute;sicos e disponibilidade de &aacute;gua, verificou-se que dez sistemas ecol&oacute;gicos campestres distintos comp&otilde;em o territ&oacute;rio do Rio Grande do Sul, com caracter&iacute;sticas flor&iacute;sticas &uacute;nicas e espec&iacute;ficas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Biodiversidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um primeiro olhar sobre o ambiente vai parecer ao observador incauto um ambiente est&eacute;ril, quase um "deserto verde" e monotonamente regular em quase toda sua extens&atilde;o (<a href="#fig2">Figura 2</a>). Mas tal impress&atilde;o &eacute; ilus&oacute;ria; na verdade, embora a partir da introdu&ccedil;&atilde;o do gado vacum nas miss&otilde;es jesu&iacute;ticas no s&eacute;culo XVII - conforme relatado de forma imagin&aacute;ria no primeiro par&aacute;grafo do presente texto - tenha mudado bastante a distribui&ccedil;&atilde;o da flora, a regi&atilde;o abriga aproximadamente 9% da biodiversidade brasileira em uma &aacute;rea pouco maior do que 2% das terras do Brasil, com poucas esp&eacute;cies restritas a uma ecorregi&atilde;o de campos em um clima de transi&ccedil;&atilde;o. Um amplo esfor&ccedil;o colaborativo identificou um n&uacute;mero de esp&eacute;cies no Pampa acima do registrado (12.503 esp&eacute;cies), sendo 3.642 esp&eacute;cies de plantas vasculares (incluindo 165 Pterid&oacute;fitas), 2.046 esp&eacute;cies de algas, 316 esp&eacute;cies de bri&oacute;fitas, 1.141 esp&eacute;cies de fungos (incluindo os fungos liquenizados) e 5.358 esp&eacute;cies de animais (vertebrados 1.136 e invertebrados 4.222 esp&eacute;cies). Ampliar o conhecimento acerca da biodiversidade do bioma &eacute; urgente, uma vez que a ignor&acirc;ncia faz v&iacute;timas em todos os estratos de vida.</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De fato, a introdu&ccedil;&atilde;o do gado vacum modificou bastante a cobertura vegetal da regi&atilde;o, mesmo nas &aacute;reas ainda cobertas por gram&iacute;neas nativas, tais como o capim-melador-rasteiro (<i>Paspalum pauciciliatum</i>), capim-caninha (<i>Andropogon lateralis</i>), capim-rabo-de-lagarto (<i>Mnesithea selloana</i>) ou a leguminosa pega-pega (<i>Desmodium incanum</i>) - todos usados na alimenta&ccedil;&atilde;o do gado - pois embora tais plantas sejam naturais da regi&atilde;o, originalmente dividiam seu espa&ccedil;o com grandes &aacute;reas arborizadas - conforme relatam viajantes como Debret ainda no s&eacute;culo XIX - as quais est&atilde;o atualmente retidas a poucas manchas florestais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vegeta&ccedil;&atilde;o, entretanto, n&atilde;o &eacute; uniforme, e al&eacute;m de regi&otilde;es fitoecol&oacute;gicas de florestas e de campos, observam-se &aacute;reas de transi&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica e de forma&ccedil;&otilde;es pioneiras, onde as pastagens predominam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A diversidade biol&oacute;gica do bioma pampa, entretanto, n&atilde;o se restringe &agrave; sua flora, sua fauna vai muito al&eacute;m da raposa-do-pampa ou do jo&atilde;o-de-barro com os quais come&ccedil;amos o texto. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), a regi&atilde;o conta com 74 esp&eacute;cies de mam&iacute;feros, 120 de aves, 97 r&eacute;pteis, 18 peixes e um sem n&uacute;mero de invertebrados. Em alguns casos, essa diversidade animal &eacute; comum a outras regi&otilde;es do pa&iacute;s; em outros, assemelha-se muito mais &agrave;s faunas vistas na Argentina e no Uruguai, havendo ainda casos de esp&eacute;cies end&ecirc;micas, tais como o simp&aacute;tico roedor tuco-tuco (<i>Ctenomys flamarioni</i>) das dunas do litoral ou o sapinho-de-barriga-vermelha (<i>Melanophryniscus atroluteus</i>) encontrado por toda a extens&atilde;o do pampa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Quest&otilde;es   ambientais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A biodiversidade pampeana tem sofrido severas perdas gra&ccedil;as tanto &agrave;<u> </u>destrui&ccedil;&atilde;o de <i>habitats</i> quanto &agrave; contamina&ccedil;&atilde;o de recursos h&iacute;dricos pelas lavouras. Com tudo isso, nos &uacute;ltimos 36 anos, o pampa foi o bioma que mais teve redu&ccedil;&atilde;o em sua vegeta&ccedil;&atilde;o nativa, perdendo 21,4% dos remanescentes registrados em 1985.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro fator tamb&eacute;m premente para a viabilidade e sobreviv&ecirc;ncia do Pampa &eacute; o uso sustent&aacute;vel do solo. Conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&aacute;ria (Embrapa), o solo da regi&atilde;o Norte do Rio Grande do Sul, por exemplo, est&aacute; altamente suscet&iacute;vel e vulner&aacute;vel &agrave; eros&atilde;o h&iacute;drica, causada principalmente pela chuva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; nos campos com areais do sudeste do estado, como a bacia do Rio Ibicu&iacute; e partes dos munic&iacute;pios de Quara&iacute; e Alegrete, ocorre o fen&ocirc;meno da areniza&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig3">Figura 3</a>), cuja forma&ccedil;&atilde;o &eacute; natural, embora estejam sendo ampliados principalmente pela destrui&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o nativa devido ao uso intensivo, como superpastejo e queimadas, provocando altera&ccedil;&otilde;es no ciclo natural do ecossistema. Isso resulta na perda de produ&ccedil;&atilde;o de biomassa e na degrada&ccedil;&atilde;o da comunidade animal, incluindo seres humanos, que habitam a &aacute;rea. &Eacute; importante notar que a vegeta&ccedil;&atilde;o nessas &aacute;reas j&aacute; &eacute; naturalmente fr&aacute;gil. Al&eacute;m disso, os solos com textura arenosa e silto-arenosa possuem baixo pH, altos n&iacute;veis de alum&iacute;nio e s&atilde;o deficientes em f&oacute;sforo, pot&aacute;ssio e nitrog&ecirc;nio, impondo restri&ccedil;&otilde;es significativas &agrave; comunidade vegetal dessas &aacute;reas. Esse uso intensivo ocorre em grande parte, desde a coloniza&ccedil;&atilde;o ib&eacute;rica, pela pecu&aacute;ria extensiva ter se constitu&iacute;do na principal atividade econ&ocirc;mica da regi&atilde;o, o que acarreta, al&eacute;m do sobreuso, na introdu&ccedil;&atilde;o de pastagens com esp&eacute;cies ex&oacute;ticas, o que leva a uma r&aacute;pida degrada&ccedil;&atilde;o das pastagens naturais do bioma. A isso soma-se a progressiva introdu&ccedil;&atilde;o e expans&atilde;o de monoculturas, em especial de arroz e soja &#91;4&#93;.</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a05fig03.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Nos &uacute;ltimos 36 anos, o pampa foi o bioma que mais teve redu&ccedil;&atilde;o em sua vegeta&ccedil;&atilde;o nativa, perdendo 21,4% dos remanescentes registrados em 1985."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Efetivamente, conhecer o solo e ajustar o uso ao seu potencial biof&iacute;sico natural &eacute; a principal proposta para alcan&ccedil;ar a sustentabilidade, o que proporcionar&aacute; menor depend&ecirc;ncia de fontes externas de energia e &aacute;gua para garantir uma produ&ccedil;&atilde;o equivalente. A ampla veicula&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es desta magnitude poder&aacute; estabelecer um di&aacute;logo entre conservacionistas e agricultores, baseado no princ&iacute;pio da sustentabilidade a outros patamares, inclusive ampliando a compreens&atilde;o da ecologia das pastagens para melhoria da qualidade das gram&iacute;neas nativas destinadas &agrave; pecu&aacute;ria de corte. De fato, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a cada ano se fortalece o entendimento de gest&atilde;o e cient&iacute;fico que a aus&ecirc;ncia do manejo pecu&aacute;rio e a presen&ccedil;a de vacas, bois, cavalos e ovinos trazem preju&iacute;zo aos recursos e valores objetivos da conserva&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A situa&ccedil;&atilde;o no bioma &eacute; t&atilde;o grave que, das tr&ecirc;s subdivis&otilde;es da estepe ga&uacute;cha propostas pelo IBGE em 1992 - arborizada, parque e gram&iacute;neo-lenhosa -, sobram cada vez menos &aacute;reas arborizadas e parque, e mesmo a &aacute;rea gram&iacute;neo-lenhosa tem sofrido desequil&iacute;brio com predom&iacute;nio das gram&iacute;neas, visando &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o pastoril.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar disso, o bioma possui Unidades de Conserva&ccedil;&atilde;o (UCs), embora existam muitas lacunas de conserva&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o relevantes experi&ecirc;ncias no comportamento da natureza frente &agrave;s a&ccedil;&otilde;es de prote&ccedil;&atilde;o integral, e essas &aacute;reas tendem a representar um papel importante na preserva&ccedil;&atilde;o. Um estudo conduzido, em 2021, em &aacute;reas de preserva&ccedil;&atilde;o permanente no pampa encontrou 210 esp&eacute;cies vegetais, sendo a fam&iacute;lia Poaceae a mais numerosa, seguida por Asteraceae (41), Cyperaceae (19), Fabaceae (12) e Rubiaceae (9). As &aacute;reas englobadas neste estudo est&atilde;o protegidas do pastoreio extensivo e do cultivo de plantas importadas de outros ambientes ou pa&iacute;ses, tais como o eucalipto australiano - introduzido no Estado em 1868 pelo diplomata e estadista brasileiro Joaquim Francisco de Assis Brasil - ou o africano capim-annoni 2 - cuja introdu&ccedil;&atilde;o no Estado &eacute; incerta, mas foi notado pela primeira vez nos anos 1950.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A situa&ccedil;&atilde;o no bioma &eacute; t&atilde;o grave que, das tr&ecirc;s subdivis&otilde;es da estepe ga&uacute;cha propostas pelo IBGE em 1992 - arborizada, parque e gram&iacute;neo-lenhosa - sobram cada vez menos &aacute;reas arborizadas e parques."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Espera-se, conforme determina&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o federal (Lei 9.985/2000), que os ecossistemas protegidos recebam a m&iacute;nima interfer&ecirc;ncia humana, sendo vedado o uso direto dos recursos naturais. Em contraponto a esse contexto das UCs de Prote&ccedil;&atilde;o Integral, nas experi&ecirc;ncias das de Uso Sustent&aacute;vel e nas propriedades privadas que ainda mant&ecirc;m remanescentes de vegeta&ccedil;&atilde;o nativa campestre, &aacute;reas onde ocorrem atividade pastoril, a fisionomia e a diversidade de esp&eacute;cies campestres caracter&iacute;sticas do Pampa est&atilde;o se mantendo.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A cria&ccedil;&atilde;o de unidades de conserva&ccedil;&atilde;o, a recupera&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas degradadas e a cria&ccedil;&atilde;o de mosaicos e corredores ecol&oacute;gicos foram identificadas como as a&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias para a conserva&ccedil;&atilde;o, juntamente com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento econ&ocirc;mico e social."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um excelente exemplo de &aacute;reas de conserva&ccedil;&atilde;o no bioma &eacute; a Esta&ccedil;&atilde;o Ecol&oacute;gica do Taim (ESEC Taim), que abrange aproximadamente 30% de seu territ&oacute;rio no munic&iacute;pio de Rio Grande e 70% no munic&iacute;pio de Santa Vit&oacute;ria do Palmar. Ela est&aacute; localizada em uma estreita faixa de terra entre o Oceano Atl&acirc;ntico e a Lagoa Mirim, e possui &aacute;reas de grande import&acirc;ncia no contexto ambiental do extremo sul do Brasil, formadas pelos avan&ccedil;os e recuos do mar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se o Taim fica no leste do estado, o centro conta com o Parque Estadual do Podocarpus, uma Unidade de Conserva&ccedil;&atilde;o de Prote&ccedil;&atilde;o Integral com 3.645 ha de &aacute;rea, localizada no bioma Pampa, no munic&iacute;pio de Encruzilhada do Sul. A cria&ccedil;&atilde;o desse parque teve como principal objetivo proteger &aacute;reas de mata onde est&aacute; presente o pinheiro-bravo (<i>Podocarpus lambertii)</i>, na regi&atilde;o da Serra do Sudeste.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; no oeste, temos como exemplo o Parque do Espinilho, no munic&iacute;pio de Barra do Quara&iacute;. Esse parque engloba &aacute;reas importantes para a conserva&ccedil;&atilde;o e desempenha um papel significativo na preserva&ccedil;&atilde;o de uma forma&ccedil;&atilde;o vegetal que &eacute; exclusiva da regi&atilde;o (savana estepe e savana parque), a qual abriga esp&eacute;cies caracter&iacute;sticas como o espinilho (<i>Acacia caven</i>), o algarrobo (<i>Prosopis nigra</i>) e o inhanduvai (<i>Prosopis affinis</i>). Al&eacute;m dessa vegeta&ccedil;&atilde;o singular, diversas esp&eacute;cies da fauna t&ecirc;m uma liga&ccedil;&atilde;o com essa forma&ccedil;&atilde;o e dependem do Parque para a conserva&ccedil;&atilde;o de suas popula&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atualmente, temos 11 desses "santu&aacute;rios" distribu&iacute;dos pelo bioma - sete exclusivos, quatro dividindo espa&ccedil;o com o bioma mata atl&acirc;ntica - um n&uacute;mero pequeno, ainda mais se pensarmos que, embora abranja mais de 60% do territ&oacute;rio ga&uacute;cho, o bioma possui apenas 29,17% do total de &aacute;reas de preserva&ccedil;&atilde;o - al&eacute;m de dividir outros 16,66% com a mata atl&acirc;ntica. Isso se torna ainda mais grave quando se pensa que o bioma &eacute; o que tem menor representatividade no Sistema Nacional de Unidades de Conserva&ccedil;&atilde;o (SNUC), representando somente 0,4% da &aacute;rea continental brasileira protegida por unidades de conserva&ccedil;&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o dessas unidades, a recupera&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas degradadas e a cria&ccedil;&atilde;o de mosaicos e corredores ecol&oacute;gicos foram identificadas como as a&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias para a conserva&ccedil;&atilde;o, juntamente com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento econ&ocirc;mico e social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute;, pois, a necessidade de fomentar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e novos estudos que realmente promovam a biodiversidade como uma das metas priorit&aacute;rias do Estado, suplantando de vez a invisibilidade do Pampa ou a ideia de que ele j&aacute; foi extinto. Levantamentos como este s&atilde;o imprescind&iacute;veis, pois trazem &agrave; tona uma discuss&atilde;o apontada por muitos relat&oacute;rios desde a emerg&ecirc;ncia da Covid-19 quanto ao risco da exposi&ccedil;&atilde;o humana a agentes potencialmente zoon&oacute;ticos associados &agrave; perda da biodiversidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A cultura</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O extremo sul do Brasil come&ccedil;ou a ser colonizado por europeus bem ap&oacute;s regi&otilde;es como o Nordeste e o Centro-Oeste; tal se deu no s&eacute;culo XVII, de maneira aproximada ao que vimos no primeiro par&aacute;grafo do presente texto, principiando com Hernandarias trazendo gado da regi&atilde;o de Buenos Aires e atravessando o Rio Uruguai, que hoje divide Brasil e Argentina na altura do Rio Grande do Sul. Chegando aqui, o colonizador deparou-se com etnias ind&iacute;genas tais como Guarani, Caigangue, Minuano e Charrua. Ao final do mesmo s&eacute;culo, os jesu&iacute;tas constroem, no que hoje &eacute; o territ&oacute;rio ga&uacute;cho, a primeira das sete miss&otilde;es que ali instalariam: S&atilde;o Francisco de Borja, no que hoje &eacute; a cidade de S&atilde;o Borja. Tais miss&otilde;es se constitu&iacute;ram em verdadeiras cidades de ind&iacute;genas - em especial guaranis - sob o dom&iacute;nio jesu&iacute;tico. Mas a pol&iacute;tica desenvolvida a milhares de quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia entre Portugal e Espanha selou o destino de tais miss&otilde;es na metade do s&eacute;culo XVIII. Quando tais miss&otilde;es foram destru&iacute;das, j&aacute; haviam aqui os primeiros afrodescendentes escravizados &#91;5&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesses ermos fartos de gram&iacute;neas e escasso de gentes - a ponto do escritor ga&uacute;cho Barbosa Lessa cognomin&aacute;-lo "Pa&iacute;s da Solid&atilde;o" &#91;6&#93; - nasce um novo elemento, o ga&uacute;cho (do qu&eacute;chua <i>huachu</i>, &oacute;rf&atilde;o ou vagabundo) (<a href="#fig4">Figura 4</a>), miscigenado e afeito &agrave;s lonjuras e &agrave; selvageria do ambiente despovoado, come&ccedil;ando a&iacute; a explora&ccedil;&atilde;o extensiva do gado, primeiro selvagem, ent&atilde;o chamado "chimarr&atilde;o" - do espanhol <i>cimarr&oacute;n</i>, o mesmo nome da infus&atilde;o de erva-mate (<i>Ilex paraguariensis</i>) em uma caba&ccedil;a, sorvida por um canudo de taquara ou metal, herdado do ind&iacute;gena e at&eacute; hoje extremamente popular em toda regi&atilde;o.</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a05fig04.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre os s&eacute;culos XIX e come&ccedil;o do s&eacute;culo XX, influenciado por uma vis&atilde;o eugenista, o Brasil cria uma pol&iacute;tica de "branqueamento" da popula&ccedil;&atilde;o &#91;7&#93;, e assim chegam ao pampa imigrantes europeus, principalmente alem&atilde;es e italianos, o que acaba por tornar o Rio Grande do Sul um dos estados mais etnicamente europeus do pa&iacute;s. Entretanto, apesar de haver &aacute;reas no estado onde h&aacute; o predom&iacute;nio da cultura europeia, n&atilde;o &eacute; correto desconsiderar a presen&ccedil;a das origens ind&iacute;gena e negra na constitui&ccedil;&atilde;o do ga&uacute;cho, principalmente no pampa, a exemplo do j&aacute; citado chimarr&atilde;o - tamb&eacute;m chamado "mate" - de origem Guarani, do churrasco ga&uacute;cho de origem Charrua, ou de festividades como o Carnaval, de origem africana, ou festivais de m&uacute;sica regionalista, como a Calif&oacute;rnia da Can&ccedil;&atilde;o de Uruguaiana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; equivocado, entretanto, pensar no pampa como uma cultura &uacute;nica, com vocabul&aacute;rio unificado e h&aacute;bitos e costumes id&ecirc;nticos. Dentro da pr&oacute;pria cultura regional h&aacute; subculturas, com regi&otilde;es, por exemplo, de fala mais pr&oacute;xima ao a&ccedil;oriano, como nas regi&otilde;es pr&oacute;ximas a Porto Alegre, ou com uma mistura das l&iacute;nguas dos povos origin&aacute;rios e de termos espanh&oacute;is com o portugu&ecirc;s, como na regi&atilde;o da Fronteira Oeste.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em suma, a riqueza do pampa, seja como bioma, seja enquanto ambiente cultural, &eacute; vasta e diversa, muito maior do que poderia imaginar qualquer raposa-dos-pampas ou jo&atilde;o-de-barro em uma tarde de sol primaveril.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;1&#93; RAE - Real Academia Espa&ntilde;ola. <i>Cuchilla</i> - Diccionario de la Lengua Espa&ntilde;ola. Madrid: RAE, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;2&#93; STRECK, E. V.; K&Auml;MPF, N.; DALMOLIN, R. S. D.; KLAMT, E.; NASCIMENTO, P. C.; GIASSON, E.; PINTO, L. F. S. <i>Solos do Rio Grande do Sul</i>. 3. ed. Porto Alegre: Emater/RS-Ascar, 2018.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;3&#93; MACHADO, J. L. F. A redescoberta do aqu&iacute;fero Guarani. <i>Scientific American Brasil</i>, v. 47, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;4&#93; SOUZA, P. B.; SANTOS, R. C.; JOCHIMS, F. <i>Areniza&ccedil;&atilde;o do bioma Pampa</i>. Trabalho de Conclus&atilde;o de Curso (P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o Lato Sensu em Gest&atilde;o Ambiental) - Instituto Educacional do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;5&#93; PONT, R. <i>Campos Realengos (I e II).</i> Porto Alegre: Edigal, 1983.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;6&#93; LESSA, B. <i>Rio Grande do Sul:</i> prazer em conhec&ecirc;-lo. Porto Alegre: Age, 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;7&#93; AMARAL, E. Onde est&atilde;o os negros do Rio Grande do Sul? <i>Correio do Povo</i>, Porto Alegre, 20 nov. 2019.    </font></p>     ]]></body>
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