<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252023000400014</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20230058</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fauna brasileira: surpreendente, superlativa, em risco!: Fauna tem um papel fundamental na manutenção e na regeneração das áreas verdes]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mariuzzo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Patrícia]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Unicamp Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2023</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2023</year>
</pub-date>
<volume>75</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>01</fpage>
<lpage>06</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252023000400014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252023000400014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252023000400014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fauna brasileira: surpreendente, superlativa, em risco! Fauna tem um papel fundamental na manuten&ccedil;&atilde;o e na regenera&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas verdes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Divulgadora de ci&ecirc;ncia e coordenadora de comunica&ccedil;&atilde;o do projeto HIDS Unicamp (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustent&aacute;vel)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Surpreendente, superlativa, megadiversa. Esses s&atilde;o alguns dos adjetivos associados &agrave; biodiversidade brasileira, que concentra mais de 13% da biota do planeta. Dos seis biomas do Brasil (Amaz&ocirc;nia, Caatinga, Cerrado, Mata Atl&acirc;ntica, Pampa e Pantanal), dois s&atilde;o considerados <i>hotspots</i> - &aacute;reas com grande riqueza e endemismos, consideradas priorit&aacute;rias para a conserva&ccedil;&atilde;o em n&iacute;vel mundial - o Cerrado e a Mata Atl&acirc;ntica. Conforme descreve o "Livro Vermelho da Fauna Brasileira Amea&ccedil;ada de Extin&ccedil;&atilde;o"(2018), compila&ccedil;&otilde;es recentes indicam que, entre os animais vertebrados, h&aacute; no Brasil cerca de 4.545 esp&eacute;cies de peixes, 1.080 de anf&iacute;bios, 773 de r&eacute;pteis, 1.919 de aves e 701 mam&iacute;feros. O Brasil &eacute; o pa&iacute;s com maior n&uacute;mero de esp&eacute;cies de anf&iacute;bios e primatas do mundo, o segundo em mam&iacute;feros e o terceiro em aves e r&eacute;pteis. Tamb&eacute;m &eacute; o sexto pa&iacute;s em endemismos de vertebrados, sendo as taxas mais altas para os anf&iacute;bios, com 57%, e os r&eacute;pteis, com 37%. A Amaz&ocirc;nia &eacute; o bioma com maior riqueza de esp&eacute;cies da fauna, seguido da Mata Atl&acirc;ntica e do Cerrado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira lista de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o publicada no Brasil &eacute; de 1968. Elaborada pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), ent&atilde;o &oacute;rg&atilde;o ambiental competente, dessa lista constavam 44 esp&eacute;cies da fauna, incluindo mam&iacute;feros, aves e r&eacute;pteis. Desde ent&atilde;o, o n&uacute;mero de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas tem sido sempre crescente em cada edi&ccedil;&atilde;o dessa lista oficial, e poucas esp&eacute;cies deixaram a lista. O mais urbanizado e fragmentado de todos os biomas brasileiros, a Mata Atl&acirc;ntica, &eacute; tamb&eacute;m o bioma com maior n&uacute;mero de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas: mais da metade delas (50,5%) se encontram nesse bioma, sendo que 38,5% s&atilde;o end&ecirc;micas (<a href="#gra1">Gr&aacute;fico 1</a>).</font></p>     <p><a name="gra1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a14gra01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda conforme o levantamento do "Livro Vermelho", os principais fatores de press&atilde;o &agrave;s esp&eacute;cies continentais est&atilde;o relacionados &agrave;s consequ&ecirc;ncias de atividades agropecu&aacute;rias, seja pela fragmenta&ccedil;&atilde;o e diminui&ccedil;&atilde;o da qualidade do <i>habitat</i> em &aacute;reas em que a atividade est&aacute; consolidada ou pelo cont&iacute;nuo processo de perda de <i>habitat</i> onde a atividade est&aacute; em expans&atilde;o. O segundo maior fator de press&atilde;o &eacute; a expans&atilde;o urbana, seguido de empreendimentos para gera&ccedil;&atilde;o de energia, que incluem a constru&ccedil;&atilde;o de barragens e represas para empreendimentos hidrel&eacute;tricos, parques e&oacute;licos e linhas de transmiss&atilde;o. A polui&ccedil;&atilde;o, seja industrial, urbana ou agr&iacute;cola, causada pelo uso de agrot&oacute;xicos, &eacute; a quarta amea&ccedil;a que mais afeta as esp&eacute;cies continentais, atingindo principalmente os invertebrados - como caranguejos-de-rio e borboletas - mas afetando tamb&eacute;m peixes &oacute;sseos, aves, anf&iacute;bios, r&eacute;pteis e mam&iacute;feros. Um levantamento mais recente, o "1&ordm; Diagn&oacute;stico Brasileiro de Biodiversidade &amp; Servi&ccedil;os Ecossist&ecirc;micos<u>"</u><i>, </i>elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Servi&ccedil;os Ecossist&ecirc;micos (BPBES, da sigla em ingl&ecirc;s), mostra esses dados (<a href="/img/revistas/cic/v75n4/a14tab01.jpg">Tabela 1</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A forma como cada um desses fatores impacta a degrada&ccedil;&atilde;o dos <i>habitats</i> e, consequentemente, os animais que neles habitam varia entre os biomas. "Cada esp&eacute;cie tem um conjunto de adapta&ccedil;&otilde;es para determinado <i>habitat</i>, com maior ou menor capacidade de se adaptar &agrave;s modifica&ccedil;&otilde;es que por ventura ocorram naquele ambiente. Algumas esp&eacute;cies s&atilde;o extremamente sens&iacute;veis a qualquer mudan&ccedil;a e essas s&atilde;o as primeiras a desaparecer localmente quando o ambiente se altera ou reduz de tamanho", explica Marl&uacute;cia Martins, pesquisadora do Museu Paraense Em&iacute;lio Goeldi.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E o que torna algumas esp&eacute;cies mais sens&iacute;veis a altera&ccedil;&otilde;es do ambiente? Alguns animais precisam, por exemplo, de uma certa &aacute;rea para se reproduzir ou para se relacionar com outras esp&eacute;cies. Quando essa &aacute;rea &eacute; reduzida, pode haver uma extin&ccedil;&atilde;o em n&iacute;vel local. "Se esse animal eventualmente possuir distribui&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica ampla, essa extin&ccedil;&atilde;o local n&atilde;o ser&aacute; t&atilde;o grave para a esp&eacute;cie, mas se ela s&oacute; existe em uma &aacute;rea restrita, ficar&aacute; ainda mais vulner&aacute;vel &agrave; extin&ccedil;&atilde;o. Da&iacute; nossa preocupa&ccedil;&atilde;o com essas esp&eacute;cies sens&iacute;veis porque sem seu <i>habitat</i> local, elas ser&atilde;o extintas de uma vez por todas", alerta Marl&uacute;cia Martins.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma chance a mais</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira lei que busca proteger a fauna silvestre no Brasil &eacute; a Lei de Prote&ccedil;&atilde;o a Fauna (Lei 5.197, de 3 de janeiro de 1967). Em 1992, o pa&iacute;s tornou-se um dos signat&aacute;rios da Conven&ccedil;&atilde;o sobre Diversidade Biol&oacute;gica (CDB), promulgada pelo Decreto n&ordm; 2.519, em 1998. Entre os compromissos assumidos pelos pa&iacute;ses membros da CDB destaca-se o desenvolvimento de estrat&eacute;gias, pol&iacute;ticas, planos e programas nacionais de biodiversidade. Pouco tempo depois, no ano 2000, o pa&iacute;s instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conserva&ccedil;&atilde;o da Natureza (SNUC, Lei n&ordm; 9.985). As unidades de conserva&ccedil;&atilde;o s&atilde;o espa&ccedil;os territoriais com limites definidos e com caracter&iacute;sticas naturais relevantes, legalmente institu&iacute;das pelo Poder P&uacute;blico, sob regime especial de administra&ccedil;&atilde;o, ao qual se aplicam garantias de prote&ccedil;&atilde;o. Elas est&atilde;o organizadas em dois grupos: Unidades de Prote&ccedil;&atilde;o Integral, com regras e normas bastante restritivas, como as que valem nos parques nacionais. No outro grupo, est&atilde;o as Unidades de Uso Sustent&aacute;vel, que conciliam a conserva&ccedil;&atilde;o da natureza com o uso sustent&aacute;vel de parte dos recursos naturais. &Eacute; neste grupo que est&atilde;o as &Aacute;reas de Prote&ccedil;&atilde;o Ambiental (APAs).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre os principais objetivos do SNUC est&atilde;o justamente contribuir para a conserva&ccedil;&atilde;o da variedade de esp&eacute;cies biol&oacute;gicas e dos recursos gen&eacute;ticos no territ&oacute;rio nacional e nas &aacute;guas jurisdicionais e proteger as esp&eacute;cies amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o. "O SNUC &eacute; a nossa melhor estrat&eacute;gia de conserva&ccedil;&atilde;o e prote&ccedil;&atilde;o de todos os biomas brasileiros", pontua Marl&uacute;cia Martins. "Combinado com o C&oacute;digo Florestal, que legisla a organiza&ccedil;&atilde;o das propriedades rurais para garantir a prote&ccedil;&atilde;o de nascentes, margens dos rios e &aacute;reas de alta declividade, temos os instrumentos legais para proteger n&atilde;o s&oacute; a biodiversidade, mas tamb&eacute;m garantir &aacute;gua pot&aacute;vel para todos, menor ocorr&ecirc;ncia de desastres como inunda&ccedil;&otilde;es, deslizamentos e a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos de qualidade. Se bem aplicado e gerido, e com apoio da popula&ccedil;&atilde;o, esse modelo pode proporcionar melhor qualidade de vida para todos", destacou a pesquisadora do Museu Goeldi.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ela tamb&eacute;m ressalta a import&acirc;ncia da educa&ccedil;&atilde;o ambiental e de campanhas que ajudem a explicar para o p&uacute;blico leigo - especialmente para as pessoas que vivem em ambientes urbanos - sobre o impacto que a perda de uma esp&eacute;cie poderia causar no planeta. "A vantagem dessas campanhas &eacute; que as a&ccedil;&otilde;es direcionadas ao salvamento da on&ccedil;a-pintada, mico-le&atilde;o-dourado ou araras-azuis, por exemplo, em geral, levam em considera&ccedil;&atilde;o o ambiente como um todo, e isso acaba melhorando as condi&ccedil;&otilde;es de outras esp&eacute;cies e n&atilde;o s&oacute; da que est&aacute; amea&ccedil;ada", explicou Martins. Nos biomas tudo est&aacute; conectado (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a14fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"As mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas se juntaram aos fatores que alteram o equil&iacute;brio dos ecossistemas e, consequentemente, a popula&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies da fauna em todos os biomas brasileiros."</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Um mundo interligado</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute; fauna sem <i>habitat</i>. Conforme explica Marl&uacute;cia Martins, muitas vezes, a degrada&ccedil;&atilde;o e a redu&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea do <i>habitat</i> v&ecirc;m com o seu isolamento, o que tamb&eacute;m impacta na reprodu&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies, colaborando para sua extin&ccedil;&atilde;o. "Todas as &aacute;reas verdes - seja uma floresta, seja um fragmento de mata em uma &aacute;rea de cultivo, at&eacute; parques urbanos - podem funcionar como corredores para indiv&iacute;duos de v&aacute;rios biomas, viabilizando sua comunica&ccedil;&atilde;o com indiv&iacute;duos da mesma esp&eacute;cie, de outras esp&eacute;cies, assim como o acesso ao alimento e &agrave; &aacute;gua. Esses corredores verdes s&atilde;o muito importantes na manuten&ccedil;&atilde;o da fauna", aponta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Da mesma forma que os animais dependem do <i>habitat</i> para se alimentar, se reproduzir, para viver, a fauna tem um papel fundamental na manuten&ccedil;&atilde;o da regenera&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas verdes. Para entender essa fun&ccedil;&atilde;o, precisamos entender como as plantas se reproduzem e de como esse processo &eacute; dependente da poliniza&ccedil;&atilde;o feita por animais. "A poliniza&ccedil;&atilde;o &eacute; a garantia de que as plantas v&atilde;o se reproduzir, v&atilde;o gerar flores, frutos e dar origem a novas plantas", lembra a pesquisadora do Museu Goeldi. Abelhas, besouros, borboletas e muitos outros insetos desempenham essa fun&ccedil;&atilde;o e, com a degrada&ccedil;&atilde;o de seus <i>habitats</i>, esse processo entra em risco. Isso sem falar nos impactos na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A perda de qualquer esp&eacute;cie &eacute; grave, porque em cada bioma se estabelecem interconex&otilde;es entre todos os seres que ali habitam, seja como alimento, como polinizador."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro exemplo das intera&ccedil;&otilde;es entre fauna e flora &eacute; a dispers&atilde;o das sementes pelos animais dispersores como p&aacute;ssaros, insetos, macacos e roedores. Ainda segundo Marl&uacute;cia Martins, um papel important&iacute;ssimo, mas pouco conhecido, &eacute; o de regula&ccedil;&atilde;o do ecossistema. "Algumas plantas competem entre si por espa&ccedil;o, por luz, podendo sufocar outros indiv&iacute;duos. Quando alguns animais herb&iacute;voros se alimentam dessas plantas, eles equilibram o sistema como um todo", explicou.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Atualmente, estamos vivenciando um processo de extin&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a, ou seja, a quantidade de esp&eacute;cies extintas nos &uacute;ltimos 100 anos no planeta, por conta das atividades humanas, j&aacute; &eacute; maior do que todos os eventos de extin&ccedil;&atilde;o que aconteceram em eras geol&oacute;gicas passadas."</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Um mundo em desequil&iacute;brio</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais recentemente, as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas se juntaram aos fatores que alteram o equil&iacute;brio dos ecossistemas e, consequentemente, a popula&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies da fauna em todos os biomas brasileiros. O boto-cor-de-rosa &eacute; apenas um dos tristes exemplos recentes. S&iacute;mbolo da biodiversidade da Amaz&ocirc;nia, ele j&aacute; est&aacute; na lista de mam&iacute;feros amea&ccedil;ados de extin&ccedil;&atilde;o por conta de modifica&ccedil;&otilde;es ambientais provocadas por barramentos e a pr&aacute;tica de pesca insustent&aacute;vel. Desde o fim do m&ecirc;s de setembro, pelo menos 150 botos-cor-de-rosa e tucuxis (outro golfinho da Amaz&ocirc;nia) morreram por conta das altas temperaturas e da estiagem considerada a mais severa na regi&atilde;o nos &uacute;ltimos 100 anos na Regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Conforme explica a pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustent&aacute;vel Mamirau&aacute;, Miriam Marmontel, a regi&atilde;o do m&eacute;dio Rio Solim&otilde;es, que juntamente com o Rio Negro formam o Rio Amazonas, com foco no Lago Tef&eacute;, experimentou o primeiro caso de UME (<i>unusual mortality event</i>, ou evento de mortalidade incomum) de botos amaz&ocirc;nicos, atrelado &agrave;s altas temperaturas registradas, em combina&ccedil;&atilde;o com um evento de seca extrema, p&eacute;ssima qualidade do ar e extraordinariamente baixa umidade do ar. "Ainda n&atilde;o descartamos a possibilidade de uma causa multifatorial, mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que o calor intenso desempenhou um papel fundamental na crise", disse.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os botos evolu&iacute;ram na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica, por isso se adaptaram ao subir e descer das &aacute;guas, conseguem adentrar a mata alagada e ca&ccedil;ar peixes em seu interior, explica Miriam Marmontel. "Toda a sua anatomia &eacute; adaptada para esse ambiente, permitindo uma flexibilidade &iacute;mpar para contornar os troncos das &aacute;rvores alagadas. Eles s&atilde;o do mundo aqu&aacute;tico, conseguem lidar com cheias extremas - mas n&atilde;o com secas extremas ou extremos de calor", explica. Ainda segundo a pesquisadora, os cet&aacute;ceos produzem calor e mant&ecirc;m temperatura corporal constante, em torno de 37 <sup>o</sup>C. Eles tamb&eacute;m desenvolveram outros mecanismos para livrar-se do calor ou para poup&aacute;-lo em um ambiente onde a perda de calor &eacute; bem maior do que no ambiente terrestre. Mas a mesma gordura que lhes proporciona prote&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica, hidrodin&acirc;mica, controle da flutua&ccedil;&atilde;o e estoque de energia, pode se tornar uma armadilha nos tr&oacute;picos, porque os botos n&atilde;o t&ecirc;m gl&acirc;ndulas sudor&iacute;paras. Se a temperatura de um animal aumenta em 10 <sup>o</sup>C, sua taxa metab&oacute;lica provavelmente dobrar&aacute; e prejudicar&aacute; todo o equil&iacute;brio bioqu&iacute;mico, levando o organismo a um colapso. "A probabilidade de que eventos como esse voltem a acontecer &eacute; muito alta j&aacute; a partir do pr&oacute;ximo ano, quando se estima que o efeito do <i>El Ni&ntilde;o</i> que estamos vivenciando agora seja ainda mais forte. Como vem alertando os meteorologistas, eventos de secas e cheias extremas v&atilde;o ocorrer com mais intensidade e frequ&ecirc;ncia nas pr&oacute;ximas d&eacute;cadas, em fun&ccedil;&atilde;o das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas", alertou.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O valor da vida</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute; como recuperar um animal extinto da natureza, a extin&ccedil;&atilde;o &eacute; irrevers&iacute;vel. No Brasil, dez esp&eacute;cies foram consideradas extintas, algumas recentemente. Uma delas &eacute; o limpa-folha-do-nordeste, cuja ocorr&ecirc;ncia era restrita a apenas tr&ecirc;s localidades nos estados de Alagoas e Pernambuco. Na "Lista" de 2014, este pequeno p&aacute;ssaro end&ecirc;mico e raro foi classificado como criticamente em perigo, mas em 2018 foi considerado extinto, ou seja, quando n&atilde;o restam quaisquer d&uacute;vidas de que o &uacute;ltimo indiv&iacute;duo tenha morrido. "A estrutura dos remanescentes de mata onde o limpa-folha vivia foi t&atilde;o alterada que n&atilde;o havia mais brom&eacute;lias, das quais a esp&eacute;cie parecia ser dependente", segundo a "Lista Vermelha". Uma planta, uma esp&eacute;cie, uma rela&ccedil;&atilde;o delicada e insubstitu&iacute;vel (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n4/a14fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A perda de qualquer esp&eacute;cie &eacute; grave, porque em cada bioma se estabelecem interconex&otilde;es entre todos os seres que ali habitam, seja como alimento, como polinizador. A redu&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es ou a extin&ccedil;&atilde;o colocam em risco outras esp&eacute;cies, seja da fauna, seja da flora, colocando essa cadeia de elos e liga&ccedil;&otilde;es em desequil&iacute;brio. Conforme explica Marl&uacute;cia Martins, em cada extin&ccedil;&atilde;o, h&aacute; o risco do chamado efeito em cascata, de extin&ccedil;&otilde;es subsequentes. Atualmente, estamos vivenciando um processo de extin&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a, ou seja, a quantidade de esp&eacute;cies extintas nos &uacute;ltimos 100 anos no planeta, por conta das atividades humanas, j&aacute; &eacute; maior do que todos os eventos de extin&ccedil;&atilde;o que aconteceram em eras geol&oacute;gicas passadas. "Isso &eacute; fruto da a&ccedil;&atilde;o humana e ser&aacute; agravado pelo aquecimento global que vai atingir de maneira indiscriminada um conjunto enorme de esp&eacute;cies", afirma a pesquisadora. Entender a import&acirc;ncia de preservar esse equil&iacute;brio do qual depende a sobreviv&ecirc;ncia da fauna em todos os biomas &eacute; crucial, assim como compreender que a extin&ccedil;&atilde;o &eacute; um processo definitivo. "Trata-se de um compromisso &eacute;tico com a vida: do mesmo jeito que n&oacute;s existimos, outras esp&eacute;cies t&ecirc;m o mesmo direito de existir", finaliza.</font></p>      ]]></body>
</article>
