<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252024000100006</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240006</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Depoimento de amigo]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Shibuya]]></surname>
<given-names><![CDATA[Edison Hiroyuki]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2024</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2024</year>
</pub-date>
<volume>76</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>01</fpage>
<lpage>06</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252024000100006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252024000100006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252024000100006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Depoimento de amigo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Edison Hiroyuki Shibuya</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor aposentado do Departamento de Raios C&oacute;smicos e Cronologia, Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin, Unicamp. Foi consultor do Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas, da Advanced Research Center For Science And Engineering Waseda University, e colaborador do Institute For Cosmic Ray Research The University of Tokyo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Depoimento de amigo</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira vez que soube de C&eacute;sar Lattes foi por meio de uma imagem na revista <i>Cruzeiro</i>, na d&eacute;cada de 1950. Ele havia sido fotografado em Recife. Nessa ocasi&atilde;o, eu cursava o gin&aacute;sio (atualmente, ensino fundamental).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Certamente, n&atilde;o imaginava que, muitos anos depois, eu estaria participando das pesquisas desenvolvidas sob a &eacute;gide da Colabora&ccedil;&atilde;o Brasil-Jap&atilde;o de Raios C&oacute;smicos (CBJ), em experimentos desenvolvidos no monte Chacaltaya (Bol&iacute;via).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Chacaltaya foi "descoberto" por C&eacute;sar ainda em Bristol (Reino Unido) e, pouco depois, passou a ser usado por ele para observar - usando como detector placas fotogr&aacute;ficas especiais (emuls&otilde;es nucleares) - dezenas de eventos de m&eacute;sons pi (hoje, p&iacute;ons) decaindo em m&eacute;sons mi (hoje, m&uacute;ons).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os p&iacute;ons s&atilde;o respons&aacute;veis pela aglomera&ccedil;&atilde;o dos n&uacute;cleons (pr&oacute;tons e n&ecirc;utrons) no n&uacute;cleo at&ocirc;mico, e os m&uacute;ons s&atilde;o el&eacute;trons pesados. Ao decair, um p&iacute;on carregado d&aacute; origem a um m&uacute;on e a uma part&iacute;cula neutra (hoje, neutrino).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar e eu fomos apresentados um ao outro pelo grande amigo Shozo Motoyama, que j&aacute; o conhecia, porque o pai de Shozo, ainda na d&eacute;cada de 1950, havia proposto a vinda ao Brasil de Hideki Yukawa, primeiro japon&ecirc;s a ganhar o Nobel. O pr&ecirc;mio foi dado pela proposi&ccedil;&atilde;o, em 1935, do p&iacute;on, part&iacute;cula que seria observada por C&eacute;sar cerca de 10 anos depois.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lembro-me de que, nesse primeiro encontro, est&aacute;vamos (Armando Turtelli Jr. e eu) nos equilibrando em um banco retirado de uma kombi. Ou seja, formalidades n&atilde;o eram com o C&eacute;sar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cito aqui mais tr&ecirc;s outros exemplos da irrever&ecirc;ncia e informalidade de C&eacute;sar:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a) Na elabora&ccedil;&atilde;o da minha tese de doutoramento, fui advertido por C&eacute;sar de que n&atilde;o podia trat&aacute;-lo nem por "senhor", nem "professor", mas, sim, por "C&eacute;sar" ou "voc&ecirc;". Em seguida, fechou a tese e s&oacute; a reabriu quando consegui pronunciar um "voc&ecirc;."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">b) Em minha primeira miss&atilde;o na Bol&iacute;via, a trabalho da CBJ, fizemos consider&aacute;vel aquisi&ccedil;&atilde;o de placas usinadas de chumbo para os experimentos; mas a autoriza&ccedil;&atilde;o para o envio do dinheiro do Brasil para pagar a compra atrasou consideravelmente. Consequentemente, fiquei retido l&aacute;, em um tipo de estada for&ccedil;ada e quase sem dinheiro. Para piorar a situa&ccedil;&atilde;o, o governo boliviano havia decretado desvaloriza&ccedil;&atilde;o de 60% de sua moeda... C&eacute;sar disse irreverentemente que eu, por ter resolvido o problema, havia me tornado amigo da vi&uacute;va propriet&aacute;ria da usina produtora das placas de chumbo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">c) Em outra ocasi&atilde;o, a solu&ccedil;&atilde;o para retirar da alf&acirc;ndega boliviana o material de um dos experimentos da CBJ foi usar um avi&atilde;o de paraquedistas, modelo B&uacute;falo, da For&ccedil;a A&eacute;rea Brasileira, que, na ida, havia levado equipamentos de criogenia doados pelo Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW/Unicamp) para a <i>Universidad Mayor de San Andr&eacute;s</i>. Antes de minha nova viagem &agrave; Bol&iacute;via, fui informado por C&eacute;sar de que os jornais bolivianos reportavam que a recente queda do presidente Garcia Mezza teria sido engendrada por agente do ent&atilde;o SNI que havia levado para l&aacute; as caixas com material n&atilde;o vistoriado. Desnecess&aacute;rio dizer que fiz a viagem bastante apreensivo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tudo isso, claro, eram brincadeiras de C&eacute;sar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lealdade e gratid&atilde;o eram outras caracter&iacute;sticas da personalidade dele. Por exemplo, quando o contrato do fundador do IFGW, Marcello Damy de Souza Santos, n&atilde;o foi renovado, C&eacute;sar foi abordado por Rog&eacute;rio C&eacute;zar de Cerqueira Leite, sucessor de Damy na dire&ccedil;&atilde;o do instituto. Cerqueira Leite queria que o colega apoiasse a decis&atilde;o de n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o emitida pelo ent&atilde;o reitor da Unicamp, Zeferino Vaz. C&eacute;sar n&atilde;o fez isso: manifestou-se a favor da renova&ccedil;&atilde;o do contrato, em apoio ao seu ex-professor e amigo de longa data (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois de minha gradua&ccedil;&atilde;o em F&iacute;sica, em 1968, pela Universidade S&atilde;o Paulo (USP), fomos contratados pela Unicamp, para onde C&eacute;sar havia se transferido no fim da d&eacute;cada de 1960, devido ao ambiente n&atilde;o amig&aacute;vel e sabotador do ent&atilde;o Departamento de F&iacute;sica da Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras da USP - novamente, contei com a ajuda do amigo Shozo Motoyama para conseguir esse emprego.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar dizia que n&atilde;o havia dado muitas aulas - talvez, pelas circunst&acirc;ncias advindas da fama e grande quantidade de tarefas. Mas, quando as dava, ele ensinava de maneira <i>sui generis </i>- possivelmente, por influ&ecirc;ncia de seus mestres na USP, Gleb Vassilievich Wataghin e Giuseppe Paolo Stanislao Occhialini.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas conversas com C&eacute;sar, o que era marcante era essa sua maneira de ensinar subliminarmente. Ele pedia opini&atilde;o sobre determinado t&oacute;pico; em seguida, induzia a pessoa a raciocinar para chegar &agrave; validade (ou n&atilde;o) da opini&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Wataghin disse ao rec&eacute;m-formado C&eacute;sar que, a partir daquele momento, 1943 (formatura em F&iacute;sica pela USP), eles eram iguais, e havia uma &uacute;nica coisa que os diferenciava: professores s&atilde;o mais experientes. Quando Occhialini viu que o &uacute;nico aluno matriculado em um de seus cursos, na USP, era C&eacute;sar, mudou a forma tradicional da rela&ccedil;&atilde;o aluno-professor: em vez da aula formal, ele entregou um filme rec&eacute;m-revelado - ainda molhado pela &aacute;gua de lavagem - e disse ao aluno: "Destrincha isso!". C&eacute;sar estranhou esse tipo de aula, mas, depois, viu que era a forma mais rica de ensino.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muito se especula sobre por que C&eacute;sar (ent&atilde;o jovem f&iacute;sico, com 22 ou 23 anos de idade) n&atilde;o recebeu o Nobel de F&iacute;sica - apesar de ter sido indicado sete vezes para o pr&ecirc;mio at&eacute; 1964. A Comiss&atilde;o do Nobel concedeu o pr&ecirc;mio s&oacute; a Cecil Frank Powell, chefe do Laborat&oacute;rio de F&iacute;sica H. H. Wills, da Universidade de Bristol - onde C&eacute;sar trabalhou em 1946 e no ano seguinte - pelo desenvolvimento do m&eacute;todo fotogr&aacute;fico para estudo de processos nucleares e por descobertas relacionadas aos m&eacute;sons.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas cometeu-se, a meu ver, uma injusti&ccedil;a: afinal, foi C&eacute;sar - para estudar rea&ccedil;&otilde;es nucleares de n&ecirc;utrons em aceleradores e, posteriormente, n&ecirc;utrons c&oacute;smicos - que solicitou &agrave; empresa brit&acirc;nica Ilford que inclu&iacute;sse na composi&ccedil;&atilde;o das emuls&otilde;es (basicamente, gelatina e sais de prata) o elemento qu&iacute;mico boro (na forma de b&oacute;rax).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa inser&ccedil;&atilde;o fez com que as trajet&oacute;rias das part&iacute;culas que atravessaram as emuls&otilde;es permanecessem est&aacute;veis por mais tempo - ou seja, a perda da chamada imagem latente foi atenuada. C&eacute;sar contou que, nessa ocasi&atilde;o, Powell - que havia sido especialista em terremotos - estava envolvido com f&iacute;sica nuclear e seguia usando para suas pesquisas as "velhas" emuls&otilde;es nucleares, de antes do fim da Segunda Guerra, chapas fotogr&aacute;ficas pouco espessas e com baixa quantidade de sais de prata.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Nas conversas com C&eacute;sar, o que era marcante era essa sua maneira de ensinar subliminarmente. Ele pedia opini&atilde;o sobre determinado t&oacute;pico; em seguida, induzia a pessoa a raciocinar para chegar &agrave; validade (ou n&atilde;o) da opini&atilde;o."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No fim das contas, o boro teve papel decisivo na detec&ccedil;&atilde;o do p&iacute;on em Bristol, em 1947, pois, tudo indica, permitiu que as trajet&oacute;rias dessas part&iacute;culas permanecessem est&aacute;veis por semanas e, assim, pudessem ser visualizadas ao microsc&oacute;pio, ap&oacute;s reveladas as emuls&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A observa&ccedil;&atilde;o, em Chacaltaya, de dezenas de m&eacute;sons duplos - ou seja, p&iacute;ons decaindo em m&uacute;ons - induziu C&eacute;sar a tentar observ&aacute;-los em aceleradores de part&iacute;culas. O acelerador de part&iacute;culas alfa com energia de 380 MeV&nbsp;na Universidade da Calif&oacute;rnia, em Berkeley (EUA), tinha energia de 98 MeV por n&uacute;cleon - portanto, inferior &agrave; massa do p&iacute;on. Mas, considerando que os n&uacute;cleons n&atilde;o est&atilde;o est&aacute;ticos, C&eacute;sar e seu colega te&oacute;rico Jos&eacute; Leite Lopes fizeram c&aacute;lculos e constataram que, em uma colis&atilde;o favor&aacute;vel, a energia seria maior que a massa do p&iacute;on. Ou seja, o acelerador em Berkeley poderia produzir p&iacute;ons, como constatou C&eacute;sar, no in&iacute;cio de 1948, ao observar emuls&otilde;es que haviam sido irradiadas pelo acelerador antes de sua chegada a Berkeley (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a06fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda no fim de 1947, em viagem &agrave; Dinamarca, C&eacute;sar reportou a possibilidade de o acelerador em Berkeley produzir p&iacute;ons para um dos seus grandes &iacute;dolos, Niels Bohr, que parece ter concordado com a hip&oacute;tese, mas estranhou o fato de o brasileiro querer deixar Bristol quando "as coisas estavam quentes por l&aacute;" - entenda-se, a detec&ccedil;&atilde;o do p&iacute;on pela equipe do H. H. Wills.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Naquele in&iacute;cio de 1948, C&eacute;sar Lattes e Eugene Gardner observaram a exist&ecirc;ncia dos p&iacute;ons positivos (e, mais tarde, negativos), gerados pela colis&atilde;o do feixe de part&iacute;culas do acelerador contra alvo fixo (carbono, por exemplo). No texto <i>"My work in Particle Physics"</i>, C&eacute;sar afirmou que Edwin McMillan pediu a ele para analisar chapas fotogr&aacute;ficas espessas irradiadas pelo feixe do acelerador s&iacute;ncrotron de el&eacute;trons, com energia de 300 MeV (milh&otilde;es de el&eacute;trons-volt), tamb&eacute;m em Berkeley. S&oacute; em uma noite, C&eacute;sar observou uma d&uacute;zia de p&iacute;ons positivos e negativos. Tudo indica que essa foi a primeira vez que se observou o fen&ocirc;meno da fotoprodu&ccedil;&atilde;o de p&iacute;ons.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fato &eacute; que somente C&eacute;sar fez a observa&ccedil;&atilde;o completa dos p&iacute;ons. E, pessoalmente, acho que o Nobel deveria ter sido concedido n&atilde;o s&oacute; a Powell, mas tamb&eacute;m a Occhialini e a Lattes. Tr&ecirc;s fatos corroboram minha opini&atilde;o. O primeiro: a rea&ccedil;&atilde;o de Powell ao telegrama que C&eacute;sar enviou, t&atilde;o logo foram observados os p&iacute;ons carregados em Berkeley: "<i>Fortunately we are right</i>" ("Por sorte, estamos certos"). O segundo: a doen&ccedil;a (beriliose) de Gardner, consequ&ecirc;ncia de seu trabalho no Projeto Manhattan, o impedia de ficar muito tempo ao microsc&oacute;pio - consequentemente, quase toda observa&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;sons nas emuls&otilde;es ficou a cargo de C&eacute;sar. Terceiro: o coment&aacute;rio que ouvi de Occhialini, de que C&eacute;sar estava certo ao ir para Berkeley e que o erro dele, Occhialini, foi ter se apaixonado pelas emuls&otilde;es nucleares e ter ficado na Europa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos coment&aacute;rios not&aacute;veis de C&eacute;sar foi: "Fiz o poss&iacute;vel. Fui empurrado pela hist&oacute;ria". Eu o interpreto como justificativa para o fato de que a observa&ccedil;&atilde;o do decaimento do p&iacute;on, em 1947, em emuls&otilde;es nucleares expostas no <i>Pic du Midi</i>, nos Pirineus franceses, &eacute; consequ&ecirc;ncia n&atilde;o s&oacute; de uma tarefa atribu&iacute;da a ele pela equipe de Bristol, mas tamb&eacute;m da inclus&atilde;o do boro nas emuls&otilde;es. H&aacute; mais um motivo, como veremos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa ocasi&atilde;o, Donald Hill Perkins, do Imperial College, havia observado evento inusitado em emuls&otilde;es expostas a bordo de avi&atilde;o, voando a grande altitude. Com esse an&uacute;ncio, era premente observar mais eventos assemelhados aos do <i>Pic du Midi</i>, publicados em 24 de maio de 1947, na revista <i>Nature</i>. Segundo C&eacute;sar, estabeleceu-se competi&ccedil;&atilde;o entre o Imperial College e a Universidade de Bristol na busca de mais p&iacute;ons.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A estrat&eacute;gia de C&eacute;sar foi buscar local mais alto que os Pirineus - em uma altitude semelhante ao do avi&atilde;o Comet, que estava sendo testado &agrave; &eacute;poca em voos em altitudes estratosf&eacute;ricas. Ao analisar mapas do Departamento de Geografia da Universidade de Bristol, C&eacute;sar encontrou o monte Chacaltaya, de f&aacute;cil acesso at&eacute; o primeiro pico (5,6 km acima do n&iacute;vel do mar), por causa de estrada que levava at&eacute; o Clube Andino (cerca de 5,3 km acima do n&iacute;vel do mar).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Feito isso prop&ocirc;s vir para o Brasil e, daqui, com recursos pr&oacute;prios, seguir para a Bol&iacute;via. Ao questionar se deveria assinar um recibo referente &agrave; viagem Inglaterra-Brasil-Inglaterra, Arthur Mannering Tyndall, diretor do Departamento de F&iacute;sica, disse que n&atilde;o havia necessidade, porque os recibos seriam os artigos cient&iacute;ficos publicados.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"S&oacute; em uma noite, C&eacute;sar observou uma d&uacute;zia de p&iacute;ons positivos e negativos. Tudo indica que essa foi a primeira vez que se observou o fen&ocirc;meno da fotoprodu&ccedil;&atilde;o de p&iacute;ons."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar se surpreendeu com a total falta de burocracia. Importante lembrar que a Universidade de Bristol era privada, e os recursos financeiros eram mais modestos do que os do Imperial College.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A &uacute;nica recomenda&ccedil;&atilde;o de Tyndall foi: voar com uma empresa a&eacute;rea brit&acirc;nica, pois o numer&aacute;rio era de "Sua Alteza Real". Mas o adido cultural da Embaixada brasileira em Londres aconselhou C&eacute;sar a viajar com a empresa brasileira, Panair do Brasil, que operava novos avi&otilde;es <i>Super Constellation</i>, enquanto a empresa brit&acirc;nica ainda usava velhos avi&otilde;es adaptados de bombardeiros da Segunda Guerra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, acrescentou o funcion&aacute;rio, o servi&ccedil;o a bordo servia um suculento bife. Isso deve ter soado como m&uacute;sica para o jovem C&eacute;sar, que, apesar de estar estagiando em um pa&iacute;s vencedor da Segunda Grande Guerra, costumava passar fome em Bristol, devido ao racionamento de comida &agrave; &eacute;poca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sugest&atilde;o seguida por C&eacute;sar foi providencial. Quando estava sobrevoando o aeroporto de Dakar, viu o avi&atilde;o brit&acirc;nico espatifado no solo. C&eacute;sar comentou, mais de uma vez comigo, que, caso estivesse no avi&atilde;o brit&acirc;nico, a comprova&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia dos dois m&eacute;sons poderia ter sido retardada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar costumava dizer, com sua humildade de sempre: "Se &eacute; que descobri alguma coisa na vida, isso foi o b&oacute;rax e o monte Chacaltaya". Isso sintetiza os fatos ocorridos que vieram como desdobramentos dessas "descobertas". Mas h&aacute; que ressaltar que essa intui&ccedil;&atilde;o e perspic&aacute;cia de C&eacute;sar levaram &agrave; observa&ccedil;&atilde;o do p&iacute;on em raios c&oacute;smicos, bem como no acelerador de part&iacute;culas em Berkeley.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em visita - em 1968, creio -, ao Museu da Paz em Hiroshima (Jap&atilde;o), C&eacute;sar teria sido abordado com o seguinte prop&oacute;sito: fornecer sua foto para ser inclu&iacute;da em mural de renomados cientistas que colaboraram para o desenvolvimento da bomba at&ocirc;mica. C&eacute;sar se recusou terminantemente, porque, na ocasi&atilde;o do Projeto Manhattan, ele estava fazendo c&aacute;lculos matem&aacute;ticos sob supervis&atilde;o de M&aacute;rio Schenberg, na USP.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pedido por parte do museu causou mal-estar a C&eacute;sar, que pediu a seu cicerone, Takao Tati, professor da Universidade de Hiroshima, para encerrar a visita e voltar ao hotel. Essa atitude de C&eacute;sar foi uma de muitas manifesta&ccedil;&otilde;es de humanidade, tra&ccedil;o marcante de sua personalidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar costumava dizer que a &uacute;nica conex&atilde;o dele com o Projeto Manhattan, projeto que desenvolveu a bomba at&ocirc;mica, foi o uso do &iacute;m&atilde; que defletia os m&eacute;sons positivos e negativos no acelerador em Berkeley. Esse equipamento foi usado para enriquecer o ur&acirc;nio usado na bomba at&ocirc;mica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1981, na 17ª Confer&ecirc;ncia Internacional sobre Raios C&oacute;smicos, em Paris, C&eacute;sar determinou que eu apresentasse um dos trabalhos da CBJ. Foi meu <i>debut</i>, sob supervis&atilde;o dele, nessa s&eacute;rie de confer&ecirc;ncias, a qual se iniciou em Crac&oacute;via (Pol&ocirc;nia), de 6 a 11 de outubro de 1947 - esta &uacute;ltima realizada justamente para discutir a observa&ccedil;&atilde;o dos dois m&eacute;sons. Mas vale destacar tamb&eacute;m o an&uacute;ncio, naquele encontro, do Professor Louis Leprince-Ringuet dos m&eacute;sons K (hoje, k&aacute;ons), com massa mil vezes a massa do el&eacute;tron.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"S&oacute; em uma noite, C&eacute;sar observou uma d&uacute;zia de p&iacute;ons positivos e negativos. Tudo indica que essa foi a primeira vez que se observou o fen&ocirc;meno da fotoprodu&ccedil;&atilde;o de p&iacute;ons."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a aposentadoria de C&eacute;sar, fui designado coordenador, pela parte brasileira, da CBJ. Na ocasi&atilde;o, ele perguntou minha opini&atilde;o sobre a aposentadoria dele. Respondi que era um direito, mas que eu continuaria pedindo a ele conselhos e conversas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por ocasi&atilde;o do planejamento de experimento da CBJ em conjunto com a Colabora&ccedil;&atilde;o Pamir, que reunia a ex-Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e a Pol&ocirc;nia, posicionei-me contr&aacute;rio &agrave; proposta feita por colegas japoneses, sovi&eacute;ticos e poloneses de tentar detectar eventos atmosf&eacute;ricos de grandes energias, como os do tipo Andr&ocirc;meda, observado pela CBJ, e do tipo Fianit, pela Colabora&ccedil;&atilde;o Pamir (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a06fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse meu posicionamento, resultado de conversas com C&eacute;sar, mostrou-se correto. A base para essa decis&atilde;o foi o fato de a comunidade internacional da &aacute;rea de raios c&oacute;smicos costumar citar, na literatura, s&oacute; os resultados de eventos de alvo localizado (C-jatos), ou seja, radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica filtrada pela parte superior da c&acirc;mara de emuls&otilde;es nucleares - porque a espessura do alvo &eacute; da ordem de 40 cm, o que permite an&aacute;lises quantitativas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; os eventos atmosf&eacute;ricos (A-jatos) - apesar de serem mais energ&eacute;ticos do que os C-jatos - t&ecirc;m a grande desvantagem de serem resultado de intera&ccedil;&otilde;es ocorridas nos 40 km da atmosfera terrestre; portanto, a maioria deles carece de precis&atilde;o. Em tempo: atualmente, planejo continuar a an&aacute;lise detalhada dos 12 eventos do tipo Andr&ocirc;meda, com altura na casa de 2 km.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os feitos de C&eacute;sar foram recentemente reconhecidos pela Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica do Brasil, que emitiu o Decreto de 1º junho de 2011, no qual consta: "Fica declarado de interesse p&uacute;blico e social o acervo arquiv&iacute;stico de C&eacute;sar Lattes, sob a guarda do Departamento de Raios C&oacute;smicos e Cronologia do Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin e do Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, por se tratar de um conjunto documental de m&aacute;xima relev&acirc;ncia para a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia, pela singularidade e ineditismo de suas descobertas, fundamentais para o desenvolvimento da f&iacute;sica at&ocirc;mica em &acirc;mbito nacional e internacional."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Encerrando este depoimento, gostaria de registrar minha eterna gratid&atilde;o n&atilde;o s&oacute; a C&eacute;sare Mansueto Giulio Lattes, mas tamb&eacute;m &agrave; Martha Siqueira Netto Lattes, pela amizade de ambos que tive o prazer de desfrutar por d&eacute;cadas (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a06fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
</article>
