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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[César Lattes e os institutos e laboratórios brasileiros]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&eacute;sar Lattes e os institutos e laborat&oacute;rios brasileiros</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Karina Francisco</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Jornalista, mestranda em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural, ama ler sobre Ci&ecirc;ncia e Fic&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A figura de C&eacute;sar Lattes &eacute; conhecida por suas pesquisas e pr&ecirc;mios ao longo da carreira, mas pouco se comenta sobre sua contribui&ccedil;&atilde;o para a origem e o avan&ccedil;o de diversos departamentos, institutos e laborat&oacute;rios de pesquisa da &aacute;rea da F&iacute;sica. Por onde passou, Lattes plantou uma semente para a perpetua&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea. Estava l&aacute; na cria&ccedil;&atilde;o do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq), o Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF), o Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin (IFGW - Unicamp), al&eacute;m de ter sido professor nos Institutos de F&iacute;sica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e ainda assinou dois protocolos de coopera&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica com a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) - conhecido como Projeto C&eacute;sar Lattes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os relatos de quem o conheceu pessoalmente e p&ocirc;de trabalhar com ele destacam  sua compet&ecirc;ncia como pesquisador, a paix&atilde;o pela pesquisa e pelas descobertas cient&iacute;ficas e o patriotismo no esfor&ccedil;o de alavancar o Brasil como um centro de pesquisas de excel&ecirc;ncia. Em in&uacute;meros momentos, utilizou a fama conquistada pelos resultados de seu trabalho para canalizar recursos, construir rela&ccedil;&otilde;es internacionais e ser um s&iacute;mbolo de que nosso pa&iacute;s tinha condi&ccedil;&otilde;es de produzir ci&ecirc;ncia de extrema qualidade.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Lattes mostrou que o Brasil podia participar da pesquisa de ponta feita pelo mundo."</b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF) - Rio de Janeiro</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por ter conhecido diversos centros na Europa e nos Estados Unidos, Lattes queria trazer esses sistemas ao Brasil. As not&iacute;cias sobre o assunto espalharam-se pela m&iacute;dia, o que levou &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de um ambiente prop&iacute;cio &agrave; cria&ccedil;&atilde;o, no Rio de Janeiro, de um instituto voltado principalmente para a pesquisa fundamental em F&iacute;sica. Assim, um grupo de empres&aacute;rios, cientistas e interessados nas ci&ecirc;ncias, pol&iacute;ticos influentes, militares, banqueiros e outros mobilizou-se em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do CBPF, com sua funda&ccedil;&atilde;o em 1949 (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lattes foi o primeiro diretor cient&iacute;fico da institui&ccedil;&atilde;o, ficando neste cargo por seis anos, e contribuiu na busca de infraestrutura e bolsas, al&eacute;m de estudantes qualificados. Sua articula&ccedil;&atilde;o foi fundamental para a cria&ccedil;&atilde;o do CNPq, que surgiu para promover e estimular o desenvolvimento da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica em qualquer dom&iacute;nio do conhecimento, mas com especial interesse no campo da f&iacute;sica nuclear. Anna Maria Freire Endler, professora em&eacute;rita do CBPF, estava come&ccedil;ando sua carreira no momento de forma&ccedil;&atilde;o do Centro e p&ocirc;de trabalhar pr&oacute;xima a Lattes. Ela conta que Lattes conseguiu sua bolsa de doutorado na Alemanha, al&eacute;m de trazer ao Brasil grandes nomes da f&iacute;sica nuclear mundial. "Quando fui fazer pesquisa na Europa, percebi que estava t&atilde;o preparada quanto todos os profissionais ali presentes. Lattes mostrou que o Brasil podia participar da pesquisa de ponta feita pelo mundo. Eram tempos de ouro, lembro-me de ir trabalhar motivada todos os dias. O CBPF fervia de gente importante, reconhecida mundialmente", relembra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">M&aacute;rio Novello, tamb&eacute;m pesquisador em&eacute;rito do CBPF, relata que trabalhou bem pr&oacute;ximo de Lattes por muitos anos e que, inclusive, escreveu um livro intitulado <i>"Os Cientistas da Minha Forma&ccedil;&atilde;o"</i> (Livraria da F&iacute;sica, 2016), em que comenta detalhes de sua conviv&ecirc;ncia com o cientista. Para ele, Lattes mudou o pensamento mundial de que o Brasil n&atilde;o era entendido como um pa&iacute;s onde havia uma ci&ecirc;ncia fundamental importante. M&aacute;rio Novello ainda comenta que Lattes foi figura fundamental na idealiza&ccedil;&atilde;o e na funda&ccedil;&atilde;o do CBPF e marcante por "sempre se aprofundar nos temas e pensar grande, procurando alargar as fronteiras que lhe eram impostas, fossem essas fronteiras de natureza t&eacute;cnica, pol&iacute;tica ou social". Segundo o professor, Lattes gostava de quem tinha genu&iacute;no interesse pelas leis da natureza, sem as pomposas "frescuras" que eram frequentes no meio cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje vinculado ao Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&otilde;es (MCTI), o CBPF &eacute; um instituto de excel&ecirc;ncia com colabora&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas internacionais, como o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), na Su&iacute;&ccedil;a, o Laborat&oacute;rio Fermi (Fermilab), nos Estados Unidos, entre outros. No CBPF, foram concebidos o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq), o Instituto Nacional de Matem&aacute;tica Pura e Aplicada (IMPA), o Laborat&oacute;rio Nacional de Computa&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica (LNCC) e o Laborat&oacute;rio Nacional de Luz S&iacute;ncrotron (LNLS). Odilon A. P. Tavares, pesquisador titular do CBPF, apresentou os detalhes das conquistas do centro em texto escrito para a comemora&ccedil;&atilde;o dos 60 anos do instituto, em 2009.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Instituto de F&iacute;sica - UFRJ</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na mesma &eacute;poca da cria&ccedil;&atilde;o do CBPF, foi sugerida a cria&ccedil;&atilde;o de uma c&aacute;tedra para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Erasmo Ferreira, professor em&eacute;rito e membro da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias (ABC), conta sobre os anos que Lattes lecionou na UFRJ e sua colabora&ccedil;&atilde;o para o primeiro laborat&oacute;rio de programa de pesquisa do Instituto de F&iacute;sica. "A passagem de Lattes pela UFRJ foi uma &eacute;poca de colabora&ccedil;&atilde;o para forma&ccedil;&atilde;o de pessoas. Ele soube usar da fama adquirida para ser uma refer&ecirc;ncia e uma inspira&ccedil;&atilde;o para os futuros f&iacute;sicos. Eu me lembro que fiquei empolgado com a super descoberta dele e fui fazer F&iacute;sica na universidade influenciado por isso", conta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Erasmo Ferreira relembra como Lattes era um mito para os jovens estudantes. Segundo ele, isso se d&aacute; por uma combina&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios fatores: uma descoberta important&iacute;ssima para a &aacute;rea, alinhada com um momento hist&oacute;rico p&oacute;s-guerra em que havia interesse mundial no estudo da F&iacute;sica Nuclear e uma alta valoriza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia que respingou no Brasil, com uma vontade grande do governo brasileiro de investir em novos centros e institutos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s essa breve passagem, C&eacute;sar Lattes foi convidado por M&aacute;rio Schenberg para um posto provis&oacute;rio no Instituto de F&iacute;sica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Posteriormente, montou um grupo de pesquisa sobre raios c&oacute;smicos na universidade. Em 1962, iniciou-se a Colabora&ccedil;&atilde;o Brasil-Jap&atilde;o de Raios C&oacute;smicos, que perdurou por anos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin - Unicamp</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&eacute;sar Lattes mudou-se para Campinas ap&oacute;s aceitar o convite da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e transferiu para a cidade n&atilde;o s&oacute; todo o seu grupo de pesquisa, como tamb&eacute;m a colabora&ccedil;&atilde;o entre o Brasil e o Jap&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor aposentado do IFGW da Unicamp, Edison Shibuya, foi colega e amigo do cientista por quase 30 anos. Ele conta que a presen&ccedil;a de Lattes no IFGW trouxe visibilidade para o Instituto, al&eacute;m de contribuir para constru&ccedil;&otilde;es de infraestrutura para pesquisas. "Lattes poderia fazer a carreira cient&iacute;fica no exterior, em qualquer pa&iacute;s, mas preferiu voltar para o Brasil. Ele queria ajudar a desenvolver o pa&iacute;s, pois uma de suas maiores caracter&iacute;sticas era o patriotismo. Era um amor inimagin&aacute;vel", relembra. Segundo Edison Shibuya, Lattes voltou ao Brasil com credibilidade para contribuir no desenvolvimento da F&iacute;sica no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sobre suas outras atividades no IFGW, o professor comenta que "ele ensinava de uma forma muito diferente da tradicional. Apresentava uma quest&atilde;o e perguntava a opini&atilde;o dos alunos sobre, depois conduzia aquela opini&atilde;o a virar uma verdade cient&iacute;fica ou mostrar-se incorreta. Ele fazia os alunos chegarem &agrave;s suas pr&oacute;prias conclus&otilde;es em sala de aula" (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin (IFGW) iniciou suas atividades em 1967. O Departamento de Raios C&oacute;smicos e Cronologia &eacute; o mais antigo do Instituto e foi fundado por Lattes quando suas atividades se centravam no seu grupo de pesquisa. Anderson Fauth, professor do Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin da Unicamp, teve seu mestrado orientado em boa parte por Lattes e comenta como ele era um homem com total devo&ccedil;&atilde;o &agrave; pesquisa, sem pretens&otilde;es pol&iacute;ticas a cargos administrativos das universidades. "Era um cientista refer&ecirc;ncia com destaque na m&iacute;dia. Acredito que o apelo popular que ele trouxe contribuiu para trazer recursos e construir tantas institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa na &aacute;rea.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Ele soube usar da fama adquirida para ser uma refer&ecirc;ncia e uma inspira&ccedil;&atilde;o para os futuros f&iacute;sicos."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Carola Dobrigkeit Chinellato, tamb&eacute;m professora do Instituto de F&iacute;sica da Unicamp - e que est&aacute; completando 50 anos na institui&ccedil;&atilde;o - foi orientada por Lattes no doutorado e conta como ele era uma das pessoas de mais prest&iacute;gio no rec&eacute;m-criado departamento de Raios C&oacute;smicos do IFGW. "Ele deixou muitos frutos para o Brasil, o seu grupo de estudos se mant&eacute;m at&eacute; hoje na Unicamp, com cada vez mais colabora&ccedil;&otilde;es internacionais. Ele soube aproveitar sua fama de uma forma muito positiva, canalizando recursos, visibilidade e rela&ccedil;&otilde;es com outros pa&iacute;ses, para colocar o Brasil no radar do mundo em pesquisas f&iacute;sicas", afirma.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Lattes poderia fazer a carreira cient&iacute;fica no exterior, em qualquer pa&iacute;s, mas preferiu voltar para o Brasil."</b></styled-content></font></p>     ]]></body>
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