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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Einstein e a relatividade restrita</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mario Schenberg</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&iacute;sico, matem&aacute;tico, pol&iacute;tico e cr&iacute;tico de arte brasileiro. Foi presidente da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica (1979-1981) e diretor do Departamento de F&iacute;sica da Universidade de S&atilde;o Paulo (1953- 1961), onde tamb&eacute;m foi professor catedr&aacute;tico</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aos 16 anos, Einstein j&aacute; questionava os conceitos vigentes de espa&ccedil;o e tempo. Ele imaginou uma onda eletromagn&eacute;tica e um observador movendo-se &agrave; velocidade da luz, percebendo que a onda pareceria parada, o que contradizia a natureza das ondas eletromagn&eacute;ticas. Essa percep&ccedil;&atilde;o levou &agrave; formula&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade restrita, destacando a import&acirc;ncia das experi&ecirc;ncias de pensamento em seu m&eacute;todo cient&iacute;fico. Einstein acreditava que as teorias nasciam da imagina&ccedil;&atilde;o humana e eram validadas pela experi&ecirc;ncia, desafiando a vis&atilde;o de que a experimenta&ccedil;&atilde;o direta gerava conceitos fundamentais. Sua abordagem diferenciava-se da interpreta&ccedil;&atilde;o tradicional do m&eacute;todo cient&iacute;fico, especialmente em compara&ccedil;&atilde;o com Newton.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Einstein; F&iacute;sica; Ci&ecirc;ncia; Teoria da relatividade; Relatividade restrita.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eu vou adotar uma t&aacute;tica diferente, digamos assim, da que foi usada pelo professor Nussenzveig nesta extraordin&aacute;ria confer&ecirc;ncia que ele fez. N&atilde;o vou tentar fazer nenhuma exposi&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica da relatividade restrita, mas vou fazer uma esp&eacute;cie de ataque, &agrave; maneira de guerrilhas, pegar um ponto, pegar outro ponto etc., de maneira a elucidar determinados aspectos, sem nenhuma inten&ccedil;&atilde;o de fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o muito coordenada, nem te dar um quadro geral, o que, ali&aacute;s, n&atilde;o seria poss&iacute;vel no tempo limitado de que disponho aqui.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A teoria da relatividade restrita, ao que tudo indica - e o pr&oacute;prio Einstein confirma isso em suas notas autobiogr&aacute;ficas - foi uma ideia que apareceria muito cedo em sua mente. Aos 16 anos de idade, ele j&aacute; tinha encontrado uma dificuldade nos conceitos de espa&ccedil;o e de tempo vigentes naquela &eacute;poca. A experi&ecirc;ncia que ele imaginou foi muito simples. Eu tamb&eacute;m n&atilde;o vou analis&aacute;-la em profundidade, vou apenas cit&aacute;-la para que se tenha uma ideia. Ele imaginou o seguinte: uma onda eletromagn&eacute;tica propagando-se, por exemplo, uma onda plana e um observador que pudesse mover-se com a velocidade da luz. Para este observador, a onda deveria aparecer como parada, o que seria inteiramente incompat&iacute;vel com o car&aacute;ter de uma onda eletromagn&eacute;tica que tem que ser um fen&ocirc;meno propagat&oacute;rio. E isso &eacute; muito interessante, porque mostra muito do m&eacute;todo de pensamento dele que, j&aacute; aos 16 anos de idade, estava bastante elaborado como se v&ecirc;, j&aacute; sentia que havia uma dificuldade essencial em rela&ccedil;&atilde;o aos conceitos de espa&ccedil;o e tempo, quer dizer, deveria ser imposs&iacute;vel um observador mover-se com a velocidade da luz. Se o observador n&atilde;o pudesse atingir a velocidade da luz, n&atilde;o haveria dificuldades, mas isso seria completamente incompat&iacute;vel com as ideias de espa&ccedil;o e de tempo que existiam naquela &eacute;poca, que n&atilde;o impediam que o observador se movesse at&eacute; com velocidade maior do que a da luz. Ali&aacute;s, existem at&eacute; trabalhos interessantes, como o de Sommerfeld, sobre o que um observador veria movendo-se com a velocidade superior &agrave; luz. &Eacute; um trabalho muito interessante, porque, de certo modo, prev&ecirc; certos resultados da radia&ccedil;&atilde;o de Tcherenkov.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bem, n&atilde;o vamos entrar neste ponto aqui, porque apenas nos interessa, mais exatamente, ver a maneira de Einstein pensar. Este m&eacute;todo das experi&ecirc;ncias de pensamento (<i>Gedanken Experiment</i>) sempre foi decisivo em sua obra. Ele fazia uma experi&ecirc;ncia mental, em vez da experi&ecirc;ncia ser feita com aparelhos. E isso &eacute; muito interessante para o m&eacute;todo da f&iacute;sica, porque Einstein acreditava que o m&eacute;todo da f&iacute;sica depende muito menos da experi&ecirc;ncia do que se sup&otilde;e. Na &eacute;poca dele, admitia-se que de resultados experimentais, por indu&ccedil;&atilde;o, obtinham-se os conceitos fundamentais da f&iacute;sica. Ele, aparentemente, nunca acreditou nisso, pensava que o contr&aacute;rio &eacute; o que acontece, o que depois ficou formulado bem explicitamente. Uma determinada teoria &eacute; imaginada pelo f&iacute;sico e depois submetida ao teste da experi&ecirc;ncia que pode invalid&aacute;-la, por&eacute;m, a experi&ecirc;ncia nunca permitiria descobrir os conceitos fundamentais. Mas ele considera mesmo, e eu vou s&oacute; citar de passagem a teoria da relatividade geral, que esta teoria mostrou, como ele afirmou em seu livro "Como vejo o mundo", que se podia explicar os efeitos da gravita&ccedil;&atilde;o da teoria de Newton por um esquema completamente diferente, um esquema de ideias com outros conceitos, e que, portanto, um fato experimental n&atilde;o determinava os conceitos necess&aacute;rios para sua elucida&ccedil;&atilde;o. A descoberta do conceito seria eminentemente um ato criador da imagina&ccedil;&atilde;o humana. Estou me referindo a isso, a guisa de introdu&ccedil;&atilde;o, porque sem compreender este ponto fica muito dif&iacute;cil avaliar realmente porque o m&eacute;todo cient&iacute;fico de Einstein era um m&eacute;todo cient&iacute;fico diferente. Ali&aacute;s, deve-se observar que a ideia do m&eacute;todo cient&iacute;fico foi em grande parte baseada sobre a regra de Newton, mas n&atilde;o sobre o pensamento de Newton, e pela regra de Newton foi como interpretada por seus disc&iacute;pulos. E como em geral acontece com os disc&iacute;pulos, eles deturpam as ideias do mestre quando n&atilde;o s&atilde;o mais talentosas do que ele, pois ent&atilde;o consertam os erros do mestre. Por&eacute;m, os disc&iacute;pulos de Newton eram muito menos talentosos do que o mestre, de modo que eles, em geral, deturparam muito as ideias de Newton, que como o Nussensvieg, j&aacute; se referiu em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es de Newton sobre a teoria corpuscular da luz. Ali&aacute;s, a concep&ccedil;&atilde;o de Newton da luz continuou desconhecida durante s&eacute;culos e mesmo at&eacute; agora ainda n&atilde;o se sabe exatamente qual &eacute; o conjunto das ideias de Newton. Ele j&aacute; tinha compreendido, nem podia deixar de compreender, porque j&aacute; conhecia o fen&ocirc;meno da difra&ccedil;&atilde;o da luz, que esta tivesse aspectos ondulat&oacute;rios. E ent&atilde;o imaginou uma coisa muito complicada, que at&eacute; hoje n&atilde;o foi poss&iacute;vel entender bem, sobre a exist&ecirc;ncia dos dois aspectos - o ondulat&oacute;rio e o corpuscular. H&aacute; um texto dele no qual se referindo a difra&ccedil;&atilde;o diz que na difra&ccedil;&atilde;o os corp&uacute;sculos luminosos t&ecirc;m caprichos, o que j&aacute; dava uma ideia da presen&ccedil;a de um efeito de probabilidade. Devido ao capricho do corp&uacute;sculo, o que este faria quando encontrasse uma fenda de difra&ccedil;&atilde;o? Da&iacute; poderia surgir a introdu&ccedil;&atilde;o de um conceito de probabilidade. E atualmente ent&atilde;o podemos ver como foi gigantesca a capacidade de intui&ccedil;&atilde;o de Newton. Einstein mesmo no pref&aacute;cio de uma edi&ccedil;&atilde;o moderna da "&Oacute;ptica" da Newton usou as seguintes palavras: "Newton, para quem a natureza n&atilde;o tem segredos". Quer dizer, &eacute; dif&iacute;cil contar alguma coisa da f&iacute;sica moderna que n&atilde;o tenha algum eco da obra de Newton. Eu me lembro que, uma vez, estava lendo a &oacute;tica de Newton e no meio disso, n&atilde;o tendo nada a ver com o assunto, voc&ecirc; encontra a seguinte nota: "que as for&ccedil;as que atuam dentro dos &aacute;tomos devem ser de natureza el&eacute;trica". Hora, essa &eacute; uma observa&ccedil;&atilde;o espantosa, porque no tempo dele, a rigor, n&atilde;o se sabia nem de &aacute;tomos, nem de eletricidade. Ele teve a intui&ccedil;&atilde;o de que as for&ccedil;as que atuam dentro dos &aacute;tomos eram de natureza el&eacute;trica. Mas isso mostra bem como a capacidade te&oacute;rica de um grande f&iacute;sico vai muito &agrave; frente da experi&ecirc;ncia: a de Newton estava uns 300 anos adiante das experi&ecirc;ncias da sua &eacute;poca. Assim, a ideia de que houvesse um m&eacute;todo certo irregular para extrair de fatos experimentais os conceitos te&oacute;ricos, hoje em dia, aparece completamente falsa. Procurarei fazer uma compara&ccedil;&atilde;o entre Einstein e Newton, tendo em vista a teoria da relatividade restrita, quanto as ideias de espa&ccedil;o e de tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como todos sabem, Newton tinha uma ideia sobre espa&ccedil;o e tempo de resto bastante obscura at&eacute; agora, que seria a de espa&ccedil;o e tempo absolutos. Para se ver como essa ideia era misteriosa, observemos que no famoso <i>Scholium generale </i>da obra fundamental de Newton sobre a mec&acirc;nica, <i>Philosophiae naturalis principia mathematica</i>, est&aacute; afirma&ccedil;&atilde;o que o espa&ccedil;o absoluto &eacute; o sens&oacute;rio de Deus. O que &eacute; uma ideia realmente muito dif&iacute;cil de compreender, de saber o que ele queria dizer com isso. Certamente esta ideia sugere in&uacute;meras reflex&otilde;es, mas de fato, n&atilde;o h&aacute; uma clareza absoluta sobre o que Newton entendia por espa&ccedil;o absoluto e tempo absoluto. Ser&aacute; talvez algo para a f&iacute;sica do futuro elucidar. Mas, na &eacute;poca de Einstein, prevalecia uma vis&atilde;o como essa, n&atilde;o s&oacute; sobre o espa&ccedil;o e o tempo, como tamb&eacute;m interpreta&ccedil;&otilde;es deturpadas das ideias de Newton sobre a massa e a for&ccedil;a. Einstein pensava na &eacute;poca, e com toda a raz&atilde;o, que a situa&ccedil;&atilde;o era ca&oacute;tica e que havia uma s&eacute;rie de fatos experimentais inexplic&aacute;veis pela f&iacute;sica newtoniana. Ali&aacute;s, vou chamar mais uma vez a aten&ccedil;&atilde;o sobre a deturpa&ccedil;&atilde;o que se faz da hist&oacute;ria da f&iacute;sica. Nos livros did&aacute;ticos, afirma-se costumeiramente que as ideias de Einstein que levaram &agrave; relatividade restrita foram baseadas nas experi&ecirc;ncias de Michelson-Morley. Nas notas autobiogr&aacute;ficas de Einstein, e mesmo nos pap&eacute;is que ele deixou, n&atilde;o h&aacute; nenhuma men&ccedil;&atilde;o dessa experi&ecirc;ncia, e parece mesmo que ele n&atilde;o a conhecia ao elaborar a sua teoria da relatividade restrita. Einstein desconhecia in&uacute;meros trabalhos, mas era uma ignor&acirc;ncia genial que, &agrave;s vezes, permitia que ele refizesse melhor as coisas que os outros tinham feito pior, como, por exemplo, no caso da mec&acirc;nica estat&iacute;stica. Neste caso, ele confessa que reconstruiu este tipo de mec&acirc;nica por causa de sua ignor&acirc;ncia, porque desconhecia os trabalhos sobre a mesma, n&atilde;o s&oacute; os mais recentes, mas at&eacute; mesmo alguns de Boltzmann. Tendo de refazer tudo desde o come&ccedil;o, seguiu um caminho mais interessante que os outros antes dele (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a08fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A descoberta do conceito seria eminentemente um ato criador da imagina&ccedil;&atilde;o humana."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Parece que Einstein n&atilde;o conhecia a experi&ecirc;ncia de Michelson, e que nos trabalhos de Lorentz apenas tivesse sabido do primeiro, desconhecendo, por exemplo, o trabalho no qual foram introduzidas as denominadas transforma&ccedil;&otilde;es de Lorentz. Naturalmente, depois ele ficou conhecendo, depois foi um grande amigo de Lorentz. E assim foi seguindo o seu pr&oacute;prio m&eacute;todo, sem se preocupar muito nem com os trabalhos experimentais, nem com os trabalhos te&oacute;ricos de outros f&iacute;sicos. Os te&oacute;ricos ele provavelmente n&atilde;o lia, e dos experimentais devia ter um conhecimento muito vago. Ali&aacute;s, esta atitude muito curiosa n&atilde;o desapareceu de todo com Einstein, que procurava abordar diretamente os problemas sem muita preocupa&ccedil;&atilde;o com os trabalhos dos outros. Outros f&iacute;sicos tamb&eacute;m tinham essa atitude. Pauli, que foi seu professor e de quem fiquei muito amigo, me dizia que em 1951: "eu n&atilde;o leio mais a <i>Physical Review</i>, pois os artigos l&aacute; publicados s&atilde;o muito ma&ccedil;antes e n&atilde;o vale a pena l&ecirc;-los". Naturalmente, Pauli sabia das coisas, porque as pessoas queriam contar para ele, o que era suficiente para orient&aacute;-lo. Talvez, essa maneira de proceder nem sempre tenha dado bons resultados: creio que uma das coisas que Einstein poderia ter usado e teria alterado as suas ideias sobre a teoria unit&aacute;ria fosse o trabalho de Kottler, um f&iacute;sico austr&iacute;aco de muito talento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein, em suas notas autobiogr&aacute;ficas, achava a situa&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica muito confusa, pensando que era preciso introduzir um princ&iacute;pio muito geral, do tipo dos dois princ&iacute;pios da termodin&acirc;mica, aos quais ele se referia explicitamente. Devia ser um princ&iacute;pio impeditivo, como os da termodin&acirc;mica, e este princ&iacute;pio foi o de que n&atilde;o poderia haver uma propaga&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea de uma a&ccedil;&atilde;o de um ponto do espa&ccedil;o para o outro. Isso punha abaixo a simultaneidade absoluta. A&iacute; &eacute; que est&aacute; o ponto essencial. Naquela &eacute;poca se julgava que dois acontecimentos que fossem simult&acirc;neos para um observador teriam que ser necessariamente para qualquer outro. Essa ideia de simultaneidade absoluta parecia evidente, se bem que n&atilde;o pareceu evidente, por exemplo, a Kant. Este, na "Cr&iacute;tica da Raz&atilde;o Pura", achava que a simultaneidade dos acontecimentos que ocorrem em lugares diferentes deve ser uma simultaneidade constru&iacute;da. Einstein provavelmente n&atilde;o sabia desta observa&ccedil;&atilde;o de Kant. N&atilde;o sei talvez uma leitura mais aprofundada dos apontamentos de Einstein permitisse saber disso. Pois bem, o princ&iacute;pio geral introduzido por Einstein impedia a simultaneidade absoluta, ou seja, a propaga&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea das a&ccedil;&otilde;es. Talvez o aspecto mais importante da teoria da relatividade restrita seja este, o de relativizar o conceito de simultaneidade, isto quanto aos conceitos, pois quanto aos resultados observ&aacute;veis o pr&oacute;prio Einstein, em seu livro "Como vejo o mundo", achava que a consequ&ecirc;ncia mais importante desta teoria foi a descoberta da equival&ecirc;ncia entre massa e a energia expressa na famosa equa&ccedil;&atilde;o E = mc<sup>2</sup>. Pelo menos ele pensava assim em 1933. N&atilde;o sei se depois mudou de opini&atilde;o sobre esse ponto. Ali&aacute;s, creio que a maneira como foram feitas as dedu&ccedil;&otilde;es no trabalho fundamental de Einstein, de 1905, foi mais ou menos arranjada, porque muitas vezes a pessoa pensa de um modo e quando redigi procura tornar a coisa mais compreens&iacute;vel para os outros escrevendo de modo diferente. Procurou ent&atilde;o basear a teoria da relatividade restrita em dois princ&iacute;pios. Aqui novamente aparece o seu g&ecirc;nio de maneira espetacular. Primeiramente por ter compreendido que n&atilde;o havia simultaneidade absoluta, que a simultaneidade devia ser constru&iacute;da. Para Newton, talvez por tr&aacute;s de suas ideias de espa&ccedil;o e de tempo o que existia mesmo era uma ideia de simultaneidade absoluta. Einstein foi quem compreendeu que este era o ponto essencial e que era necess&aacute;rio alter&aacute;-lo, que deveria haver ent&atilde;o uma lei geral da natureza tal como um princ&iacute;pio da termodin&acirc;mica que impedisse a propaga&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea das a&ccedil;&otilde;es. Denunciou tamb&eacute;m um princ&iacute;pio de relatividade que era a generaliza&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio j&aacute; existente na mec&acirc;nica newtoniana denominado pelo pr&oacute;prio Einstein de princ&iacute;pio da relatividade de Galileu. Era o seguinte: nenhuma experi&ecirc;ncia de mec&acirc;nica que fosse feita dentro de um laborat&oacute;rio em movimento retil&iacute;neo e uniforme pode detectar este movimento. Por experi&ecirc;ncia de mec&acirc;nica pode-se facilmente detectar se o sistema de refer&ecirc;ncia - o laborat&oacute;rio em que o observador est&aacute; - sofre uma acelera&ccedil;&atilde;o, como no caso de um autom&oacute;vel que acelera e projeta a gente de encontra ao assento. Por&eacute;m, se estiv&eacute;ssemos num trem movendo-se em linha reta e com velocidade constante e se al&eacute;m do mais as janelas estivessem fechadas, n&atilde;o poder&iacute;amos por meios mec&acirc;nicos detectar tal tipo de movimento. Se olh&aacute;ssemos para fora pelas janelas do trem, ent&atilde;o poder&iacute;amos inferir uma coisa: que o trem est&aacute; movendo-se ou as &aacute;rvores ao longo da ferrovia &eacute; que est&atilde;o em movimento, mas esta n&atilde;o &eacute; uma experi&ecirc;ncia feita dentro do trem e sim uma experi&ecirc;ncia feita com o trem e com as &aacute;rvores. Assim, poder&iacute;amos reverenciar um movimento retil&iacute;neo e uniforme de um sistema de refer&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o a outro. Al&eacute;m do mais, esta experi&ecirc;ncia n&atilde;o seria puramente mec&acirc;nica, ela seria mec&acirc;nica e &oacute;tica (ou eletromagn&eacute;tica), porque depende de ver imagens. A extens&atilde;o do princ&iacute;pio de relatividade que Einstein efetuou em rela&ccedil;&atilde;o ao de Galileu foi o seguinte: nenhuma experi&ecirc;ncia mec&acirc;nica e/ou eletromagn&eacute;tica feita dentro de um sistema de refer&ecirc;ncia isolado poderia detectar o estado de movimento retil&iacute;neo e uniforme do mesmo. Einstein anunciou tamb&eacute;m outro princ&iacute;pio que essencialmente seria o seguinte: as leis de propaga&ccedil;&atilde;o da luz independentemente do movimento da fonte luminosa deveriam ser exatamente id&ecirc;nticas para dois observadores iniciais e, portanto, movendo-se em movimento retil&iacute;neo e uniforme um em rela&ccedil;&atilde;o ao outro. Ent&atilde;o, a partir desses dois princ&iacute;pios, por uma s&eacute;rie de racioc&iacute;nios, ele reencontrou as denominadas f&oacute;rmulas de Lorentz, que s&atilde;o as transforma&ccedil;&otilde;es das coordenadas espaciais e do tempo de um observador inercial para as de outro observador inercial. Dessas f&oacute;rmulas de Lorentz, concluiu que n&atilde;o havia simultaneidade absoluta. Portanto, os eventos se classificam em dois tipos. A partir de eventos para os quais a ordem do tempo &eacute; independente do observador. S&atilde;o eventos para os quais pode haver uma rela&ccedil;&atilde;o causal. O outro tipo de pares de eventos poderia ocorrer em ordens de tempo opostas para diferentes observadores inerciais. Na discuss&atilde;o de simultaneidade interv&ecirc;m eventos que n&atilde;o t&ecirc;m a mesma ordem no tempo para todos os observadores inerciais entre os quais n&atilde;o pode haver rela&ccedil;&otilde;es de causalidade (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a08fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A constru&ccedil;&atilde;o conceitual das rela&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o e de tempo se baseia fundamentalmente sobre a causalidade."</b></styled-content> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Creio que na teoria da relatividade restrita a coisa mais importante foi exatamente a cr&iacute;tica ao conceito de simultaneidade - e j&aacute; a&iacute; entra a quest&atilde;o da causalidade. Se Einstein a tivesse aprofundado devidamente, v&aacute;rios aspectos da teoria da relatividade, sobretudo da sua relatividade generalizada, teriam sido modificados. De forma que se poderia dizer que a constru&ccedil;&atilde;o conceitual das rela&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o e de tempo se baseia fundamentalmente sobre a causalidade. Esta &eacute; em parte uma ideia de Kant que se referia apenas ao tempo. Para ele a causalidade era a base do tempo. Nos &uacute;ltimos anos a quest&atilde;o da causalidade tem despertado grande interesse tanto em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; relatividade restrita como em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; relatividade generalizada. Eu mesmo procurei reformular certos aspectos desta &uacute;ltima baseado no problema da causalidade. &Eacute; na mec&acirc;nica qu&acirc;ntica sobretudo que o conceito de causalidade tem sido objeto de in&uacute;meras discuss&otilde;es nos &uacute;ltimos anos. &Eacute; poss&iacute;vel mesmo que o fundamento de todas as ideias de espa&ccedil;o e de tempo seja o conceito de causalidade. Nos esquemas geom&eacute;tricos que se seguiram ao trabalho fundamental de 1905, essas coisas ficaram mais f&aacute;ceis de serem vistas. Foi em 1908, tr&ecirc;s anos depois de Einstein ter publicado o seu trabalho sobre a relatividade restrita, que o matem&aacute;tico Hermann Minkowski, que fora seu professor, mostrou que o conjunto das f&oacute;rmulas da relatividade restrita para as mudan&ccedil;as de coordenadas de espa&ccedil;o de tempo de um observador para o outro podiam ser expressas de uma maneira muito simples e interessante com a introdu&ccedil;&atilde;o de um cont&iacute;nuo espa&ccedil;o-tempo a quatro dimens&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aqui vou tocar num ponto de grande interesse. O termo relatividade aplicado a teoria de Einstein vem do fato de que os conceitos de espa&ccedil;o e de tempo ficam sendo relativos. O que &eacute; que chamamos de espa&ccedil;o para um observador? &Eacute; o conjunto de eventos simult&acirc;neos para ele. Se a simultaneidade se torna relativa, o mesmo ocorre com um conceito de espa&ccedil;o: eventos que s&atilde;o simult&acirc;neos para um observador e n&atilde;o s&atilde;o para o outro, isso significa que os dois observadores n&atilde;o tem o mesmo espa&ccedil;o. A relatividade da simultaneidade implica na relatividade do espa&ccedil;o e tamb&eacute;m do tempo de um observador. Minkowski introduziu um espa&ccedil;o de quatro dimens&otilde;es pseudo-euclidiano, ou seja, com uma m&eacute;trica indefinida. Ali&aacute;s, o professor Muniz Oliva j&aacute; falou sobre isso, embora de maneira mais geral e aqui vou tomar um caso muito especial. Minkowski tomou uma variedade 4-dimensional denominada espa&ccedil;o-tempo e considerou dois eventos entre os quais existe algo: o intervalo que desempenha um papel semelhante ao da dist&acirc;ncia na geometria de Euclides; s<sup>2</sup> &eacute; dado por uma forma quadr&aacute;tica indefinida, isto &eacute;, uma soma de 3 quadrados com um dado e um quarto com sinal oposto, por exemplo, s<sup>2</sup> = x<sup>2</sup> + y<sup>2</sup> + z<sup>2</sup> - c<sup>2</sup>t<sup>2</sup>. Esta "dist&acirc;ncia" ao quadrado no espa&ccedil;o-tempo pode ser positiva, negativa ou nula. Pois bem, Minkowski mostrou que o espa&ccedil;o de qualquer observador inercial seria mais f&aacute;cil de sess&atilde;o plana deste espa&ccedil;o-tempo 4-dimensional e que as f&oacute;rmulas de Lorentz que davam a passagem do espa&ccedil;o-tempo de um observador para o espa&ccedil;o-tempo de outro observador correspondiam a uma esp&eacute;cie de rota&ccedil;&atilde;o nesse espa&ccedil;o-tempo 4-dimensional. Tal "rota&ccedil;&atilde;o" seria expressa por transforma&ccedil;&otilde;es das quatro coordenadas lineares que deixavam invariante essa forma quadr&aacute;tica. Parece que o pr&oacute;prio Einstein n&atilde;o ficou muito entusiasmado com essa ideia e segundo contaram teria at&eacute; exclamado: "ih! Agora que os matem&aacute;ticos se meteram v&atilde;o atrapalhar tudo". Posteriormente mudou de opini&atilde;o, pois foi o espa&ccedil;o-tempo de Minkowski que lhe deu a pista para construir a relatividade generalizada. Ao passo que o espa&ccedil;o e o tempo separadamente s&atilde;o relativos, Minkownski mostrou que havia algo que n&atilde;o era relativo: o espa&ccedil;o-tempo. Para isso foi preciso ir para uma geometria 4-dimensional. O que, ali&aacute;s, n&atilde;o era totalmente novo. J&aacute; Lagrange via a cinem&aacute;tica como uma geometria 4-dimensional. Evidentemente entre essa concep&ccedil;&atilde;o de Lagrange e a relatividade restrita a todo um abismo. A ideia de que havia qualquer coisa de absoluto, mas que n&atilde;o seria uma variedade 3-dimensional, mas uma variedade 4-dimensional foi posteriormente muito enriquecida na generaliza&ccedil;&atilde;o da relatividade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltando &agrave; quest&atilde;o original que Einstein colocava em 1905. Achando a situa&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica muito confusa, ele procurava sair dela enunciando um princ&iacute;pio geral, o que levou ao princ&iacute;pio de relatividade restrita e a lei de isotropia de propaga&ccedil;&atilde;o da luz. No fundo, qual era essa confus&atilde;o que existia na f&iacute;sica? &Eacute; que estava vendo um desacordo: uma parte da f&iacute;sica, a mec&acirc;nica, assentada sobre as leis de Newton, tinha equa&ccedil;&otilde;es variantes pelo grupo de transforma&ccedil;&otilde;es de Galileu ao passo que outra parte, a eletrodin&acirc;mica, tinha as equa&ccedil;&otilde;es de Maxwell como outro tipo de invari&acirc;ncia matem&aacute;tica, correspondendo ao grupo de transforma&ccedil;&otilde;es de Lorentz. Como a teoria da relatividade restrita predominou, digamos assim, o grupo eletromagn&eacute;tico. Einstein deu prefer&ecirc;ncia ao eletromagnetismo sobre a mec&acirc;nica newtoniana. Anteriormente predominava a atitude oposta. O pr&oacute;prio Maxwell fez tentativas para deduzir as suas equa&ccedil;&otilde;es a partir de um modelo mec&acirc;nico newtoniano. Durante todo o s&eacute;culo XIX houve tentativas nesse sentido fatalmente destinadas ao fracasso, pois a mec&acirc;nica newtoniana tinha um grupo de invari&acirc;ncia diferente do grupo da invari&acirc;ncia da teoria eletromagn&eacute;tica. Com os trabalhos n&atilde;o s&oacute; de Einstein como os de seus contempor&acirc;neos Poincar&eacute; e Lorentz, isso ficou bem claro. O grupo eletromagn&eacute;tico de Lorentz passou a ser considerado grupo de invari&acirc;ncia de toda a f&iacute;sica atrav&eacute;s do espa&ccedil;o-tempo da relatividade restrita. Uma vez que Einstein tinha privilegiado este grupo, tornou-se necess&aacute;rio mudar as equa&ccedil;&otilde;es da mec&acirc;nica para adapt&aacute;-las de forma a obter equa&ccedil;&otilde;es que fossem invariantes pelo grupo de Lorentz, e n&atilde;o pelo grupo de Galileu da mec&acirc;nica newtoniana. Enfim, era preciso adaptar as leis da mec&acirc;nica as do eletromagnetismo. Para isso foi necess&aacute;rio fazer v&aacute;rias mudan&ccedil;as de conceitos. E a&iacute; come&ccedil;aram de novo a aparecer coisas estranhas como o conceito de massa variando com a velocidade. Newton j&aacute; admitira esse conceito que est&aacute; na primeira parte de sua mec&acirc;nica. Newton n&atilde;o escrevia a equa&ccedil;&atilde;o fundamental da din&acirc;mica assim como se faz usualmente: a for&ccedil;a como sendo igual &agrave; massa vezes a acelera&ccedil;&atilde;o (f = m . a). Para Newton, esta equa&ccedil;&atilde;o era escrita assim: a for&ccedil;a era a derivada da quantidade de movimento p em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo (f = <sup>dp</sup>/<sub>dp</sub>). Portanto, a equa&ccedil;&atilde;o original de Newton podia passar diretamente para a teoria da relatividade, n&atilde;o havia necessidade de alter&aacute;-la. Mas Newton foi mais adiante definindo dois conceitos de massa. E este &eacute; um ponto que muitas pessoas n&atilde;o entendem e criam confus&atilde;o. Um dos conceitos de massa era o de que a massa &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre a quantidade de movimento e a velocidade (m = <sup>p</sup>/<sub>v</sub>). Sobre esta massa ele dizia explicitamente que n&atilde;o sabia se ela variava ou n&atilde;o com a velocidade. N&atilde;o havia dados experimentais que permitissem esclarecer este ponto. Por simplicidade ele tomaria esta massa como constante, mas deixou a ressalva de que ela poderia n&atilde;o ser constante. A rigor a equa&ccedil;&atilde;o do movimento da din&acirc;mica de Newton podia ser trazida diretamente para a teoria da relatividade contanto que se pusesse a forma correta para a varia&ccedil;&atilde;o da massa com a velocidade que Newton desconhecia. Aqui Einstein deu um grande passo em rela&ccedil;&atilde;o a Newton descobrindo qual era a lei de varia&ccedil;&atilde;o da massa com a velocidade, o que exigiu a adapta&ccedil;&atilde;o da mec&acirc;nica ao eletromagnetismo. E da&iacute; chegou a famosa equa&ccedil;&atilde;o E = mc<sup>2</sup>, que ele considera com toda a raz&atilde;o como a contribui&ccedil;&atilde;o mais decisiva de toda a teoria da relatividade restrita. Assim, Einstein superou toda a chamada f&iacute;sica newtoniana. A varia&ccedil;&atilde;o da massa com a velocidade podia ser observada na &eacute;poca nos raios cat&oacute;dicos que s&atilde;o el&eacute;trons movendo-se com grande velocidade. Por&eacute;m, naquela &eacute;poca, a transforma&ccedil;&atilde;o da massa em energia ou vice-versa estava fora das possibilidades experimentais. Foi t&atilde;o somente com o desenvolvimento da f&iacute;sica nuclear que se p&ocirc;de obter verifica&ccedil;&otilde;es experimentais da rela&ccedil;&atilde;o entre a massa e a energia. Ali&aacute;s, pouco tempo depois de Einstein ter obtido esse resultado, o mesmo j&aacute; serviu para explicar um enigma, o da origem da energia do Sol. Tal problema tinha sido objeto de in&uacute;meras discuss&otilde;es sem sucesso durante todo o s&eacute;culo XIX. Por volta da Primeira Guerra Mundial, Jean Perrin j&aacute; tinha lan&ccedil;ado a hip&oacute;tese de que a fus&atilde;o de quatro &aacute;tomos de h&eacute;lio poderia ser a origem da energia solar. Come&ccedil;ou assim a teoria da relatividade a abrir novos horizontes para a astronomia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a08fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A introdu&ccedil;&atilde;o do conceito de espa&ccedil;o-tempo ao qual levou a teoria da relatividade restrita foi decisiva para a evolu&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica, possibilitando a generaliza&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A introdu&ccedil;&atilde;o do conceito de espa&ccedil;o-tempo ao qual levou a teoria da relatividade restrita foi decisiva para a evolu&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica, possibilitando a generaliza&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade com a inclus&atilde;o da pr&oacute;pria gravita&ccedil;&atilde;o dentro de um esquema geom&eacute;trico 4-dimensional. Permitiu tamb&eacute;m, embora de modo n&atilde;o imediato, uma melhor compreens&atilde;o da quest&atilde;o da causalidade. Realmente o fato de haver uma forma quadr&aacute;tica indefinida da m&eacute;trica &eacute; uma quest&atilde;o da causalidade. Levou a uma mudan&ccedil;a muito grande n&atilde;o s&oacute; do esquema newtoniano, mas de toda a vis&atilde;o do universo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Embora eu n&atilde;o queira entrar na teoria da relatividade generalizada, assunto que o professor Tiomno ir&aacute; tratar, vou tocar num ponto que acho essencial. As ideias de Einstein que conduziram &agrave; teoria da relatividade generalizada se inspiraram nas ideias geom&eacute;tricas de Riemann, o qual em meados do s&eacute;culo passado apresentou uma tese extremamente avan&ccedil;ada sobre uma nova concep&ccedil;&atilde;o de geometria. E havia nesta um ponto a que Einstein n&atilde;o deu a devida import&acirc;ncia: Riemann afirmava que temos que distinguir entre espacialidade em si mesma (pois n&atilde;o estava pensando em termos de espa&ccedil;o-tempo) e o espa&ccedil;o com m&eacute;trica, isto &eacute;, com medida. A m&eacute;trica para Riemann n&atilde;o era uma propriedade do espa&ccedil;o em si, mas algo que reflete as propriedades da mat&eacute;ria e das for&ccedil;as entre as part&iacute;culas materiais. Bem esta foi uma das coisas que Einstein realizou na relatividade generalizada, mas ao que parece n&atilde;o deu muita aten&ccedil;&atilde;o a observa&ccedil;&atilde;o na qual Riemann distingue a uma esp&eacute;cie de espacialidade pura sem m&eacute;trica sem medida. Seria o que atualmente na Matem&aacute;tica se chama de variedade diferenci&aacute;vel sem m&eacute;trica riemanniana. &Eacute; um conceito mais primitivo do que a variedade riemanniana. &Eacute; preciso distinguir entre a variedade diferenci&aacute;vel e a m&eacute;trica que &eacute; uma esp&eacute;cie do campo definido dentro da variedade diferenci&aacute;vel. &Eacute; da&iacute; que nasce realmente o espa&ccedil;o-tempo, pois a variedade diferenci&aacute;vel &eacute; um cont&iacute;nuo f&iacute;sico 4-dimensional, mas ainda n&atilde;o um espa&ccedil;o-tempo. Quem se aproximou desse tipo de concep&ccedil;&atilde;o foi o f&iacute;sico austr&iacute;aco Kottler, em 1912, curiosamente antes de Einstein ter obtido as equa&ccedil;&otilde;es da relatividade generalizada. Trabalho esse que nunca consegui ver, mas que me foi relatado. Kottler foi, ali&aacute;s, o descobridor da invari&acirc;ncia conforme do campo eletromagn&eacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Procurei fazer uma certa cr&iacute;tica sem ser sistem&aacute;tico e o tempo que tive n&atilde;o daria para isso, mas acho importante aplicar em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; obra de Einstein os m&eacute;todos que ele mesmo preconizava. Devemos diante de sua obra manter uma atitude cr&iacute;tica, inclusive para melhor compreend&ecirc;-la. Uma atitude cr&iacute;tica &eacute; sempre de certo modo um p&eacute; atr&aacute;s, uma certa desconfian&ccedil;a. Por maravilhosa que pare&ccedil;a uma certa constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica devemos sempre ficar pensando se n&atilde;o pode haver uma reformula&ccedil;&atilde;o da mesma, se n&atilde;o h&aacute; maneiras alternativas de constru&iacute;-la. Penso que s&oacute; assim a obra de Einstein ter&aacute; toda a import&acirc;ncia que merece. Devemos constantemente fazer a compara&ccedil;&atilde;o entre a sua obra e a mec&acirc;nica newtoniana por um lado e por outro compar&aacute;-la com a mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. Assim compreenderemos melhor a teoria da relatividade. &Eacute; o que est&aacute; acontecendo nesses &uacute;ltimos anos. A prop&oacute;sito lembro-me que Fermi me dizia: "n&atilde;o sei n&atilde;o se a teoria da relatividade generalizada &eacute; correta, faltam dados experimentais para confirm&aacute;-la plenamente". De fato, naquela &eacute;poca, em 1938, n&atilde;o havia muita base experimental para esta teoria. Agora a situa&ccedil;&atilde;o mudou, depois surgiram novas confirma&ccedil;&otilde;es experimentais da teoria da relatividade generalizada. Com a teoria da relatividade restrita a situa&ccedil;&atilde;o foi outra: ela teve aceita&ccedil;&atilde;o imediata e provocou efeitos enormes n&atilde;o s&oacute; diretamente, mas sobretudo atrav&eacute;s da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. A teoria da radia&ccedil;&atilde;o de Dirac foi o primeiro exemplo de uma teoria qu&acirc;ntica relativista e ao in&iacute;cio da teoria qu&acirc;ntica dos Campos. Dirac foi o primeiro a conseguir fundir a relatividade com a mec&acirc;nica qu&acirc;ntica ao descobrir a equa&ccedil;&atilde;o que leva o seu nome, que &eacute; a equa&ccedil;&atilde;o de onda relativ&iacute;stica do el&eacute;tron. Ali&aacute;s, foi tamb&eacute;m o primeiro a fazer posteriormente uma teoria qu&acirc;ntica do campo gravitacional. A teoria da relatividade restrita recebeu confirma&ccedil;&otilde;es brilhantes ainda mais no campo da f&iacute;sica qu&acirc;ntica do que no campo da f&iacute;sica cl&aacute;ssica. Mesmo se nos reportarmos a obra de Einstein, como, por exemplo, ao conceito de f&oacute;ton, vemos que este s&oacute; pode ser concebido com clareza dentro de um esquema relativ&iacute;stico. O f&oacute;ton &eacute; essencialmente uma part&iacute;cula relativ&iacute;stica, ao passo que as outras part&iacute;culas de massa diferente de zero podem ser mais ou menos compreendidas sem a relatividade. Outro exemplo de combina&ccedil;&atilde;o dessas duas teorias nos &eacute; dado pelo estudo de energia nuclear.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Texto publicado originalmente em:</b>    <!-- ref --><br>   SCHENBERG, M. Einstein e a relatividade restrita.<i> Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>, S&atilde;o Paulo, v. 31, n. 12, 1979.    <br>   * <i>Esse texto foi atualizado segundo o novo Acordo Ortogr&aacute;fico da L&iacute;ngua Portuguesa.</i></font></p>      ]]></body><back>
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