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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sociologia e hist&oacute;ria</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Oct&aacute;vio Ianni</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor em&eacute;rito do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e integrou a equipe de pesquisadores do Centro Brasileiro de An&aacute;lise e Planejamento (CEBRAP). Participou da chamada Escola de Sociologia Paulista</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento da hist&oacute;ria &eacute; tarefa de v&aacute;rias ci&ecirc;ncias sociais, como sociologia, economia, pol&iacute;tica, antropologia, psicologia e historiografia, que lidam com quest&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas, sociais e culturais. As interpreta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas variam, reavaliando ou reafirmando explica&ccedil;&otilde;es sobre modos e tempos hist&oacute;ricos. Alguns pesquisadores ideologizam formas de poder e cidadania, enquanto outros constroem mitos. A hist&oacute;ria aparece de diversas formas, seja como realidade ou inven&ccedil;&atilde;o. O autor pretende examinar teorias sobre a hist&oacute;ria, a rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e sociedade no capitalismo, e a historicidade da sociologia, apontando problemas para discuss&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Sociologia; Hist&oacute;ria; Ci&ecirc;ncia; Sociedade.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>"O que aqui nos preocupa n&atilde;o &eacute; o tempo calcul&aacute;vel. &Eacute; antes a ab-roga&ccedil;&atilde;o e a dissolu&ccedil;&atilde;o do tempo com o alternar-se da tradi&ccedil;&atilde;o e da profecia, que empresta &agrave; frase 'era uma vez' o seu duplo sentido de passado e futuro e com isso a sua carga de presente potencial". Thomas Mann.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Muitas hist&oacute;rias</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento da hist&oacute;ria tem sido uma tarefa de todas as Ci&ecirc;ncias sociais, al&eacute;m da pr&oacute;pria historiografia. A sociologia, a economia pol&iacute;tica, a ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica, a antropologia, a psicologia e a historiografia sempre trabalham com quest&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas, sociais, culturais, religiosas, militares, demogr&aacute;ficas e outras que correspondem a a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas tomados em algum n&iacute;vel de historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpreta&ccedil;&otilde;es, em termos de indu&ccedil;&atilde;o quantitativa ou constru&ccedil;&atilde;o de modelos, mesmo nesses casos a pesquisa sempre produz alguma explica&ccedil;&atilde;o nova, reavalia ou reafirma explica&ccedil;&otilde;es vigentes, sobre os modos e os tempos da hist&oacute;ria. Outros, quando analisam a "sociedade aberta" ou o "pluralismo democr&aacute;tico", por exemplo, parecem retificar e ideologizar formas de poder e cidadania. Tamb&eacute;m h&aacute; aqueles que formalizam e fetichizam as categorias dial&eacute;ticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos, estruturas que expressam os movimentos e as modifica&ccedil;&otilde;es dos grupos, classes e na&ccedil;&otilde;es. Uns e outros constroem e reconstroem mitos. Ali&aacute;s, construir mitos tem sido uma consequ&ecirc;ncia frequente (ou tarefa deliberada?) de boa parte da produ&ccedil;&atilde;o intelectual de cientistas sociais. Em todos os casos, no entanto, a hist&oacute;ria aparece de alguma forma, como hist&oacute;ria real ou inven&ccedil;&atilde;o, drama ou epopeia, elegia ou profecia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A multiplicidade de Ci&ecirc;ncias e teorias relativas ao campo do social, em sentido lato, tem dado origem a distintas interpreta&ccedil;&otilde;es sobre como se produz a hist&oacute;ria; ou em que condi&ccedil;&otilde;es as forma&ccedil;&otilde;es sociais se constituem, prosperam, mudam, entram em crise, desdobram-se etc. &Eacute; claro que as interpreta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o positivistas e dial&eacute;ticas, idealistas e materialistas, sincr&ocirc;nicas e diacr&ocirc;nicas, abstratas e concretas; atribuem relev&acirc;ncia &agrave; atua&ccedil;&atilde;o de l&iacute;deres, elites, classes, religi&otilde;es, igrejas, partidos e governos; buscam as rela&ccedil;&otilde;es e os desencontros em condi&ccedil;&otilde;es reais, ideologias e pr&aacute;ticas, elite e povo, partidos e classes, Estado e sociedade; pesquisa os pap&eacute;is desempenhados pelo intelectual, a Ci&ecirc;ncia e a filosofia; e assim por diante. No conjunto, &agrave;s Ci&ecirc;ncias e teorias relativas &agrave;s a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos, estruturas sociais acabam por produzir muitas hist&oacute;rias; ou hist&oacute;rias e est&oacute;rias. S&atilde;o distintas e frequentemente heterog&ecirc;neas as hist&oacute;rias do capitalismo que aparecem nas an&aacute;lises de Ricardo, Marx, Tocqueville, Durkheim, Weber, Sombart, Freud, Keynes, Baran, Dobb, Parsons, Galbraith, Hobsbawm e outros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nestas condi&ccedil;&otilde;es, quero examinar de forma breve, principalmente, tr&ecirc;s aspectos dessa problem&aacute;tica. Inicialmente, apresentarei as linhas gerais de algumas teorias sobre a hist&oacute;ria. Em seguida, focalizarei alguns aspectos das rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;proca entre Ci&ecirc;ncia e sociedade, na &eacute;poca do capitalismo. Ao fim, quero abordar a historicidade do objeto da sociologia. N&atilde;o se trata de acrescentar mais uma &agrave;s muitas hist&oacute;rias conhecidas. Trata-se, apenas, de apontar alguns problemas para discuss&atilde;o. Inclusive indicar a historicidade da pr&oacute;pria reflex&atilde;o sociol&oacute;gica sobre quest&otilde;es de hist&oacute;ria. E sugerir que a hist&oacute;ria e est&oacute;ria se mesclam em v&aacute;rios tempos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A Ci&ecirc;ncia frequentemente &eacute; uma t&eacute;cnica de poder e/ou uma for&ccedil;a produtiva."</b></styled-content> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Teorias da Hist&oacute;ria</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o s&oacute; na sociologia, mas no conjunto das Ci&ecirc;ncias sociais, encontram-se as mais diversas explica&ccedil;&otilde;es sobre como e por que se d&aacute; a mudan&ccedil;a, a evolu&ccedil;&atilde;o, o progresso, o desenvolvimento, a evolu&ccedil;&atilde;o, a crise, a recess&atilde;o, a decad&ecirc;ncia, o golpe, a reforma, a revolu&ccedil;&atilde;o. Para explicar as transforma&ccedil;&otilde;es sociais, em sentido amplo, o soci&oacute;logo, antrop&oacute;logo, economista, politic&oacute;logo, psic&oacute;logo, historiador e outros t&ecirc;m buscado causas, condi&ccedil;&otilde;es, tend&ecirc;ncias, fatores, indicadores, vari&aacute;veis, e assim por diante. Sem a pretens&atilde;o de fazer aqui um apanhado de todas as explica&ccedil;&otilde;es, mas apenas com o intuito de fazer um breve sum&aacute;rio, vejamos algumas das explica&ccedil;&otilde;es que aparecem com frequ&ecirc;ncia nos escritos dos cientistas sociais. Ao analisar as condi&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o, funcionamento, reprodu&ccedil;&atilde;o, generaliza&ccedil;&atilde;o, mudan&ccedil;a e crise do capitalismo, os cientistas sociais t&ecirc;m proposto explica&ccedil;&otilde;es como as que resumirei aqui. &Eacute; claro que as v&aacute;rias explica&ccedil;&otilde;es nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam nas outras, ou as englobam. A ordem de apresenta&ccedil;&atilde;o das v&aacute;rias explica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tem qualquer intuito classificat&oacute;rio ou interpretativo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, uma interpreta&ccedil;&atilde;o que se generalizou bastante, desde os come&ccedil;os da revolu&ccedil;&atilde;o industrial, estabelece que o progresso econ&ocirc;mico &eacute; o resultado da <i>criatividadeempresarial</i>. Isto &eacute;, toda mudan&ccedil;a, inova&ccedil;&atilde;o ou moderniza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica substantiva tende a ser o resultado da capacidade de cria&ccedil;&atilde;o e lideran&ccedil;a de empres&aacute;rios imaginosos, inventivos ou mesmo l&uacute;cidos, capazes de articular e dinamizar os fatores de produ&ccedil;&atilde;o preexistente e novos. Essa interpreta&ccedil;&atilde;o tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas cl&aacute;ssicos, seus disc&iacute;pulos e continuadores no s&eacute;culo XIX e neste. Recebeu contribui&ccedil;&otilde;es mais ou menos importantes de Max Weber, Werner Sombart, Joseph A. Schumpeter, John Maynard Keynes e alguns outros. &Eacute; claro que esses e outros autores, inclusive n&atilde;o economistas, incluem em suas an&aacute;lises elementos relativos ao sistema pol&iacute;tico, a ideologia, a a&ccedil;&atilde;o estatal e outros.  Mas conferem um papel essencial a a&ccedil;&atilde;o dos empres&aacute;rios ou da elite empresarial. Os valores relacionados ao <i>sef-made man</i>, ao <i>tycoon</i>, ao Capit&atilde;o da ind&uacute;stria, ao pioneiro, a identidade entre propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, entre outros, ligam-se a tese de que a criatividade empresarial &eacute; a base do progresso econ&ocirc;mico capitalista (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A segunda interpreta&ccedil;&atilde;o, conhecida como <i>teoria das elites</i>, est&aacute; relacionada com a anterior. Ela recebeu contribui&ccedil;&otilde;es de Vilfredo Pareto e Caetano Mosca. Al&eacute;m dos autores j&aacute; mencionados no par&aacute;grafo anterior. E tem sido retomada, em diferentes linguagens, por outros cientistas sociais e escritores, como James Burham, Samuel P. Huntington, Clark Kerr, David E. Apter, John Kenneth Galbraith e outros. &Eacute; uma corrente de pensamento que prop&otilde;e o funcionamento da sociedade e a mudan&ccedil;a social em termos de elites empresariais, gerenciais, militares, intelectuais e outras. Desde o t&eacute;rmino da Segunda Guerra Mundial, essa teoria tem sido a base de programas organizados pelo imperialismo norte-americano, no preparo de quadros intelectuais, tecnocr&aacute;ticos, militares, gerenciais, empresariais e outros, para solu&ccedil;&otilde;es golpistas em pa&iacute;ses dependentes e coloniais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em terceiro lugar, a interpreta&ccedil;&atilde;o que atribui import&acirc;ncia especial &agrave; <i>divis&atilde;o social do trabalho</i>. Thomas e a divis&atilde;o social do trabalho como o processo social, de &acirc;mbito estrutural, que comanda o funcionamento, as combina&ccedil;&otilde;es e as transforma&ccedil;&otilde;es das rela&ccedil;&otilde;es sociais, grupos e institui&ccedil;&otilde;es, em n&iacute;veis econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico e outros. Adam Smith e &Eacute;mile Durkheim s&atilde;o autores importantes nessa corrente. Boa parte do pensamento liberal se apoia nessa ideia. A divis&atilde;o Internacional do trabalho foi apresentada - durante o s&eacute;culo XIX at&eacute; 1930 - como a base da prosperidade econ&ocirc;mica e social das pessoas, grupos sociais e na&ccedil;&otilde;es. As teorias sobre a democracia liberal, o pluralismo democr&aacute;tico e a cidadania se apoia implicitamente na ideia de que a divis&atilde;o social do trabalho, em sentido amplo, &eacute; o processo estrutural que fundamenta e dinamiza a melhor express&atilde;o e articula&ccedil;&atilde;o das pessoas e grupos sociais, atividades, institui&ccedil;&otilde;es, setores produtivos e pa&iacute;ses.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quarta interpreta&ccedil;&atilde;o considera que o fundamento &uacute;ltimo da mudan&ccedil;a, progresso ou desenvolvimento econ&ocirc;mico e social &eacute; a <i>tecnologia,</i> o progresso t&eacute;cnico comandaria as possibilidades de articula&ccedil;&atilde;o e dinamiza&ccedil;&atilde;o dos fatores produtivos (principalmente capital e for&ccedil;a de trabalho). As possibilidades de poupan&ccedil;a e investimento, bem como desenvolvimento e diferencia&ccedil;&atilde;o do sistema econ&ocirc;mico e social, estariam na depend&ecirc;ncia das inova&ccedil;&otilde;es e aplica&ccedil;&otilde;es da tecnologia; inova&ccedil;&otilde;es essas originadas das Ci&ecirc;ncias, da natureza e da sociedade. Essa interpreta&ccedil;&atilde;o tem v&aacute;rias formula&ccedil;&otilde;es. Todas, no entanto, se apoiam na ideia de que ci&ecirc;ncia, tecnologia e desenvolvimento, ou o desenvolvimento em geral, relacionam-se positivamente. Nesse esp&iacute;rito, esta foi a defini&ccedil;&atilde;o de desenvolvimento dada em 1950 pela <i>National Science Foundation</i> dos Estados Unidos:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Development is the systematic use of scientific knowledge directed toward the production of useful materials, devices, systems, methods or processes &#91;1&#93;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em graus vari&aacute;veis, os adeptos desta concep&ccedil;&atilde;o consideram que tamb&eacute;m esferas n&atilde;o econ&ocirc;micas da sociedade s&atilde;o influenciadas, dinamizadas ou modificadas pela expans&atilde;o dos usos de Ci&ecirc;ncia e tecnologia. V&aacute;rios autores deram contribui&ccedil;&otilde;es a essa interpreta&ccedil;&atilde;o, ou apoiam se nela: Karl Mannheim, Geroge A. Lundberg, Joan Robinson, Raul Prebish, Celso Furtado e outros. Mannheim trabalha bastante com a no&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnica social, para explicar a progressiva "racionaliza&ccedil;&atilde;o" das rela&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es sociais em geral, e principalmente as econ&ocirc;micas, militares, pol&iacute;ticas, al&eacute;m das relativas &agrave; ind&uacute;stria cultural. A t&eacute;cnica social seria o n&uacute;cleo, tanto material como organizat&oacute;rio, dos processos de controle, mudan&ccedil;a ou planejamento econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico e social.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>These practices and agencies which have as their ultimate aim the molding of human behavior and of social relationship I shall describe in their entirety as social techniques. Without them and the mechanical inventions, which accompany them the sweeping changes of our age would never have been possible</i><i>&#91;2&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>By 'social techniques' I understand the sum of those methods, which aim at influencing human behavior and which, when in the hands of the Government, act as an especially powerful means of social control &#91;3&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"A sociedade e a Ci&ecirc;ncia est&atilde;o sempre a influenciarem se reciprocamente."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quinta interpreta&ccedil;&atilde;o confere papel especial ao Estado, depois da crise da concep&ccedil;&atilde;o liberal de poder pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico e de hist&oacute;ria, generalizou se cada vez mais a interpreta&ccedil;&atilde;o que v&ecirc; na a&ccedil;&atilde;o estatal a base da organiza&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a das rela&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e sociais. &Eacute; claro que essa ideia j&aacute; est&aacute; presente impl&iacute;cita ou explicitamente no pensamento cient&iacute;fico e filos&oacute;fico dos s&eacute;culos XVIII e XIX. Ela aparece em escritos de Hegel, Marx, Engels e Lenin, al&eacute;m de Keynes, Myrdal, Baran e outros. Depois da cria&ccedil;&atilde;o de regimes socialistas em v&aacute;rios pa&iacute;ses, por um lado, e da crise econ&ocirc;mica mundial iniciada em outubro de 1929, por outro, os governos dos pa&iacute;ses capitalistas - dominantes e dependentes - passaram a intervir de forma cada vez mais ampla e funda nos assuntos econ&ocirc;micos. Desde a d&eacute;cada dos anos 1930, o Estado capitalista se tornou o principal centro de decis&otilde;es pol&iacute;tico-econ&ocirc;micas. Sob o capitalismo monopolista, o Estado e o planejamento econ&ocirc;mico estatal passam a compor um sistema pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico de poder fundamental no mundo capitalista posterior a Segunda Guerra Mundial (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a09fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sexta e &uacute;ltima interpreta&ccedil;&atilde;o busca as raz&otilde;es dos movimentos e transforma&ccedil;&otilde;es sociais, pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e culturais, nas rela&ccedil;&otilde;es e contradi&ccedil;&otilde;es de classes. De acordo com essa interpreta&ccedil;&atilde;o, as for&ccedil;as produtivas, a atua&ccedil;&atilde;o estatal e outros aspectos pol&iacute;tico- econ&ocirc;micos, sociais e culturais s&atilde;o articulados e desarticulados em conformidade com os movimentos e desenvolvimentos das rela&ccedil;&otilde;es e contradi&ccedil;&otilde;es das classes sociais: burguesia, classe m&eacute;dia, proletariado e suas subdivis&otilde;es estruturais e de ocasi&atilde;o. Dentre os autores que se situam nessa orienta&ccedil;&atilde;o, ou contribu&iacute;ram para o seu desenvolvimento, destacam se Marx, Engels, Lenin, Bukharin, Trotsky, Lukacs, Gramsci e Mao Ts&eacute;-Tung, al&eacute;m de Jos&eacute; Carlos Mari&aacute;tegui, Maurice Dobb, Paul A. Baran, Paul M. Sweezy, Franz Fanon e alguns outros. Essa interpreta&ccedil;&atilde;o se funda na an&aacute;lise do processo de trabalho produtivo, processo esse que produz a mercadoria, a mais-valia de que se apropria o burgu&ecirc;s e a aliena&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica do trabalhador. O principal conte&uacute;do e resultado desse processo produtivo, ou dessas rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, &eacute; o antagonismo entre o oper&aacute;rio e o burgu&ecirc;s. O golpe de estado, a greve e a revolu&ccedil;&atilde;o se produzem nesse contexto. Numa formula&ccedil;&atilde;o breve, essa interpreta&ccedil;&atilde;o engloba rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas b&aacute;sicos e intermedi&aacute;rios da sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cada uma dessas interpreta&ccedil;&otilde;es implica numa forma peculiar de compreender as rela&ccedil;&otilde;es entre biografia e hist&oacute;ria, conjuntura e estrutura, sincronia e diacronia, ou entre as a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, os processos e as estruturas sociais, em seus perfis e movimentos. Outras interpreta&ccedil;&otilde;es - que poderiam ser lembradas - situam-se no mesmo contexto problem&aacute;tico. Em todos os casos, estamos diante de distintas interpreta&ccedil;&otilde;es sobre como e por que se d&aacute; a mudan&ccedil;a, a evolu&ccedil;&atilde;o, o progresso, a moderniza&ccedil;&atilde;o, o desenvolvimento, a reforma, a crise, o golpe de Estado, a revolu&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o interpreta&ccedil;&otilde;es sobre as condi&ccedil;&otilde;es e as possibilidades de produ&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, em forma c&ocirc;mica ou tr&aacute;gica, dram&aacute;tica ou &eacute;pica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia, sociedade e hist&oacute;ria</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para interpretar as condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria ou como se d&aacute; a modifica&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas, precisamos examinar as pr&aacute;ticas coletivas, das pessoas, grupos e classes sociais, a an&aacute;lise dos governos, elei&ccedil;&otilde;es, golpes, revolu&ccedil;&otilde;es, greves, movimentos, f&aacute;bricas, fazendas, partidos, sindicatos, igrejas,   seitas, for&ccedil;as produtivas etc., no quadro das rela&ccedil;&otilde;es sociais, permite compreender como se desenvolve a dura&ccedil;&atilde;o, no conjunto e em cada esfera da vida social. Essa tem sido a problem&aacute;tica de todas as Ci&ecirc;ncias sociais, n&atilde;o apenas da historiografia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dentre os elementos que as Ci&ecirc;ncias sociais t&ecirc;m levado em conta, para explicar as condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, est&aacute; o relacionamento rec&iacute;proco entre Ci&ecirc;ncia e sociedade. Independentemente dos problemas relativos ao <i>ethos</i> da Ci&ecirc;ncia, da l&oacute;gica interna de cada Ci&ecirc;ncia e das suas controv&eacute;rsias te&oacute;ricas, &eacute; ineg&aacute;vel que toda a Ci&ecirc;ncia revela "segundas naturezas", sem as quais n&atilde;o podem ser compreendidas. Dentre as segundas naturezas da Ci&ecirc;ncia - tanto da Ci&ecirc;ncia da natureza como da sociedade - est&atilde;o duas: a Ci&ecirc;ncia frequentemente &eacute; uma t&eacute;cnica de poder e/ou uma for&ccedil;a produtiva. Digo segundo as naturezas, porque essas caracter&iacute;sticas aparecem nas condi&ccedil;&otilde;es e dire&ccedil;&otilde;es, nos conte&uacute;dos e fins da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Esses s&atilde;o problemas centrais da sociologia das Ci&ecirc;ncias, e da pr&oacute;pria sociologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando examinamos a rela&ccedil;&atilde;o entre Ci&ecirc;ncia e sociedade, em perspectiva hist&oacute;rica ampla, tornam-se evidentes as influ&ecirc;ncias rec&iacute;procas de ambas. A sociedade e a Ci&ecirc;ncia est&atilde;o sempre a influenciarem se reciprocamente. Tanto as Ci&ecirc;ncias naturais como as sociais, cada qual segundo suas condi&ccedil;&otilde;es peculiares, todas relacionam-se com a sociedade, de forma ampla, permanente e rec&iacute;proca. &Eacute; claro que a Ci&ecirc;ncia, em geral, &eacute; transformada em inova&ccedil;&otilde;es e aplica&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas, m&aacute;quinas, ferramentas, patentes, t&eacute;cnicas de controle, organiza&ccedil;&atilde;o, administra&ccedil;&atilde;o etc., para se efetivar na produ&ccedil;&atilde;o agr&aacute;ria industrial bem como na organiza&ccedil;&atilde;o da empresa, dos neg&oacute;cios, do governo das coisas e das pessoas. A produtividade da for&ccedil;a de trabalho na f&aacute;brica, por exemplo, &eacute; o resultado combinado de conhecimentos produzidos pelas Ci&ecirc;ncias naturais e sociais. Na sociedade capitalista, as t&eacute;cnicas de organiza&ccedil;&atilde;o e mando - na f&aacute;brica como em outras esferas da sociedade - induzem as pessoas, grupos e classes sociais a organizar as suas atividades e modos de pensar em conformidade com as exig&ecirc;ncias das rela&ccedil;&otilde;es e estruturas de domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e apropria&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Est&aacute; em jogo a reprodu&ccedil;&atilde;o ampliada do capital. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, ou a ind&uacute;stria cultural, da mesma forma que a sociologia industrial, articulam-se, na pr&aacute;tica, &agrave; ideologia das pessoas, grupos e classes sociais, induzindo-os a aderir, aceitar ou submeter-se &agrave;s exig&ecirc;ncias da reprodu&ccedil;&atilde;o do capital.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De forma breve, podemos dizer que as rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas entre Ci&ecirc;ncia e sociedade, vistas na perspectiva do andamento hist&oacute;rico, apresentam os seguintes aspectos &oacute;bvios e alguns outros discut&iacute;veis.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, as Ci&ecirc;ncias em geral, tanto as naturais como as sociais - consideradas forma de saber e t&eacute;cnicas, como pr&aacute;ticas e ideologias - exerce influ&ecirc;ncia sobre os modos de funcionamento, reprodu&ccedil;&atilde;o, diferencia&ccedil;&atilde;o, mudan&ccedil;a etc., das rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas sociais. O que &eacute; ampla e tradicionalmente reconhecido no campo das Ci&ecirc;ncias naturais tamb&eacute;m passou a ser aceito nas Ci&ecirc;ncias sociais. A ideia de que a Ci&ecirc;ncia deve ser &uacute;til e influenciar a sociedade - ou as rela&ccedil;&otilde;es dos homens entre si, com a natureza e o sobrenatural - faz parte da ideologia de cientistas e governos; difundiu-se pelos partidos, fundamentos, programas de ensino e alimenta uma parte da ind&uacute;stria cultural. Nas v&aacute;rias disciplinas, muitos cientistas est&atilde;o explicitamente comprometidos com essa ideia. Nesse caso, a Ci&ecirc;ncia &eacute; concebida diretamente como t&eacute;cnica social, para controle, mudan&ccedil;a de rela&ccedil;&otilde;es sociais, isto &eacute;, pol&iacute;tico-econ&ocirc;micas, segundo os des&iacute;gnios de governantes ou dos que disp&otilde;em de poder pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico para isso. Como se v&ecirc;, uma breve indica&ccedil;&atilde;o sobre as influ&ecirc;ncias da Ci&ecirc;ncia sobre a sociedade coloca tamb&eacute;m a reciprocidade dessas rela&ccedil;&otilde;es, bem como os conte&uacute;dos e implica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticos da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"An&aacute;lise sociol&oacute;gica das rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas entre Ci&ecirc;ncias e sociedade, pois, suscita novos problemas: a interpreta&ccedil;&atilde;o sobre a produ&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria."</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em segundo lugar, as rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas sociais, em sentido amplo, ou as exig&ecirc;ncias da sociedade, influenciam os desenvolvimentos da Ci&ecirc;ncia e tecnologia. As exig&ecirc;ncias da produ&ccedil;&atilde;o, na ind&uacute;stria e na agricultura, na paz e na guerra, al&eacute;m dos desenvolvimentos das lutas de classes, t&ecirc;m provocado a realiza&ccedil;&atilde;o de pesquisas e a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos com fins sociais diretos espec&iacute;ficos. Outras vezes essa interdepend&ecirc;ncia &eacute; menos vis&iacute;vel; &eacute; intermediada por rela&ccedil;&otilde;es e interesses, valores e institui&ccedil;&otilde;es, desencontros e contradi&ccedil;&otilde;es. Pode-se discutir os meios e modos pelos quais a sociedade influencia a Ci&ecirc;ncia e a tecnologia, naturais e sociais, mas &eacute; ineg&aacute;vel que algumas revolu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas ocorrem de par em par com revolu&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Most human activities have their internal logic, which determines at least part of their movement (...) Nevertheless even the most passionate believes in the unsullied purity of pure science is aware that scientific thought may at least be influenced by matters outside the specific field of a discipline, is only because scientists, even the most unworldly of mathematicians, live in a wider world &#91;4&#93;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em terceiro lugar, nem sempre as rela&ccedil;&otilde;es entre Ci&ecirc;ncia e sociedade, em ambos os sentidos, s&atilde;o positivas. &Agrave;s vezes s&atilde;o neutras; outras vezes s&atilde;o negativas. As exig&ecirc;ncias de grupos interesses particulares, mas que dominam o poder pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico, podem prejudicar o desenvolvimento cient&iacute;fico. &Eacute; isso que ocorre, por exemplo, quando a reforma universit&aacute;ria reduz ou anula a pesquisa b&aacute;sica, em benef&iacute;cio da pesquisa aplicada e da forma&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicos e profissionais preparados para aplicar conhecimentos e t&eacute;cnicas produzidos nos pa&iacute;ses dominantes. Em certas ocasi&otilde;es, a oficializa&ccedil;&atilde;o de certas correntes cient&iacute;ficas pode afetar, prejudicar ou mesmo bloquear totalmente a criatividade intelectual de cientistas, pesquisadores, professores e outros n&atilde;o solid&aacute;rios com as correntes oficiais. Ocorre que a Ci&ecirc;ncia &eacute;, com frequ&ecirc;ncia, um instrumento de poder pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico. Enquanto teoria e t&eacute;cnica, pratica e ideologia, a Ci&ecirc;ncia aparece como media&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es e estruturas de domina&ccedil;&atilde;o e apropria&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>It is plain to see that science is a dynamic force of social change, though not always of changes foreseen and desired. From time to time, during the last century or so, even physical scientists have emerged from their laboratories to acknowledge, with pride and wonder, or to disown, with horror and shame, the social consequences of their work. The explosion over Hiroshima only verified what everyone knew. Science has social consequences &#91;5&#93;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em quarto lugar, em todos os setores produtivos - ind&uacute;stria, agricultura, minera&ccedil;&atilde;o, com&eacute;rcio, bancos etc., - a Ci&ecirc;ncia e tecnologia entram como for&ccedil;a produtiva b&aacute;sica. Traduzem-se em m&aacute;quinas, ferramentas, esquemas, organiza&ccedil;&otilde;es, efic&aacute;cia, produtividade etc. Ocorre que elas s&atilde;o express&atilde;o da pr&aacute;tica social, s&atilde;o produtos ingredientes das diversas formas pelas quais os homens trabalham as suas rela&ccedil;&otilde;es com a natureza e entre si. A rela&ccedil;&atilde;o entre Ci&ecirc;ncia, tecnologia e a acumula&ccedil;&atilde;o de capital tem sido examinada pelos economistas desde a &eacute;poca da economia cl&aacute;ssica. &Eacute; claro que varia a &ecirc;nfase que cada autor concede a uma e outra. Mas &eacute; sempre not&aacute;vel e, &agrave;s vezes, priorit&aacute;rio o papel que alguns atribuem &agrave; Ci&ecirc;ncia e &agrave; tecnologia. Marx preocupou-se com o assunto em v&aacute;rias ocasi&otilde;es. Em termos diversos, tamb&eacute;m Sombart, Kuznets e Robinson, entre outros autores, deram aten&ccedil;&atilde;o especial aos inventos, &agrave; Ci&ecirc;ncia e &agrave; tecnologia. Kuznets assinalou tamb&eacute;m a import&acirc;ncia da circula&ccedil;&atilde;o internacional de conhecimentos como condi&ccedil;&atilde;o ou fator de desenvolvimento econ&ocirc;mico. Estava preocupado em acentuar que o capitalismo &eacute; um sistema de interdepend&ecirc;ncia universal, entre na&ccedil;&otilde;es, mercados e fatores produtivos. Sombart viu no capitalismo um sistema prop&iacute;cio ao progresso cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico, para efeito de acumula&ccedil;&atilde;o do capital.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Marx: A la par que una explotaci&oacute;n intensiva de la riqueza natural por el simple aumento de tensi&oacute;n de la fuerza de trabajo, la ciencia y la t&eacute;cnica constituyen una potencia de expansi&oacute;n del capital independiente del volumen contrato del capital en funciones&#91;6&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Marx: El desarrollo del capital fijo revela hasta que el punto el conocimiento o no LED social general se ha convertido en fuerza productiva inmediata y por lo tanto hasta qu&eacute; punto las condiciones del proceso de la vida social misma han entrado dejo los controles del general intelecto y remodeladas conforme al mismo&#91;7&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Robinson: The rate of technical progress and the rate of increase of the labor force (allowing for any changing working hours per family) govern the rate of growth of output of an economy that can be permanently maintained at a constant rate of profit. The potential growth ratio (increase per annum of output as a percentage of annual output) is approximately equal to the percentage rate of growth of employment plus the percentage rate of output per head &#91;8&#93;.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em quinto lugar, na forma&ccedil;&atilde;o social capitalista, as classes sociais n&atilde;o se beneficiam igualmente da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, em geral, nem da sua aplica&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o material e cultural. As classes sociais - proletariado, classe m&eacute;dia, burguesia, campesinato etc. - beneficiam-se diversamente da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, variando inclusive conforme a &eacute;poca e o pa&iacute;s. Nos pa&iacute;ses dominantes, a classe oper&aacute;ria disp&otilde;e de recursos de sa&uacute;de e previd&ecirc;ncia que n&atilde;o se encontram em pa&iacute;ses dependentes. O mesmo se pode dizer quanto ao acesso &agrave; escola e a outros recursos culturais e materiais da sociedade. Mas &eacute; ineg&aacute;vel que os benef&iacute;cios da Ci&ecirc;ncia e tecnologia, em geral, orientam-se muito mais no sentido de favorecer a acumula&ccedil;&atilde;o do capital, a consolida&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es e estruturas capitalistas, ou a generaliza&ccedil;&atilde;o dessas rela&ccedil;&otilde;es e estruturas. Tanto a qu&iacute;mica (herbicidas), como a antropologia (informa&ccedil;&atilde;o cultural) foram usadas na guerra que os Estados Unidos alimentaram no sudoeste asi&aacute;tico. Na f&aacute;brica, para aperfei&ccedil;oar o ajustamento do oper&aacute;rio &agrave; m&aacute;quina e ao conjunto da situa&ccedil;&atilde;o de produ&ccedil;&atilde;o, os empres&aacute;rios empregam psic&oacute;logos e soci&oacute;logos especializados. Tanto no Vietn&atilde; como na f&aacute;brica, o conhecimento e a tecnologia cient&iacute;ficos s&atilde;o aplicados &agrave; revelia das pessoas, fam&iacute;lias, grupos, classes sociais ou na&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a09fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em sexto e &uacute;ltimo lugar, e de acordo com as indica&ccedil;&otilde;es feitas nos par&aacute;grafos anteriores, a Ci&ecirc;ncia tem sido incorporada pela sociedade principalmente como for&ccedil;a produtiva e t&eacute;cnica de poder. Frequentemente essas conota&ccedil;&otilde;es da Ci&ecirc;ncia aparecem juntas. Como t&eacute;cnica, pr&aacute;tica e ideologia, o conhecimento cient&iacute;fico muitas vezes aparece nas rela&ccedil;&otilde;es e estruturas de domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e apropria&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Se aceitamos essa ideia, podemos pensar que os movimentos hist&oacute;ricos de uma sociedade est&atilde;o diretamente relacionados ao modo pelo qual ela produz, incorpora e desenvolve a Ci&ecirc;ncia e a tecnologia. Essa constata&ccedil;&atilde;o pode ser exemplificada em v&aacute;rios modos. A revolu&ccedil;&atilde;o industrial foi contempor&acirc;nea de uma revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e filos&oacute;fica. Desde a Renascen&ccedil;a e a desagrega&ccedil;&atilde;o do feudalismo, a Ci&ecirc;ncia, a filosofia, as rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e as estruturas pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas se modificaram de forma mais ou menos contempor&acirc;nea. Em outra &eacute;poca, no s&eacute;culo XX, a revolu&ccedil;&atilde;o socialista, a vida na R&uacute;ssia, China, Cuba e Vietn&atilde;, para mencionar exemplos distintos, foi o produto das lutas de classes e da revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e filos&oacute;fica iniciada por Marx e Engels. Em outra ocasi&atilde;o, a partir da d&eacute;cada dos anos 1930, o pensamento de Keynes e seus seguidores tem sido um elemento importante na luta do capitalismo para controlar e superar as suas crises conjunturais e estruturais. Em todos esses casos, fica evidente que alguns desenvolvimentos e algumas obtura&ccedil;&otilde;es de cunho hist&oacute;rico t&ecirc;m sido iniciados ou bloqueados, reorientados ou acelerados, devido ao tipo de relacionamento que se estabelece entre a sociedade, enquanto grupos, classes, economia, pol&iacute;tica e Estado, e a Ci&ecirc;ncia enquanto o sabor, t&eacute;cnica, pr&aacute;tica e ideologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A an&aacute;lise sociol&oacute;gica das rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas entre Ci&ecirc;ncias e sociedade suscita novos problemas: a interpreta&ccedil;&atilde;o sobre a produ&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. Al&eacute;m dos j&aacute; enunciados, &oacute;bvios e discut&iacute;veis, cabe lembrar o outro. Essa an&aacute;lise de Ci&ecirc;ncia, hist&oacute;ria e sociedade sugere que a hist&oacute;ria que conhecemos &eacute; apenas as hist&oacute;rias que sucederam; &eacute; uma das diversas vers&otilde;es que poderiam suceder. Houve com&eacute;dias e trag&eacute;dias, dram&aacute;ticas e &eacute;picas que n&atilde;o foram vividas; poderiam ter sido.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sociologia e historicidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A an&aacute;lise sociol&oacute;gica sempre se depara com o problema da historicidade do seu objeto. Independentemente da perspectiva te&oacute;rica, a sociologia sempre se depara com quest&otilde;es relativas &agrave;s tend&ecirc;ncias, condi&ccedil;&otilde;es de possibilidades, determina&ccedil;&otilde;es, desenvolvimentos, mudan&ccedil;as, causas, vari&aacute;veis intervenientes ou antecedentes e tend&ecirc;ncias dos fatos sociais que analisa. Algumas correntes procuram atribuir &agrave; sociologia a tarefa de examinar apenas, ou principalmente, o presente, deixando qualquer passado para a historiografia. Outras consideram que a sociologia n&atilde;o precisa impor limita&ccedil;&otilde;es, podendo analisar tanto o presente como qualquer passado, pr&oacute;ximo ou remoto. Sempre ressurge na an&aacute;lise sociol&oacute;gica o problema da dura&ccedil;&atilde;o. A sociologia periodiza tempos, &eacute;pocas, ciclos, fases, etapas etc., da mesma forma que focaliza crises, mudan&ccedil;as, transforma&ccedil;&otilde;es, rupturas, conjunturas, estruturas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; um historicismo generalizado nas Ci&ecirc;ncias sociais, que &eacute; particularmente vis&iacute;vel na sociologia. O m&eacute;todo funcionalista (Durkheim), o compreensivo (Weber), o dial&eacute;tico (Marx), ou estrutural funcionalista (Parsons), o estruturalista (Althuser) e outros, cada um a seu modo, todos implicam numa forma peculiar de apanhar a historicidade do objeto da sociologia. Cada um a seu modo, todos instauram modalidades de historicidades. Na sociologia, da mesma forma que nas outras Ci&ecirc;ncias sociais, a historicidade dos acontecimentos &eacute; apanhada em termos deterministas, mecanicistas, evolucionistas, funcionalistas, dial&eacute;ticos e outras maneiras de pensar e capturar as a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas. Inclusive se pode dizer que, nos trabalhos de soci&oacute;logos, a hist&oacute;ria aparece de forma vazia, abstrata, dram&aacute;tica, &eacute;pica, dependendo do estilo da narra&ccedil;&atilde;o e da perspectiva te&oacute;rica do autor. A teorias que s&atilde;o historicistas ao rev&eacute;s, pois que n&atilde;o apreendem a historicidade do objeto, tomam o objeto ao n&iacute;vel hist&oacute;rico ou supra-hist&oacute;rico. Nem por isso, no entanto, deixam de conferir uma historicidade singular, ainda que abstrata ou vazia, a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas sociais. Ao apanhar um fato de uma forma abstrata, sincr&ocirc;nica, hist&oacute;rica, o soci&oacute;logo lhe confere uma dimens&atilde;o especial, alguma transcend&ecirc;ncia que o cristaliza, retifica e mitifica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vejamos o que escreveram Barrington Moore Jr. e C. Wright Mills, a prop&oacute;sito da decad&ecirc;ncia da perspectiva hist&oacute;rica da sociologia Moderna. Os autores referem-se ao estrutural funcionalista parsoniano:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Moore Jr.: The key idea is this body of theory, the reader may recall is the view that for every society there exists a certain limited number of necessary activities or "functions", such as obtaining food, training the next generation, etcetera., and an equally limited number of "structures", or ways in which society can be organized to perform these functions. Essentially, a structural functional theory searches for the basic elements of human society, abstracted from time and place together with rules for combining these elements &#91;9&#93;.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Mills: In this terms the idea of conflict cannot effectively be formulated. Structural antagonisms, large scale revolts, revolutions - they cannot be imagined, (...) the magical elimination of conflict and the wondrous achievement of harmony, remove from this "systematic" and "general" theory the possibilities of dealing with social change, with history</i><i>&#91;10&#93;. </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O problema da historicidade do objeto da sociologia e de como esta pode apanhar essa historicidade tem sido continuamente recolocado nas v&aacute;rias correntes da sociologia. Tamb&eacute;m dentro da mesma corrente, como no caso do marxismo, surgem e ressurgem diferentes teses sobre como pode a sociologia trabalhar a historicidade das a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas sociais. Nas sociologias positivistas, a formaliza&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;todos de pesquisa e das interpreta&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m provoca a discuss&atilde;o, como indicam as observa&ccedil;&otilde;es de Barrington Moore Jr. E C. Wright Mills.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O objeto da sociologia aparece normalmente na an&aacute;lise sob distintas formas, como a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos, estruturas, pr&aacute;ticas, atividades, interesses, representa&ccedil;&otilde;es, valores, padr&otilde;es de comportamento, ideologias etc. Cada escola ou teoria sociol&oacute;gica busca uma articula&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica entre os distintos aspectos da realidade social. Algumas buscam invari&acirc;ncias universais. Outras buscam situa&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas, singularidades. &Agrave;s que se concentram sobre as condi&ccedil;&otilde;es conjunturais dos acontecimentos. Ao passo que outras buscam tanto o que &eacute; conjuntural como o que &eacute; estrutural. Em quase toda an&aacute;lise sociol&oacute;gica, aparece alguma tens&atilde;o entre as dimens&otilde;es sincr&ocirc;nica e diacr&ocirc;nica dos eventos. Essa tens&atilde;o &eacute; tanto mais evidente quanto mais n&iacute;tida for a dificuldade para lidar com biografia e hist&oacute;ria, rela&ccedil;&otilde;es e estruturas, interdepend&ecirc;ncia e antagonismo, o que &eacute; recorrente e o que &eacute; emergente. A tens&atilde;o entre as dimens&otilde;es sincr&ocirc;nicas e diacr&ocirc;nicas dos acontecimentos se complica um pouco mais quando se incluem na an&aacute;lise sociol&oacute;gica as condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas. Essa gama de problemas est&aacute; impl&iacute;cita na forma pela qual o soci&oacute;logo trabalha com os eventos, tomando-se como fatos, a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos, estruturas etc. Uns s&atilde;o sociolog&iacute;sticos, isto &eacute;, pretendem trabalhar com o que &eacute; estritamente sociol&oacute;gico, distinto do que &eacute; econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico, cultural, ps&iacute;quico, hist&oacute;rico; ou transformam tudo em sociol&oacute;gico, perdendo de vista os problemas do poder. Outros consideram que a realidade social engloba necessariamente todas as dimens&otilde;es; portanto a an&aacute;lise precisa apanhar todas as dimens&otilde;es presentes do evento. Da&iacute; porque ningu&eacute;m escapa a necessidade de trabalhar com o tempo ou a dura&ccedil;&atilde;o dos eventos. Todo acontecimento social expressa, de alguma forma, a sua historicidade. O acontecimento n&atilde;o s&oacute; se desdobra na dura&ccedil;&atilde;o como revela dura&ccedil;&atilde;o de outras dimens&otilde;es da sociedade. Para conhecer a fam&iacute;lia oper&aacute;ria, em dado pa&iacute;s e &eacute;poca, precisamos compreend&ecirc;-la no contexto da reprodu&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho da classe oper&aacute;ria, das rela&ccedil;&otilde;es capitalistas de produ&ccedil;&atilde;o. Para conhecer a ditadura militar, em dado pa&iacute;s e &eacute;poca, precisamos estud&aacute;-la, inclusive em suas pol&iacute;ticas financeira, industrial, agr&aacute;ria, comercial etc., al&eacute;m disso, as rela&ccedil;&otilde;es vis&iacute;veis e subjacentes com as v&aacute;rias classes sociais, o poder estatal etc.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas observa&ccedil;&otilde;es gerais sobre as condi&ccedil;&otilde;es e os conte&uacute;dos hist&oacute;ricos dos acontecimentos sociais podem ser desdobradas ou especificadas nos seguintes termos:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Primeiro, a an&aacute;lise das a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas, enquanto pr&aacute;ticas individuais e coletivas, pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas, e tamb&eacute;m como representa&ccedil;&otilde;es, ideologias, consci&ecirc;ncias sociais, colocam a sociedade diante da necessidade de aprender, elidir, negar ou recriar a historicidade dos eventos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Segundo, a dura&ccedil;&atilde;o dos eventos n&atilde;o &eacute; homog&ecirc;nea para o conjunto da sociedade nem se mant&eacute;m uniforme ao longo dos anos, fases, &eacute;pocas, ciclos. Quando uma sociedade est&aacute; sob a influ&ecirc;ncia da economia prim&aacute;ria exportadora, ela se reproduz segundo determina&ccedil;&otilde;es distintas, principalmente externas, do que quando ela se acha sob a influ&ecirc;ncia preponderante do capital industrial. Neste caso, as determina&ccedil;&otilde;es internas parecem adquirir maior peso ao lado das externas que se refazem. Al&eacute;m de outros aspectos pol&iacute;ticos, econ&ocirc;micos, sociais e culturais, cabe lembrar que as condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e econ&ocirc;micas de reprodu&ccedil;&atilde;o do capital Agr&aacute;rio s&atilde;o diversas. Na agricultura, o capital se reproduz sob a influ&ecirc;ncia - em algum grau - das condi&ccedil;&otilde;es naturais. Na ind&uacute;stria, as condi&ccedil;&otilde;es naturais pouco influenciam, o que permite incluir sistem&aacute;ticas e ritmos especiais, a reprodu&ccedil;&atilde;o do capital industrial. Dessa maneira, afetam-se todos os n&iacute;veis da vida social, inclusive a sua dura&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Terceiro e &uacute;ltimo, as distintas teorias sociol&oacute;gicas apanham efetivamente a hist&oacute;ria sob distintas formas; formulam muitas ou v&aacute;rias hist&oacute;rias. Na sociologia funcionalista, o que est&aacute; em jogo &eacute; uma historicidade organizada com base no princ&iacute;pio da causa&ccedil;&atilde;o funcional. Na sociologia compreensiva, a realidade social parece organizar-se e modificar-se nos termos do princ&iacute;pio da conex&atilde;o de sentido. E na sociologia dial&eacute;tica, a realidade social parece articular-se e transformar-se segundo os termos do princ&iacute;pio da contradi&ccedil;&atilde;o. Em cada caso, a rela&ccedil;&atilde;o entre a&ccedil;&otilde;es, rela&ccedil;&otilde;es, processos e estruturas se apresentam numa forma especial. Em cada caso, os conte&uacute;dos pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos, pr&aacute;ticos e ideol&oacute;gicos dos fatos aparecem sob forma peculiar. S&atilde;o distintas formas de contar e recontar, ou fazer e refazer a hist&oacute;ria.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. MACHLUP, F. <i>The production and distribution of knowledge in the United States</i>. Princeton: Princeton University Press, 1962. p. 149.    <!-- ref --> / SCHMOOKLER, J. <i>Invention and economic growth</i>. Cambridge: Harvard University Press, 1966.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. MANNHEIM, K. <i>Man and society in an age of reconstruction</i>. New York: Harcourt, Brace and Company, 1949. p. 247.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. MANNHEIM, K. <i>Diagnosis of our time. </i>London: Routledge &amp; Kogan Paul, 1950. p. 1.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. HOBSBAWN, E. J. <i>The age of revolution</i>: 1789-1848. New York: Mento Book, 1964. p. 327-328.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. MERTON, R. K. <i>Social theory and social structure. </i>Gelcoe: The Free Press, 1951. p. 289.    <!-- ref --> / BERNAL, J. D. <i>Science in history</i>. London: Watts &amp; Co., 1954.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. MARX, K. <i>El Capital</i>: 3 tomos. M&eacute;xico: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica, 1946-47.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. MARX, K. <i>Elementos fundamentales para la cr&iacute;tica de la econom&iacute;a pol&iacute;tica. </i>M&eacute;xico: Siglo XXI Editores, 1972. v. 2, p.230.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. ROBINSON, J. <i>The accumulation of capital</i>. London: MacMillan &amp; Co., 1956. p. 173.    <!-- ref --> / SOMBART, W. <i>El apogee del capitalism</i>. M&eacute;xico: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica, 1946.    <!-- ref --> / KUZNET, S. <i>Modern economic growth. </i>New Haven: Yale University Press, 1966. p. 286-294.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. MOORE JR, B. <i>Political power and social history. </i>New York: Harper Torchbooks, 1962. p. 125-126.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. MILLS, C. W. <i>The sociological imagination. </i>New York: Oxford University Press, 1959. p. 42.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Texto publicado originalmente em:</b>    <br>IANNI, O. Sociologia e Hist&oacute;ria.<i> Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>, S&atilde;o Paulo, v. 27, n. 10, 1975.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <i>* Esse texto foi atualizado segundo o novo Acordo Ortogr&aacute;fico da L&iacute;ngua Portuguesa.</i></font></p>      ]]></body><back>
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