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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O fracasso do controle legal dos crimes e da violência na sociedade brasileira contemporânea: questões para]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O fracasso do controle legal dos crimes e da viol&ecirc;ncia na sociedade brasileira contempor&acirc;nea: quest&otilde;es para </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>S&eacute;rgio Adorno</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor titular s&ecirc;nior do Departamento de Sociologia (FFLCH/USP) e coordenador cient&iacute;fico do CEPID-FAPESP N&uacute;cleo de Estudos da Viol&ecirc;ncia - USP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este pequeno ensaio trata de uma quest&atilde;o presente no debate p&uacute;blico h&aacute; d&eacute;cadas e que tende a se intensificar justamente em momentos eleitorais e de trocas de governos federal e estaduais. Diz respeito ao controle legal e social da viol&ecirc;ncia capaz de restituir sewuran&ccedil;a &agrave; sociedade brasileira, cujas metas consistem em proteger direitos fundamentais, entre os quais o direito universal &agrave; vida, reduzir as taxas de crimes, sobretudo os violentos, desarmar as oportunidades de desfechos fatais nos conflitos intersubjetivos e sociais e, antes de tudo, conter todas as modalidades de viol&ecirc;ncia com apoio em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a eficientes. Por que fracassam essas pol&iacute;ticas? Quais seus desafios institucionais? Como alcan&ccedil;ar sa&iacute;das vi&aacute;veis e socialmente leg&iacute;timas sem comprometer a vig&ecirc;ncia da democracia nesta sociedade? Sem a pretens&atilde;o de uma an&aacute;lise exaustiva ou de oferecer respostas definitivas, o ensaio elenca temas para o debate p&uacute;blico e acad&ecirc;mico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Crime; Viol&ecirc;ncia; Pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a; Justi&ccedil;a criminal; S&atilde;o Paulo: Brasil.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Panorama da viol&ecirc;ncia no Brasil</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil ocupa um extenso territ&oacute;rio com mais de 8,5 milh&otilde;es de quil&ocirc;metros quadrados, onde vivem pouco mais de 215 milh&otilde;es de pessoas (2022), a maior parte das quais compreende popula&ccedil;&atilde;o jovem (15 ou mais) em idade produtiva. Segundo o "Atlas da Viol&ecirc;ncia no Brasil", morreram no pa&iacute;s, v&iacute;timas de homic&iacute;dio, 674.098 pessoas, entre 2008 e 2019. O pico dessas mortes aconteceu em 2017, com 65.602 homic&iacute;dios. A taxa de homic&iacute;dios por 100.000 habitantes saltou de 11,7 em 1980 para 27,8 em 2010, um crescimento de 137,6%. Ap&oacute;s o pico das taxas em 2017 (31,6 homic&iacute;dios por 100.000 habitantes), as taxas come&ccedil;aram a declinar, alcan&ccedil;ando 27,8 homic&iacute;dios em 2018. Ainda assim, s&atilde;o altas se comparadas com as tend&ecirc;ncias mundiais e regionais - no caso, as taxas latino-americanas. A distribui&ccedil;&atilde;o dessas taxas &eacute; desigual entre os diferentes estados da federa&ccedil;&atilde;o e entre as capitais. Nesse ano, as taxas mais altas estavam concentradas em estados das regi&otilde;es Norte (Acre, Amap&aacute;, Amazonas, Par&aacute; e Roraima) e Nordeste (Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe). As mais baixas encontram-se nos estados das regi&otilde;es Sul e Sudeste (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran&aacute;, S&atilde;o Paulo, Minas Gerais). Raz&otilde;es explicativas para esses cen&aacute;rios est&atilde;o possivelmente associadas com as diferentes configura&ccedil;&otilde;es locais do mercado ilegal de drogas, do crime organizado e da situa&ccedil;&atilde;o do sistema carcer&aacute;rio&#91;1&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a22fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maioria das v&iacute;timas s&atilde;o adolescentes e adultos jovens, do sexo masculino, na faixa et&aacute;ria de 15 a 29 anos, predominantemente pobres e negros, habitantes dos bairros que fazem parte da periferia urbana das regi&otilde;es metropolitanas, onde as condi&ccedil;&otilde;es e a qualidade de vida social s&atilde;o prec&aacute;rias. Nesses bairros, diferentes formas de desigualdade se conectam e se sobrep&otilde;em - econ&ocirc;mica, de g&ecirc;nero, gera&ccedil;&atilde;o, etnia e ra&ccedil;a, e origem regional - estimulando a consolida&ccedil;&atilde;o de hierarquias sociais r&iacute;gidas. Essas desigualdades sociais se manifestam pelo acesso restrito aos direitos sociais, como escolaridade, sa&uacute;de, moradia decente e, principalmente, prote&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es respons&aacute;veis pela lei e pela ordem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estudos indicam que muitas dessas mortes est&atilde;o associadas &agrave; chegada do crime organizado ao Brasil, no final da d&eacute;cada de 1970, principalmente em torno do com&eacute;rcio ilegal de drogas e em &aacute;reas metropolitanas como o Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo &#91;2, 3&#93;. Elas se intensificaram principalmente nos bairros pobres, onde os trabalhadores iniciantes est&atilde;o concentrados, causando efeitos desagregadores nas rela&ccedil;&otilde;es sociais e nas sociabilidades locais. No Brasil como um todo, o tr&aacute;fico il&iacute;cito de drogas &eacute; amplamente respons&aacute;vel pela sucess&atilde;o de mortes entre jovens, principalmente negros, moradores de favelas e dos chamados "bairros populares". Cen&aacute;rio semelhante de inseguran&ccedil;a e de mortes em conflitos locais &eacute; presentemente representado pela forma&ccedil;&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o de mil&iacute;cias em &aacute;reas pr&oacute;ximas ou cont&iacute;guas ao dom&iacute;nio das fac&ccedil;&otilde;es do tr&aacute;fico. Reunindo policiais e ex-policiais, exploram uma variedade de neg&oacute;cios ilegais, impondo regras arbitr&aacute;rias e violentas de conviv&ecirc;ncia nos bairros ou territ&oacute;rios onde exercem seu dom&iacute;nio &#91;4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o sem raz&atilde;o, o chamado crime organizado, anteriormente concentrado em torno do mercado ilegal de drogas, vem se expandido para outros mercados. Al&eacute;m do mercado de produtos falsificados com grande lastro entre consumidores dos estratos sociais de baixa renda (n&atilde;o apenas entre eles, por certo), uma s&eacute;rie de outras atividades tem sido objeto de interesse de diferentes grupos criminosos, como explora&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos (distribui&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua e energia) e privados (servi&ccedil;os de internet e TVs por assinatura), ao que se acrescem explora&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os ilegais de transporte, roubo de cargas, venda ilegal de lotes de terreno ou de habita&ccedil;&otilde;es (casas e apartamentos populares). Formam-se redes criminosas, algumas das quais capazes de r&aacute;pida capitaliza&ccedil;&atilde;o em curto espa&ccedil;o de tempo, transitando para mercados internacionais de drogas, de &oacute;rg&atilde;os, de pessoas escravizadas e at&eacute; mesmo de combust&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse cen&aacute;rio torna-se ainda mais complexo face &agrave; explos&atilde;o de conflitos nas rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, objeto de toda sorte de &oacute;dio e intoler&acirc;ncia, materializados em expressivas taxas de feminic&iacute;dios, assim como nas agress&otilde;es, inclusive com desfechos fatais, contra a popula&ccedil;&atilde;o LGBTQIA+. No mesmo sentido, s&atilde;o recorrentes viol&ecirc;ncias contra crian&ccedil;as e adolescentes por for&ccedil;a de maus tratos, exig&ecirc;ncias arbitr&aacute;rias de observ&acirc;ncia de disciplina e de rigorosos preceitos morais, al&eacute;m da imposi&ccedil;&atilde;o de car&ecirc;ncias de toda sorte. Conflitos interpessoais nas rela&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias e de vizinhan&ccedil;as, em geral nascidos de desaven&ccedil;as do cotidiano, n&atilde;o raro convergem para mortes. O mundo privado, &iacute;ntimo, dom&eacute;stico, &eacute; flagrantemente um espa&ccedil;o perigoso para as mulheres e para as crian&ccedil;as, ao contr&aacute;rio de espa&ccedil;os de prote&ccedil;&atilde;o e de conforto afetivo. Essas a&ccedil;&otilde;es que agridem a consci&ecirc;ncia p&uacute;blica nessa sociedade t&ecirc;m vindo acompanhadas cada vez mais por atos de intensa crueldade, sofrimento e dor impingidos &agrave;s v&iacute;timas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse breve cen&aacute;rio geral estaria incompleto se n&atilde;o fossem considerados outros fatos, alguns deles muito recentes. As taxas de crimes contra o patrim&ocirc;nio ainda permanecem muito altas e sempre crescentes. Muitos desses crimes, em suas variadas modalidades - furtos, roubos, extors&atilde;o mediante sequestro, por exemplo - constituem fonte de inseguran&ccedil;a coletiva. Exceto os furtos, a maior parte desses crimes s&atilde;o realizados mediante emprego ou amea&ccedil;a de emprego de viol&ecirc;ncia interpessoal que pode resultar em morte. N&atilde;o &eacute; estranho que sondagens de opini&atilde;o sugiram que essas modalidades de viol&ecirc;ncia s&atilde;o as que mais alimentam os sentimentos de medo intersubjetivo e coletivo. Sugerem tamb&eacute;m o quanto a expans&atilde;o do mercado tanto legal quanto ilegal de armas inflaciona tanto os crimes contra a pessoa contra aqueles contra o patrim&ocirc;nio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na mesma dire&ccedil;&atilde;o, crimes contra o patrim&ocirc;nio vem sendo ampliados com o concurso de meios tecnol&oacute;gicos como computadores, celulares e aplicativos da internet. Em especial, na imprensa, tem sido cada vez mais frequente o relato de cidad&atilde;os e cidad&atilde;s, em geral idosos, v&iacute;timas desses crimes cibern&eacute;ticos que lhes subtraem pequeno patrim&ocirc;nio pessoal mediante golpes engenhosamente orquestrados.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Recentemente, a radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica na sociedade brasileira introduziu na esfera p&uacute;blica um fen&ocirc;meno que pareceria erradicado desde a transi&ccedil;&atilde;o da ditadura civil-militar para a democracia. Trata-se da viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica, vale dizer, as a&ccedil;&otilde;es violentas motivadas por posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas intransigentes e posi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas que desconhecem o direito de quem quer que seja &agrave;s liberdades civis e p&uacute;blicas em uma democracia, o respeito &agrave; diversidade social e pol&iacute;tica e o reconhecimento da dignidade, fundamento de uma cultura de respeito aos direitos humanos."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tudo parece gravitar em torno de tradicionais e recentes modalidades de agress&otilde;es &agrave; lei e &agrave; ordem. No entanto, recentemente, a radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica na sociedade brasileira introduziu na esfera p&uacute;blica um fen&ocirc;meno que pareceria erradicado desde a transi&ccedil;&atilde;o da ditadura civil-militar para a democracia. Trata-se da viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica, vale dizer, as a&ccedil;&otilde;es violentas motivadas por posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas intransigentes e posi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas que desconhecem o direito de quem quer que seja &agrave;s liberdades civis e p&uacute;blicas em uma democracia, o respeito &agrave; diversidade social e pol&iacute;tica e o reconhecimento da dignidade, fundamento de uma cultura de respeito aos direitos humanos. A irrup&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia no espa&ccedil;o da vida pol&iacute;tica, estimulada e ampliada por esse territ&oacute;rio carente de regras claras que s&atilde;o as m&iacute;dias sociais, e ve&iacute;culo de difus&atilde;o das chamadas <i>fake news</i>, que vieram para confundir o senso comum e a raz&atilde;o, a cren&ccedil;a e a argumenta&ccedil;&atilde;o racional no debate p&uacute;blico. Trata-se, portanto, de um fen&ocirc;meno novo que agrava os desafios para manter lei e ordem, sedimentar uma cultura de direitos humanos para o conjunto dos cidad&atilde;os e cidad&atilde;s e preservar a vig&ecirc;ncia da sociedade democr&aacute;tica no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O que explica as atuais taxas elevadas de crimes, em especial os mais violentos?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute; respostas simples para explicar as tend&ecirc;ncias de evolu&ccedil;&atilde;o dos crimes e das distintas modalidades de viol&ecirc;ncia. Tampouco h&aacute; consensos entre pesquisadores quando se trata de oferecer respostas para essa quest&atilde;o. &Eacute; certo que as ra&iacute;zes possam ser buscadas na coloniza&ccedil;&atilde;o e em seus modos cru&eacute;is e rudes de domina&ccedil;&atilde;o. No entanto, conv&eacute;m se lembrar de que a condena&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia, em suas m&uacute;ltiplas formas, &eacute; um fen&ocirc;meno moderno. No passado, seu emprego n&atilde;o era objeto de censura. Heran&ccedil;a do passado colonial, a propriedade da terra, fonte de poder e mando, estendia-se a tudo que gravitava em torno do patrim&ocirc;nio e de sua organiza&ccedil;&atilde;o social - o patrimonialismo, inclusive o corpo das mulheres, dos escravos e das crian&ccedil;as. Tudo era concebido como uma esp&eacute;cie de extens&atilde;o do poder senhorial. A despeito dessa longa tradi&ccedil;&atilde;o, conforme destacado nos cl&aacute;ssicos da sociologia pol&iacute;tica no Brasil, essas explica&ccedil;&otilde;es de natureza culturalista t&ecirc;m seus limites e explicam pouco dos acontecimentos e do cen&aacute;rio da viol&ecirc;ncia contempor&acirc;nea. Para ultrapass&aacute;-las, &eacute; preciso, portanto, ir al&eacute;m desse universo e campo explicativos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como &eacute; sabido, a partir dos estudos de Nobert Elias &#91;5&#93;, a emerg&ecirc;ncia e a consolida&ccedil;&atilde;o da sociedade moderna foi tribut&aacute;ria de dois processos, distintos, por&eacute;m que convergiram entre si: uma nova economia moral que implicou o retraimento do emprego na viol&ecirc;ncia nas rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e intersubjetivas, nascidas de uma gram&aacute;tica de etiquetas e da considera&ccedil;&atilde;o da dignidade do outro como ser humano; e um processo de centraliza&ccedil;&atilde;o do poder pol&iacute;tico, que extorquiu dos civis o direito consuetudin&aacute;rio de apelo &agrave; viol&ecirc;ncia como forma de media&ccedil;&atilde;o de conflitos e de imposi&ccedil;&atilde;o da vontade particular contra outras vontades particulares. No curso hist&oacute;rico, o Estado moderno &eacute; justamente a comunidade pol&iacute;tica que det&eacute;m o monop&oacute;lio leg&iacute;timo do poder coercitivo, o que significa deter o monop&oacute;lio das for&ccedil;as armadas e policiais, o monop&oacute;lio da aplica&ccedil;&atilde;o das leis, em especial as penais, e o monop&oacute;lio fiscal. No entanto, a tese do monop&oacute;lio estatal leg&iacute;timo da viol&ecirc;ncia vem sendo contestada por in&uacute;meros estudiosos &#91;6&#93;, face &agrave; emerg&ecirc;ncia do mundo globalizado, da flexibiliza&ccedil;&atilde;o das fronteiras nacionais, da intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o de pessoas por diferentes territ&oacute;rios, pela emerg&ecirc;ncia de novas economias criminais, pela internacionaliza&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;cias e pela transfer&ecirc;ncia de parte das atividades de vigil&acirc;ncia das ruas para civis e para organiza&ccedil;&otilde;es empresariais. A privatiza&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a, representada pelo surgimento de in&uacute;meras empresas que passam a fazer vigil&acirc;ncia de estabelecimentos comerciais, aeroportos, escolas e universidades, campos de futebol, &eacute; um dos sinais mais evidentes de que o monop&oacute;lio estatal leg&iacute;timo da viol&ecirc;ncia tende a ser superado.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Alinham-se opini&otilde;es e propostas que entendem que as causas do crime e da viol&ecirc;ncia e, por conseguinte, de sua supera&ccedil;&atilde;o residem nas extremas desigualdades sociais. Sem o enfrentamento dessas desigualdades estruturais, mediante pol&iacute;ticas p&uacute;blicas sociais, dificilmente ocorrer&aacute; redu&ccedil;&atilde;o das taxas de crimes e viol&ecirc;ncias e da impunidade penal, e dificilmente o medo social ser&aacute; dissipado e restitu&iacute;da a seguran&ccedil;a e paz &agrave; sociedade brasileira."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito da aus&ecirc;ncia de consensos, quatro ordens de fatores, que interagem entre si, sugerem hip&oacute;teses para investiga&ccedil;&atilde;o de cen&aacute;rios sociais e institucionais de explos&atilde;o das taxas e indicadores de crimes e viol&ecirc;ncias. Primeiramente, mudan&ccedil;as desencadeadas pela chamada globaliza&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m alterando rapidamente rela&ccedil;&otilde;es sociais que, em passado recente, sustentavam a obedi&ecirc;ncia &agrave;s leis, a conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica entre cidad&atilde;os, a conten&ccedil;&atilde;o dos impulsos agressivos. Entre essas mudan&ccedil;as, identificam-se a flexibiliza&ccedil;&atilde;o de fronteiras nacionais e do controle estatal de territ&oacute;rios; a desregulamenta&ccedil;&atilde;o dos mercados financeiros; e a livre circula&ccedil;&atilde;o de capitais para lavagem de dinheiro em para&iacute;sos fiscais sem restri&ccedil;&otilde;es legais, favorecendo o financiamento de opera&ccedil;&otilde;es ilegais em escala internacional como contrabando de armas, sequestros, roubos, fraudes fiscais, corrup&ccedil;&atilde;o de autoridades pol&iacute;ticas e civis. Tudo isso apoiado em novas tecnologias, inclusive de telecomunica&ccedil;&otilde;es, aumentando a mobilidade espacial e virtual da circula&ccedil;&atilde;o desses neg&oacute;cios. Em uma palavra, suas consequ&ecirc;ncias vieram alterar o perfil moderno, consolidado desde o s&eacute;culo XIX, dos estados-na&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma segunda ordem explicativa gravita em torno dos novos padr&otilde;es de desenvolvimento urbano e surgimento de megacidades com mais de oito milh&otilde;es de habitantes. Esses padr&otilde;es de desenvolvimento de megacidades resultam em car&ecirc;ncia de infraestruturas e agravamento progressivo das condi&ccedil;&otilde;es e qualidade de vida associativa, segrega&ccedil;&atilde;o espacial e racial, desigualdades sociais estruturais. Esse ambiente propicia o desenvolvimento do mercado local de drogas ilegais, sobretudo em bairros onde predominam os moradores de baixa renda e nos quais h&aacute; concentra&ccedil;&atilde;o de muitos jovens, parte dispon&iacute;vel e recrutada para essas atividades ilegais. Desde a chegada do tr&aacute;fico nesses bairros, disputas pelo controle do territ&oacute;rio (isto &eacute;, pontos de venda de drogas) provocam uma verdadeira guerra de gangues, alimentada pelo acesso ao mercado clandestino de armas de fogo<a name="2a"></a><sup>&#91;<a href="#2b">ii</a>&#93;</sup>. N&atilde;o se pode esquecer que contribui para agravar esse cen&aacute;rio de ilegalidades a din&acirc;mica do mercado consumidor que &eacute; determinada seja por compradores que moram do outro lado da cidade, nos bairros onde predominam moradores de classes m&eacute;dias e altas, como tamb&eacute;m pela exporta&ccedil;&atilde;o de drogas para o exterior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma terceira ordem de fatores reside na crise cr&ocirc;nica das organiza&ccedil;&otilde;es policiais e judiciais, grosso modo integrantes do que se convencionou chamar de sistema de justi&ccedil;a criminal. A moderniza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia, da organiza&ccedil;&atilde;o judicial e do sistema penitenci&aacute;rio n&atilde;o acompanhou as mudan&ccedil;as nos padr&otilde;es de criminalidade urbana. Os crimes cresceram e se tornaram mais violentos; e os criminosos se tornaram mais especializados e mais poderosos. No entanto, essas organiza&ccedil;&otilde;es continuaram a funcionar como o faziam h&aacute; d&eacute;cadas. Embora seja for&ccedil;oso reconhecer que t&ecirc;m havido iniciativas renovadoras, em especial informatiza&ccedil;&atilde;o de procedimentos administrativos, as tarefas de investiga&ccedil;&atilde;o, vigil&acirc;ncia, apura&ccedil;&atilde;o de responsabilidade penal, julgamento de autores de crimes, ainda permanecem presas a modelos tradicionais, revelando enorme capacidade de resist&ecirc;ncia &agrave; mudan&ccedil;a de orienta&ccedil;&otilde;es e de padr&otilde;es.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"A viol&ecirc;ncia &eacute; agravante das desigualdades sociais: desigualdades no acesso &agrave; justi&ccedil;a; no tratamento diferencial dispensado por policiais aos cidad&atilde;os segundo ra&ccedil;a, cor, classe social, g&ecirc;nero, gera&ccedil;&atilde;o, poder e riqueza; no atendimento de demandas por seguran&ccedil;a procedentes dos estratos sociais situados nas posi&ccedil;&otilde;es inferiores das hierarquias sociais."</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, &eacute; inevit&aacute;vel falar das pris&otilde;es. A resposta imediata do Estado para conter a evolu&ccedil;&atilde;o dos crimes e da viol&ecirc;ncia tem sido a de recorrer &agrave; pris&atilde;o em massa. Seus efeitos s&atilde;o conhecidos. Resultaram na precariza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de vida nas pris&otilde;es, fonte de protestos de prisioneiros contra viola&ccedil;&otilde;es graves dos direitos humanos. No Estado de S&atilde;o Paulo, pouco a pouco, o poder nas pris&otilde;es passa das m&atilde;os dos agentes penitenci&aacute;rios para o comando do crime organizado (PCC - Primeiro Comando da Capital). O PCC come&ccedil;a a exercer dom&iacute;nio interno, impondo r&iacute;gidas regras morais de conduta (como proibi&ccedil;&atilde;o de matar sem autoriza&ccedil;&atilde;o, de relacionamentos homossexuais e de uso de drogas indiscriminadamente). Guardadas as diferen&ccedil;as regionais, cen&aacute;rios assemelhados foram se espalhando por outros estados da federa&ccedil;&atilde;o, constituindo um mosaico de fac&ccedil;&otilde;es hoje consolidadas na regi&atilde;o Norte e Nordeste, associadas ou n&atilde;o aos grupos organizados de S&atilde;o Paulo e do Rio de Janeiro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Por que fracassam as pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerada essa ordem de fatores, cabe ent&atilde;o indagar: por que fracassam as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a e &eacute; t&atilde;o prec&aacute;rio o controle legal e social da ordem p&uacute;blica no Brasil? Uma vez mais, sem pretender esgotar completamente o assunto, algumas raz&otilde;es t&ecirc;m sido identificadas no debate p&uacute;blico e nos estudos no campo das ci&ecirc;ncias sociais. Ainda que esses debates venham progressivamente se tornado mais refinados, ainda &eacute; vis&iacute;vel, em especial no dom&iacute;nio do senso comum, a f&oacute;rmula pol&iacute;tica que insiste na oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;ticas distributivas <i>versus</i> pol&iacute;ticas retributivas. Por um lado, alinham-se opini&otilde;es e propostas que entendem que as causas do crime e da viol&ecirc;ncia e, por conseguinte, de sua supera&ccedil;&atilde;o residem nas extremas desigualdades sociais. Sem o enfrentamento dessas desigualdades estruturais, mediante pol&iacute;ticas p&uacute;blicas sociais, dificilmente ocorrer&aacute; redu&ccedil;&atilde;o das taxas de crimes e viol&ecirc;ncias e da impunidade penal, e dificilmente o medo social ser&aacute; dissipado e restitu&iacute;da a seguran&ccedil;a e paz &agrave; sociedade brasileira. Muitos consideram que a redu&ccedil;&atilde;o das desigualdades &eacute; base para redu&ccedil;&atilde;o das dist&acirc;ncias de acesso aos direitos que caracterizam a vida das classes sociais posicionadas de modo distinto nas hierarquias sociais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n2/a22fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por outro, situam-se as posi&ccedil;&otilde;es que entendem que o problema &eacute; de lei e ordem. As leis s&atilde;o fr&aacute;geis, argumentam. Igualmente, afirma-se que a autoridade dos agentes institucionais, sobretudo policiais, est&aacute; sempre sobre o &aacute;cido crivo da cr&iacute;tica e da opini&atilde;o p&uacute;blica informada, dificultando o emprego da for&ccedil;a coercitiva nas atividades de repress&atilde;o aos crimes e &agrave;s viol&ecirc;ncias. As demandas prop&otilde;em o fortalecimento do arcabou&ccedil;o jur&iacute;dico-penal com o recurso &agrave;s penas severas, redu&ccedil;&atilde;o da maioridade penal, encarceramento massivo e cumprimento de penas em regimes fechados dotados de controles r&iacute;gidos e regras disciplinares autorit&aacute;rias que abolem direitos da popula&ccedil;&atilde;o prisional consagrados em acordos e conven&ccedil;&otilde;es internacionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse dom&iacute;nio, o desafio consiste em desarmar esse debate polarizado. Certamente, sa&iacute;das poss&iacute;veis para um controle legal e social eficaz dos crimes e da viol&ecirc;ncia passam por medidas no campo das pol&iacute;ticas sociais, visando reduzir desigualdades sociais. Mas tamb&eacute;m, por uma aplica&ccedil;&atilde;o adequada das leis que respeitem o Estado democr&aacute;tico de Direito. De todo modo, esse desafio significa antes de tudo abandonar modelos tradicionais de seguran&ccedil;a, exclusivamente assentados em lei e ordem e na configura&ccedil;&atilde;o normativa das ag&ecirc;ncias de seguran&ccedil;a p&uacute;blica e justi&ccedil;a criminal. Para ser alcan&ccedil;ado, esse prop&oacute;sito requer inova&ccedil;&otilde;es institucionais, tecnol&oacute;gicas e administrativas, compat&iacute;veis com as mais exitosas experi&ecirc;ncias internacionais e capazes de conciliar aplica&ccedil;&atilde;o de lei e respeito aos direitos humanos fundamentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro desafio &eacute; aproximar cada vez mais o estoque de conhecimento produzido nos centros de pesquisa e as opera&ccedil;&otilde;es de formula&ccedil;&atilde;o e implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a. N&atilde;o raro, as pol&iacute;ticas setoriais s&atilde;o elaboradas independentemente de diagn&oacute;sticos embasados em procedimentos cient&iacute;ficos capazes de promover a constru&ccedil;&atilde;o de cen&aacute;rios poss&iacute;veis e futuros. Ainda que hoje as ag&ecirc;ncias policiais j&aacute; orientem suas a&ccedil;&otilde;es com o recurso a alguns procedimentos tecnol&oacute;gicos, como mapeamento e distribui&ccedil;&atilde;o de crimes nas ruas da cidade, modernas pol&iacute;cias tendem cada vez mais a realizar, atrav&eacute;s de seus institutos especializados, ou em acordos com pesquisadores de centros e universidades, investiga&ccedil;&otilde;es de m&eacute;dia e longa dura&ccedil;&atilde;o que lhes habilitam n&atilde;o apenas a lidar com os fatos imediatos, por&eacute;m com avalia&ccedil;&otilde;es de tend&ecirc;ncias de m&eacute;dio e longo prazos. S&atilde;o essas avalia&ccedil;&otilde;es de maior dura&ccedil;&atilde;o no tempo que melhor dimensionam a viabilidade de serem introduzidas pol&iacute;ticas preventivas de controle dos crimes e das viol&ecirc;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; tamb&eacute;m desafios relacionados aos investimentos. Sabe-se que os custos da viol&ecirc;ncia de um pa&iacute;s como o Brasil s&atilde;o extremamente elevados, pois afetam a produtividade e rentabilidade de quase todos setores econ&ocirc;micos do mercado, que destinam parte de suas despesas em seguran&ccedil;a patrimonial e em seguran&ccedil;a dos trabalhadores. Os investimentos e despesas governamentais em seguran&ccedil;a p&uacute;blica n&atilde;o s&atilde;o pequenos. Em alguns estados da federa&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o entre os de maior valor, superando at&eacute; mesmo educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de. A maior parte dos gastos &eacute; destinada ao pagamento de sal&aacute;rios de todas as categorias profissionais e ocupacionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Conquanto as avalia&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis ainda sejam t&iacute;midas, tudo sugere que est&atilde;o aqu&eacute;m das necessidades os investimentos na reforma do desenho institucional das ag&ecirc;ncias policiais, judiciais e prisionais, na melhoria das condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, na moderniza&ccedil;&atilde;o e profissionaliza&ccedil;&atilde;o do ensino especializado ou na cria&ccedil;&atilde;o de institutos especializados na gest&atilde;o da seguran&ccedil;a p&uacute;blica. A cria&ccedil;&atilde;o desses institutos tem se tornando demanda frequente, porque n&atilde;o raro, associada &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de carreiras pr&oacute;prias, diferentemente do que &eacute; hoje proporcionado nas academias das corpora&ccedil;&otilde;es policiais. Em outras palavras, imp&otilde;em-se n&atilde;o apenas investimento em treinamento especializado, mas tamb&eacute;m em gest&atilde;o institucional eficiente. N&atilde;o sem raz&atilde;o, na aus&ecirc;ncia de gest&atilde;o institucional eficiente, as demandas acabam concentradas na provis&atilde;o de equipamentos, notadamente armas e viaturas. Embora necess&aacute;rios, s&atilde;o insuficientes porque seu atendimento n&atilde;o rompe com os padr&otilde;es de desempenho operacional, funcional e administrativo que permanecem ainda fortemente atrelados &agrave;s diretrizes do passado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para finalizar, conv&eacute;m anunciar outro conjunto de desafios n&atilde;o menos importantes. A viol&ecirc;ncia &eacute; agravante das desigualdades sociais: desigualdades no acesso &agrave; justi&ccedil;a; no tratamento diferencial dispensado por policiais aos cidad&atilde;os segundo ra&ccedil;a, cor, classe social, g&ecirc;nero, gera&ccedil;&atilde;o, poder e riqueza; no atendimento de demandas por seguran&ccedil;a procedentes dos estratos sociais situados nas posi&ccedil;&otilde;es inferiores das hierarquias sociais. Acentua essas desigualdades a aus&ecirc;ncia ou insufici&ecirc;ncia de mecanismos institucionais leg&iacute;timos de media&ccedil;&atilde;o de conflitos sociais e interpessoais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Enfrentar todos esses desafios enseja s&oacute;lida reflex&atilde;o a respeito da compatibilidade das pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a com o Estado democr&aacute;tico de direito. Qual &eacute; a pol&iacute;cia esperada em sociedades democr&aacute;ticas? Como situar fun&ccedil;&otilde;es punitivas em sociedades democr&aacute;ticas? Como estimular o desenvolvimento de uma cultura organizacional de <i>accountability</i> visando controle da viol&ecirc;ncia policial e institucional, levando &agrave; indaga&ccedil;&atilde;o como enfrentar a reforma das pol&iacute;cias e das ag&ecirc;ncias de justi&ccedil;a com seus interesses corporativos enraizados h&aacute; tempos quase imemoriais? Como retomar o controle da circula&ccedil;&atilde;o de armas nas m&atilde;os de civis? Como monitorar o envolvimento de agentes p&uacute;blicos com corrup&ccedil;&atilde;o e neg&oacute;cios ilegais? Como o apoio em novas tecnologias pode contribuir para o monitoramento das a&ccedil;&otilde;es e movimenta&ccedil;&atilde;o financeira das diferentes modalidades de crime organizado e das fac&ccedil;&otilde;es? Como promover com efici&ecirc;ncia pol&iacute;ticas de prote&ccedil;&atilde;o focalizadas, em torno das singularidades de g&ecirc;nero, de crian&ccedil;as e adolescentes, de idosos, de migrantes, de crimes de &oacute;dio e de intoler&acirc;ncia? Como desacelerar o encarceramento de massa? Como problematizar a atual pol&iacute;tica de drogas?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Trata-se de uma agenda complexa. Parte das respostas pode ser encontrada nos estudos e investiga&ccedil;&otilde;es, conduzidos com rigor te&oacute;rico, conceitual e metodol&oacute;gico, produzidos nos centros de pesquisa e nas universidades, que se expandiram em todo o pa&iacute;s nestas tr&ecirc;s &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Al&eacute;m disso, a cria&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais, como o F&oacute;rum Brasileiro de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, entre outras, tem contribu&iacute;do para pautar temas e propor encaminhamentos, mesmo que ignorados pelo poder p&uacute;blico e pelos governos federal e estaduais. Ao lado desses atores, a presen&ccedil;a da sociedade civil organizada em conselhos consultivos e deliberativos  tem se prestado a canalizar conhecimento cient&iacute;fico e saberes pr&aacute;ticos para mudan&ccedil;as das pr&aacute;ticas institucionais, mesmo que se considere que o governo Bolsonaro (2019-2022) a tenha restringido sen&atilde;o eliminado das ag&ecirc;ncias governamentais, entre as quais minist&eacute;rios, secretarias e funda&ccedil;&otilde;es. Todas essas for&ccedil;as convergem para a forma&ccedil;&atilde;o de novas lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas capazes de enfrentar desafios, resist&ecirc;ncias &agrave;s mudan&ccedil;as, impunidade, bem como executar pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a e justi&ccedil;a afinadas com a vida republicana e democr&aacute;tica e a cultura dos direitos humanos. Igualmente devem contribuir para reduzir a radicaliza&ccedil;&atilde;o presente nesta sociedade, reduzindo as oportunidades de ocorr&ecirc;ncia de viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a>&#91;<a href="#1a">i</a>&#93; Este artigo re&uacute;ne temas e quest&otilde;es no dom&iacute;nio da sociologia da viol&ecirc;ncia que vim desenvolvendo ao longo de mais de 40 anos de pesquisa, cujos resultados foram e vem sendo divulgados em in&uacute;meras publica&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas e mesmo naquelas direcionadas para p&uacute;blicos amplos. Se a repeti&ccedil;&atilde;o &eacute; inevit&aacute;vel, a originalidade do ensaio reside no esfor&ccedil;o de apontar alguns dilemas institucionais no controle legal e social da ordem p&uacute;blica e indicar poss&iacute;veis dilemas para a conten&ccedil;&atilde;o dos crimes e das diferentes modalidades de viol&ecirc;ncia dentro dos marcos do Estado democr&aacute;tico de direito. Ao longo desse per&iacute;odo, fui benefici&aacute;rio de financiamentos &agrave; pesquisa proporcionados sobretudo pela Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp), em apoio a v&aacute;rios projetos institucionais do N&uacute;cleo de Estudos da Viol&ecirc;ncia, do qual fui coordenador (2003-2019), e para o Centro de Pesquisa, Inova&ccedil;&atilde;o e Difus&atilde;o (NEV-CEPID/USP). Igualmente importante foram financiamentos &agrave; pesquisa concedidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico - CNPq, inclusive Bolsa de Pesquisa do qual sou Pesquisador I-A.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2b"></a>&#91;<a href="#2a">ii</a>&#93; Com os decretos que flexibilizaram o controle de armas, editados pelo governo Bolsonaro (2019-2022), sabe-se que fac&ccedil;&otilde;es do crime organizado tem adquirido armas por meio do mercado legal.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. INSTITUTO DE PESQUISA ECON&Ocirc;MICA E APLICADA (IPEA). <i>Atlas da viol&ecirc;ncia 2018. </i>Bras&iacute;lia: IPEA, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. ZALUAR, A. <i>Integra&ccedil;&atilde;o perversa: </i>pobreza e tr&aacute;fico de drogas. Rio de Janeiro: FGV, 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. MANSO, B. P.; DIAS, C. <i>A guerra</i>: a ascens&atilde;o do PCC e o mundo do crime no Brasil. S&atilde;o Paulo: Todavia, 2018.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. MANSO, B. P. <i>A rep&uacute;blica das mil&iacute;cias</i>: dos esquadr&otilde;es da morte &agrave; era Bolsonaro<i>. </i>S&atilde;o Paulo: Todavia, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. ELIAS, N. <i>O processo civilizador. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. WIEVIORKA, M. Un nouveau paradigme de la violence? <i>Cultures &amp; Conflicts</i>, Nanterre, n. 29-30, p. 9-57, 1998.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Texto publicado originalmente em:</b>    <br>   ADORNO, S. O fracasso do controle legal dos crimes e da viol&ecirc;ncia na sociedade brasileira contempor&acirc;nea: quest&otilde;es para discuss&atilde;o: como alcan&ccedil;ar sa&iacute;das vi&aacute;veis e socialmente leg&iacute;timas sem comprometer a vig&ecirc;ncia da democracia na sociedade?<i> Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>, S&atilde;o Paulo, v. 74, n. 4, 2022.</font></p>      ]]></body><back>
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