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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240076</article-id>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O papel da ci&ecirc;ncia na defesa da democracia e da sa&uacute;de p&uacute;blica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Renato Janine Ribeiro<sup>I</sup>; Luana Ara&uacute;jo<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP). Fil&oacute;sofo, cientista pol&iacute;tico, escritor e colunista, foi ministro da Educa&ccedil;&atilde;o do Brasil no governo de Dilma Rousseff    <br>   <sup>II</sup>M&eacute;dica infectologista brasileira que se destacou como uma lideran&ccedil;a em sa&uacute;de p&uacute;blica e comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica durante seu depoimento ao Comit&ecirc; de Inqu&eacute;rito da Covid-19 no Senado Brasileiro. Atualmente, lidera as Iniciativas de Tecnologias Avan&ccedil;adas para Equidade em Sa&uacute;de no Hospital Albert Einstein, em S&atilde;o Paulo. Tamb&eacute;m atua como Diretora de Seguran&ccedil;a em Sa&uacute;de e Inova&ccedil;&atilde;o na CAdsHI, uma organiza&ccedil;&atilde;o sem fins lucrativos sediada nos EUA, voltada para os desafios dos sistemas de sa&uacute;de em pa&iacute;ses de baixa e m&eacute;dia renda</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A edi&ccedil;&atilde;o especial da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura destaca como a desinforma&ccedil;&atilde;o amea&ccedil;a n&atilde;o apenas a democracia, mas tamb&eacute;m a sa&uacute;de p&uacute;blica, com foco nos desafios enfrentados durante a pandemia de Covid-19. Em entrevista conduzida por Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, a infectologista Luana Ara&uacute;jo reflete sobre o impacto devastador das narrativas falsas, que comprometeram a resposta &agrave; crise sanit&aacute;ria no Brasil e resultaram em mais de 720 mil mortes. Para ela, uma comunica&ccedil;&atilde;o baseada em ci&ecirc;ncia &eacute; essencial para salvar vidas, reconstruir a confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es e enfrentar desigualdades, refor&ccedil;ando o papel estrat&eacute;gico da informa&ccedil;&atilde;o de qualidade para o bem-estar da popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Desinforma&ccedil;&atilde;o; Democracia; Autoritarismo; Sa&uacute;de.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em um pa&iacute;s que vivenciou a maior trag&eacute;dia sanit&aacute;ria de sua hist&oacute;ria, o enfrentamento &agrave; pandemia da Covid-19 se tornou um teste decisivo para a ci&ecirc;ncia e para os valores democr&aacute;ticos. Nesse cen&aacute;rio, a desinforma&ccedil;&atilde;o emergiu como um dos maiores inimigos, alimentando negacionismos e desacreditando estrat&eacute;gias cientificamente comprovadas. Entre as vozes que resistiram a essa onda destrutiva est&aacute; a da infectologista Luana Ara&uacute;jo, uma defensora incans&aacute;vel da ci&ecirc;ncia e da vacina&ccedil;&atilde;o em massa, que ganhou destaque por sua breve e emblem&aacute;tica passagem pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de durante o governo Bolsonaro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Luana Ara&uacute;jo, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Sa&uacute;de P&uacute;blica pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, trouxe ao debate p&uacute;blico um discurso pautado pela ci&ecirc;ncia e pela transpar&ecirc;ncia. Em um governo que abra&ccedil;ava o uso de medicamentos ineficazes, como a cloroquina, e desdenhava das medidas preventivas, sua nomea&ccedil;&atilde;o para uma secretaria especial foi vista como um sopro de esperan&ccedil;a. No entanto, a esperan&ccedil;a durou pouco: sua sa&iacute;da em menos de dez dias evidenciou os embates &eacute;ticos e cient&iacute;ficos que marcaram a condu&ccedil;&atilde;o da pandemia no Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sua presen&ccedil;a na Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito (CPI) da Covid consolidou sua posi&ccedil;&atilde;o como uma das vozes mais contundentes contra o negacionismo institucionalizado. Na ocasi&atilde;o, a m&eacute;dica destacou como a desinforma&ccedil;&atilde;o contribuiu para a devastadora taxa de mortalidade no Brasil - mais de 720 mil mortes, um n&uacute;mero muito superior &agrave; m&eacute;dia mundial, demonstrando o custo humano de decis&otilde;es pol&iacute;ticas descoladas da ci&ecirc;ncia. Para Luana Ara&uacute;jo, o combate &agrave; pandemia foi mais do que um desafio m&eacute;dico; foi um embate contra a manipula&ccedil;&atilde;o e a distor&ccedil;&atilde;o deliberada de informa&ccedil;&otilde;es, que enfraqueceram a confian&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o nas medidas de prote&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m de sua atua&ccedil;&atilde;o no Brasil, Luana Ara&uacute;jo teve uma trajet&oacute;ria internacional voltada ao fortalecimento de sistemas de sa&uacute;de, trabalhando para reduzir desigualdades no acesso a insumos e vacinas em diversos pa&iacute;ses. Esse olhar global aliado &agrave; experi&ecirc;ncia pr&aacute;tica a transformou em uma lideran&ccedil;a na defesa de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas embasadas na ci&ecirc;ncia. Seu blog, "Des-Infectando", reflete seu compromisso com a dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es confi&aacute;veis e acess&iacute;veis, desmistificando conceitos e enfrentando mitos sobre sa&uacute;de p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesta edi&ccedil;&atilde;o especial da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, que aborda os impactos da desinforma&ccedil;&atilde;o sobre a democracia e os direitos humanos, Luana Ara&uacute;jo &eacute; a convidada de Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC). Em uma conversa franca, a m&eacute;dica compartilha sua vis&atilde;o sobre os desafios de comunicar ci&ecirc;ncia em tempos de polariza&ccedil;&atilde;o, sua breve passagem pelo governo e a import&acirc;ncia de lideran&ccedil;as comprometidas com a verdade para reconstruir a confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es e na democracia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Renato Janine Ribeiro -</b> Esta edi&ccedil;&atilde;o tem como tema "Desinforma&ccedil;&atilde;o, Democracia e Autoritarismo". Nosso ponto de partida &eacute; que a democracia est&aacute; seriamente amea&ccedil;ada pela desinforma&ccedil;&atilde;o. E a desinforma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas a aus&ecirc;ncia de informa&ccedil;&atilde;o: &eacute; a mentira. Em ingl&ecirc;s, h&aacute; uma diferen&ccedil;a entre </i>"mis"<i> e </i>"dis<i>": "misinformation" seria uma m&aacute; informa&ccedil;&atilde;o, ou seja, uma informa&ccedil;&atilde;o equivocada, enquanto "disinformation" seria uma opera&ccedil;&atilde;o deliberada para intoxicar as pessoas com essa informa&ccedil;&atilde;o falsa. Luana Ara&uacute;jo, que vamos entrevistar hoje, nasceu no interior de S&atilde;o Paulo, em Andradina. Fez faculdade no Rio de Janeiro, especializa&ccedil;&atilde;o em S&atilde;o Paulo e mora h&aacute; bastante tempo em Belo Horizonte. &Eacute; infectologista e mestre em Sa&uacute;de P&uacute;blica pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. Ela ganhou destaque na CPI da Covid. Na ocasi&atilde;o, havia sido convidada para assumir uma secretaria especial no Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de para o enfrentamento da pandemia. No entanto, o Minist&eacute;rio, na &eacute;poca do ent&atilde;o presidente Jair Bolsonaro, estava sob gest&atilde;o de negacionistas que, de forma perversa, conduziram uma campanha contr&aacute;ria &agrave;s medidas de combate &agrave; Covid. Isso levou o Brasil a registrar uma taxa de mortalidade muito superior &agrave; m&eacute;dia mundial. Se segu&iacute;ssemos a propor&ccedil;&atilde;o global, ter&iacute;amos registrado cerca de 180 mil mortes - menos de 1 por mil habitantes. Contudo, no Brasil, tivemos 720 mil &oacute;bitos, ou seja, mais de 500 mil mortes al&eacute;m da m&eacute;dia estat&iacute;stica. &Eacute; um grande prazer receb&ecirc;-la aqui e come&ccedil;ar essa s&eacute;rie de entrevistas deste n&uacute;mero especial da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura com voc&ecirc;. Para come&ccedil;ar, gostaria de perguntar o que a levou a aceitar o convite para a Secretaria e como foi essa experi&ecirc;ncia t&atilde;o breve.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Luana Ara&uacute;jo - </b>Boa noite, muito obrigada por me receber aqui, fico imensamente feliz. Acredito que preciso voltar um pouco no tempo para explicar de forma mais clara para todos. Durante a pandemia, eu estava em Baltimore, nos Estados Unidos, estudando e trabalhando, quando fui convidada por uma organiza&ccedil;&atilde;o internacional para atuar no fortalecimento de sistemas de sa&uacute;de ao redor do mundo, com foco no enfrentamento da pandemia. N&atilde;o sei se todos se lembrar&atilde;o daquele momento inicial, mas enfrent&aacute;vamos dificuldades n&atilde;o s&oacute; no diagn&oacute;stico, como tamb&eacute;m na distribui&ccedil;&atilde;o de insumos para os sistemas de sa&uacute;de. E, mais do que isso, havia o desafio de disponibilizar e utilizar esses insumos adequadamente nos territ&oacute;rios. Um caso cl&aacute;ssico da &eacute;poca &eacute; o das vacinas, que, no in&iacute;cio, exigiam uma rede de ultrafrios - precisavam ser armazenadas a menos 70 &deg;C -, e ningu&eacute;m tinha essa infraestrutura de </i>freezers<i> espalhada pelo pa&iacute;s para operar nessas condi&ccedil;&otilde;es. Uma das minhas fun&ccedil;&otilde;es era justamente diagnosticar os sistemas de sa&uacute;de, identificar os gargalos e trabalhar para que as pessoas tivessem acesso a tudo o que, teoricamente, os pa&iacute;ses mais desenvolvidos j&aacute; dispunham com maior facilidade. A ideia era reduzir as desigualdades nos sistemas de sa&uacute;de para enfrentar a pandemia de forma mais equitativa. Cheguei a trabalhar simultaneamente em quatro pa&iacute;ses diferentes. Foi uma experi&ecirc;ncia desafiadora e muito intensa.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Quais pa&iacute;ses, Luana?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - Coreia do Sul, Guin&eacute;-Bissau, Cabo Verde e Estados Unidos. Cada um com suas dificuldades, peculiaridades e facilidades. Eram sistemas bastante distintos, o que exigia uma grande adaptabilidade das estrat&eacute;gias. Foi por conta desse trabalho - al&eacute;m do fato de ser infectologista e sanitarista com experi&ecirc;ncia internacional - que recebi o convite para integrar a Secretaria de Combate &agrave; Covid. Foi uma surpresa &agrave; &eacute;poca, porque t&iacute;nhamos um hist&oacute;rico p&eacute;ssimo das pessoas que ocupavam o mais alto cargo da sa&uacute;de p&uacute;blica no pa&iacute;s. Mas, ent&atilde;o, houve essa aproxima&ccedil;&atilde;o entre o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e algumas organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, e acabei sendo convidada. Lembro que, naquela &eacute;poca, cerca de quatro mil pessoas morriam diariamente no Brasil por Covid. Pensando nisso, e tamb&eacute;m na possibilidade de implementar medidas que n&atilde;o exigiam grandes esfor&ccedil;os, apenas organiza&ccedil;&atilde;o do sistema e um m&iacute;nimo de bom senso nas decis&otilde;es, decidi aceitar. Foi assim que cheguei l&aacute;. Mas, da mesma forma que cheguei, sa&iacute;. N&atilde;o faria e n&atilde;o chancelaria praticamente nada do que foi proposto naquele momento. Estamos falando do uso inadequado ou incorreto de medicamentos no contexto da Covid - leia-se hidroxicloroquina, ivermectina e proxalutamida -, al&eacute;m de outros absurdos que ocorreram naquela &eacute;poca. Muito menos compactuaria com comportamentos contr&aacute;rios &agrave;s medidas n&atilde;o farmacol&oacute;gicas de controle da pandemia, como dizer que m&aacute;scaras n&atilde;o funcionavam. N&atilde;o sei onde estavam com a cabe&ccedil;a quando me convidaram para aquele cargo, mas sei onde estava com a minha: na tentativa de usar meu conhecimento e capacidades para ajudar a popula&ccedil;&atilde;o do meu pa&iacute;s. N&atilde;o deu certo. Fiquei muito triste, n&atilde;o por perder a posi&ccedil;&atilde;o, mas pela oportunidade perdida, como na&ccedil;&atilde;o, de fazer diferente.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b><i>"N&atilde;o sei onde estavam com a cabe&ccedil;a quando me convidaram para aquele cargo, mas sei onde estava com a minha: na tentativa de usar meu conhecimento e capacidades para ajudar a popula&ccedil;&atilde;o do meu pa&iacute;s."</i></b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Voc&ecirc; &eacute; infectologista e sanitarista. Creio que sua forma&ccedil;&atilde;o e resid&ecirc;ncia sejam em infectologia, e seu mestrado, em sa&uacute;de p&uacute;blica. Mas voc&ecirc; poderia elaborar um pouco mais sobre a diferen&ccedil;a entre essas &aacute;reas?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - Sem d&uacute;vida. Fiz a faculdade de Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a resid&ecirc;ncia em infectologia na mesma institui&ccedil;&atilde;o. Atuei como infectologista tanto na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria quanto na terci&aacute;ria, nos sistemas p&uacute;blico e privado, por bastante tempo. Todo infectologista tem uma proximidade muito grande com a sa&uacute;de p&uacute;blica, principalmente pelos pacientes que atendemos e pelas patologias que tratamos. Muitas dessas doen&ccedil;as t&ecirc;m forte rela&ccedil;&atilde;o com os determinantes sociais de sa&uacute;de, o que nos d&aacute; uma maior familiaridade com os diversos extratos da popula&ccedil;&atilde;o e com o sistema de sa&uacute;de em si. Tive, por exemplo, a oportunidade de trabalhar em uma cidade enfrentando um surto de s&iacute;filis em gestantes. S&iacute;filis &eacute; uma doen&ccedil;a que muitos acreditam estar erradicada, mas, na verdade, &eacute; uma epidemia crescente no Brasil - e isso &eacute; tr&aacute;gico. As gestantes s&atilde;o o &uacute;nico grupo que tem a obriga&ccedil;&atilde;o de se testar para s&iacute;filis, pois isso faz parte do pr&eacute;-natal. A s&iacute;filis, geralmente silenciosa, &eacute; uma infec&ccedil;&atilde;o sexualmente transmiss&iacute;vel que pode causar les&otilde;es prim&aacute;rias nos &oacute;rg&atilde;os genitais. No caso das mulheres, essas les&otilde;es frequentemente s&atilde;o internas, como no canal vaginal, tornando-as invis&iacute;veis. N&atilde;o doem, n&atilde;o sangram, n&atilde;o t&ecirc;m secre&ccedil;&atilde;o. A doen&ccedil;a pode evoluir e se disseminar pelo corpo e, em mulheres gr&aacute;vidas, atingir o feto, causando malforma&ccedil;&otilde;es ou at&eacute; abortamento. Quando essa cidade identificou o surto, percebi que n&atilde;o havia infectologistas para apoi&aacute;-los. Fui para l&aacute; para ajudar temporariamente, mas o que era para ser uma interven&ccedil;&atilde;o breve tornou-se um trabalho de dois anos. Resolvemos o surto inicial e, a partir disso, identifiquei outros problemas e ajudei na reorganiza&ccedil;&atilde;o da cidade. Esse processo foi a base da minha aproxima&ccedil;&atilde;o com a sa&uacute;de p&uacute;blica. Ao final, alcan&ccedil;amos excelentes resultados, e outras cidades passaram a querer sistemas semelhantes. Infelizmente, percebi que n&atilde;o conseguiria levar esse modelo adiante sozinha. Procurei diversos centros de ensino e universidades no Brasil, mas ningu&eacute;m se interessou, porque achavam que trabalhar com aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria e infectologia era algo "menor". Isso foi muito frustrante. Ent&atilde;o, resolvi buscar oportunidades fora do pa&iacute;s. Escrevi para grandes universidades americanas perguntando se tinham interesse em trabalhar com sa&uacute;de global em territ&oacute;rios como o nosso. Todas me responderam positivamente, oferecendo bolsas de estudos em sa&uacute;de p&uacute;blica. Entre essas respostas, recebi uma proposta da John Hopkins, que n&atilde;o pude ignorar. Fui para l&aacute; com uma bolsa de estudos - a <i>Sommer Scholarship</i> - sendo a primeira latino-americana a receb&ecirc;-la. Foi uma oportunidade incr&iacute;vel, que me permitiu transformar minha experi&ecirc;ncia pr&aacute;tica e o bom senso de minha forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica em uma bagagem t&eacute;cnica s&oacute;lida e de ponta. Foi assim que comecei minha jornada na sa&uacute;de p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Por que voc&ecirc; acha que a profiss&atilde;o m&eacute;dica, que tem o juramento de Hip&oacute;crates e um compromisso com a vida, acabou sendo um terreno t&atilde;o f&eacute;rtil para o negacionismo? Por que o Conselho Federal de Medicina (CFM) e outros &oacute;rg&atilde;os parecem fazer quase milit&acirc;ncia a favor de pr&aacute;ticas supersticiosas ou falsas, como o uso de ivermectina ou cloroquina, que voc&ecirc; mencionou?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA - </b></i>Acho que isso &eacute; quase uma quest&atilde;o fractal. Vemos esse fen&ocirc;meno n&atilde;o apenas na &aacute;rea da sa&uacute;de, mas na sociedade como um todo. &Eacute; algo que alimenta o populismo e a concentra&ccedil;&atilde;o de poder. Quanto mais ignorante &eacute; a popula&ccedil;&atilde;o e quanto maior a ilus&atilde;o de conhecimento, mais f&aacute;cil &eacute; control&aacute;-la. Em vez de promover o senso cr&iacute;tico e oferecer informa&ccedil;&otilde;es suficientes para que as pessoas consigam discernir com clareza, separar o joio do trigo e ter uma compreens&atilde;o mais apurada sobre a pr&oacute;pria sa&uacute;de ou sobre o campo em que atuam, opta-se por mant&ecirc;-las vulner&aacute;veis. E quando algu&eacute;m est&aacute; suscet&iacute;vel, voc&ecirc; trabalha com o ego e a vaidade, n&atilde;o com o conhecimento ou com o que aquela pessoa realmente produz. A medicina n&atilde;o est&aacute; isolada disso. Apesar do juramento que fazemos, ele tem se tornado cada vez mais fr&aacute;gil, justamente porque foram colocadas &agrave; frente dele recompensas incompat&iacute;veis com o exerc&iacute;cio &eacute;tico da profiss&atilde;o. Hoje, &eacute; o dinheiro a qualquer custo, o poder a qualquer custo, a proximidade com as inst&acirc;ncias decis&oacute;rias a qualquer custo. E as pessoas se deixam levar. Estamos na era das redes sociais, da gratifica&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea, do clique, dos seguidores. Isso vai enredando as pessoas, que acabam deixando de lado aquilo que realmente importa. S&oacute; que, quando falamos em sa&uacute;de, estamos lidando com sofrimento, com vida ou morte. A&iacute; a coisa fica mais grave, porque n&atilde;o se trata apenas de escolhas question&aacute;veis, mas de crimes, de a&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m um impacto muito s&eacute;rio.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Estamos imersos em um ambiente onde h&aacute; uma produ&ccedil;&atilde;o massiva de informa&ccedil;&otilde;es de baix&iacute;ssima qualidade - ou, pior, de desinforma&ccedil;&atilde;o feita dolosamente, com inten&ccedil;&atilde;o clara."</i></b></styled-content>   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Uma vez, conversando com um m&eacute;dico ilustre de S&atilde;o Paulo, ele me contou que tinha facilidade em conseguir verbas no Congresso para a institui&ccedil;&atilde;o dele, porque j&aacute; havia operado o cora&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios parlamentares importantes. Ele usava isso para o bem, claro. Mas &eacute; impressionante o poder literal de vida ou morte que um m&eacute;dico tem. Isso &eacute; muito grave. E algo que percebo faltar na forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica &eacute; empatia. Parece faltar essa percep&ccedil;&atilde;o de solidariedade com a pessoa que sofre. Gostaria de falar sobre uma express&atilde;o que voc&ecirc; cunhou, "esgotosfera". Voc&ecirc; &eacute; uma grande comunicadora de ci&ecirc;ncia, explica as coisas com muita clareza, e isso foi fundamental tanto durante a pandemia quanto depois, j&aacute; que a ofensiva de desinforma&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de persiste. Ent&atilde;o, como surgiu a ideia de "esgotosfera" e como voc&ecirc; a define?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA - </b></i>Acho que foi no desespero! Esse mecanismo de fabrica&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias falsas n&atilde;o &eacute; novo. J&aacute; vemos isso contra vacinas h&aacute; muito tempo, e n&atilde;o apenas no Brasil. Lembro de um estudo extremamente fraudulento de um sujeito criminoso que associou a vacina contra o sarampo ao autismo. Esse foi o grande caso que as pessoas identificam como um marco do movimento antivacina de forma mais ostensiva - e que ainda persiste. A pandemia, no entanto, foi uma oportunidade gigantesca para expandir esse mecanismo. Acho que essas pessoas perceberam que ali havia uma oportunidade de neg&oacute;cio. Porque quem desinforma n&atilde;o faz isso por prazer: elas ganham dinheiro e poder. Quando me dei conta de que est&aacute;vamos mergulhados em um mar de <i>chorume</i> intelectual, em um ambiente de puro dejeto moral e cognitivo, pensei: "Isso &eacute; uma esgotosfera, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel!". Acredito que a defini&ccedil;&atilde;o &eacute; essa: estamos imersos em um ambiente onde h&aacute; uma produ&ccedil;&atilde;o massiva de informa&ccedil;&otilde;es de baix&iacute;ssima qualidade - ou, pior, de desinforma&ccedil;&atilde;o feita dolosamente, com inten&ccedil;&atilde;o clara. Estamos convivendo nesse ambiente, nessa esgotosfera.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Voc&ecirc; comentou que existe um interesse econ&ocirc;mico, monet&aacute;rio, das pessoas que produzem essa desinforma&ccedil;&atilde;o. Como se d&aacute; esse interesse? O que ganha um m&eacute;dico que faz propaganda contra a vacina, por exemplo?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - Ganha dinheiro, de forma muito direta. Os Estados Unidos chegaram a medir, h&aacute; alguns anos, o tamanho da ind&uacute;stria da desinforma&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de, e estamos falando de algo na casa dos bilh&otilde;es. &Eacute; assustador. Por qu&ecirc;? Cada vez que algu&eacute;m inventa uma desinforma&ccedil;&atilde;o relacionada a qualquer processo de sa&uacute;de, imediatamente liga essa falsa informa&ccedil;&atilde;o a uma "pseudossolu&ccedil;&atilde;o" para o problema, oferecida exatamente por quem espalhou a not&iacute;cia falsa. Muitas das pessoas que disseminaram a ideia de que vacinas causam problemas graves de sa&uacute;de s&atilde;o as mesmas que vendem protocolos de "desvacina&ccedil;&atilde;o". Recentemente, houve o caso de duas cientistas condenadas na justi&ccedil;a por desmentirem um sujeito que afirmava que diabetes - uma das doen&ccedil;as mais estudadas pela ci&ecirc;ncia, com mecanismos de surgimento bem conhecidos - era causada por infec&ccedil;&atilde;o parasit&aacute;ria. E qual era a inten&ccedil;&atilde;o dele? Vender um protocolo chamado de "desparasita&ccedil;&atilde;o". Essas duas cientistas, excelentes comunicadoras de ci&ecirc;ncia, foram condenadas porque desmentiram esse sujeito e, segundo ele, "atrapalharam as vendas" do seu tratamento. Essa liga&ccedil;&atilde;o &eacute; direta. Al&eacute;m disso, existem outras conex&otilde;es poss&iacute;veis, como o aumento no n&uacute;mero de consultas, parcerias esp&uacute;rias com laborat&oacute;rios farmac&ecirc;uticos, farm&aacute;cias de manipula&ccedil;&atilde;o e laborat&oacute;rios de an&aacute;lises cl&iacute;nicas. Vemos uma rede que se alimenta dessa desinforma&ccedil;&atilde;o, que lucra com os danos causados &agrave; sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o. E, infelizmente, no Brasil, isso n&atilde;o &eacute; tipificado como crime contra a sa&uacute;de p&uacute;blica. Outro problema grav&iacute;ssimo, mas com pouca exposi&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica, &eacute; o uso desenfreado de horm&ocirc;nios e anabolizantes. Observamos problemas cardiovasculares surgindo, infartos em pacientes jovens e previamente saud&aacute;veis, e a culpa recai sobre as vacinas. Isso mostra como existe uma enorme teia de atores, cada um com sua participa&ccedil;&atilde;o nesse esquema que, para mim, &eacute; criminoso (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a02fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - S&oacute; para esclarecer, a SBPC divulgou uma nota reprovando a condena&ccedil;&atilde;o dessas duas divulgadoras cient&iacute;ficas, e eu estou tentando, h&aacute; quase dez dias, uma audi&ecirc;ncia com o presidente do Tribunal de Justi&ccedil;a do Estado de S&atilde;o Paulo para dizer a ele, com todo respeito, que a comunidade cient&iacute;fica est&aacute; &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para esclarecer d&uacute;vidas.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - &Eacute; um esc&aacute;rnio. N&atilde;o s&oacute; a popula&ccedil;&atilde;o acaba sendo v&iacute;tima dessa informa&ccedil;&atilde;o incorreta, espalhada sem qualquer barreira, como, quando algu&eacute;m resolve desmentir essas hist&oacute;rias com base em evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas, &eacute; criminalizado de alguma forma, condenado de algum jeito. Para mim, isso &eacute; um esc&aacute;rnio e mais uma representa&ccedil;&atilde;o da esgotosfera.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Isso &eacute; assustador. Queria conectar essa quest&atilde;o ao caso das propagandas. Porque aparecem muitas pra mim na internet, principalmente relacionadas &agrave; sa&uacute;de, e quase todas seguem o mesmo padr&atilde;o: come&ccedil;am com algo curto, pedindo aten&ccedil;&atilde;o para um produto "milagroso" que as ind&uacute;strias farmac&ecirc;uticas ou os m&eacute;dicos "n&atilde;o querem que voc&ecirc; saiba". Normalmente, citam um suposto m&eacute;dico ou pesquisador com um nome gen&eacute;rico, daqueles que voc&ecirc; n&atilde;o encontra no Lattes. &Eacute; uma loucura, e todas seguem o mesmo modus operandi: discursos longos, repetitivos. Deve funcionar muito bem, porque &eacute; extremamente recorrente.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - Funciona, porque, do contr&aacute;rio, ningu&eacute;m faria isso. &Eacute; uma "receita de bolo" que infelizmente boa parte da popula&ccedil;&atilde;o, mesmo percebendo algo errado, n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es, novamente, por falta de educa&ccedil;&atilde;o, de se posicionar contra. N&atilde;o &eacute; sobre forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica; ningu&eacute;m precisa ser m&eacute;dico, bi&oacute;logo ou farmac&ecirc;utico para identificar esses problemas. S&atilde;o quest&otilde;es b&aacute;sicas que deveriam ser abordadas na educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica. Mas essa falha educacional impede que a popula&ccedil;&atilde;o desenvolva um senso cr&iacute;tico m&iacute;nimo. Na CPI da Covid, havia uma pessoa com alta forma&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica na &aacute;rea da sa&uacute;de que n&atilde;o sabia diferenciar v&iacute;rus de protozo&aacute;rio. Como esperar que a popula&ccedil;&atilde;o em geral consiga reconhecer essas estrat&eacute;gias de venda? E &eacute; disso que se trata: estrat&eacute;gias de venda. Textos longos e repetitivos, que usam termos desconhecidos, mas que parecem sofisticados, prendem a aten&ccedil;&atilde;o. Quanto mais tempo o espectador permanece assistindo, maior a remunera&ccedil;&atilde;o para quem publicou o v&iacute;deo. Voc&ecirc; apontou algo central: h&aacute; sempre o discurso de que "a ind&uacute;stria n&atilde;o quer que voc&ecirc; saiba" ou "o governo n&atilde;o quer que voc&ecirc; saiba". O tom conspirat&oacute;rio est&aacute; l&aacute;, prometendo revelar um segredo por uma m&oacute;dica quantia. &Eacute; triste, porque, depois de tanto tempo, esses sinais deveriam ser evidentes como manipula&ccedil;&atilde;o, mas as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m o senso cr&iacute;tico necess&aacute;rio para perceber. E h&aacute; sempre um pesquisador "injusti&ccedil;ado", que s&oacute; &eacute; reconhecido "l&aacute; fora", um her&oacute;i marginalizado que aparece como o grande salvador. Recentemente vi um an&uacute;ncio de um livro de uma suposta m&eacute;dica, em que a orelha - onde geralmente se destacam opini&otilde;es sobre a obra - dizia: "Este livro &eacute; horr&iacute;vel". A assinatura? "Ind&uacute;stria Farmac&ecirc;utica". Achei que fosse uma s&aacute;tira, mas n&atilde;o era. &Eacute; real. Chega a um ponto em que voc&ecirc; ri, chora ou respira fundo para seguir em frente, porque n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - &Uacute;ltima pergunta. O que te levou &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica? Fez algum curso ou treinamento?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - A vida. Sempre acreditei que parte de uma boa forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica &eacute; saber se comunicar com o paciente. Mas isso n&atilde;o &eacute; algo em que somos devidamente treinados. Na faculdade de medicina, essa habilidade depende muito de iniciativas individuais. Se voc&ecirc; teve um professor que admirava e que sabia se comunicar bem no ambulat&oacute;rio, talvez se inspire a replicar. Mas isso n&atilde;o faz parte da estrutura curricular que desenvolve compet&ecirc;ncias m&eacute;dicas. Na infectologia, essa comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial, porque lidamos com doen&ccedil;as de longo prazo, cuja ades&atilde;o do paciente &eacute; crucial para o sucesso do tratamento. Quando fui para a sa&uacute;de p&uacute;blica, entendi que precisava ampliar essa escala: comunicar &agrave;s pessoas o que estava sendo feito, por que estava sendo feito e com base em quais dados. Durante a CPI da Covid, vi isso se concretizar. N&atilde;o era uma oportunidade de dialogar com os parlamentares presentes, mas sim com as pessoas assistindo de casa, que muitas vezes tinham pouca no&ccedil;&atilde;o sobre boas pr&aacute;ticas cient&iacute;ficas e m&eacute;dicas. Foi um momento &uacute;nico de comunica&ccedil;&atilde;o. Antes da CPI, eu tinha uma rede social pessoal com cerca de 7 mil seguidores. Ao final daquele mesmo dia, eram mais de 90 mil. Hoje, s&atilde;o quase 350 mil pessoas. Isso aconteceu porque percebi a necessidade de enfrentar o que viv&iacute;amos, indo al&eacute;m das quest&otilde;es t&eacute;cnicas da infectologia ou da sa&uacute;de p&uacute;blica: era preciso comunicar &agrave;s pessoas sobre riscos adequados, o que fazer, responder &agrave;s d&uacute;vidas mais comuns. Al&eacute;m disso, foi uma forma de me defender. Durante a CPI, fui alvo de ofensas sexistas, desde "prostituta" at&eacute; outras express&otilde;es que buscavam desqualificar minha compet&ecirc;ncia e presen&ccedil;a naquele espa&ccedil;o. Isso &eacute; algo que acontece com todas as mulheres que alcan&ccedil;am proje&ccedil;&atilde;o. Essas agress&otilde;es vinham de parlamentares e pessoas com poder aquisitivo para patrocinar campanhas na internet. Entendi que a &uacute;nica forma de me defender era me dirigir diretamente &agrave;s pessoas, demonstrar minha compet&ecirc;ncia e criar uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a. O cen&aacute;rio de agress&otilde;es e amea&ccedil;as era um grande teatro para minar essa rela&ccedil;&atilde;o. Sempre acreditei que as pessoas devem estar no centro de tudo o que fazemos, seja na medicina, seja na ci&ecirc;ncia. A ci&ecirc;ncia existe para explicar o mundo &agrave;s pessoas, para que vivam de forma mais harm&ocirc;nica com o planeta e tenham sa&uacute;de. Como essa abordagem se mostrou eficaz, acabei assumindo essa posi&ccedil;&atilde;o de comunicadora. Pelo retorno que recebo, sinto que tem sido &uacute;til para as pessoas (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a02fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Comunicar &eacute; entender as necessidades reais das pessoas e unir recursos para oferecer solu&ccedil;&otilde;es que atendam a essas demandas de forma concreta, baseada em diagn&oacute;sticos, e n&atilde;o em infer&ecirc;ncias."</i></b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Tem sido muito &uacute;til. Gostaria de, para finalizar, fazer um coment&aacute;rio sobre a exist&ecirc;ncia de dois desafios importantes para as profiss&otilde;es da sa&uacute;de. Levando em conta que devemos muito a elas - como &agrave; sa&uacute;de coletiva, que trabalha em grande escala e n&atilde;o apenas com a &aacute;rea propriamente biol&oacute;gica, mas tamb&eacute;m com a &aacute;rea social, sociologia, saneamento b&aacute;sico e tudo mais -, devemos a esse conjunto a duplica&ccedil;&atilde;o da expectativa de vida em um s&eacute;culo, a melhora extraordin&aacute;ria da qualidade de vida e o surgimento de algo que antes era inexistente ou muito raro: a aposentadoria. Antes, as pessoas morriam antes de parar de trabalhar. Hoje, podem viver ap&oacute;s encerrar suas atividades laborais. Feito esse elogio &agrave;s profiss&otilde;es da sa&uacute;de, h&aacute; dois pontos que eu destacaria. O primeiro &eacute; a falta de empatia, a falta de solidariedade com o doente, que se manifesta, inclusive, na forma como o profissional explica ao paciente o que ele tem ou deve fazer. Acredito que, quando h&aacute; essa transfer&ecirc;ncia de consci&ecirc;ncia, ocorrem mudan&ccedil;as interessantes nas pessoas. E o outro ponto que voc&ecirc; mencionou &eacute; a import&acirc;ncia de as profiss&otilde;es da sa&uacute;de se comunicarem com a sociedade, n&atilde;o apenas com o paciente no consult&oacute;rio ou no hospital, mas tamb&eacute;m com a coletividade.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>LA</b></i> - Concordo que a empatia &eacute; fundamental, mas acho que existe algo que antecede a empatia e talvez seja a grande raiz do problema: o respeito, ou melhor, a falta dele. Quando voc&ecirc; n&atilde;o respeita a pessoa que est&aacute; ali precisando de voc&ecirc;, quando voc&ecirc; a diminui, quando a desconsidera, quando refor&ccedil;a a iniquidade nesse sentido, como pode haver empatia? Como se constr&oacute;i uma rela&ccedil;&atilde;o? O desrespeito elimina a empatia. Acredito que essa busca incessante pelo poder parte justamente do desrespeito entre as pessoas. Sempre h&aacute; algu&eacute;m que ser&aacute; subjugado e outro que ser&aacute; o "feitor" da hist&oacute;ria. Infelizmente, vemos isso acontecer, e acho que &eacute; contra isso que devemos lutar. Outro ponto importante &eacute; a vis&atilde;o sobre o sistema de sa&uacute;de. Ainda predominam, especialmente na pr&aacute;tica, ideias que reduzem o sistema de sa&uacute;de a hospitais, cl&iacute;nicas, m&eacute;dicos e enfermeiros. Mas, na verdade, o sistema de sa&uacute;de &eacute; a escola, &eacute; o emprego, &eacute; a &aacute;gua pot&aacute;vel, &eacute; o saneamento b&aacute;sico. Foram essas as grandes medidas que mudaram a hist&oacute;ria da humanidade em termos de longevidade - n&atilde;o foram medicamentos nem vacinas. Essas condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas s&atilde;o as que realmente reduzem riscos. Ent&atilde;o, vejo que ainda falta maior integra&ccedil;&atilde;o entre a sa&uacute;de p&uacute;blica e a medicina. A medicina, cada vez mais "hipermedicalizada" e cara, se distancia de uma sa&uacute;de p&uacute;blica que, por sua vez, carece de pontes com essa medicina de precis&atilde;o t&atilde;o sofisticada. Acabamos nos perdendo no meio do caminho. Por outro lado, acredito que hoje h&aacute; muita gente atenta a essa desconex&atilde;o, e a comunica&ccedil;&atilde;o pode ajudar a construir essa ponte. Comunicar &eacute; entender as necessidades reais das pessoas e unir recursos para oferecer solu&ccedil;&otilde;es que atendam a essas demandas de forma concreta, baseada em diagn&oacute;sticos, e n&atilde;o em infer&ecirc;ncias. N&atilde;o sei se isso est&aacute; sendo feito dentro das faculdades, mas talvez, com a presen&ccedil;a nas m&iacute;dias sociais e na vida virtual das pessoas, possamos criar exemplos inspiradores que elas sigam. Creio que a grande inten&ccedil;&atilde;o aqui &eacute; multiplicar lideran&ccedil;as positivas. E, honestamente, vejo isso como a &uacute;nica forma de superarmos as dificuldades em que nos encontramos.</font></p>      ]]></body>
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