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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A desinformação e os desafios para a democracia]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A desinforma&ccedil;&atilde;o e os desafios para a democracia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Renato Janine Ribeiro<sup>I</sup>; Juremir Machado da Silva<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCHUSP). Fil&oacute;sofo, cientista pol&iacute;tico, escritor e colunista, foi ministro da Educa&ccedil;&atilde;o do Brasil no governo de Dilma Rousseff    <br>   <sup>II</sup>Cronista, romancista, poeta, ensa&iacute;sta, jornalista, radialista e tradutor. Atualmente, &eacute; professor do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-RS, onde &eacute; coordenador do Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A edi&ccedil;&atilde;o especial da Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, sob a lideran&ccedil;a de Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, destaca como a comunica&ccedil;&atilde;o de qualidade &eacute; crucial para proteger a sa&uacute;de p&uacute;blica e fortalecer a democracia frente &agrave; amea&ccedil;a da desinforma&ccedil;&atilde;o. Em entrevista, Juremir Machado, professor da PUC-RS, alerta que a dissemina&ccedil;&atilde;o de <i>fake news</i> enfraquece a confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es e prejudica a ado&ccedil;&atilde;o de medidas essenciais, como a vacina&ccedil;&atilde;o. Ele defende que uma comunica&ccedil;&atilde;o baseada em evid&ecirc;ncias, clara e emp&aacute;tica, &eacute; indispens&aacute;vel para combater manipula&ccedil;&otilde;es que comprometem o bem-estar coletivo, refor&ccedil;ando a conex&atilde;o entre ci&ecirc;ncia, jornalismo e o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o verdadeira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Desinforma&ccedil;&atilde;o; Democracia; Autoritarismo; Comunica&ccedil;&atilde;o.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos tempos atuais, a desinforma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas um fen&ocirc;meno pontual, mas uma amea&ccedil;a sistem&aacute;tica que mina os pilares da democracia. Com a populariza&ccedil;&atilde;o das redes sociais, informa&ccedil;&otilde;es falsas ou manipuladas se espalham em uma velocidade alarmante, criando um campo f&eacute;rtil para a desconfian&ccedil;a, o extremismo e a polariza&ccedil;&atilde;o. Juremir Machado, professor de jornalismo e coordenador de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o na PUC-RS, tem se destacado no combate a esse cen&aacute;rio, defendendo a import&acirc;ncia de um jornalismo cr&iacute;tico e esclarecedor. Para ele, o principal desafio reside na dissemina&ccedil;&atilde;o de <i>fake news</i>, que distorcem a realidade e geram um ambiente de constante incerteza, prejudicando a capacidade das pessoas de discernir a verdade. A perda da confian&ccedil;a nas fontes de informa&ccedil;&atilde;o enfraquece a democracia e alimenta a ascens&atilde;o de narrativas autorit&aacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A desinforma&ccedil;&atilde;o vai al&eacute;m de um simples erro ou distor&ccedil;&atilde;o; ela tem o poder de inflamar discursos de &oacute;dio, criando divis&otilde;es cada vez mais profundas na sociedade. Nesse contexto, a intoler&acirc;ncia e a viol&ecirc;ncia se tornam mais vis&iacute;veis, com um efeito devastador sobre o tecido social. O enfrentamento dessa quest&atilde;o exige n&atilde;o apenas uma a&ccedil;&atilde;o de combate imediato, mas uma reconstru&ccedil;&atilde;o das bases do di&aacute;logo e da confian&ccedil;a. Juremir Machado destaca que a polariza&ccedil;&atilde;o alimenta um ambiente hostil, onde o debate construtivo cede lugar &agrave; ret&oacute;rica agressiva e manique&iacute;sta, transformando a pol&iacute;tica em um campo de guerra de narrativas. Para ele, a comunica&ccedil;&atilde;o e o jornalismo devem ser ferramentas de resist&ecirc;ncia contra esse processo de fragmenta&ccedil;&atilde;o da sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em sua trajet&oacute;ria, Juremir Machado tem se dedicado a promover uma comunica&ccedil;&atilde;o inclusiva, capaz de engajar a sociedade de maneira esclarecedora e respons&aacute;vel. Ele acredita que o jornalismo cient&iacute;fico desempenha um papel crucial nesse processo, pois sua fun&ccedil;&atilde;o &eacute; informar com clareza, empatia e precis&atilde;o. Em um momento em que a ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m &eacute; alvo de distor&ccedil;&otilde;es e manipula&ccedil;&otilde;es, a divulga&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel e acess&iacute;vel do conhecimento &eacute; mais urgente do que nunca. O jornalismo n&atilde;o deve se limitar a relatar os fatos, mas tamb&eacute;m a contribuir para a forma&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica, essencial para a defesa da democracia. Para ele, a comunica&ccedil;&atilde;o deve ser entendida como um espa&ccedil;o de aprendizado e de constru&ccedil;&atilde;o coletiva, onde as diferentes vozes possam se expressar, sem cair nas armadilhas da desinforma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A reflex&atilde;o de Juremir Machado, que alia sua experi&ecirc;ncia acad&ecirc;mica e profissional no campo do jornalismo e da comunica&ccedil;&atilde;o, aponta para um cen&aacute;rio em que a verdade e a transpar&ecirc;ncia se tornam o principal baluarte contra a ascens&atilde;o de discursos autorit&aacute;rios. Ele n&atilde;o v&ecirc; a democracia como algo dado, mas como uma constru&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua que exige vigil&acirc;ncia, participa&ccedil;&atilde;o ativa e, acima de tudo, a garantia de que a informa&ccedil;&atilde;o que circula seja fidedigna e acess&iacute;vel. Nesse sentido, ele coloca o jornalismo como um elemento central para a promo&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais justa, informada e democr&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desafio, portanto, &eacute; n&atilde;o apenas combater as <i>fake news</i>, mas tamb&eacute;m criar condi&ccedil;&otilde;es para que a comunica&ccedil;&atilde;o cumpra seu papel vital na constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais consciente e resistente ao autoritarismo. Juremir Machado nos convida a refletir sobre o papel de todos n&oacute;s nesse processo, em que a responsabilidade social e o compromisso com a verdade devem ser os principais motores da a&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Renato Janine Ribeiro</b> - Juremir Machado &eacute; um dos principais nomes da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil, e vamos dialogar com ele sobre o tema "Desinforma&ccedil;&atilde;o, Democracia e Autoritarismo", que &eacute; o foco deste n&uacute;mero especial da <b><i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i></b>. Para come&ccedil;ar, pergunto como voc&ecirc;, estudioso da comunica&ccedil;&atilde;o, v&ecirc; a crise pela qual a desinforma&ccedil;&atilde;o tem assumido um vulto t&atilde;o grande. E j&aacute; aproveito para acrescentar uma subpergunta: temos a tend&ecirc;ncia de responsabilizar os comunicadores de fake news pelas mentiras e pelos efeitos que elas causam - como o impacto sobre o n&uacute;mero de votos de seus candidatos, a destrui&ccedil;&atilde;o da democracia que promovem, entre outros - mas raramente nos questionamos sobre por que a recep&ccedil;&atilde;o desse tipo de discurso &eacute; t&atilde;o favor&aacute;vel. Ou seja, gostaria que voc&ecirc; falasse sobre a produ&ccedil;&atilde;o desse discurso e sua recep&ccedil;&atilde;o.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Juremir Machado</b></i> - Sabemos que as <i>fake news</i> n&atilde;o surgiram agora, mas elas adquiriram uma capacidade de produ&ccedil;&atilde;o em escala, mais do que industrial. Sempre me lembro de duas pequenas hist&oacute;rias: uma muito citada nas teorias da comunica&ccedil;&atilde;o e outra da literatura brasileira. Machado de Assis, numa cr&ocirc;nica dos anos 1870, conta talvez uma das primeiras grandes <i>fake news</i> da hist&oacute;ria do Brasil. Certa vez, na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, onde tudo acontecia, as pessoas souberam que teria ocorrido um golpe de estado no Rio Grande do Sul, e que o general Os&oacute;rio, her&oacute;i da Guerra do Paraguai, teria tomado o poder, instaurando uma rep&uacute;blica. Logo em seguida, surgiu outra not&iacute;cia: o minist&eacute;rio estabelecido pelo general Os&oacute;rio teria ca&iacute;do e outro minist&eacute;rio j&aacute; teria sido empossado. E assim por diante. At&eacute; se chegou a noticiar uma poss&iacute;vel aproxima&ccedil;&atilde;o com a Banda Oriental para a forma&ccedil;&atilde;o de um novo pa&iacute;s. Naquela noite, as pessoas dormiram acreditando nesse golpe de estado no Rio Grande do Sul. No dia seguinte, ficou-se sabendo que tudo n&atilde;o passara de um boato: n&atilde;o houve golpe, o general Os&oacute;rio n&atilde;o fez nada, nada aconteceu. Mas por um dia, na rua do Ouvidor, essa foi a grande not&iacute;cia. Claro que, naquela &eacute;poca, desmentir podia ser lento, mas o poder de dissemina&ccedil;&atilde;o era muito menor. A outra hist&oacute;ria &eacute; a de um general brit&acirc;nico na Primeira Guerra Mundial, que recebeu duas fotos dos Servi&ccedil;os Secretos: numa delas, soldados alem&atilde;es estavam sendo levados para enterrar mortos e, na outra, cavalos estavam sendo levados para serem mortos e transformados em sab&atilde;o. O general brit&acirc;nico decidiu trocar as legendas das fotos e colocou na imagem dos soldados a legenda: "soldados sendo levados para fazer sab&atilde;o". Ele enviou essas fotos para a China, que eles queriam influenciar sobre o conflito. Como a China tem uma grande tradi&ccedil;&atilde;o de respeito aos mortos, a rea&ccedil;&atilde;o foi de indigna&ccedil;&atilde;o com a profana&ccedil;&atilde;o dos corpos humanos. Isso para mostrar que <i>fake news</i> sempre existiram na pol&iacute;tica. S&atilde;o in&uacute;meros os casos, at&eacute; para ganhar elei&ccedil;&otilde;es. Mas hoje temos uma nova escala. Nunca foi poss&iacute;vel produzir e disseminar not&iacute;cias falsas com tanta efic&aacute;cia e rapidez. Isso come&ccedil;a a influenciar comportamentos, a afetar resultados eleitorais e a ser um perigo para a democracia. Na comunica&ccedil;&atilde;o, temos realizado estudos, orientado disserta&ccedil;&otilde;es e teses, feito pesquisas sobre os efeitos das not&iacute;cias falsas e da desinforma&ccedil;&atilde;o no mundo atual. Tivemos uma experi&ecirc;ncia em tamanho real, que foi a pandemia, com tantas not&iacute;cias falsas e desinforma&ccedil;&atilde;o circulando. E isso afetou comportamentos, com consequ&ecirc;ncias diretas na vida das pessoas. At&eacute; hoje, encontramos pessoas que se orgulham de n&atilde;o ter tomado nenhuma vacina, acreditando que as vacinas causam grandes males ao corpo humano. Esse &eacute; um problema completamente novo. Diria que, neste momento, ainda h&aacute; muita d&uacute;vida sobre como lidar com isso nas teorias da comunica&ccedil;&atilde;o. Temos tr&ecirc;s fases. Na primeira, as teorias eram psicologizantes: o emissor era muito forte, o receptor era muito fraco e a mensagem passava exatamente como o emissor queria. Era a teoria do est&iacute;mulo-resposta, ou da agulha hipod&eacute;rmica, em que a manipula&ccedil;&atilde;o das pessoas parecia muito f&aacute;cil. Depois surgiu a teoria da recep&ccedil;&atilde;o: o receptor tem uma hist&oacute;ria de vida, filtros, capacidade de interpreta&ccedil;&atilde;o. O canal, o c&oacute;digo, os ru&iacute;dos entre o emissor e receptor, tudo isso interfere. As pessoas n&atilde;o recebem as mensagens da mesma maneira; h&aacute; desvios e interpreta&ccedil;&otilde;es divergentes. Isso tornou tudo mais complexo. Mas essa teoria tamb&eacute;m fortaleceu tanto o receptor que parecia que ele estava pronto para se defender de qualquer manipula&ccedil;&atilde;o. Hoje, busca-se identificar as condi&ccedil;&otilde;es em que a manipula&ccedil;&atilde;o pode ocorrer. A&iacute;, chego ao final da sua pergunta: por que a desinforma&ccedil;&atilde;o parece se espalhar mais r&aacute;pido do que a informa&ccedil;&atilde;o? Temos campanhas na televis&atilde;o, como "Se beber, n&atilde;o dirija", que nunca surtiram o efeito esperado. Todos os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o dizem isso. Por que n&atilde;o funciona? Por que as pessoas bebem, dirigem e morrem? A resposta n&atilde;o &eacute; simples, mas hoje, nas redes sociais, sabemos que funciona uma esp&eacute;cie de l&oacute;gica e est&eacute;tica do exagero. Para gerar engajamento, &eacute; preciso causar um impacto forte, um efeito diferencial, que geralmente vem de teorias da conspira&ccedil;&atilde;o ou informa&ccedil;&otilde;es t&atilde;o exageradas que mexem com as sensa&ccedil;&otilde;es instintivas das pessoas, ao inv&eacute;s de seguir os processos de verifica&ccedil;&atilde;o. O jornalismo deveria verificar a informa&ccedil;&atilde;o antes de divulg&aacute;-la. Hoje, tudo vai muito r&aacute;pido, &eacute; t&atilde;o acelerado, que n&atilde;o h&aacute; tempo para verifica&ccedil;&atilde;o. E, muitas vezes, nem h&aacute; o desejo de verificar, pois perderia o efeito da not&iacute;cia falsa, que j&aacute; teria provocado o impacto desejado. Estamos vivendo uma nova realidade. A meu ver, hoje temos mais d&uacute;vidas do que certezas sobre como lidar com isso.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O &oacute;dio e o ressentimento, que antes eram desabafos de quem se sentia isolado e n&atilde;o podia expressar suas frustra&ccedil;&otilde;es, agora est&atilde;o nas redes sociais."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Eu queria conectar essa quest&atilde;o com uma hip&oacute;tese que formulei h&aacute; algum tempo, de que o &ecirc;xito das fake news est&aacute; muito ligado ao fato de que elas pertencem ao mundo do entretenimento. Vemos, por exemplo, que estamos conversando quatro dias antes das elei&ccedil;&otilde;es municipais, e o grande personagem de todas as elei&ccedil;&otilde;es no Brasil &eacute; um influencer chamado Pablo Mar&ccedil;al, que est&aacute; concorrendo &agrave; prefeitura de S&atilde;o Paulo e se notabilizou pelo uso escancarado de mentiras e pelo incitamento ao &oacute;dio. Eu te perguntaria: por que o &oacute;dio parece ser mais poderoso que o amor? Ou, como chamaria o fil&oacute;sofo Spinoza, por que as paix&otilde;es negativas t&ecirc;m mais efeito do que as positivas? As paix&otilde;es positivas aproximam as pessoas, geram amizade e amor, enquanto as paix&otilde;es negativas, como medo e &oacute;dio, afastam. Parece que isso tomou uma propor&ccedil;&atilde;o gigantesca no tempo atual. Do ponto de vista da comunica&ccedil;&atilde;o, como voc&ecirc; v&ecirc; isso?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - Parece ser realmente isso: as paix&otilde;es negativas engajam mais do que as positivas. Por qu&ecirc;? Vou come&ccedil;ar com um paralelo hist&oacute;rico, j&aacute; que voc&ecirc; mencionou a data. Veja s&oacute;: em 3 de outubro, uma revolu&ccedil;&atilde;o comandada por um ga&uacute;cho, Get&uacute;lio Vargas, foi vitoriosa, durou um m&ecirc;s, n&atilde;o teve batalhas sangrentas - morreram poucas pessoas - e unificou o Brasil, dividindo o pa&iacute;s entre o antes e o depois de 1930. &Eacute; um feriado nacional, mas n&atilde;o aqui no Rio Grande do Sul. O feriado aqui &eacute; 20 de setembro, dia da Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha, que durou dez anos e terminou em derrota. Por que a Revolu&ccedil;&atilde;o de 1930, que levou Get&uacute;lio ao poder e durou tantos anos, n&atilde;o causa tanto engajamento aqui no Rio Grande do Sul quanto a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha, que perdemos? Talvez porque a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha tenha sido mais grandiosa, com batalhas, mortes, uma rep&uacute;blica proclamada, uma separa&ccedil;&atilde;o. Se pensarmos em entretenimento, ela teria muitos cap&iacute;tulos, reviravoltas, trai&ccedil;&otilde;es - daria uma boa s&eacute;rie. J&aacute; a Revolu&ccedil;&atilde;o de 1930 &eacute; mais burocr&aacute;tica, n&atilde;o tem o &eacute;pico. Por um lado, estamos numa sociedade treinada para o entretenimento, como j&aacute; dizia a Escola de Frankfurt, nos anos 1930. Hoje, o jornalismo se tornou parte dessa l&oacute;gica do entretenimento. O telejornal n&atilde;o pode ser mais sisudo, precisa ser leve, engra&ccedil;ado, cheio de reviravoltas e informalidade. A l&oacute;gica do entretenimento &eacute; a l&oacute;gica da sensa&ccedil;&atilde;o e, para provocar sensa&ccedil;&otilde;es, ele precisa ir cada vez mais longe. Por exemplo, filmes de terror ou o Coringa, com muita viol&ecirc;ncia, s&atilde;o os mais populares. Eu prefiro algo mais edificante, mas isso n&atilde;o engaja. O que realmente engaja &eacute; a acelera&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia, da radicaliza&ccedil;&atilde;o. A sociedade se construiu assim: hipercompeti&ccedil;&atilde;o, entretenimento, acelera&ccedil;&atilde;o. O que nos arrebata, mesmo que seja mentira, nos prende. O desejo por hist&oacute;rias impactantes ultrapassou a fronteira entre o real, o verdadeiro e o noticioso. Talvez seja um reflexo do relativismo que se espalhou, como se a verdade dependesse do ponto de vista. Outro dia, perguntei a um aluno que dizia que "tudo depende do ponto de vista": "Ent&atilde;o, nesse caso, a Terra pode ser plana, porque depende do ponto de vista de quem diz isso?". Acho que estamos em um momento em que a l&oacute;gica do entretenimento e o aumento da radicaliza&ccedil;&atilde;o criaram um "efeito de espiral" onde s&oacute; uma mentira mais forte e mais impactante &eacute; capaz de fazer mais sucesso (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Eu li na semana passada que o assassino do Shopping Morumbi foi solto ap&oacute;s 25 anos na cadeia. Pelo que entendi, ele cumpriu parte substancial da pena. Isso me fez lembrar de um epis&oacute;dio: passava naquele cinema do Shopping Morumbi, em S&atilde;o Paulo, o filme Clube da Luta. A&iacute;, um estudante de medicina entrou na sala de cinema, sacou uma metralhadora e come&ccedil;ou a atirar, matando v&aacute;rias pessoas. A primeira rea&ccedil;&atilde;o das pessoas que estavam ali foi acreditar que aquilo fazia parte do filme. S&oacute; depois perceberam que era o mundo real. Isso me faz refletir sobre duas quest&otilde;es que me interessam muito na discuss&atilde;o sobre o efeito da viol&ecirc;ncia e do sexo na m&iacute;dia: a vis&atilde;o mim&eacute;tica e a vis&atilde;o cat&aacute;rtica. Muitas pessoas t&ecirc;m receio da viol&ecirc;ncia ou do sexo na TV e na m&iacute;dia, acreditando que isso vai levar as pessoas a se tornarem violentas ou a praticarem sexo desenfreado. Existe uma campanha que volta e meia ressurge sobre isso. Essa &eacute; uma vis&atilde;o plat&ocirc;nica, a da imita&ccedil;&atilde;o: vemos a viol&ecirc;ncia, e a imitamos. Esse rapaz que cometeu o assassinato &eacute; um caso t&iacute;pico de mimeses. Ele foi l&aacute; e passou ao ato. J&aacute; o outro lado argumenta que voc&ecirc; assiste a um filme de viol&ecirc;ncia n&atilde;o para mimetizar a viol&ecirc;ncia, mas para descarregar a viol&ecirc;ncia que est&aacute; dentro de voc&ecirc;. Ent&atilde;o, ao sair do espet&aacute;culo, voc&ecirc; se sente aliviado, sem a necessidade de sair matando porque o Coringa matou. O que voc&ecirc; pensa sobre essas duas vis&otilde;es do impacto, especialmente da viol&ecirc;ncia e do sexo, na m&iacute;dia?</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - Durante muito tempo, na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o, predominou a vis&atilde;o da imita&ccedil;&atilde;o. Havia grande preocupa&ccedil;&atilde;o com os efeitos nefastos de mostrar viol&ecirc;ncia, pois se acreditava que isso geraria mais viol&ecirc;ncia. Ainda existe hoje um tabu no jornalismo, por exemplo, sobre a ideia de noticiar suic&iacute;dios. Normalmente, n&atilde;o se divulga, salvo quando &eacute; uma celebridade, com base na premissa de que isso poderia incentivar novos casos. Durante muito tempo, a preocupa&ccedil;&atilde;o foi essa. No entanto, muitos intelectuais que trataram da comunica&ccedil;&atilde;o refutaram essa ideia, como Edgar Morin, que escreveu muito sobre os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, e Gilles Lipovetsky, que tem um texto interessante sobre a culpa da m&iacute;dia. Eles sustentam que, estatisticamente, o efeito da m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; significativo. Eu me lembro do caso do Shopping Morumbi, mas n&atilde;o existem centenas ou milhares de casos influenciados por filmes que resultem em viol&ecirc;ncia. Estatisticamente, s&atilde;o poucos. Ent&atilde;o, esses efeitos seriam muito mitigados. Acontece com algu&eacute;m que talvez tenha uma predisposi&ccedil;&atilde;o maior ou algum problema psicol&oacute;gico, alguma perturba&ccedil;&atilde;o mental. Por outro lado, alguns pensadores sustentam que, se n&atilde;o tivermos formas simb&oacute;licas de fazer a catarse da viol&ecirc;ncia, haveria uma tend&ecirc;ncia a uma viol&ecirc;ncia expl&iacute;cita. Por exemplo, lembro-me de uma &eacute;poca em que a Fran&ccedil;a estava muito preocupada com os trotes dos calouros no in&iacute;cio do ano universit&aacute;rio, que muitas vezes terminavam em viol&ecirc;ncia. Em S&atilde;o Paulo, houve casos que at&eacute; resultaram em mortes. Ent&atilde;o, come&ccedil;aram a estabelecer regras para domesticar esses trotes. Acredito que, hoje, os trotes est&atilde;o praticamente extintos. Quando entrei na faculdade, em 1980, fui v&iacute;tima de trote, rasparam a minha cabe&ccedil;a. Era algo bem forte, bem constrangedor. Mas, se controlarmos todas essas formas de viol&ecirc;ncia controlada, ela vai extravasar de outra maneira. Por exemplo, existe uma teoria de que o futebol seria uma esp&eacute;cie de guerra simb&oacute;lica. Dado que Brasil e Argentina n&atilde;o v&atilde;o &agrave; guerra, eles duelam no futebol. &Agrave;s vezes, isso pode at&eacute; descambar para a viol&ecirc;ncia. Resumindo, acredito que a hip&oacute;tese do mimetismo &eacute; limitada. A maioria das pessoas n&atilde;o se deixa conduzir por uma imagem de viol&ecirc;ncia a ponto de praticar viol&ecirc;ncia. Talvez a hip&oacute;tese da catarse seja mais realista. A gente extravasa, encontra uma maneira de jogar tudo aquilo para fora e sai mais aliviado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Ser&aacute; que, no caso do sexo, vamos dizer, a normaliza&ccedil;&atilde;o ou a naturaliza&ccedil;&atilde;o, por assim dizer, do sexo na m&iacute;dia n&atilde;o contribuiu para liberalizar as atitudes sociais em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sexualidade?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - Certamente, eu me incluo entre aqueles que concordam com o Foucault nesse ponto. Acho que, na verdade, o ato de uma determinada &eacute;poca n&atilde;o &eacute; proibir de falar sobre sexo, mas fazer falar, talvez at&eacute; para poder controlar, mas fazer falar. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, como a televis&atilde;o, passaram a explicit&aacute;-lo, a torn&aacute;-lo vis&iacute;vel de todas as maneiras. Qualquer novela das nove da Globo &eacute; uma explos&atilde;o de sexualidade diante de todos. Mesmo que hoje os mais jovens n&atilde;o gostem de novelas ou de televis&atilde;o aberta, de alguma forma, esse conte&uacute;do est&aacute; ali exposto. E isso, a meu ver, tem dois efeitos. O primeiro &eacute; que normaliza o comportamento, e com isso enfraquece o conservadorismo, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o ao comportamento sexual, algo muito presente na sociedade brasileira. Acho que contribuiu enormemente para eliminar determinadas exig&ecirc;ncias morais que j&aacute; n&atilde;o faziam sentido. Por exemplo, fam&iacute;lias que esperavam que as filhas se casassem virgens, sem ter sexo antes do casamento. Ruth Cardoso, uma grande intelectual que trabalhou nesse tema, mostrou como as telenovelas ajudaram a diminuir o conservadorismo nos comportamentos familiares no Brasil. Eu, por v&aacute;rias raz&otilde;es, sempre gostei de assistir &agrave;s novelas, especialmente as das nove. Ali, por exemplo, vemos uma mudan&ccedil;a radical no tratamento dos personagens gays. H&aacute; 20 ou 30 anos, o personagem gay nas telenovelas era sempre caricato, existia apenas para criar situa&ccedil;&otilde;es para fazer rir. A &uacute;nica maneira de aceit&aacute;-lo era de forma caricatural. Isso mudou completamente. Hoje, o tratamento &eacute; outro, o entendimento e o padr&atilde;o s&atilde;o diferentes. Essa mudan&ccedil;a acompanha a altera&ccedil;&atilde;o da sensibilidade social. H&aacute; o famoso texto de Umberto Eco, no livro "<i>Viagem na realidade cotidiana"</i>, em que ele questiona quem influencia quem. Uma novela exibe um jovem com uma camiseta com um determinado s&iacute;mbolo. E, logo depois, todo mundo come&ccedil;a a usar essa camiseta. A novela inventou o s&iacute;mbolo e contaminou as pessoas que come&ccedil;aram a us&aacute;-lo, ou ela capturou esse s&iacute;mbolo de alguma camiseta j&aacute; existente na realidade e o ampliou?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Eu queria retomar uma outra express&atilde;o que voc&ecirc; usou. Voc&ecirc; falou sobre a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha oferecer uma narrativa mais atraente do que a Revolu&ccedil;&atilde;o de 30, embora esta &uacute;ltima tenha tido efeitos muito mais poderosos sobre a sociedade brasileira. E eu queria pegar essa palavra "&eacute;pica". Eu me lembro do enfrentamento Collor versus Lula, h&aacute; cerca de 30 anos, e na sequ&ecirc;ncia disso, com a vit&oacute;ria de Fernando Henrique Cardoso. Eu sentia que havia uma &eacute;pica de direita, simbolizada por Fernando Collor de Melo, que surgia inclusive na esteira de uma novela, </i>"<i>Que Rei Sou Eu?", na qual havia um jovem pr&iacute;ncipe extremamente honesto, inimigo da corrup&ccedil;&atilde;o. Essa novela foi lan&ccedil;ada no come&ccedil;o de 1989, e a Rede Globo, de forma in&eacute;dita, reprisou-a &agrave;s v&eacute;speras da elei&ccedil;&atilde;o presidencial do mesmo ano - o que acabou consagrando Collor como um ato de campanha a seu favor. Por outro lado, me parecia que Lula oferecia uma &eacute;pica de esquerda. Ent&atilde;o, eu via duas &eacute;picas em confronto. De certa forma, quem colheu os frutos cinco anos depois foi Fernando Henrique, n&atilde;o com uma &eacute;pica, mas com uma prosa. Algu&eacute;m disse que Fernando Henrique era prosaico, e isso foi uma cr&iacute;tica a ele. Eu n&atilde;o acho uma cr&iacute;tica, penso que a democracia tem muito a ver com a prosa. Primeiro, porque &eacute; necess&aacute;rio haver di&aacute;logo, o que se faz pela prosa, pela conversa. Segundo, tamb&eacute;m por uma certa redu&ccedil;&atilde;o das paix&otilde;es, uma limita&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a delas, sem a qual n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel governar. O que voc&ecirc; pensa sobre essa quest&atilde;o da prosa e da &eacute;pica?</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Acredito que o papel do jornalista &eacute; buscar a verdade factual, aquela que pode ser demonstrada."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - Parece uma an&aacute;lise brilhante. O problema &eacute; que o marketing eleitoral e as redes sociais tendem a favorecer e explorar as possibilidades &eacute;picas, que est&atilde;o na ordem do exagero. Eu te dou um exemplo: aqui no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, durante a campanha eleitoral de 2024, tr&ecirc;s candidatos realmente est&atilde;o em disputa: Sebasti&atilde;o Melo, do MDB, prefeito que estava no poder durante a enchente. &Eacute; vis&iacute;vel que faltou manuten&ccedil;&atilde;o do chamado sistema de prote&ccedil;&atilde;o contra cheias. Mesmo assim, Sebasti&atilde;o Melo chega ao final da campanha do primeiro turno liderando amplamente nas pesquisas. &Eacute; at&eacute; estarrecedor. As outras candidatas em disputa s&atilde;o Maria do Ros&aacute;rio, do PT, e Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola, do PDT. Por que tanta vantagem de Sebasti&atilde;o Melo em rela&ccedil;&atilde;o a elas? A meu ver, foi constru&iacute;da uma narrativa &eacute;pica em torno de Sebasti&atilde;o Melo, que corresponde um pouco aos famosos passos da "jornada do her&oacute;i". Sebasti&atilde;o Melo era um rapaz pobre de Goi&aacute;s, ele recebe um chamado, segundo essa ret&oacute;rica, para vir morar em Porto Alegre. Inicialmente, ele hesita, tem medo, recusa o chamado. Depois, finalmente aceita o desafio e vem para c&aacute;, "com uma m&atilde;o na frente e outra atr&aacute;s". Aqui, ele mora em pens&otilde;es, em casas de estudante, trabalha nos empregos mais banais poss&iacute;veis, coisas de pouco ganho e muito esfor&ccedil;o bra&ccedil;al. E vai avan&ccedil;ando at&eacute; que surge o desafio da pol&iacute;tica, no qual ele entra e vence. Ele &eacute; vereador, deputado, vice-prefeito. Outros obst&aacute;culos v&atilde;o surgindo e ele vai contornando at&eacute; que acontece o que poderia ser chamado de "travessia do deserto". Ele perde uma elei&ccedil;&atilde;o e fica sem mandato, uma das primeiras vezes ou a &uacute;nica vez em que ele ficou sem mandato. E fica um pouco abandonado, desesperadamente querendo voltar. Ele vence esse espet&aacute;culo, volta, e se bolsonariza para se eleger. Mas foi constru&iacute;da para ele uma narrativa de enfrentamento e vit&oacute;rias. Conta-se essa hist&oacute;ria, mostrando que ele continua o mesmo homem simples, que usa chap&eacute;u de palha, que toma uma cachacinha no boteco da esquina com os eleitores, que fala a linguagem do povo, que conhece todas as vilas e favelas de Porto Alegre. H&aacute; uma narrativa &eacute;pica de um her&oacute;i que sai do nada, que constantemente enfrenta obst&aacute;culos, os contorna e vence. E prossegue, enquanto os outros n&atilde;o conseguiram apresentar qualquer narrativa. A campanha de Ros&aacute;rio &eacute; uma campanha, digamos, em torno da ideia racional de convencimento. Ela est&aacute; muito mais direcionada a convencer o eleitor pela raz&atilde;o. A campanha de Juliana mescla um pouco mais de emo&ccedil;&atilde;o, principalmente na explora&ccedil;&atilde;o do av&ocirc; dela, Leonel Brizola, esse sim, com uma narrativa &eacute;pica inacredit&aacute;vel. Ent&atilde;o, a meu ver, o marketing est&aacute; conseguindo explorar uma &eacute;pica, uma emocionalidade, construindo uma narrativa para o personagem, enquanto os outros n&atilde;o t&ecirc;m. E, nesse ponto, eles parecem estar perdendo, porque n&atilde;o conseguem apresentar qualquer narrativa, qualquer hist&oacute;ria. Concordo contigo, o ideal &eacute; isso, &eacute; o convencimento. Por isso, acho que Fernando Henrique foi t&atilde;o grande, porque conseguiu ganhar em pol&iacute;tica duas vezes pela prosa e n&atilde;o pela &eacute;pica. Em um pa&iacute;s emocional como o Brasil, isso &eacute; uma fa&ccedil;anha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Claro que, no caso de Fernando Henrique, ele esteve muito ligado ao Plano Real, que realmente trouxe uma paz ao pa&iacute;s, que estava desesperado. Ent&atilde;o, se a hiperinfla&ccedil;&atilde;o tivesse continuado, &eacute; poss&iacute;vel que alguma epopeia como a do Collor, "vou acabar com a infla&ccedil;&atilde;o com um soco", tivesse mais convencimento. Essa narrativa foi muito forte no per&iacute;odo anterior, mas o Brasil estava, de certa forma, esgotado de tanto tempo disso. Ent&atilde;o, um bom medicamento foi realmente a prosa. Eu queria passar para uma outra quest&atilde;o que voc&ecirc; levantou na resposta aos seus alunos relativistas. Quando eu estudei na Fran&ccedil;a, fiz uma visita ao jornal "Le Monde", e me lembro de uma jovem jornalista nos guiando, muito empolgada, e nos contando que havia um jornalista que ainda escrevia &agrave; m&atilde;o nos anos 1980. Um ponto importante que me lembro disso &eacute; a necessidade de se ater aos fatos. Sabemos que as teorias da comunica&ccedil;&atilde;o mostram como os fatos s&atilde;o constru&iacute;dos como objetividade. N&atilde;o h&aacute; muita cr&iacute;tica na hist&oacute;ria. Um historiador alem&atilde;o do s&eacute;culo XIX, Leopold von Ranke, dizia que o papel da hist&oacute;ria era relatar os acontecimentos como realmente aconteceram. Isso tudo foi muito criticado, muito contestado. Em fun&ccedil;&atilde;o disso, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia nesse relativismo, de achar que tudo depende do ponto de vista, tudo depende de perspectiva. Hoje, o termo "narrativa" vai ser usado para eleger um candidato, ou como voc&ecirc; limita uma narrativa tendenciosa para seu lado. Agora, um ponto que acho muito comum &agrave; ci&ecirc;ncia e ao jornalismo &eacute; que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel t&ecirc;-los sem uma certa cren&ccedil;a na verdade, sem um certo postulado de verdade. No caso do jornalista, seriam mais os fatos; no caso da ci&ecirc;ncia, seriam mais os fen&ocirc;menos. Mas isso &eacute; o que limita, o que faz com que n&atilde;o possamos sustentar que a Terra &eacute; plana. Enfim, se n&atilde;o tivermos algum m&iacute;nimo de factualidade, o pr&oacute;prio di&aacute;logo se torna imposs&iacute;vel. Veja, por exemplo, o que jogou o Brasil nesse horror. Talvez o ponto de partida tenha sido A&eacute;cio Neves contestando os resultados das elei&ccedil;&otilde;es de 2014. O resultado das elei&ccedil;&otilde;es, ao que tudo indica, &eacute; extremamente objetivo, s&atilde;o fatos reais expressos pela totaliza&ccedil;&atilde;o dos votos via inform&aacute;tica. H&aacute; toda uma s&eacute;rie de cuidados em cada se&ccedil;&atilde;o eleitoral. O que quero dizer &eacute;: como determinamos o que &eacute; fato ou o que &eacute; interpreta&ccedil;&atilde;o? Em que ponto seu aluno tem raz&atilde;o? E em que ponto, sem algum m&iacute;nimo de factualidade, o di&aacute;logo - e como podemos chamar isso - se torna imposs&iacute;vel, tamb&eacute;m afetando a democracia?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - &Eacute; uma reflex&atilde;o muito importante. Felizmente, em rela&ccedil;&atilde;o aos alunos, &eacute; a minoria que acaba pensando nesse relativismo mais extremado. No jornalismo, h&aacute; algo muito curioso, que &eacute; o seguinte: volta e meia se consagra a ideia de que a objetividade, a imparcialidade, a neutralidade, nada disso existe. Mas h&aacute; uma cobran&ccedil;a constante. Aquele mesmo indiv&iacute;duo que diz que a imparcialidade &eacute; imposs&iacute;vel critica a Globo por n&atilde;o estar sendo imparcial. Ent&atilde;o, &eacute; algo curioso. O tempo inteiro, quando a revista "<i>Veja"</i> atacou o Lula, havia, por parte da esquerda que sustenta constantemente que n&atilde;o existe imparcialidade, uma cobran&ccedil;a paradoxal. Mas, se n&atilde;o h&aacute; imparcialidade, ent&atilde;o cada um escolhe o que quer dizer e ponto. H&aacute; uma quest&atilde;o que continua sendo discutida na epistemologia da comunica&ccedil;&atilde;o. Eu entendo o seguinte: o jornalismo trabalha com um espectro de factualidade que &eacute; poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar. Por exemplo, &eacute; poss&iacute;vel demonstrar se houve ou n&atilde;o houve fraude nas elei&ccedil;&otilde;es. At&eacute; agora, n&atilde;o h&aacute; nenhum elemento consistente que diga que houve fraude. Ent&atilde;o, h&aacute; um limite para dizer que as coisas podem ser relativas. Todos os elementos dispon&iacute;veis mostram que a Terra n&atilde;o &eacute; plana. Ent&atilde;o, no jornalismo, o curioso &eacute; que, &agrave;s vezes, fazemos experi&ecirc;ncias bem simples. Pegue cinco pessoas, podem ser cinco estudantes, e diga: "saibam que vamos fazer tal coisa aqui dentro e, quando voltarem, algu&eacute;m vai contar o que aconteceu". A expectativa &eacute; que teremos uma narrativa diferente para cada um, mas n&atilde;o &eacute; o que acontece. As narrativas s&atilde;o muito pr&oacute;ximas, quando n&atilde;o s&atilde;o praticamente id&ecirc;nticas. Ent&atilde;o, eu diria que n&atilde;o h&aacute; tantas narrativas sobre um fato, quando h&aacute; um n&uacute;cleo comum. Por exemplo, qualquer um de n&oacute;s v&ecirc; um acidente na rua, um caminh&atilde;o atropelando algu&eacute;m. Se formos cinco testemunhas, provavelmente vamos ter a mesma narrativa, porque h&aacute; o fato. Agora, &eacute; claro que se tivermos uma interpreta&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica do fato, vamos dar um outro vi&eacute;s. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, o que &eacute; fundamental &eacute; a combina&ccedil;&atilde;o entre empatia, an&aacute;lise e articula&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o factual. Eu diria que as narrativas pol&iacute;ticas nunca devem estar acima da factualidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Lembro-me de um conto de Jorge Luis Borges, em que ele fala de um chin&ecirc;s que sonhou que era borboleta e, ao acordar, ficou na d&uacute;vida se ele n&atilde;o seria, na verdade, uma borboleta que sonhou que era chin&ecirc;s.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b></i> - &Eacute; um tanto angustiante. &Agrave;s vezes, penso como Umberto Eco, que, em determinado momento, disse que as redes sociais deram voz aos imbecis. Mas o que realmente penso &eacute; que existe um problema recorrente nas redes sociais: a invisibilidade. Elas s&atilde;o uma esp&eacute;cie de antiga banca de revistas, um quiosque repleto de publica&ccedil;&otilde;es, mas nem todas ficam vis&iacute;veis. Algumas ofuscam as outras. Ent&atilde;o, a grande quest&atilde;o &eacute; como se tornar vis&iacute;vel. Eu posso criar um canal no YouTube ou ter uma conta em qualquer rede social, mas o problema &eacute; quantas pessoas realmente ver&atilde;o. Isso &eacute; algo com o qual todos est&atilde;o lidando hoje. Eu, por exemplo, gostava muito do antigo Twitter, agora chamado X. Eu tinha um bom n&uacute;mero de seguidores l&aacute;. Mas o Twitter acabou. Ent&atilde;o, fui para uma outra rede, chamada Bluesky. &Eacute; bem legal, porque &eacute; o Twitter sem o Elon Musk, o que j&aacute; &eacute; um bom come&ccedil;o. Mas o problema &eacute; que as pessoas ainda n&atilde;o est&atilde;o l&aacute;. L&aacute;, voc&ecirc; pode dizer o que quiser, porque n&atilde;o tem muita gente propagando discurso de &oacute;dio. O clima &eacute; tranquilo. As redes sociais s&atilde;o como bares: tem gente que prefere um bar dan&ccedil;ante, outros gostam de um lugar mais tranquilo, onde seja poss&iacute;vel conversar sem a m&uacute;sica alta. O Bluesky &eacute; esse tipo de bar, tranquilo, onde voc&ecirc; pode conversar pacificamente. O problema &eacute; que n&atilde;o tem muita gente l&aacute;, ent&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; muita visibilidade. A saudade do velho X &eacute; inevit&aacute;vel - onde, apesar de escorrer sangue, havia sempre uma grande audi&ecirc;ncia. O grande desafio &eacute; como se tornar vis&iacute;vel. E a l&oacute;gica parece simples: para se tornar vis&iacute;vel, &eacute; preciso intensificar a provoca&ccedil;&atilde;o. Como as redes s&atilde;o livres, salvo pela modera&ccedil;&atilde;o ou algum processo judicial, qualquer um pode ir l&aacute; e dizer o que normalmente diria em um bar. E, se antigamente isso repercutia apenas na mesa de quem falava ou, no m&aacute;ximo, no bar inteiro, agora pode se espalhar globalmente. O &oacute;dio e o ressentimento, que antes eram desabafos de quem se sentia isolado e n&atilde;o podia expressar suas frustra&ccedil;&otilde;es, agora est&atilde;o nas redes sociais. A maioria ainda fala sozinha, sem ser ouvida. Mas, dependendo da magnitude da provoca&ccedil;&atilde;o, o que se diz pode repercutir e criar a falsa impress&atilde;o de que quem espalha discurso de &oacute;dio est&aacute; sendo ouvido. Voltamos ent&atilde;o &agrave; quest&atilde;o inicial: as paix&otilde;es negativas geram mais engajamento do que as positivas. Elas engajam quando atingem um certo n&iacute;vel de provoca&ccedil;&atilde;o, algo que soa diferente. Eu vejo isso muito no futebol, porque sou f&atilde; de futebol. Se eu comento sobre um jogo dizendo que o time n&atilde;o jogou bem, isso n&atilde;o vai gerar grande repercuss&atilde;o. Agora, se eu disser que o time foi p&eacute;ssimo, que deve demitir todo mundo, a&iacute; sim, a repercuss&atilde;o &eacute; garantida. A l&oacute;gica das redes &eacute; aumentar a intensidade, dobrar a aposta, chegar ao exagero m&aacute;ximo. &Eacute; uma l&oacute;gica hiperb&oacute;lica, que s&oacute; funciona dessa forma. Talvez, com o tempo, &agrave; medida que a literacia digital avance, a gente aprenda a usar as redes para um sentido mais prosaico, racional, informativo e dial&oacute;gico. Mas, por enquanto, as redes sociais n&atilde;o s&atilde;o dial&oacute;gicas. Elas s&atilde;o espa&ccedil;os de provoca&ccedil;&atilde;o, porque s&atilde;o estruturadas para recompensar o n&uacute;mero de visualiza&ccedil;&otilde;es. Para ter engajamento, voc&ecirc; precisa conquistar <i>likes</i>, ter seu conte&uacute;do replicado, gerar mais intera&ccedil;&otilde;es. At&eacute; agora, s&oacute; com razoabilidade, a l&oacute;gica hiperb&oacute;lica &eacute; que traz engajamento. Ent&atilde;o &eacute; um problema. Talvez fosse necess&aacute;rio educar as crian&ccedil;as para uma l&oacute;gica diferente. Mas, como estamos num mundo hipercompetitivo, a l&oacute;gica do engajamento tamb&eacute;m &eacute; pautada pela competi&ccedil;&atilde;o. &Eacute; como um jogo de cartas: para vencer a carta anterior, preciso dar um golpe mais forte, mais provocador. Isso cria uma escalada sem fim. Muitas pessoas acabam adoecendo, desistindo ou se exaustando, porque o processo &eacute; insustent&aacute;vel. E, como as redes seguem uma l&oacute;gica de recompensa, quem n&atilde;o tem a repercuss&atilde;o esperada come&ccedil;a a se inquietar. Se minha postagem n&atilde;o teve tantas visualiza&ccedil;&otilde;es, fico preocupado e percebo que preciso aumentar a provoca&ccedil;&atilde;o. Isso &eacute; um teste constante de popularidade. E o mais interessante &eacute; que, quando o influenciador v&ecirc; que algo n&atilde;o est&aacute; funcionando, ele vai procurar algo mais chamativo. Ele vai fazer algo mais ousado. Eu acredito que, em algum momento, haver&aacute; uma satura&ccedil;&atilde;o. Vamos parar e recome&ccedil;ar. Mas ainda n&atilde;o chegamos l&aacute;. O perfil do influenciador t&iacute;pico das redes sociais, infelizmente, &eacute; o de algu&eacute;m como o Pablo Mar&ccedil;al, um provocador. E, como ele &eacute; um provocador, todo mundo passa o tempo inteiro desmentindo o que ele diz, muitas vezes sem que ele se importe com isso. &Eacute; uma l&oacute;gica patol&oacute;gica e, insisto, ainda n&atilde;o sabemos como domar isso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Isso me lembra uma iniciativa de Fernando Henrique Cardoso. Quando ele era presidente, falou sobre a import&acirc;ncia da Internet, afirmando que ela abriria espa&ccedil;o para um novo renascimento. Em um encontro com empres&aacute;rios em 1996, ele estava entusiasmado, mas os empres&aacute;rios n&atilde;o deram aten&ccedil;&atilde;o ao assunto. Mais tarde, uns dez anos depois, j&aacute; ex-presidente, ele chamou v&aacute;rias pessoas, incluindo eu, para o Instituto Fernando Henrique Cardoso, em S&atilde;o Paulo, e disse que queria criar um espa&ccedil;o de discuss&atilde;o pol&iacute;tica, n&atilde;o partid&aacute;ria, chamado "Observador Pol&iacute;tico". A ideia dele era clara: a Internet seria um espa&ccedil;o de debate p&uacute;blico. Mas deu tudo errado. O Observador Pol&iacute;tico surgiu, mas foi unilateral. A l&oacute;gica que voc&ecirc; mencionou - a de dobrar a aposta no conflito e n&atilde;o no di&aacute;logo - realmente prevaleceu. A Internet n&atilde;o &eacute; um espa&ccedil;o de di&aacute;logo. Eu espero que, em algum momento, isso seja poss&iacute;vel. Talvez, para isso, seja necess&aacute;ria uma satura&ccedil;&atilde;o. Mas eu queria te fazer uma &uacute;ltima pergunta. Voc&ecirc; &eacute; um grande jornalista e um not&aacute;vel cientista da comunica&ccedil;&atilde;o. A ci&ecirc;ncia lida com uma ideia de verdade, que &eacute; sempre pass&iacute;vel de ser modificada ou superada. Mas, no fundo, algo permanece, mesmo que seja alterado um pouco. O exemplo cl&aacute;ssico &eacute;: a &aacute;gua ferve a 100 graus. Sim, mas dependendo da press&atilde;o atmosf&eacute;rica, o ponto de ebuli&ccedil;&atilde;o pode variar. A press&atilde;o atmosf&eacute;rica n&atilde;o refuta os 100 graus, ela s&oacute; permite varia&ccedil;&otilde;es. O jornalismo tamb&eacute;m trabalha com a busca pela verdade, com a apura&ccedil;&atilde;o de fatos. O jornalismo investigativo &eacute; um bom exemplo disso. Minha hip&oacute;tese &eacute; que a extrema-direita &eacute; hostil tanto ao jornalismo quanto &agrave; ci&ecirc;ncia, porque lida com inverdades, com a produ&ccedil;&atilde;o de mentiras. Isso tamb&eacute;m pode ocorrer por parte da extrema-esquerda, embora hoje esta tenha praticamente desaparecido. O que voc&ecirc; pensa sobre esse papel?</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Para tomar o controle da narrativa, voc&ecirc; precisa primeiro enfraquecer a no&ccedil;&atilde;o de verdade. Quando se ataca a verdade, se enfraquece a credibilidade de qualquer um. Isso &eacute; uma derrota hist&oacute;rica."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>JM</b> - Infelizmente, at&eacute; agora, a Internet e as redes sociais n&atilde;o s&atilde;o uma &aacute;gora, mas um ringue de lutas, um mundo de luta livre. E, normalmente, nas lutas formalizadas, existem regras, mas nas redes sociais, todo golpe &eacute; v&aacute;lido. O &uacute;nico crit&eacute;rio de valida&ccedil;&atilde;o do golpe &eacute; a repercuss&atilde;o. O que vale &eacute; o engajamento. Isso ainda precisa ser administrado e transformado. Como jornalista, acredito que o papel do jornalista &eacute; buscar a verdade factual, aquela que pode ser demonstrada. Tenho a hip&oacute;tese de que, devido a todas as distor&ccedil;&otilde;es em torno de termos como objetividade, imparcialidade e neutralidade, as grandes empresas de m&iacute;dia se apresentaram como imparciais, quando muitas vezes n&atilde;o s&atilde;o. Passou-se a argumentar que &eacute; imposs&iacute;vel alcan&ccedil;ar imparcialidade, mas tenho a sensa&ccedil;&atilde;o de que, no dia a dia, muitas vezes somos imparciais. Normalmente, a discuss&atilde;o surge assim: "Mas qual &eacute; o seu conceito de imparcialidade?" Dado o conceito, o interlocutor diz: "N&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; isso". E nunca se chega a um consenso. Se estabelecermos a imparcialidade de forma simples, talvez at&eacute; simpl&oacute;ria, eu acho que &eacute; o que acontece muitas vezes. Eu sou um torcedor apaixonado do Internacional de Porto Alegre, mas se sou comentarista de um jogo entre Internacional e seu maior rival, o Gr&ecirc;mio, e o atacante do Gr&ecirc;mio est&aacute; prestes a fazer um gol e leva uma voadora do zagueiro colorado, vou dizer que n&atilde;o foi p&ecirc;nalti? Se eu disser que foi p&ecirc;nalti, estou sendo imparcial ou n&atilde;o? Acho que &eacute; muito comum, quando nossos interesses partid&aacute;rios s&atilde;o atingidos, conseguirmos ser imparciais. Mesmo que isso v&aacute; contra o nosso pr&oacute;prio interesse. A verdade &eacute; tal: houve o p&ecirc;nalti, houve a fraude, houve a corrup&ccedil;&atilde;o. Por fim, tenho uma hip&oacute;tese: acho que tanto a direita quanto a esquerda contribu&iacute;ram para a ideia de que a verdade no jornalismo &eacute; imposs&iacute;vel, que a imparcialidade n&atilde;o existe e, por tr&aacute;s disso, h&aacute; um objetivo claro: fazer com que todos se assumam como militantes. Se n&atilde;o h&aacute; objetividade e imparcialidade, ent&atilde;o todos podem militar. As for&ccedil;as de manipula&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica no Brasil, por exemplo, se aproveitam disso. Quando voc&ecirc; diz que a extrema-direita n&atilde;o acredita na ci&ecirc;ncia, voc&ecirc; est&aacute; dizendo uma coisa relevante. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; a extrema-direita. A extrema-esquerda tem suas vers&otilde;es disso tamb&eacute;m, com menos for&ccedil;a, mas tamb&eacute;m busca uma forma mais militante de fazer ci&ecirc;ncia. Acho que, na verdade, a luta &eacute; mais para tomar o controle da narrativa. Para tomar o controle da narrativa, voc&ecirc; precisa primeiro enfraquecer a no&ccedil;&atilde;o de verdade. E a verdade cient&iacute;fica e jornal&iacute;stica foi o alvo. Quando se ataca a verdade, se enfraquece a credibilidade de qualquer um. Isso &eacute; uma derrota hist&oacute;rica (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</i></font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a03fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
</article>
