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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b> ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ci&ecirc;ncia na defesa da sa&uacute;de e da democracia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Renato Janine Ribeiro<sup>I</sup>; Margareth Dalcolmo<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP). Fil&oacute;sofo, cientista pol&iacute;tico, escritor e colunista, foi ministro da Educa&ccedil;&atilde;o do Brasil no governo de Dilma Rousseff    <br>   <sup>II</sup>Pesquisadora s&ecirc;nior da Fiocruz e professora da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o da PUC-RJ. Foi criadora e coordenadora do ambulat&oacute;rio do Centro de Refer&ecirc;ncia Professor H&eacute;lio Fraga, da Fiocruz. &Eacute; a atual presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Margareth Dalcolmo, pneumologista da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora da PUC-RJ, &eacute; uma defensora incans&aacute;vel da ci&ecirc;ncia contra o negacionismo em sa&uacute;de. Presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), ela alerta sobre os riscos de campanhas antivacina, que comprometem avan&ccedil;os e fragilizam a confian&ccedil;a social. Dalcolmo destaca a import&acirc;ncia de informa&ccedil;&atilde;o acess&iacute;vel e comunica&ccedil;&atilde;o clara para combater <i>fake news</i>, proteger a sa&uacute;de p&uacute;blica e fortalecer a democracia. Seu trabalho une ci&ecirc;ncia, educa&ccedil;&atilde;o e &eacute;tica em prol do bem-estar coletivo e social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Desinforma&ccedil;&atilde;o; Democracia; Autoritarismo; Sa&uacute;de.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Margareth Dalcolmo, pesquisadora s&ecirc;nior da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora da PUC-RJ, &eacute; uma voz firme e respeitada no combate ao negacionismo na sa&uacute;de. Presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), ela tem um papel central na dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas confi&aacute;veis, especialmente em tempos de crise sanit&aacute;ria. Criadora do ambulat&oacute;rio do Centro de Refer&ecirc;ncia Professor H&eacute;lio Fraga, da Fiocruz, Margareth Dalcolmo dedica sua carreira a proteger o bem-estar social por meio da ci&ecirc;ncia e da educa&ccedil;&atilde;o, defendendo a sa&uacute;de p&uacute;blica como um pilar essencial para a democracia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em um cen&aacute;rio global marcado pela desinforma&ccedil;&atilde;o, o negacionismo na sa&uacute;de representa uma grave amea&ccedil;a ao progresso coletivo. Campanhas contra a vacina&ccedil;&atilde;o, por exemplo, enfraquecem a confian&ccedil;a nas evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas e comprometem d&eacute;cadas de avan&ccedil;os na preven&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as. Margareth Dalcolmo alerta que o impacto dessas atitudes vai al&eacute;m da sa&uacute;de f&iacute;sica: mina os la&ccedil;os sociais, fragmenta a confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es e abre espa&ccedil;o para discursos anti&eacute;ticos que promovem retrocessos, tanto na ci&ecirc;ncia quanto na governan&ccedil;a democr&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ci&ecirc;ncia, segundo Margareth Dalcolmo, &eacute; uma ferramenta indispens&aacute;vel na prote&ccedil;&atilde;o do bem comum. As vacinas, resultado de rigorosas pesquisas cient&iacute;ficas, n&atilde;o apenas previnem doen&ccedil;as como tamb&eacute;m salvam milh&otilde;es de vidas anualmente. Contudo, a efic&aacute;cia dessas ferramentas depende de algo fundamental: a informa&ccedil;&atilde;o. Campanhas de vacina&ccedil;&atilde;o precisam ser acompanhadas por a&ccedil;&otilde;es educativas que combatam <i>fake news</i> e promovam o conhecimento acess&iacute;vel &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Essa &eacute; uma das bandeiras da pesquisadora, que acredita que uma sociedade bem informada &eacute; menos vulner&aacute;vel &agrave;s armadilhas do negacionismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O compromisso de Margareth Dalcolmo vai al&eacute;m dos laborat&oacute;rios e salas de aula. Como divulgadora cient&iacute;fica, ela defende a comunica&ccedil;&atilde;o clara e acess&iacute;vel como um instrumento poderoso para conscientizar a popula&ccedil;&atilde;o sobre sua responsabilidade coletiva. Em suas palestras e entrevistas, ela refor&ccedil;a que proteger a ci&ecirc;ncia &eacute;, ao mesmo tempo, proteger a democracia. A dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es embasadas &eacute; essencial para que os cidad&atilde;os possam tomar decis&otilde;es conscientes e seguras, seja no cuidado com sua sa&uacute;de ou na escolha de seus representantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao promover o conhecimento e lutar contra o negacionismo, Margareth Dalcolmo exemplifica a import&acirc;ncia de unir ci&ecirc;ncia, educa&ccedil;&atilde;o e &eacute;tica em defesa do bem-estar social. Seu trabalho &eacute; um lembrete de que a sa&uacute;de p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; apenas uma quest&atilde;o individual, mas um direito coletivo e um dever de todos. Em tempos de incertezas, sua atua&ccedil;&atilde;o serve como um farol, mostrando que a ci&ecirc;ncia e a informa&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m o poder de fortalecer n&atilde;o apenas corpos, mas tamb&eacute;m sociedades inteiras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Renato Janine Ribeiro -</b> Tenho agora o grande prazer e a honra de conversar com Margareth Dalcolmo, uma das maiores autoridades da medicina brasileira, figura de destaque na sociedade cient&iacute;fica, especialmente na &aacute;rea de pneumologia. Margareth desempenhou um papel fundamental no debate p&uacute;blico sobre sa&uacute;de durante esses anos de obscurantismo. Sua presen&ccedil;a constante na imprensa tornou-se uma voz firme contra o negacionismo e a favor de pr&aacute;ticas necess&aacute;rias para salvar vidas. &Eacute; triste constatar que o Brasil apresenta uma taxa de mortalidade por Covid-19 v&aacute;rias vezes superior &agrave; m&eacute;dia mundial. Enquanto o n&uacute;mero global de mortes foi de cerca de sete milh&otilde;es, em uma popula&ccedil;&atilde;o de oito bilh&otilde;es - o que equivale a uma taxa de aproximadamente uma morte a cada cem ou duzentas pessoas -, no Brasil, registramos algo entre tr&ecirc;s e cinco mortes por mil habitantes. Isso representa pelo menos meio milh&atilde;o de mortes acima do esperado, considerando uma an&aacute;lise estat&iacute;stica simples. Margareth lutou ativamente e certamente ajudou a reduzir esse n&uacute;mero. Al&eacute;m disso, &eacute; uma pessoa de vasta cultura human&iacute;stica, com profundo conhecimento sobre grandes cientistas e intelectuais do mundo. Quero lhe perguntar, de forma direta: a que voc&ecirc; atribui essa invers&atilde;o t&atilde;o radical no cen&aacute;rio global? T&iacute;nhamos avan&ccedil;os significativos na sa&uacute;de p&uacute;blica, com doen&ccedil;as sendo erradicadas e o sucesso das vacinas. O que aconteceu para que, de repente, o discurso da mentira e do &oacute;dio ganhasse espa&ccedil;o, trazendo um custo t&atilde;o alto em vidas humanas?</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"A ret&oacute;rica negacionista trouxe consequ&ecirc;ncias graves, resultando em milhares de mortes evit&aacute;veis."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Margareth Dalcolmo - </b></i>Na verdade, acredito que isso n&atilde;o foi um fen&ocirc;meno restrito ao Brasil. O mundo foi pego de surpresa com uma epidemia que rapidamente se transformou em pandemia. Primeiramente, algo assim n&atilde;o pode mais acontecer. Nunca mais. Apesar disso, ainda observamos despreparo, desmem&oacute;ria e nega&ccedil;&otilde;es que me preocupam muito, pois persistem. Algumas pessoas se referem ao tempo da pandemia como se falassem da gripe espanhola, que ocorreu h&aacute; mais de cem anos. O mundo precisa estar preparado para futuras epidemias e pandemias - n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de <i>se</i> vai acontecer, mas de <i>quando</i>. J&aacute; enfrentamos o risco de uma nova epidemia causada por um v&iacute;rus respirat&oacute;rio do tipo HN, que, como muitas outras pandemias, provavelmente ter&aacute; origem zoon&oacute;tica, atravessando a barreira entre o mundo animal e o humano. No Brasil, fomos apanhados completamente despreparados. N&atilde;o havia organiza&ccedil;&atilde;o, planejamento, insumos b&aacute;sicos - nada. Ficamos &agrave; merc&ecirc; do mercado internacional, especialmente chin&ecirc;s, de onde vem a maior parte dos produtos consumidos na &aacute;rea da sa&uacute;de no Brasil. Esse cen&aacute;rio de caos log&iacute;stico foi agravado por uma ret&oacute;rica governamental n&atilde;o apenas equivocada, mas deliberadamente prejudicial, que encontrou eco em uma popula&ccedil;&atilde;o despreparada e amedrontada. M&eacute;todos eficazes de controle, como o distanciamento social, enfrentaram resist&ecirc;ncia cultural. Nossa sociedade latina, naturalmente greg&aacute;ria, sentiu profundamente medidas como separar av&oacute;s de netos ou evitar reuni&otilde;es familiares. Apesar disso, muitos respeitaram as recomenda&ccedil;&otilde;es. Na minha primeira entrevista p&uacute;blica sobre a pandemia, em 14 de mar&ccedil;o de 2020, destaquei que nossas principais armas seriam o SUS e o distanciamento f&iacute;sico. Infelizmente, o governo rapidamente deslegitimou essas medidas, minimizando sua import&acirc;ncia. Manaus &eacute; um exemplo tr&aacute;gico. A cidade foi o epicentro do primeiro pico epid&ecirc;mico no Brasil, em abril de 2020, mas ignorou recomenda&ccedil;&otilde;es como fechar escolas e adotar o distanciamento social. O discurso da "imunidade de rebanho" - um equ&iacute;voco cient&iacute;fico - foi amplamente propagado. Sem vacina, isso era imposs&iacute;vel. O resultado foi devastador. Sete meses depois, Manaus ainda n&atilde;o tinha alcan&ccedil;ado imunidade coletiva, mas havia despertado a variante gama, cujo genoma foi sequenciado por Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz. A ret&oacute;rica negacionista trouxe consequ&ecirc;ncias graves, resultando em milhares de mortes evit&aacute;veis. Outro ponto que considero alarmante &eacute; a queda na ades&atilde;o &agrave; cultura vacinal. Desde a cria&ccedil;&atilde;o do Programa Nacional de Imuniza&ccedil;&otilde;es (PNI), h&aacute; 50 anos, o Brasil se orgulhava de sua ampla cobertura vacinal. No entanto, o discurso antivacina contaminou at&eacute; m&eacute;dicos, enfraquecendo a confian&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o. Em 2020, antes da vacina contra a Covid-19, muitas pessoas se vacinaram contra a gripe acreditando, equivocadamente, que isso poderia oferecer alguma prote&ccedil;&atilde;o. Hoje, a ades&atilde;o &agrave;s vacinas contra a gripe &eacute; a mais baixa em d&eacute;cadas, apesar de termos imunizantes gratuitos e de alta qualidade no SUS. Isso reflete o impacto de uma ret&oacute;rica que explorou o medo e a falta de informa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica da popula&ccedil;&atilde;o, desestimulando pr&aacute;ticas que poderiam salvar vidas. Considero tudo isso pass&iacute;vel de responsabiliza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o podemos aceitar que discursos nocivos comprometam a sa&uacute;de p&uacute;blica e ampliem o sofrimento coletivo. &Eacute; nosso dever aprender com essa trag&eacute;dia e garantir que nunca mais enfrentemos tamanha desorganiza&ccedil;&atilde;o e desinforma&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Como humanista, como voc&ecirc; interpreta o fato de que a profiss&atilde;o m&eacute;dica, que faz o juramento de Hip&oacute;crates e cuja ess&ecirc;ncia &eacute; salvar vidas, aliviar dores e combater doen&ccedil;as, acabou gerando, em alguns casos, pr&aacute;ticas negacionistas que contrariam a pr&oacute;pria hist&oacute;ria da medicina?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>MD - </b></i>O juramento de Hip&oacute;crates ensina que, se n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel salvar, ao menos n&atilde;o se deve causar mal. Esse princ&iacute;pio ainda &eacute; central no que fazemos hoje. Ele permeia discuss&otilde;es contempor&acirc;neas, como a quest&atilde;o da morte digna. Quando n&atilde;o h&aacute; possibilidade terap&ecirc;utica, o objetivo deve ser proporcionar um fim de vida digno. &Eacute; inacredit&aacute;vel como o negacionismo se estabeleceu em alguns nichos da profiss&atilde;o m&eacute;dica. Isso tem muito dolo envolvido. Um m&eacute;dico minimamente informado n&atilde;o poderia se deixar levar por esse tipo de discurso. &Eacute; muito triste ver profissionais que, inclusive, lucraram com pr&aacute;ticas negacionistas, promovendo terapias sem base cient&iacute;fica. Se houvesse uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o rigorosa, isso n&atilde;o seria permitido. Exemplos como ozonioterapia, pr&aacute;ticas ortomoleculares, f&oacute;rmulas sem fundamento e discursos antivacinas s&atilde;o absurdos. O Brasil, que nunca teve movimentos antivacinas significativos, hoje enfrenta a dissemina&ccedil;&atilde;o desses grupos, que s&atilde;o extremamente prejudiciais. Isso reflete uma pr&aacute;tica m&eacute;dica que n&atilde;o tem nada de humanista ou bem-intencionada. Infelizmente, h&aacute; colegas que aproveitam a falta de conhecimento cr&iacute;tico da sociedade para lucrar. Em uma sociedade mais educada, o cen&aacute;rio seria diferente. Hoje, frequentemente sou questionada por pacientes ou familiares: "Doutora, devo dar esta vacina ao meu filho?". Sempre respondo com paci&ecirc;ncia e humor: "Voc&ecirc; se preocupou com os componentes da vacina hexavalente que seu beb&ecirc; recebeu aos seis meses? Por que agora est&aacute; preocupado com a vacina da Covid-19?". Discurso sobre mudan&ccedil;a de DNA, por exemplo, &eacute; uma tolice. Para isso, o ant&iacute;geno precisaria entrar no n&uacute;cleo da c&eacute;lula, e nenhuma vacina faz isso, nem mesmo as de RNA mensageiro. O negacionismo prosperou especialmente durante a pandemia, no per&iacute;odo mais cr&iacute;tico. Naquele momento, n&oacute;s, que &eacute;ramos as vozes t&eacute;cnicas, fomos frequentemente consultados. Aqui, fa&ccedil;o um par&ecirc;ntese para reconhecer o papel &eacute;tico da imprensa brasileira. A maioria dos ve&iacute;culos escolheu o caminho certo: ouviu especialistas e ajudou a desmascarar pr&aacute;ticas prejudiciais. No in&iacute;cio, havia dificuldade em separar o joio do trigo, mas, com o tempo, conseguimos passar informa&ccedil;&otilde;es ver&iacute;dicas, mesmo que fossem duras, sempre buscando trazer esperan&ccedil;a quando poss&iacute;vel. Lembro-me do Natal de 2020, quando um jornalista me perguntou: "&Eacute; verdade que a senhora vai recomendar que n&atilde;o se comemore o Natal?". E eu respondi: "Sim, vou dizer que n&atilde;o pode. No maior pa&iacute;s cat&oacute;lico do mundo, n&atilde;o pode ter Natal". N&atilde;o havia vacina, e est&aacute;vamos perdendo 2.000 pessoas por dia. Era grav&iacute;ssimo. J&aacute; em 2021, com parte significativa da popula&ccedil;&atilde;o vacinada, pude dizer: "Este ano pode ter Natal - ainda pequeno, mas pode".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"N&atilde;o podemos aceitar que discursos nocivos comprometam a sa&uacute;de p&uacute;blica e ampliem o sofrimento coletivo."</i></b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Nossa imprensa teve, de fato, um papel importante. Lembro-me especialmente do momento em que o governo da &eacute;poca parou de divulgar o n&uacute;mero de mortos a tempo de ser noticiado no "Jornal Nacional". Os ve&iacute;culos de imprensa assumiram a tarefa de coletar e divulgar esses dados, cumprindo o papel de informar e de orientar a popula&ccedil;&atilde;o sobre as medidas necess&aacute;rias. Agora, gostaria que voc&ecirc; explicasse para o p&uacute;blico leigo essa inova&ccedil;&atilde;o nas vacinas. N&oacute;s enfrentamos a Covid-19 tanto com vacinas tradicionais quanto com novas plataformas. Pode falar sobre as vacinas de RNA mensageiro e como elas se diferem das vacinas tradicionais?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>MD - </b></i>Classificamos as vacinas por plataformas tecnol&oacute;gicas. Existem v&aacute;rios tipos: vacinas gen&eacute;ticas, polissacar&iacute;dicas, conjugadas, adjuvantes (que aumentam a imunogenicidade) e, entre elas, as vacinas de RNA mensageiro. Embora a plataforma de RNA mensageiro pare&ccedil;a nova, ela j&aacute; existia e havia sido testada em outras doen&ccedil;as. Embora n&atilde;o tenha funcionado para Ebola ou Chikungunya, foi extremamente eficaz contra a Covid-19, o que justificou o Pr&ecirc;mio Nobel dado a Katalin Karik&oacute; e Drew Weissman. O trabalho obstinado de Karik&oacute;, que acreditou na sua viabilidade por 30 anos, provou estar correto. A partir de agora, essa tecnologia n&atilde;o ser&aacute; usada apenas para vacinas, mas tamb&eacute;m para medicamentos, especialmente na oncologia. No Brasil, vacinas de RNA mensageiro foram amplamente testadas, como a da Pfizer. Aplicamos cerca de 600 milh&otilde;es de doses de vacinas contra a Covid-19 e identificamos apenas 59 ou 60 eventos adversos graves comprovadamente ligados &agrave; imuniza&ccedil;&atilde;o - uma taxa baix&iacute;ssima. &Eacute; importante destacar que, com a autoriza&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de, a Fiocruz j&aacute; come&ccedil;ou a investir nessa tecnologia. Em poucos anos, esperamos produzir vacinas de RNA mensageiro no Brasil, n&atilde;o apenas para Covid-19, mas para diversas doen&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Isso significa que, no caso de uma nova pandemia, poder&iacute;amos conseguir vacinas ainda mais rapidamente do que nesta ocasi&atilde;o, talvez. Apesar de, desta vez, o processo ter sido &aacute;gil: entre as primeiras pesquisas e a aplica&ccedil;&atilde;o da primeira vacina no Reino Unido, n&atilde;o chegou a se passar um ano.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Existe todo um esquema montado para lucrar com desinforma&ccedil;&atilde;o - um verdadeiro &lsquo;algoritmo do mal'."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>MD - </b></i>Foi aproximadamente um ano. Desde os primeiros casos, registrados em dezembro de 2019, na China, com a cepa ancestral, que hoje nem existe mais - restam apenas variantes, como as da &Ocirc;micron, que s&atilde;o cobertas pela vacina que atualmente aplicamos no Brasil: a chamada vacina monovalente. As vacinas antigas j&aacute; cumpriram seu papel. Muitas pessoas me perguntam: "Tomei s&oacute; duas doses, preciso tomar de novo?" Agora, n&atilde;o importa se foram duas, tr&ecirc;s ou quatro doses. &Eacute; necess&aacute;rio tomar a vacina monovalente. No Brasil, ela &eacute; distribu&iacute;da pelo SUS e, comercialmente, &eacute; da Moderna, adquirida na &uacute;ltima licita&ccedil;&atilde;o. Existem outras marcas, mas essa vacina &eacute; altamente eficaz. Essas vacinas s&atilde;o muito imunog&ecirc;nicas, ou seja, t&ecirc;m grande capacidade de prote&ccedil;&atilde;o, mas, por isso, tamb&eacute;m s&atilde;o bastante reatog&ecirc;nicas. Algumas pessoas podem sentir dor no local da aplica&ccedil;&atilde;o ou efeitos colaterais leves, como febre ou cansa&ccedil;o. Outros n&atilde;o sentem nada, mas isso varia de pessoa para pessoa. O importante &eacute; que n&atilde;o h&aacute; eventos adversos graves associados &agrave; vacina monovalente, algo que monitoramos de perto. Infelizmente, a ades&atilde;o a essa nova vacina est&aacute; muito abaixo do ideal. Isso se deve, em grande parte, &agrave; desinforma&ccedil;&atilde;o. &Eacute; crucial que as pessoas saibam que a vacina &eacute; segura e eficaz. Nos Estados Unidos, a mesma vacina est&aacute; sendo utilizada. N&atilde;o &eacute; verdade que ela cause qualquer altera&ccedil;&atilde;o no DNA; para isso, ela precisaria penetrar no n&uacute;cleo celular, o que n&atilde;o ocorre (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a06fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Indo para a conclus&atilde;o, gostaria de ouvir sua reflex&atilde;o sobre como o negacionismo amea&ccedil;a a democracia e os la&ccedil;os sociais. Sempre que o negacionismo avan&ccedil;a, os v&iacute;nculos sociais sofrem. Qual &eacute; sua vis&atilde;o sobre isso, especialmente em um mundo que, nos &uacute;ltimos dez anos, desde o Brexit e a elei&ccedil;&atilde;o de Trump, parece ter tomado um rumo de retrocesso?</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>MD -</b></i> Eu costumo dizer que j&aacute; viv&iacute;amos uma pandemia - n&atilde;o s&oacute; de negacionismo, que, ali&aacute;s, &eacute; hist&oacute;rico. Ao longo da hist&oacute;ria, o negacionismo esteve presente em v&aacute;rias pandemias. Mas o que vimos recentemente contaminou nosso tecido social de maneira grave, assim como outras quest&otilde;es tamb&eacute;m contaminam. Promessas ilus&oacute;rias ou informa&ccedil;&otilde;es falsas, como prometer o para&iacute;so, t&ecirc;m grande capacidade de persuas&atilde;o, o que &eacute; muito deprimente. Considero isso uma pandemia social muito s&eacute;ria. Al&eacute;m disso, o crescimento de certas seitas ou religi&otilde;es contribui para confundir a popula&ccedil;&atilde;o, atentando contra os princ&iacute;pios democr&aacute;ticos. Um exemplo &eacute; o discurso de que pais t&ecirc;m o direito de n&atilde;o vacinar seus filhos. Isso n&atilde;o faz sentido, pois crian&ccedil;as s&atilde;o incapazes de escolher e, no futuro, podem questionar essa decis&atilde;o. Recentemente, soubemos de uma crian&ccedil;a que morreu de difteria em uma seita na Amaz&ocirc;nia. Como algu&eacute;m deixa de vacinar contra difteria? Esse pai e essa m&atilde;e precisam ser responsabilizados. N&atilde;o havia difteria no Brasil h&aacute; anos, gra&ccedil;as a vacinas extremamente eficazes. Esse mesmo discurso, infelizmente, &eacute; reproduzido por algumas representa&ccedil;&otilde;es, incluindo o Conselho Federal de Medicina (CFM). A ideia de "autonomia m&eacute;dica" tamb&eacute;m &eacute; usada de forma perigosa, atentando contra a democracia. M&eacute;dicos n&atilde;o podem prescrever medicamentos sem evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas s&oacute;lidas. N&atilde;o &eacute; aceit&aacute;vel receitar algo como a talidomida, sabendo que &eacute; teratog&ecirc;nica, apenas por "autonomia". &Eacute; preciso um limite &eacute;tico. Infelizmente, h&aacute; m&eacute;dicos que continuam prescrevendo cloroquina, mesmo ap&oacute;s o inventor dessa abordagem, Didier Raoult, ter perdido sua licen&ccedil;a na Fran&ccedil;a por fraude cient&iacute;fica. Esse tipo de atitude, que perpetua desinforma&ccedil;&atilde;o e desconfian&ccedil;a, &eacute; um atentado contra a ci&ecirc;ncia e a democracia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Por fim, fiquei surpreso com a nomea&ccedil;&atilde;o do ministro da Ci&ecirc;ncia e do Ensino Superior da Fran&ccedil;a - um pa&iacute;s que &eacute; refer&ecirc;ncia em ci&ecirc;ncia. Ele defendeu a cloroquina e se op&ocirc;s &agrave; vacina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preocupante ver um pa&iacute;s como a Fran&ccedil;a, ber&ccedil;o do Iluminismo, confiar essa posi&ccedil;&atilde;o a algu&eacute;m que ignorou evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>MD -</b></i> Sem d&uacute;vida, &eacute; preocupante. Estamos falando da Fran&ccedil;a de Pasteur, que enfrentou adversidades para validar suas descobertas cient&iacute;ficas, incluindo as vacinas, que transformaram o mundo. A sa&iacute;da da ministra anterior tamb&eacute;m foi lament&aacute;vel. As pessoas precisam entender que decis&otilde;es como essas t&ecirc;m motiva&ccedil;&otilde;es financeiras. Existe todo um esquema montado para lucrar com desinforma&ccedil;&atilde;o - um verdadeiro "algoritmo do mal". Em vez de contribuir para o bem, esses algoritmos visam prejudicar e enriquecer poucos.</font></p>      ]]></body>
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