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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Comunica&ccedil;&atilde;o e democracia em tempos de extremismo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Renato Janine Ribeiro<sup>I</sup>; Wilson Gomes<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH-USP). Fil&oacute;sofo, cientista pol&iacute;tico, escritor e colunista, foi ministro da Educa&ccedil;&atilde;o do Brasil no governo de Dilma Rousseff    <br>   <sup>II</sup>Professor titular de Teoria da Comunica&ccedil;&atilde;o na Universidade Federal da Bahia. Atualmente &eacute; coordenador do INCT em Democracia Digital, al&eacute;m de colunista e comentarista em alguns ve&iacute;culos jornal&iacute;sticos e autor de v&aacute;rios livros</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Wilson Gomes, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do Instituto Nacional de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD), destaca o papel estrat&eacute;gico da comunica&ccedil;&atilde;o no combate &agrave; desinforma&ccedil;&atilde;o e ao autoritarismo. Ele defende um ecossistema que fortale&ccedil;a o jornalismo &eacute;tico e baseado em dados, enfrentando a polariza&ccedil;&atilde;o e os discursos de &oacute;dio. Gomes enfatiza a educa&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica e a integra&ccedil;&atilde;o entre arte e ci&ecirc;ncia como ferramentas para mobilizar e engajar a sociedade, promovendo uma democracia informada, plural e resistente a narrativas enganosas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Desinforma&ccedil;&atilde;o; Democracia; Autoritarismo; Comunica&ccedil;&atilde;o.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Wilson Gomes, professor titular de Teoria da Comunica&ccedil;&atilde;o na Universidade Federal da Bahia (UFBA), &eacute; uma figura central na reflex&atilde;o sobre o papel da comunica&ccedil;&atilde;o no combate &agrave; desinforma&ccedil;&atilde;o e ao autoritarismo. Coordenador do Instituto Nacional de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD), alia sua produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica &agrave; atua&ccedil;&atilde;o como colunista e comentarista, promovendo o di&aacute;logo entre ci&ecirc;ncia, arte e sociedade. Seu trabalho enfatiza a import&acirc;ncia de um ecossistema comunicacional que fortale&ccedil;a o jornalismo e a democracia em tempos de crescente polariza&ccedil;&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias falsas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A desinforma&ccedil;&atilde;o, amplificada pelas redes sociais, desafia os pilares democr&aacute;ticos ao alimentar extremismos e corroer o di&aacute;logo plural. Nesse ambiente, a busca por curtidas e engajamento, muitas vezes guiada por interesses il&iacute;citos, transforma plataformas digitais em arenas de espet&aacute;culos descomprometidos com a verdade. Wilson Gomes argumenta que a comunica&ccedil;&atilde;o confi&aacute;vel &eacute; a principal barreira contra essa tend&ecirc;ncia, destacando a urg&ecirc;ncia de estrat&eacute;gias que fortale&ccedil;am o jornalismo baseado em dados e na &eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O impacto da desinforma&ccedil;&atilde;o transcende a esfera virtual, intensificando a polariza&ccedil;&atilde;o e favorecendo os discursos de &oacute;dio. Esses fen&ocirc;menos amea&ccedil;am a conviv&ecirc;ncia democr&aacute;tica ao criar um ambiente hostil ao debate e &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de consensos. Para o pesquisador, o enfrentamento dessa crise exige n&atilde;o apenas iniciativas de regula&ccedil;&atilde;o e verifica&ccedil;&atilde;o de fatos, mas tamb&eacute;m um investimento robusto em educa&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica, que capacite a popula&ccedil;&atilde;o a identificar informa&ccedil;&otilde;es confi&aacute;veis e a resistir a narrativas enganosas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro ponto de destaque no trabalho de Wilson Gomes &eacute; a interse&ccedil;&atilde;o entre comunica&ccedil;&atilde;o, arte e ci&ecirc;ncia como um meio de engajar a sociedade na defesa da democracia. Ele acredita que a arte, aliada ao conhecimento cient&iacute;fico, pode ser uma poderosa ferramenta de sensibiliza&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o. Ao propor novos olhares e narrativas, essas &aacute;reas combinadas ajudam a criar pontes entre setores da sociedade que, muitas vezes, encontram-se isolados em suas pr&oacute;prias bolhas informativas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Wilson Gomes defende que, em um cen&aacute;rio de m&uacute;ltiplas crises globais, a comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas um instrumento t&eacute;cnico, mas um recurso essencial para a sa&uacute;de social e o bem comum. Sua contribui&ccedil;&atilde;o para o entendimento do papel estrat&eacute;gico da comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; vital para o fortalecimento da democracia, sendo um chamado para a responsabilidade compartilhada de todos os atores sociais na constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais justa, informada e plural.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Renato Janine Ribeiro</b> - &Eacute; um grande prazer receber voc&ecirc;, Wilson Gomes, nesta s&eacute;rie da Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, a hist&oacute;rica revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), criada logo ap&oacute;s a funda&ccedil;&atilde;o da entidade, em 1949. O tema desta edi&ccedil;&atilde;o &eacute; "Desinforma&ccedil;&atilde;o, Democracia e Autoritarismo". Considerando sua forma&ccedil;&atilde;o em filosofia, sua import&acirc;ncia como refer&ecirc;ncia nos estudos de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil e o fato de que a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; a base da democracia - com o di&aacute;logo, o respeito ao outro e a ideia de que todos somos iguais em direitos, apesar de diferen&ccedil;as de status e outras desigualdades - come&ccedil;o te perguntando: por que voc&ecirc; foi uma das primeiras pessoas a perceber, ainda em 2016, que Bolsonaro ganharia as elei&ccedil;&otilde;es? Naquele per&iacute;odo, ele era algu&eacute;m que n&atilde;o era levado a s&eacute;rio e sua campanha se destacava, sobretudo, no Facebook.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Wilson Gomes</b></i> - Essa hist&oacute;ria come&ccedil;a um pouco antes. Havia sinais de uma mudan&ccedil;a s&eacute;ria na pol&iacute;tica, especialmente na pol&iacute;tica <i>online</i>, que j&aacute; vinham sendo percebidos por quem monitorava as discuss&otilde;es nos ambientes digitais. Ainda assim, 2016 foi um ano decisivo, em parte por um epis&oacute;dio fundamental: a vit&oacute;ria de Donald Trump. At&eacute; aquele momento, nem mesmo a fam&iacute;lia Bolsonaro parecia acreditar que ele pudesse vencer. Mas quando um <i>outsider</i> radical, considerado uma figura buf&ocirc;nica, conseguiu ser eleito nos Estados Unidos - um pa&iacute;s com uma democracia tradicional e institui&ccedil;&otilde;es consolidadas -, a possibilidade de algo similar no Brasil se tornou palp&aacute;vel. A vit&oacute;ria de Trump serviu como um catalisador, mas o movimento que levou ao bolsonarismo j&aacute; vinha sendo constru&iacute;do. Havia uma converg&ecirc;ncia de for&ccedil;as conservadoras no Brasil, incluindo l&iacute;deres evang&eacute;licos como Silas Malafaia e Marco Feliciano que, naquela &eacute;poca, ainda tinham grande influ&ecirc;ncia. Desde 2012, esses grupos come&ccedil;aram a organizar uma milit&acirc;ncia digital muito forte. Eu acompanhava isso no Twitter e chamava esses grupos de "Feios, Sujos e Malvados", porque militavam, n&atilde;o pelos pr&oacute;prios direitos, mas contra os direitos de outros grupos - homossexuais, mulheres, entre outros. Esse movimento representava uma rea&ccedil;&atilde;o antiprogressista mais do que propriamente conservadora. Havia um sentimento de que os avan&ccedil;os progressistas tinham ido longe demais, e o ambiente digital permitiu que essas vozes se conectassem, independentemente de barreiras f&iacute;sicas. Uma igreja em Bel&eacute;m do Par&aacute; podia dialogar diretamente com outra no Rio Grande do Sul, criando uma rede de apoio em torno de figuras p&uacute;blicas e causas como a chamada "cura gay". Esse discurso cresceu, alimentado por cr&iacute;ticas aos direitos humanos e pela caricatura de que o progressismo protegia bandidos - resultando em <i>slogans</i> como "defenda o bandido e leve para casa". Al&eacute;m disso, o antipetismo desempenhou um papel central. Desde 2014, ele se consolidava como uma for&ccedil;a eleitoral poderosa, alimentado por um sentimento antipol&iacute;tica que era global. No Brasil, esse sentimento se voltou contra o PT por raz&otilde;es &oacute;bvias: era o partido no poder. O PT enfrentou cr&iacute;ticas tanto justificadas quanto preconceituosas. Por um lado, havia resist&ecirc;ncia elitista &agrave; ascens&atilde;o de classes mais baixas e ao acesso ampliado a bens e espa&ccedil;os antes restritos. Por outro, esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o associados ao partido - como o mensal&atilde;o e a opera&ccedil;&atilde;o Lava Jato - consolidaram a percep&ccedil;&atilde;o de que o PT era sin&ocirc;nimo de corrup&ccedil;&atilde;o. Esse antipetismo encontrou terreno f&eacute;rtil no lavajatismo, um movimento punitivista focado em combater a corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, mas com claro vi&eacute;s antipetista. Assim, formou-se uma equa&ccedil;&atilde;o fatal: pol&iacute;tica era igual a corrup&ccedil;&atilde;o, corrup&ccedil;&atilde;o era igual ao PT e, portanto, combater o PT parecia a solu&ccedil;&atilde;o para todos os problemas pol&iacute;ticos do pa&iacute;s. Esses elementos - a rea&ccedil;&atilde;o antiprogressista, o antipetismo e o ambiente digital - convergiram, criando as condi&ccedil;&otilde;es ideais para o surgimento do bolsonarismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR</b> - Para enfatizar a comunica&ccedil;&atilde;o: voc&ecirc; come&ccedil;ou mencionando a habilidade no uso dos meios digitais. 2016 foi um marco nesse sentido: ano do Brexit, da elei&ccedil;&atilde;o de Trump e da revela&ccedil;&atilde;o sobre a Cambridge Analytics, que teria realizado um direcionamento altamente preciso da comunica&ccedil;&atilde;o com base nos perfis das pessoas nas redes sociais. Por exemplo, nos EUA, onde o voto n&atilde;o &eacute; obrigat&oacute;rio, direcionavam informa&ccedil;&otilde;es a potenciais eleitores negros, espalhando falsas alega&ccedil;&otilde;es de que Hillary Clinton seria racista contra eles, desestimulando-os a votar nela. Esse tipo de estrat&eacute;gia, extremamente segmentada, foi apontado como uma das causas da vit&oacute;ria do Brexit no Reino Unido e de Trump nos EUA. A quest&atilde;o que fica &eacute;: por que a esquerda n&atilde;o demonstra essa mesma habilidade nas redes sociais? Inicialmente, parecia que a Internet abriria um espa&ccedil;o ut&oacute;pico para uma discuss&atilde;o mais livre, sem a necessidade de grandes investimentos, como os de uma empresa de TV. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, declarou em 1997 que a Internet oferecia a possibilidade de um novo Renascimento. No entanto, quem soube explorar melhor esse potencial foi a extrema-direita. Hoje temos, por exemplo, um candidato &agrave; Prefeitura de S&atilde;o Paulo, Pablo Mar&ccedil;al, que utiliza as redes com maestria, disseminando &oacute;dio e mentiras. Em uma conversa com Lula e um ex-ministro da Educa&ccedil;&atilde;o, ap&oacute;s uma live de duas horas, eu sugeri: "Presidente, recorte algumas de suas falas em trechos curtos, de 30 segundos a um minuto, e divulgue nas redes". Lula, ent&atilde;o, contrastou com uma experi&ecirc;ncia do passado: contou que, ao criar o PT, viajou com Chico Mendes quatro horas de carro at&eacute; o interior do Acre, apenas para descobrir que n&atilde;o havia ningu&eacute;m na reuni&atilde;o. Para ele, o esfor&ccedil;o presencial &eacute; muito diferente da aparente facilidade do digital. Ainda assim, o PT e a esquerda em geral enfrentam grandes dificuldades nesse ambiente. Como explicar esse enorme investimento da extrema-direita nas m&iacute;dias digitais e a presen&ccedil;a t&iacute;mida da esquerda?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>WG</b></i> - &Eacute; realmente intrigante. N&oacute;s lembramos bem da campanha do PT em 1989, quando a esquerda mostrou habilidade ao se adaptar &agrave; televis&atilde;o. Durante os 30 anos que precederam, o <i>know-how</i> em campanhas televisivas foi desenvolvido globalmente, mas, no Brasil, a ditadura limitava a propaganda eleitoral. Em 1989, com o fim desse cen&aacute;rio, o PT surpreendeu ao criar a "Rede Povo", uma esp&eacute;cie de par&oacute;dia da Rede Globo, usando a linguagem televisiva de forma inovadora. Lula, em especial, liderou essa adapta&ccedil;&atilde;o ao meio televisivo. Ent&atilde;o, por que a esquerda, que rapidamente se adaptou &agrave; era da TV, n&atilde;o conseguiu fazer o mesmo na era digital? &Eacute; uma pergunta sem resposta clara. Curiosamente, nos EUA, a primeira grande campanha digital de sucesso foi de Barack Obama, em 2008, utilizando redes sociais e tecnologias dispon&iacute;veis na &eacute;poca, como YouTube e intera&ccedil;&otilde;es <i>online</i>. Foi um modelo de sucesso que muitos esperavam ver replicado pela esquerda globalmente. No Brasil, por&eacute;m, a esquerda avan&ccedil;ou pouco nas redes sociais digitais. Blogs progressistas foram explorados, mas as redes, que j&aacute; tinham grande alcance, foram subutilizadas. Em 2016, foi a extrema-direita que deu o grande salto. Isso se deve, em parte, &agrave;s caracter&iacute;sticas do ambiente digital, que facilita a associa&ccedil;&atilde;o a grupos extremistas com um custo social e pessoal muito menor do que o envolvimento f&iacute;sico. Outro fator &eacute; a mudan&ccedil;a na economia da aten&ccedil;&atilde;o. Durante d&eacute;cadas, o jornalismo foi o principal mediador do discurso p&uacute;blico, filtrando e moderando conte&uacute;dos para atingir o maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pessoas. Esse sistema, que privilegiava posi&ccedil;&otilde;es moderadas, foi desafiado pela era digital. Hoje, influenciadores capturam diretamente a aten&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, monetizando-a ou convertendo-a em capital pol&iacute;tico, como no caso de Pablo Mar&ccedil;al. Sem a necessidade de passar pelos crit&eacute;rios de edi&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, &eacute; poss&iacute;vel falar diretamente com nichos e radicalizar discursos para expandir o p&uacute;blico radical. Essa aus&ecirc;ncia de filtros permitiu que posi&ccedil;&otilde;es extremas, tanto &agrave; direita quanto &agrave; esquerda, ganhassem espa&ccedil;o nas redes. Al&eacute;m disso, a extrema-direita inovou no uso da tecnologia, como <i>bots</i> e propaganda computacional, criando uma sensa&ccedil;&atilde;o de apoio em massa, mesmo que esse "apoio" fosse simulado por <i>scripts</i>. Isso foi decisivo na campanha de Trump e em outras vit&oacute;rias pol&iacute;ticas, mostrando como a tecnologia pode ser usada para moldar percep&ccedil;&otilde;es e mobilizar eleitores (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Gostaria de retomar um ponto que voc&ecirc; mencionou, pedindo para desenvolv&ecirc;-lo. Voc&ecirc; falou sobre o sucesso de campanhas baseadas no &oacute;dio, e acho que isso &eacute; um aspecto interessante. Sabemos que a pol&iacute;tica &eacute; movida mais pelo afeto do que pela raz&atilde;o. At&eacute; o PSDB, que apelava para a racionalidade, tinha campanhas nesse sentido. Lembro de uma aqui em S&atilde;o Paulo: o Fleury usava "Eu amo S&atilde;o Paulo", o Maluf usava um cora&ccedil;&atilde;o, e o PSDB lan&ccedil;ou "honradez e compet&ecirc;ncia". Hoje, &eacute; dif&iacute;cil imaginar algu&eacute;m gritando "honradez, compet&ecirc;ncia" nas ruas, mas essas campanhas funcionaram em seu tempo. Agora, o que me chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; o quanto figuras como Trump, Bolsonaro e, mais recentemente, Pablo Mar&ccedil;al atraem pelo &oacute;dio. Por que o &oacute;dio &eacute; t&atilde;o cativante? Penso tamb&eacute;m que h&aacute; um paralelo interessante: muitas pessoas gostam de filmes de terror, de viol&ecirc;ncia na tela. Recentemente, li sobre a soltura do assassino do Shopping Morumbi, aquele estudante de medicina que atirou durante uma sess&atilde;o de "Clube da Luta". Ele ficou 25 anos preso. Esse &eacute; um caso extremo, mas demonstra que, mesmo na m&iacute;dia tradicional, h&aacute; esse elemento de viol&ecirc;ncia que, em tese, busca uma catarse. No caso dele, deu errado: ele imitou o filme em vez de aliviar sua raiva. Parece que estamos lidando n&atilde;o apenas com uma quest&atilde;o midi&aacute;tica, mas tamb&eacute;m com algo que reflete o esp&iacute;rito do tempo. Estamos nesse esp&iacute;rito do tempo?</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Durante d&eacute;cadas, o jornalismo foi o principal mediador do discurso p&uacute;blico, filtrando e moderando conte&uacute;dos para atingir o maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pessoas. Esse sistema, que privilegiava posi&ccedil;&otilde;es moderadas, foi desafiado pela era digital."</i></b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>WG - </b></i>O &oacute;dio &eacute; altamente mobilizador, talvez at&eacute; mais que o amor. Embora, para Maquiavel, o sentimento mais mobilizador seja o medo. No entanto, proponho um outro &acirc;ngulo: n&atilde;o &eacute; apenas &oacute;dio ou viol&ecirc;ncia; &eacute; o &oacute;dio moralizado, alimentado por um sentimento de ultraje moral, de indigna&ccedil;&atilde;o &eacute;tica. A viol&ecirc;ncia no entretenimento leva &agrave; catarse e, depois, acalma. Aqui, o &oacute;dio funciona de outra maneira: ele mant&eacute;m um grupo indignado e com raiva por muito tempo. Se fosse apenas &oacute;dio, as pessoas j&aacute; teriam se cansado, porque odiar &eacute; exaustivo. Mas essa indigna&ccedil;&atilde;o moral sustenta o &oacute;dio, o renova. &Eacute; uma extrema moraliza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica, que engaja as pessoas em rea&ccedil;&otilde;es intensas, at&eacute; violentas, mas com justificativa moral. No Brasil, sendo um pa&iacute;s de base cat&oacute;lica, o &oacute;dio precisa de uma aceita&ccedil;&atilde;o social. O &oacute;dio pessoal se resolve de forma privada, mas o &oacute;dio coletivo forma grupos raivosos, sustentados por uma autoriza&ccedil;&atilde;o social. Um exemplo: uma av&oacute; se chocou ao ouvir o neto, durante o <i>impeachment</i> de Dilma, em 2015, xingar a ex-presidente de "vaca" ao v&ecirc;-la na TV. Para o menino, aquilo era permitido no contexto familiar, pois havia uma justificativa moral. Esse &oacute;dio coletivo &eacute; recompensado socialmente. Ele recebe "<i>likes</i>", compartilhamentos, reconhecimento. Em 2013, ao analisar redes sociais, notei um fen&ocirc;meno perturbador: insultos mis&oacute;ginos contra Dilma eram frequentemente postados por jovens mulheres. Fiquei surpreso, porque eram jovens insultando uma mulher com idade para ser sua av&oacute;. Isso mostra o quanto o &oacute;dio &eacute; autorizado socialmente, recompensado pelo grupo, validado como aceit&aacute;vel (Figura 2).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n4/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Quando o &oacute;dio recebe valida&ccedil;&atilde;o moral, ele se torna mais importante que qualquer regra, pr&aacute;tica ou respeito ao outro. Isso ocorre tamb&eacute;m em outros extremos identit&aacute;rios. Li recentemente um artigo no "The Conversation" em que um professor sul-africano dizia que a palavra "&Aacute;frica" &eacute; preconceituosa, criada pelos navegadores em 1400. Escrevi ao editor, que confirmou o erro e corrigiu o texto, mas a justificativa do autor era promover uma causa justa contra o preconceito. &Eacute; um exemplo de como a moralidade pode justificar qualquer coisa, at&eacute; mesmo uma mentira. Isso me leva a outra quest&atilde;o. H&aacute; dois anos, escrevi um livro sobre Maquiavel analisando os presidentes da Nova Rep&uacute;blica no Brasil com base no par </i>"<i>virt&ugrave;"</i> e "<i>fortuna"</i>.<i> Collor, Lula e Sarney chegaram ao poder pela fortuna; Fernando Henrique e Dilma perderam o poder por ela. Lula foi o &uacute;nico que </i>usou "<i>virt&ugrave;" tanto para ascender quanto para se manter. J&aacute; Bolsonaro foi o homem errado na hora certa. Gostaria de saber sua opini&atilde;o: para governar, &eacute; preciso habilidade, n&atilde;o s&oacute; coragem, mas a capacidade de negociar, como Lula e Fernando Henrique demonstraram.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>WG - </b></i> H&aacute; v&aacute;rios fatores em jogo. Tenho uma hip&oacute;tese - dif&iacute;cil de comprovar, pois as circunst&acirc;ncias foram essas: se Eduardo Cunha n&atilde;o tivesse se sacrificado politicamente para derrubar Dilma, talvez hoje fal&aacute;ssemos de "cunhismo", e n&atilde;o "bolsonarismo". Cunha parecia pronto para surfar naquela onda de antipetismo e antipol&iacute;tica. Bolsonaro, por&eacute;m, assumiu esse papel por uma s&eacute;rie de fatores. Primeiro, ele n&atilde;o era apenas uma figura isolada; eram quatro Bolsonaros, com os filhos articulando diferentes frentes, incluindo uma rede internacional de extrema-direita. Ele se adaptou ao mundo digital, mesmo n&atilde;o sendo um nativo dessa cultura, e aproveitou o momento. Al&eacute;m disso, Bolsonaro incorporou qualidades que o tornaram o l&iacute;der perfeito para aquele contexto: ele era aut&ecirc;ntico em seu antiesquerdismo e parecia uma reencarna&ccedil;&atilde;o da direita militar. Sua "autenticidade" - comendo p&atilde;o com margarina em mesas bagun&ccedil;adas, falando sem filtro, gerando pol&ecirc;micas - foi essencial para sua constru&ccedil;&atilde;o de imagem. A cultura digital da &eacute;poca, dominada por irrever&ecirc;ncia, misoginia e "lacradas", encontrou nele o representante ideal. Ele soube utilizar redes como o WhatsApp para disseminar conte&uacute;dos que ressoavam com essa autenticidade improvisada. Foi uma combina&ccedil;&atilde;o de fatores culturais, pol&iacute;ticos e digitais que o tornaram o l&iacute;der da extrema-direita brasileira naquele momento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> Gostaria de come&ccedil;ar com uma breve explica&ccedil;&atilde;o. Para quem n&atilde;o sabe, "incel" significa celibat&aacute;rio involunt&aacute;rio. Refere-se a rapazes ou homens solteiros que n&atilde;o desejam estar nessa condi&ccedil;&atilde;o, mas que n&atilde;o conseguem encontrar uma parceira. Isso acaba gerando um ressentimento profundo, algo que, de certa forma, se conecta ao que voc&ecirc; mencionou sobre homens brancos que sentem que seu espa&ccedil;o foi tomado por cotistas. &Eacute; o caso de pessoas heterossexuais que acreditam n&atilde;o haver mais espa&ccedil;o para elas. Em vez de aceitar as mudan&ccedil;as sociais, desenvolvem um ressentimento que, em alguns casos, pode culminar em viol&ecirc;ncia. Lembro-me de um epis&oacute;dio triste, ocorrido h&aacute; cerca de dez anos, de um pai que, enquanto caminhava abra&ccedil;ado ao filho na Avenida Paulista, em S&atilde;o Paulo, foi violentamente agredido por um homem que achou que se tratava de um casal gay. Mesmo que fosse um casal gay, n&atilde;o haveria justificativa para a agress&atilde;o. Esse tipo de viol&ecirc;ncia revela o quanto estamos presos &agrave;s apar&ecirc;ncias. Quero aproveitar e pedir que voc&ecirc; fale um pouco sobre democracia. Apesar de muitas das suas cr&iacute;ticas serem voltadas &agrave; extrema-direita, voc&ecirc; tamb&eacute;m aponta erros na esquerda. Ent&atilde;o, como voc&ecirc; v&ecirc; a democracia no Brasil hoje? Quais falhas considera mais evidentes? E o que deveria ser priorit&aacute;rio para fortalec&ecirc;-la?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>WG - </b></i>Refletindo sobre o cen&aacute;rio atual, &eacute; inevit&aacute;vel perguntar: por que tantas pessoas continuam votando na extrema-direita? Por que Trump est&aacute; no centro das aten&ccedil;&otilde;es pela terceira vez? Por que Bolsonaro teve tanto apoio? Na Europa, por que quase metade dos italianos vota na extrema-direita e, na Fran&ccedil;a, por que esse movimento ganhou for&ccedil;a a ponto de quase vencer as &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es? E na Alemanha, t&atilde;o civilizada, por que a extrema-direita tamb&eacute;m avan&ccedil;a? Como algu&eacute;m que analisa o cotidiano da pol&iacute;tica, admito que &eacute; dif&iacute;cil fazer previs&otilde;es de longo prazo. As transforma&ccedil;&otilde;es s&atilde;o t&atilde;o r&aacute;pidas que mal conseguimos acompanh&aacute;-las. Algo que antes levaria uma d&eacute;cada agora ocorre em um ano. Precisamos entender o que est&aacute; acontecendo enquanto ainda temos tempo, ou ser&aacute; tarde demais. A grande quest&atilde;o para os democratas hoje, em minha opini&atilde;o, &eacute;: por que metade dos americanos continua votando em Trump, mesmo ap&oacute;s terem vivido sob seu governo? No Brasil, algo semelhante aconteceu em 2018, quando muitos votaram em Bolsonaro por estarem com raiva do PT. Mas raiva n&atilde;o &eacute; boa conselheira. O problema vai al&eacute;m de influ&ecirc;ncias externas, como <i>fake news</i> ou algoritmos. Existe um descontentamento profundo com a pol&iacute;tica, e parte disso &eacute; uma fal&ecirc;ncia do projeto pol&iacute;tico da esquerda, tanto nas Am&eacute;ricas quanto na Europa. Como algu&eacute;m de esquerda, digo isso com tranquilidade: precisamos reconhecer que algo deu errado. A direita moderada foi engolida pela extrema-direita. O centro pol&iacute;tico foi desertado, e a milit&acirc;ncia, tanto da esquerda quanto da direita, se tornou cada vez mais radical. O di&aacute;logo foi substitu&iacute;do por confrontos, e a democracia, que deveria promover o pluralismo, est&aacute; amea&ccedil;ada. A democracia s&oacute; funciona quando reconhecemos o pluralismo e a legitimidade de posi&ccedil;&otilde;es divergentes. Isso inclui respeitar as minorias e negociar pontos de consenso, como o direito de cada um viver sua vida conforme seus valores. A democracia exige toler&acirc;ncia, mas, infelizmente, estamos vivendo em uma sociedade onde cada lado v&ecirc; o outro como um inimigo a ser eliminado. Precisamos de construtores de pontes, de espa&ccedil;os de negocia&ccedil;&atilde;o onde possamos conviver e encontrar solu&ccedil;&otilde;es comuns. O centro pol&iacute;tico, muitas vezes visto como covarde, &eacute;, na verdade, essencial para garantir o di&aacute;logo. &Eacute; preciso humildade para aceitar que vivemos em sociedades pluralistas, onde nem todas as posi&ccedil;&otilde;es nos agradam, mas todas t&ecirc;m o direito de existir, desde que respeitem os limites democr&aacute;ticos. Se queremos salvar a democracia, devemos abandonar o dogmatismo e reconhecer que negociar &eacute; inevit&aacute;vel. N&atilde;o &eacute; uma escolha; &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para a conviv&ecirc;ncia em sociedades diversas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O di&aacute;logo foi substitu&iacute;do por confrontos, e a democracia, que deveria promover o pluralismo, est&aacute; amea&ccedil;ada."</i></b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>RJR -</b> A triste conclus&atilde;o a que chego &eacute; que vivemos um momento muito desfavor&aacute;vel para a sensibilidade democr&aacute;tica. &Eacute; como se quase n&atilde;o houvesse mais democratas. N&atilde;o se trata de ser de direita, centro ou esquerda, mas de adotar essas posi&ccedil;&otilde;es com base em valores democr&aacute;ticos. E o que seriam esses valores? Basicamente, o respeito &agrave; vontade da maioria quando cab&iacute;vel, como nas elei&ccedil;&otilde;es, e o respeito &agrave;s diferen&ccedil;as. Aceitar que o outro pense, viva e tenha valores diferentes. Isso me faz lembrar dos per&iacute;odos das d&eacute;cadas de 1930 e de 1960/70, quando, infelizmente, era comum que tanto a direita quanto a esquerda desprezassem a democracia, para dizer o m&iacute;nimo. No Brasil, tivemos um longo aprendizado. A ditadura durou 21 anos, e foi durante esse per&iacute;odo que a esquerda brasileira - n&atilde;o s&oacute; por abandonar o uso de armas, o que considero leg&iacute;timo para os poucos que se insurgiram contra a ditadura - passou a entender, de forma mais ampla, a import&acirc;ncia da diversidade e da conviv&ecirc;ncia com as diferen&ccedil;as. Hoje, parece que isso est&aacute; novamente em crise. Vou pedir para voc&ecirc; concluir.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>WG - </b></i>O que est&aacute; em alta atualmente &eacute; ser de direita e defender a liberdade de express&atilde;o, por exemplo. Isso &eacute; o novo, o diferente. N&atilde;o &eacute; mais como em nossa gera&ccedil;&atilde;o, ou em gera&ccedil;&otilde;es anteriores, quando as posi&ccedil;&otilde;es mais progressistas - justi&ccedil;a social, igualdade, direitos, reconhecimento de minorias - eram vistas como inovadoras e atraentes. H&aacute; uma mudan&ccedil;a fundamental a&iacute; que me preocupa. Nossos filhos, por exemplo, s&atilde;o mais diretos e pragm&aacute;ticos, talvez at&eacute; menos idealistas do que n&oacute;s. A economia da aten&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica mudou muito. Hoje, as opini&otilde;es n&atilde;o passam por filtros ou por "<i>gatekeepers</i>" que poderiam moderar e refinar as posi&ccedil;&otilde;es. Agora, fala-se em curadoria, mas online ela &eacute; praticamente inexistente. Cada um faz suas pr&oacute;prias escolhas, e isso, &agrave;s vezes, leva as pessoas a grupos mais radicalizados. Outro ponto &eacute; que a esquerda perdeu parte de sua capacidade de fascinar. Ela critica o capitalismo, mas, enquanto tinha o socialismo como alternativa, isso parecia interessante. Quando essa alternativa desapareceu, o discurso anticapitalista perdeu impacto, especialmente para os mais jovens. Isso explica, em parte, por que alguns grupos, especialmente os mais pobres, que antes votavam na esquerda, deixaram de faz&ecirc;-lo. Enquanto a proposta era "vote pela justi&ccedil;a social, pela igualdade, pelo prato de comida na mesa, pelo acesso &agrave; sa&uacute;de e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o", ela fazia sentido tanto para o pobre quanto para quem tinha sensibilidade social. Mas, ao moralizar o voto - por exemplo, pedindo que as pessoas votem contra a transfobia ou a favor do aborto - a esquerda perdeu conex&atilde;o com parte desse p&uacute;blico. Um exemplo claro &eacute; o evang&eacute;lico popular: uma pessoa preta, perif&eacute;rica, frequentemente mulher, que, em teoria, deveria ser um "combo" ideal para a esquerda. Mas, quando a pauta muda de justi&ccedil;a social para quest&otilde;es morais, essa pessoa n&atilde;o se sente mais representada. Ela diz: "Moralmente, estamos em lados opostos. Voc&ecirc; &eacute; progressista, eu sou conservador". Assim, perde-se o terreno comum de di&aacute;logo. A esquerda trocou o discurso de "vote por um prato de comida para todos" pelo de "vote por causas morais". E, nas quest&otilde;es morais, os pobres n&atilde;o est&atilde;o unidos. Com isso, a esquerda perde a capacidade de atrair, apostando no que divide. N&atilde;o digo que essas pautas - de respeito &agrave;s minorias, de avan&ccedil;o nos direitos - n&atilde;o sejam importantes. A quest&atilde;o &eacute; como comunic&aacute;-las. Estamos perdendo a capacidade de criar pontes, de enxergar o que une as pessoas. A esquerda, os progressistas de forma geral, est&atilde;o deixando de ser vistos como a grande inova&ccedil;&atilde;o. E, pior, est&atilde;o perdendo o entendimento do que acontece no mundo. Para mim, isso &eacute; um grande problema. E n&atilde;o afeta apenas o sucesso ou o fracasso eleitoral da esquerda, mas reflete diretamente na qualidade da democracia.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"A democracia exige toler&acirc;ncia, mas, infelizmente, estamos vivendo em uma sociedade onde cada lado v&ecirc; o outro como um inimigo a ser eliminado."</i></b></styled-content></font></p>      ]]></body>
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