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<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240015</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Professor Aziz Ab'Sáber: um geógrafo humanista e profundo conhecedor do Brasil]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Aziz Ab'Sáber]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ciência brasileira]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Professor Aziz Ab'S&aacute;ber: um ge&oacute;grafo humanista e profundo conhecedor do Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vicente Eudes Lemos Alves</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor de Geografia no Instituto de Geoci&ecirc;ncias (IG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz Ab'S&aacute;ber contribuiu ativamente para a ci&ecirc;ncia brasileira em diversas &aacute;reas do conhecimento. Era um pesquisador com forma&ccedil;&atilde;o hol&iacute;stica, sens&iacute;vel aos problemas sociais e profundo conhecedor do territ&oacute;rio brasileiro em suas m&uacute;ltiplas escalas. A sua trajet&oacute;ria na universidade foi marcada por uma postura militante em defesa da democratiza&ccedil;&atilde;o do saber acad&ecirc;mico para todos os segmentos da sociedade, a partir n&atilde;o somente da gera&ccedil;&atilde;o de condi&ccedil;&otilde;es para que os filhos dos trabalhadores pudessem acessar o ensino superior, mas tamb&eacute;m de iniciativas de incentivo &agrave; leitura, essas &uacute;ltimas materializadas pela difus&atilde;o de bibliotecas instaladas em variados lugares da periferia das grandes cidades. A sua produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica se destacou por avan&ccedil;os importantes na ci&ecirc;ncia geogr&aacute;fica, especialmente com aportes metodol&oacute;gicos inovadores no campo da Geomorfologia e na valoriza&ccedil;&atilde;o da interdisciplinaridade, por meio de uma estreita associa&ccedil;&atilde;o entre as quest&otilde;es vinculadas &agrave; din&acirc;mica da natureza e aquelas produzidas pela a&ccedil;&atilde;o humana sobre o meio geogr&aacute;fico. O professor Aziz teve tamb&eacute;m uma atua&ccedil;&atilde;o destacada nas discuss&otilde;es relativas a quest&otilde;es ambientais, na medida em que foi um dos primeiros cientistas brasileiros a ser reconhecido pelo seu papel em defesa da preserva&ccedil;&atilde;o ambiental. Contribuiu com relevantes estudos que ajudaram no aprimoramento da legisla&ccedil;&atilde;o ambiental brasileira e na cria&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas de reservas naturais, j&aacute; prevendo que esse tema da destrui&ccedil;&atilde;o da natureza, empreendida pelo padr&atilde;o de consumo insustent&aacute;vel do sistema capitalista, seria um dos grandes problemas que a humanidade enfrentaria no s&eacute;culo XXI.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Aziz Ab'S&aacute;ber; Ci&ecirc;ncia brasileira; Quest&atilde;o ambiental; Geografia; Geomorfologia.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz Ab'S&aacute;ber apresenta uma importante trajet&oacute;ria intelectual associada &agrave; Geografia, sobretudo &agrave;s Ci&ecirc;ncias da Natureza, mas com forte inclina&ccedil;&atilde;o para as Ci&ecirc;ncias Humanas de maneira geral. Embora ge&oacute;grafo especializado em Geomorfologia, o professor Aziz fazia parte de uma gera&ccedil;&atilde;o de cientistas que se tornou rara nos nossos dias, com forma&ccedil;&atilde;o escolar hol&iacute;stica, caracter&iacute;stica da educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica brasileira at&eacute; os anos 1960. Nesse tipo de educa&ccedil;&atilde;o, valorizava-se a transmiss&atilde;o do conhecimento nos moldes das antigas escolas de forma&ccedil;&atilde;o human&iacute;stica, cuja tradi&ccedil;&atilde;o era preparar as pessoas para a compreens&atilde;o do mundo em sua totalidade, e o saber era considerado constituinte da soma interdisciplinar das diferentes ci&ecirc;ncias. Essa heran&ccedil;a resulta dos ensinamentos das escolas da Gr&eacute;cia Antiga e de v&aacute;rias outras partes do mundo, cujos estudiosos tinham um conhecimento que integrava os diversos campos do saber. Enfim, dedicavam-se a resolver os mist&eacute;rios da vida em todos os seus aspectos, do natural ao social, do universal ao particular. O professor Aziz foi herdeiro dessa orienta&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica e n&atilde;o somente se sensibilizou com o desvendamento das quest&otilde;es relativas &agrave;s leis da natureza, mas tamb&eacute;m se preocupou em entender como a sociedade se organizava com as contradi&ccedil;&otilde;es que nela est&atilde;o instaladas. Essa concep&ccedil;&atilde;o hol&iacute;stica do professor Aziz, demonstrada em seus estudos e em sua postura de entendimento do mundo, esteve associada, do mesmo modo, ao seu processo de forma&ccedil;&atilde;o no ambiente familiar, no ensino b&aacute;sico e, sobretudo, na universidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante a sua vida, o professor Aziz assistiu aos grandes eventos da hist&oacute;ria do Brasil e participou deles. Nascido em 1924, em S&atilde;o Luiz do Paraitinga, no Vale do Para&iacute;ba paulista, filho de liban&ecirc;s, mudou-se para S&atilde;o Paulo ainda jovem, em 1939, para prestar vestibular. Entre os anos 1940 e 1944, frequentou o curso de Hist&oacute;ria e Geografia na antiga Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras (FFCL), da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), onde teve aula n&atilde;o somente com professores de Geografia e Hist&oacute;ria, mas tamb&eacute;m com os de Sociologia, carreiras que ganhavam proje&ccedil;&atilde;o no Brasil com a funda&ccedil;&atilde;o da USP, em 1934. No caso de Geografia e Hist&oacute;ria, os alunos faziam parte de um mesmo curso, cuja grade curricular possu&iacute;a disciplinas das Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais e das Ci&ecirc;ncias Naturais. Essa trajet&oacute;ria fortemente interdisciplinar foi importante para a forma&ccedil;&atilde;o do professor Aziz, por possibilit&aacute;-lo realizar a interface entre as Ci&ecirc;ncias da Natureza e as Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais. Tal interdisciplinaridade se destacou na vida do professor Aziz, e ele fazia quest&atilde;o de refor&ccedil;ar isso em seus textos, aulas, palestras ou entrevistas. Essa postura de valorizar permanentes di&aacute;logos com outras &aacute;reas do conhecimento advinha, em grande medida, segundo ele pr&oacute;prio afirmou em diversas ocasi&otilde;es, da conviv&ecirc;ncia com seus professores e colegas de curso, mas tamb&eacute;m dos encontros com a comunidade geogr&aacute;fica em eventos cient&iacute;ficos e do contato com as pessoas em seus muitos trabalhos de campo, bem como das amizades com distintas pessoas que ele foi construindo ao longo da vida. Entretanto, o per&iacute;odo de sua gradua&ccedil;&atilde;o, conforme deixa transparecer em seu depoimento no livro "O que &eacute; ser ge&oacute;grafo" (2007) &#91;1&#93;, foi o momento em que mais consolidou a sua cren&ccedil;a em um olhar hol&iacute;stico sobre o mundo, assentada na perspectiva interdisciplinar (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe1/a02fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No referido livro, Ab'S&aacute;ber aborda a influ&ecirc;ncia de seus professores do curso para a constitui&ccedil;&atilde;o de sua vis&atilde;o de totalidade sobre o espa&ccedil;o geogr&aacute;fico, em suas diferentes dimens&otilde;es, inclusive a hist&oacute;rica, &agrave; qual ele atribu&iacute;a um peso relevante em suas an&aacute;lises dos fen&ocirc;menos naturais e humanos. Ele sempre destacava o papel da interface entre o tempo e o espa&ccedil;o ou o espa&ccedil;o e o tempo. Na entrevista que concedeu ao "Programa Roda Viva", da TV Cultura, em 1992, convidado para falar da Confer&ecirc;ncia Rio-92, ele ressaltou que o grande desafio da sociedade naquela &eacute;poca era o de ter a capacidade de registrar e restaurar o passado, de fazer diagn&oacute;sticos do presente para pensar o futuro, mas sem descartar o passado. A sua fala era direcionada por sua preocupa&ccedil;&atilde;o com o imediatismo das a&ccedil;&otilde;es humanas na pol&iacute;tica ou na economia, por uma sociedade que caminhava a passos largos para a consolida&ccedil;&atilde;o de um padr&atilde;o econ&ocirc;mico de consumo imediatista e para uma ades&atilde;o ao neoliberalismo, sendo que, em ambos os aspectos, o mundo escalava n&iacute;veis inaceit&aacute;veis de apropria&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais, mostrando-se predat&oacute;rios e insustent&aacute;veis. O professor Aziz fazia cr&iacute;tica, sobretudo, ao planejamento de curto prazo, o qual, segundo ele, era ineficaz, porque n&atilde;o projetava as a&ccedil;&otilde;es em uma escala de tempo ampliada; ele acreditava que pensar em uma pol&iacute;tica de planejamento somente teria efeitos positivos se fosse poss&iacute;vel considerar o tempo ecol&oacute;gico, ou seja, o de longa dura&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz sempre nos relembrava, em suas falas, de que os anos iniciais na USP foram vividos com muitas descobertas e muita dedica&ccedil;&atilde;o aos estudos, com frequ&ecirc;ncia ass&iacute;dua &agrave;s bibliotecas. Durante o per&iacute;odo da gradua&ccedil;&atilde;o e da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, ele manteve muito contato com seus professores e tinha especial admira&ccedil;&atilde;o por aqueles da miss&atilde;o francesa que vieram ao Brasil para ministrar disciplinas no curso de Hist&oacute;ria e Geografia, mas tamb&eacute;m por outros professores que foram lecionar na ent&atilde;o capital federal, Rio de Janeiro, ou, ainda, pelos que fizeram visitas ao pa&iacute;s entre os anos 1940 e 1950 por diferentes motivos. No primeiro grupo, destacam-se Roger Dion, Pierre Monbeig e Emmanuel de Martonne; no segundo, Max Sorre, Jean Dresch, Andr&eacute; Cailleux, Francis Ruellan e Jean Tricart. Conforme o professor Aziz, esses pesquisadores marcaram a sua vida nesse momento inicial de sua forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, e deles herdou o rigor metodol&oacute;gico de an&aacute;lise das paisagens e dos processos que as constroem. Entretanto, os di&aacute;logos se estenderam tamb&eacute;m para os seus colegas uspianos e para outras pessoas que interagiam com ele em congressos de Geografia e em trabalhos de campo - com muitos deles se tornando, at&eacute; mesmo, interlocutores durante toda a sua vida. O professor Florestan Fernandes foi um deles, visto que os dois cursaram a mesma Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras, um no curso de Hist&oacute;ria e Geografia e o outro no de Sociologia. Fernandes se tornou, inclusive, um professor da USP e refer&ecirc;ncia nos estudos de Sociologia brasileira. Ab'S&aacute;ber atribuiu &agrave; conviv&ecirc;ncia com Florestan Fernandes o incentivo a estabelecer um olhar atento aos problemas socioecon&ocirc;micos e &agrave;s desigualdades do Brasil e, em particular, a uma melhor compreens&atilde;o sobre as diferen&ccedil;as culturais do pa&iacute;s, a partir, sobretudo, dos ensinamentos da Antropologia, ci&ecirc;ncia que ele conferia um peso importante na sua forma&ccedil;&atilde;o e que tamb&eacute;m contribuiu para subsidiar as suas an&aacute;lises do espa&ccedil;o urbano - um tema recorrente nos seus textos, embora, como dissemos, ele tenha se dedicado, predominantemente, aos estudos da Geomorfologia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>As pesquisas e a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica do professor Aziz Ab'S&aacute;ber tem grande relev&acirc;ncia para v&aacute;rios campos do saber cient&iacute;fico e vem carregada de inova&ccedil;&otilde;es no uso do m&eacute;todo para analisar quest&otilde;es associadas &agrave; din&acirc;mica da natureza e da rela&ccedil;&atilde;o dos seres humanos com o seu meio. Conhecedor como poucos do territ&oacute;rio brasileiro em suas m&uacute;ltiplas escalas, o professor Aziz Ab'S&aacute;ber foi um dos precursores, em parceria com o professor e zo&oacute;logo Paulo Em&iacute;lio Vanzolini, da teoria dos ref&uacute;gios para o entendimento dos dom&iacute;nios morfoclim&aacute;ticos e fitogeogr&aacute;ficos do Brasil - teoria importante que visa explicar a evolu&ccedil;&atilde;o e a din&acirc;mica de determinados ambientes naturais do territ&oacute;rio nacional. A bem da verdade, ele sempre dizia haver duas teorias que eram complementares, a dos ref&uacute;gios, de Vanzolini, e a dos redutos, dele. O fato &eacute; que, com os estudos abarcando tais teorias, que se complementam, houve um grande avan&ccedil;o para o conhecimento sobre fragmentos florestais remanescentes que continuaram existindo, em pequenos tipos de flora e fauna, em &aacute;reas de outro dom&iacute;nio morfoclim&aacute;tico, sendo eles registros que indicam as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas pelas quais o planeta Terra passou. Ou seja, em um determinado dom&iacute;nio que atualmente predomina clima tropical &uacute;mido, com presen&ccedil;a de florestas tropicais, h&aacute; perman&ecirc;ncia de fragmentos de vegeta&ccedil;&atilde;o ou animais t&iacute;picos de dom&iacute;nio de caatinga, sendo isso um indicador de que naquela &aacute;rea j&aacute; teria ocorrido uma situa&ccedil;&atilde;o de clima seco. Quanto &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da teoria dos redutos, o professor a considerava como resultado de uma influ&ecirc;ncia dos m&eacute;todos de estudos adotados pelo ge&oacute;grafo Jean Tricart, o qual, segundo o pr&oacute;prio Ab'S&aacute;ber enfatizava, foi o pesquisador que mais inspirou a sua carreira acad&ecirc;mica na Geografia (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe1/a02fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse estudo pioneiro da teoria dos ref&uacute;gios/redutos foi acompanhado de muitos outros do professor Aziz, tratando de temas com interface entre as Ci&ecirc;ncias Naturais e as Humanas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz Ab'S&aacute;ber deu uma expressiva contribui&ccedil;&atilde;o para a moderniza&ccedil;&atilde;o do pensamento geogr&aacute;fico brasileiro. A sua gera&ccedil;&atilde;o, e ele foi um dos expoentes dela, colaborou para a transforma&ccedil;&atilde;o da Geografia de uma ci&ecirc;ncia descritiva para outra mais anal&iacute;tica. O aporte do professor para a constru&ccedil;&atilde;o de outra concep&ccedil;&atilde;o de Geografia, que se difundiu para todos os n&iacute;veis de ensino da disciplina, ocorreu por ele considerar, em seus estudos, que a paisagem era um corpo din&acirc;mico da superf&iacute;cie terrestre, a qual resultava de processos fisiogr&aacute;ficos e biol&oacute;gicos em constante intera&ccedil;&atilde;o. Tais ideias foram muito importantes para a constru&ccedil;&atilde;o de novas abordagens sobre a natureza, especialmente no que diz respeito &agrave;s fei&ccedil;&otilde;es paisag&iacute;sticas e ecol&oacute;gicas do territ&oacute;rio brasileiro. Segundo o professor Aziz, o modelamento e as modifica&ccedil;&otilde;es de tais fei&ccedil;&otilde;es, que resultam da a&ccedil;&atilde;o de agentes naturais end&oacute;genos e ex&oacute;genos, podiam se diferenciar segundo o grau de especificidades definidas pelos tipos particulares de relevo, solo, vegeta&ccedil;&atilde;o e condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;tico-hidrol&oacute;gicas, constituindo uma integra&ccedil;&atilde;o paisag&iacute;stica e ecol&oacute;gica do territ&oacute;rio nacional. Isto &eacute;, a coer&ecirc;ncia no interior de um conjunto de fei&ccedil;&otilde;es geomorfol&oacute;gicas e clim&aacute;tico-bot&acirc;nicas, dada pelas especificidades apontadas anteriormente, definia uma &aacute;rea nuclear, de "certa dimens&atilde;o e arranjo, em que as condi&ccedil;&otilde;es fisiogr&aacute;ficas e biogeogr&aacute;ficas formam um complexo relativamente homog&ecirc;neo e extensivo", conforme apontou em um de seus livros, "Os dom&iacute;nios de natureza no Brasil<i>"</i> (2003) &#91;2&#93;. Tais dom&iacute;nios, que o professor Aziz chamou de "Grandes Dom&iacute;nios Paisag&iacute;sticos Brasileiros", conformavam um mosaico paisag&iacute;stico e ecol&oacute;gico do territ&oacute;rio brasileiro. Desses estudos, derivou uma classifica&ccedil;&atilde;o dos grandes conjuntos naturais do pa&iacute;s, bastante difundida em diversas &aacute;reas da Geografia - do ensino &agrave; Geografia Aplicada - denominada "dom&iacute;nio morfoclim&aacute;tico e fitogeogr&aacute;fico" do Brasil. Entre um dom&iacute;nio e outro, entretanto, h&aacute; uma faixa de contato, a qual indica a ocorr&ecirc;ncia de uma transi&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica com caracter&iacute;sticas ambientais espec&iacute;ficas. O professor Aziz foi tamb&eacute;m um pioneiro na identifica&ccedil;&atilde;o dessas &aacute;reas, as quais chamou de "interespa&ccedil;o de transi&ccedil;&atilde;o e contato", onde existe uma "combina&ccedil;&atilde;o diferente de vegeta&ccedil;&atilde;o, solos e formas de relevo", comparativamente ao dom&iacute;nio de cada lado da faixa de transi&ccedil;&atilde;o. Essa proposta de classifica&ccedil;&atilde;o dos dom&iacute;nios morfoclim&aacute;ticos brasileiros com suas faixas de transi&ccedil;&atilde;o, juntamente com o material cartogr&aacute;fico elaborado, constitui um rico acervo did&aacute;tico, amplamente utilizado por distintas &aacute;reas do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m da contribui&ccedil;&atilde;o do professor Aziz Ab'S&aacute;ber para a Geografia F&iacute;sica e para outros campos das Ci&ecirc;ncias da Natureza, seus estudos tamb&eacute;m tiveram impactos nas Ci&ecirc;ncias Humanas. No campo da Geografia Humana, dedicou uma parte de suas pesquisas para a compreens&atilde;o da interfer&ecirc;ncia do homem no ambiente natural. Nesse sentido, uma de suas preocupa&ccedil;&otilde;es incidia sobre o papel da urbaniza&ccedil;&atilde;o como fator de altera&ccedil;&atilde;o da natureza e os seus reflexos sobre o conjunto da sociedade; ele buscava compreender especialmente de que maneira o crescimento urbano desordenado produzia exclus&atilde;o e perigos para as pessoas que habitavam as vertentes &iacute;ngremes e as v&aacute;rzeas inund&aacute;veis das cidades (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe1/a02fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com o enfoque na Geografia Urbana, o professor Aziz escreveu v&aacute;rios trabalhos versando sobre as cidades de Salvador, Porto Alegre, Manaus e S&atilde;o Paulo. No que se refere a essa &uacute;ltima, fez relevantes reflex&otilde;es sobre o s&iacute;tio urbano de S&atilde;o Paulo, descrevendo e analisando as diferentes regi&otilde;es da cidade. Em sua tese de doutorado "A geomorfologia do s&iacute;tio urbano de S&atilde;o Paulo" &#91;3&#93;, defendida em 1957 e publicada posteriormente em forma de livro, estudou, por exemplo, a ocupa&ccedil;&atilde;o da plan&iacute;cie do rio Tiet&ecirc; com suas colinas no entorno, quando o rio ainda era meandrante e sua plan&iacute;cie de inunda&ccedil;&atilde;o era uma v&aacute;rzea coberta de pastos, onde os animais de servi&ccedil;o se alimentavam, frequentemente muares que transportavam em suas carro&ccedil;as mercadorias para o centro da cidade. Nessas &aacute;reas tamb&eacute;m havia, al&eacute;m dos clubes de regatas e nata&ccedil;&atilde;o, os campos de futebol de v&aacute;rzea, chamados "campos de v&aacute;rzea", de onde vieram a maioria dos tradicionais clubes da capital e importantes jogadores do futebol paulista. Essa cidade do passado, segundo o professor Aziz, se transformou, com o seu avan&ccedil;o acelerado da urbaniza&ccedil;&atilde;o, na maior bacia urbana do Hemisf&eacute;rio Sul. Isto &eacute;, S&atilde;o Paulo passava de uma cidade que, nos anos 1950, ainda era um n&uacute;cleo urbano de extens&atilde;o restrita, assentado sobre colinas, terra&ccedil;os fluviais e plan&iacute;cies de inunda&ccedil;&atilde;o, a outra, muito distinta e mais din&acirc;mica economicamente, mas tamb&eacute;m com os diversos problemas de ocupa&ccedil;&atilde;o que foram se sucedendo &agrave; medida que o tecido urbano se alargava, tendo como motor o processo especulativo imobili&aacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma vida dedicada &agrave; ci&ecirc;ncia e &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da cidadania</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica e humanista do professor Aziz foi tamb&eacute;m inspirada na produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria, especialmente a de car&aacute;ter regional. Ele fazia quest&atilde;o de se lembrar de que a leitura de importantes romancistas representava o passaporte para o resgate de uma gama de elementos presentes na paisagem e que as narrativas permitiam explicar a Geografia no seu sentido mais amplo, incluindo tanto a natureza quanto o homem. Foi um leitor atento dos seguintes romances: "Os Sert&otilde;es", de Euclides da Cunha; "Vidas Secas", de Graciliano Ramos; "Capit&atilde;es da Areia" e "Jubiab&aacute;", de Jorge Amado, entre muitos outros. Algumas dessas obras destacam a din&acirc;mica da natureza do clima semi&aacute;rido, mas tamb&eacute;m abordam as mazelas humanas, com as grandes desigualdades sociais, em regi&otilde;es marcadas pela concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra e pela explora&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o mais pobre - contrastes semelhantes ao que o professor Aziz verificou em seus trabalhos de campo tanto no s&iacute;tio urbano de S&atilde;o Paulo, quando a cidade se transformou em uma grande metr&oacute;pole, quanto nos distintos lugares do Brasil.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz tinha um conhecimento muito detalhado do territ&oacute;rio brasileiro e de suas din&acirc;micas naturais e de ocupa&ccedil;&atilde;o humana, decorrente de seus estudos acad&ecirc;micos e de suas muitas viagens realizadas pelo pa&iacute;s. Os trabalhos de campo come&ccedil;aram desde muito cedo na sua forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria; as primeiras disciplinas cursadas na USP, sobretudo aquelas ministradas pelos professores franceses, utilizavam esse recurso did&aacute;tico para o estudo da paisagem, na medida em que essa era uma tradi&ccedil;&atilde;o da Geografia Possibilista, de forte influ&ecirc;ncia nos cursos de Geografia na Europa, especialmente na Fran&ccedil;a. O primeiro trabalho de campo realizado no seu curso ocorreu com a disciplina ministrada pelo professor Pierre Monbeig e, segundo Ab'S&aacute;ber, seria definidor de sua vida acad&ecirc;mica, porque a partir dele p&ocirc;de tomar gosto pelas viagens para a observa&ccedil;&atilde;o da paisagem. Durante a gradua&ccedil;&atilde;o, somente conseguiu viajar pelo estado de S&atilde;o Paulo, mas, com a finaliza&ccedil;&atilde;o de seu curso e j&aacute; estudando na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, foi poss&iacute;vel ampliar a sua escala de conhecimento do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz relatou, no j&aacute; mencionado livro "O que &eacute; ser ge&oacute;grafo", que uma viagem que lhe marcou muito aconteceu em 1947, quando ele e seu amigo Miguel Costa Jr. - filho de um dos comandantes da Coluna Prestes, Miguel Costa - partiram para o Brasil Central, rumo &agrave;s cidades de Aragar&ccedil;as (Goi&aacute;s) e Barra do Gar&ccedil;a (Mato Grosso), situadas na conflu&ecirc;ncia dos rios Araguaia e Gar&ccedil;as. Al&eacute;m de terem conhecido novas &aacute;reas em outros estados, ampliando o seu leque de observa&ccedil;&otilde;es sobre as paisagens f&iacute;sicas e humanas, o mais interessante foi a maneira como os dois viajantes chegaram ao sert&atilde;o central do Brasil: deslocaram-se de trem at&eacute; Uberl&acirc;ndia (Minas Gerais) e depois partiram para Mato Grosso na carroceria de um caminh&atilde;o, na qual se equilibravam, durante a viagem, sobre sacos de sal, a&ccedil;&uacute;car e feij&atilde;o.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"O professor Aziz tinha um conhecimento muito detalhado do territ&oacute;rio brasileiro e de suas din&acirc;micas naturais e de ocupa&ccedil;&atilde;o humana, decorrente de seus estudos acad&ecirc;micos e de suas muitas viagens realizadas pelo pa&iacute;s."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em outra viagem, n&atilde;o menos aventureira, o professor Aziz se deslocou com o tamb&eacute;m seu amigo, o bi&oacute;logo e ocean&oacute;grafo Wladimir Besnard, para a cidade de Manaus (Amazonas), conhecendo pela primeira vez a Amaz&ocirc;nia. Sobre essa viagem, Ab'S&aacute;ber fez tamb&eacute;m relatos engra&ccedil;ados da aventura que foi chegar &agrave; cidade manauara. Segundo ele, o deslocamento de S&atilde;o Paulo para Manaus ocorreu em uma "fortaleza voadora", nome que se atribu&iacute;a aos antigos avi&otilde;es da Segunda Guerra Mundial, cedidos para a For&ccedil;a A&eacute;rea Brasileira (FAB) pelo governo dos Estados Unidos. Entretanto, como relatou o professor no livro referido, a aeronave, cujos pilotos ainda estavam em treinamento, com muito custo conseguiu chegar a Salvador (Bahia), onde os passageiros fariam uma escala de voo. Ao aterrissar na capital baiana, a aeronave teve problemas el&eacute;tricos e somente foi consertada com a troca de pe&ccedil;as de outra aeronave, n&atilde;o muito mais moderna. De acordo com o professor, os mec&acirc;nicos fizeram uma verdadeira "gambiarra" para colocar o avi&atilde;o no ar novamente, seguindo rumo a Manaus, mas n&atilde;o sem antes realizar mais uma escala em Bel&eacute;m (Par&aacute;). O mais engra&ccedil;ado &eacute; que ele e o amigo fizeram a viagem inteira em um espa&ccedil;o muito apertado, localizado no bico da aeronave. Mesmo com todas essas aventuras, o professor Aziz reconhecia que essas duas viagens foram extremamente ricas, por revelarem um Brasil complexo, no que diz respeito tanto &agrave; natureza quanto &agrave;s pessoas em seus lugares de vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz obteve reconhecimento tamb&eacute;m por seus estudos e atua&ccedil;&otilde;es em favor da causa ambiental. No Brasil, foi um dos primeiros a ser reconhecido como ambientalista, por sua obstina&ccedil;&atilde;o pela preserva&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas naturais, j&aacute; prevendo que esse seria um dos grandes problemas que a humanidade enfrentaria no final do s&eacute;culo XX e nas primeiras d&eacute;cadas deste novo mil&ecirc;nio. Quando foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), de 1993 a 1995, conclamava os pesquisadores brasileiros &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de estudos que tivessem um car&aacute;ter interdisciplinar, bem como os alertava sobre a aten&ccedil;&atilde;o que deveriam ter com as nossas riquezas naturais, em um momento em que essa quest&atilde;o ainda n&atilde;o despertava grande interesse da sociedade brasileira. Foi, nesse sentido, um defensor da Amaz&ocirc;nia e do uso racional dos seus recursos naturais. Com essa mesma &ecirc;nfase, defendeu, nos anos 1990, que n&atilde;o ocorresse a privatiza&ccedil;&atilde;o da ent&atilde;o Companhia Vale do Rio Doce, pois acreditava que aquela empresa estatal era um patrim&ocirc;nio da sociedade brasileira, que estava sendo usurpado pelos representantes do neoliberalismo, sem que estes esbo&ccedil;assem qualquer compromisso pelo bem-estar da nossa popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em outros epis&oacute;dios, o professor Aziz tamb&eacute;m convocava os pol&iacute;ticos, e os brasileiros em geral, para defenderem o patrim&ocirc;nio natural brasileiro e para proporcionarem uma vida digna &agrave; popula&ccedil;&atilde;o mais sofrida, revela&ccedil;&otilde;es feitas a partir das diversas viagens que realizou ao lado do ent&atilde;o candidato a presidente da rep&uacute;blica Luiz In&aacute;cio Lula da Silva pelos rinc&otilde;es deste pa&iacute;s, na denominada "Caravana da Cidadania", no final dos anos 1990 e in&iacute;cio dos 2000.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No que diz respeito a essa quest&atilde;o da preserva&ccedil;&atilde;o ambiental, o professor Aziz atuou al&eacute;m da universidade, com influ&ecirc;ncia em &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, com proposi&ccedil;&atilde;o relevante para a execu&ccedil;&atilde;o de planejamentos de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Por exemplo, durante a sua r&aacute;pida gest&atilde;o (de 1982 a 1983) na presid&ecirc;ncia do Conselho de Defesa do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico, Arqueol&oacute;gico, Art&iacute;stico e Tur&iacute;stico do Estado de S&atilde;o Paulo (CONDEPHAAT), o professor contribuiu para dar continuidade &agrave; proposi&ccedil;&atilde;o de pautas associadas ao tombamento de &aacute;reas naturais e foi enf&aacute;tico na defesa de que no referido &oacute;rg&atilde;o houvesse uma equipe t&eacute;cnica de apoio aos estudos de tombamento de &aacute;reas naturais, o que aconteceu na gest&atilde;o seguinte &agrave; sua presid&ecirc;ncia no CONDEPHAAT. Essa demanda de Ab'S&aacute;ber foi realizada sob a gest&atilde;o do professor Antonio Augusto Arantes, de 1983 a 1984, com a nomea&ccedil;&atilde;o, em 1983, de tal equipe, a qual, a partir daquele momento, ficou encarregada de apresentar estudos de viabilidade de tombamento de &aacute;reas ambientalmente protegidas em S&atilde;o Paulo, com elas servindo de refer&ecirc;ncia ao patrim&ocirc;nio paisag&iacute;stico tombado do estado. Foi o caso, na &eacute;poca, do avan&ccedil;o das discuss&otilde;es, no referido conselho, sobre o tombamento do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), cuja proposta se concretizou em 1985. No entanto, foi na gest&atilde;o do professor Aziz que ocorreram os principais encaminhamentos para a concretiza&ccedil;&atilde;o dessa importante iniciativa. Antes disso, em 1983, houve o tombamento de outras &aacute;reas naturais, tais como o Parque Estadual da Serra da Cantareira e o da Serra do Japi, no estado de S&atilde;o Paulo, iniciativas que contaram com a participa&ccedil;&atilde;o ativa de Ab'S&aacute;ber. O tombamento de &aacute;reas naturais, que se repetiu em diversas outras nos anos seguintes, significou a prote&ccedil;&atilde;o de importantes remanescentes de Mata Atl&acirc;ntica e tamb&eacute;m contribuiu para a conten&ccedil;&atilde;o da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria e de outros interesses econ&ocirc;micos por esses espa&ccedil;os, evitando, assim, que ocorressem grandes interven&ccedil;&otilde;es decorrentes da expans&atilde;o urbana, da explora&ccedil;&atilde;o mineral e de outros mecanismos de apropria&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas naturais paulistas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O professor Aziz pertencia a um grupo de expoentes intelectuais que n&atilde;o via a academia apenas como um lugar de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento destinada a uma parcela privilegiada da popula&ccedil;&atilde;o ou a poucas empresas hegem&ocirc;nicas, mas acreditava que a universidade deveria cumprir o seu papel social de produzir conhecimento tamb&eacute;m para os exclu&iacute;dos, exatamente para aqueles que mais necessitavam dos avan&ccedil;os conquistados pela academia. Por isso, ele pregava uma democratiza&ccedil;&atilde;o desse espa&ccedil;o de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando os saberes produzidos para os diversos cantos do pa&iacute;s. Essa democratiza&ccedil;&atilde;o, entretanto, passava tamb&eacute;m, conforme avaliava, pelo acesso dos filhos de trabalhadores &agrave; universidade e, nesse sentido, ele foi um incans&aacute;vel defensor de melhorias nas escolas p&uacute;blicas do ensino b&aacute;sico, por acreditar que essa seria a melhor alternativa para que o Brasil verdadeiramente se transformasse em uma na&ccedil;&atilde;o. Foi com esse esp&iacute;rito humanista e de sensibilidade social que ele tamb&eacute;m se juntou aos movimentos sociais, buscando apoi&aacute;-los em suas manifesta&ccedil;&otilde;es, especialmente naquelas que davam a esses movimentos mais possibilidades de exercerem a sua cidadania, conquista que, segundo ele, necessariamente passava pela escola e pela leitura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O acesso das pessoas ao livro, por exemplo, foi uma das suas buscas obstinadas. Ele considerava que a leitura poderia seduzir as pessoas para que valorizassem o conhecimento de maneira integrada, na medida em que ela ajudaria os seres humanos a alcan&ccedil;arem novas descobertas e a se emanciparem das amarras das classes dominantes. Por isso, empreendeu uma luta para ampliar os canais de leitura tanto na universidade quanto nas periferias das grandes cidades, especialmente no estado de S&atilde;o Paulo. Durante muitos anos auxiliou a instala&ccedil;&atilde;o de bibliotecas comunit&aacute;rias em associa&ccedil;&otilde;es de bairro, em cursinhos pr&eacute;-vestibulares nas periferias urbanas, em &aacute;reas debaixo dos viadutos, em penitenci&aacute;rias, em escolas de samba, em quadras de torcidas organizadas de futebol etc. Essa li&ccedil;&atilde;o de cidadania foi outro legado importante deixado pelo professor Aziz para esta e as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es de brasileiros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A Geografia em sala</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mesma dedica&ccedil;&atilde;o que tinha em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pesquisa, ao trabalho de difundir as atividades de leitura ou &agrave; defesa da nossa biodiversidade, o professor Aziz tamb&eacute;m demonstrava em rela&ccedil;&atilde;o ao ensino de Geografia. Preocupou-se sempre em tornar mais acess&iacute;veis &agrave;s pessoas os estudos produzidos por ele, por meio de, por exemplo, materiais did&aacute;ticos que pudessem ser utilizados no ensino da disciplina.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"No que diz respeito a essa quest&atilde;o da preserva&ccedil;&atilde;o ambiental, o professor Aziz atuou al&eacute;m da universidade, com influ&ecirc;ncia em &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, com proposi&ccedil;&atilde;o relevante para a execu&ccedil;&atilde;o de planejamentos de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os seus textos e cadernos de atividades voltados para essa &aacute;rea eram cuidadosamente preparados e com frequ&ecirc;ncia apresentavam textos de f&aacute;cil entendimento e com muitas ilustra&ccedil;&otilde;es (perfis topogr&aacute;ficos, bloco-diagramas, desenhos esquem&aacute;ticos, fotografias, mapas etc.), para que o leitor pudesse compreender de maneira mais agrad&aacute;vel a teoria. A lousa utilizada em suas aulas era sempre bem ilustrada, com desenhos representando formas de relevo, esquemas de vegeta&ccedil;&atilde;o e de bacias hidrogr&aacute;ficas com as orienta&ccedil;&otilde;es dos cursos d'&aacute;gua etc. A capacidade de desenhar era uma heran&ccedil;a que ele carregava desde o ensino b&aacute;sico, quando teve uma professora de desenho que o incentivou nessa habilidade. Ali&aacute;s, segundo ele, foi essa habilidade que possibilitou o seu ingresso no vestibular da USP: foi uma nota mais elevada nessa &aacute;rea do conhecimento que lhe permitiu a segunda coloca&ccedil;&atilde;o na prova geral de ingresso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como professor, tamb&eacute;m manteve uma postura exemplar em suas aulas na universidade, em palestras ministradas ou em qualquer outra situa&ccedil;&atilde;o em que ele era chamado para expor suas ideias. N&atilde;o fazia distin&ccedil;&atilde;o se o local era uma universidade renomada ou um pequeno sal&atilde;o coberto por lona, se era para alunos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o ou para jovens de cursinhos pr&eacute;-vestibulares populares da periferia, a postura sempre foi a mesma, e com o mesmo entusiasmo discutia seus apontamentos. Al&eacute;m disso, era extremamente acess&iacute;vel em sala de aula ou nas atividades de que participava fora da universidade. Dificilmente ele se recusava a atender a um convite para uma palestra em universidades ou para participar de eventos p&uacute;blicos na periferia das grandes cidades. &Agrave;s vezes ele se deslocava de transporte p&uacute;blico at&eacute; o local da atividade, onde costumava levar pessoalmente os livros para as bibliotecas comunit&aacute;rias. Ao chegar aos lugares, logo interagia com as outras pessoas. Percebia-se que a maior alegria dele nessas ocasi&otilde;es era quando algu&eacute;m perguntava algo sobre algum assunto que estudou durante a sua vida; isso era motivo para estabelecer um longo di&aacute;logo, que, &agrave;s vezes, se estendia por horas em divertidas conversas, sem que ele demonstrasse qualquer arrog&acirc;ncia sobre o seu profundo conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A erudi&ccedil;&atilde;o era ponto de destaque em suas aulas, sem, entretanto, que a an&aacute;lise de uma teoria se transformasse em algo que pudesse caminhar para a incompreens&atilde;o de seus alunos e/ou ouvintes. Ab'S&aacute;ber tinha uma did&aacute;tica invej&aacute;vel. Nas suas exposi&ccedil;&otilde;es, eram transmitidos os conceitos de determinados fen&ocirc;menos f&iacute;sicos ou humanos com todo o rigor acad&ecirc;mico, mas tamb&eacute;m para ensin&aacute;-los recorria a situa&ccedil;&otilde;es do cotidiano, contadas frequentemente com muito bom humor. Eram recorrentes em suas exposi&ccedil;&otilde;es refer&ecirc;ncias de experi&ecirc;ncias vividas nas muitas viagens que realizou pelo Brasil e pelo mundo, de sua inf&acirc;ncia em S&atilde;o Luiz do Paraitinga ou da vida de seus familiares que vieram do L&iacute;bano, muitas vezes contadas com riqueza de detalhes e de um jeito engra&ccedil;ado.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>"Ele pregava uma democratiza&ccedil;&atilde;o desse espa&ccedil;o de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando os saberes produzidos para os diversos cantos do pa&iacute;s."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa maneira de ensinar do professor Ab'S&aacute;ber, combinada com o seu amplo conhecimento te&oacute;rico e emp&iacute;rico das din&acirc;micas geogr&aacute;ficas, especialmente do territ&oacute;rio brasileiro, fazia com que as salas de aula, os anfiteatros ou qualquer outro recinto estivessem sempre lotados por distintos tipos de p&uacute;blicos, sobretudo por jovens estudantes que viam no discurso do velho professor a proposi&ccedil;&atilde;o de quest&otilde;es muito atuais sobre os problemas do mundo contempor&acirc;neo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma breve conclus&atilde;o</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; poss&iacute;vel concluir que Aziz Ab'S&aacute;ber deixou legados importantes para esta e as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es de brasileiros no campo da ci&ecirc;ncia, da educa&ccedil;&atilde;o e do acesso &agrave; cidadania. No campo do conhecimento cient&iacute;fico, aportou importantes ensinamentos, especialmente &agrave;s Ci&ecirc;ncias da Natureza e &agrave;s Ci&ecirc;ncias Humanas, com destaque para a Geografia e a Biologia. No caso da Geografia, trouxe grandes contribui&ccedil;&otilde;es para os estudos dessa disciplina, a partir da constru&ccedil;&atilde;o de reflex&otilde;es te&oacute;ricas, amparadas em estudos emp&iacute;ricos de suas incont&aacute;veis viagens pelo territ&oacute;rio brasileiro, que valorizavam os processos din&acirc;micos na constru&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o geogr&aacute;fico, transformado tanto pela a&ccedil;&atilde;o da natureza quanto pela sociedade humana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sua hist&oacute;ria &eacute; um exemplo para as novas gera&ccedil;&otilde;es de pesquisadores, uma demonstra&ccedil;&atilde;o de que o conhecimento produzido nas universidades n&atilde;o pode ser para poucos e muito menos ocorrer de maneira fragmentada pela hiperespecializa&ccedil;&atilde;o e pelo carreirismo acad&ecirc;mico, t&atilde;o comuns nos dias de hoje na universidade, sendo ela cada vez mais burocr&aacute;tica e produtivista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No &acirc;mbito da Geografia, &eacute; um alerta para os jovens estudantes desse campo do conhecimento, muitos deles refrat&aacute;rios &agrave;s viagens aos rinc&otilde;es do pa&iacute;s ou &agrave;s periferias das grandes cidades, &agrave;s vezes simplesmente pelo desinteresse em conhecer as realidades do Brasil e dos pa&iacute;ses pobres, as quais s&atilde;o permeadas por seus diversos contrastes, mas que s&atilde;o elucidativas dos processos contradit&oacute;rios, naquilo que o professor Aziz chamava de falta de &eacute;tica dos grandes agentes econ&ocirc;micos, que s&oacute; pensam no lucro e que s&atilde;o geradores de mis&eacute;ria de uma parcela cada vez maior da nossa sociedade. Em outras situa&ccedil;&otilde;es os jovens estudantes s&atilde;o inibidos aos trabalhos de campo, motivados pela cultura do medo, t&atilde;o presente atualmente, difundida pelos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o. A esses futuros ge&oacute;grafos, termino este texto <a name="1a"></a><sup>&#91;<a href="#1b">i</a>&#93;</sup> com uma passagem do depoimento do professor Aziz a respeito do que ele pensava sobre a arte e a &eacute;tica na Geografia:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Toda vez que o conhecimento geogr&aacute;fico &eacute; projetado para um conjunto de pessoas que vai trabalhar com planejamento, ele passa a ser altamente &eacute;tico e humanit&aacute;rio. S&atilde;o os ge&oacute;grafos que cuidam das rela&ccedil;&otilde;es entre os homens, comunidades, sociedades e meio ambiente em que esses componentes b&aacute;sicos do planeta, junto com a vida vegetal e animal, t&ecirc;m o seu habitat" (Ab'S&aacute;ber, 2007, p. 145) &#91;3&#93;.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Nota</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a>&#91;<a href="#1a">i</a>&#93; Este artigo &eacute; baseado nos textos originalmente publicados na revista "Carta Capital", de 27 nov. 2015, e no livro "Caminhos de Ab'S&aacute;ber. Caminhos do Brasil" &#91;4&#93;, de 2013.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Ab'S&aacute;ber, A. N. <i>O que &eacute; ser ge&oacute;grafo</i>: mem&oacute;rias profissionais de Aziz Ab'S&aacute;ber. Rio de Janeiro: Record, 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Ab'S&aacute;ber, A. N. <i>Os dom&iacute;nios de natureza no Brasil</i>: potencialidades paisag&iacute;sticas. S&atilde;o Paulo: Ateli&ecirc; Editorial, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Ab'S&aacute;ber, A. N. <i>Geomorfologia do s&iacute;tio urbano de S&atilde;o Paulo</i>. Cotia-SP: Ateli&ecirc; Editorial, 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Silvia, M. A.; Ramos, I.; Cordeiro, P. R. <i>Caminhos de Ab'S&aacute;ber</i>. Caminhos do Brasil. Salvador: Edufba, 2013.    </font></p>      ]]></body><back>
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