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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240088</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Berta Ribeiro no Noroeste Amazônico]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Povos indígenas do Alto Rio Negro]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Berta Ribeiro no Noroeste Amaz&ocirc;nico</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Renato Athias</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia e coordenador do N&uacute;cleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE) do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1978, Berta Ribeiro realizou uma investiga&ccedil;&atilde;o inovadora na regi&atilde;o do Alto Rio Negro, Amazonas, sobre a arte do tra&ccedil;ado em folhas e palhas entre os povos ind&iacute;genas. Esta pesquisa contribuiu enormente para os campos disciplinares da antropologia e da museologia, integrando conhecimentos etnogr&aacute;ficos e promovendo a divulga&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas tradicionais culturais. A documenta&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica, realizada por essa importante investiga&ccedil;&atilde;o, gerou um reposit&oacute;rio significativo das tecnologias ind&iacute;genas no uso das palhas e fibras. Esses conhecimentos fazem parte do saber fazer dos povos ind&iacute;genas dessa regi&atilde;o at&eacute; a presente data, e foram fundamentais para sua sobreviv&ecirc;ncia f&iacute;sica e cultural.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Povos ind&iacute;genas do Alto Rio Negro; Berta Ribeiro; Antropologia; Museus; Palhas; Cultura material.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pre&acirc;mbulo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Encontrei pela primeira vez com Berta Ribeiro em 1978, em Iauaret&ecirc;, na regi&atilde;o do Alto Rio Negro, na bacia hidrogr&aacute;fica do rio Uaup&eacute;s. Eu estava, nesta ocasi&atilde;o, a convite dos Salesianos, organizando treinamentos para que os alunos da Escola pudessem estabelecer grupos de alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos em seus respectivos povoados. Era essa a ideia para fazer com que todos pudessem ler e escrever minimamente o portugu&ecirc;s. Evidentemente, para miss&atilde;o, esses grupos tinham muito sentido, pois poderiam aumentar o n&uacute;mero de pessoas que teriam conhecimentos suficientes na leitura da literatura mission&aacute;ria, a &uacute;nica impressa existente at&eacute; ent&atilde;o, em todo este imenso territ&oacute;rio da regi&atilde;o do m&eacute;dio e alto Rio Uaup&eacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ent&atilde;o o Salesiano, diretor da miss&atilde;o, durante o almo&ccedil;o, informou a todos que ele recebera duas mulheres antrop&oacute;logas, do Museu Nacional, Berta Ribeiro e Janet Chernela, haviam chegado na Miss&atilde;o. Berta Ribeiro h&aacute; uns meses havia-me escrito uma carta informando que ela estaria chegando nesta regi&atilde;o para realizar uma pesquisa sobre o que ela chamava a arte do tra&ccedil;ado em folhas e palhas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante o intervalo, eu vou at&eacute; ao quarto de h&oacute;spedes (que ficava na ocasi&atilde;o nos fundos do pr&eacute;dio dos correios) da miss&atilde;o encontrar com as duas antrop&oacute;logas, que chegaram para realizar suas pesquisas para suas respectivas teses de doutoramento. Na realidade, meu papel foi de dar as informa&ccedil;&otilde;es que eu conhecia sobre este espa&ccedil;o cultural bem delimitado, o que representava naquele momento os entornos da "Miss&atilde;o Salesiana de Iauaret&ecirc;". Acredito que fiz muito bem esse papel. Afinal, eu j&aacute; conhecia todas as aldeias dos povos ind&iacute;genas desta regi&atilde;o e podia falar com certa propriedade os nomes na l&iacute;ngua tukano, bem como conhecia de modo geral os principais eventos do mito de cria&ccedil;&atilde;o destes povos, que passei em primeira m&atilde;o para as duas colegas, de sorte que elas pudessem ter conhecimentos bem apropriados sobre estes povos que habitavam esta regi&atilde;o e seus interesses de pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta Ribeiro tem contribui&ccedil;&otilde;es em diferentes campos da antropologia brasileira. N&atilde;o &eacute; simplesmente como uma acad&ecirc;mica pesquisadora, mas tamb&eacute;m no campo editorial, principalmente com os livros produzidos por Darcy Ribeiro, em geral, lembrando aqui o esfor&ccedil;o herc&uacute;leo de organizar os tr&ecirc;s volumes da Suma Etnol&oacute;gica. Uma caracter&iacute;stica fundamental do seu fazer com as informa&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas que organizava era de imediato colocar em uma linguagem, seja em forma de livro, em forma de exposi&ccedil;&otilde;es ou mesmo em forma de desenhos animados. Era muito importante para ela divulgar e conhecer a diversidade cultural e os conhecimentos dos povos ind&iacute;genas. Na <a href="#fig1">Figura 1</a>, que faz parte de uma exposi&ccedil;&atilde;o que organizei para a RBA de 2006 em Goi&acirc;nia, vemos Berta Ribeiro, de vestido preto, com as mulheres antrop&oacute;logas que estavam participando da 3&ordf; Reuni&atilde;o Brasileira de Antropologia (RBA), em 1958, no Recife. Berta como sempre a organizar e debater a possibilidade de mostrar ao mundo as principais quest&otilde;es relacionadas ao mundo dos povos origin&aacute;rios <a name="1a"></a><sup>&#91;<a href="#1b">i</a>&#93;</sup> (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sua estadia na regi&atilde;o do Alto Rio Negro, em 1978, foi um grande aprendizado e dar&aacute; a ela caminhos para que ela pudesse juntar todas as informa&ccedil;&otilde;es que dispunha para mostrar o pa&iacute;s dos Rios das &Aacute;guas Pretas. O seu livro "Os &Iacute;ndios das &Aacute;guas Pretas", ap&oacute;s sua tese de doutorado, traz um retrato minucioso dos povos do Alto Rio Negro, desvendando seu saber sobre o meio amaz&ocirc;nico e suas t&eacute;cnicas de preserva&ccedil;&atilde;o do ambiente. Em uma descri&ccedil;&atilde;o densa e intensa, Berta demonstra como os povos preservam quase intacta uma diversidade biol&oacute;gica ainda pouco conhecida e estudada. "Os &Iacute;ndios das &Aacute;guas Pretas" apresenta a importante contribui&ccedil;&atilde;o que os estudos antropol&oacute;gicos podem fornecer na busca por solu&ccedil;&otilde;es alternativas para problemas que t&ecirc;m mobilizado organiza&ccedil;&otilde;es do mundo todo e exigido a tomada de decis&otilde;es com rela&ccedil;&atilde;o a um desenvolvimento sustent&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O interesse de Berta Ribeiro com rela&ccedil;&atilde;o aos povos ind&iacute;genas desta imensa regi&atilde;o estava basicamente relacionado com o ambiente e a produ&ccedil;&atilde;o de utens&iacute;lios que possibilitasse uma vida adequada e melhor para essas popula&ccedil;&otilde;es. Sem d&uacute;vida, o conhecimento deste meio ambiente que gerar&aacute; os diversos utens&iacute;lios como as cestarias dos povos desta regi&atilde;o. O seu interesse acad&ecirc;mico vinha de uma preocupa&ccedil;&atilde;o real com as quest&otilde;es que envolvem os objetos etnogr&aacute;ficos em museus. Berta j&aacute; sabia sobre essa importante problem&aacute;tica tanto para os campos da antropologia, como da museologia. Neste di&aacute;logo inicial, concentraremos nossas conversas nas especialidades &eacute;tnicas dos tra&ccedil;ados, certamente as mais importantes produ&ccedil;&otilde;es para o cotidiano nas aldeias dos povos desta imensa e bonita regi&atilde;o. E nada mais importante de entender como estes objetos aparecem nas narrativas mitol&oacute;gicas. Evidentemente, o principal tema de sua tese de doutorado que estava realizando na Universidade de S&atilde;o Paulo (USP)<sup>&#91;1&#93;</sup> era o "tra&ccedil;ado" tal como ela me explicava na ocasi&atilde;o. Essa tese representa uma grande inova&ccedil;&atilde;o nos conceitos de documenta&ccedil;&atilde;o museol&oacute;gica com rela&ccedil;&atilde;o aos objetos etnogr&aacute;ficos e sobretudo aqueles objetos que permite que o cotidiano seja amplamente adequado ao seu ambiente. Pessoalmente, eu me impressionei com essa realidade, t&atilde;o presente para mim no cotidiano desses povos. Na realidade, n&atilde;o existiam autores que trataram sobre essa tem&aacute;tica nesta regi&atilde;o. Acredito que, at&eacute; a presente data, se faz necess&aacute;rio um debate atual sobre esses artefatos de palhas e barro que passaram a ser usados com outros materiais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como Berta Ribeiro (1980)<sup>&#91;1&#93;</sup> assinala em sua tese de doutoramento, apenas o estudo interdisciplinar da tecnologia, ou seja, os modos de fazer, da morfologia dos objetos e, sobretudo, do contexto ecol&oacute;gico ambiental onde estes objetos produzidos pode mostrar as associa&ccedil;&otilde;es e "organiza&ccedil;&atilde;o dos homens para a obten&ccedil;&atilde;o de subsist&ecirc;ncia". O que na realidade estes objetos explicam a rela&ccedil;&atilde;o destes povos com o ecossistema. Mas, na realidade, Berta Ribeiro ampliar&aacute; este axioma, quando incorpora na sua tese os conhecimentos ind&iacute;genas que ela recebera pessoalmente de Firmiano e Luiz Lana no povoado desana de S&atilde;o Jo&atilde;o no Rio Tiqui&eacute;, que logo ap&oacute;s ela edita e publica a primeira narrativa desana sobre os eventos da cria&ccedil;&atilde;o em um livro intitulado "Antes o Mundo n&atilde;o Existia", com os nomes tradicionais dos autores Umusi P&atilde;r&otilde;kumu e T&otilde;r&atilde;mu Keh&iacute;ri (1980)<sup>&#91;2&#93;</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pretendo neste texto apontar elementos sobre alguns objetos que fazem parte de minha pesquisa atual, sobre objetos xam&acirc;nicos (Athias, 2016)<sup>&#91;3&#93;</sup> e que a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica de Berta Ribeiro sugere a incluir no debate sobre objetos etnogr&aacute;ficos, seja no campo mesmo da produ&ccedil;&atilde;o de artefatos, mas, sobretudo, de mecanismos que melhorem a documenta&ccedil;&atilde;o museol&oacute;gica e o entendimento sobre o uso do objeto.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Os Rios das &Aacute;guas Pretas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando Berta Ribeiro volta de sua viagem de campo da regi&atilde;o do Alto Rio Negro, ap&oacute;s realizar quase o mesmo trajeto que Koch-Grunberg (1909) e Curt Ninuendaj&uacute; (1927)<a name="2a"></a><sup>&#91;<a href="#2b">ii</a>&#93;</sup> realizaram, ela toma consci&ecirc;ncia, como muitos de n&oacute;s pesquisadores desta regi&atilde;o, sobre o impacto dos rios-de-&aacute;guas-pretas sobre o conjunto da cultura e, sobretudo, na tecnologia do uso de mat&eacute;ria-prima por parte dos povos desta regi&atilde;o. Dificilmente uma pessoa sem ter estado nesta regi&atilde;o compreende o impacto dos rios de &aacute;guas pretas no cotidiano desses povos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Berta Ribeiro tem contribui&ccedil;&otilde;es em diferentes campos da antropologia brasileira. N&atilde;o &eacute; simplesmente como uma acad&ecirc;mica pesquisadora, mas tamb&eacute;m no campo editorial. Era muito importante para ela divulgar e conhecer a diversidade cultural e os conhecimentos dos povos ind&iacute;genas."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como escrevi anteriormente (Athias, 1995)<sup>&#91;4&#93;</sup>, o Rio Negro talvez seja o maior rio de &aacute;guas pretas da Amaz&ocirc;nia. Os especialistas caracterizam essas &aacute;guas como extremamente &aacute;cidas e pobres em nutrientes. As terras que drenam s&atilde;o de solos muito empobrecidos e lixiviados. Esta pobreza em nutrientes dos rios influi na vida dos peixes, que, para se sustentar, obt&ecirc;m a maior parte de sua alimenta&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria org&acirc;nica oriunda principalmente das margens dos rios (v&aacute;rios tipos de insetos, frutas, flores, folhas e sementes). Essas caracter&iacute;sticas v&atilde;o influenciar as t&eacute;cnicas e armadilhas de ca&ccedil;a e pesca, os tra&ccedil;ados e confec&ccedil;&atilde;o de cestos e outros objetos produzidos com material biol&oacute;gico oriundos de palhas e cip&oacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O contr&aacute;rio acontece nos rios de &aacute;guas brancas, ricos em nutrientes, como o Amazonas e do Solim&otilde;es. E. Moran (1991)<sup>&#91;5&#93;</sup> tem assinalado muito bem as caracter&iacute;sticas desse ecossistema, visando a um entendimento da organiza&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es em explorar a biodiversidade existente nesta regi&atilde;o. E os povos ind&iacute;genas conseguiram uma conviv&ecirc;ncia exemplar nesse contexto geogr&aacute;fico muito adverso e pobre. Nesse sentido, essa viv&ecirc;ncia possibilitou que esses povos pudessem ampliar um conhecimento necess&aacute;rio para uma explora&ccedil;&atilde;o racional dos recursos provenientes dos servi&ccedil;os dos ecossistemas. A narrativa de Berta Ribeiro em "Os &iacute;ndios das &Aacute;guas Pretas" &eacute; um di&aacute;logo com E. Moran, ampliando para as quest&otilde;es relacionadas &agrave;s tecnologias ind&iacute;genas nesse contexto ecol&oacute;gico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nimuendaj&uacute; foi o primeiro a apontar (Athias, 1995)<sup>&#91;4&#93;</sup> uma controv&eacute;rsia entre os cientistas sociais e os ec&oacute;logos a respeito dos ecossistemas da bacia do Rio Uaup&eacute;s. Para os primeiros, a regi&atilde;o apresenta uma homogeneidade; para os demais, essa homogeneidade n&atilde;o existe, discordando sob o argumento de uma distribui&ccedil;&atilde;o desigual das caracter&iacute;sticas biogeogr&aacute;ficas, sobretudo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; biomassa pesqueira (Chernela, 1993)<sup>&#91;6&#93;</sup>. A bacia do Uaup&eacute;s se caracteriza por seu regime bianual de cheias e vazantes, diferente de outras &aacute;reas da bacia Amaz&ocirc;nica. Essas flutua&ccedil;&otilde;es resultam da varia&ccedil;&atilde;o nas precipita&ccedil;&otilde;es pluviais que afetam os mananciais superiores do sistema do rio, seus tribut&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Importante assinalar que o Rio Uaup&eacute;s tem um percurso de 520 km no lado brasileiro, apresentando uma largura m&aacute;xima de 3 km quando des&aacute;gua no Rio Negro, um pouco acima de S&atilde;o Gabriel. Existindo duas principais esta&ccedil;&otilde;es, a das chuvas, de abril a setembro, e a da seca, ou seja, menos chuvosa, de outubro a mar&ccedil;o. Segundo informa&ccedil;&otilde;es do centro meteorol&oacute;gico de Pari Cachoeira (Athias, 1995) <sup>&#91;4&#93;</sup>, no Rio Tiqui&eacute; chove cerca de 200 dias por ano. O curso dos principais rios, Uaup&eacute;s, Tiqui&eacute; e Papuri, &eacute; atravessado por numerosas cachoeiras (corredeiras) constituindo um obst&aacute;culo natural &agrave; navega&ccedil;&atilde;o de grande porte. E foi gra&ccedil;as a esses acidentes geogr&aacute;ficos que os ind&iacute;genas puderam ficar longe das grandes chacinas do s&eacute;culo XVIII, praticadas pelos portugueses no baixo Rio Negro. No Rio Uaup&eacute;s, existem pelo menos 30 cachoeiras grandes e outras 60 menores. Essas cachoeiras abrigam uma fauna adaptada &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es rigorosas das corredeiras, &agrave; sua grande turbul&ecirc;ncia e &agrave; satura&ccedil;&atilde;o do oxig&ecirc;nio. Os peixes se adaptaram a essa situa&ccedil;&atilde;o com um comportamento e morfologia espec&iacute;fica (Chernela, 1993)<sup>&#91;6&#93;</sup>. Al&eacute;m de abrigos, as rochas oferecem alimentos aos peixes, como algas e plantas aqu&aacute;ticas. Por sua vez, esse tipo de vegeta&ccedil;&atilde;o atrai certa quantidade de larvas de insetos, nutrindo assim os peixes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as cachoeiras do Uaup&eacute;s e seus dois principais afluentes - Tiqui&eacute; e Papuri - existem aquelas que s&atilde;o permanentes, com declives mais &iacute;ngremes. As outras, com menos declive, s&atilde;o sazonais, desaparecendo durante o per&iacute;odo de seca. As cachoeiras permanentes impedem a passagem de certos peixes. At&eacute; a cachoeira Fortaleza, naqueles anos de 1970, em S&atilde;o Gabriel, a maior em todo o curso do Rio Negro, por exemplo, pode-se encontrar o Pirarucu (<i>Arapaima gigas</i>) e o Tambaqui (<i>Colossoma macropomum</i>). Acima dessa cachoeira esses peixes n&atilde;o s&atilde;o mais vistos. Certamente existir&atilde;o outras esp&eacute;cies que n&atilde;o conseguiriam ultrapassar esses obst&aacute;culos. Esse h&aacute;bitat ir&aacute; influenciar consideravelmente como os &iacute;ndios da bacia do Uaup&eacute;s praticam a busca e a captura de peixes como prote&iacute;nas para completar uma dieta sustentada, praticamente, &agrave; base de mandioca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Portanto, toda a regi&atilde;o &eacute; entrecortada de pequenos riachos e igarap&eacute;s. Em alguns deles, pode-se navegar durante todo o ano. Outros, por&eacute;m, est&atilde;o secos durante o per&iacute;odo da vazante. Dias antes de secarem, os ind&iacute;genas que vivem nas proximidades destes, praticam nesses igarap&eacute;s a pesca com veneno, conhecido como timb&oacute;, capturando todos ou quase todos os peixes desses igarap&eacute;s que secar&atilde;o. Os Igap&oacute;s s&atilde;o os terrenos inund&aacute;veis, mais baixos, que ficam cheios durante as enchentes sazonais. Existem algumas colinas que s&atilde;o famosas fazendo parte da tradi&ccedil;&atilde;o mitol&oacute;gica dos habitantes dessa regi&atilde;o, como, por exemplo, a serra denominada de "Bela Adormecida", chamada assim desta maneira por se parecer a uma mulher deitada, e est&aacute; situada do outro lado do Rio Negro, em frente &agrave; cidade de S&atilde;o Gabriel e outras. Na regi&atilde;o, por exemplo, encontra-se o famoso Pico da Neblina, bem na fronteira com a Venezuela, em terras Yanomami, com altitude de 3.045 m, o mais alto do Brasil, o mais importante vest&iacute;gio no escudo (bouclier) guian&ecirc;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Subindo o Rio Uaup&eacute;s, afluente da margem direita do Rio Negro, desde S&atilde;o Gabriel, v&aacute;rias colinas ou pequenas montanhas isoladas s&atilde;o encontradas durante esse trajeto. Se a viagem for feita por um Tukano, em cada uma delas, num total de sete, seguindo at&eacute; a grande cachoeira de Ipanor&eacute;, ele se refere a um ente mitol&oacute;gico. S&atilde;o Pedras-Monumento, como diz Durvalino Chagas (2001)<sup>&#91;7&#93;</sup>em sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, ao se referir aos aspectos simb&oacute;licos destas pedras e serras que encontramos em toda a regi&atilde;o. Cada uma delas conta as hist&oacute;rias contidas nas diversas narrativas mitol&oacute;gicas dos povos da regi&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Arte da Vida</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todos os utens&iacute;lios de um grupo dom&eacute;stico s&atilde;o lindamente elaborados de barro, argila e palhas, em geral, de palmeiras. Berta Ribeiro traz, na sua tese de doutorado, os principais utens&iacute;lios com os quais ela realiza uma excelente narrativa meta etnogr&aacute;fica. Ou seja, n&atilde;o somente realizando descri&ccedil;&otilde;es sobre esses objetos, mas apontando na narrativa mitologias dos desana de S&atilde;o Jo&atilde;o do Rio Tiqui&eacute;: Luiz Lana e seu pai Firmiano. Berta Ribeiro soube usar muito bem a compila&ccedil;&atilde;o de narrativas ditadas por Firmiano a seu filho Luiz Lana. Ao trazer essas narrativas, ela produz um texto que pode ser visto nas narrativas mitol&oacute;gicas e, ao mesmo tempo, podendo ser encontrado na realidade ambiental onde essas povoa&ccedil;&otilde;es foram estabelecidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao se encontrar objetos de barro e de palhas, percebe-se muito bem que os povos ind&iacute;genas desta regi&atilde;o j&aacute; se encontram sedentarizados em lugares devidamente marcados por hist&oacute;rias mitol&oacute;gicas. E esses instrumentos confeccionados com esta mat&eacute;ria-prima denota claramente o car&aacute;ter sedent&aacute;rio e as pr&aacute;ticas econ&ocirc;micas desses povos. Em outras palavras, como a pr&oacute;pria Berta Ribeiro diz, em sua tese de doutoramento, todos os utens&iacute;lios utilizados por esses povos finamente elaborados com barro e determinados tipos de argilas s&atilde;o provenientes de povos que t&ecirc;m a agricultura como base das atividades econ&ocirc;micas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As palhas s&atilde;o parte integrante do trabalho de Berta Ribeiro, e seria interessante ressaltar aqui o sentido da palha de palmeira nesta regi&atilde;o como um todo. Um dos argumentos centrais de seu trabalho, que ela recupera no texto de Lewis H. Morgan, que dizia que o tra&ccedil;ado dos objetos seria como "arte da vida" (Ribeiro, 1980)<sup>&#91;1&#93;</sup>, ou seja, como ela mesmo explica "como cria&ccedil;&atilde;o cultural de dom&iacute;nio da natureza que possibilita a vida social. Nesse sentido, ele &eacute; estudado como elemento integrante e integrado de uma cultura". Esta frase toma sentido muito forte quando estamos nos museus estudando os objetos desses povos. Pode-se entender olhando para tr&aacute;s para a sua estadia nesta regi&atilde;o, que esses objetos de arte, nos museus, adquirem de fato um valor explicativo para os fen&ocirc;menos culturais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nestes &uacute;ltimos anos, viajando em v&aacute;rios lugares e visitando os museus, encontramos alguns objetos interessantes que se encontram em museus que nos interessam, sobretudo pela falta de informa&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica a respeito. Para mim, demorou alguns anos para juntar algumas informa&ccedil;&otilde;es sobre um artefato que vi no Museu Etnogr&aacute;fico de Gotemburgo, em 2014, que me intrigou bastante, e n&atilde;o podia relacionar com nenhum outro objeto que vira. Poderia ser um objeto de uso para cavar ou talhar. Ent&atilde;o comecei a olhar este objeto que parecia um tipo de enx&oacute;. Meses depois, eu perguntei para v&aacute;rios ind&iacute;genas na regi&atilde;o, e me confirmaram, que parecia ser uma enx&oacute;. Lembrei-me de que eu digitalizara uma carta de Curt Nimuendaj&uacute;, do acervo documental da cole&ccedil;&atilde;o Carlos Estev&atilde;o Oliveira do Museu do Estado de Pernambuco, que n&atilde;o se encontrava no livro "Cartas do Sert&atilde;o" organizado por Teckla Hartmann. Curt Nimuendaj&uacute; falava, nesta carta, que coletara um enx&oacute; e informava que esse enx&oacute; era de uso ritual utilizado nas festas. Ent&atilde;o, iniciou-se uma s&eacute;rie de entrevistas com representantes ind&iacute;genas para falar sobre este instrumento, o mais interessante &eacute; que v&aacute;rios n&atilde;o sabiam explicar exatamente. Um deles me informou que o pai falara sobre esse enx&oacute; ritual, mas que n&atilde;o lembrava mais exatamente o sentido da utiliza&ccedil;&atilde;o nas festas e que ele nunca vira (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a03fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Escudo identit&aacute;rio</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O presente texto apresenta sinteticamente o significado cultural e simb&oacute;lico dos escudos nas sociedades ind&iacute;genas Desana e Tukana, que ocupam vastas regi&otilde;es do Noroeste Amaz&ocirc;nico, na regi&atilde;o do Alto Rio Negro. Com base em relatos etnogr&aacute;ficos e fontes hist&oacute;ricas, argumenta-se que esses objetos desempenham um papel central na identidade e organiza&ccedil;&atilde;o social dessas comunidades, al&eacute;m de estarem intrinsecamente ligados &agrave; cosmologia e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com o mundo espiritual. Em seu estudo sobre o tra&ccedil;ado, Berta Ribeiro faz um detalhamento n&atilde;o s&oacute; do saber fazer, mas tamb&eacute;m da realidade simb&oacute;lica que este objeto mostra, destacando-se no escudo um objeto de profundo significado cosmol&oacute;gico e identit&aacute;rio. Conforme observado tanto nas comunidades dos Desana quanto nas dos Tukano, cada cl&atilde; possu&iacute;a um escudo exclusivo, que estava sempre presente nas casas comunais (malocas). Esse escudo era utilizado exclusivamente pelo chefe do cl&atilde;, simbolizando n&atilde;o apenas a autoridade, mas tamb&eacute;m a unidade e a integridade do grupo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A <a href="#fig3">Figura 3</a> tirada por Koch-Grunberg (2005)<sup>&#91;8&#93;</sup> e sua importante etnografia sobre a regi&atilde;o ilustra dois indiv&iacute;duos de uma sociedade ind&iacute;gena tradicional, ambos portando escudos circulares de caracter&iacute;sticas distintas. Esses escudos s&atilde;o elaborados com materiais naturais, fibras vegetais muito bem descritas por Berta Ribeiro, e apresentam padr&otilde;es &uacute;nicos que refletem os tra&ccedil;os identit&aacute;rios de cada cl&atilde;. A disposi&ccedil;&atilde;o da palha na estrutura desses escudos parece corresponder a uma pr&aacute;tica artesanal &uacute;nica, evidenciando o modo como a est&eacute;tica e a funcionalidade se entrela&ccedil;am no processo do saber fazer (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a03fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Atrav&eacute;s de uma narrativa ind&iacute;gena aut&ecirc;ntica, esses objetos contariam suas hist&oacute;rias de sequestro, rompendo com as vers&otilde;es museol&oacute;gicas frequentemente desvinculadas da realidade ind&iacute;gena."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os escudos, como observado nas figuras e nas descri&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas, s&atilde;o mais do que simples instrumentos de defesa. Eles representam marcas identit&aacute;rias profundas. Cada cl&atilde; tinha um escudo exclusivo, que, juntamente com outros objetos sagrados como o colar de quartzo, simbolizava o poder e a linhagem de seu portador. O colar de quartzo, frequentemente citado em relatos de viajantes que exploraram essas regi&otilde;es, complementa o escudo como um marcador de status e conex&atilde;o espiritual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa singularidade do escudo tamb&eacute;m se reflete em sua fabrica&ccedil;&atilde;o. O padr&atilde;o de tra&ccedil;ados, organiza&ccedil;&atilde;o das palhas e o estilo de entrela&ccedil;amento eram todos espec&iacute;ficos para cada comunidade. Tais tra&ccedil;os conferiam a cada escudo um significado particular, transformando-o em um s&iacute;mbolo pr&oacute;prio do cl&atilde;, remetendo a uma ancestralidade, portanto insubstitu&iacute;vel. Assim, o escudo n&atilde;o apenas protegia o corpo f&iacute;sico do l&iacute;der, mas tamb&eacute;m assegurava a continuidade espiritual e cosmol&oacute;gica do cl&atilde;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na imagem apresentada, os escudos s&atilde;o elementos centrais, tanto em termos de composi&ccedil;&atilde;o visual quanto em rela&ccedil;&atilde;o ao contexto cultural. Os homens est&atilde;o claramente associados a uma posi&ccedil;&atilde;o de autoridade, possivelmente chefes ou guerreiros, como sugerido pelo porte dos escudos e lan&ccedil;as. O padr&atilde;o do escudo maior, com uma disposi&ccedil;&atilde;o circular e entrela&ccedil;ada, evidencia o complexo trabalho artesanal caracter&iacute;stico dessas sociedades, conforme descrito no texto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A disposi&ccedil;&atilde;o da palha tanto nos escudos quanto na parede ao fundo tamb&eacute;m indica uma continuidade est&eacute;tica entre o material usado para a fabrica&ccedil;&atilde;o de artefatos de defesa e o ambiente arquitet&ocirc;nico das malocas. Essa est&eacute;tica compartilhada refor&ccedil;a a no&ccedil;&atilde;o de que o escudo n&atilde;o &eacute; apenas um objeto funcional, mas parte de um sistema simb&oacute;lico mais amplo, que abrange desde o espa&ccedil;o social at&eacute; o cosmol&oacute;gico.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"As contribui&ccedil;&otilde;es de Berta Ribeiro inspiram uma abordagem inovadora e necess&aacute;ria para a rela&ccedil;&atilde;o entre museus e povos ind&iacute;genas, indo al&eacute;m da preserva&ccedil;&atilde;o dos objetos etnogr&aacute;ficos."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os escudos nas sociedades Desana e Tukano servem como poderosos s&iacute;mbolos de identidade e poder. Al&eacute;m de sua fun&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica, os escudos encapsulam a estrutura social e espiritual desses grupos. A rela&ccedil;&atilde;o entre o material utilizado, o tra&ccedil;ado dos padr&otilde;es e a exclusividade de cada escudo para seu respectivo cl&atilde; demonstra o papel central desses artefatos na constru&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o da identidade coletiva. A imagem analisada complementa essa compreens&atilde;o, fornecendo uma representa&ccedil;&atilde;o visual do escudo em seu contexto cultural (<a href="/img/revistas/cic/v76spe3/a03fig04-06.jpg">Figuras 4</a>, <a href="/img/revistas/cic/v76spe3/a03fig04-06.jpg">5</a> e <a href="/img/revistas/cic/v76spe3/a03fig04-06.jpg">6</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Li&ccedil;&otilde;es tiradas das obras de Berta Ribeiro</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os textos de Berta Ribeiro ajudam a dar profundidade nas atividades colaborativas que tenho realizado com os representantes ind&iacute;genas na regi&atilde;o, especificamente os colegas Domingos Barreto, Tukano; Max Menezes, Tukano; Marcelino Massa, Desana e Alfredo Fontes, Tukano, levando-nos a pensar em um modelo, n&atilde;o apenas de documenta&ccedil;&atilde;o museol&oacute;gica, dos objetos ind&iacute;genas, dos ind&iacute;genas do Rio das &Aacute;guas Pretas, que se encontram em diferentes museus na Europa, mas sim um trabalho cont&iacute;nuo com esses objetos, que devolvem uma mem&oacute;ria sobre a hist&oacute;ria social dos deslocamentos destes objetos, sobretudo buscando dar pista para protocolos de repara&ccedil;&atilde;o para esses povos e continuidade de atividade com estes objetos na Europa e o nos Estados Unidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O modelo de repara&ccedil;&atilde;o em discuss&atilde;o pelas organiza&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas prop&otilde;e uma abordagem inovadora nas negocia&ccedil;&otilde;es com os museus em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s cole&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas. A proposta sugere que os objetos atualmente abrigados nos museus permane&ccedil;am nessas institui&ccedil;&otilde;es. No entanto, a gest&atilde;o dessas cole&ccedil;&otilde;es seria assumida pelos povos ind&iacute;genas por meio de um protocolo formal (<i>formal agreement</i>), estabelecido entre as organiza&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas e os museus. Esse acordo visaria garantir que as comunidades ind&iacute;genas possam gerenciar plenamente todos os aspectos das cole&ccedil;&otilde;es, desde sua conserva&ccedil;&atilde;o at&eacute; sua interpreta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma parte crucial desse modelo de repara&ccedil;&atilde;o envolve a liberta&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica dos objetos, permitindo que eles revelem a verdade sobre suas trajet&oacute;rias hist&oacute;ricas. Atrav&eacute;s de uma narrativa ind&iacute;gena aut&ecirc;ntica, esses objetos contariam suas hist&oacute;rias de sequestro, rompendo com as vers&otilde;es museol&oacute;gicas frequentemente desvinculadas da realidade ind&iacute;gena. Para as comunidades, esse processo seria visto como a restitui&ccedil;&atilde;o das mem&oacute;rias contidas nos objetos, permitindo uma reconex&atilde;o profunda com suas hist&oacute;rias e culturas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ademais, essa proposta representa um passo concreto em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; "gest&atilde;o compartilhada" das cole&ccedil;&otilde;es, na qual os povos ind&iacute;genas desempenham um papel ativo na administra&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o dos objetos que fazem parte de seu patrim&ocirc;nio. Nesse contexto, a decoloniza&ccedil;&atilde;o dos museus n&atilde;o se limita &agrave; simples devolu&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica de artefatos, mas abrange uma transforma&ccedil;&atilde;o mais ampla, onde as vozes ind&iacute;genas s&atilde;o reconhecidas e respeitadas no &acirc;mbito das narrativas e pr&aacute;ticas museol&oacute;gicas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em conclus&atilde;o, essa forma de repara&ccedil;&atilde;o implica em uma reestrutura&ccedil;&atilde;o significativa das rela&ccedil;&otilde;es entre museus e comunidades ind&iacute;genas, com potencial para avan&ccedil;ar no processo de decoloniza&ccedil;&atilde;o dessas institui&ccedil;&otilde;es. Resta saber se os museus estar&atilde;o dispostos a adotar esse modelo de repara&ccedil;&atilde;o, que reconhece a soberania ind&iacute;gena sobre suas pr&oacute;prias hist&oacute;rias e mem&oacute;rias, proporcionando uma verdadeira justi&ccedil;a reparat&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos concluir que as contribui&ccedil;&otilde;es de Berta Ribeiro inspiram uma abordagem inovadora e necess&aacute;ria para a rela&ccedil;&atilde;o entre museus e povos ind&iacute;genas, indo al&eacute;m da preserva&ccedil;&atilde;o dos objetos etnogr&aacute;ficos. Sua obra sugere reconex&otilde;es profundas entre os povos ind&iacute;genas e seu patrim&ocirc;nio cultural, contribuindo para as discuss&otilde;es contempor&acirc;neas sobre modelo de repara&ccedil;&atilde;o proposto neste texto, que inclui uma gest&atilde;o compartilhada das cole&ccedil;&otilde;es, o que &eacute; um passo importante para a decoloniza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es museol&oacute;gicas. No entanto, resta o desafio de os museus adotarem essa vis&atilde;o, permitindo uma verdadeira justi&ccedil;a reparat&oacute;ria e reconhecendo plenamente a soberania ind&iacute;gena sobre suas narrativas e mem&oacute;rias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a>&#91;<a href="#1a">i</a>&#93; Esta exposi&ccedil;&atilde;o na sua totalidade pode ser visualizada no endere&ccedil;o eletr&ocirc;nico: <a href="https://renatoathias.blogspot.com/2007/06/#7420874635291909197" target="_blank">https://renatoathias.blogspot.com/2007/06/#7420874635291909197</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2b"></a>&#91;<a href="#2a">ii</a>&#93;Conferir Athias (2015)<sup>&#91;9&#93;</sup>, sobre o registro de Curt Nimuendaj&uacute; sobre esta viagem.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. RIBEIRO, B. G. <i>A civiliza&ccedil;&atilde;o da palha</i>: a arte do tran&ccedil;ado dos &iacute;ndios do Brasil. 1980. 451 p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Universidade de S&atilde;o Paulo, S&atilde;o Paulo, 1980.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136381&pid=S0009-6725202400070000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. P&atilde;r&otilde;kumu, U.; Keh&iacute;ri, T. <i>Antes o mundo n&atilde;o existia</i>. 1. ed. S&atilde;o Paulo: Cultura Editora, 1980.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136383&pid=S0009-6725202400070000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. ATHIAS, R. Objetos ind&iacute;genas vivos em museus: temas e problemas sobre a patrimonializa&ccedil;&atilde;o. <i>In</i>: Athias, R.; Lima Filho, M.; Abreu, R. <i>Museus e atores sociais</i>: perspectivas antropol&oacute;gicas. Recife: Editora da UFPE, 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136385&pid=S0009-6725202400070000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. ATHIAS, R. <i>Hupd&euml;-Maku et Tukano</i>: les r&eacute;lations in&eacute;gales entre deux soci&eacute;t&eacute;s du Uaup&eacute;s amazonien (Br&eacute;sil). Tese (Doutorado) - Universit&eacute; de Paris X, Nanterre, 1995.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136387&pid=S0009-6725202400070000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. MORAN, E. Human adaptive strategies in Amazonian blackwater ecosystems. <i>American Anthropologist</i>, v. 93, n. 2, p. 361-382, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136389&pid=S0009-6725202400070000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. CHERNELA, J. <i>The Wanano (Kotiria) Indians of the Brazilian Amazon</i>: a sense of space. Austin: University of Texas Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136391&pid=S0009-6725202400070000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. CHAGAS, D. <i>Cosmologia, mitos e hist&oacute;ria</i>: o mundo dos Pamulin-Mahs&atilde; Waikhana do Rio Papuri - Amazonas. 2001. Disserta&ccedil;&atilde;o (Mestrado em Antropologia) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136393&pid=S0009-6725202400070000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. KOCH-GR&Uuml;NBERG, T. <i>Dois anos entre os ind&iacute;genas</i>: viagens no Noroeste do Brasil 1903/1905. Manaus: EDUA/FSDB, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136395&pid=S0009-6725202400070000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Nimuendaj&uacute;, C.; ATHIAS, R. <i>Reconhecimento dos Rios I&ccedil;ana, Ayari e Uaup&eacute;s</i>: apontamentos lingu&iacute;sticos e fotografias de Curt Nimuendaj&uacute;. Recife: Editora UFPE, 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=136397&pid=S0009-6725202400070000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
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