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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240089</article-id>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chuvas e constela&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Berta Gleizer Ribeiro<sup>I</sup>; Tolaman Kenh&iacute;ri<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Foi uma antrop&oacute;loga, etn&oacute;loga e muse&oacute;loga brasileira, autoridade em cultura material dos povos ind&iacute;genas do Brasil. Foi servidora do antigo Museu do &Iacute;ndio (atual Museu dos Povos Ind&iacute;genas), onde atuou como pesquisadora e formadora de cole&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas    <br>   <sup>II</sup>&Eacute; ind&iacute;gena Des&acirc;na que, com seu pai, Umusin Panlon Kumu, atuou na reda&ccedil;&atilde;o do livro "Antes o mundo n&atilde;o existia</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este texto, publicado originalmente na revista Ci&ecirc;ncia Hoje em 1991, aborda o calend&aacute;rio de subsist&ecirc;ncia dos ind&iacute;genas Des&acirc;na, do rio Tiqui&eacute;, regulado pelo aparecimento de constela&ccedil;&otilde;es, que determinam as esta&ccedil;&otilde;es e ciclos agr&iacute;colas. Berta Ribeiro, em colabora&ccedil;&atilde;o com Tolaman Kenh&iacute;ri, explorou esse conhecimento em suas pesquisas na d&eacute;cada de 1980. O estudo resultou em um artigo, associando constela&ccedil;&otilde;es &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e ciclos naturais, como colheitas e piracemas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Antropologia; Ind&iacute;genas; Brasil; Constela&ccedil;&otilde;es.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O presente trabalho trata de um tema pouco veiculado na literatura etnol&oacute;gica brasileira: o calend&aacute;rio das atividades de subsist&ecirc;ncia de um grupo ind&iacute;gena - os Des&acirc;na, do rio Tiqui&eacute;, afluente do Uaup&eacute;s (tribut&aacute;rio do alto rio Negro) - determinado pelo aparecimento de certas constela&ccedil;&otilde;es. O conhecimento emp&iacute;rico dos Des&acirc;na divide o clima da regi&atilde;o em certo n&uacute;mero de "ver&otilde;es", alguns muito curtos, outros mais longos, entremeados por chuvas, estas anunciadas pelas constela&ccedil;&otilde;es. A ambas - constela&ccedil;&otilde;es e chuvas - est&atilde;o associados os ciclos econ&ocirc;micos naturais: in&iacute;cio, amadurecimento e t&eacute;rmino das safras de frutas; ocorr&ecirc;ncia de piracemas; safras de insetos, como a maniuara e a sa&uacute;va, de grande import&acirc;ncia alimentar. As referidas mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas vinculam-se tamb&eacute;m ao ciclo agr&iacute;cola, pois a queima das ro&ccedil;as &eacute; feita nas estiagens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1978, durante sua primeira viagem &agrave; regi&atilde;o, Berta Ribeiro estudou o equipamento produtivo dos ind&iacute;genas do alto rio Negro. Nessa ocasi&atilde;o, teve a oportunidade de ajudar Tolaman Kenh&iacute;ri e seu pai, Umusin Panlon Kumu, na reda&ccedil;&atilde;o definitiva de um livro de mitos, publicado sob o t&iacute;tulo "Antes o mundo n&atilde;o existia" (Editora Cultura, S&atilde;o Paulo, 1980). Ao voltar ao rio Tiqui&eacute; para completar seu estudo, em 1985/1986, a antrop&oacute;loga encontrou Tolaman Kenhiri - cujo nome crist&atilde;o &eacute; Lu&iacute;s Gomes Lana - desejoso de escrever um trabalho sobre as constela&ccedil;&otilde;es que regulam a altern&acirc;ncia de chuvas e estiagens. Da colabora&ccedil;&atilde;o entre os dois nasceu este artigo, ilustrado pelo pr&oacute;prio Tolam&atilde;n. Sempre que poss&iacute;vel, s&atilde;o indicadas as designa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas da flora e da fauna, cuja identifica&ccedil;&atilde;o, assim como a das constela&ccedil;&otilde;es, foi fornecida por especialistas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ano dos ind&iacute;genas Des&acirc;na come&ccedil;a em outubro, quando surge no poente a constela&ccedil;&atilde;o "Ilumina&ccedil;&atilde;o da jararaca" (<i>a&ntilde;&aacute; si&ntilde;oliru</i>). A pesada chuva que ela anuncia tamb&eacute;m tem esse nome. Logo surgem, uma em seguida &agrave; outra, as constela&ccedil;&otilde;es que completam a figura da cobra: a "Cabe&ccedil;a de jararaca" (<i>a&ntilde;&aacute; dihpuro puir&oacute;</i>) e o "Corpo de jararaca" (<i>a&ntilde;&aacute; d&euml;hp&euml; puiro</i>). &Eacute; &eacute;poca de fazer a limpeza do solo e a derrubada das &aacute;rvores para abrir novas ro&ccedil;as. Nos troncos abatidos e queimados em terreno de mata virgem e capoeira nova, brotam cogumelos comest&iacute;veis. Ao mesmo tempo, aparece no c&eacute;u a constela&ccedil;&atilde;o "Ovos de jararaca" (<i>a&ntilde;&aacute; diub&aacute; puir&oacute;</i>), de duas estrelas. A um dos cogumelos, marrom, esponjoso, os Des&acirc;na chamam <i>&euml;'iri</i> (grude). Seu nome cient&iacute;fico &eacute; <i>Auricularia delicata</i> Fr. Outro, branco, bem maior, pertence &agrave; fam&iacute;lia dos polipore&aacute;ceos. Um terceiro, tamb&eacute;m marrom e esponjoso, por&eacute;m bem maior que os dois primeiros, &eacute; chamado de <i>t&aacute;ka</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A safra dos cogumelos comest&iacute;veis vai at&eacute; o final de novembro, quando amadurecem, ao mesmo tempo, o abiu (<i>Pouteria caimito</i>) e o ing&aacute; (<i>Inga spp</i>). A pupunha (<i>Bactris gasipaes</i>), j&aacute; florida, come&ccedil;a a frutificar. Nesse &iacute;nterim, cai a chuva "Rabo redondo de jararaca", depois que aparece no c&eacute;u a constela&ccedil;&atilde;o com esse nome (<i>a&ntilde;&aacute; poler&oacute; ber&oacute;</i>) (<a href="#fig1">Figura 1</a>). Durante essa chuva, que continua at&eacute; dezembro, ocorre a primeira piracema (quando os peixes sobem o rio para desovar), batizada pelos ind&iacute;genas de "lavagem da coceira da pupunha". R&atilde;s (dos g&ecirc;neros <i>Leptodac tylus</i> e <i>Osteocephalus</i>) come&ccedil;am a cantar e podem ser facilmente capturadas. O mesmo acontece com as maniuaras, insetos da fam&iacute;lia das t&eacute;rmitas, que come&ccedil;am a levantar voo, mas ainda em pequena quantidade. A enchente cobre os igap&oacute;s.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em janeiro, vem o "ver&atilde;o do abiu" (<i>kan&eacute; were</i>: abiu, ver&atilde;o), que dura cinco dias. &Eacute; quando essa fruta come&ccedil;a a escassear. Chove um pouco, mas a chuva n&atilde;o &eacute; marcada por nenhuma constela&ccedil;&atilde;o. Vem em seguida o "ver&atilde;o do ing&aacute;" (<i>men&eacute; were</i>: ing&aacute;, ver&atilde;o), tamb&eacute;m assinalado pelo t&eacute;rmino da safra dessa fruta de vagem comprida. A pupunha est&aacute; come&ccedil;ando a amadurecer. Esse ver&atilde;o dura de oito a 15 dias, tempo dedicado &agrave; queima da ro&ccedil;a aberta na mata virgem derrubada em outubro. S&atilde;o precisos pelo menos sete dias de sol forte para que se possa queimar a madeira abatida e plantar. Os matapis chamados <i>t&euml;li</i> s&atilde;o colocados nos igap&oacute;s. Quando acaba esse ver&atilde;o, no fim de janeiro, come&ccedil;a a chuva "F&ecirc;mur de tatu", anunciada pela constela&ccedil;&atilde;o do mesmo nome (<i>pamo ngo&aacute; d&euml;hka</i>). N&atilde;o d&aacute; para alagar os igap&oacute;s nem traz piracema, mas as r&atilde;s continuam a cantar.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"A ambas - constela&ccedil;&otilde;es e chuvas - est&atilde;o associados os ciclos econ&ocirc;micos naturais: in&iacute;cio, amadurecimento e t&eacute;rmino das safras de frutas; ocorr&ecirc;ncia de piracemas; safras de insetos, como a maniuara e a sa&uacute;va, de grande import&acirc;ncia alimentar."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Fevereiro entra com a constela&ccedil;&atilde;o e a chuva do "Tatu" (<i>pamo</i>) (<a href="#fig2">Figura 2</a>), trazendo a segunda piracema, do aracu e outros peixes, maior que a primeira. Depois da chuva vem um veranico de quatro dias, chamado "da cucura" (<i>igui were</i>: cucura, ver&atilde;o) por causa dessa fruta (<i>Porouma cecropiaefolia</i>), que ent&atilde;o come&ccedil;a a amadurecer. Da mesma forma que o abiu e o ing&aacute;, a cucura e a pupunha frutificam ao mesmo tempo, em mar&ccedil;o, m&ecirc;s de pouca chuva e que n&atilde;o &eacute; marcado por nenhuma constela&ccedil;&atilde;o. Nessa &eacute;poca, entre meados de mar&ccedil;o e in&iacute;cio de abril, o "ver&atilde;o da pupunha" (<i>&euml;ni were</i>: pupunha, ver&atilde;o), que dura de uma a duas semanas, &eacute; aproveitado para a queima da ro&ccedil;a cuja mata foi derrubada em novembro ou dezembro. Quem derruba a capoeira em janeiro tamb&eacute;m costuma queim&aacute;-la nesse per&iacute;odo.</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"A classifica&ccedil;&atilde;o das constela&ccedil;&otilde;es dos Des&acirc;na espelha a realidade clim&aacute;tica de seu h&aacute;bitat, que se caracteriza pela altern&acirc;ncia de sol e chuva, bem como pelas sucessivas cheias e vazantes dos rios."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No fim do ver&atilde;o da pupunha, vem a chuva anunciada pela constela&ccedil;&atilde;o do "Camar&atilde;o" (<i>&ntilde;ahsin kam&euml;</i>) (<a href="#fig3">Figura 3</a>), j&aacute; em abril. Ela traz a terceira piracema do aracu e outros peixes. As maniuaras voltam a voar, assim como as sa&uacute;vas, cujas f&ecirc;meas j&aacute; est&atilde;o ovadas. No decorrer dessa chuva, come&ccedil;a tamb&eacute;m a revoada dos cupins. S&atilde;o de duas esp&eacute;cies, ambas comest&iacute;veis e do mesmo tamanho. Enquanto persiste no c&eacute;u o "Camar&atilde;o", come&ccedil;a a criar asas outra formiga comest&iacute;vel, a "formiga-da-noite". Mas a constela&ccedil;&atilde;o do "Camar&atilde;o" nem sempre traz chuva. Quando n&atilde;o chove, todo o ciclo econ&ocirc;mico - a terceira piracema, o voo das maniuaras, sa&uacute;vas, cupins e formigas-da-noite, o aparecimento das r&atilde;s deixa de ocorrer. Diz-se ent&atilde;o que "a constela&ccedil;&atilde;o se perdeu". E nesse caso o ver&atilde;o da pupunha se prolonga at&eacute; meados de abril.</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na segunda quinzena de abril, cai outra chuva. &Eacute; anunciada pelo surgimento da constela&ccedil;&atilde;o "Barba do queixo da on&ccedil;a" (<i>v&eacute;disik&aacute; poalo</i>) e marca o fim do ciclo das piracemas. Ao mesmo tempo, termina a safra do umari (<i>Poraqueiba sericea</i>), fruta que amadurece em meados de mar&ccedil;o. Depois da chuva, v&ecirc;m dois ou tr&ecirc;s dias de sol, entremeados de pequenas precipita&ccedil;&otilde;es. Segue-se a chuva forte, pesada, intermitente, que corresponde ao aparecimento de uma constela&ccedil;&atilde;o comprida, o "Corpo da on&ccedil;a" (<i>v&eacute; d&euml;hp&euml; puir&oacute;</i>). Nesse per&iacute;odo, as r&atilde;s cantam o tempo todo, e &eacute; f&aacute;cil apanh&aacute;-las. Um veranico de quatro a cinco dias sucede a essa grande chuva. &Eacute; o "ver&atilde;o do umari" (<i>m&euml; were</i>: umari, ver&atilde;o). Passados os dias de sol, vem a chuva chamada "Rabo redondo da on&ccedil;a", devido &agrave; constela&ccedil;&atilde;o que a anuncia (<i>v&eacute; poler&oacute; ber&oacute;</i>) (<a href="/img/revistas/cic/v76spe3/a04fig04.jpg">Figura 4</a>). Ent&atilde;o termina o canto das r&atilde;s, que j&aacute; n&atilde;o podem ser localizadas; a maniuara e as sa&uacute;vas tamb&eacute;m n&atilde;o voam mais. Continuam apenas os cupins.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em maio, cai a chuva anunciada pela constela&ccedil;&atilde;o "Peda&ccedil;o de estrela" (<i>nekan turu</i>) (<a href="#fig5">Figura 5</a>). Nesse per&iacute;odo, pouco antes de acabar o ciclo dos insetos comest&iacute;veis, torna-se mais intenso o voo das duas esp&eacute;cies de cupins. Ainda no decorrer de maio, o aparecimento das constela&ccedil;&otilde;es "Peixe, moqu&eacute;m" (<i>w&aacute;i kaid</i>) (<a href="#fig6">Figura 6</a>) e "Cuia com polpa de umari sobre suporte" (<i>k&aacute;i sanin&oacute;</i>) (<a href="#fig7">Figura 7</a>), uma depois da outra, marca o in&iacute;cio de chuvas torrenciais, ininterruptas, que fazem subir a &aacute;gua dos rios. Com as armadilhas de pesca, permanentes ou tempor&aacute;rias, submersas, s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pescar o daguiru com anzol. Ainda &eacute; preciso mencionar uma intensa migra&ccedil;&atilde;o de p&aacute;ssaros, do tamanho do bem-te-vi, cuja revoada coincide com as tr&ecirc;s constela&ccedil;&otilde;es da on&ccedil;a acima referidas. Quando desponta a "Cuia", esses passarinhos desaparecem, sem que se saiba de onde prov&ecirc;m.</font></p>     <p><a name="fig5"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig05.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig6"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig06.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig7"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig07.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As fortes chuvas marcadas por essas constela&ccedil;&otilde;es prolongam-se at&eacute; meados de junho. A que vem com "Peda&ccedil;o de estrela", em maio, permite a derrubada da capoeira a ser queimada no veranico de junho, de tr&ecirc;s dias, chamado <i>yoh&oacute;ka d&euml;hp&euml; bohot&aacute;li</i>, o que poderia ser traduzido, n&atilde;o literalmente, por "enx&oacute;-enfeite emplumado, ver&atilde;ozinho". &Eacute; ent&atilde;o que se planta o milho: plantado nessa &eacute;poca &eacute; que ele vinga, como dizem os ind&iacute;genas. Nesse veranico, o rio baixa um pouco, mas logo em seguida cai nova chuva chamada - como a constela&ccedil;&atilde;o que a precede - "Enx&oacute;-enfeite emplumado" (<i>voh&oacute;ka dehp&euml; puir&oacute;</i>) (<a href="#fig8">Figura 8</a>). Segundo Stephen Hugh-Jones, essa constela&ccedil;&atilde;o representa a enx&oacute; com l&aring;mina de pedra usada antigamente como ferramenta agr&iacute;cola e, mais tarde, como ornamento ritual levado ao ombro esquerdo, durante as dan&ccedil;as. Atualmente, as enx&oacute;s n&atilde;o s&atilde;o mais encontradas. Para Hugh-Jones, essa constela&ccedil;&atilde;o corresponde ao cintur&atilde;o e &agrave; espada de &Oacute;rion.</font></p>     <p><a name="fig8"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig08.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Termina o m&ecirc;s de junho e as &aacute;guas voltam a crescer, tornando poss&iacute;vel a travessia de lancha at&eacute; as cachoeiras de Pari e Caruru. Come&ccedil;am a subir o rio peixinhos min&uacute;sculos, de dois a dez cent&iacute;metros, conhecidos como pir&aacute;-mirins, apanhados em armadilhas de crivo fino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Julho &eacute; o tempo da revoada do gafanhoto. Eles chegam em grandes enxames ruidosos que invadem a aldeia. S&atilde;o apanhados a m&atilde;o, com ajuda de fachos de turi, madeira ign&iacute;fera (<i>Licania kunthiana</i>). Alguns pescadores os utilizam como isca de pacu, &uacute;nico peixe que come gafanhoto. Tr&ecirc;s constela&ccedil;&otilde;es surgem em julho. A primeira e a chuva correspondente - chama-se "Lontra" (<i>di'&aacute; yow&aacute;</i>) (<a href="#fig9">Figura 9</a>). Antigamente, havia lontras no rio Tiqui&eacute; e elas eram ca&ccedil;adas nesse per&iacute;odo do ano; a explora&ccedil;&atilde;o para venda de peles dizimou e afugentou os animais. Na mesma &eacute;poca, v&ecirc;em-se &agrave;s vezes, mas n&atilde;o muito nitidamente, as constela&ccedil;&otilde;es "Passarinho, muito bonito" (<i>bihpi&aacute; dian&aacute;</i>) (<a href="#fig10">Figura 10</a>) e "Caranguejo, muito bonito" (<i>ngami&aacute; dian&aacute;</i>) (<a href="#fig11">Figura 11</a>).</font></p>     <p><a name="fig9"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig09.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig10"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig10.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig11"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig11.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas constela&ccedil;&otilde;es anunciam chuvas intermitentes que, por sua vez, trazem a frente fria chamada <i>ker&aacute;</i>, como o mam&iacute;fero do mesmo nome (pregui&ccedil;a). &Eacute; o in&iacute;cio do ciclo das larvas comest&iacute;veis. Carnudas e de excelente sabor, as larvas alimentam-se das folhas de certas &aacute;rvores e delas recebem seus nomes. A safra dessas primeiras larvas coincide com a volta da constela&ccedil;&atilde;o "Peda&ccedil;o de estrela", que aparecera pela primeira vez em maio. Tamb&eacute;m nessa &eacute;poca sobem o rio Tiqui&eacute;, mas n&atilde;o em desova, cardumes de maior porte, como o surubim e o pacu. A primeira migra&ccedil;&atilde;o desses peixes costuma acontecer em junho, a segunda em julho e a terceira em agosto.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em agosto, come&ccedil;a-se a ro&ccedil;ar o terreno de mata virgem onde se deseja abrir ro&ccedil;a nova. Ro&ccedil;am-se tamb&eacute;m as capoeiras, que podem ser derrubadas quase em seguida, porque s&atilde;o cobertas de &aacute;rvores de menor porte. Ao mesmo tempo, termina a primeira safra de larvas e come&ccedil;a uma segunda, bem maior. Essas safras mobilizam grande n&uacute;mero de pessoas, sobretudo na coleta de <i>nihti&aacute;</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os rios est&atilde;o cheios e &eacute; dif&iacute;cil pescar, exceto com anzol. Por isso, as larvas assumem grande import&acirc;ncia na dieta alimentar dos grupos ind&iacute;genas. As mais procuradas e apreciadas s&atilde;o a primeira larva do cunuri e a que come folha de japur&aacute;. Em meio ao ciclo das larvas, verifica-se uma presen&ccedil;a mais not&oacute;ria de pacas (<i>Culiculus paca</i>). Esses roedores alimentam-se dos frutos das &aacute;rvores que crescem &agrave; beira-rio e amadurecem em junho, julho e agosto. Nessa &eacute;poca do ano, conforme a antiga divis&atilde;o de atribui&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas entre as tribos, cabia aos Des&acirc;na ca&ccedil;&aacute;-las.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O conhecimento ind&iacute;gena dos fen&ocirc;menos clim&aacute;ticos deve ser considerado para a compreens&atilde;o da etnoecologia da Amaz&ocirc;nia."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em setembro, ocorre um pequeno veranico de dois a tr&ecirc;s dias. Chama-se "ver&atilde;o das larvas velhas" (<i>i'i mera were</i>: larvas, velhas, ver&atilde;o) e marca o fim das primeiras larvas que aparecem em julho (as <i>nihti&aacute;</i>, do cunuri, e as <i>wahsu'bulo in</i>, do tururi). Aproveitam-se os poucos dias de sol para queimar a ro&ccedil;a de capoeira abatida em agosto. O rio baixa e termina o alagamento do igap&oacute;. Passada a curta estiagem, voltam a chuva e a corrente fria da pregui&ccedil;a. A ventania derruba as flores de fruteiras, como o abiu e o ing&aacute;, plantadas nas ro&ccedil;as e junto &agrave;s casas. Depois dessa onda de frio, vem outro ver&atilde;o de cinco dias. &Eacute; o "ver&atilde;o das larvas bonitas" (<i>in diand were</i>: larvas, bonitas, ver&atilde;o), que assinala o t&eacute;rmino da safra das &uacute;ltimas larvas comest&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A estiagem &eacute; de novo aproveitada na queima das ro&ccedil;as de capoeira. Os dias de sol terminam quando surge a constela&ccedil;&atilde;o "Gar&ccedil;a" (<i>iah&iacute; puir&oacute;</i>) (<a href="#fig12">Figura 12</a>), com a chuva do mesmo nome. Ela anuncia a &uacute;ltima revoada da maniuara, chamada <i>por&aacute; meng&aacute;</i> (espinho, maniuara), j&aacute; no fim de setembro. A partir da&iacute;, come&ccedil;am chuvas intermitentes. Quem ainda n&atilde;o queimou a ro&ccedil;a feita em terreno de capoeira perde a derrubada, porque a macega come&ccedil;a a crescer e n&atilde;o ocorre mais uma s&eacute;rie de dias de sol forte para fazer a queima.</font></p>     <p><a name="fig12"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig12.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A classifica&ccedil;&atilde;o das constela&ccedil;&otilde;es dos Des&acirc;na espelha a realidade clim&aacute;tica de seu h&aacute;bitat, que se caracteriza pela altern&acirc;ncia de sol e chuva, bem como pelas sucessivas cheias e vazantes dos rios. Os ver&otilde;es s&atilde;o muito curtos, atingido no m&aacute;ximo 15 dias sem precipita&ccedil;&atilde;o alguma; e as chuvas est&atilde;o diretamente relacionadas &agrave; posi&ccedil;&atilde;o dos astros, ou seja, s&atilde;o marcadas pelo surgimento de constela&ccedil;&otilde;es, cuja nomenclatura &eacute; id&ecirc;ntica &agrave; delas. S&atilde;o, portanto, essas constela&ccedil;&otilde;es e essas chuvas que determinam o ciclo econ&ocirc;mico anual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ca&ccedil;a n&atilde;o &eacute; inclu&iacute;da nesse ciclo como atividade de subsist&ecirc;ncia associada a mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas. Entre outras raz&otilde;es, porque antigamente era provida sobretudo pelos ind&iacute;genas da mata - os grupos Maku - aos ind&iacute;genas do rio as tribos da fam&iacute;lia lingu&iacute;stica tuk&acirc;no, &agrave; qual se filiam os Des&acirc;na. A &uacute;nica exce&ccedil;&atilde;o assinal&aacute;vel &eacute; a ca&ccedil;a de pacas, em determinada &eacute;poca do ano, vinculada ao amadurecimento de frutos com que esses roedores se alimentam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra evid&ecirc;ncia da maior import&acirc;ncia &eacute; a contribui&ccedil;&atilde;o que formigas e larvas de borboletas oferecem para complementar as necessidades de prote&iacute;na animal, cuja fonte principal, para os ind&iacute;genas do rio, &eacute; o peixe. Isso se comprova pela detalhada classifica&ccedil;&atilde;o taxon&ocirc;mica das diversas esp&eacute;cies, que demonstra profundo conhecimento da morfologia e h&aacute;bitos dos invertebrados comest&iacute;veis. Desse conhecimento, fruto de prolongada observa&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o tamb&eacute;m uma prova as t&eacute;cnicas de pesca e de captura de insetos e larvas. Os carboidratos s&atilde;o fornecidos pela mandioca, planta m&aacute;ter e sustent&aacute;culo mais est&aacute;vel da subsist&ecirc;ncia. Ela tamb&eacute;m se vincula ao ciclo das constela&ccedil;&otilde;es, na medida em que chuvas e estiagens determinam o ciclo agr&iacute;cola. Com efeito, nos curtos intervalos de no m&aacute;ximo 15 dias, quando n&atilde;o ocorre precipita&ccedil;&atilde;o alguma, queima-se a ro&ccedil;a, derrubada n&atilde;o raro sob o peso de chuvas torrenciais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O movimento das estrelas pouco tem a ver com o ciclo ritual. Antigamente, antes das chuvas que acompanhavam as constela&ccedil;&otilde;es da jararaca, de outubro a dezembro, os <i>kumu&aacute;</i> (s&aacute;bios, videntes) faziam ritos com breu e fumo para afastar os of&iacute;dios que aparecem em maior n&uacute;mero e s&atilde;o mais pestilentos e agressivos nessa &eacute;poca. O rito do breu &eacute;, por isso, chamado <i>a&ntilde;&aacute; dibuli</i> (jararaca, afastar). Nas ro&ccedil;as, que s&atilde;o derrubadas ent&atilde;o, o rito com fumo protegia contra a queda de troncos. De julho a setembro, quando surgem as constela&ccedil;&otilde;es que coincidem com o ciclo das larvas comest&iacute;veis, faziam-se os mesmos exorcismos para defesa contra paj&eacute;s sobrenaturais. O rito de inicia&ccedil;&atilde;o masculina ocorria quando amadureciam certos frutos da mata muito apreciados por sua raridade - o uacum (<i>Monopteryx uacu</i>), o miriti (<i>Mauritia flexuosa</i>), e uma esp&eacute;cie de seringueira, provavelmente o cunuri, chamado pelos Des&acirc;na de <i>wahsun</i> e quando aparecia a constela&ccedil;&atilde;o "Enx&oacute; emplumada".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A nomenclatura das constela&ccedil;&otilde;es coincide em parte com a que Stephen Hugh-Jones anotou (1982) entre os Barasana, grupo de l&iacute;ngua tuk&acirc;no da Col&ocirc;mbia, e a que Koch-Grunberg registrou (1905) em duas tribos da mesma filia&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica no Uaup&eacute;s. Contudo, nem sempre os nomes se referem ao mesmo grupo de estrelas. Entre os Des&acirc;na essas constela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o mencionadas nos mitos: vinculam-se primordialmente &agrave; vida econ&ocirc;mica. Suas observa&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas contradizem a no&ccedil;&atilde;o de que, na regi&atilde;o, h&aacute; apenas duas esta&ccedil;&otilde;es: seca e chuvosa, ou "ver&atilde;o" e "inverno". Tamb&eacute;m superam outra classifica&ccedil;&atilde;o simplista, que s&oacute; distingue no solo amaz&ocirc;nico a terra firme, a campina e a v&aacute;rzea. Disso se conclui que o conhecimento ind&iacute;gena dos fen&ocirc;menos clim&aacute;ticos deve ser considerado para a compreens&atilde;o da etnoecologia da Amaz&ocirc;nia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ciclo dos peixes do rio Tiqui&eacute;</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em estreita depend&ecirc;ncia do regime das chuvas, o ciclo dos peixes se subordina, portanto, ao aparecimento das constela&ccedil;&otilde;es que as anunciam. Assim, em novembro, quando surge a constela&ccedil;&atilde;o "Rabo redondo de jararaca", ocorre a primeira piracema de aracus, mandis, pacus, surubins. Em janeiro, durante o ver&atilde;o do ing&aacute;, quando as &aacute;guas est&atilde;o baixas, come&ccedil;a o preparo e a coloca&ccedil;&atilde;o das armadilhas de pesca e a confec&ccedil;&atilde;o dos grandes pu&ccedil;&aacute;s - os jerer&eacute;s - um trabalho masculino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cai&aacute;, a maior das armadilhas permanentes, &eacute; constru&iacute;do junto &agrave;s cachoeiras ou, mais propriamente, restaurado nessa &eacute;poca (<a href="#fig13">Figura 13</a>). No rio Tiqui&eacute;, existem cai&aacute;s nas cachoeiras de Pari, perto da aldeia dos Tuk&acirc;no, e Periquito; no igarap&eacute; Cabari, onde se situa um povoado dos ind&iacute;genas Tuy&uacute;ka (a tr&ecirc;s horas de viagem em canoa acima de Pari); na cachoeira Caruru, junto &agrave; aldeia do mesmo nome, dos Tuk&acirc;no; na cachoeira Pedra Curta, onde se localiza a povoa&ccedil;&atilde;o S&atilde;o Pedro, tamb&eacute;m dos ind&iacute;genas Tuy&uacute;ka. S&oacute; nesses lugares arma-se o cai&aacute; no rio Tiqui&eacute;.</font></p>     <p><a name="fig13"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig13.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em abril, quando surge a constela&ccedil;&atilde;o "Rabo redondo da on&ccedil;a", os aracus fazem na cachoeira Pari uma piracema que dura s&oacute; um dia. Ela &eacute; denunciada por um barulho caracter&iacute;stico: os peixes "gritam". Ap&oacute;s a desova, ao iniciarem a descida do rio, eles s&atilde;o apanhados no cai&aacute;. Os ind&iacute;genas que ajudaram a construir a armadilha dividem o produto. Nos outros dias, pega o peixe quem chegar primeiro. Com essa armadilha, agarra-se tanto o peixe que sobe como o que desce o rio. Para o que sobe, o cai&aacute; &eacute; um anteparo que diminui a for&ccedil;a da &aacute;gua na cachoeira. Ele procura a passagem e cai na esteira do cai&aacute;. O peixe que desce o rio trata de contornar a armadilha. N&atilde;o resistindo &agrave; for&ccedil;a das &aacute;guas, retrocede, caindo igualmente na cilada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No cai&aacute;, apanham-se peixes grandes, como surubim, pacu, aracu, mandub&eacute;, mandi, e pequenos, como o pir&aacute;-mirim. Na &eacute;poca pr&oacute;pria, arma-se uma esteira apertada, para que esse peixinho n&atilde;o escape por entre as varetas. O pacu, bem como o peixe chamado "do queixo vermelho", comem o caruru (<i>Mourera fluviatilis</i>), planta que d&aacute; nas cachoeiras e da qual antigamente se extra&iacute;a sal. Por isso eles s&atilde;o pescados em maior quantidade nesses h&aacute;bitats.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O jequi &eacute; colocado nos lugares onde fazem piracema os aracus (<a href="#fig14">Figura 14</a>). Esses peixes t&ecirc;m dois pontos pretos no rabo, vivem nos igarap&eacute;s e desovam no igap&oacute;, em determinados locais do rio Tiqui&eacute;. A piracema dessa esp&eacute;cie de aracu (<i>&ntilde;ihtin ierikena</i>, em des&acirc;na) ocorre durante o dia, &agrave;s quatro horas da tarde. A outra esp&eacute;cie de aracu tem uma risca preta no rabo. Seu h&aacute;bitat &eacute; no pr&oacute;prio rio Tiqui&eacute;, mas eles desovam nos rec&ocirc;ncavos, ou seja, nas voltas do rio, tamb&eacute;m em lugares certos. O aracu de risca preta (<i>&ntilde;ihtin manikena</i>, em des&acirc;na) desova &agrave; noite, durante a chuva, um dia antes da piracema do aracu de pontos pretos.</font></p>     <p><a name="fig14"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig14.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por causa desses h&aacute;bitos do aracu - o peixe mais apreciado pelos ind&iacute;genas da regi&atilde;o - e de outros peixes, os matapis s&atilde;o colocados em lugares determinados. Os Tuk&acirc;no de Bela Vista colocam-nos no igarap&eacute; Umari e os de Tabatinga e Inspetoria no igarap&eacute; Castanha, ambos afluentes do Tiqui&eacute;. &Eacute; mais f&aacute;cil colocar o jequi nos igarap&eacute;s, que s&atilde;o locais mais fechados, do que na beira do rio ou nos igap&oacute;s. O rio e o igap&oacute; crescem rapidamente e, com a subida das &aacute;guas, &eacute; dif&iacute;cil encontrar o lugar da desova. Esses locais pertencem aos "irm&atilde;os maiores" de cada grupo, sendo denominados segundo o nome das armadilhas. Nas povoa&ccedil;&otilde;es dos ind&iacute;genas Tuk&acirc;no, no rio Tiqui&eacute;, est&atilde;o os lugares mais apropriados &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o dos matapis. &Agrave;s vezes pegam-se neles os peixes menores, que sobem em cardumes as cachoeiras, entre julho e setembro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cacuri &eacute; armado nas cachoeiras, em locais mais fechados do igap&oacute;, &agrave; beira-rio, bem como nos paran&aacute;s. Nas cachoeiras de lauaret&eacute; e Ipanor&eacute;, no rio Uaup&eacute;s, sua localiza&ccedil;&atilde;o, nos pontos de desova dos peixes, &eacute; transmitida de pais a filhos, como direito de heran&ccedil;a. Os cacuris colocados no rio Tiqui&eacute; n&atilde;o est&atilde;o na depend&ecirc;ncia da piracema. A despeito disso, os maiores da tribo se apropriam desses lugares descobertos por meio de seguidas tentativas de captura dos peixes e os transferem, como heran&ccedil;a, a seus descendentes. O cacuri, como o cai&aacute;, pode ser considerado armadilha permanente. Tamb&eacute;m &eacute; restaurado durante o ver&atilde;o do ing&aacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro tipo de armadilha - um tubo oblongo de boca expandida chamado <i>t&euml;li</i> - tamb&eacute;m &eacute; preparado durante o ver&atilde;o do ing&aacute;, isto &eacute;, em janeiro (<a href="#fig15">Figura 15</a>). &Eacute; fincado entre varas, folhagens e outros anteparos, em determinados lugares no igap&oacute;. Esses locais s&atilde;o tamb&eacute;m transmitidos pelos pais a seus primog&ecirc;nitos e depois aos filhos seguintes. S&atilde;o lugares em que, por experi&ecirc;ncias de acerto e erro, a pesca mostrou-se mais produtiva, nada tendo a ver com as piracemas. &Agrave;s vezes caem no <i>t&#283;li</i> os peixes menores - aracu, mandi, acar&aacute; - que sobem em cardumes entre julho e setembro. O jerer&eacute; &eacute; outro importante implemento pesqueiro (<a href="#fig16">Figura 16</a>). Serve para pescar o aracu de pontos pretos que desova &agrave; tarde e que, como o de risca preta, &eacute; encontrado em todas as piracemas marcadas pelas constela&ccedil;&otilde;es de que tratamos.</font></p>     <p><a name="fig15"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig15.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig16"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig16.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante a piracema do primeiro aracu - o de risca preta - que ocorre &agrave; noite, toda a aldeia se re&uacute;ne para ajudar na pesca com jerer&eacute;, em canoa. Os pescadores sobem o rio, no meio da correnteza, com o pu&ccedil;&aacute; grande imerso na &aacute;gua. Quando percebem que j&aacute; agarraram certa quantidade de peixe, despejam-na na canoa e voltam a mergulhar o jerer&eacute; no rio. Tornam ent&atilde;o a subir no meio da correnteza e repetem a opera&ccedil;&atilde;o in&uacute;meras vezes, at&eacute; se darem conta de que terminou a piracema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outros peixes - como o pacu, o mandub&eacute;, o surubim e o mandi - tamb&eacute;m procriam durante a piracema do aracu. O pirapucu faz piracema em separado, nas concentra&ccedil;&otilde;es da palmeira jauari (<i>Astrocaryum jauari</i>), que cresce nos igap&oacute;s. A piranha, o acar&aacute;, a tra&iacute;ra e o tucunar&eacute;, entre outros, desovam individualmente, n&atilde;o em piracema: o acar&aacute; e o tucunar&eacute;, no ver&atilde;o do ing&aacute;, a tra&iacute;ra e a piranha, no ver&atilde;o da pupunha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas estiagens mais prolongadas, assinaladas pelos intervalos entre o aparecimento das constela&ccedil;&otilde;es, fazem-se tinguijadas. Para isso, coloca-se uma grande barragem (pari) cercando o paran&aacute;, o lago, alguns igap&oacute;s que permitem esse fechamento por serem mais redondos, e tamb&eacute;m os igarap&eacute;s, quando a &aacute;gua baixa o suficiente. A coloca&ccedil;&atilde;o dos paris se faz na &eacute;poca que precede as enchentes anunciadas pelas constela&ccedil;&otilde;es do "Rabo de jararaca", "F&ecirc;mur de tatu" e "Camar&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas tinguijadas, empregam-se dois tipos de timb&oacute; (planta das fam&iacute;lias Leguminosae e Sapindacea; g&ecirc;neros nativos: <i>Derris</i> e <i>Paullinia</i>; g&ecirc;neros cultivados: <i>Tephrosia sinapu</i> e outros). Um deles, nativo, cresce nos igap&oacute;s e s&oacute; serve para pescar nos lagos. O talo &eacute; pisado e a espuma resultante espalhada no lago, para envenenar os peixes. Eles levam poucos minutos para subir &agrave; superf&iacute;cie, sendo ent&atilde;o apanhados com pu&ccedil;&aacute;, arp&atilde;o ou peneira, por homens, mulheres e crian&ccedil;as. Mais comum &eacute; o uso do timb&oacute; cultivado na ro&ccedil;a. &Eacute; uma trepadeira cuja raiz &eacute; socada e misturada com barro. Dissolvida a mistura na &aacute;gua, ela intoxica os peixes, que v&ecirc;m &agrave; tona nos lagos, igarap&eacute;s, paran&aacute;s e curvas dos rios, sendo pegos da maneira descrita.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na segunda quinzena de abril, quando cai a chuva "Barba do queixo da on&ccedil;a", n&atilde;o d&aacute; mais para pescar com armadilha. Tampouco se montam barragens com paris, para tinguijar, uma vez que se sabe que n&atilde;o haver&aacute; outra estiagem. Durante o resto do m&ecirc;s, e tamb&eacute;m em maio, as armadilhas preparadas no ver&atilde;o do ing&aacute; ficam submersas. S&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pescar um peixinho chamado daguiru, &agrave; noite, com anzol.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A isca &eacute; um verme preto - o daracubi - cujos viveiros ficam em determinados lugares no igap&oacute;. Quando o rio enche, o daracubi sobe nas &aacute;rvores e se esconde nas orqu&iacute;deas, onde &eacute; coletado. Quando o rio seca, o pescador n&atilde;o precisa de isca: ele mergulha e procura nos tocos de pau podre certas esp&eacute;cies de daguiru que comem lama. &Agrave;s vezes os peixinhos s&atilde;o pegos a m&atilde;o, na pr&oacute;pria lama.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a cheia dos rios, em junho, aparecem outros peixes, min&uacute;sculos, os pir&aacute;-mirins. Eles caem nos cai&aacute;s colocados nas cachoeiras - quando estas n&atilde;o ficam submersas - nos jequis e em outra armadilha especial (<i>im&iacute;no</i>, em des&acirc;na), que leva isca de cupim ou formiga torrada, sustentada por uma folha. Para peg&aacute;-los, os cai&aacute;s s&atilde;o aparelhados com esteiras de crivo fino, isto &eacute;, com varetas armadas bem pr&oacute;ximas umas das outras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir de junho, come&ccedil;am a subir o rio cardumes maiores, como o surubim e o pacu. Concentram-se principalmente nas cachoeiras, onde, em lugares exclusivos para sua captura, s&atilde;o armados cai&aacute;s e cacuris. &Agrave;s vezes, eles s&atilde;o tamb&eacute;m pescados com isca e anzol ou, &agrave; noite, com facheio. O conjunto dos cardumes chama-se em des&acirc;na <i>i'in wai</i>, o que significa "larvas, peixes", uma vez que o auge dessa migra&ccedil;&atilde;o ocorre na &eacute;poca da safra das lagartas de borboletas, em agosto. A subida de cardumes - n&atilde;o em desova - vai de junho a setembro. A partir da&iacute; o rio baixa de n&iacute;vel e termina o alongamento dos igap&oacute;s, reiniciando-se novo ciclo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com o uso das malhadeiras, introduzidas em 1979, no rio Tiqui&eacute;, esses cardumes e at&eacute; mesmo as piracemas v&atilde;o se tornando cada vez mais raros. Os peixes s&atilde;o pegos nas malhadeiras antes de ficarem adultos, n&atilde;o atingindo a &eacute;poca da desova.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ciclo dos invertebrados comest&iacute;veis</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; depois da chuva trazida pela constela&ccedil;&atilde;o "Rabo redondo de jararaca" e durante a primeira piracema que as maniuaras (fam&iacute;lia <i>Termidae</i>, subfam&iacute;lia <i>Nasutitermitinae</i>, g&ecirc;nero <i>Cornitermes</i>) fazem a sua apari&ccedil;&atilde;o. Elas constroem mont&iacute;culos de terra com v&aacute;rios orif&iacute;cios de entrada e sa&iacute;da. Para apanh&aacute;-las, os ind&iacute;genas fazem um funil com folha de sororoca (bananeira-brava, <i>Heliconia sp</i>) que &eacute; enfiado nos buracos do cupinzeiro. A esse funil se adapta uma esp&eacute;cie de recipiente: folha de sororoca dobrada e presa pelas dobras com lascas de pec&iacute;olo da folha da palmeira patau&aacute; (<i>Jessenia bataua</i>). A maniuara, ao levantar voo, bate na extremidade superior do funil e resvala para o recipiente de sororoca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa opera&ccedil;&atilde;o &eacute; repetida ao terminar o ver&atilde;o da pupunha - no in&iacute;cio de abril - quando surge a constela&ccedil;&atilde;o do "Camar&atilde;o" e ocorre nova revoada do inseto. Em meados do mesmo m&ecirc;s, h&aacute; uma terceira revoada, anunciada pela constela&ccedil;&atilde;o "Barba do queixo da on&ccedil;a", que por causa disso tamb&eacute;m &eacute; chamada "Enchente de maniuara". Finalmente, durante a chuva que se precipita com a constela&ccedil;&atilde;o "Rabo redondo da on&ccedil;a", ocorre a &uacute;ltima revoada das maniuaras. Como as safras dessas t&eacute;rmitas coincidem com algumas piracemas, verificava-se antigamente uma distribui&ccedil;&atilde;o das tarefas: os Tuk&acirc;no iam pescar enquanto os Des&acirc;na se ocupavam da coleta dos insetos. Os ind&iacute;genas apreciam muito a maniuara que, como a abelha, tem soldados e rainhas. Os soldados s&atilde;o comidos crus ou torrados, socados no pil&atilde;o com sal e pimenta. &Agrave;s vezes acrescenta-se peixinho moqueado, tamb&eacute;m socado no pil&atilde;o, e com a mistura cobre-se o beiju. A rainha &eacute; preparada da mesma forma, mas sem peixe.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sa&uacute;va &eacute; igualmente apreciada por todos os grupos da regi&atilde;o. Consomem-se duas esp&eacute;cies do g&ecirc;nero <i>Atta</i>: uma, chamada <i>dih putiana</i> em des&acirc;na, &eacute; pequena, amarronzada, e ingerida viva ou torrada, tanto o macho como a f&ecirc;mea; a outra, tamb&eacute;m pequena, por&eacute;m preta e mais brava, &eacute; chamada <i>biapon&aacute;</i>. Quando moqueadas, essas formigas se conservam por muito tempo. O voo da sa&uacute;va come&ccedil;a quando as f&ecirc;meas est&atilde;o ovadas, ao cair a chuva da constela&ccedil;&atilde;o do "Camar&atilde;o". Para apanh&aacute;-las, arma-se em cima do formigueiro um jirau, onde as pessoas se sentam e as capturam em pleno voo. Seu ciclo termina na mesma &eacute;poca que o das maniuaras, isto &eacute;, em meados de abril, quando surge a constela&ccedil;&atilde;o "Rabo redondo da on&ccedil;a".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda durante a chuva da constela&ccedil;&atilde;o do "Camar&atilde;o", come&ccedil;a a voar outra formiga, a "formiga-da-noite" (em tradu&ccedil;&atilde;o literal do des&acirc;na <i>nami meng&aacute;</i>: noite, formiga). Seu viveiro &eacute; subterr&acirc;neo, assim como o da sa&uacute;va. Ela inicia o voo ao clarear o dia, sendo apanhada com facheio de turi. Cava-se primeiro um buraco a tr&ecirc;s metros de dist&acirc;ncia do formigueiro e abre-se uma calha, reta e limpa, para uni-los. Aceso o pau de turi, a formiga &eacute; atra&iacute;da pela luz, caminhando em dire&ccedil;&atilde;o ao buraco, onde &eacute; recolhida num recipiente (<a href="#fig17">Figura 17</a>). Na mesma &eacute;poca, ocorre o voo de duas esp&eacute;cies de cupim: <i>ahpik&#333;n weka</i> e <i>bulu pagan&aacute;</i>, em des&acirc;na. Uma delas constr&oacute;i seus ninhos debaixo da terra ou em &aacute;rvores podres, ap&oacute;s derrubadas; a outra &eacute; arbor&iacute;cola. Os cupins s&oacute; s&atilde;o comidos depois que criam asas, isto &eacute;, quando a f&ecirc;mea est&aacute; ovada. O macho n&atilde;o &eacute; consumido. O gafanhoto, que aparece antes da constela&ccedil;&atilde;o da "Lontra", em julho, &eacute; comido, tal como a formiga, torrado no tacho de barro, socado e misturado com sal e pimenta. Ou ent&atilde;o &eacute; moqueado no espeto.</font></p>     <p><a name="fig17"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig17.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No final de julho, ao surgir a constela&ccedil;&atilde;o do "Caranguejo", &eacute; tempo das larvas de borboleta. As primeiras a madurar a ponto de serem consumidas s&atilde;o as <i>nihti&aacute;</i>, da fam&iacute;lia das Saturnidae, que d&atilde;o no tronco do cunuri (<i>Cunuria spruceana</i>). Em seguida, surge a <i>wahsu &lsquo;bulo in</i>, que come a folha do tururi (<i>Sterculia sp</i>). Ambas as &aacute;rvores d&atilde;o em terra firme do tipo arenoso-argiloso e tamb&eacute;m no igap&oacute;. A que d&aacute; no p&eacute; do tururi &eacute; rajada de rosa e preto e sem pelos (<a href="#fig18">Figura 18</a>). &Agrave; medida que se torna adulta, aumenta de tamanho at&eacute; medir cerca de dez cent&iacute;metros, e vai descendo pelo tronco at&eacute; chegar ao alcance da m&atilde;o. Ent&atilde;o &eacute; apanhada e cozida em &aacute;gua e sal. A <i>nihti&aacute;</i>, de seis cent&iacute;metros, colorido acinzentado e pelo esbranqui&ccedil;ado, tamb&eacute;m &eacute; pega a m&atilde;o quando desce pelo tronco em bandos e se amontoa nos galhos das &aacute;rvores vizinhas para fazer ninhos. &Eacute; consumida torrada e socada no pil&atilde;o com sal e pimenta, acompanhando o beiju.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig18"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig18.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em agosto aparece outra lagarta muito apreciada: a <i>bali'i</i>, que se alimenta da folha do japur&aacute; (<i>Erisma pajur&aacute;</i>), &aacute;rvore de cerca de 20 metros de altura e um de di&acirc;metro, cujo fruto &eacute; comest&iacute;vel, assim como o do cunuri. Para apanh&aacute;-la, limpa-se primeiro uma calha no terreno em torno do tronco. Depois a calha &eacute; forrada com a folha de cabari (<i>Lonchocarpus sp</i>). A certos intervalos, abrem-se na calha buracos forrados com a mesma folha (<a href="#fig19">Figura 19</a>). A larva cai do alto do japur&aacute; por volta do meio-dia e fica andando em torno do tronco at&eacute; que penetra na calha, resvala e cai no buraco. Essa larva &eacute; azul com pintas saliva, para se protegerem. As que escapam brancas, sem pelo, e medem cerca de dez cent&iacute;metros. Sabe-se quando cai examina os excrementos que ela espalha em torno do japur&aacute;. A larva do japur&aacute; &eacute; muito procurada n&atilde;o apenas pelo excelente sabor, mas tamb&eacute;m porque produz uma enzima usada para eliminar verrugas. Como alimento, &eacute; cozida at&eacute; amolecer, ap&oacute;s tirar-se a gl&acirc;ndula produtora da enzima. Pode tamb&eacute;m ser torrada inteira, socada no pil&atilde;o e temperada com sal e pimenta.</font></p>     <p><a name="fig19"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig19.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na mesma &eacute;poca, em agosto, aparece a lagarta alaranjada com pelo branco (<a href="#fig20">Figura 20</a>) que come as folhas da acariquara (<i>Minquartia guaianensis</i>) e, por isso, toma o nome dessa &aacute;rvore em des&acirc;na (<i>bihp&iacute;sa</i>). Tem gosto adocicado sendo consumida da mesma forma que a lagarta do japur&aacute;. Em seguida, amadurece a outra lagarta do cunuri. Mede quatro cent&iacute;metros, tem pele e pelos marrons e se chama <i>sit'ha</i> (<a href="#fig21">Figura 21</a>). Ela come a folha da &aacute;rvore &agrave; noite e, como a <i>wahsu'bulo in</i> (do tururi), desce pelo tronco, quando adulta, at&eacute; ficar ao alcance da m&atilde;o. Ainda no mesmo m&ecirc;s as larvas <i>po'&aacute; bus&aacute;</i> e <i>wahsun pe in</i> (<a href="#fig22">Figuras 22</a> e <a href="#fig23">23</a>) atacam as folhas do cunuri. A primeira &eacute; peluda e esbranqui&ccedil;ada e atinge dez cent&iacute;metros de comprimento. A segunda, do mesmo tamanho, &eacute; amarelada, com o pelo da mesma cor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig20"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig20.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig21"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig21.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig22"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig22.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig23"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig23.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, no m&ecirc;s das larvas comest&iacute;veis, aparecem as lagartas que d&atilde;o no p&eacute; do ing&aacute;, chamadas <i>behebu</i> (<a href="#fig24">Figura 24</a>). Com quatro cent&iacute;metros, pele amarelo-mostarda e pelo preto, comem a folha dessa fruteira. S&atilde;o apanhadas ao descer do tronco, j&aacute; adultas. Quando se perde essa ocasi&atilde;o, s&atilde;o procuradas nos ninhos que formam nas &aacute;rvores vizinhas, semelhantes a teias de aranha. Essa esp&eacute;cie &eacute; comida pelos passarinhos, quando ainda habita o alto do tronco. Por isso, desce em menor quantidade. Algumas larvas, como a do japur&aacute;, costumam fazer ninhos no ch&atilde;o, com saliva, para protegerem. As que escapam da coleta viram borboletas.</font></p>     <p><a name="fig24"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a04fig24.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um estudo da antrop&oacute;loga americana D. L. Dufour, realizado entre os ind&iacute;genas Tat&uacute;yo - grupo de l&iacute;ngua tuk&acirc;no da Col&ocirc;mbia, avalia que, dentre a prote&iacute;na animal ingerida durante um ano por esses ind&iacute;genas, cerca de 12% (para os homens) e 26% (para as mulheres) correspondem ao consumo de invertebrados. Al&eacute;m dos mencionados, incluem-se esp&eacute;cies de larvas de cole&oacute;pteros e pupas de vesp&iacute;deos (cabas). Essas larvas e pupas tamb&eacute;m s&atilde;o comidas pelos Des&acirc;na. N&atilde;o estando, por&eacute;m, relacionadas ao ciclo das constela&ccedil;&otilde;es, foram aqui omitidas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sugest&otilde;es para leitura</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">CHERNELA, J. M. <i>Pesca e hierarquiza&ccedil;&atilde;o tribal no alto Uaup&eacute;s</i>. v. 1. Rio de Janeiro: Vozes/Finep, 1986. p. 235-250.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">DUFOUR, D. L. Insect as food: a case study from the Northwest Amazon. <i>American Anthropologist</i>, v. 2, n. 89, p. 383-397, 1987.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">HUGH-JONES, S. The pleiades and scorpius in barasana cosmology. <i>In</i>: AVENI, A. F.; URDON, G. <i>Ethnoastronomy and archaeoastronomy in the American tropics</i>. New York: New York Academy of Sciences, 1982. p. 183-201.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Texto publicado originalmente em:</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">RIBEIRO, B. G.; KENH&Iacute;RI, T. Chuvas e constela&ccedil;&otilde;es: calend&aacute;rio econ&ocirc;mico dos &iacute;ndios Des&acirc;na. <i>Ci&ecirc;ncia Hoje</i>, Rio de Janeiro, Amaz&ocirc;nia (edi&ccedil;&atilde;o especial), p. 14-23, 1991.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>*As constela&ccedil;&otilde;es foram identificadas pelo astr&ocirc;nomo Marcomede Rangel Nunes, do Observat&oacute;rio Nacional.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>* Esse texto foi atualizado segundo o novo Acordo</i> <i>Ortogr&aacute;fico da L&iacute;ngua Portuguesa.</i></font></p>      ]]></body><back>
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