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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Berta Ribeiro, museus e a valorização da cultura dos povos indígenas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Berta Ribeiro, museus e a valoriza&ccedil;&atilde;o da cultura dos povos ind&iacute;genas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Bianca Bosso</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Especialista em Jornalismo Cient&iacute;fico e Bacharela em Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas (Unicamp). Iniciou sua trajet&oacute;ria na Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica no ano de 2018. J&aacute; desenvolveu pautas para revistas como Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, ComCi&ecirc;ncia e Ci&ecirc;ncia Hoje, al&eacute;m de sites como Ag&ecirc;ncia Bori, Jornal da Unicamp, Portal Campinas Inovadora e blog Ci&ecirc;ncia na Rua</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi mergulhada entre artesanatos e hist&oacute;rias, em um ambiente repleto de saberes, m&uacute;ltiplas culturas e costumes diferentes dos seus, que Berta Ribeiro encontrou uma de suas maiores conex&otilde;es com o Brasil. Judia e nascida na Rom&ecirc;nia em tempos de antissemitismo, chegou no pa&iacute;s ainda crian&ccedil;a, em 1932, acompanhada do pai e da irm&atilde;, em uma tentativa de fugir da persegui&ccedil;&atilde;o. Quinze anos depois, separada &agrave; for&ccedil;a da fam&iacute;lia e sozinha, conheceu e casou-se com o antrop&oacute;logo Darcy Ribeiro, com quem estabeleceria uma parceria vital&iacute;cia. Juntos desbravaram fronteiras ainda inexploradas do rico patrim&ocirc;nio ind&iacute;gena, contribuindo para a forma&ccedil;&atilde;o de cole&ccedil;&otilde;es, documentos, livros, associa&ccedil;&otilde;es, museus e pessoas. Berta Ribeiro dedicou sua vida a amplificar a voz das popula&ccedil;&otilde;es que estudou, defendendo a valoriza&ccedil;&atilde;o e a preserva&ccedil;&atilde;o de suas culturas. Hoje, 27 anos ap&oacute;s seu falecimento, &eacute; um s&iacute;mbolo da luta pelo reconhecimento dos povos origin&aacute;rios e respeito pela natureza, cujas contribui&ccedil;&otilde;es perduram e se renovam atrav&eacute;s das d&eacute;cadas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro contato de Berta Ribeiro com popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas ocorreu durante visitas dirigidas aos Kaingang, no sul do Brasil. Embora a inten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria tenha sido acompanhar os trabalhos do marido, ao mesmo tempo em que coletava dados etnogr&aacute;ficos e contribu&iacute;a para as pesquisas de Darcy Ribeiro, Berta Ribeiro come&ccedil;ou a desenvolver suas pr&oacute;prias vis&otilde;es e interesses sobre a realidade vivida por esses povos. As viagens continuaram em aldeias no Mato Grosso, no Maranh&atilde;o e no Alto e M&eacute;dio rio Xingu, permitindo que, cada vez mais, encontrasse um jeito pr&oacute;prio de estudar as popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas. "Os interesses de Berta e Darcy eram diferentes", explica a historiadora Bianca Fran&ccedil;a, especialista em Etnologia e Antropologia, que tem se dedicado a estudar e divulgar a contribui&ccedil;&atilde;o de Berta Ribeiro para a cultura ind&iacute;gena. A pesquisadora, que dirigiu e produziu o document&aacute;rio "Para Berta, com amor" destaca que, enquanto Darcy buscava formular uma esp&eacute;cie de "lei geral" para explicar a forma&ccedil;&atilde;o do povo brasileiro, Berta Ribeiro tinha uma preocupa&ccedil;&atilde;o maior com a cultura material e a arte visual dos ind&iacute;genas, al&eacute;m de um trabalho muito voltado, inicialmente, para taxonomias, cat&aacute;logos e levantamentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em diferentes &eacute;pocas, as viagens de Berta Ribeiro rumaram aos povos Tukanos e Desanos, na regi&atilde;o do Alto Rio Negro. No final da d&eacute;cada de 1970, a pesquisadora investigava o cotidiano da aldeia Pari-Cachoeira, em S&atilde;o Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, quando Carlos Tukano, Cacique da Tribo Maracan&atilde; e presidente do Conselho Estadual dos Direitos Ind&iacute;genas do Estado do Rio de Janeiro no Contexto Urbano, vinculado ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, deparou-se com seu trabalho pela primeira vez. "Eu ainda era muito novo, mas me lembro de que ela estava fazendo pesquisas sobre grafismos e a vida dos povos ind&iacute;genas l&aacute; do Alto Rio Negro", recorda. Anos depois, Carlos Tukano, que tamb&eacute;m &eacute; representante dos povos ind&iacute;genas que vivem em contextos urbanos no Conselho Estadual dos Direitos Ind&iacute;genas do Rio de Janeiro (CEDIND), veria de perto alguns dos resultados dessas visitas expostos no Museu Nacional dos Povos Ind&iacute;genas (antigo Museu do &Iacute;ndio), criado por Darcy Ribeiro, nos anos 1950.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Um escrit&oacute;rio, duas paix&otilde;es</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Longe do campo e dentro de seu escrit&oacute;rio em Copacabana, Berta Ribeiro se preocupava em registrar, de forma sistem&aacute;tica, detalhada e organizada, as observa&ccedil;&otilde;es feitas durante as visitas a campo. A m&aacute;quina de escrever foi sua companheira durante a reda&ccedil;&atilde;o de dezenas de artigos, cartas, documentos e livros. Entre eles, em 1978, a pesquisadora datilografou, revisou e reescreveu o texto do livro "Antes o Mundo N&atilde;o Existia" que fora escrito pelos nativos Desanos Firmiano Lana e Luiz Lana, pai e filho, para retratar a mitologia de seu povo. Carlos Tukano se lembra de que a contribui&ccedil;&atilde;o de Berta Ribeiro foi essencial para que essa obra se materializasse e ganhasse as propor&ccedil;&otilde;es que tem hoje, com uma tiragem de cinco mil exemplares na primeira edi&ccedil;&atilde;o e duas novas levas lan&ccedil;adas em 1995 e em 2019 (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao abrir m&atilde;o de ter seu nome estampado na capa de "Antes o Mundo N&atilde;o Existia", Berta Ribeiro deixou ainda mais clara a forma com que via e desempenhava o seu trabalho. "O trabalho de Berta Ribeiro j&aacute; reconhecia os direitos dos povos ind&iacute;genas como propriet&aacute;rios intelectuais de suas express&otilde;es culturais tradicionais e dos saberes compartilhados a partir do estudo de cestarias, da arte plum&aacute;ria e de grafismos que integram essas express&otilde;es e n&atilde;o se separam da biodiversidade mais conservada do planeta, que s&atilde;o os territ&oacute;rios ind&iacute;genas", aponta Fernanda Kaing&aacute;ng, Diretora do Museu Nacional dos Povos Ind&iacute;genas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O trabalho de Berta Ribeiro j&aacute; reconhecia os direitos dos povos ind&iacute;genas como propriet&aacute;rios intelectuais de suas express&otilde;es culturais tradicionais e dos saberes compartilhados."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vontade de disseminar o conhecimento obtido nas visitas a campo e ampliar o alcance das vozes nativas persistiu por toda a vida e, em 1995, deu origem a seu &uacute;ltimo livro: "Os &Iacute;ndios das &Aacute;guas Pretas". Composta de mais de 260 p&aacute;ginas, a obra retrata a vida social e econ&ocirc;mica dos povos Desanos, com cap&iacute;tulos sobre os costumes sociais, as pr&aacute;ticas adotadas para a agricultura, as vis&otilde;es de mundo e tecnologias empregadas na rotina dos nativos dessa regi&atilde;o. Como em muitas de suas publica&ccedil;&otilde;es, Berta Ribeiro desejava trazer &agrave; tona o patrim&ocirc;nio cultural imaterial ind&iacute;gena, al&eacute;m de destacar a riqueza de suas tradi&ccedil;&otilde;es para a preserva&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica. "O patrim&ocirc;nio &#91;ind&iacute;gena&#93; n&atilde;o &eacute; em ouro, n&atilde;o &eacute; em prata, n&atilde;o &eacute; em edif&iacute;cios, n&atilde;o &eacute; em templos&hellip; &Eacute; em sabedoria!", disse, em entrevista em 1988, durante a 40&ordf; Reuni&atilde;o Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cole&ccedil;&otilde;es sobre o patrim&ocirc;nio ind&iacute;gena</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bianca Fran&ccedil;a recorda que um de seus primeiros contatos com Berta Ribeiro foi por meio do "Dicion&aacute;rio do Artesanato Ind&iacute;gena", escrito por Berta Ribeiro e publicado em 1988. A pesquisadora conheceu a obra em meados de 2014, quando come&ccedil;ou a trabalhar no Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional. "Eu era estagi&aacute;ria, ainda estava na gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Na &eacute;poca, realizava um trabalho com objetos de cultura material dos ind&iacute;genas Ticuna do Alto Solim&otilde;es, do Amazonas, e, por conta desse levantamento sobre cole&ccedil;&otilde;es do Setor de Etnologia, consultava muito o <i>&lsquo;</i>Dicion&aacute;rio do Artesanato'", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m do legado escrito para as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es, foi nesse mesmo Museu que Berta Ribeiro atuou como Naturalista e pesquisadora no Setor de Etnologia a partir de 1953. A contrata&ccedil;&atilde;o se deu logo ap&oacute;s sua formatura em Hist&oacute;ria e Geografia na antiga Universidade do Distrito Federal, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e rendeu frutos que contribu&iacute;ram para o desenvolvimento e a organiza&ccedil;&atilde;o do acervo. "Por exemplo, ela fez um dos primeiros modelos de fichas catalogr&aacute;ficas de objetos do Setor e participou do Semin&aacute;rio Internacional sobre Curare e Subst&acirc;ncias Curarizantes, em 1957, o que contribuiu para a exposi&ccedil;&atilde;o de curarizantes no Museu", destaca Bianca Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s um per&iacute;odo de ex&iacute;lio no exterior e um hiato de 18 anos em sua carreira, Berta Ribeiro retornou ao Setor de Etnologia do Museu Nacional em 1977, em um projeto chamado "Corpus Etnogr&aacute;fico do Alto Xingu", no qual se preocupava em abordar os aspectos tecnol&oacute;gicos do estudo da cultura material ind&iacute;gena e suas poss&iacute;veis implica&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas. "Nesse projeto, Berta Ribeiro contribuiu com a cataloga&ccedil;&atilde;o dos objetos xinguanos do Setor, a forma&ccedil;&atilde;o de novas cole&ccedil;&otilde;es, publica&ccedil;&otilde;es, dentre outras contribui&ccedil;&otilde;es", acrescenta a pesquisadora Bianca Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante a d&eacute;cada de 1980, Berta Ribeiro tamb&eacute;m formou cole&ccedil;&otilde;es para o Museu Paraense Em&iacute;lio Goeldi e para o Museu Nacional dos Povos Ind&iacute;genas, onde foi chefe da Museologia. Nesse per&iacute;odo, soma uma contribui&ccedil;&atilde;o de 26 pe&ccedil;as dos ind&iacute;genas Arawet&eacute;, do Par&aacute;, e 44 objetos dos ind&iacute;genas Asurini, do Xingu. "Hoje, temos um Museu criado para combater o preconceito contra os povos ind&iacute;genas, que foi precursor na forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica de antrop&oacute;logos e abriga um acervo etnogr&aacute;fico composto por 21 mil objetos ou express&otilde;es culturais tradicionais de 193 povos ind&iacute;genas dos seis biomas, (&hellip;) que &eacute; fruto do trabalho e do comprometimento de muitas pessoas e, em especial, de Berta Ribeiro, a partir de sua rela&ccedil;&atilde;o de respeito com os povos ind&iacute;genas", celebra Fernanda Kaing&aacute;ng em refer&ecirc;ncia ao antigo Museu do &Iacute;ndio.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Berta Ribeiro era uma vision&aacute;ria, uma mulher &agrave; frente do seu tempo, cujo trabalho consiste em um legado valioso para a mem&oacute;ria, a valoriza&ccedil;&atilde;o, a salvaguarda e a promo&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio cultural dos povos ind&iacute;genas do Brasil."</i></b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Antropologia e ensino</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dentro e fora dos museus, Berta Ribeiro tamb&eacute;m atuou como professora e formadora de pessoas. Ministrou disciplinas como "Arte Ind&iacute;gena no Brasil" e "Cultura Material e Arte &Eacute;tnica", al&eacute;m de ter orientado diversos alunos nos temas de sua especialidade. Junto a Darcy Ribeiro e Eduardo Galv&atilde;o, teve papel importante na constitui&ccedil;&atilde;o do Departamento de Antropologia da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), no Distrito Federal. Atuou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Universidade de Campina Grande (UFCG), na Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de Goi&aacute;s (PUC Goi&aacute;s), na Faculdade Latino-americana de Ci&ecirc;ncias Sociais (Flacso Brasil) e compartilhou sua trajet&oacute;ria por meio de incont&aacute;veis eventos. "Seu trabalho &eacute; uma inspira&ccedil;&atilde;o para gera&ccedil;&otilde;es no contexto da Antropologia, da Etnologia e da Museologia Social", diz Fernanda Kaing&aacute;ng.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m de trabalhos de pesquisa, ensino e extens&atilde;o, Berta Ribeiro tamb&eacute;m teve participa&ccedil;&atilde;o importante na pr&oacute;pria institucionaliza&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea de Antropologia no Brasil. Renato Athias, antrop&oacute;logo e colega de Berta Ribeiro, recorda, no document&aacute;rio "Para Berta, com Amor", a trajet&oacute;ria da pesquisadora na funda&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia (ABA). "Foi em 1955 (&hellip;). Ela organizava as minutas, organizava os textos e participava efetivamente das discuss&otilde;es", comenta, destacando que a &aacute;rea ainda era estudada por poucos pesquisadores no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Influ&ecirc;ncia na pol&iacute;tica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Carlos Tukano refor&ccedil;a que a atua&ccedil;&atilde;o de Berta Ribeiro foi fundamental para direcionar o olhar de pesquisadores e tomadores de decis&otilde;es para as popula&ccedil;&otilde;es origin&aacute;rias. "Ningu&eacute;m conhecia as quest&otilde;es ind&iacute;genas na &eacute;poca, s&oacute; chamavam de &lsquo;&iacute;ndio atrasado', &lsquo;sem cultura', &lsquo;economicamente pobre'", explica. "Ent&atilde;o, a vis&atilde;o que ela trouxe para as metr&oacute;poles, para as grandes cidades, mudou um pouco a vis&atilde;o sobre os povos ind&iacute;genas e come&ccedil;aram a chegar pesquisadores e historiadores nas &aacute;reas ind&iacute;genas", complementa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Fernanda Kaing&aacute;ng, o trabalho da antrop&oacute;loga influenciou, inclusive, a cria&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas importantes e ainda vigentes. "Hoje, o Brasil possui uma vasta legisla&ccedil;&atilde;o que est&aacute; na base das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de preserva&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o da diversidade cultural dos povos ind&iacute;genas do Brasil, como arte, ci&ecirc;ncia e tecnologias profundamente interligadas com os territ&oacute;rios e respeito &agrave;s formas de vida que integram nossas formas de viver e de ver o mundo", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Lei 11.645/2008, por exemplo, tornou obrigat&oacute;rio o ensino da hist&oacute;ria e das culturas ind&iacute;genas e afro-brasileiras nas escolas p&uacute;blicas. A legisla&ccedil;&atilde;o foi implementada em 2008 e traz como base princ&iacute;pios j&aacute; defendidos por Berta Ribeiro no final do s&eacute;culo XX, como a inclus&atilde;o e a diversidade cultural. "Berta Ribeiro era uma vision&aacute;ria, uma mulher &agrave; frente do seu tempo, cujo trabalho consiste em um legado valioso para a mem&oacute;ria, a valoriza&ccedil;&atilde;o, a salvaguarda e a promo&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio cultural dos povos ind&iacute;genas do Brasil", refor&ccedil;a Fernanda Kaing&aacute;ng. Para a Diretora do Museu Nacional dos Povos Ind&iacute;genas, as sementes plantadas pelo trabalho de Berta Ribeiro produzem frutos at&eacute; hoje nos campos da Antropologia, da Museologia Social, da Etnologia e da propriedade intelectual.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Legado que perdura e reflete no contexto atual</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao mesmo tempo em que as cole&ccedil;&otilde;es, os livros e os documentos produzidos por ela ainda servem como base para estudos antropol&oacute;gicos, diversas homenagens visam manter viva a mem&oacute;ria de Berta Ribeiro. Seu nome batiza a maior reserva t&eacute;cnica do antigo Museu do &Iacute;ndio, a "Reserva T&eacute;cnica Dra. Berta Gleizer Ribeiro", formada por 7.961 itens, incluindo objetos de rituais, l&uacute;dicos, armas, instrumentos musicais e utens&iacute;lios, provenientes de 98 povos da Am&eacute;rica Latina. "Os objetos de Berta Ribeiro no Museu Nacional, infelizmente, se perderam no inc&ecirc;ndio de setembro de 2018, mas, no Museu do &Iacute;ndio, at&eacute; hoje &eacute; poss&iacute;vel visitar as cole&ccedil;&otilde;es formadas por ela, que, inclusive, s&atilde;o emprestadas para exposi&ccedil;&otilde;es itinerantes pelo Brasil", aponta Bianca Fran&ccedil;a (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a06fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta Ribeiro completaria 100 anos em outubro de 2024, mas faleceu em novembro de 1997, poucos meses ap&oacute;s Darcy Ribeiro. Quase 30 anos ap&oacute;s ter nos deixado, sua vida ainda ressoa em seu legado f&iacute;sico e nas reflex&otilde;es sobre respeito e preserva&ccedil;&atilde;o da natureza que iniciou d&eacute;cadas atr&aacute;s. "O trabalho dela traz importantes di&aacute;logos at&eacute; mesmo com quest&otilde;es contempor&acirc;neas, como o debate sobre o papel do ind&iacute;gena na preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente, o papel dos museus como ferramentas pedag&oacute;gicas e pol&iacute;tico-pol&ecirc;micas, al&eacute;m de &aacute;reas de lazer, e a necessidade de n&oacute;s, cientistas, levarmos nossas pesquisas em linguagem compreens&iacute;vel &agrave;s massas", exemplifica Bianca Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro exemplo &eacute; o livro "Amaz&ocirc;nia Urgente", lan&ccedil;ado por Berta Ribeiro em 1990, que traz em destaque a imagem de uma &aacute;rvore desmatada e enfatiza a necessidade de uma abordagem sustent&aacute;vel para a conserva&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o. Ainda assim, embora o desmatamento florestal amaz&ocirc;nico tenha reduzido significativamente entre 2023 e 2024, a regi&atilde;o continua a padecer com queimadas e com a explora&ccedil;&atilde;o desenfreada de recursos e segue pedindo uma maior aten&ccedil;&atilde;o por parte dos tomadores de decis&atilde;o.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O trabalho dela traz importantes di&aacute;logos at&eacute; mesmo com quest&otilde;es contempor&acirc;neas, como o debate sobre o papel do ind&iacute;gena na preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente, o papel dos museus como ferramentas pedag&oacute;gicas e pol&iacute;tico-pol&ecirc;micas, e a necessidade de n&oacute;s, cientistas, levarmos nossas pesquisas em linguagem compreens&iacute;vel &agrave;s massas."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Muito h&aacute; para ser feito em termos de preserva&ccedil;&atilde;o da biodiversidade e do patrim&ocirc;nio dos povos ind&iacute;genas em um Brasil em que o genoc&iacute;dio e o ecoc&iacute;dio fazem o pa&iacute;s arder nas chamas do &oacute;dio, da desinforma&ccedil;&atilde;o e da intoler&acirc;ncia, que semeiam monoculturas da morte e consideram a diversidade como um fator de exterm&iacute;nio, n&atilde;o de riqueza ambiental e cultural", alerta Fernanda Kaing&aacute;ng. Carlos Tukano concorda e sinaliza a necessidade de, nas palavras de Bianca Fran&ccedil;a, "ouvir o que os ind&iacute;genas t&ecirc;m a dizer sobre suas demandas e trabalhar conjuntamente para resolver". "&#91;Os estudantes ind&iacute;genas que frequentam Universidades&#93; se formam nas grandes cidades, como Rio de Janeiro, S&atilde;o Paulo, Bras&iacute;lia e Manaus, e ficam por l&aacute;. O Governo Federal teria que aplicar uma pol&iacute;tica para verificar isso, para ter m&atilde;o de obra nas reservas ind&iacute;genas, melhorar a situa&ccedil;&atilde;o das florestas e dos povos ind&iacute;genas dentro das aldeias", sugere o membro do CEDIND.</font></p>      ]]></body>

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