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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Quase todo o Brasil cabe em uma foto]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Quase todo o Brasil cabe em uma foto</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paula Gomes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Escritora, doutora em cinema e especialista em divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2024, comemoramos o centen&aacute;rio de Berta Ribeiro, um nome muito menos conhecido na intelectualidade brasileira do que Darcy Ribeiro, com quem foi casada por 25 anos. Sua contribui&ccedil;&atilde;o para o campo da antropologia brasileira, no entanto, &eacute; fundamental at&eacute; os dias de hoje.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Natural da Rom&ecirc;nia e de fam&iacute;lia judia, Berta migra para o Brasil em 1932, com apenas oito anos, fugindo da persegui&ccedil;&atilde;o antissemita e anticomunista. Aqui, a fam&iacute;lia continua a sofrer forte repress&atilde;o devido ao seu envolvimento com o Partido Comunista, tens&atilde;o que culmina na extradi&ccedil;&atilde;o de seus familiares em 1936. Sem nenhum parente no Brasil, passa a ser tutelada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) que a abriga em casas de fam&iacute;lias da comunidade judaica brasileira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta entra na carreira acad&ecirc;mica por interm&eacute;dio de Darcy Ribeiro, a quem conhece em eventos do Partido Comunista, em 1946. O campo da antropologia/etnologia lhe &eacute; apresentado em 1947, quando acompanha Darcy em sua pesquisa de campo sobre os ind&iacute;genas Kadiw&eacute;u, que residiam no Pantanal Mato-Grossense.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No per&iacute;odo em que os dois foram casados (1948-1974), Berta Ribeiro colaborou com as pesquisas de Darcy Ribeiro sobre diversos aspectos da cultura ind&iacute;gena. Juntos visitaram as tribos dos Kadiw&eacute;u, Guarani Kaiow&aacute;, Terena e Ofai&eacute;-Xavantes, do sul do Mato Grosso. Tamb&eacute;m estiveram entre os Ka'apor no Maranh&atilde;o e em tribos do Alto e M&eacute;dio Rio Xingu, como os Yawalapiti, os Kaiabi, os Juruna, os Arawet&eacute; e os Asurini. Ap&oacute;s a separa&ccedil;&atilde;o, Berta Ribeiro consegue se dedicar integralmente &agrave; sua pr&oacute;pria carreira, desenvolvendo metodologias pr&oacute;prias de trabalho e se concentrando nos assuntos que mais a interessavam. Nesse per&iacute;odo de sua carreira, a pesquisadora visita diversas vezes as tribos Tukano e Desana na regi&atilde;o do Alto Rio Negro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Enquanto antrop&oacute;logos como Darcy Ribeiro buscavam tratados totalizantes, perseguindo leis gerais sobre o papel do ind&iacute;gena na sociedade, Berta Ribeiro optou por uma abordagem mais etnogr&aacute;fica, vivendo per&iacute;odos com os ind&iacute;genas, registrando e classificando as suas manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e t&eacute;cnicas. Essa diferen&ccedil;a de olhares talvez possa estar relacionada com a trajet&oacute;ria de vida de Berta, que, em muitos momentos, sofreu com a incompreens&atilde;o cultural: foi perseguida por ser judia em seu pa&iacute;s de origem, precisou viver como refugiada em um pa&iacute;s estrangeiro e era uma mulher buscando uma carreira profissional em uma &aacute;rea dominada por homens. Andr&eacute; Demarchi, antrop&oacute;logo e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), comenta a conex&atilde;o entre a vida e a obra de Berta Ribeiro: "essa trajet&oacute;ria influenciou n&atilde;o s&oacute; o olhar dela para os povos ind&iacute;genas, mas a pr&oacute;pria escolha pela antropologia, que &eacute; uma ci&ecirc;ncia que volta seu olhar para o outro, de uma posi&ccedil;&atilde;o descentralizada. Essas caracter&iacute;sticas a fizeram uma pessoa diferente, que olha e se coloca no mundo de maneira diferente".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"A grande import&acirc;ncia do trabalho da Berta Ribeiro para a antropologia contempor&acirc;nea &eacute; o fato de ela realmente ter escutado os povos ind&iacute;genas com quem ela trabalhou e dado o devido valor &agrave;s suas cosmologias. Ela colocou isso de maneira muito &eacute;tica e muito bonita em suas etnografias."</i></b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A cultura material ind&iacute;gena</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta Ribeiro dedicou-se muito ao estudo da cultura material ind&iacute;gena. Alguns dos seus estudos sobre o assunto s&atilde;o "Bases para uma classifica&ccedil;&atilde;o dos adornos plum&aacute;rios dos &iacute;ndios do Brasil" (1957) e "Arte plum&aacute;ria dos &iacute;ndios Ka'apor" (1957), que publicou em parceria com Darcy Ribeiro. J&aacute; em sua tese de doutorado, "A Civiliza&ccedil;&atilde;o da Palha: a arte do tran&ccedil;ado dos &iacute;ndios do Brasil" (1980), defendida pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), dedica-se &agrave; arte da cestaria dos ind&iacute;genas do Alto Xingu e do Rio Negro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pesquisadora registrava os artefatos que encontrava, observando as diferen&ccedil;as de confec&ccedil;&atilde;o e de significado atribu&iacute;do a eles entre as diferentes etnias que visitou. Ela estava interessada em como esses artefatos contribu&iacute;ram para adapta&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas ao territ&oacute;rio, em sua forma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria e na organiza&ccedil;&atilde;o social dessas tribos, partindo do espec&iacute;fico para o geral. "A grande import&acirc;ncia do trabalho da Berta Ribeiro para a antropologia contempor&acirc;nea &eacute; o fato de ela realmente ter escutado os povos ind&iacute;genas com quem ela trabalhou e dado o devido valor &agrave;s suas cosmologias. Ela colocou isso de maneira muito &eacute;tica e muito bonita em suas etnografias. Voc&ecirc; percebe essa delicadeza com o conhecimento ancestral ind&iacute;gena e como eles s&atilde;o importantes para compreender os conflitos que aqueles povos est&atilde;o vivendo. Quando Berta vai estudar os grafismos feitos na cestaria do povo Kaiabi, percebe que aquele elemento registrado na cestaria remete a um ser mitol&oacute;gico que tem toda uma rela&ccedil;&atilde;o com a organiza&ccedil;&atilde;o social do povo Kaiabi. &Eacute; por a&iacute; que coloco a ideia de que Berta Ribeiro &eacute; uma antrop&oacute;loga do futuro: ela anteviu no trabalho algumas quest&otilde;es que s&oacute; foram desenvolvidas d&eacute;cadas depois na antropologia brasileira", explica Andr&eacute; Demarchi.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta Ribeiro coletava esses artefatos ind&iacute;genas e formava cole&ccedil;&otilde;es que passaram a constituir os acervos do Museu Nacional e do Museu dos Povos Ind&iacute;genas, antigo Museu do &Iacute;ndio, institui&ccedil;&otilde;es nas quais trabalhou. Essas cole&ccedil;&otilde;es visavam n&atilde;o somente &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o da cultura material ind&iacute;gena, como &agrave; sua divulga&ccedil;&atilde;o para o p&uacute;blico geral. Ela acreditava que os museus, assim como outros canais de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, eram importantes aliados na luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento. "Berta Ribeiro foi uma militante da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica quando essa atividade ainda n&atilde;o tinha esse reconhecimento. A aproxima&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico amplo com a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento se faz de diversas formas: v&iacute;deos, textos, interven&ccedil;&otilde;es, exposi&ccedil;&otilde;es. E ela se utilizou de todos esses recursos", afirma Maria Elizabeth Br&ecirc;a Monteiro, diretora t&eacute;cnica da Funda&ccedil;&atilde;o Darcy Ribeiro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Maria Elizabeth Monteiro elenca alguns dos formatos em que Berta Ribeiro trabalhou para disseminar os saberes ind&iacute;genas: "Durante anos, Berta Ribeiro foi uma ass&iacute;dua colaboradora de revistas de grande circula&ccedil;&atilde;o como a revista &lsquo;Ci&ecirc;ncia Hoje' e a &lsquo;Ci&ecirc;ncia Hoje das Crian&ccedil;as', ou a &lsquo;National Geographic'. Sua produ&ccedil;&atilde;o audiovisual tamb&eacute;m &eacute; importante e cito o filme de anima&ccedil;&atilde;o &lsquo;Gain Pa&ntilde;an - a origem da pupunheira' realizado a partir dos desenhos de Feliciano Lana. H&aacute; tamb&eacute;m os v&iacute;deos etnogr&aacute;ficos de suas pesquisas no Parque do Xingu junto aos Asurini e aos Arawet&eacute;. As exposi&ccedil;&otilde;es concebidas por Berta sempre procuravam transmitir informa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas resultantes de uma atividade de pesquisa e tamb&eacute;m uma interlocu&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico visitante utilizando uma linguagem acess&iacute;vel. Mesmo sua produ&ccedil;&atilde;o de natureza mais acad&ecirc;mica tinha por objetivo a democratiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento ao colocar &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o ferramentas para pesquisas diversas. Um exemplo &eacute; o Dicion&aacute;rio do Artesanato Ind&iacute;gena, publicado em 1988, que contribuiu para sanar a falta de padroniza&ccedil;&atilde;o terminol&oacute;gica".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Os &iacute;ndios como ec&oacute;logos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta Ribeiro se interessava tamb&eacute;m pelos conhecimentos dos ind&iacute;genas sobre o meio ambiente (plantas medicinais, fibras naturais, produ&ccedil;&atilde;o de alimentos etc.) e atuava em colabora&ccedil;&atilde;o com membros das tribos que visitava para divulgar esses saberes. Em 1991, ela publicou o artigo "Ao Vencedor, as Batatas", demonstrando que muitos conhecimentos que temos hoje sobre plantas e cultivos vegetais s&atilde;o provenientes dos saberes dos ind&iacute;genas. A antrop&oacute;loga Tatiana de Lourdes Massaro esclarece que esse interesse de Berta Ribeiro n&atilde;o era uma preocupa&ccedil;&atilde;o comum dos pesquisadores de sua &eacute;poca, tornando-se pauta apenas muito tempo depois: "A ca&ccedil;a, por exemplo, que envolve diretamente os animais (e n&atilde;o as plantas) e, por sua vez, &eacute; bastante ligada &agrave; esfera masculina, se constitu&iacute;a como uma tem&aacute;tica fundamental e central na etnologia, e foi bastante estudada por antrop&oacute;logos homens, ao menos dos anos de 1980 em diante. Nessa mesma d&eacute;cada, Berta Ribeiro defendeu sua tese, mostrando a centralidade do &lsquo;vegetal' para os povos ind&iacute;genas. Os ind&iacute;genas, como Berta Ribeiro mostrou, privilegiam o vegetal em detrimento do animal em diversos &acirc;mbitos, como os alimentos, as canoas, a constru&ccedil;&atilde;o das casas, a cestaria, os artefatos, formando o que essa antrop&oacute;loga caracterizar&aacute; como &lsquo;civiliza&ccedil;&atilde;o vegetal' ou &lsquo;civiliza&ccedil;&atilde;o da palha'. Hoje, a chamada &lsquo;virada vegetal' vem propondo entender e pensar sobre os vegetais".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Berta Ribeiro foi uma militante da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica quando essa atividade ainda n&atilde;o tinha esse reconhecimento."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A antrop&oacute;loga dizia que os ind&iacute;genas eram ec&oacute;logos naturais e seus conhecimentos precisavam ser melhor compreendidos e divulgados. Para isso, trabalhava em parceria com os ind&iacute;genas, em uma pr&aacute;tica que depois foi chamada de "antropologia compartilhada". Andr&eacute; Demarchi ressalta o pioneirismo de Berta Ribeiro nessa &aacute;rea: "ela tem essa ideia de produzir com os ind&iacute;genas, criar alian&ccedil;as. Isso &eacute; a antropologia compartilhada: quando a gente se desfaz dessa ideia antiga e eticamente question&aacute;vel de que os povos ind&iacute;genas seriam meros objetos. Berta Ribeiro sempre foi contra essa ideia, ela sempre tratou os povos como aliados, como parceiros na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Se voc&ecirc; for pensar nesses novos projetos que est&atilde;o acontecendo nas Universidade brasileiras em que mestres e mestras das comunidades ind&iacute;genas ministram disciplinas nas universidades&hellip; esses projetos t&ecirc;m uma d&iacute;vida com a proposta de antropologia compartilhada iniciada por Berta Ribeiro".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ela ainda foi respons&aacute;vel por viabilizar o primeiro livro de autoria ind&iacute;gena do Brasil. O livro "Antes o mundo n&atilde;o existia: a mitologia heroica dos &iacute;ndios Desana" (1980) apresenta os mitos dessa tribo. A pesquisadora datilografou, revisou e produziu os mitos que foram ilustrados e narrados pelos ind&iacute;genas Desana Umusin P&acirc;r&otilde;muru (Feliciano Arantes Lana) e seu filho T&otilde;l&atilde;m&#361; K&ecirc;r&iacute;ri (Luiz Gomes Lana). Os direitos autorais da obra foram inteiramente cedidos aos dois ind&iacute;genas. Maria Elizabeth Br&ecirc;a Monteiro se lembra ainda de que a colabora&ccedil;&atilde;o de Berta Ribeiro com os ind&iacute;genas resultou na publica&ccedil;&atilde;o de outros trabalhos: "ela reconhece e divide a autoria de trabalhos acad&ecirc;micos, somente poss&iacute;veis gra&ccedil;as &agrave; escuta e &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o do conhecimento tradicional dos povos com os quais trabalhou. O grande exemplo desse pioneirismo foi o livro &lsquo;Antes o mundo n&atilde;o existia'. Os Desana, povo da regi&atilde;o do rio Negro, no Amazonas, desempenharam um papel de destaque na trajet&oacute;ria de Berta Ribeiro e uma parceria muito produtiva. Com eles, Berta Ribeiro tamb&eacute;m escreveu &lsquo;Chuvas e Constela&ccedil;&otilde;es: calend&aacute;rio econ&ocirc;mico dos ind&iacute;genas Desana e Etno-ictiologia Desana'".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Um vestido a servi&ccedil;o da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando falamos em Berta Ribeiro, a primeira imagem que nos vem &agrave; mente &eacute; a foto da pesquisadora entre os ind&iacute;genas Kadiw&eacute;u, em 1948, durante o trabalho de campo que marcou a sua entrada na antropologia (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A foto &eacute; emblem&aacute;tica. N&atilde;o s&oacute; pelas pessoas que est&atilde;o ali registradas, mas devido &agrave; maneira que est&atilde;o dispostas e como o dispositivo as registrou. Berta est&aacute; em um posicionamento de destaque, em primeiro plano e centralizada. Os ind&iacute;genas  Kadiw&eacute;u est&atilde;o atr&aacute;s da pesquisadora, nos cantos da imagem. Berta, no entanto, est&aacute; desfocada. O foco da imagem est&aacute; nos ind&iacute;genas, de modo que podemos ver suas express&otilde;es e tra&ccedil;os com nitidez. O vestido que Berta Ribeiro utiliza &eacute; todo estampado, produzindo um contraste em rela&ccedil;&atilde;o aos torsos nus dos ind&iacute;genas. Todos esses elementos contribuem para que esse vestido viva t&atilde;o intensamente no imagin&aacute;rio comum quando se fala de Berta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Berta foi homenageada com uma releitura desse vestido por duas vezes nesses &uacute;ltimos anos. A primeira ocorreu em 2019, com 15 pe&ccedil;as confeccionadas por uma estilista e a segunda, em 2024, pelas m&atilde;os de estudantes do ensino p&uacute;blico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira homenagem ocorreu dentro da programa&ccedil;&atilde;o do evento "Selvagem: ciclo de estudos sobre a vida", sediado no Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro e mediado pelo pensador e escritor ind&iacute;gena Ailton Krenak. A estilista Flavia Aranha, cuja linha de roupas tem a proposta de utilizar-se de fibras naturais e pigmentos extra&iacute;dos de biomas brasileiros, confeccionou vestidos para toda a equipe organizadora do evento e a convidada fil&oacute;sofa, professora e artes&atilde; Cristine Taku&aacute;. As pe&ccedil;as foram feitas com algod&atilde;o, urucum, pau-brasil e ac&aacute;cia-negra. Tatiana Massaro acredita que a moda sustent&aacute;vel proposta pela estilista se relaciona de maneira direta com a pesquisa e a luta de Berta: "A moda sustent&aacute;vel vem sendo bastante baseada em conhecimentos tradicionais, em plantas prioritariamente org&acirc;nicas e na busca para que seu ciclo de vida comece e termine na terra, nutrindo o solo. Tramas como essas guardam elementos comuns, como a pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o com as plantas, o fazer manual, os conhecimentos envolvidos, os enlaces que podem resultar em cestarias e tecidos. O vestido que homenageia Berta Ribeiro permite, de certa forma, tornar tang&iacute;vel um leque de rela&ccedil;&otilde;es".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Berta Ribeiro sempre foi contra essa ideia, ela sempre tratou os povos como aliados, como parceiros na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os alunos que homenagearam Berta em 2024 s&atilde;o estudantes do ensino infantil (5<i>o</i> e 6<i>o</i> anos) do Espa&ccedil;o de Desenvolvimento Infantil Jos&eacute; Ara&uacute;jo, localizado no Alto da Boa Vista (RJ). A ideia da homenagem surgiu quando a professora Patr&iacute;cia Braga assistiu ao document&aacute;rio "Para Berta, com amor", realizado pela pesquisadora Bianca Fran&ccedil;a como um desdobramento de sua tese de doutorado sobre a vida e a obra da antrop&oacute;loga.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Patr&iacute;cia Braga exibiu o document&aacute;rio para as crian&ccedil;as de maneira adaptada a suas capacidades (pausando para explicar, acelerando, voltando) e, em seguida, prop&ocirc;s uma s&eacute;rie de atividades sobre o conte&uacute;do, entre elas, uma instala&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e um recital de dan&ccedil;a. A instala&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, intitulada "Quase todo o Brasil cabe em uma foto", promoveu uma releitura da ic&ocirc;nica foto de Berta Ribeiro entre os ind&iacute;genas Kadiw&eacute;u. Na nova vers&atilde;o, foi reservado um espa&ccedil;o ao lado da pesquisadora, onde os alunos podiam se ver refletidos. Um dos objetivos da atividade era introduzir as crian&ccedil;as ao pensamento cient&iacute;fico: "As crian&ccedil;as teorizam e criam hip&oacute;teses o tempo inteiro, &eacute; muito importante fomentar a ci&ecirc;ncia. Temos mesmo que levantar essa bandeira, trazer o letramento cient&iacute;fico para a rede p&uacute;blica. Elas precisam saber que existe a profiss&atilde;o de cientista, porque precisamos de muitos cientistas para o pa&iacute;s avan&ccedil;ar. Viva as mulheres na ci&ecirc;ncia. Viva a ci&ecirc;ncia na educa&ccedil;&atilde;o infantil", afirma Patr&iacute;cia Braga (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; no recital de dan&ccedil;a, cuja trilha sonora foi <i>pot-pourri</i> de m&uacute;sicas ind&iacute;genas brasileiras, as crian&ccedil;as puderam expressar, a partir da linguagem corporal, a luta da pesquisadora pela causa ind&iacute;gena. Patr&iacute;cia Braga acredita que as linguagens art&iacute;sticas s&atilde;o uma excelente maneira de aproximar os alunos dos conte&uacute;dos trabalhados em sala de aula: "Na educa&ccedil;&atilde;o infantil, a leitura de mundo acontece n&atilde;o s&oacute; atrav&eacute;s da escrita. Acontece por meio dos sentidos, da ressignifica&ccedil;&atilde;o do corpo, atrav&eacute;s das experi&ecirc;ncias, das brincadeiras e das linguagens art&iacute;sticas, como m&uacute;sica, dan&ccedil;a, literatura, cinema, porque a arte nos atravessa, a arte nos valida ao olhar do outro" (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a07fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Da mesma maneira que Berta buscou validar as popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas ao olhar do outro por meio da sua arte e cultura, a arte tamb&eacute;m surge como um importante aliado no processo de divulga&ccedil;&atilde;o de suas ideias e lutas para uma nova gera&ccedil;&atilde;o (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe3/a07fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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