<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252024000800001</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20240093</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Cem anos de Johanna Döbereiner]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hungria]]></surname>
<given-names><![CDATA[Mariangela]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1 "/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Vasconcelos]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Tereza]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A3 "/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Embrapa  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AA2">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual de Londrina programa de pós-graduação em Biotecnologia ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AA3">
<institution><![CDATA[,Laboratório Nacional de Computação Científica  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AA4">
<institution><![CDATA[,MCTI Laboratório de Bioinformática Unidade de Genômica Computacional Darcy Fontoura de Almeida]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2024</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2024</year>
</pub-date>
<volume>76</volume>
<numero>spe4</numero>
<fpage>01</fpage>
<lpage>04</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252024000800001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252024000800001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252024000800001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cem anos de Johanna D&ouml;bereiner</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mariangela Hungria<sup>I</sup>; Ana Tereza Vasconcelos<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Pesquisadora da Embrapa e professora do programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Biotecnologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL)    <br>   <sup>II</sup>Pesquisadora do Laborat&oacute;rio Nacional de Computa&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica/ MCTI, onde coordena o Laborat&oacute;rio de Bioinform&aacute;tica e a Unidade de Gen&ocirc;mica Computacional Darcy Fontoura de Almeida</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ano de 2024 foi escolhido para uma grande e merecida homenagem a uma das maiores cientistas brasileiras, cuja carreira foi reconhecida nacional e internacionalmente, inclusive com a indica&ccedil;&atilde;o para receber o pr&ecirc;mio Nobel em Qu&iacute;mica. Em seu tempo, por&eacute;m, pouco se falava sobre a import&acirc;ncia da populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia; al&eacute;m disso, muitos jovens pesquisadores n&atilde;o conhecem sua carreira. Consequentemente, resgatar a hist&oacute;ria de momentos marcantes de sua vida e de sua carreira brilhante nesta edi&ccedil;&atilde;o especial da Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), institui&ccedil;&atilde;o que ela tanto admirava, representa um tributo &agrave; ci&ecirc;ncia e, espera-se, uma inspira&ccedil;&atilde;o para novas gera&ccedil;&otilde;es. A edi&ccedil;&atilde;o conta com depoimentos, lembran&ccedil;as e resgate de resultados cient&iacute;ficos e participa&ccedil;&otilde;es decisivas na agricultura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 28 de novembro de 1924, em Aussig, nos Sudetos, na ent&atilde;o Tchecoslov&aacute;quia, nascia Johanna, filha primog&ecirc;nita de Paul e Margarethe Kubelka. Algumas fotos da juventude a mostram feliz nessa regi&atilde;o caracterizada por uma cadeia de montanhas entre a Tch&eacute;quia, a Pol&ocirc;nia e a Alemanha. Na &eacute;poca com maioria da popula&ccedil;&atilde;o de origem alem&atilde;, os Sudetos sempre foram objeto de conflitos &eacute;tnicos. Johanna foi agraciada com uma fam&iacute;lia com vis&atilde;o muito al&eacute;m de seu tempo. No di&aacute;rio de sua m&atilde;e, uma declara&ccedil;&atilde;o chama a aten&ccedil;&atilde;o: "N&atilde;o devemos falar para nossa filha que seu destino estar&aacute; alcan&ccedil;ado quando encontrar um marido. Devemos dizer que sua vit&oacute;ria foi atingida quando se orgulhar do que realizou". &Eacute; f&aacute;cil tamb&eacute;m imaginar que conversas sobre ci&ecirc;ncia faziam parte do cotidiano familiar, pois seu pai era livre-docente de qu&iacute;mica na Universidade de Praga, cidade onde Johanna fez a escola secund&aacute;ria e viveu at&eacute; o final da Segunda Guerra Mundial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na juventude, passou pela experi&ecirc;ncia que sempre relatou como a pior de sua vida, a mais dif&iacute;cil: a guerra. Na segunda guerra, a regi&atilde;o caiu sob o dom&iacute;nio da Alemanha e seu pai foi preso, porque auxiliava os judeus a fugirem da persegui&ccedil;&atilde;o nazista. Finda a guerra, a regi&atilde;o foi recuperada pela ent&atilde;o Tchecoslov&aacute;quia e as popula&ccedil;&otilde;es germ&acirc;nicas foram expulsas ou exterminadas em massa, incluindo sua m&atilde;e, presa em 1945 e que faleceu em um campo de concentra&ccedil;&atilde;o. Johanna sempre referia &agrave; morte da m&atilde;e com profunda tristeza. Viver e sobreviver aos horrores da guerra certamente a moldou para ser forte e enfrentar as mais duras situa&ccedil;&otilde;es. Seu pai conseguiu fugir para a Alemanha, para onde Johanna foi expulsa e viveu como trabalhadora rural at&eacute; que seu pai a encontrasse. Ele ent&atilde;o a ajudou a encontrar outro emprego em uma fazenda perto de Munique, despertando sua voca&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. Em 1946, ingressou no curso de Agronomia da Universidade de Munique, onde se graduou em 1950. Em uma &eacute;poca de baix&iacute;ssimo conhecimento sobre microrganismos na agricultura e a import&acirc;ncia da fixa&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica do nitrog&ecirc;nio, sua monografia de conclus&atilde;o de curso foi "Bact&eacute;rias de fixa&ccedil;&atilde;o assimbi&oacute;tica de nitrog&ecirc;nio e a possibilidade de seu aproveitamento para a agricultura", o primeiro passo tra&ccedil;ando seu futuro.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Desde seu primeiro dia de trabalho, foi vision&aacute;ria em entender que era necess&aacute;rio redescobrir a ci&ecirc;ncia agron&ocirc;mica para aplic&aacute;-la aos tr&oacute;picos."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1946, o pai de Johanna veio para o Brasil, onde trabalhou no Departamento Nacional de Produ&ccedil;&atilde;o Mineral e foi um dos primeiros bolsistas do rec&eacute;m-criado Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Insistiu para a filha vir tamb&eacute;m para o Brasil. Assim, o ano de 1950 foi marcante, pois, al&eacute;m de graduar-se, casou-se com o colega Jurgen D&ouml;bereiner e vieram para o Brasil. Aos que tiveram o privil&eacute;gio de conhecer Johanna, n&atilde;o h&aacute; como esquecer como era determinada em tudo que almejava. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar a sua insist&ecirc;ncia solicitando emprego para &Aacute;lvaro Barcellos Fagundes, diretor do Servi&ccedil;o Nacional de Pesquisas Agron&ocirc;micas do Minist&eacute;rio da Agricultura (SNPA), institui&ccedil;&atilde;o antecessora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&aacute;ria (Embrapa). &Aacute;lvaro Fagundes estava autorizado a contratar um especialista estrangeiro para dar in&iacute;cio &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es em microbiologia do solo. A candidata &agrave; vaga era estrangeira, mas o diploma de agronomia havia sido obtido no caos do p&oacute;s-guerra, sem aulas pr&aacute;ticas em laborat&oacute;rios e a monografia era apenas uma revis&atilde;o te&oacute;rica. Segundo relato da pr&oacute;pria Johanna, &Aacute;lvaro Fagundes recomendou que estudasse e voltasse em 15 dias, a situa&ccedil;&atilde;o se repetiu pela segunda vez e, na terceira, ela desabafou: "Quero trabalhar, mesmo sem ganhar nada". O apelo comoveu o diretor e presenteou o pa&iacute;s com o in&iacute;cio de uma carreira brilhante. Johanna sempre foi de uma sinceridade e honestidade desconcertantes. Mesmo j&aacute; tendo acumulado v&aacute;rios pr&ecirc;mios, comentou em uma entrevista: "Eu n&atilde;o sabia nada, nunca tinha trabalhado em laborat&oacute;rio e ele, com uma paci&ecirc;ncia incr&iacute;vel, me ajudou. Mas foi preciso mais de um ano para eu aprender o b&ecirc;-&aacute;-b&aacute; em microbiologia". J&aacute; em 1951 assinou com &Aacute;lvaro Fagundes seu primeiro trabalho cient&iacute;fico, "Influ&ecirc;ncia da cobertura do solo sobre a flora microbiana", apresentado em reuni&atilde;o da Sociedade Brasileira de Ci&ecirc;ncia do Solo, no Recife.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde seu primeiro dia de trabalho, foi vision&aacute;ria em entender que era necess&aacute;rio redescobrir a ci&ecirc;ncia agron&ocirc;mica para aplic&aacute;-la aos tr&oacute;picos. Em 1953, apresentou o trabalho "<i>Azotobacter</i> em solos &aacute;cidos" e n&atilde;o parou mais. Estava fascinada pela imensid&atilde;o de possibilidades cient&iacute;ficas, visto que todo o conhecimento da &eacute;poca era baseado em regi&otilde;es temperadas. Nesse trabalho, concluiu que o comportamento da bact&eacute;ria "nos nossos solos" diferia do relatado na Europa e na Am&eacute;rica do Norte. Emblem&aacute;tica, a frase j&aacute; definia onde seria seu lar e onde estaria seu cora&ccedil;&atilde;o para sempre: "nossos" solos. Em 1956, naturalizou-se brasileira e tinha profundo amor e respeito pelo Brasil, considerado sua verdadeira p&aacute;tria. As abordagens de solos &aacute;cidos, com toxidez de alum&iacute;nio, temperaturas elevadas, abertura dos Cerrados e diversidade na Amaz&ocirc;nia sempre foram muito fortes em suas pesquisas. A fria cadeia de montanhas da Europa foi substitu&iacute;da pela umidade e pelas temperaturas escaldantes de Serop&eacute;dica, no Rio de Janeiro, na casa 19 da rua Colina, a apenas dez minutos de caminhada do laborat&oacute;rio, onde viveu desde mar&ccedil;o de 1952 at&eacute; o final de sua vida. Foi tamb&eacute;m onde criou os tr&ecirc;s filhos, Maria Luisa (Marlis), Christian e Lorenz e onde recebia, com v&aacute;rios preparativos, os netos. Seus filhos trazem um depoimento comovente neste suplemento. Comentava como era bom trabalhar ao lado de casa, almo&ccedil;ar com a fam&iacute;lia e jamais relatou que os filhos tivessem representado qualquer obst&aacute;culo &agrave; sua carreira. Provavelmente gra&ccedil;as a essa harmonia entre ser mulher, m&atilde;e e cientista, n&atilde;o via nenhuma limita&ccedil;&atilde;o e nunca teve nenhum tipo de discrimina&ccedil;&atilde;o na escolha de alunas ou ao contratar gr&aacute;vidas, m&atilde;es. Uma mulher que agia assim h&aacute; meio s&eacute;culo, sendo que, ainda hoje, vivenciamos hist&oacute;rias descabidas de preconceito contra mulheres, de d&uacute;vidas sobre a capacidade cient&iacute;fica frente &agrave; maternidade. Gra&ccedil;as a essa atitude, abriu as portas para muitas mulheres que deram continuidade &agrave;s suas pesquisas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das maiores contribui&ccedil;&otilde;es da agora conhecida como "Dra. Johanna" envolveu, no momento certo, uma combina&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica de conhecimento cient&iacute;fico, personalidade forte e capacidade de convencimento. Foi no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1960, com a cria&ccedil;&atilde;o de uma comiss&atilde;o para estudar a "nova cultura" da soja. Segundo seu depoimento, "Os geneticistas da comiss&atilde;o, todos com forma&ccedil;&atilde;o norte-americana, achavam que trabalhar com bact&eacute;rias era brincadeira de cientista, que n&atilde;o tinha aplica&ccedil;&atilde;o alguma. O melhoramento gen&eacute;tico da soja nos Estados Unidos havia sido feito com aduba&ccedil;&atilde;o nitrogenada. Eles selecionaram a soja que respondia melhor &agrave; aduba&ccedil;&atilde;o nitrogenada. Mas eu reagi. Nas reuni&otilde;es tivemos uma discuss&atilde;o muito forte tentando convenc&ecirc;-los a fazer o melhoramento da soja sem adubo nitrogenado". Quem conheceu Johanna usa facilmente o imagin&aacute;rio para reconstruir a cena, ela furiosa, determinada, saindo vencedora dos embates. Hoje somos o maior produtor e exportador mundial de soja, n&atilde;o restando d&uacute;vidas de que isso s&oacute; foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as &agrave; fixa&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica do nitrog&ecirc;nio, pois jamais ter&iacute;amos condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas de usar fertilizantes nitrogenados, cotados em d&oacute;lar e majoritariamente importados. As estimativas de economia pela substitui&ccedil;&atilde;o dos fertilizantes nitrogenados por bact&eacute;rias fixadoras de nitrog&ecirc;nio na soja foram, na &uacute;ltima safra de 2023/24, da ordem U$ 25 bilh&otilde;es. &Eacute; a maior marca deixada pela Johanna na agricultura brasileira.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Abriu as portas para muitas mulheres, que deram continuidade &agrave;s suas pesquisas."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em termos cient&iacute;ficos globais, por&eacute;m, sua maior proje&ccedil;&atilde;o se deu pelos estudos com bact&eacute;rias fixadoras de nitrog&ecirc;nio em intera&ccedil;&otilde;es associativas ou endof&iacute;ticas com gram&iacute;neas. Em 1955, relatou a descoberta de bact&eacute;rias da esp&eacute;cie <i>Beijerinckia</i>, capazes de fixar nitrog&ecirc;nio assimbioticamente em solos &aacute;cidos. Em 1958, em parceria com outros pesquisadores, publicou na Revista Brasileira de Biologia um trabalho pioneiro sobre a fixa&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica do nitrog&ecirc;nio em cana-de-a&ccedil;&uacute;car, associada a uma nova esp&eacute;cie de bact&eacute;ria, <i>Beijerinckia fluminensis</i>, mas os resultados apresentados foram recebidos com ceticismo. Ser desafiada era o combust&iacute;vel que Johanna mais gostava para continuar suas pesquisas. Nos anos 1970, realizou seu trabalho mais importante, relatando a associa&ccedil;&atilde;o entre bact&eacute;rias do g&ecirc;nero <i>Spirillum</i> (posteriormente <i>Azospirillum</i>) e gram&iacute;neas. Gostava de contar que a ideia veio pelo costume que tinha de deitar na rede por alguns minutos ap&oacute;s o almo&ccedil;o, ao observar o gramado que nunca havia recebido fertilizante nitrogenado e sempre ficava verde quando chegava a &eacute;poca das chuvas. A robustez dos dados agora n&atilde;o deixava d&uacute;vidas e o mundo finalmente a reverenciou. Mas sempre estava preocupada com o Brasil, sendo obstinada, desde a implementa&ccedil;&atilde;o do Programa Nacional do &Aacute;lcool (Pro&aacute;lcool), at&eacute; o final da vida, em maximizar a contribui&ccedil;&atilde;o de bact&eacute;rias fixadoras de nitrog&ecirc;nio com a cana-de-a&ccedil;&uacute;car.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Teve uma capacidade incr&iacute;vel de formar recursos humanos, hoje espalhados por todos os cantos do Brasil e em outros laborat&oacute;rios do mundo, o que permitiu a perpetua&ccedil;&atilde;o de suas linhas de pesquisa."</i></b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O brilhantismo de Johanna em diferentes situa&ccedil;&otilde;es ser&aacute; comentado neste suplemento. Mas n&atilde;o &eacute; demasiado mencionar alguns pontos de sua personalidade, vindo de pessoas que conviveram com ela. Tinha um grande poder de observa&ccedil;&atilde;o no laborat&oacute;rio e no campo e uma mente privilegiada e incans&aacute;vel em formular hip&oacute;teses cient&iacute;ficas a partir dessas observa&ccedil;&otilde;es. Era generosa no compartilhamento de suas ideias e, quando algu&eacute;m comentava sobre "roubar ideias", respondia sem titubear "Podem levar as ideias que quiserem, tenho tantas, n&atilde;o vai fazer falta". Era um prod&iacute;gio na reda&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, em poucas horas reformulava e "dava outra vida" a um trabalho cient&iacute;fico que poderia ter levado semanas ou meses para ser escrito. Como poucos, lutava para conseguir concretizar suas pesquisas; com a pasta na m&atilde;o, batia em todas as portas na busca por recursos financeiros, sempre apresentando resultados cient&iacute;ficos para justificar a concess&atilde;o. Essa luta incans&aacute;vel foi respons&aacute;vel pelo crescimento de um laborat&oacute;rio, que passou a ser uma unidade e, depois, um centro de pesquisa. Seu legado foi t&atilde;o importante que, na lista dos cientistas mais relevantes do mundo na &aacute;rea de Agronomia, mesmo ap&oacute;s um quarto de s&eacute;culo de sua morte, ela continua como uma das mais citadas. Teve uma capacidade incr&iacute;vel de formar recursos humanos, hoje espalhados por todos os cantos do Brasil e em outros laborat&oacute;rios do mundo, o que permitiu a perpetua&ccedil;&atilde;o de suas linhas de pesquisa. Muito importante, se hoje se fala em agricultura sustent&aacute;vel, regenerativa, ela j&aacute; trabalhava nesse conceito desde a d&eacute;cada de 1950. Uma cientista &agrave; frente do seu tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dra. Johanna foi nos deixando aos poucos, uma mente prodigiosa na qual as mem&oacute;rias iam se apagando. Partiu em 5 de outubro de 2000, pouco antes de completar 76 anos. Reverenciamos neste suplemento suas memor&aacute;veis contribui&ccedil;&otilde;es &agrave;s ci&ecirc;ncias agr&iacute;colas no Brasil e no mundo e os ensinamentos que deixou sobre a import&acirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos, para o reconhecimento das mulheres na ci&ecirc;ncia e para o fortalecimento da atua&ccedil;&atilde;o em sociedades e academias cient&iacute;ficas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Conte&uacute;do retirado de v&aacute;rias fontes, como CD-ROM "Johanna D&ouml;bereiner: 50 anos dedicados &agrave; Pesquisa em Microbiologia do Solo", Embrapa Agrobiologia, Mem&oacute;ria CNPq, livro de K. H. Michahelles "Johanna D&ouml;bereiner: uma vida dedicada &agrave; ci&ecirc;ncia" e de lembran&ccedil;as pessoais.</i></font></p>      ]]></body>
</article>
