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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma bact&eacute;ria para a agricultura</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Helv&eacute;cio De-Polli<sup>I</sup>; Johanna D&ouml;bereiner<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Biologia do Solo, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&aacute;ria (Embrapa)    <br>   <sup>II</sup>Foi engenheira agr&ocirc;noma pioneira em biologia do solo. Pesquisadora do atual Centro Nacional de Pesquisa em Agrobiologia da Embrapa, suas pesquisas foram fundamentais para que o Brasil desenvolvesse o Programa Nacional do &Aacute;lcool e se tornasse o maior produtor mundial de soja do mundo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="2" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A descoberta de bact&eacute;rias naturais capazes de fixar nitrog&ecirc;nio e degradar celulose traz grandes avan&ccedil;os para a ci&ecirc;ncia. Essa capacidade simult&acirc;nea, antes apenas te&oacute;rica, pode transformar res&iacute;duos em nutrientes, abrindo novas possibilidades para a agricultura sustent&aacute;vel e manejo de recursos naturais. Estudos identificam tais bact&eacute;rias tanto em ambientes de solo quanto em gl&acirc;ndulas de moluscos, ampliando nosso entendimento sobre as fontes de nitrog&ecirc;nio e suas aplica&ccedil;&otilde;es no ecossistema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Bact&eacute;rias; Fixa&ccedil;&atilde;o de nitrog&ecirc;nio; Celulose; Sustentabilidade.</font></p> <hr size="2" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Caso se anunciasse que, com os meios t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos da engenharia gen&eacute;tica, se "constru&iacute;ra" uma bact&eacute;ria capaz de fixar nitrog&ecirc;nio atmosf&eacute;rico e degradar celulose, a repercuss&atilde;o seria grande. Pois uma descoberta igualmente importante foi feita recentemente: essa bact&eacute;ria, ao contr&aacute;rio do que se supunha, existe na natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A celulose, produzida pela fotoss&iacute;ntese, &eacute; um carboidrato constitu&iacute;do de carbono, hidrog&ecirc;nio e oxig&ecirc;nio, que forma a parede celular dos vegetais, permitindo-lhes resistir &agrave;s diferen&ccedil;as de press&atilde;o osm&oacute;tica entre os ambientes interno e externo das c&eacute;lulas, al&eacute;m de propiciar a rigidez das ra&iacute;zes, dos caules e das folhas. Muito abundante, est&aacute; presente, por exemplo, na madeira, no algod&atilde;o ou no capim.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alguns microrganismos s&atilde;o capazes de atacar essa r&iacute;gida estrutura qu&iacute;mica atrav&eacute;s de uma enzima, a celulase. Podem ent&atilde;o us&aacute;-la como fonte de carbono e energia qu&iacute;mica e introduzi-la na cadeia alimentar de outros seres vivos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A celulose n&atilde;o tem em sua mol&eacute;cula o nitrog&ecirc;nio (N), elemento constituinte dos amino&aacute;cidos que formam as prote&iacute;nas. O nitrog&ecirc;nio &eacute; um nutriente vegetal escasso na maioria dos solos agr&iacute;colas, sendo cara a sua adi&ccedil;&atilde;o por aduba&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica corretiva. Em contrapartida, na forma biat&ocirc;mica (N<sub>2</sub>),<b></b> &eacute; abundante na atmosfera terrestre (79%). Nessa forma, contudo, &eacute; pouco reativo: s&oacute; as bact&eacute;rias chamadas diazotr&oacute;ficas s&atilde;o capazes de fix&aacute;-lo em forma qu&iacute;mica mais reativa (am&ocirc;nio, NH<sup>+</sup><sub>4</sub>)<b></b> e incorpor&aacute;-lo em prote&iacute;nas diversas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Essa bact&eacute;ria, ao contr&aacute;rio do que se supunha, existe na natureza."</i></b></styled-content></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O microbiologista S. B. Leschine e seus colaboradores<sup>&#91;1&#93;</sup>, da Universidade de Massachusetts (EUA), relataram o isolamento de quatro extirpes de bact&eacute;rias fixadoras de nitrog&ecirc;nio, celulol&iacute;ticas e anaer&oacute;bicas, oriundas do lodo de &aacute;gua doce e do solo. Demonstraram que possuem uma nitrogenase ativa, o que indica serem capazes de fixa&ccedil;&atilde;o de nitrog&ecirc;nio. S&atilde;o bact&eacute;rias de vida livre, n&atilde;o associadas a outro organismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O achado da fixa&ccedil;&atilde;o de N<sub>2</sub> em organismos que degradam a celulose em condi&ccedil;&otilde;es de vida livre, aliado &agrave; abund&acirc;ncia da celulose, distribu&iacute;da em diferentes ambientes, abre uma nova perspectiva para o uso dessas bact&eacute;rias na melhoria da fertilidade dos solos e na convers&atilde;o de refugos celulol&iacute;ticos em produtos beneficiados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro relato de organismos com dupla capacidade de transformar celulose e fixar nitrog&ecirc;nio foi feito tamb&eacute;m por pesquisadores norte-americanos, J. B. Waterbury e seus colaboradores<sup>&#91;2&#93;</sup>. O grupo isolou uma bact&eacute;ria que vive associada &agrave; gl&acirc;ndula de Deshayes, exclusiva de certos moluscos marinhos que, quando adultos, vivem em cascos de navio e outros objetos de madeira submersos em &aacute;guas oce&acirc;nicas, podendo alimentar-se exclusivamente dela.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal fato suscita duas quest&otilde;es: qual a origem da enzima que degrada a celulose e qual a fonte de nitrog&ecirc;nio para a produ&ccedil;&atilde;o de prote&iacute;na, uma vez que a madeira &eacute; rica em celulose e pobre em nitrog&ecirc;nio? As fun&ccedil;&otilde;es da gl&acirc;ndula de Deshayes t&ecirc;m sido inferidas a partir de evid&ecirc;ncias circunstanciais, presumindo-se que nela ocorrem tanto a produ&ccedil;&atilde;o de enzimas celulol&iacute;ticas quanto a s&iacute;ntese de amino&aacute;cidos. Como a bact&eacute;ria foi isolada do tecido que forma a gl&acirc;ndula e mostrou-se capaz de degradar celulose e fixar nitrog&ecirc;nio atmosf&eacute;rico, cabe p&ocirc;r em d&uacute;vida a atribui&ccedil;&atilde;o dessa fun&ccedil;&atilde;o &agrave; pr&oacute;pria gl&acirc;ndula do molusco. Sendo a bact&eacute;ria abundante nesse tecido animal, parece prov&aacute;vel que estejamos diante de um caso em que as fun&ccedil;&otilde;es de celulase e de nitrogenase exercidas pela bact&eacute;ria auxiliariam o molusco (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76nspe4/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A bact&eacute;ria foi isolada da gl&acirc;ndula de um molusco em meio mineral, com celulose em p&oacute; como fonte de carbono, tendo como &uacute;nica fonte de nitrog&ecirc;nio dispon&iacute;vel o nitrog&ecirc;nio molecular atmosf&eacute;rico. Tentativas de isol&aacute;-la da &aacute;gua do mar ou da flora n&atilde;o foram bem-sucedidas, o que sugere que seu h&aacute;bitat se restringe &agrave; gl&acirc;ndula do molusco. Todos os microrganismos isolados mostraram similaridade, parecendo ser de uma mesma esp&eacute;cie. Como esta n&atilde;o p&ocirc;de ser enquadrada em nenhuma chave taxon&ocirc;mica, concluiu-se: era uma bact&eacute;ria at&eacute; ent&atilde;o desconhecida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A atividade celulol&iacute;tica &eacute; comum em invertebrados e est&aacute; associada ao trato digestivo desses animais. Isso n&atilde;o ocorre neste caso, fazendo com que esta seja, tamb&eacute;m nesse sentido, uma associa&ccedil;&atilde;o singular.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"O achado da fixa&ccedil;&atilde;o de N2 em organismos que degradam a celulose em condi&ccedil;&otilde;es de vida livre &#91;...&#93; abre uma nova perspectiva para o uso dessas bact&eacute;rias na melhoria da fertilidade dos solos."</i></b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O m&eacute;rito da descoberta desses organismos ao mesmo tempo celulol&iacute;ticos e capazes de fixar nitrog&ecirc;nio n&atilde;o deve, contudo, desviar nossa aten&ccedil;&atilde;o de dois outros aspectos do uso combinado do carbono e do nitrog&ecirc;nio. Um deles &eacute; a associa&ccedil;&atilde;o de bact&eacute;rias diazotr&oacute;ficas, n&atilde;o celulol&iacute;ticas, com microrganismos celulol&iacute;ticos, n&atilde;o diazotr&oacute;ficos, em cultura mista para degrada&ccedil;&atilde;o de palha e cereais. Descobriu-se, na Austr&aacute;lia, que as bact&eacute;rias fixadoras de N<sub>2</sub> do g&ecirc;nero <i>Azospirillum </i>s&atilde;o capazes de fixar N<sub>2</sub><b></b> com xilana ou palha de trigo como<b></b> fonte de carbono. O outro aspecto &eacute; a capacidade que t&ecirc;m alguns organismos de ambiente &uacute;mido - as cianof&iacute;ceas (algas verde-azuladas) e algumas bact&eacute;rias fotossint&eacute;ticas - de fixar N<sub>2</sub> e g&aacute;s carb&ocirc;nico (CO<sub>2</sub>) do ar para produzir prote&iacute;nas e carboidratos num mesmo organismo. As op&ccedil;&otilde;es v&ecirc;m crescendo no universo cient&iacute;fico dos fixadores de N<sub>2</sub> que usam fonte de energia e carbono abundantes e pouco dispendiosos. O desenvolvimento e a adapta&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica desses trabalhos poder&atilde;o contribuir, num futuro pr&oacute;ximo, para uma agricultura de menor custo.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b><i>"Estudos recentes mostram que bact&eacute;rias fixadoras de nitrog&ecirc;nio podem contribuir para uma agricultura de menor custo e mais sustent&aacute;vel."</i></b></styled-content></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Texto publicado originalmente em: DE-POLLI, H.; D&Ouml;BEREINER, J. Microbiologia, uma bact&eacute;ria para a agricultura. <i>Ci&ecirc;ncia Hoje</i>, Rio de Janeiro, v. 10, n. 55, p. 1-16, 1989.    <br>   * <i>Esse texto foi atualizado segundo o novo Acordo Ortogr&aacute;fico da L&iacute;ngua Portuguesa</i>.</font></p>      ]]></body><back>
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