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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250011</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Uma ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica brasileira de impacto global &eacute;, sim, poss&iacute;vel</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Rafael Chaves<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>L&iacute;der de pesquisa e vice-diretor do Instituto Internacional de F&iacute;sica (IIF-UFRN).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) declarou 2025 como o Ano da Ci&ecirc;ncia e das Tecnologias Qu&acirc;nticas, em celebra&ccedil;&atilde;o ao centen&aacute;rio de um artigo cient&iacute;fico revolucion&aacute;rio do f&iacute;sico alem&atilde;o Werner Heisenberg. Publicado em 1925, este trabalho deu in&iacute;cio a uma nova era na mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, cujos efeitos moldaram e continuam influenciando a ci&ecirc;ncia e a tecnologia at&eacute; hoje. O objetivo do Ano da Qu&acirc;ntica &eacute; aumentar a conscientiza&ccedil;&atilde;o entre o p&uacute;blico e os tomadores de decis&atilde;o sobre os impactos cient&iacute;ficos, tecnol&oacute;gicos, culturais, &eacute;ticos e socioecon&ocirc;micos que a atual revolu&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica pode trazer em um futuro pr&oacute;ximo. Neste artigo, exploraremos as fascinantes facetas da ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica e os seus desafios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A Primeira Revolu&ccedil;&atilde;o Qu&acirc;ntica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No in&iacute;cio do S&eacute;culo 20, &agrave; medida que os cientistas se aprofundavam no mundo microsc&oacute;pico da mat&eacute;ria, ficou evidente que as teorias f&iacute;sicas vigentes eram inadequadas para descrever o que era observado. Em 1900, o f&iacute;sico alem&atilde;o Max Planck fez uma descoberta que mudaria a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia: a radia&ccedil;&atilde;o emitida por corpos aquecidos s&oacute; podia ser explicada se a troca de energia entre mat&eacute;ria e luz ocorresse em pacotes discretos, denominados "quanta". Apesar de inicialmente considerar essa ideia um "ato de desespero", Planck havia semeado o conceito central que daria origem &agrave; mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, a teoria f&iacute;sica mais precisa e bem-sucedida j&aacute; desenvolvida. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A mec&acirc;nica qu&acirc;ntica permite prever e explicar as propriedades de part&iacute;culas fundamentais, como el&eacute;trons e f&oacute;tons, e o comportamento de &aacute;tomos, mol&eacute;culas e materiais. Al&eacute;m disso, ela desempenha um papel crucial no estudo de fen&ocirc;menos astrof&iacute;sicos, como a estrutura das estrelas, buracos negros e at&eacute; mesmo a origem e evolu&ccedil;&atilde;o do universo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">No campo tecnol&oacute;gico, as aplica&ccedil;&otilde;es da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica mudaram o mundo. Tecnologias como transistores e lasers impulsionaram a era da informa&ccedil;&atilde;o, permitindo o desenvolvimento de computadores, smartphones e redes de comunica&ccedil;&atilde;o modernas. Uma estimativa de uma d&eacute;cada atr&aacute;s sugeriu que inven&ccedil;&otilde;es baseadas na teoria qu&acirc;ntica representavam entre 30% e 35% do PIB dos Estados Unidos &#45; um n&uacute;mero que certamente &eacute; ainda maior hoje. Essa transforma&ccedil;&atilde;o abrangente na ci&ecirc;ncia e na tecnologia ao longo do S&eacute;culo 20 ficou conhecida como a "primeira revolu&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A Segunda Revolu&ccedil;&atilde;o Qu&acirc;ntica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Atualmente, estamos presenciando o desdobramento da chamada "segunda revolu&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica". Enquanto a primeira revolu&ccedil;&atilde;o possibilitou dispositivos regidos pelas leis da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, o processamento de informa&ccedil;&atilde;o nestes dispositivos permaneceu cl&aacute;ssico, com c&aacute;lculos baseados em sequ&ecirc;ncias de bits (0s e 1s). Essencialmente, o <i>hardware</i> tornou-se parcialmente qu&acirc;ntico, mas o <i>software</i> permaneceu tradicional.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Com o advento da ci&ecirc;ncia e tecnologia qu&acirc;nticas modernas, tanto o <i>hardware</i> quanto o <i>software </i>passaram a explorar as propriedades qu&acirc;nticas da informa&ccedil;&atilde;o. Conceitos como superposi&ccedil;&atilde;o, emaranhamento e teleporte qu&acirc;ntico, antes restritos &agrave; fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica ou a experimentos imagin&aacute;rios, come&ccedil;aram a ser implementados em laborat&oacute;rios de universidades, <i>startups</i> e grandes empresas de tecnologia ao redor do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As aplica&ccedil;&otilde;es das tecnologias qu&acirc;nticas podem ser agrupadas em quatro grandes &aacute;reas:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana">1. <b>Computa&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica</b>: A mais disruptiva, promete resolver classes de problemas que est&atilde;o al&eacute;m do alcance mesmo dos supercomputadores mais poderosos. Entre eles, destaca-se a vulnerabilidade de protocolos de criptografia amplamente utilizados e problemas de otimiza&ccedil;&atilde;o com aplica&ccedil;&otilde;es variadas.</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">2. <b>Simula&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica</b>: Pode revolucionar o desenvolvimento de novos materiais, subst&acirc;ncias qu&iacute;micas e medicamentos, proporcionando m&eacute;todos mais precisos e acess&iacute;veis.</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">3. <b>Metrologia qu&acirc;ntica</b>: Sistemas qu&acirc;nticos extremamente sens&iacute;veis permitem medi&ccedil;&otilde;es precisas de grandezas f&iacute;sicas, como campos magn&eacute;ticos e gravitacionais. Um exemplo pr&aacute;tico &eacute; o LIGO, que pode usar sensores qu&acirc;nticos para detectar ondas gravitacionais com alt&iacute;ssima precis&atilde;o.</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">4. <b>Comunica&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica</b>: J&aacute; bem desenvolvida, possibilita a troca de informa&ccedil;&otilde;es de forma fundamentalmente segura, pois qualquer tentativa de intercepta&ccedil;&atilde;o seria detectada gra&ccedil;as &agrave;s pr&oacute;prias leis da f&iacute;sica.</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A corrida do ouro qu&acirc;ntico</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Com tamanho potencial tecnol&oacute;gico, n&atilde;o &eacute; surpreendente que governos, empresas de tecnologia e diversos setores industriais estejam investindo massivamente no tema. Segundo a Qureca, uma plataforma que re&uacute;ne informa&ccedil;&otilde;es sobre iniciativas relacionadas &agrave;s tecnologias qu&acirc;nticas, pelo menos 42 bilh&otilde;es de d&oacute;lares foram investidos globalmente no setor. Estimativas conservadoras sugerem que esse n&uacute;mero pode dobrar ao longo da pr&oacute;xima d&eacute;cada. Entre os pa&iacute;ses que lideram esses esfor&ccedil;os, destaca-se a China, com investimentos superiores a US $ 15 bilh&otilde;es, seguida pelos Estados Unidos, Alemanha e Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m dos aportes governamentais, fundamentais para viabilizar essas novas tecnologias, o papel das empresas privadas tem ganhado destaque no cen&aacute;rio atual. Gigantes como Google e IBM lideraram por anos a corrida no desenvolvimento de computadores qu&acirc;nticos baseados em qubits (os bits qu&acirc;nticos) supercondutores. Mais recentemente, no entanto, startups e empresas emergentes t&ecirc;m explorado novas abordagens, superando importantes desafios. A IonQ, por exemplo, com valor de mercado superior a US $ 8 bilh&otilde;es, aposta em &iacute;ons aprisionados (&aacute;tomos excitados) como base de seus computadores qu&acirc;nticos. J&aacute; a QuEra utiliza &aacute;tomos neutros para construir suas m&aacute;quinas, alcan&ccedil;ando avan&ccedil;os significativos no aumento do n&uacute;mero de qubits e na corre&ccedil;&atilde;o de erros qu&acirc;nticos &#45; desafios cruciais para tornar essas m&aacute;quinas funcionalmente &uacute;teis. Em um movimento estrat&eacute;gico recente, o governo australiano anunciou um investimento de 1 bilh&atilde;o de d&oacute;lares australianos na PsiQuantum, uma empresa que desenvolve computadores qu&acirc;nticos baseados em part&iacute;culas de luz integradas a chips de sil&iacute;cio, cujos detalhes permanecem um segredo bem guardado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No campo da comunica&ccedil;&atilde;o e da criptografia qu&acirc;ntica, atualmente a tecnologia qu&acirc;ntica mais madura, existem dezenas, possivelmente centenas, de empresas e startups operando globalmente. Um exemplo pioneiro &eacute; a empresa su&iacute;&ccedil;a ID Quantique, que em 2007 utilizou tecnologia qu&acirc;ntica para garantir a seguran&ccedil;a de uma parte da rede de comunica&ccedil;&atilde;o empregada na contagem de votos de uma elei&ccedil;&atilde;o em Genebra. Na Am&eacute;rica Latina, a Sequre Quantum emprega part&iacute;culas qu&acirc;nticas de luz para gerar n&uacute;meros aleat&oacute;rios utilizados na loteria nacional do Chile. J&aacute; em 2017, a China impressionou o mundo ao lan&ccedil;ar o sat&eacute;lite <i>Micius</i>, o primeiro capaz de produzir f&oacute;tons emaranhados e distribu&iacute;-los pelo vasto territ&oacute;rio chin&ecirc;s, marcando um passo fundamental na cria&ccedil;&atilde;o da rede qu&acirc;ntica chinesa de comunica&ccedil;&atilde;o interligando diversos setores estrat&eacute;gicos do pa&iacute;s asi&aacute;tico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Embargo qu&acirc;ntico</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora as tecnologias qu&acirc;nticas ainda estejam em grande parte em desenvolvimento e provavelmente distantes pelo menos uma d&eacute;cada do uso pr&aacute;tico em larga escala, j&aacute; emergem no cen&aacute;rio internacional os primeiros ind&iacute;cios de uma "guerra fria" tecnol&oacute;gica. Diversos pa&iacute;ses identificaram a ci&ecirc;ncia e a tecnologia qu&acirc;ntica como &aacute;reas estrat&eacute;gicas e cruciais para a soberania nacional, lan&ccedil;ando grandes iniciativas nacionais para impulsionar a pesquisa, formar recursos humanos especializados, fortalecer a competitividade econ&ocirc;mica e garantir a independ&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica. Esse movimento n&atilde;o passou despercebido por organiza&ccedil;&otilde;es como a OTAN, que j&aacute; considera as tecnologias qu&acirc;nticas como pe&ccedil;as-chave em seus planos de defesa e seguran&ccedil;a. Coincid&ecirc;ncia ou n&atilde;o, muitos pa&iacute;ses passaram a adotar medidas restritivas relacionadas &agrave;s tecnologias qu&acirc;nticas. Exporta&ccedil;&otilde;es de computadores e dispositivos qu&acirc;nticos t&ecirc;m sido controladas, e colabora&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas internacionais, antes incentivadas, agora enfrentam regulamenta&ccedil;&otilde;es que dificultam parcerias entre cientistas de diferentes na&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para pa&iacute;ses como o Brasil, que est&atilde;o infelizmente atrasados nessa corrida tecnol&oacute;gica, os efeitos desse "embargo tecnol&oacute;gico" s&atilde;o profundamente prejudiciais. Al&eacute;m das restri&ccedil;&otilde;es internacionais, quest&otilde;es socioecon&ocirc;micas t&ecirc;m sido um obst&aacute;culo significativo. Muitos pesquisadores brasileiros j&aacute; n&atilde;o conseguem prosseguir com suas pesquisas em computa&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica devido aos altos custos cobrados por empresas internacionais para o acesso a dispositivos qu&acirc;nticos. Outro problema &eacute; a dificuldade crescente de publicar em revistas cient&iacute;ficas de prest&iacute;gio, que frequentemente exigem taxas exorbitantes, limitando a dissemina&ccedil;&atilde;o de ideias e o avan&ccedil;o da pesquisa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Diversos pa&iacute;ses identificaram a ci&ecirc;ncia e a tecnologia qu&acirc;ntica como &aacute;reas estrat&eacute;gicas e cruciais para a soberania nacional."</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>O desafio qu&acirc;ntico brasileiro</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No in&iacute;cio deste s&eacute;culo, o Brasil despontava como refer&ecirc;ncia no campo da informa&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica, a ci&ecirc;ncia fundamental por tr&aacute;s das tecnologias qu&acirc;nticas. A cria&ccedil;&atilde;o do Instituto do Mil&ecirc;nio de Informa&ccedil;&atilde;o Qu&acirc;ntica e, posteriormente, a forma&ccedil;&atilde;o de Institutos Nacionais de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (INCTs) na &aacute;rea possibilitaram a forma&ccedil;&atilde;o de gera&ccedil;&otilde;es de cientistas altamente qualificados. Muitos desses pesquisadores optaram por permanecer no pa&iacute;s, onde criaram novos grupos de pesquisa e impulsionaram linhas de investiga&ccedil;&atilde;o promissoras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No entanto, a partir de 2016, o cen&aacute;rio mudou drasticamente com a significativa redu&ccedil;&atilde;o dos investimentos em ci&ecirc;ncia e tecnologia. O Brasil passou a enfrentar uma fuga de c&eacute;rebros sem precedentes. Pesquisadores de renome internacional, j&aacute; consolidados no pa&iacute;s, foram atra&iacute;dos por melhores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho no exterior, enquanto talentos brasileiros que atuavam fora deixaram de retornar. Como reflexo desse &ecirc;xodo, hoje, praticamente todos os pa&iacute;ses que investem seriamente em tecnologias qu&acirc;nticas contam com cientistas brasileiros em posi&ccedil;&otilde;es de destaque.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Segundo um estudo recente da ag&ecirc;ncia Bori, o Brasil ocupa atualmente a 21&ordf; posi&ccedil;&atilde;o no n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es em ci&ecirc;ncia e tecnologia qu&acirc;nticas entre 2014 e 2023. Embora esse dado reflita o impacto de anos de escassez de recursos, tamb&eacute;m &eacute; um testemunho da resili&ecirc;ncia da comunidade cient&iacute;fica brasileira, que conseguiu se manter competitiva mesmo diante de condi&ccedil;&otilde;es adversas. Em contraste, os pa&iacute;ses que nos ultrapassaram nesse per&iacute;odo t&ecirc;m realizado investimentos expressivos e consistentes, frequentemente na casa de bilh&otilde;es de d&oacute;lares, com estrat&eacute;gias de longo prazo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute;, no entanto, motivos para otimismo. Desde 2023, o Brasil come&ccedil;ou a reconhecer o papel estrat&eacute;gico das tecnologias qu&acirc;nticas, aumentando significativamente os investimentos na &aacute;rea. O Governo Federal, o Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&otilde;es (MCTI) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq) desempenham um papel crucial nesse novo momento. Em especial, a Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp) lan&ccedil;ou um programa pioneiro para impulsionar as tecnologias qu&acirc;nticas no estado de S&atilde;o Paulo, que promete colocar o Brasil em uma posi&ccedil;&atilde;o mais competitiva no cen&aacute;rio global.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m disso, outras iniciativas relevantes demonstram um esfor&ccedil;o de descentraliza&ccedil;&atilde;o e democratiza&ccedil;&atilde;o dos recursos. O Senai Cimatec, em Salvador, recebeu recentemente um aporte de R$ 60 milh&otilde;es para a cria&ccedil;&atilde;o de um Centro de Compet&ecirc;ncias em Tecnologias Qu&acirc;nticas, refor&ccedil;ando a presen&ccedil;a da regi&atilde;o Nordeste na vanguarda tecnol&oacute;gica. Da mesma forma, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) anunciou a cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Quanta, com financiamento de R$ 15 milh&otilde;es da Finep, um marco para a regi&atilde;o e para a ci&ecirc;ncia brasileira como um todo. Esses exemplos mostram que, apesar das desigualdades regionais ainda presentes no pa&iacute;s, &eacute; poss&iacute;vel compartilhar os recursos, embora ainda limitados, de forma mais equitativa. No entanto, &eacute; necess&aacute;rio destacar uma quest&atilde;o cr&iacute;tica: os valores das bolsas de pesquisa em muitos estados brasileiros continuam sendo baseados nos valores praticados pelo CNPq, que, em alguns casos, representam apenas 40% dos valores pagos no estado de S&atilde;o Paulo. Essa discrep&acirc;ncia gera uma "fuga de c&eacute;rebros interna", com pesquisadores migrando de suas regi&otilde;es para locais onde encontram melhores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e remunera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; urgente, portanto, que os valores das bolsas de pesquisa sejam ajustados nacionalmente, seguindo o exemplo positivo da Fapesp. Essa uniformiza&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial para evitar a concentra&ccedil;&atilde;o de talentos em poucos estados e para promover um desenvolvimento cient&iacute;fico mais integrado e sustent&aacute;vel em todo o pa&iacute;s. N&atilde;o restam d&uacute;vidas de que, se os investimentos forem mantidos e ampliados, o Brasil poder&aacute; retomar sua posi&ccedil;&atilde;o de destaque no campo das tecnologias qu&acirc;nticas nos pr&oacute;ximos anos, contribuindo n&atilde;o apenas para o avan&ccedil;o cient&iacute;fico, mas tamb&eacute;m para a soberania tecnol&oacute;gica e o desenvolvimento econ&ocirc;mico do pa&iacute;s.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"&Eacute; perfeitamente poss&iacute;vel desenvolver uma ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica brasileira &#45; nacional, regional, cooperativa, inclusiva e de impacto global."</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">N&atilde;o restam d&uacute;vidas de que, se    os investimentos forem mantidos    e ampliados, o Brasil poder&aacute;    retomar sua posi&ccedil;&atilde;o de    destaque no campo das tecnologias    qu&acirc;nticas nos pr&oacute;ximos    anos, contribuindo n&atilde;o apenas    para o avan&ccedil;o cient&iacute;fico, mas    tamb&eacute;m para a soberania tecnol&oacute;gica    e o desenvolvimento  econ&ocirc;mico do pa&iacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Ci&ecirc;ncia Qu&acirc;ntica e Ci&ecirc;ncia Aberta - perspectivas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Apesar dessas dificuldades, existem tamb&eacute;m exemplos positivos de iniciativas que ajudam a disseminar e democratizar a ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica, no &acirc;mbito da ci&ecirc;ncia aberta. No campo educacional, algumas empresas do setor t&ecirc;m se dedicado a formar especialistas ao n&iacute;vel global. A IBM, por exemplo, foi pioneira ao disponibilizar o Qiskit, um <i>software</i> de c&oacute;digo aberto para programa&ccedil;&atilde;o de computadores qu&acirc;nticos. Al&eacute;m disso, a empresa oferece regularmente cursos online gratuitos e promove competi&ccedil;&otilde;es que permitem aos participantes acessarem seus dispositivos qu&acirc;nticos, fomentando o aprendizado pr&aacute;tico e a inova&ccedil;&atilde;o. Outra iniciativa not&aacute;vel &eacute; da Xanadu, que fornece o Pennylane, uma biblioteca de <i>software</i> gratuita que tem ajudado cientistas e estudantes ao redor do mundo a explorar os limites da computa&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No &acirc;mbito das publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, destaca-se o arXiv, uma plataforma pioneira criada h&aacute; mais de tr&ecirc;s d&eacute;cadas, que oferece acesso gratuito a <i>preprints</i> (resultados cient&iacute;ficos preliminares). Utilizado pela ampla maioria dos pesquisadores na &aacute;rea qu&acirc;ntica, o arXiv tem sido essencial para a r&aacute;pida dissemina&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Outro exemplo de sucesso &eacute; o Quantum Journal, uma revista cient&iacute;fica criada e gerida por cientistas da &aacute;rea. Totalmente gratuita e de alto impacto, ela rapidamente se tornou uma refer&ecirc;ncia para publica&ccedil;&otilde;es em ci&ecirc;ncia e tecnologia qu&acirc;ntica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um exemplo recente dedicado &agrave; ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica aberta &eacute; o instituto Open Quantum Computing, inicialmente abrigado no CERN, cujo objetivo &eacute; fornecer a todos os pesquisadores da &aacute;rea acesso aberto e inclusivo a <i>software</i> e um <i>pool</i> de m&aacute;quinas na nuvem. Visa ampliar e disseminar o conhecimento em ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica para qualquer pesquisador, independente de onde realize sua pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como em todos os outros dom&iacute;nios de pesquisa, e ainda mais nesta &aacute;rea t&atilde;o nova e promissora, s&atilde;o muitos os desafios para dissemina&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica de abertura de pesquisas e resultados. Destaca-se a necessidade de mudan&ccedil;a de cultura, j&aacute; que muitos pesquisadores da &aacute;rea desconhecem o movimento e seu potencial. Embora j&aacute; seja padr&atilde;o a colabora&ccedil;&atilde;o por meio de compartilhamento de resultados, falta conscientizar os pesquisadores da &aacute;rea sobre o que significa disponibiliza&ccedil;&atilde;o: "o mais aberto que poss&iacute;vel, t&atilde;o fechado quanto necess&aacute;rio". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Uma iniciativa qu&acirc;ntica brasileira</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Expostos os fatos, encerro este artigo com uma proposta. Al&eacute;m dos desafios j&aacute; mencionados &#45; como baixo investimento, embargo tecnol&oacute;gico, fuga de c&eacute;rebros, entre outros &#45; acredito que uma quest&atilde;o em particular intensifica ainda mais o atraso do Brasil no cen&aacute;rio global das tecnologias qu&acirc;nticas. Os pa&iacute;ses que se destacam na &aacute;rea reconheceram a necessidade de uma iniciativa nacional estruturada, bem financiada e de longo prazo em ci&ecirc;ncia e tecnologia qu&acirc;nticas. No Brasil, embora existam tentativas promissoras, essas iniciativas ainda s&atilde;o incipientes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Todos os pa&iacute;ses desenvolvidos, sem exce&ccedil;&atilde;o, assim como v&aacute;rios em desenvolvimento, t&ecirc;m implementado estrat&eacute;gias nacionais voltadas &agrave; ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica. Em cada uma delas, destaca-se a cria&ccedil;&atilde;o de novos centros de pesquisa, que se tornam polos de atra&ccedil;&atilde;o e pontos de refer&ecirc;ncia para os cientistas do setor. Esse movimento desencadeia um ciclo virtuoso: os pa&iacute;ses fortalecem a expertise de seus pr&oacute;prios pesquisadores, ret&ecirc;m talentos e atraem especialistas do exterior, promovendo um ambiente prop&iacute;cio para colabora&ccedil;&otilde;es de alto impacto. Esses polos n&atilde;o apenas impulsionam descobertas cient&iacute;ficas de ponta, mas tamb&eacute;m se consolidam como refer&ecirc;ncias globais de excel&ecirc;ncia para a comunidade cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora a maioria desses centros ou iniciativas seja financiada por recursos p&uacute;blicos &#45; como o Institute for Quantum Information and Matter, do Caltech, nos Estados Unidos, e o Munich Quantum Valley, em Munique, na Alemanha &#45; diversas institui&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas t&ecirc;m sido criadas e mantidas por patronos e parcerias p&uacute;blico-privadas. Exemplos relevantes incluem o Quantum for Life Centre, em Copenhague, financiado pela farmac&ecirc;utica Novo Nordisk, e o Wallenberg Centre for Quantum Technology, na Su&eacute;cia, sustentado pela Wallenberg Foundation. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Est&aacute; mais que na hora de o Brasil se inspirar nesses modelos bem-sucedidos. &Eacute; perfeitamente poss&iacute;vel desenvolver uma ci&ecirc;ncia qu&acirc;ntica brasileira &#45; nacional, regional, cooperativa, inclusiva e de impacto global. E ainda, quando poss&iacute;vel, disseminando e aproveitando as boas pr&aacute;ticas da ci&ecirc;ncia aberta.</font></p>      ]]></body>
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