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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O desapego na promoção de propostas inovadoras para as crises ambientais atuais]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250013</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>O desapego na promo&ccedil;&atilde;o de propostas inovadoras para as crises ambientais atuais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Marina Hirota<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professora do Departamento de F&iacute;sica e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A complexidade resultante dos processos e das intera&ccedil;&otilde;es entre os seres que habitam o planeta Terra &eacute; imensa, e compreender o funcionamento deste sistema em diferentes escalas espaciais e temporais &eacute; fundamental para propor solu&ccedil;&otilde;es cada vez mais inovadoras diante das crises ambientais que estamos vivenciando. Embora tenhamos, no Brasil, grupos cient&iacute;ficos excepcionais trazendo informa&ccedil;&atilde;o relevante a partir de diferentes &aacute;reas de conhecimento associadas &agrave;s mudan&ccedil;as ambientais globais, acredito que o caminho ainda seja longo para, de fato, trabalharmos <b>efetivamente</b> de forma inter, multi e transdisciplinar, com uma abordagem mais hol&iacute;stica e integral. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O realce em <b>efetivamente</b> d&aacute;-se pelo vi&eacute;s do que tenho vivido durante toda a minha carreira acad&ecirc;mica, a partir da gradua&ccedil;&atilde;o em Matem&aacute;tica Aplicada. Ser&aacute; um relato que se resume em grande parte em como o apego ou o desapego podem alterar completamente o rumo dos caminhos que tomamos, inclusive em estudos e resultados cient&iacute;ficos. Come&ccedil;o dizendo que era comum eu escutar de familiares e amigos que a Matem&aacute;tica n&atilde;o me traria um futuro financeiramente promissor e que eu seria somente uma professora no final das contas. Eu achava tudo aquilo muito estranho porque tinha uma admira&ccedil;&atilde;o t&atilde;o significava pelas minhas professoras e pelos meus professores, que pensava que, se eu realmente me tornasse professora, eu j&aacute; estaria lucrando bastante. Mas algo me dizia que a Matem&aacute;tica era mais que o emprego ou um r&oacute;tulo social que eu teria, era uma oportunidade de aprender a ser vers&aacute;til, observando o mundo &agrave;s vezes com uma lente de aumento microsc&oacute;pica, &agrave;s vezes com uma dist&acirc;ncia espacial, e muitas outras possibilidades entre estes extremos. Ent&atilde;o, escolhi <i>desapegar do destino final</i> (o emprego, no caso) e seguir o caminho das possibilidades infinitas que, na minha cabe&ccedil;a, eu teria a partir da Matem&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Quando decidi ingressar no mestrado, sem bolsa, os avisos de que esta escolha n&atilde;o caracterizava um emprego "de verdade" intensificaram-se, inclusive considerando que eu nem sal&aacute;rio tinha, ou seja, eu estava fadada &agrave; falta de benef&iacute;cios sociais muito importantes. E olha que eu j&aacute; estava no meio dos engenheiros de computa&ccedil;&atilde;o e eletricistas! Pensei que a comunidade acad&ecirc;mica da qual eu participaria poderia abra&ccedil;ar um pouco mais a causa da versatilidade, da falta de r&oacute;tulos, das infinitas possibilidades que mencionei acima. Tive a fortuna de encontrar colegas, professores e professoras que alimentaram essas perspectivas, mas o sistema como um todo no ambiente acad&ecirc;mico ainda me parecia bastante focado no destino final: artigos, relat&oacute;rios e patentes. Mesmo assim, continuei, ainda de forma bastante inconsciente, no <i>desapego do destino final</i> (ainda o emprego), aproveitando as oportunidades que apareceram de aprender com as pessoas que iam aparecendo pelo caminho e com o conhecimento que cada uma delas trazia, independentemente de ser acad&ecirc;mica.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"O apego que temos aos nossos trabalhos cient&iacute;ficos podem se estender tamb&eacute;m para como compartilhamos m&eacute;todos, resultados e principalmente dados."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao longo dos cinco anos e meio que passei desenvolvendo o doutorado, tive a felicidade de encontrar e me encantar pela Ecologia. Foi a partir da necessidade de compreender os processos e mecanismos ecol&oacute;gicos para interpretar os resultados dos modelos que comecei a ir a campo e aprender com colegas que mediam coisas incr&iacute;veis nas plantas e me ajudavam a enxergar isso na vida real. Nossa, foi uma explos&atilde;o maior ainda de possibilidades! Foi a partir deste encontro com a Ecologia que comecei a pensar em ideias e em pessoas com quem pudesse colaborar para investigar em como abarcar a complexidade de subsistemas do sistema terrestre na avalia&ccedil;&atilde;o das mudan&ccedil;as ambientais que correntemente experienciamos. Comecei a conscientemente compreender que n&atilde;o bastava apenas interagir com colegas de outras &aacute;reas de atua&ccedil;&atilde;o, era preciso aprender a como se comunicar com eles efetivamente. Percebi ent&atilde;o que para ser efetiva era necess&aacute;rio <i>me desapegar</i> de jarg&otilde;es, conceitos fixos e outras amarras para de fato conseguir <i>ouvir, processar, aprender e conversar</i>. Coincidentemente, um colega querido chamado Silvio Barreto, que tem forma&ccedil;&atilde;o em antropologia, recentemente compartilhou uma metodologia na qual ele tem pensado e trabalhado associada ao banco <i>tukano</i>, que bem resumidamente baseia-se em <i>sentar e escutar</i> para os conhecimentos sejam passados oralmente dos mais antigos para os mais jovens. Parece f&aacute;cil, mas percebo o quanto ainda n&atilde;o conseguimos nos desapegar das nossas disciplinas aprendidas para escutar e agregar o que colegas de outras &aacute;reas t&ecirc;m para trocar. Desta forma, podemos interagir, trabalhar juntos, publicar artigos, mas n&atilde;o necessariamente, estaremos fazendo isso de forma plural e transdisciplinar, trazendo potencialmente propostas surpreendentes para a literatura cient&iacute;fica, e mais ainda para uma mesa de discuss&atilde;o que inclui pessoas de fora da comunidade cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Dentro desta &oacute;tica, embora admire e participe de discuss&otilde;es excepcionais com grupos de pesquisa, particularmente aqui no Brasil, ainda n&atilde;o consigo visualizar (talvez por ignor&acirc;ncia e desconhecimento) que h&aacute; incentivos consistentes para pessoas que t&ecirc;m motiva&ccedil;&atilde;o de realizar uma forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica efetivamente h&iacute;brida. Um exemplo disso s&atilde;o os programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o fortemente disciplinares que previnem que tais pessoas permane&ccedil;am no Brasil e fortale&ccedil;am ainda mais as bases cient&iacute;ficas que j&aacute; temos no pa&iacute;s. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em algum momento depois do doutorado, percebi ainda que o apego que temos aos nossos trabalhos cient&iacute;ficos podem se estender tamb&eacute;m para como compartilhamos m&eacute;todos, resultados e principalmente dados. Era impressionante o tamanho do desafio de reproduzir an&aacute;lises que eu lia em artigos a partir dos m&eacute;todos descritos e em utilizar dados n&atilde;o disponibilizados e de dif&iacute;cil acesso. Ficava me perguntando e perguntava para colegas os motivos de ser t&atilde;o desafiador adquirir dados e reproduzir resultados. As respostas foram diversas e foram mudando conforme eu adentrava as entranhas do sistema acad&ecirc;mico. Embora eu compreenda muitos pontos que defendem que os dados sejam usados apenas por alguns/algumas cientistas, me pego continuamente pensando no quanto freamos a ci&ecirc;ncia e potenciais propostas de solu&ccedil;&otilde;es urgentes e cada vez mais necess&aacute;rias no contexto atual. Um exemplo disso foi a velocidade com que as vacinas durante a pandemia de COVID-19 foram desenvolvidas e aplicadas na popula&ccedil;&atilde;o. Um dos motivos associa-se com a colabora&ccedil;&atilde;o global entre institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa, empresas farmac&ecirc;uticas, governos e organiza&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de, a partir do compartilhamento de informa&ccedil;&otilde;es e recursos. Outras raz&otilde;es podem ser listadas, mas sem esta colabora&ccedil;&atilde;o global, as vacinas poderiam ter demorado ainda mais para chegarem para todos, mesmo que j&aacute; tenham demorado mais r&aacute;pido para uns do que para outros. Neste sentido, qu&atilde;o mais velozes ser&iacute;amos em informar cientificamente sobre degrada&ccedil;&atilde;o ambiental e perda de biodiversidade em diferentes ecossistemas brasileiros, de uma forma que estas informa&ccedil;&otilde;es sirvam de apoio para interessados na sociedade civil e nos governos? (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a13fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Um movimento denominado Ci&ecirc;ncia Aberta visa &agrave; promo&ccedil;&atilde;o de transpar&ecirc;ncia, colabora&ccedil;&atilde;o e acesso livre a todo tipo de conhecimento produzido em uma pesquisa (inclusive metodologia, descri&ccedil;&atilde;o de equipamentos) para fornecer maior coopera&ccedil;&atilde;o. Entre outras amarras que temos que lidar, novamente o <i>desapego</i> aparece como uma das for&ccedil;as motrizes que individualmente cientistas podem se apoiar para que este movimento ganhe for&ccedil;a e cres&ccedil;a. Al&eacute;m das vacinas, outros exemplos de que a ci&ecirc;ncia aberta pode alavancar descobertas e inova&ccedil;&otilde;es s&atilde;o a abertura de dados do sat&eacute;lite <i>Landsat</i>, dados astron&ocirc;micos dispon&iacute;veis no <i>Sloan Digital Sky Survey</i> (SDSS), a descoberta do B&oacute;son de <i>Higgs</i> a partir de colabora&ccedil;&otilde;es na Organiza&ccedil;&atilde;o Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN, sigla em franc&ecirc;s), entre outros.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para as ci&ecirc;ncias ambientais, no Brasil, um ponto associado &eacute; que temos uma quantidade imensa de dados coletados em uma diversidade de pesquisas, mas que n&atilde;o est&atilde;o mais dispon&iacute;veis, por exemplo, por falta de infraestrutura, ou at&eacute; por falta dos pesquisadores terem maior conhecimento dos mecanismos e vantagens da ci&ecirc;ncia aberta. Neste &uacute;ltimo caso, a cataloga&ccedil;&atilde;o dos metadados (que descrevem os dados) em reposit&oacute;rios p&uacute;blicos permite a terceiros descobrir que os dados existem, onde podem ser obtidos e quem pode intermediar o acesso. Estes cat&aacute;logos devem ser criados, mantidos e divulgados para podermos saber o que existe, acelerando a colabora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o necess&aacute;ria para o avan&ccedil;o da pesquisa nessa &aacute;rea. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a13fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Mesmo com todos os entraves que possam existir, a transdisciplinaridade e a acessibilidade da ci&ecirc;ncia de forma efetiva apresentam elementos bastante relevantes para promover avan&ccedil;os significativos nas ci&ecirc;ncias ambientais, a partir de experi&ecirc;ncias bem sucedidas no Brasil e no mundo. Certamente, esta &eacute; uma opini&atilde;o constru&iacute;da a partir de vieses expl&iacute;citos e impl&iacute;citos, mas &eacute; ineg&aacute;vel que ainda podemos evoluir na elabora&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de forma&ccedil;&atilde;o e absor&ccedil;&atilde;o de cientistas com perfil h&iacute;brido. Em um planeta t&atilde;o complexo e em constante mudan&ccedil;a, este fortalecimento j&aacute; contribui e pode contribuir ainda mais para propor solu&ccedil;&otilde;es inovadoras em conson&acirc;ncia com a excel&ecirc;ncia do que j&aacute; est&aacute; em opera&ccedil;&atilde;o no Brasil.</font></p>      ]]></body>
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