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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250015</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Preserva&ccedil;&atilde;o e acesso a dados hist&oacute;ricos e in&eacute;ditos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Bianca Bosso<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Especialista em Jornalismo Cient&iacute;fico e Bacharela em Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas (Unicamp). Iniciou sua trajet&oacute;ria na Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica no ano de 2018. J&aacute; desenvolveu pautas para revistas como Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, ComCi&ecirc;ncia e Ci&ecirc;ncia Hoje, al&eacute;m de sites como Ag&ecirc;ncia Bori, Jornal da Unicamp, Portal Campinas Inovadora e <i>blog</i> Ci&ecirc;ncia na Rua.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Na manh&atilde; de 4 de agosto de 1944, pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial, um telefonema an&ocirc;nimo para uma unidade nazista de ca&ccedil;a aos judeus resultou na pris&atilde;o de oito pessoas escondidas em um edif&iacute;cio comercial na Holanda. Entre as v&iacute;timas, estava Anne Frank, uma garota de quinze anos que teve seus relatos sobre a guerra publicados pelo pai ap&oacute;s falecer em um campo de concentra&ccedil;&atilde;o. Mais de 80 anos e duas investiga&ccedil;&otilde;es oficiais depois, o mist&eacute;rio sobre a identidade do delator an&ocirc;nimo ainda persiste. No entanto, avan&ccedil;os modernos na preserva&ccedil;&atilde;o e no acesso a dados hist&oacute;ricos, como a digitaliza&ccedil;&atilde;o de documentos e o uso de intelig&ecirc;ncia artificial (IA), permitiram revisitar o caso recentemente, revelando detalhes in&eacute;ditos e oferecendo novas perspectivas para uma das quest&otilde;es mais intrigantes da hist&oacute;ria. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em meados de 2016, o cineasta belga Thijs Bayens transformou seu interesse pelo caso Anne Frank em um ambicioso projeto de investiga&ccedil;&atilde;o. Ele reuniu uma equipe com mais de vinte detetives, historiadores, pesquisadores e outros especialistas em torno da busca pelo delator, trabalho posteriormente denominado "Caso Arquivado". Ao longo de cinco anos, os profissionais analisaram milhares de documentos hist&oacute;ricos, incluindo registros policiais, listas de deporta&ccedil;&atilde;o, cartas, arquivos e outros vest&iacute;gios espalhados por v&aacute;rios continentes. O estudo detalhado de tal quantidade de materiais poderia ter sido invi&aacute;vel em d&eacute;cadas passadas, mas com o apoio de ferramentas tecnol&oacute;gicas, se tornou poss&iacute;vel. "Al&eacute;m de documentos e livros escaneados, a parte de reconhecimento por voz [...] converteu grava&ccedil;&otilde;es de v&iacute;deo e &aacute;udio em texto, os tornou pass&iacute;veis de buscas e os traduziu para o ingl&ecirc;s" relata Rosemary Sullivan no livro "<i>Quem Traiu Anne Frank? A investiga&ccedil;&atilde;o que revela o segredo jamais contado</i>", onde detalha a pesquisa. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Com as informa&ccedil;&otilde;es digitalizadas, ordenadas e dispon&iacute;veis para acesso remoto, a equipe come&ccedil;ou a notar conex&otilde;es in&eacute;ditas entre pessoas, lugares, datas e endere&ccedil;os. "Uma vez digitalizadas, voc&ecirc; pode transformar as informa&ccedil;&otilde;es em dados; ent&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel cruzar informa&ccedil;&otilde;es e, eventualmente, submeter &agrave;s tecnologias de reconhecimento de texto e de IA", destaca Thiago Nicodemo, pesquisador e diretor do Arquivo P&uacute;blico do Estado de S&atilde;o Paulo. O potencial da nova estrat&eacute;gia foi rapidamente notado. "Se, por exemplo, um endere&ccedil;o interessante surgia em algum documento que eu estava examinando, eu podia cruz&aacute;-lo muito rapidamente com o banco de dados. A an&aacute;lise do endere&ccedil;o pelo programa de IA me fornecia todos os documentos e outras fontes relevantes onde o endere&ccedil;o era mencionado", explica Pieter van Twisk, s&oacute;cio de Thijs Bayens nas investiga&ccedil;&otilde;es, para Rosemary Sullivan. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a15fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Digitaliza&ccedil;&atilde;o de documentos para preserva&ccedil;&atilde;o e acesso </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As experi&ecirc;ncias descritas por Rosemary Sullivan sobre o "Caso Arquivado" trazem &agrave; tona alguns dos aspectos da forma moderna de lidar com registros hist&oacute;ricos. Documentos que, antes, compunham pilhas de pap&eacute;is em caixas e prateleiras, podem, agora, ocupar apenas alguns <i>gigabytes</i> em um espa&ccedil;o virtual. Thiago Nicodemo ressalta que essa transforma&ccedil;&atilde;o traz vantagens significativas, especialmente na supera&ccedil;&atilde;o de barreiras temporais, espaciais e econ&ocirc;micas para o acesso &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es. "Os dados ficam acess&iacute;veis para muito mais gente e pessoas que n&atilde;o necessariamente s&atilde;o especialistas podem acessar documentos hist&oacute;ricos que s&oacute; especialistas conseguiriam ver nos acervos", afirma. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A pesquisa que fazemos hoje e que faremos no futuro tem um perfil muito diferente do que foi feito no passado"</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">O pesquisador destaca ainda que o armazenamento de dados hist&oacute;ricos em formato digital tamb&eacute;m implica em mudan&ccedil;as no perfil das pesquisas conduzidas. "Voc&ecirc; pode responder perguntas que s&atilde;o in&eacute;ditas, sob pontos de vista que n&atilde;o conseguia enxergar antes, porque, agora, consegue olhar uma perspectiva em largu&iacute;ssima escala", observa. O aspecto descrito por Thiago Nicodemo foi um ponto crucial para a trajet&oacute;ria do "Caso Arquivado", uma vez que possibilitou observar as informa&ccedil;&otilde;es sob olhares diferentes dos empregados nas investiga&ccedil;&otilde;es anteriores, conduzidas em 1947 e 1963. "A pesquisa que fazemos hoje e que faremos no futuro tem um perfil muito diferente do que foi feito no passado", prev&ecirc;. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Junto aos benef&iacute;cios, no entanto, as novas formas de armazenamento e organiza&ccedil;&atilde;o trazem consigo novos desafios. Rodrigo Esteves de Lima-Lopes, professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e pesquisador na &aacute;rea de linguagem e tecnologias, aponta uma dessas dificuldades. "Dados que n&atilde;o estejam consolidados e com seus metadados claramente organizados podem n&atilde;o ser encontrados ou mesmo utiliz&aacute;veis por aqueles que deles precisam", pontua. Thiago Nicodemo concorda e acrescenta que a infraestrutura de armazenamento tamb&eacute;m deve ser considerada. "Existe um risco alt&iacute;ssimo da perda desses registros digitais a longo prazo se n&atilde;o houver manuten&ccedil;&atilde;o dessas estruturas. Al&eacute;m disso, &agrave;s vezes, voc&ecirc; cria documentos em linguagens e formatos que n&atilde;o consegue mais abrir depois de cinco ou 10 anos", explica. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>&Eacute; preciso entender o objetivo antes de digitalizar </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Considerando os pr&oacute;s e contras do processo, Thiago Nicodemo explica que a digitaliza&ccedil;&atilde;o de dados pode ter dois objetivos principais. Em projetos de cruzamento e reuni&atilde;o de dados, como o liderado por Thijs Bayens, onde as informa&ccedil;&otilde;es est&atilde;o dispersas por diversos pa&iacute;ses, em l&iacute;nguas e formatos variados, a digitaliza&ccedil;&atilde;o facilita a disponibiliza&ccedil;&atilde;o das informa&ccedil;&otilde;es. "Por exemplo, voc&ecirc; vai em v&aacute;rios arquivos do mundo e digitaliza tudo que tem a ver com escravid&atilde;o. Da&iacute;, o usu&aacute;rio vai ter acesso a uma experi&ecirc;ncia muito diferente do que se ele estivesse pesquisando na estrutura do arquivo normal, porque pode se tornar especialista em um n&iacute;vel mais amplo, n&atilde;o apenas na regi&atilde;o com acesso, por exemplo", comenta, destacando que o uso consciente das novas tecnologias pode beneficiar uma grande diversidade de temas. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em outros casos, o armazenamento virtual pode ser uma alternativa para preservar acervos muito antigos ou em degrada&ccedil;&atilde;o, evitando que as informa&ccedil;&otilde;es se percam com o tempo. "Nessas situa&ccedil;&otilde;es, a digitaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma forma fundamental de fazer com que aqueles dados se eternizem", explica o pesquisador. "Mas, &agrave;s vezes, vale mais a pena investir para cuidar dos pap&eacute;is que est&atilde;o ruindo do que investir uma grande quantia de dinheiro em um projeto de digitaliza&ccedil;&atilde;o e se perder pelo caminho", complementa. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Apenas uma fra&ccedil;&atilde;o do que existiu &eacute; armazenada </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No fim das investiga&ccedil;&otilde;es do "Caso Arquivado", a equipe detinha mais de 66 <i>gigabytes</i> de informa&ccedil;&otilde;es na forma de 7.500 documentos. O volume de informa&ccedil;&otilde;es, equivalente a 33 filmes modernos de duas horas em qualidade padr&atilde;o, &eacute;, no entanto, apenas uma parte de todos os relat&oacute;rios, di&aacute;rios, recibos, imagens e outros relatos gerados antes, durante e ap&oacute;s a pris&atilde;o do grupo de Anne Frank ap&oacute;s a liga&ccedil;&atilde;o an&ocirc;nima. Ainda assim, permitiu extrair e correlacionar informa&ccedil;&otilde;es riqu&iacute;ssimas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Vincent Pankoke, ex-agente do Departamento Federal de Investiga&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos (FBI) e l&iacute;der da equipe "Caso Arquivado", encontrou cerca de 956 formul&aacute;rios que identificavam a entrega de recompensas para policiais do Servi&ccedil;o de Seguran&ccedil;a Alem&atilde;o (SD) que encontraram e apreenderam judeus. Os registros, contudo, eram datados do in&iacute;cio de 1942 a meados de 1943 e deixavam de fora poss&iacute;veis pagamentos realizados al&eacute;m desse per&iacute;odo. A perda desses dados pode ter acontecido por diversas raz&otilde;es. Em seu livro, Rosemary Sullivan explica que um bombardeio brit&acirc;nico em 1944 destruiu um pr&eacute;dio que guardava recibos administrativos. Al&eacute;m disso, quando a derrota ficou iminente para os nazistas, a tentativa de eliminar as provas sobre o Holocausto resultou na queima de milhares de documentos, exterminando para sempre detalhes que completariam esse quebra-cabe&ccedil;a. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A incompletude de registros (digitais ou n&atilde;o) n&atilde;o &eacute; algo exclusivo da Segunda Guerra Mundial. Quaisquer arquivos que tenham sido preservados at&eacute; os dias atuais representam apenas uma pequena porcentagem do que j&aacute; existiu e simbolizam a exist&ecirc;ncia de um mecanismo que determina, de forma intencional ou n&atilde;o, a hist&oacute;ria que ser&aacute; contada no futuro. "Por exemplo, logo depois que terminou a escravid&atilde;o, ainda na d&eacute;cada de 1890, Rui Barbosa ordenou a incinera&ccedil;&atilde;o de todos os documentos que tivessem a ver com a escravid&atilde;o. &Eacute; quase a regra", observa Thiago Nicodemo. "Se um documento sobrevive at&eacute; hoje, algu&eacute;m lutou para guardar aquilo. Em qualquer m&iacute;dia, tanto no papel quanto no digital", complementa. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Se um documento sobrevive at&eacute; hoje, algu&eacute;m lutou para guardar aquilo."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim como em um projeto de coleta manual de informa&ccedil;&otilde;es, processos digitais tamb&eacute;m podem resultar em um enviesamento de dados e an&aacute;lises devem levar esse fator em conta. Rodrigo Lima-Lopes menciona, como exemplo, o caso das m&iacute;dias sociais, que recebem, armazenam e circulam milh&otilde;es de informa&ccedil;&otilde;es a cada instante. "Fatos contempor&acirc;neos nos mostram que as empresas privadas que gerenciam as m&iacute;dias sociais tomam posturas que podem excluir a voz de determinados grupos sociais e pol&iacute;ticos, criando uma representa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o espelha, efetivamente, a sociedade". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Como escolher o que ser&aacute; preservado? </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora muito se fale, em Ci&ecirc;ncia Aberta, na necessidade de armazenar de forma aberta produtos da pesquisa, para compartilhamento, n&atilde;o basta pensar em armazenar. &Eacute; preciso tamb&eacute;m considerar a preserva&ccedil;&atilde;o (e, inclusive, o decaimento digital e obsolesc&ecirc;ncia dos dispositivos de armazenamento).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A preserva&ccedil;&atilde;o de registros pode ser influenciada por decis&otilde;es pol&iacute;ticas, como a escolha por destruir certos itens, e por fatores acidentais, como falhas no processo de apagamento ou de backup. Apesar das tentativas, muitos documentos entre 1939 e 1945 persistiram, incluindo as milhares de p&aacute;ginas investigadas pelo "Caso Arquivado". Eventos como o bombardeio brit&acirc;nico de 1944 e cat&aacute;strofes naturais tamb&eacute;m impactam o que &eacute; mantido. "A &uacute;ltima bola da vez foi o inc&ecirc;ndio em Los Angeles, mas tamb&eacute;m tivemos a pandemia, as enchentes no Rio Grande do Sul...", exemplifica Thiago Nicodemo. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A disponibilidade de recursos para a preserva&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; um fator decisivo. "Normalmente, [arquivos digitais] s&atilde;o guardados em servidores de institui&ccedil;&otilde;es e essas institui&ccedil;&otilde;es vivem instabilidades pol&iacute;ticas no Brasil, no plano da cultura, por exemplo. H&aacute; muita inconsist&ecirc;ncia nos investimentos", diz Thiago Nicodemo. Uma alternativa atual tem sido enviar os dados para sistemas de nuvem, servi&ccedil;os online que permitem armazenar arquivos na internet, sem a necessidade de dispositivos f&iacute;sicos. No entanto, o pesquisador defende que essa pode n&atilde;o ser a melhor alternativa a longo prazo. "Se voc&ecirc; fez um contrato de nuvem ou uma base de dados em um aplicativo e deixa de pagar depois de um tempo, voc&ecirc; n&atilde;o consegue mais acessar o que produziu", explica. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os pr&oacute;prios projetos de manuten&ccedil;&atilde;o de acervos e digitaliza&ccedil;&atilde;o desempenham papel ativo na decis&atilde;o do que ser&aacute; mantido. O diretor do Arquivo P&uacute;blico do Estado de S&atilde;o Paulo (APESP) relata que, devido aos custos de manuten&ccedil;&atilde;o, acervos costumam digitalizar documentos com altas taxas de acesso em detrimento daqueles que s&atilde;o pouco procurados. Gilberto Lacerda dos Santos, que coordena o Museu Virtual de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia da Universidade de Bras&iacute;lia, acrescenta que tais institui&ccedil;&otilde;es ainda precisam considerar duas dimens&otilde;es &eacute;ticas: "uma &eacute; ligada &agrave; natureza, &agrave; qualidade e &agrave; veracidade do conte&uacute;do e a outra, aos direitos autorais", diz. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n1/a15fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Projetos particulares, como o "Caso Arquivado", tamb&eacute;m podem atuar na digitaliza&ccedil;&atilde;o de documentos sobre um &uacute;nico tema ou uma &aacute;rea de estudos de interesse em larga escala, mas isso pode trazer riscos para os acervos f&iacute;sicos respons&aacute;veis pelas vers&otilde;es originais dos registros. "O mais atraente &eacute; quando alguma institui&ccedil;&atilde;o internacional oferece a digitaliza&ccedil;&atilde;o desses documentos para fazer grandes projetos transversais. Isso at&eacute; pode ser uma solu&ccedil;&atilde;o, mas, enquanto voc&ecirc; colabora para aumentar a relev&acirc;ncia dos dados, as institui&ccedil;&otilde;es de origem que est&atilde;o guardando os documentos se tornam menos relevantes", explica Thiago Nicodemo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>No Brasil: preserva&ccedil;&atilde;o e acesso a dados sobre a ditadura </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim como os documentos digitalizados pela equipe de Thijs Bayens contribuem para recontar a hist&oacute;ria da Europa, os esfor&ccedil;os para preservar e ampliar o acesso a registros da ditadura militar brasileira, per&iacute;odo marcado por centenas de mortos e desaparecidos, s&atilde;o indispens&aacute;veis para compreender a hist&oacute;ria do pa&iacute;s e evitar que momentos como esse se repitam. "&Eacute; apenas com a preserva&ccedil;&atilde;o de dados sobre esse tema, sobre como a popula&ccedil;&atilde;o considerou e apoiou a democracia ao final da ditadura militar e no in&iacute;cio da democratiza&ccedil;&atilde;o, [...] que ser&aacute; poss&iacute;vel avaliar o sucesso da nossa constru&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica", argumenta Rachel Meneguello, cientista pol&iacute;tica e pr&oacute;-reitora de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A pesquisadora enfatiza que os avan&ccedil;os recentes na preserva&ccedil;&atilde;o e no acesso a registros t&ecirc;m facilitado investiga&ccedil;&otilde;es em sua &aacute;rea e gerado resultados inovadores. "H&aacute; muitos acervos volumosos de dados documentais, dados oficiais agregados, dados de natureza individual, que at&eacute; anos atr&aacute;s requeriam um esfor&ccedil;o grande em processos de coleta e organiza&ccedil;&atilde;o para viabilizar an&aacute;lises criativas", relembra. "N&atilde;o h&aacute; compara&ccedil;&atilde;o [de como os processos aconteciam nas d&eacute;cadas passadas] com o avan&ccedil;o que temos hoje. A integra&ccedil;&atilde;o de tecnologias digitais potencializa a coleta, interpreta&ccedil;&atilde;o, busca, leitura e an&aacute;lise de dados", acrescenta. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Rachel Meneguello, o estudo de documentos hist&oacute;ricos deve dialogar com informa&ccedil;&otilde;es in&eacute;ditas, tanto em pesquisas quanto na formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. "A partir do conhecimento de dados hist&oacute;ricos sobre uma popula&ccedil;&atilde;o, uma oferta de servi&ccedil;os p&uacute;blicos ou car&ecirc;ncias espec&iacute;ficas, se pode tra&ccedil;ar tend&ecirc;ncias e padr&otilde;es e revelar necessidades ou lacunas que embasam pol&iacute;ticas de governo", explica. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>O futuro da preserva&ccedil;&atilde;o e do acesso a dados hist&oacute;ricos </b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Estudos sobre a ditadura brasileira, o "Caso Arquivado" e outros projetos que lidam com a digitaliza&ccedil;&atilde;o de dados anteriores &agrave; populariza&ccedil;&atilde;o das tecnologias digitais enfrentam um cen&aacute;rio diferente do atual. "Quando observamos disputas de mem&oacute;ria como essas, h&aacute; um tempo entre o fato acontecer, a informa&ccedil;&atilde;o circular e aquele evento ser interpretado como hist&oacute;ria", diz Thiago Nicodemo. "&Eacute; uma grande disputa pol&iacute;tica de quem vai predominar, quem vai conseguir sobreviver ao tempo, contar a sua hist&oacute;ria", complementa. "Hoje, esse tempo ficou encurtado a um instante. Essa disputa sobre qual narrativa vai predominar j&aacute; vem quase embutida na evid&ecirc;ncia que circula. Se Anne Frank vivesse hoje, n&atilde;o ia dar tempo de escrever um di&aacute;rio; ia ser um post", afirma. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O pesquisador prev&ecirc; que as tecnologias modernas de informa&ccedil;&atilde;o facilitar&atilde;o tentativas futuras de estudar e falar sobre o passado, mas tamb&eacute;m trar&atilde;o novos questionamentos. "As novas m&iacute;dias, as redes sociais e a facilidade que a gente tem com os dispositivos que produzem evid&ecirc;ncias, como gravadores e celulares, permitem produzir cada vez mais evid&ecirc;ncias. Da&iacute;, nasce uma pergunta: como cuidar da informa&ccedil;&atilde;o que j&aacute; nasce digital?", indaga, questionando como a velocidade acelerada de registros, o acesso ampliado &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es e os dados produzidos no mundo virtual impactar&atilde;o as narrativas de mem&oacute;ria. "A gente vai ter mais ou menos mem&oacute;ria?", pergunta. </font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Uma informa&ccedil;&atilde;o tem que ser guardada porque cont&eacute;m um direito, &eacute; testemunha de algu&eacute;m que sofreu uma viol&ecirc;ncia ou deve alguma coisa."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora as respostas ainda sejam incertas, ele alerta para a necessidade de intensificar o investimento em infraestrutura para lidar com as novas demandas de armazenamento e acesso. "Normalmente, uma informa&ccedil;&atilde;o tem que ser guardada porque cont&eacute;m um direito, &eacute; testemunha de algu&eacute;m que sofreu uma viol&ecirc;ncia ou deve alguma coisa, mas estamos em um mundo que produz informa&ccedil;&otilde;es relevantes muito r&aacute;pido e tem baix&iacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es para guard&aacute;-las", argumenta. Gilberto Lacerda dos Santos destaca que os reposit&oacute;rios institucionais s&atilde;o alternativas indispens&aacute;veis: "s&atilde;o excelentes suportes para dados, a longo prazo". Rodrigo Lima-Lopes concorda e ressalta que a padroniza&ccedil;&atilde;o do acesso tamb&eacute;m &eacute; importante. "Reposit&oacute;rios organizados por institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa, como o Reposit&oacute;rio de Dados da UNICAMP (REDU) e os dados de pesquisa pol&iacute;tica do Brazilian Political Corpus (BRPoliCorpus), sob minha coordena&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o exemplos interessantes", lista. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ainda que as conclus&otilde;es do "Caso Arquivado" pressuponham lacunas decorrentes da destrui&ccedil;&atilde;o e perda de documentos, o uso de estrat&eacute;gias atuais de preserva&ccedil;&atilde;o e acesso a dados hist&oacute;ricos, como a digitaliza&ccedil;&atilde;o, oferece novos horizontes para a investiga&ccedil;&atilde;o. Ao recorrer ao resgate de informa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, pesquisas retrospectivas, como essa, podem n&atilde;o apenas revisitar, mas tamb&eacute;m reanalisar e reinterpretar narrativas hist&oacute;ricas sob olhares in&eacute;ditos e reconstruir partes importantes da hist&oacute;ria com uma precis&atilde;o cada vez maior. </font></p>      ]]></body>
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