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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Universo Quântico]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250019</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>O Universo Qu&acirc;ntico</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Rogerio Rosenfeld<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor livre docente do Instituto de F&iacute;sica Te&oacute;rica da Universidade Estadual Paulista J&uacute;lio de Mesquita Filho (Unesp). Atualmente &eacute; vice-diretor do ICTP South American Institute for Fundamental Research e vice-coordenador do INCT do e-Universo. &Eacute; membro das colabora&ccedil;&otilde;es Dark Energy Survey (DES) e do Vera Rubin Observatory's Legacy Survey of Space and Time (LSST), onde coordena o Grupo de Participa&ccedil;&atilde;oBrasileira.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A teoria do <i>Big Bang</i>, apesar de ser bem-sucedida na explica&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias medidas observacionais, apresenta dificuldades te&oacute;ricas conhecidas, como os problemas da planura e do horizonte. Na d&eacute;cada de 1980, um novo paradigma, denominado infla&ccedil;&atilde;o, foi proposto para resolver esses problemas. Nesse paradigma, o Universo em seu in&iacute;cio passou por uma fase de r&aacute;pida expans&atilde;o, provocada pela exist&ecirc;ncia de um novo campo denominado <i>inflaton</i>. N&atilde;o levou muito tempo para mostrar que flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas inerentes ao campo do inflaton podem ser a origem das pequenas inomogeneidades observadas na radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo. Essas pequenas inomogeneidades cresceram com o tempo e s&atilde;o as sementes das estruturas que observamos hoje no Universo:gal&aacute;xias, estrelas, planetas e n&oacute;s todos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras-chave: </b>Universo; Flutua&ccedil;&otilde;es Qu&acirc;nticas; Infla&ccedil;&atilde;o; Big Bang; Mec&acirc;nica Qu&acirc;ntica</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A teoria do <i>Big Bang</i>, desenvolvida a partir dos anos de 1950, obteve grande sucesso. Ela conseguiu explicar tr&ecirc;s importantes descobertas: a expans&atilde;o do Universo, a produ&ccedil;&atilde;o   nos seus primeiros minutos de n&uacute;cleos at&ocirc;micos de elementos leves, principalmente h&eacute;lio e deut&eacute;rio, e a exist&ecirc;ncia da radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo, detectada pela primeira vez em 1967.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No entanto, apesar deste triunfo na descri&ccedil;&atilde;o dos dados observacionais, alguns f&iacute;sicos te&oacute;ricos estavam insatisfeitos com aspectos destes dados que n&atilde;o eram bem justificados pela teoria. Em particular, dois problemas foram identificados com a teoria do <i>Big Bang</i> na d&eacute;cada de 1970, denominados de problema da planura e o problema do horizonte.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O problema da planura, como o nome indica, est&aacute; relacionado ao fato de que medidas na &eacute;poca apontavam para um Universo pr&oacute;ximo de ser plano. A geometria do espa&ccedil;o no Universo n&atilde;o precisa ser necessariamente plana: o Universo pode ter uma curvatura positiva (sendo uma esfera finita, como preferido por Albert Einstein em 1917) ou negativa (sendo infinito com a forma semelhante a uma sela de cavalo). Einstein e o astr&ocirc;nomo holand&ecirc;s Willem de Sitter, em um trabalho conjunto de 1932, propuseram o modelo mais simples de um Universo compat&iacute;vel com observa&ccedil;&otilde;es   da &eacute;poca: plano e com curvatura nula. O problema da planura decorre do fato que a evolu&ccedil;&atilde;o do Universo tende a amplificar rapidamente qualquer curvatura. A &uacute;nica maneira de explicar as observa&ccedil;&otilde;es de um Universo atual com uma curvatura pequena, mas finita, era postular que no passado essa curvatura deveria ser incrivelmente pr&oacute;xima a ser plana. Na teoria do <i>Big Bang</i>, n&atilde;o havia uma explica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel de porque isso aconteceria.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O problema do horizonte  est&aacute; relacionado &agrave; uniformidade da radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo. Podemos ilustrar esse problema com a seguinte analogia. Imaginem 1000   pessoas fazendo caf&eacute; com leite. Caso essas pessoas n&atilde;o tenham conversado entre si e combinado de usar as mesmas propor&ccedil;&otilde;es de caf&eacute; e leite na mistura, ao final cada x&iacute;cara de caf&eacute; com leite ser&aacute; um pouco diferente uma da outra. Somente se as 1000 pessoas tiverem tempo de conversar e combinarem entre si de usar as mesmas propor&ccedil;&otilde;es, as x&iacute;caras seriam parecidas.A radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo que observamos hoje foi produzida quando o Universo era muito jovem, cerca de apenas 380.000 anos depois do <i>Big Bang</i>. Simplesmente n&atilde;o houve tempo para que regi&otilde;es afastadas entrassem em contato atrav&eacute;s de processos f&iacute;sicos de maneira a compartilharem (ou, na analogia, combinarem) da mesma temperatura. Como a velocidade da luz &eacute; a maior velocidade com a qual processos f&iacute;sicos podem se comunicar, existe uma dist&acirc;ncia m&aacute;xima, conhecida como horizonte, dentro da qual pode haver um contato. O horizonte correspondente &agrave; &eacute;poca em que a radia&ccedil;&atilde;o de fundo foi gerada corresponde hoje a um tamanho muito pequeno no c&eacute;u, de cerca de 1 grau (correspondendo a cerca de duas   luas cheias). Regi&otilde;es no c&eacute;u separadas por mais de 1 grau hoje n&atilde;o tiveram &ldquo;tempo de conversar&rdquo; quando o Universo tinha 380.000 anos. Portanto, n&atilde;o h&aacute; uma justificativa na teoria do Big Bang para essas regi&otilde;es terem a mesma temperatura, com min&uacute;sculas varia&ccedil;&otilde;es, como observado pelo sat&eacute;lite COBE no in&iacute;cio dos anos de 1990 e diversos experimentos posteriores. Este &eacute; o problema do horizonte.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Pode-se dizer  que o processo  inflacion&aacute;rio foi o pr&oacute;prio evento inicial do <i>Big Bang</i>.&rdquo;</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Esses problemas preocupavam a comunidade de cosm&oacute;logos quando, em 1981, o f&iacute;sico estadunidense Alan Guth prop&ocirc;s uma engenhosa solu&ccedil;&atilde;o.<sup>[1]</sup> Ele introduziu uma modifica&ccedil;&atilde;o na teoria do <i>Big Bang</i> original que provoca uma fase de r&aacute;pida e enorme expans&atilde;o do espa&ccedil;o, ocorrendo apenas nos primeiros instantes do Universo. Guth chamou sua   ideia de Universo inflacion&aacute;rio.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A <a href="#fig01">Figura 1</a> ilustra o efeito da expans&atilde;o na curvatura. Uma expans&atilde;o r&aacute;pida do Universo resulta em curvaturas menores e um observador ver&aacute; um Universo cada vez mais plano   quanto maior for a expans&atilde;o. Imagine um bal&atilde;o inflando: uma formiga na superf&iacute;cie do bal&atilde;o medir&aacute; seu entorno como plano quanto maior for oraio do bal&atilde;o. Essa &eacute; tamb&eacute;m a raz&atilde;o pela qual a Terra parece ser plana para n&oacute;s: seu raio de curvatura, de cerca de 6000 km, &eacute; muito maior que as escalas a que estamos acostumados a enxergar.</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n2/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A expans&atilde;o inicial no modelo  de Universo inflacion&aacute;rio &eacute; t&atilde;o intensa que ela prev&ecirc; que a curvatura do Universo deve ser muito pr&oacute;xima de nula. Isso n&atilde;o era bem o resultado observado na d&eacute;cada de 1980, mas medidas precisas atuais indicam que, dentro das incertezas experimentais, de fato o Universo &eacute; plano. Um sucesso para o modelo inflacion&aacute;rio!</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O problema do horizonte tamb&eacute;m &eacute; resolvido pela exist&ecirc;ncia  da fase inflacion&aacute;ria do Universo. Essencialmente, o que ocorre &eacute; que uma pequena regi&atilde;o dentro de um horizonte e, portanto, com temperatura uniforme, &eacute; expandida atrav&eacute;s do processo inflacion&aacute;rio de modo a englobar todo o Universo observ&aacute;vel. A <a href="#fig02">Figura 2</a> ilustra esse processo. Desse modo, o modelo inflacion&aacute;rio explica de um modo natural a homogeneidade e isotropia observada na radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo. No entanto, essa explica&ccedil;&atilde;o requer um fator de expans&atilde;o colossal, maior que 10<sup>26</sup>. Para se ter uma ideia do que isso significa, nesse processo inflacion&aacute;rio, 1 cm seria transformado em 10<sup>26</sup> cm, cerca de 1 milh&atilde;o de anos-luz, em   uma fra&ccedil;&atilde;o muito pequena de tempo. Algo dif&iacute;cil de imaginar.</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n2/a03fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Mas o que poderia causar  a infla&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica? N&atilde;o sabemos ao certo, mas existem muitos modelos diferentes propostos por f&iacute;sicos te&oacute;ricos depois do trabalho pioneiro de Guth. Esses modelos est&atilde;o sendo testados por observa&ccedil;&otilde;es cada vez mais precisas e alguns j&aacute; tiveram que ser descartados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os modelos inflacion&aacute;rios mais simples, come&ccedil;ando por aquele introduzido por Guth, s&atilde;o baseados na exist&ecirc;ncia dos chamados campos escalares. Campos escalares descrevem part&iacute;culas elementares chamadas de b&oacute;sons. A famosa part&iacute;cula de Higgs, descoberta no laborat&oacute;rio CERN em 2012, &eacute; um b&oacute;son. No caso da infla&ccedil;&atilde;o, postula-se a exist&ecirc;ncia de um b&oacute;son hipot&eacute;tico, que na literatura cient&iacute;fica &eacute; chamado de <i>inflaton</i>. Durante o processo inflacion&aacute;rio, toda a energia do Universo &eacute; armazenada   no campo do <i>inflaton</i>, causando a expans&atilde;o r&aacute;pida no in&iacute;cio do Universo.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a infla&ccedil;&atilde;o explica porque n&oacute;s existimos. Afinal, se o Universo fosse exatamente homog&ecirc;neo n&atilde;o haveria como gerar   as gal&aacute;xias, estrelas e planetas que observamos.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O efeito do campo do <i>inflaton</i> &eacute; muito parecido ao efeito provocado pela constante cosmol&oacute;gica, que hoje parece ser respons&aacute;vel por outra &eacute;poca de expans&atilde;o acelerada   do Universo. Por&eacute;m, h&aacute; importantes diferen&ccedil;as. A maior delas &eacute; que a fase inflacion&aacute;ria do Universo deve terminar rapidamente. A expans&atilde;o inflacion&aacute;ria resulta em uma r&aacute;pida dilui&ccedil;&atilde;o de toda a mat&eacute;ria e radia&ccedil;&atilde;o. O Universo inflacion&aacute;rio torna-se rapidamente vazio de mat&eacute;ria e frio (sem radia&ccedil;&atilde;o). Toda sua energia est&aacute; armazenada no campo do <i>inflaton</i>. Nos modelos inflacion&aacute;rios aceit&aacute;veis, a fase inflacion&aacute;ria ocorreu entre 10<sup>-35</sup> e 10<sup>-32</sup> segundos e termina ap&oacute;s o Universo multiplicar seu tamanho inicial ao menos pelo fator de 10<sup>26</sup> mencionado anteriormente, com a energia no campo do <i>inflaton</i> sendo transferida para criar novamente mat&eacute;ria e radia&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s o t&eacute;rmino da infla&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse processo de transfer&ecirc;ncia &eacute; conhecido como reaquecimento do Universo. Ap&oacute;s o reaquecimento, sua evolu&ccedil;&atilde;o volta a ser descrita pela bem-sucedida teoria do <i>Big   Bang</i>. De fato, pode-se dizer que o processo inflacion&aacute;rio foi o pr&oacute;prio evento inicial do <i>Big Bang</i>. O modelo inflacion&aacute;rio n&atilde;o descarta a teoria do <i>Big Bang</i>, mas a complementa,   justificando as condi&ccedil;&otilde;es de planura e homogeneidade observadas. A <a href="#fig03">Figura 3</a> ilustra o efeito da infla&ccedil;&atilde;o no comportamento do tamanho do Universo observ&aacute;vel em fun&ccedil;&atilde;o de sua idade.A proposta do modelo inflacion&aacute;rio provocou uma pequena revolu&ccedil;&atilde;o na cosmologia. Imediatamente ap&oacute;s o trabalho de Guth, v&aacute;rios grupos passaram a trabalhar com essa nova ideia ou paradigma, estudando diferentes modelos e suas consequ&ecirc;ncias. Esses estudos levaram a um b&ocirc;nus inesperado &#151; a descoberta de que modelos inflacion&aacute;rios poderiam tamb&eacute;m explicar a origem das pequenas flutua&ccedil;&otilde;es observadas na radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo. Elas s&atilde;o as sementes das grandes estruturas que observamos hoje no Universo. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a infla&ccedil;&atilde;o explica por que existimos. Afinal, se o Universo fosse exatamente homog&ecirc;neo, n&atilde;o haveria como gerar as gal&aacute;xias, estrelas e planetas que observamos! Ele simplesmente permaneceria homog&ecirc;neo para sempre.</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n2/a03fig03.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Por mais incr&iacute;vel que possa parecer, provavelmente somos frutos de flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas microsc&oacute;picas que ocorreram pr&oacute;ximo ao in&iacute;cio do Universo.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como, em geral, ocorre quando uma nova boa ideia aparece na F&iacute;sica, a comunidade logo passa a escrutin&aacute;-la at&eacute; suas &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias. No caso da infla&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o foi diferente. O trabalho de Guth motivou estudos mais detalhados sobre as implica&ccedil;&otilde;es de modelos inflacion&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O pr&oacute;prio Guth j&aacute; havia apontado problemas em seu modelo. Um deles era o de encontrar um mecanismo satisfat&oacute;rio para terminar a fase inflacion&aacute;ria. Outro problema era   o de entender e estimar quantitativamente as flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas produzidas durante a infla&ccedil;&atilde;o. Ambos foram solucionados em pouco tempo. Antes de continuar, vamos explicar   melhor o que s&atilde;o flutua&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Imagine um oceano calmo visto de cima a uma altura de 100 metros. V&ecirc;-se um oceano uniforme, igual em qualquer lugar. Apenas quando o observador desce a uma altura da ordem de 1 metro, ele come&ccedil;a a perceber que existem pequenas ondas no oceano, ou seja, em alguns lugares a &aacute;gua &eacute; mais alta e em outros mais baixa, como ilustrado na fotografia da <a href="#fig04">Figura 4</a>.</font></p>     <p><a name="fig04"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n2/a03fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Guth havia estudado o campo do <i>inflaton</i> assumindo-o uniforme no espa&ccedil;o. Era imperativo estudar suas flutua&ccedil;&otilde;es. Mas qual &eacute; a causa das flutua&ccedil;&otilde;es? No caso do oceano, as pequenas ondas s&atilde;o formadas pela a&ccedil;&atilde;o do vento. No caso do campo do <i>inflaton</i>, as flutua&ccedil;&otilde;es s&atilde;o geradas por efeitos da F&iacute;sica Qu&acirc;ntica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Na F&iacute;sica Qu&acirc;ntica, que descreve fen&ocirc;menos em escalas microsc&oacute;picas, existe uma incerteza inerente. Diferentemente da F&iacute;sica Cl&aacute;ssica, a qual estamos mais acostumados, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel prever com certeza o movimento de corpos. Tampouco &eacute; poss&iacute;vel prever a posi&ccedil;&atilde;o de um corpo com exatid&atilde;o. Essa &eacute; a ess&ecirc;ncia do chamado Princ&iacute;pio da Incerteza, formulado pelo f&iacute;sico alem&atilde;o Werner Heisenberg em 1927, no in&iacute;cio do desenvolvimento da F&iacute;sica Qu&acirc;ntica. Esta descreve com precis&atilde;o a probabilidade de se encontrar o corpo em uma certa posi&ccedil;&atilde;o, mas sem a certeza de l&aacute; encontr&aacute;-lo. Esta incerteza qu&acirc;ntica &eacute; a causa das flutua&ccedil;&otilde;es no campo do <i>inflaton</i>. Portanto, elas s&atilde;o chamadas de flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">V&aacute;rios pesquisadores come&ccedil;aram a estudar o efeito das flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas em modelos inflacion&aacute;rios. Entre eles, o famoso f&iacute;sico brit&acirc;nico Stephen Hawking, um especialista nesses efeitos. Hawking j&aacute; havia demonstrado que as flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas levam &agrave; incr&iacute;vel conclus&atilde;o que buracos negros n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o negros assim, podendo emitir uma radia&ccedil;&atilde;o que ficou conhecida como radia&ccedil;&atilde;o Hawking, ainda n&atilde;o detectada.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os pesquisadores envolvidos com esse problema na &eacute;poca usavam diferentes m&eacute;todos para estudar as flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas no campo do <i>inflaton</i> durante o processo inflacion&aacute;rio no in&iacute;cio do Universo e chegavam a conclus&otilde;es d&iacute;spares. Foi ent&atilde;o que Hawking organizou uma reuni&atilde;o na Universidade de Cambridge, onde trabalhava, para que esses pesquisadores pudessem discutir o assunto. Ap&oacute;s tr&ecirc;s semanas de intenso trabalho em junho e julho de 1982, chegou-se a um consenso de como calcular esse efeito. O resultado foi extraordin&aacute;rio.<sup>[2]</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mostrou-se que o modelo original de Guth produzia flutua&ccedil;&otilde;es muito grandes &#151; verdadeiros tsunamis &#151; e que, portanto, contrariava as observa&ccedil;&otilde;es. O modelo foi ent&atilde;o descartado, mas novos modelos foram propostos que n&atilde;o apresentavam os problemas do modelo de Guth. Esses modelos foram chamados de &ldquo;nova infla&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Na nova infla&ccedil;&atilde;o, as flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas s&atilde;o da intensidade apropriada para produzir as sementes que, bilh&otilde;es de anos depois na hist&oacute;ria do Universo, cresceram e deram origem &agrave;s gal&aacute;xias, estrelas e planetas &#151; e eventualmentea todos n&oacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Atualmente, h&aacute; centenas de modelos diferentes para descrever o processo inflacion&aacute;rio no in&iacute;cio do Universo. Estes modelos est&atilde;o sendo testados com medidas cosmol&oacute;gicas de grande precis&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outra consequ&ecirc;ncia fascinante das flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas dos modelos inflacion&aacute;rios &eacute; a produ&ccedil;&atilde;o de ondas gravitacionais, que nada mais s&atilde;o que flutua&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o, durante a fase inflacion&aacute;ria. Estas s&atilde;o denominadas de ondas gravitacionais primordiais, para distingui-las de ondas gravitacionais produzidas bilh&otilde;es de anos depois, como as decorrentes de colis&otilde;es de buracos negros detectadas pela primeira vez em 2015. A detec&ccedil;&atilde;o de ondas gravitacionais primordiais seria uma prova irrefut&aacute;vel do paradigma inflacion&aacute;rio. Infelizmente, sua intensidade hoje &eacute; muito pequena, e os instrumentos atuais, como o LIGO, n&atilde;o conseguir&atilde;o identific&aacute;-las. Temos que esperar algumas d&eacute;cadas para que novos instrumentos mais sens&iacute;veis entrem em opera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No entanto, as ondas gravitacionais primordiais causam uma distor&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica na radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo (conhecida como &ldquo;modo B&rdquo;). Uma grande polvorosa tomou conta da comunidade quando, em 2014, um experimento alegou ter detectado essas distor&ccedil;&otilde;es. Infelizmente, mostrou-se em seguida que as distor&ccedil;&otilde;es medidas eram produzidas por outro mecanismo totalmente diferente, causado simplesmente pela presen&ccedil;a de poeira. Mas a busca por essas distor&ccedil;&otilde;es continua com experimentos mais sens&iacute;veis que  ajudam a testar os diferentes modelos inflacion&aacute;rios, muitos dos quais j&aacute; descartados pelas observa&ccedil;&otilde;es, pois produziriam distor&ccedil;&otilde;es muito grandes.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outro tema atual de pesquisa consiste em explorar a natureza estat&iacute;stica das flutua&ccedil;&otilde;es produzidas durante a infla&ccedil;&atilde;o. Apesar das incertezas inerentes &agrave; F&iacute;sica Qu&acirc;ntica, esta prev&ecirc; com precis&atilde;o a probabilidade de ocorr&ecirc;ncia das flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas. O modelo mais simples de probabilidade, conhecido como probabilidade   Gaussiana, &eacute; completamente descrito com apenas dois par&acirc;metros, denominados m&eacute;dia e vari&acirc;ncia. Nos modelos inflacion&aacute;rios mais simples, as flutua&ccedil;&otilde;es obedecem a uma   probabilidade Gaussiana com grande precis&atilde;o e isso &eacute; confirmado atualmente pelas medidas cosmol&oacute;gicas. No entanto, os testes continuam sendo realizados e qualquer desvio que seja detectado seria ind&iacute;cio da necessidade de modelos inflacion&aacute;rios mais complexos. Finalmente, n&atilde;o posso deixar de mencionar que os modelos inflacion&aacute;rios motivaram a ideia do chamado multiverso.   Diferentes regi&otilde;es desconexas no in&iacute;cio do Universo podem ter passado por fases inflacion&aacute;rios, levando &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de muitos universos distintos e sem contato causal. Mesmo as leis da F&iacute;sica poderiam ser diferentes nesses diferentes universos. Nosso universo observ&aacute;vel pode ser apenas um entre infinitos universos poss&iacute;veis. Em resumo, o paradigma   inflacion&aacute;rio, embora n&atilde;o comprovado diretamente, soluciona os problemas da planura e do horizonte que aparecem na teoria do <i>Big Bang</i> e, al&eacute;m disso, prov&ecirc; as sementes microsc&oacute;picas que posteriormente dar&atilde;o origem &agrave;s grandes estruturas no Universo. Hoje, este paradigma, proposto nos anos de 1980, faz parte de qualquer livro-texto de cosmologia moderna. A poss&iacute;vel   descoberta de distor&ccedil;&otilde;es na radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo, causadas por ondas gravitacionais primordiais previstas por modelos inflacion&aacute;rios seria uma comprova&ccedil;&atilde;o deste paradigma digna de um pr&ecirc;mio Nobel. Isso pode acontecer nos pr&oacute;ximos anos, quando novos instrumentos para estudar a radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica de fundo entrar&atilde;o em opera&ccedil;&atilde;o. Por mais incr&iacute;vel que possa parecer, provavelmente somos frutos de flutua&ccedil;&otilde;es qu&acirc;nticas microsc&oacute;picas que ocorreram pr&oacute;ximo ao in&iacute;cio do Universo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A infla&ccedil;&atilde;o completa a  teoria do <i>Big Bang</i> e &eacute; um dos pilares do chamado Modelo Cosmol&oacute;gico Padr&atilde;o, hoje aceito pela comunidade como o mais adequado para descrever   o nosso Universo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">[1] O trabalho original que prop&ocirc;s o modelo inflacion&aacute;rio &eacute;: Alan H. Guth, Inflationary universe: A possible solution to the horizonand flatness problems. Phys. Rev. D 23, 347 (1981). Veja   tamb&eacute;m:Alan H. Guth, Inflation and the New Era of High-Precision Cosmology. MIT Physics Annual 2002. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://physics.mit.edu/wpcontent/uploads/2021/01/physicsatmit_02_cosmology.pdf" target="_blank">https://physics.mit.edu/wpcontent/uploads/2021/01/physicsatmit_02_cosmology.pdf</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">[2] Veja, por exemplo: Stephen Hawking, The origin of the Universe, aula proferida em 2005 e dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.hawking.org.uk/inwords/lectures/the-origin-of-theuniverse" target="_blank">https://www.hawking.org.uk/inwords/lectures/the-origin-of-theuniverse</a></font> ]]></body><back>
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