<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252025000200011</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20250027</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As incertas incertezas de Heisenberg: um diálogo]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lévy-Leblond]]></surname>
<given-names><![CDATA[Jean-Marc]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Nice  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2025</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2025</year>
</pub-date>
<volume>77</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>67</fpage>
<lpage>71</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252025000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252025000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252025000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250027</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>As incertas incertezas de Heisenberg: um di&aacute;logo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Jean-Marc L&eacute;vy-Leblond<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>F&iacute;sico e   ensa&iacute;sta, professor em&eacute;rito da Universidade   de Nice e diretor da revista <i>Alliage</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><i>O chamado princ&iacute;pio da incerteza de Heisenberg &eacute; um dos aspectos da f&iacute;sica qu&acirc;ntica que mais desfrutou de popularidade cultural ao longo de quase um s&eacute;culo. Neste  texto, comentamos seu significado e suas limita&ccedil;&otilde;es por meio de um di&aacute;logo entre um f&iacute;sico e um artista, partindo de uma amostra das interpreta&ccedil;&otilde;es  abusivas que esse tema tem suscitado &#150; tanto na filosofia, da epistemologia &agrave; metaf&iacute;sica, quanto na pol&iacute;tica, na economia, na est&eacute;tica e em outros campos. Em seguida, examinamos as raz&otilde;es da confus&atilde;o que ainda hoje cerca esse princ&iacute;pio e discutimos as incertezas terminol&oacute;gicas que o acompanham. Por fim, defendemos que essas &ldquo;desigualdades de Heisenberg&rdquo;, como foram mais sobriamente renomeadas, n&atilde;o apenas n&atilde;o devem ser interpretadas como uma limita&ccedil;&atilde;o ao conhecimento cient&iacute;fico, mas, quando corretamente compreendidas, abrem caminhos espec&iacute;ficos para a compreens&atilde;o da f&iacute;sica qu&acirc;ntica.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>A., um artista, conversa aqui com seu amigo F., um f&iacute;sico.</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151; </b>Voc&ecirc; sabe o quanto sou curioso sobre a teoria qu&acirc;ntica &#150; e o quanto nossas in&uacute;meras conversas ainda n&atilde;o me satisfizeram. Hoje, encontrei uma cita&ccedil;&atilde;o numa antiga revista de arte que me fez querer voltar ao tema. Ela sugere que uma das ideias mais famosas da sua &aacute;rea n&atilde;o se aplica apenas ao mundo microsc&oacute;pico da f&iacute;sica, mas teria tamb&eacute;m implica&ccedil;&otilde;es no campo da est&eacute;tica. Aqui est&aacute;: &ldquo;<i>Quando o autor americano Michael   Crichton estuda o pintor Jasper Johns, ele faz refer&ecirc;ncia ao 'Princ&iacute;pio da Incerteza' de Werner Heisenberg. Em 1927, Heisenberg descobriu que era imposs&iacute;vel medir, ao mesmo   tempo, a velocidade e a posi&ccedil;&atilde;o de uma part&iacute;cula at&ocirc;mica (...). Em n&iacute;vel filos&oacute;fico, a constata&ccedil;&atilde;o de que certos aspectos do mundo f&iacute;sico n&atilde;o podiam ser conhecidos &#150; que se tratava de um dilema insol&uacute;vel &#150; foi um choque. A ambiguidade das obras de Jasper Johns pertence a essa corrente de pensamento</i>.&rdquo;<a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>[1]</sup></a> Eu n&atilde;o entendo   a rela&ccedil;&atilde;o entre as ambiguidades da obra de Johns e as incertezas de Heisenberg, mas confesso que achei a sugest&atilde;o estimulante. Talvez voc&ecirc; possa me explicar?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151;</b> Certamente n&atilde;o posso, porque me parece um completo disparate. Na verdade, eu poderia lhe apresentar um caminh&atilde;o cheio de cita&ccedil;&otilde;es assim, que h&aacute; um s&eacute;culo tentam aplicar o que se chama erroneamente de Princ&iacute;pio da Incerteza a todos os campos: da sociologia &agrave; metaf&iacute;sica, da economia &agrave; pol&iacute;tica. Veja este  exemplo: &ldquo;<i>Um &aacute;tomo &eacute; 'livre' dentro dos limites do princ&iacute;pio da incerteza de Heisenberg (...). Assim, quando uma mensagem de percep&ccedil;&atilde;o extrassensorial,  na forma de mindons, ps&iacute;trons ou o que voc&ecirc; quiser chamar, toca um neur&ocirc;nio em equil&iacute;brio inst&aacute;vel, ela atua no n&iacute;vel da incerteza qu&acirc;ntica e pode, por assim dizer, operar milagres</i>.&rdquo;<a name="tx02"></a><a href="#nt02"><sup>[2]</sup></a> Se eu tivesse que escolher, preferiria a provoca&ccedil;&atilde;o de Dal&iacute;: &ldquo;<i>E eu, que sou o paroxista furioso da precis&atilde;o imperialista, n&atilde;o encontro nada no mundo t&atilde;o doce, agrad&aacute;vel, repousante e at&eacute; gracioso quanto a ironia transcendental impl&iacute;cita no princ&iacute;pio da incerteza de Heisenberg</i>.&rdquo;<a name="tx03"></a><a href="#nt03"><sup>[3]</sup></a> Mas, em todos esses casos, trata-se apenas de um abuso da linguagem, explorando descaradamente a autoridade atribu&iacute;da &agrave;s ci&ecirc;ncias naturais.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Em todos esses casos, trata&#8209;se apenas de um abuso da linguagem, explorando descaradamente a autoridade atribu&iacute;da &agrave;s ci&ecirc;ncias naturais.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151; </b>Mas o fato &eacute; que foram os pr&oacute;prios f&iacute;sicos que introduziram esse termo, que, convenhamos, tem uma ambiguidade geral e se presta facilmente a esses abusos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151;</b> Reconhe&ccedil;o sem reservas a culpa da minha profiss&atilde;o, que muitas vezes carece de cuidado e precis&atilde;o em suas formula&ccedil;&otilde;es, contentando-se com suas equa&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas e negligenciando as formula&ccedil;&otilde;es lingu&iacute;sticas &#150; que, entretanto, t&ecirc;m significado, bom ou ruim. Alguns f&iacute;sicos, no entanto, advertiram contra essa neglig&ecirc;ncia desde os prim&oacute;rdios da teoria qu&acirc;ntica: &ldquo;<i>O efeito imediato [do princ&iacute;pio da incerteza] ser&aacute; abrir as comportas para um verdadeiro dil&uacute;vio de licen&ccedil;as e devassid&otilde;es intelectuais (...). [Ele se tornar&aacute;] a base de uma orgia de racionaliza&ccedil;&otilde;es. [Nele encontrar&atilde;o] a subst&acirc;ncia da alma, o princ&iacute;pio dos processos vitais, o agente da comunica&ccedil;&atilde;o telep&aacute;tica. Alguns ver&atilde;o no fracasso da lei f&iacute;sica de causa e efeito a solu&ccedil;&atilde;o para o velho problema do livre-arb&iacute;trio, enquanto, inversamente, os ateus ver&atilde;o nele a justificativa de sua concep&ccedil;&atilde;o de um mundo governado pelo acaso</i>.&rdquo;<a name="tx04"></a><a href="#nt04"><sup>[4]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151;</b> Mas essa terminologia n&atilde;o &eacute; natural para os f&iacute;sicos? Afinal, lidar com as inevit&aacute;veis incertezas de qualquer medi&ccedil;&atilde;o faz parte do of&iacute;cio e &eacute; uma das caracter&iacute;sticas da f&iacute;sica experimental.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151; </b>Natural, talvez, mas n&atilde;o inocente. Pois, voc&ecirc; h&aacute; de convir que falar de incerteza sobre a posi&ccedil;&atilde;o de um el&eacute;tron implica necessariamente uma limita&ccedil;&atilde;o do nosso conhecimento, sugerindo que n&atilde;o podemos saber exatamente onde ele est&aacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151;</b> E n&atilde;o &eacute; esse o caso?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151;</b> Em geral, sim, mas por raz&otilde;es muito mais profundas do que uma simples ignor&acirc;ncia subjetiva ou uma limita&ccedil;&atilde;o do nosso conhecimento, como sugere a formula&ccedil;&atilde;o usual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151; </b>O que voc&ecirc; quer dizer com isso?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151; </b>Quero dizer que, se n&atilde;o sabemos onde o el&eacute;tron est&aacute;, &eacute; por uma excelente raz&atilde;o: ele simplesmente n&atilde;o est&aacute; &ldquo;em algum lugar&rdquo;!</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151;</b> Voc&ecirc; me surpreende. N&atilde;o quer dizer que ele est&aacute; em lugar nenhum! Ele est&aacute; no espa&ccedil;o e, portanto, tem uma localiza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>F. &#151;</b> N&atilde;o exatamente uma localiza&ccedil;&atilde;o precisa. Ele tem espacialidade, sim, mas n&atilde;o uma localiza&ccedil;&atilde;o pontual. Al&eacute;m disso, essa extens&atilde;o espacial &eacute; contingente, varia de acordo com as circunst&acirc;ncias que definem o estado do el&eacute;tron.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Ent&atilde;o dever&iacute;amos caracteriz&aacute;-lo por sua extens&atilde;o espacial?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Sim, desde que n&atilde;o concebamos essa extens&atilde;o como fixa e imut&aacute;vel: n&atilde;o se trata de uma dimens&atilde;o geom&eacute;trica, mas do tamanho do dom&iacute;nio  do espa&ccedil;o onde a presen&ccedil;a f&iacute;sica do el&eacute;tron se manifesta &#150; e que depende da situa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica em an&aacute;lise. Digamos que o el&eacute;tron &eacute; &ldquo;extens&iacute;vel&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Por que ent&atilde;o n&atilde;o chamar esse dom&iacute;nio de &ldquo;extens&atilde;o&rdquo; de localiza&ccedil;&atilde;o?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Uma excelente sugest&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> E como vamos chamar o Princ&iacute;pio da Incerteza?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Antes de mais nada, vale dizer que n&atilde;o se trata de um princ&iacute;pio fundamental, mas de uma consequ&ecirc;ncia do formalismo da teoria qu&acirc;ntica. E, acima de tudo, n&atilde;o h&aacute; necessidade de introduzir palavras problem&aacute;ticas como &ldquo;incerteza&rdquo;, &ldquo;indetermina&ccedil;&atilde;o&rdquo; ou mesmo  &ldquo;extens&atilde;o&rdquo; para entender  do que se trata. Alguns f&iacute;sicos, inclusive dos mais importantes, tentaram esclarecer a quest&atilde;o, sem muito sucesso: &ldquo;<i>Essa forma de express&atilde;o ['rela&ccedil;&otilde;es de  incerteza'] corresponde &agrave; vis&atilde;o de que posi&ccedil;&atilde;o e momento t&ecirc;m, 'na realidade', valores definidos, mas n&atilde;o podem ser observados simultaneamente; &eacute; sob essa &oacute;tica que as rela&ccedil;&otilde;es de Heisenberg foram interpretadas como rela&ccedil;&otilde;es de incerteza. Mas isso s&oacute; serviu para ocultar a inconsist&ecirc;ncia  l&oacute;gica resultante do uso de conceitos da mec&acirc;nica cl&aacute;ssica fora do seu campo de aplica&ccedil;&atilde;o</i>.&rdquo;<a name="tx05"></a><a href="#nt05"><sup>[5]</sup></a> Seria certamente mais simples e preciso falar em desigualdades de Heisenberg.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> E como voc&ecirc; formularia a mais conhecida dessas desigualdades, evitando interpreta&ccedil;&otilde;es err&ocirc;neas e abusivas?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Eu diria algo como: &ldquo;o produto da extens&atilde;o espacial de um quanton pela largura de seu espectro de velocidades tem um limite inferior&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Isso ainda soa um tanto esot&eacute;rico, e bem menos atraente que as formula&ccedil;&otilde;es tradicionais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Ent&atilde;o, com um pouco menos de precis&atilde;o: &ldquo;quanto mais estreita for a localiza&ccedil;&atilde;o de um quanton, mais amplo ser&aacute; seu espectro de velocidades&rdquo;.  Talvez a formula&ccedil;&atilde;o mais concisa ainda seja a bela express&atilde;o de Bachelard: &ldquo;conter &eacute; agitar&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Mas voc&ecirc; poderia explicar isso melhor?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151; </b>Vamos tentar. Um fen&ocirc;meno qu&acirc;ntico, em geral, n&atilde;o &eacute; caracterizado por um valor num&eacute;rico bem definido para sua posi&ccedil;&atilde;o, mas por um espectro  (uma pluralidade) desses valores. A largura desse espectro est&aacute; correlacionada com a amplitude caracter&iacute;stica das velocidades do fen&ocirc;meno. Essa correla&ccedil;&atilde;o envolve a  constante de Planck, o que indica claramente sua natureza qu&acirc;ntica. Em outras palavras: quanto mais restrita for a localiza&ccedil;&atilde;o de um quanton, mais amplo ser&aacute; seu espectro de  velocidades. Assim, em vez de incertezas, &eacute; mais apropriado falar em extens&otilde;es espectrais ou larguras dos valores f&iacute;sicos no contexto da teoria qu&acirc;ntica.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Se n&atilde;o sabemos onde o el&eacute;tron est&aacute;, &eacute; por uma excelente raz&atilde;o: ele simplesmente n&atilde;o est&aacute; 'em algum lugar'!&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151;</b> E qual a origem e a hist&oacute;ria dessa terminologia convencional?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Eu mesmo fiquei curioso e fui pesquisar suas fontes hist&oacute;ricas, que se mostraram mais complexas do que um simples erro epistemol&oacute;gico.<a name="tx06"></a><a href="#nt06"><sup>[6]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Conte-me.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151; </b>No primeiro artigo em que Heisenberg introduziu, em 1927, o &ldquo;princ&iacute;pio&rdquo; que depois levaria seu nome &#150; um artigo evidentemente escrito em alem&atilde;o...</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Por que &ldquo;evidentemente&rdquo;?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Sim, voc&ecirc; tem raz&atilde;o; hoje em dia n&atilde;o parece t&atilde;o evidente que, naquela &eacute;poca &#150; nem t&atilde;o distante &#150; era perfeitamente poss&iacute;vel publicar seu trabalho em sua pr&oacute;pria l&iacute;ngua.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151; </b>Perdoe a interrup&ccedil;&atilde;o, continue.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151; </b>Nesse artigo inaugural, Heisenberg usa 30 vezes a palavra <i>Ungenauigkeit</i>, que pode ser traduzida como &ldquo;imprecis&atilde;o&rdquo; ou &ldquo;inexatid&atilde;o&rdquo;, termo usado em alem&atilde;o para designar aquilo que chamamos tradicionalmente de &ldquo;incertezas&rdquo; (experimentais).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Mas n&atilde;o &eacute; exatamente isso que eu estava dizendo?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Espere, o interessante vem agora. No mesmo artigo, aparecem duas ocorr&ecirc;ncias de um novo termo nesse contexto: <i>Unbestimmtheit</i>.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Longe de representar um limite ao nosso conhecimento [...], as desigualdades de Heisenberg nos oferecem uma compreens&atilde;o mais adequada dos objetos qu&acirc;nticos &#150; nem que seja  apenas por nos impedir de utilizar formula&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas inv&aacute;lidas.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>A. &#151;</b> Isso me lembra meus estudos de filosofia; &eacute; um termo que tem origem na tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica hegeliana. Em ingl&ecirc;s, corresponderia a &ldquo;<i>indeterminacy</i>&rdquo; (em sentido mais abstrato, traduzido &agrave;s vezes como &ldquo;indetermina&ccedil;&atilde;o&rdquo;).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> &ldquo;Indeterminacy&rdquo; foi de fato usado em ingl&ecirc;s nos anos 1930, e seria muito prefer&iacute;vel a &ldquo;<i>uncertainty</i>&rdquo;! N&atilde;o &eacute; perfeito, porque a forma negativa da palavra ainda evoca facilmente uma ideia de falha ou limita&ccedil;&atilde;o da teoria, o que perde o sentido real da quest&atilde;o; mas, no fim das contas, refere-se a uma caracteriza&ccedil;&atilde;o eficaz: a posi&ccedil;&atilde;o do el&eacute;tron, em geral, n&atilde;o est&aacute; determinada &#150; ao menos no sentido usual de uma determina&ccedil;&atilde;o pontual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Mas isso n&atilde;o remete tamb&eacute;m ao &ldquo;indeterminismo&rdquo; qu&acirc;ntico?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Sim, infelizmente! Mas a&iacute; j&aacute; &eacute; outra das confus&otilde;es que comprometem bastante a sa&uacute;de epistemol&oacute;gica da teoria qu&acirc;ntica. Podemos falar disso  depois, mas n&atilde;o &eacute; exatamente a mesma quest&atilde;o. De todo modo, a partir de 1929, prevaleceu o termo <i>Unbestimmtheit</i>, apesar de uma breve apari&ccedil;&atilde;o, nos trabalhos de Heisenberg  e tamb&eacute;m de Weyl, da palavra <i>Unsicherheit</i>, que significa &ldquo;incerteza&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> E voc&ecirc; conseguiu entender como, pelo menos em franc&ecirc;s, acabou prevalecendo o termo <i>incertitude</i>?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Ao que tudo indica, a culpa &eacute; de uma ado&ccedil;&atilde;o pregui&ccedil;osa, em franc&ecirc;s, de uma tradu&ccedil;&atilde;o relaxada feita primeiro para o ingl&ecirc;s! Porque,  em ingl&ecirc;s, <i>uncertainty</i> rapidamente se tornou a norma, suplantando <i>indeterminacy</i>, e infelizmente imp&ocirc;s seu equivalente em muitas outras l&iacute;nguas. Curiosamente, o termo  mais comum hoje em alem&atilde;o para descrever essa localiza&ccedil;&atilde;o indeterminada dos quantons &eacute; o adjetivo <i>unscharf</i>, que significa algo como &ldquo;sem nitidez&rdquo; ou, talvez melhor, &ldquo;difuso&rdquo;. Vale notar, contudo, que o italiano permaneceu fiel a <i>indeterminazione</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Permita-me ser um pouco provocador. Porque, no fundo, por tr&aacute;s de toda essa disputa vocabular, o fato continua sendo que voc&ecirc;s n&atilde;o sabem onde est&aacute; esse maldito el&eacute;tron. Quer seja por nossas pr&oacute;prias limita&ccedil;&otilde;es, como alguns ainda acreditam, quer &#150; segundo o ponto de vista moderno, se estou entendendo bem &#150; por culpa do  pr&oacute;prio el&eacute;tron, que n&atilde;o consegue se satisfazer com uma posi&ccedil;&atilde;o bem definida, o resultado me parece uma derrota do esp&iacute;rito cient&iacute;fico, uma ren&uacute;ncia ao conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> N&atilde;o concordo de forma alguma! Na verdade, vejo justamente o contr&aacute;rio. Me diga: quanto pesaram seus sonhos na noite passada?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Que pergunta mais absurda!</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> Concordo plenamente. Mas veja: s&oacute; porque uma pergunta sem sentido n&atilde;o pode receber uma resposta intelig&iacute;vel, n&atilde;o quer dizer que nosso conhecimento seja limitado!  Conhece o ditado: &ldquo;pergunta tola, resposta tola&rdquo;. &Eacute; exatamente isso que acontece quando se for&ccedil;a um el&eacute;tron a admitir onde est&aacute; <i>exatamente</i>. Na melhor das hip&oacute;teses, sob press&atilde;o, ele acaba respondendo: aqui, ou ali, ou acol&aacute;. A &uacute;nica diferen&ccedil;a entre essa situa&ccedil;&atilde;o e minha pergunta provocativa sobre seus sonhos &eacute; que, no caso dos objetos materiais em nossa escala macrosc&oacute;pica, a reifica&ccedil;&atilde;o mental de suas propriedades chegou a tal ponto que temos enorme dificuldade em conceber a inadequa&ccedil;&atilde;o de ideias desenvolvidas em um certo dom&iacute;nio pr&aacute;tico quando tentamos aplic&aacute;-las a uma realidade que pertence a um campo radicalmente novo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>A. &#151;</b> Voc&ecirc; me convenceria mais facilmente se, em vez de criticar as descri&ccedil;&otilde;es negativas dos objetos qu&acirc;nticos, me mostrasse os efeitos positivos de suas novas caracteriza&ccedil;&otilde;es. Mas imagino que voc&ecirc; vai se refugiar na tecnicalidade dos formalismos matem&aacute;ticos da teoria qu&acirc;ntica?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>F. &#151;</b> A tarefa &eacute; dif&iacute;cil, mas talvez n&atilde;o imposs&iacute;vel. De todo modo, &eacute; um fato que as chamadas &ldquo;incertezas&rdquo;, quando reinterpretadas corretamente, &atilde;o, na verdade, fontes de novas certezas sobre o mundo qu&acirc;ntico. Longe de representar um limite ao nosso conhecimento, como tantas interpreta&ccedil;&otilde;es infundadas ainda sugerem, as desigualdades de Heisenberg nos oferecem uma compreens&atilde;o mais adequada dos objetos qu&acirc;nticos &#150; nem que seja apenas por nos impedir de utilizar formula&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas  inv&aacute;lidas. Sem entrar nos detalhes do formalismo, podemos compreender, em um n&iacute;vel essencialmente heur&iacute;stico, a fecundidade dos pr&oacute;prios conceitos qu&acirc;nticos.<a name="tx07"></a><a href="#nt07"><sup>[7]</sup></a> Mas vamos deixar essa introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; teoria qu&acirc;ntica para o nosso pr&oacute;ximo encontro, se n&atilde;o se importar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">[1]</a> Philippe Jodidio, Jaspers John, la tradition repens&eacute;e, Connaissance des Arts n&deg; 314, 1978, F. 66.    <br> <a name="nt02"></a><a href="#tx02">[2]</a> Arthur Koestler, Impact of Science on Society n&deg; 24 (The Parasciences), Unesco, 1974, F. 281    <br> <a name="nt03"></a><a href="#tx03">[3]</a> Salvador Dali, Diary of a Genius, Doubleday, 1965 (and more recent editions);    <br> <a name="nt04"></a><a href="#tx04">[4]</a> Percy William Bridgman, The New Vision of Science, Harper's Magazine, n&deg; 158, 1929, F. 443.    <br> <a name="nt05"></a><a href="#tx05">[5]</a> Vladimir Fock, La physique quantique et les id&eacute;alisations classiques, Dialectica 19 (3&#150;4), 1965, 223&#150;245.    <br> <a name="nt06"></a><a href="#tx06">[6]</a> Jean-Marc L&eacute;vy-Leblond &amp; Fran&ccedil;oise Balibar, When did the indeterminacy principle become the uncertainty principle?, American Journal of Physics 66, 279 (1998).    <br> <a name="nt07"></a><a href="#tx07">[7]</a> Jean-Marc L&eacute;vy-Leblond &amp; Fran&ccedil;oise Balibar, Quantics. Rudiments, North-Holland, 1990.</font></p>      ]]></body>
</article>
