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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Misticismo quântico e posições relacionadas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250029</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Misticismo qu&acirc;ntico e posi&ccedil;&otilde;es relacionadas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Osvaldo Pessoa Jr.<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor do Departamento de Filosofia (FFLCH) da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A F&iacute;sica Qu&acirc;ntica se consolidou em 1926 como a teoria que descreve &aacute;tomos, mol&eacute;culas, suas intera&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas e suas intera&ccedil;&otilde;es com diferentes   formas de radia&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m conhecida como Mec&acirc;nica Qu&acirc;ntica ou Teoria Qu&acirc;ntica, este novo paradigma passou a ter um imenso sucesso, gerando extens&otilde;es e aplica&ccedil;&otilde;es nos mais diversos campos da F&iacute;sica.<sup>[1]</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No presente texto, considerarei tr&ecirc;s enfoques dados &agrave; Teoria Qu&acirc;ntica. O primeiro &eacute; o <i>enfoque cient&iacute;fico instrumental</i>, que designa como os f&iacute;sicos e outros cientistas utilizam o formalismo e realizam experimentos, consolidando o aspecto objetivo da teoria. O segundo &eacute; o <i>enfoque filos&oacute;fico</i>, que explora quest&otilde;es de interpreta&ccedil;&atilde;o da teoria,   ou seja, quest&otilde;es que geralmente v&atilde;o al&eacute;m daquilo que se pode testar experimentalmente. O terceiro &eacute; o <i>enfoque m&iacute;stico-qu&acirc;ntico</i>, que usa teses filos&oacute;ficas a respeito da Mec&acirc;nica Qu&acirc;ntica e &agrave;s vezes experimentos controvertidos, para defender uma liga&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima entre a mente humana ou a alma humana e os princ&iacute;pios   da F&iacute;sica Qu&acirc;ntica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O misticismo qu&acirc;ntico &eacute; um tema pol&ecirc;mico entre cientistas porque suas afirma&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m fundamento experimental reconhecido pela comunidade   cient&iacute;fica, mesmo assim, s&atilde;o bastante divulgadas pela m&iacute;dia, sendo usadas por muitos para obter lucro em cima da ignor&acirc;ncia dos consumidores ou dos seguidores. O combate feito por cientistas que se autodenominam &ldquo;c&eacute;ticos cient&iacute;ficos&rdquo; (c&eacute;ticos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s teses m&iacute;sticas e parapsicol&oacute;gicas) &eacute; um movimento   bastante importante,<sup>[2]</sup> mas que muitas vezes adota simplifica&ccedil;&otilde;es e uma atitude agressiva que acaba dificultando a obten&ccedil;&atilde;o das metas almejadas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em texto publicado em 2010, explorei diversos aspectos do fen&ocirc;meno cultural do misticismo qu&acirc;ntico.<sup>[3]</sup> Argumentei que o misticismo qu&acirc;ntico faz parte de uma longa tradi&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, que chamei de &ldquo;naturalismo animista&rdquo;, que no passado tinha uma posi&ccedil;&atilde;o mais central na ci&ecirc;ncia, mas que hoje em dia est&aacute; relegada &agrave; periferia da ci&ecirc;ncia estabelecida (onde ocorre a divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica), sendo que hoje a maioria dos cientistas pode ser classificada como materialista ou positivista. Apresentei tamb&eacute;m uma lista de 19 teses que podem ser adotadas por vis&otilde;es m&iacute;stico-qu&acirc;nticas. Explorei a quest&atilde;o &eacute;tica de como a ci&ecirc;ncia estabelecida, de cunho   n&atilde;o-m&iacute;stico, deve dialogar com o misticismo qu&acirc;ntico, apresentando cinco atitudes poss&iacute;veis. Formulei tamb&eacute;m o dilema que todo m&iacute;stico deve resolver: ou adotar uma atitude conciliadora, ou uma atitude desafiadora com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ci&ecirc;ncia estabelecida.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Analisei tamb&eacute;m um t&iacute;pico argumento m&iacute;stico-qu&acirc;ntico, conhecido como &ldquo;lei da atra&ccedil;&atilde;o&rdquo;, que aparece no livro&ldquo;<i>O segredo</i>&rdquo;.<sup>[4]</sup> Esta tese pode ser reconstru&iacute;da da seguinte maneira:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Ao entrar em contato com outras pessoas ou ambientes, nossa mente pode entrar em um &ldquo;emaranhamento qu&acirc;ntico&rdquo; com essas outras mentes ou at&eacute; com objetos. Mesmo     ap&oacute;s a separa&ccedil;&atilde;o, o estado emaranhado permanece. Podemos ent&atilde;o efetuar uma medi&ccedil;&atilde;o qu&acirc;ntica e com isso provocar um colapso n&atilde;o-local da     onda qu&acirc;ntica emaranhada. O resultado disso &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o do estado da outra pessoa ou do ambiente. Dado que na f&iacute;sica qu&acirc;ntica o observador pode     escolher se o fen&ocirc;meno observado ser&aacute; onda ou part&iacute;cula, podemos tamb&eacute;m escolher se o colapso qu&acirc;ntico ser&aacute; associado a uma energia-chi positiva ou negativa.     Para isso, &eacute; preciso treinar as t&eacute;cnicas de pensamento positivo, divulgadas em diversos livros de autoajuda qu&acirc;ntica. Uma vez que esse segredo&eacute; aprendido, pode-se utilizar o pensamento para alterar diretamente a realidade, mesmo &agrave; dist&acirc;ncia, e assim transformar o mundo de uma maneira positiva para n&oacute;s.<sup>[5]</sup></i></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">A an&aacute;lise feita do argumento faz uma separa&ccedil;&atilde;o de cinco teses. Dessas, uma &eacute; aceit&aacute;vel e outra &eacute; uma tese interpretativa que n&atilde;o se consegue falsear: o colapso qu&acirc;ntico &eacute; causado pela tomada de consci&ecirc;ncia do observador. Apesar de esta tese ser pouco aceita entre cientistas, &eacute; preciso ter toler&acirc;ncia filos&oacute;fica em rela&ccedil;&atilde;o a ela. Uma terceira tese &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica, n&atilde;o muito bem aceita, de que o c&eacute;rebro humano (ou a consci&ecirc;ncia humana) &eacute; essencialmente qu&acirc;ntica. At&eacute; aqui, essas tr&ecirc;s teses mencionadas podem ser aceitas como parte de um argumento; o problema est&aacute; com as outras duas afirma&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse tipo de exerc&iacute;cio de an&aacute;lise &eacute; uma maneira de combater os abusos do misticismo qu&acirc;ntico, &ldquo;desafiador&rdquo; da ci&ecirc;ncia, e em sala de aula &eacute; uma boa oportunidade para ensinar elementos de F&iacute;sica Qu&acirc;ntica para os alunos. Sobre outros problemas do debate com o misticismo qu&acirc;ntico, remeto o leitor aos dois artigos mencionados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Quando o termo &ldquo;qu&acirc;ntico&rdquo; &eacute; invocado em diferentes contextos culturais, busca-se fundamentar uma pr&aacute;tica cultural, sugerindo que ela se baseia em uma ci&ecirc;ncia bem   estabelecida. Isso &eacute; geralmente rejeitado por f&iacute;sicos e f&iacute;sicas, e muitas vezes os usu&aacute;rios do termo nem entendem muito bem a F&iacute;sica Qu&acirc;ntica. O que eles querem ent&atilde;o dizer ao usar o termo &ldquo;qu&acirc;ntico&rdquo;? Parece-me que h&aacute; duas ideias associadas a este termo no imagin&aacute;rio popular, por exemplo, ao se falar numa &ldquo;empresa qu&acirc;ntica&rdquo; ou em &ldquo;tantra qu&acirc;ntico&rdquo;. 1) Holismo: o todo n&atilde;o se reduz &agrave;s partes separadas. 2) Pensamento m&aacute;gico: o pensamento positivo pode transformar diretamente a realidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;O misticismo qu&acirc;ntico &eacute; um tema pol&ecirc;mico entre cientistas porque suas afirma&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m fundamento experimental reconhecido pela comunidade   cient&iacute;fica.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Estamos usando o termo &ldquo;misticismo qu&acirc;ntico&rdquo; para designar as propostas de estender a Mec&acirc;nica Qu&acirc;ntica para al&eacute;m dos dom&iacute;nios da F&iacute;sica, fazendo conex&otilde;es com a mente humana ou com sua espiritualidade. Por&eacute;m, muitos que adotam essa proposta consideram o termo &ldquo;misticismo&rdquo; pejorativo. Haveria um termo mais apropriado?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Comecemos com a defini&ccedil;&atilde;o de &ldquo;misticismo&rdquo;. O &ldquo;<i>Dicion&aacute;rio de Filosofia</i>&rdquo; de Abbagnano<sup>[6]</sup> define misticismo como toda doutrina que postula uma comunica&ccedil;&atilde;o direta entre o homem e Deus. Por exemplo, no s&eacute;culo XII, Bernardo de Claraval defendeu o caminho &ldquo;m&iacute;stico&rdquo; contra a filosofia e, em geral, contra o uso da raz&atilde;o. O chamado &ldquo;misticismo&rdquo; passou a designar um modo de conhecimento n&atilde;o racional, que podemos chamar de intui&ccedil;&atilde;o, e que no Cristianismo culmina na &ldquo;contempla&ccedil;&atilde;o&rdquo; do divino. No s&eacute;culo XIV alem&atilde;o, Meister Eckhart e outros m&iacute;sticos voltaram a criticar o uso da raz&atilde;o no campo da religi&atilde;o. A frase de Eckhart, &ldquo;Deus e eu, somos um&rdquo;, exprimia a experi&ecirc;ncia m&iacute;stica da dissolu&ccedil;&atilde;o do eu (a dissolu&ccedil;&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o sujeito-objeto). Autores como Ninian Smart, em seu &ldquo;<i>World Philosophies</i>&rdquo;,<sup>[7]</sup> apontam semelhan&ccedil;as entre esta cosmovis&atilde;o e a do hindu&iacute;smo do Advaita Vedanta. Claramente, a defini&ccedil;&atilde;o de misticismo se aplica bem para as correntes orientais do Hindu&iacute;smo, Budismo e Tao&iacute;smo, al&eacute;m da Cabala judaica, do Sufismo isl&acirc;mico etc.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O termo &ldquo;misticismo qu&acirc;ntico&rdquo; parece ressurgido a partir das compara&ccedil;&otilde;es entre a F&iacute;sica de Part&iacute;culas e o misticismo oriental, exploradas por   Fritjof Capra no seu &ldquo;<i>O Tao da F&iacute;sica</i>&rdquo; (1975),<sup>[8]</sup> mas as compara&ccedil;&otilde;es com o misticismo oriental j&aacute; tinham sido sugeridas antes por alguns pioneiros da F&iacute;sica Qu&acirc;ntica.<sup>[9]</sup> O termo passou a ser adotado por cr&iacute;ticos do movimento, sugerindo que haja aqui uma &ldquo;mistifica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, que pode ser definida como uma interpreta&ccedil;&atilde;o obscura, tendenciosa ou falsa. Talvez seja por essa conota&ccedil;&atilde;o negativa que o termo &ldquo;misticismo&rdquo; n&atilde;o &eacute; apreciado por parte dos defensores de uma espiritualidade qu&acirc;ntica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para sermos rigorosos, ent&atilde;o, parece que o termo &ldquo;misticismo qu&acirc;ntico&rdquo; deve se referir somente &agrave;s vis&otilde;es que aceitam que haja um conhecimento intuitivo, n&atilde;o-racional e n&atilde;o-cient&iacute;fico a respeito de dimens&otilde;es espirituais ou transcendentais da realidade, e que defendem que esse conhecimento primordial tem conex&otilde;es com a F&iacute;sica Qu&acirc;ntica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uma vis&atilde;o distinta defenderia uma abordagem mais racional &agrave; quest&atilde;o das liga&ccedil;&otilde;es entre espiritualidade e F&iacute;sica Qu&acirc;ntica. De fato, h&aacute; muitos pesquisadores que procuram adotar uma postura que se poderia chamar &ldquo;cient&iacute;fica&rdquo;, especulando sobre a natureza da espiritualidade e lan&ccedil;ando hip&oacute;teses sobre as poss&iacute;veis conex&otilde;es com a F&iacute;sica Qu&acirc;ntica.<sup>[10]</sup> Naturalmente, n&atilde;o se trata de teorias bem confirmadas, mas somente de ideias na busca por uma compreens&atilde;o da consci&ecirc;ncia humana, ideias essas articuladas racionalmente, e onde as intui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o consideradas uma forma de conhecimento pr&eacute;-cient&iacute;fico seguro, mas somente como hip&oacute;teses de trabalho. Neste caso, o termo&ldquo;misticismo qu&acirc;ntico&rdquo; n&atilde;o se aplicaria corretamente. Como caracterizar ent&atilde;o semelhantes abordagens?</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;A sala de aula &eacute; uma boa oportunidade para ensinar elementos de F&iacute;sica Qu&acirc;ntica para os alunos.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O termo que parece mais interessante e amplo &eacute; &ldquo;espiritualismo&rdquo;, que tem uma acep&ccedil;&atilde;o geral que se refere &agrave; cren&ccedil;a na exist&ecirc;ncia de seres imateriais, como Deus e almas imortais. Trata-se da ant&iacute;tese do materialismo, que considera que a alma ou consci&ecirc;ncia s&atilde;o frutos da mat&eacute;ria organizada em animais, e que desaparecem   na morte do corpo. H&aacute; diversas acep&ccedil;&otilde;es mais restritas de &ldquo;espiritualismo&rdquo;, todas contidas na acep&ccedil;&atilde;o geral.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim, definimos uma classe de vis&otilde;es de mundo que chamaremos &ldquo;espiritualidade qu&acirc;ntica&rdquo;, ou &ldquo;espiritualismo qu&acirc;ntico&rdquo;, e que englobaria tanto o misticismo qu&acirc;ntico quanto um &ldquo;naturalismo espiritualista qu&acirc;ntico&rdquo;, sendo que este &eacute; mais pr&oacute;ximo da ci&ecirc;ncia e da filosofia anal&iacute;tica. Por outro lado, h&aacute; a posi&ccedil;&atilde;o que nega o espiritualismo, mas defende uma conex&atilde;o entre mente e F&iacute;sica Qu&acirc;ntica: como denominar esta posi&ccedil;&atilde;o materialista? Usarei o termo &ldquo;neuroquantologia&rdquo;, que &eacute; o t&iacute;tulo de um peri&oacute;dico internacional sediado na Turquia, para designar as vis&otilde;es que consideram que a F&iacute;sica Qu&acirc;ntica &eacute; essencial para explicar ou descrever a alma ou a consci&ecirc;ncia. Assim, a terceira posi&ccedil;&atilde;o mencionada acima seria uma &ldquo;neuroquantologia materialista&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A <a href="#fig01">Figura 1</a> representa esta classifica&ccedil;&atilde;o.<sup>[11]</sup> O c&iacute;rculo externo engloba todas as concep&ccedil;&otilde;es que se preocupam com o esp&iacute;rito, a alma, a mente ou a consci&ecirc;ncia humana. O c&iacute;rculo interno inclui as posi&ccedil;&otilde;es que chamamos neuroquantologia, e fora deste c&iacute;rculo interno, no anel entre os dois c&iacute;rculos, h&aacute; materialistas e espiritualistas que negam que a F&iacute;sica Qu&acirc;ntica desempenhe um papel essencial na consci&ecirc;ncia (negam a neuroquantologia). No c&iacute;rculo neuroquantol&oacute;gico h&aacute; as tr&ecirc;s posi&ccedil;&otilde;es descritas acima, divididas pelos eixos horizontal e vertical. O eixo vertical divide as concep&ccedil;&otilde;es materialista (&agrave; esquerda) e espiritualista (&agrave; direita). O eixo horizontal divide as vis&otilde;es m&iacute;sticas (abaixo) e a que chamaremos naturalista (acima). Assim, definimos o misticismo qu&acirc;ntico (uma forma de espiritualismo), o naturalismo espiritualista   qu&acirc;ntico e a neuroquantologia materialista. Aparentemente, n&atilde;o h&aacute; materialistas m&iacute;sticos qu&acirc;nticos, e mesmo uma posi&ccedil;&atilde;o materialista m&iacute;stica geral   parece dif&iacute;cil de articular. Est&aacute; claro que uma mesma pessoa pode ter diferentes vis&otilde;es em diferentes ocasi&otilde;es, ou defender uma mistura entre essas posi&ccedil;&otilde;es. A finalidade do diagrama&eacute; ajudar-nos a definir os conceitos filos&oacute;ficos, e n&atilde;o classificar as opini&otilde;es das pessoas de maneira r&iacute;gida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n2/a13fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>&ldquo;Quando o termo 'qu&acirc;ntico' &eacute; invocado em diferentes contextos culturais, busca-se fundamentar uma pr&aacute;tica cultural sugerindo que ela se baseia em uma ci&ecirc;ncia bem estabelecida.&rdquo;</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O que chamei acima de &ldquo;naturalismo animista&rdquo; identifica-se com o que agora estou  denominando naturalismo espiritualista. &ldquo;Animismo&rdquo; &eacute; a cren&ccedil;a, comum a povos rudimentares, de que as coisas naturais s&atilde;o todas animadas, ou seja, que elas todas t&ecirc;m alma. Na antropologia, segundo Abbagnano, houve uma discuss&atilde;o de se o ser humano de um povo rudimentar se interessava em <i>explicar</i> os acontecimentos pela a&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as animadas (o animismo), ou se ele se voltava para a ca&ccedil;a, a pesca e suas festividades, usando a &ldquo;magia&rdquo; (sem querer explicar nada). A magia &eacute; uma <i>atividade pr&aacute;tica</i>, que procura dominar as for&ccedil;as naturais com os mesmos procedimentos com que se sujeitam os seres animados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um &uacute;ltimo termo a ser considerado &eacute; &ldquo;ocultismo&rdquo;, usado por Patrick Grim no t&iacute;tulo de sua excelente colet&acirc;nea, &ldquo;<i>Philosophy of science and the occult</i>&rdquo;.<sup>[12]</sup> Trata-se da cren&ccedil;a em fen&ocirc;menos que se julgam produzidos por for&ccedil;as ocultas, estando associado &agrave; magia, astrologia, parapsicologia etc. Grim considera que este termo &eacute; mais neutro do que &ldquo;pseudoci&ecirc;ncia&rdquo;, que &eacute; pejorativo, e mais amplo do que &ldquo;paranormalidade&rdquo;, que tende a se restringir &agrave; parapsicologia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [1] KRAGH, H. Quantum generations: a history of physics in the twentieth century. Princeton: Princeton University Press. 1999.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"> [2] SHERMER, M. Porque as pessoas acreditam em coisas estranhas. Trad. L.R. Gil. S&atilde;o Paulo: JSN. 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [3] PESSOA JR., O. O fen&ocirc;meno cultural do misticismo qu&acirc;ntico. In: Freire Jr., O.; Pessoa Jr., O. &amp; Bromberg, J.L. (orgs.). Teoria Qu&acirc;ntica: estudos hist&oacute;ricos e   implica&ccedil;&otilde;es culturais. Campina Grande: Eduepb; S&atilde;o Paulo: Livraria da F&iacute;sica, p. 279-300. 2010.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [4] BYRNE, R. O segredo. Rio de Janeiro: Ediouro. 2007.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [5] PESSOA JR., O. An&aacute;lise de um t&iacute;pico argumento m&iacute;stico-qu&acirc;ntico. In: Silva, C.C. &amp; Prestes, M.E.B. (orgs.). Aprendendo ci&ecirc;ncia e sobre sua natureza: abordagens   hist&oacute;ricas e filos&oacute;ficas. S&atilde;o Carlos: Tipographia Editora Expressa, p. 171-84. 2013. Ver p. 173.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [6] ABBAGNANO, N. Dicion&aacute;rio de filosofia. 5&ordf; ed. revista e ampliada. Trad. Alfredo Bosi &amp; Ivone C. Benedetti. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. 2007.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [7] SMART, N. World philosophies. London: Routledge. 1999.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [8] CAPRA, F. O tao da f&iacute;sica. Trad. J.F. Dias. S&atilde;o Paulo: Cultrix. 1983. Original em ingl&ecirc;s: 1975.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [9] WILBER, K. &amp; NIEHAUS, A. (orgs.). Quantum questions: mystical writings of the world's greatest physicists. Boston: Shambala, 2001.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [10] MOREIRA-ALMEIDA, A. &amp; SANTOS, F.S. (orgs.). Exploring frontiers of the mind-brain relationship. New York: Springer. 2012.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> [11] O m&eacute;todo de an&aacute;lise filos&oacute;fica por figuras &eacute; explorado em: LISB&Ocirc;A, R.A.M. &amp; PESSOA JR., O. Vis&otilde;es filos&oacute;ficas sobre Ci&ecirc;ncia   e Natureza: uma an&aacute;lise das concep&ccedil;&otilde;es de professores de f&iacute;sica. S&atilde;o Paulo: FiloCzar. 2019.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"> [12] GRIM, P. (org.). Philosophy of science and the occult. 2a ed. Albany: SUNY Press. 1990.</font></p>      ]]></body>
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