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<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20250062</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A adaptação de nossa sociedade ao novo clima]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Adaptação climática]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[COP 30]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Eventos climáticos extremos]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250062</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>A adapta&ccedil;&atilde;o de nossa   sociedade ao novo clima</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Jean Pierre Ometto<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Pesquisador   s&ecirc;nior no Instituto Nacional de Pesquisas   Espaciais (INPE) desde 2009, onde   exerce, desde 2020, a chefia da Divis&atilde;o   de Projetos Estrat&eacute;gicos 3 (DIPE3). &Eacute;  professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o   em Ci&ecirc;ncia do Sistema Terrestre   (PG-CST/INPE) e Vice-Coordenador da   Brasileira de Pesquisas sobre Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas Globais (Rede Clima)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> A humanidade enfrenta o avan&ccedil;o de um novo regime clim&aacute;tico, caracterizado por aumento na   frequ&ecirc;ncia e intensidade de eventos extremos, mudan&ccedil;as nos regimes de precipita&ccedil;&atilde;o e eleva&ccedil;&atilde;o   das temperaturas m&eacute;dias globais. Esses processos, fortemente atrelados ao aumento constante    da temperatura da Terra, afetam diretamente os sistemas naturais e socioecon&ocirc;micos, exigindo   uma profunda reconfigura&ccedil;&atilde;o nas demandas e em como a sociedade est&aacute; organizada. A adapta&ccedil;&atilde;o   aos novos padr&otilde;es clim&aacute;ticos que se avizinham torna-se, assim, um eixo central das pol&iacute;ticas    de sustentabilidade e de enfrentamento a eventos clim&aacute;ticos extremos. Segundo as proje&ccedil;&otilde;es   mais recentes, a temperatura m&eacute;dia do planeta deve passar de 1,5 &deg;C j&aacute; no in&iacute;cio da d&eacute;cada de   2030.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A adapta&ccedil;&atilde;o envolve um conjunto de estrat&eacute;gias t&eacute;cnicas, institucionais e comportamentais voltadas  &agrave; redu&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidades e ao fortalecimento da resili&ecirc;ncia de popula&ccedil;&otilde;es, ecossistemas   e infraestruturas. Trata-se de um processo multidimensional, que requer integra&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia,   tecnologia e governan&ccedil;a. Implica reconhecer que o clima do futuro ser&aacute; diferente do passado, e   que as decis&otilde;es sobre planejamento urbano, produ&ccedil;&atilde;o e acesso aos alimentos, seguran&ccedil;a h&iacute;drica   e energ&eacute;tica, gest&atilde;o de recursos naturais devem incorporar incertezas clim&aacute;ticas como par&acirc;metros   e estrat&eacute;gias permanentes de gest&atilde;o. Esse reconhecimento foi estressado na COP 30, em   Bel&eacute;m (PA), quando os pa&iacute;ses acordaram em avaliar ao menos 60 indicadores globais de medidas   de adapta&ccedil;&atilde;o, assim como triplicar o investimento das na&ccedil;&otilde;es desenvolvidas para que pa&iacute;ses em   desenvolvimento reduzam o risco de impacto de eventos clim&aacute;ticos extremos. A constru&ccedil;&atilde;o de sistemas de informa&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica, o fortalecimento de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas baseadas em evid&ecirc;ncias   e a inclus&atilde;o social s&atilde;o elementos fundamentais para promover adapta&ccedil;&atilde;o justa e eficaz. Mais do   que uma resposta emergencial, a adapta&ccedil;&atilde;o representa uma transforma&ccedil;&atilde;o estrutural: redefine   prioridades econ&ocirc;micas, orienta inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas e estimula novas formas de conviv&ecirc;ncia   entre sociedade e natureza. Adaptar-se ao novo clima significa, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, construir um   modelo de desenvolvimento capaz de prosperar em um mundo em constante mudan&ccedil;a, conciliando   justi&ccedil;a social, seguran&ccedil;a ambiental e bem-estar coletivo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Palavras-chave:</b> Adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica; Mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas; COP 30; Eventos clim&aacute;ticos extremos</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas,   impulsionadas pelo ac&uacute;mulo   de gases de efeito estufa (GEE)   na atmosfera decorrentes de   atividades humanas, imp&otilde;em   impactos crescentes sobre   sistemas naturais e sociais em   escala global. A intensifica&ccedil;&atilde;o   de eventos extremos (secas,   inunda&ccedil;&otilde;es, ondas de calor,   tempestades), assim como altera&ccedil;&otilde;es   mais graduais (eleva&ccedil;&atilde;o   do n&iacute;vel do mar, degelo   de geleiras continentais, branqueamento   de corais), exige o   desenvolvimento de capacidades   de adapta&ccedil;&atilde;o para manter   o bem-estar humano, a seguran&ccedil;a   ambiental e a prosperidade    econ&ocirc;mica. No contexto   brasileiro, marcado por heterogeneidades   f&iacute;sicas, sociais e   econ&ocirc;micas, a adapta&ccedil;&atilde;o torna-se um desafio estrat&eacute;gico   para garantir robustez, resili&ecirc;ncia   e redu&ccedil;&atilde;o de desigualdades   frente aos novos padr&otilde;es   clim&aacute;ticos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesse cen&aacute;rio, entender   como a sociedade pode &#151; e   deve &#151; adaptar-se ao novo clima   implica analisar alguns aspectos   interligados: (i) a natureza   dos riscos clim&aacute;ticos, sua   manifesta&ccedil;&atilde;o e proje&ccedil;&otilde;es futuras;   (ii) a vulnerabilidade e a   capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o dos   sistemas socioecol&oacute;gicos; e (iii)   as estrat&eacute;gias e instrumentos   de resposta, que v&atilde;o desde pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, quest&otilde;es   tecnol&oacute;gicas e governan&ccedil;a at&eacute; a&ccedil;&otilde;es locais e comunit&aacute;rias (<a href="#fig01">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a08fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Adaptar-se   ao novo clima   oferece m&uacute;ltiplos   benef&iacute;cios, reduz   perdas humanas,   econ&ocirc;micas e   ambientais e gera   retornos positivos   para a sociedade."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No presente texto, examinam-se alguns pontos que   permearam as discuss&otilde;es e delibera&ccedil;&otilde;es   sobre adapta&ccedil;&atilde;o na   COP30, em Bel&eacute;m, e tamb&eacute;m como a sociedade brasileira   pode adaptar-se ao novo clima,   considerando as dimens&otilde;es   cient&iacute;fica, institucional,   social e tecnol&oacute;gica, discutindo   entraves, oportunidades e   perspectivas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Adapta&ccedil;&atilde;o e   Confer&ecirc;ncia   das Partes da   Conven&ccedil;&atilde;o do   Clima (COP30)</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Alguns resultados relacionados  &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica &#151;  e a temas convergentes, como   justi&ccedil;a clim&aacute;tica e financiamento  &#151; emergiram na COP30   (realizada em Bel&eacute;m, 2025),   trazendo avan&ccedil;os importantes, mas acompanhados de cr&iacute;ticas quanto ao que ficou pendente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O financiamento para   adapta&ccedil;&atilde;o foi triplicado como   ambi&ccedil;&atilde;o para 2035, elevando   a meta dos cerca de US$ 40   bilh&otilde;es atuais para aproximadamente   US$ 120 bilh&otilde;es por   ano, como parte de um conjunto   mais amplo de financiamento   clim&aacute;tico. Tamb&eacute;m foi   estabelecido um novo marco   global de adapta&ccedil;&atilde;o, com a   ado&ccedil;&atilde;o de 59 m&eacute;tricas (indicadores)   para medir o progresso   sob o <i>Global Goal on   Adaptation</i> (GGA) e a defini&ccedil;&atilde;o   da pr&oacute;xima rodada de planos   nacionais de adapta&ccedil;&atilde;o (NAPs,   na sigla em ingl&ecirc;s), encerrando   impasses antigos sobre planejamento    e monitoramento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A presid&ecirc;ncia da COP,   exercida pelo Brasil, buscou   destacar a necessidade   de esta ser a Confer&ecirc;ncia da   Implementa&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido,   no campo da adapta&ccedil;&atilde;o,   o pa&iacute;s lan&ccedil;ou o <i>Bel&eacute;m Health   Action Plan</i>, o primeiro plano   internacional de adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica voltado especificamente    ao setor de sa&uacute;de, incluindo   a&ccedil;&otilde;es de vigil&acirc;ncia, capacita&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas   e inova&ccedil;&atilde;o. A iniciativa busca   refor&ccedil;ar a resili&ecirc;ncia do setor   de sa&uacute;de &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas   por meio do fortalecimento   dos sistemas de vigil&acirc;ncia,   da capacita&ccedil;&atilde;o, da inova&ccedil;&atilde;o e   da formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas   baseadas em evid&ecirc;ncias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica implica   mudan&ccedil;a de   paradigma: deixar   de olhar o clima   pelos limites do   passado e construir   resili&ecirc;ncia, fortalecer   capacidades   e reduzir   vulnerabilidades."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Houve tamb&eacute;m um importante   resultado na Agenda   de A&ccedil;&atilde;o da Presid&ecirc;ncia da   COP30: a mobiliza&ccedil;&atilde;o global   de 190 pa&iacute;ses para aderirem   a pelo menos um dos   120 planos de acelera&ccedil;&atilde;o de   iniciativas clim&aacute;ticas em seis   eixos tem&aacute;ticos, focados em  "energia, ind&uacute;stria e transporte;    florestas, biodiversidade e   oceanos; sistemas alimentares   e agricultura; cidades, infraestrutura   e &aacute;gua; desenvolvimento   humano e social; e um eixo   transversal de financiamento,   tecnologia e capacita&ccedil;&atilde;o"  (Bruna Cerqueira, coordenadora-geral da Agenda de A&ccedil;&atilde;o   da Presid&ecirc;ncia da COP30).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Por fim, houve forte &ecirc;nfase   em transi&ccedil;&atilde;o justa e inclus&atilde;o   social, com a confer&ecirc;ncia   formalizando um mecanismo   que incorpora ao debate direitos   trabalhistas, justi&ccedil;a social   e participa&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es   vulner&aacute;veis, reconhecendo   que adapta&ccedil;&atilde;o e justi&ccedil;a clim&aacute;tica   andam juntas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entretanto, muitos desafios   persistem, e a necessidade   do multilateralismo continua   central, assim como avan&ccedil;os   em a&ccedil;&otilde;es bilaterais, da sociedade   civil, do terceiro setor e   do setor privado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um dos principais pontos   de cr&iacute;tica refere-se ao fato de   que o compromisso de triplicar   o financiamento para adapta&ccedil;&atilde;o   at&eacute; 2035 &eacute; pouco vinculante:   o texto emprega uma express&atilde;o mais suave ("call   for"), em vez de termos mais   fortes e determinantes no vocabul&aacute;rio   das Na&ccedil;&otilde;es Unidas   ("shall/shall provide"). Isso   pode reduzir o n&iacute;vel de responsabiliza&ccedil;&atilde;o   e diluir a for&ccedil;a   do compromisso, al&eacute;m de estabelecer   um prazo considerado   excessivamente longo para   comunidades que j&aacute; enfrentam   impactos clim&aacute;ticos severos.   Soma-se a isso a falta de clareza   sobre a base de c&aacute;lculo e   a origem dos recursos, j&aacute; que   o documento final n&atilde;o define   um ano-base para mensurar   o aumento do financiamento   nem especifica a origem dos   recursos &#151; p&uacute;blicos, privados,   concess&otilde;es ou cr&eacute;dito. Esses   aspectos trazem incertezas sobre   a implementa&ccedil;&atilde;o efetiva  da meta.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute; tamb&eacute;m preocupa&ccedil;&otilde;es   sobre gargalos de implementa&ccedil;&atilde;o   e operacionaliza&ccedil;&atilde;o.   Pa&iacute;ses com baixa capacidade   institucional ou com barreiras   socioecon&ocirc;micas significativas   podem ter dificuldades para   materializar os 59 indicadores   de adapta&ccedil;&atilde;o que comp&otilde;em   o GGA e modular seus investimentos.   Paralelamente, persistem   desigualdades nos impactos   e na participa&ccedil;&atilde;o: embora   tenha havido avan&ccedil;os importantes   no reconhecimento de   povos ind&iacute;genas, comunidades   afrodescendentes e popula&ccedil;&otilde;es   perif&eacute;ricas, teme-se que   os recursos e a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o cheguem   aos grupos mais vulner&aacute;veis   ou que sejam aplicados   de forma desigual entre pa&iacute;ses   ricos e pobres.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Apesar de a agenda global   ainda manter maior &ecirc;nfase   na mitiga&ccedil;&atilde;o do que na   adapta&ccedil;&atilde;o, houve avan&ccedil;os   importantes nos debates e no reconhecimento da necessidade   de a&ccedil;&otilde;es, especialmente   diante das evid&ecirc;ncias crescentes   dos riscos clim&aacute;ticos. Ainda   assim, alguns pontos centrais    precisam ser considerados   para que medidas de adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica sejam tomadas   com assertividade e efici&ecirc;ncia.   A seguir, apresentam-se   elementos centrais para o planejamento   de estrat&eacute;gias de   adapta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica: riscos e   vulnerabilidades</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A literatura sobre adapta&ccedil;&atilde;o  &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas   costuma utilizar os conceitos   de amea&ccedil;a, exposi&ccedil;&atilde;o, vulnerabilidade   e capacidade adaptativa   para definir risco. Segundo   o <i>Intergovernmental Panel on   Climate Change</i> (IPCC), o risco   adv&eacute;m da intera&ccedil;&atilde;o entre   eventos ou tend&ecirc;ncias clim&aacute;ticas   (amea&ccedil;a), a exposi&ccedil;&atilde;o de   sistemas a esses eventos e sua   vulnerabilidade (determinada   pela sensibilidade e capacidade   de adapta&ccedil;&atilde;o) (<a href="#fig02">Figura 2</a>).   Em termos pr&aacute;ticos, a vulnerabilidade   refere-se &agrave; propens&atilde;o   de um sistema sofrer danos; a   capacidade adaptativa aponta   a habilidade de se ajustar,   moderar ou se beneficiar de   mudan&ccedil;as. Vale lembrar que a   adapta&ccedil;&atilde;o &eacute; um processo modulado   por limites biof&iacute;sicos,   estruturais e sociais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a08fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Adaptar-se ao novo clima   oferece m&uacute;ltiplos benef&iacute;cios.   Em primeiro lugar, reduz perdas   humanas, econ&ocirc;micas e   ambientais associadas a eventos   extremos. Investimentos em   adapta&ccedil;&atilde;o resultam em retorno   positivo: estudos internacionais indicam que cada d&oacute;lar gasto    em resili&ecirc;ncia pode gerar dezenas   de d&oacute;lares em benef&iacute;cios,   evitando danos. Em segundo   lugar, medidas de adapta&ccedil;&atilde;o   bem planejadas podem gerar   co-benef&iacute;cios, como melhoria   da sa&uacute;de p&uacute;blica, refor&ccedil;o da   seguran&ccedil;a h&iacute;drica, redu&ccedil;&atilde;o de   desigualdades territoriais e fortalecimento    de infraestrutura.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um exemplo de estrat&eacute;gia   de avalia&ccedil;&atilde;o de risco, entre   diversas iniciativas recentes, &eacute; a   plataforma AdaptaBrasil, criada   pelo Instituto Nacional de   Pesquisas Espaciais (INPE) em   coopera&ccedil;&atilde;o com o Minist&eacute;rio   da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e   Inova&ccedil;&otilde;es (MCTI) e a Rede   Nacional de Ensino e Pesquisa   (RNP). Ela constitui um dos   instrumentos nacionais voltados  &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de indicadores   e informa&ccedil;&otilde;es para apoiar a   adapta&ccedil;&atilde;o no Brasil (Andrade   et al., 2023; Arcoverde et al.,   2023). A plataforma adota uma estrutura metodol&oacute;gica baseada   nessas dimens&otilde;es (vulnerabilidade,    exposi&ccedil;&atilde;o e amea&ccedil;a)   para construir indicadores de   risco de impacto clim&aacute;tico nos   diferentes munic&iacute;pios do pa&iacute;s   (<a href="#fig02">Figura 2</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A ci&ecirc;ncia no   contexto da   adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Medidas e a&ccedil;&otilde;es de   adapta&ccedil;&atilde;o efetivas (e n&atilde;o delet&eacute;rias)   dependem de dados   confi&aacute;veis, indicadores claros   de risco, proje&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas   adequadas ao contexto local   e ferramentas eficientes de   suporte &agrave; decis&atilde;o, com mecanismos   robustos de interface   entre ci&ecirc;ncia e gestores. A    ci&ecirc;ncia desempenha um papel   estruturante e estrat&eacute;gico,   fornecendo bases conceituais,   metodol&oacute;gicas e emp&iacute;ricas que   orientam decis&otilde;es p&uacute;blicas e privadas frente ao aprofundamento   do risco clim&aacute;tico. Em   um cen&aacute;rio marcado pela intensifica&ccedil;&atilde;o   de eventos extremos,   aumento da variabilidade   clim&aacute;tica e reconfigura&ccedil;&atilde;o de   regimes hidrol&oacute;gicos, a capacidade   de adapta&ccedil;&atilde;o de sistemas   naturais e socioecon&ocirc;micos   depende essencialmente   da qualidade, integra&ccedil;&atilde;o e   aplicabilidade do conhecimento   cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A ci&ecirc;ncia oferece diagn&oacute;sticos   robustos sobre tend&ecirc;ncias   clim&aacute;ticas, proje&ccedil;&otilde;es   de temperatura, precipita&ccedil;&atilde;o e   frequ&ecirc;ncia de extremos, gerados   por modelagem clim&aacute;tica,   an&aacute;lises estat&iacute;sticas e observa&ccedil;&otilde;es   de longo prazo. Esses   diagn&oacute;sticos s&atilde;o cruciais para   identificar vulnerabilidades,    antecipar impactos e orientar   investimentos em setores   como agricultura, infraestrutura,   recursos h&iacute;dricos, energia   e sa&uacute;de p&uacute;blica. Al&eacute;m disso,   a ci&ecirc;ncia permite diferenciar   varia&ccedil;&otilde;es naturais do clima de   mudan&ccedil;as estruturais impulsionadas   por emiss&otilde;es antropog&ecirc;nicas,   qualificando horizontes   temporais e graus de   incerteza de cen&aacute;rios futuros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Outra contribui&ccedil;&atilde;o importante   refere-se ao desenvolvimento   de metodologias   de avalia&ccedil;&atilde;o de risco. Essa   abordagem possibilita an&aacute;lises   em m&uacute;ltiplas escalas &#151; do n&iacute;vel   municipal ao nacional &#151; e   apoia o planejamento territorial,   a prioriza&ccedil;&atilde;o de investimentos   e a formula&ccedil;&atilde;o de    pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Plataformas,   indicadores e sistemas de informa&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica transformam   conhecimento t&eacute;cnico   em instrumentos pr&aacute;ticos para   gestores p&uacute;blicos e agentes econ&ocirc;micos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outro aspecto central &eacute;  a coprodu&ccedil;&atilde;o de conhecimento.   A ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea   em adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica n&atilde;o   se limita &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de dados,   mas envolve processos colaborativos   entre pesquisadores,   formuladores de pol&iacute;ticas, comunidades   locais e setor produtivo,   o que &eacute; fundamental   no planejamento clim&aacute;tico. A   integra&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e saberes   locais fortalece a pertin&ecirc;ncia   das solu&ccedil;&otilde;es e aumenta   sua aceita&ccedil;&atilde;o social.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m desempenha   papel determinante   na avalia&ccedil;&atilde;o de medidas de   adapta&ccedil;&atilde;o, permitindo examinar   efic&aacute;cia, escalabilidade,   custos e externalidades (positivas   e negativas) de interven&ccedil;&otilde;es   em diferentes territ&oacute;rios.   Solu&ccedil;&otilde;es baseadas na natureza,   por exemplo, v&ecirc;m sendo    amplamente estudadas devido  &agrave; sua capacidade de reduzir   riscos, restaurar ecossistemas   e gerar benef&iacute;cios m&uacute;ltiplos.   A pesquisa tamb&eacute;m identifica   limites da adapta&ccedil;&atilde;o, apontando   situa&ccedil;&otilde;es em que mudan&ccedil;as   profundas em sistemas   produtivos, padr&otilde;es de ocupa&ccedil;&atilde;o   e infraestrutura se tornam   inevit&aacute;veis. Por fim, a ci&ecirc;ncia   contribui para fortalecer a governan&ccedil;a   clim&aacute;tica, ao apoiar   mecanismos de monitoramento,   avalia&ccedil;&atilde;o e revis&atilde;o de pol&iacute;ticas.   O avan&ccedil;o da adapta&ccedil;&atilde;o   depende de sistemas transparentes   de acompanhamento,   da atualiza&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica de   dados e da incorpora&ccedil;&atilde;o de   novas evid&ecirc;ncias ao processo   decis&oacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A manifesta&ccedil;&atilde;o dos   riscos e adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica no Brasil</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O Brasil, pela sua continentalidade,   apresenta grandes   variabilidades regionais,   o que determina um alto n&iacute;vel   de complexidade na caracteriza&ccedil;&atilde;o   dos cen&aacute;rios de risco   de impactos decorrentes de   eventos clim&aacute;ticos extremos.   Para citar alguns aspectos dessa   diversidade, destacam-se    os diferentes biomas, regi&otilde;es  &aacute;ridas e montanhosas, regi&otilde;es   costeiras e metropolitanas, popula&ccedil;&otilde;es   vulnerabilizadas em   distintos territ&oacute;rios, agricultura,   entre outros fatores. Por   exemplo: secas prolongadas   no Nordeste, chuvas intensas e   deslizamentos no Sul/Sudeste   e eleva&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel do mar e   eros&atilde;o costeira em &aacute;reas litor&acirc;neas.   De acordo com a plataforma   AdaptaBrasil, cerca de   metade dos 5.570 munic&iacute;pios   brasileiros possui capacidade   adaptativa "baixa ou muito baixa"  frente ao risco de estresse   h&iacute;drico. A mesma fonte aponta   que o n&uacute;mero de munic&iacute;pios    com planos de adapta&ccedil;&atilde;o ou   legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica ainda &eacute;  muito reduzido, evidenciando   a lacuna entre conhecimento e   implementa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Contudo, os custos de   adapta&ccedil;&atilde;o s&atilde;o elevados, sobretudo   em sistemas sociais   com vulnerabilidades pr&eacute;-existentes   e baixa capacidade de   governan&ccedil;a. No Brasil, a heterogeneidade   entre munic&iacute;pios   e territ&oacute;rios &#151; considerando   desigualdades sociais,   disponibilidade de recursos   e arranjos institucionais &#151; faz   com que muitos desses locais   e grupos sociais n&atilde;o estejam preparados, a priori, para responder   aos desafios das mudan&ccedil;as   clim&aacute;ticas e aos eventos   extremos. Muitos munic&iacute;pios   brasileiros n&atilde;o possuem plano   de adapta&ccedil;&atilde;o ou sequer   legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica. Com   isso, barreiras comuns para a   implementa&ccedil;&atilde;o de planos e   estrat&eacute;gias incluem a falta de   dados e ferramentas de apoio &agrave; decis&atilde;o; a baixa conscientiza&ccedil;&atilde;o   p&uacute;blica e a aus&ecirc;ncia de   governan&ccedil;a ambiental e clim&aacute;tica   na estrutura de gest&atilde;o das   prefeituras; desafios de governan&ccedil;a    multiescalar (local&#150;regional&#150;nacional); limita&ccedil;&atilde;o de   financiamento; e aus&ecirc;ncia de   integra&ccedil;&atilde;o multissetorial nas   pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, considerando   que mitiga&ccedil;&atilde;o e adapta&ccedil;&atilde;o   s&atilde;o dimens&otilde;es transversais e   relacionadas a diversos setores e demandas da sociedade.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"No Brasil ainda   existem lacunas   importantes em   capacidade t&eacute;cnica   e institucional,   financiamento,   integra&ccedil;&atilde;o   de pol&iacute;ticas e   mobiliza&ccedil;&atilde;o   comunit&aacute;ria."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um aspecto absolutamente   central nesse debate &eacute;  que a adapta&ccedil;&atilde;o exige a considera&ccedil;&atilde;o   expl&iacute;cita da justi&ccedil;a   clim&aacute;tica. Grupos vulner&aacute;veis e   vulnerabilizados &#151; como crian&ccedil;as,   idosos, mulheres, pessoas   negras, popula&ccedil;&otilde;es tradicionais   e comunidades de baixa   renda &#151; sofrem de forma    desproporcional os impactos clim&aacute;ticos e t&ecirc;m, em geral,   menor capacidade adaptativa.   As estrat&eacute;gias de adapta&ccedil;&atilde;o   devem incorporar perspectivas   de equidade, priorizando   medidas para popula&ccedil;&otilde;es   vulner&aacute;veis, reduzindo desigualdades   e garantindo que a   transi&ccedil;&atilde;o para a resili&ecirc;ncia seja   efetiva. Al&eacute;m disso, mobilizar   comunidades, promover sensibiliza&ccedil;&atilde;o,   estimular a participa&ccedil;&atilde;o   cidad&atilde;, capacitar gestores   municipais e articular diversos   n&iacute;veis de governo s&atilde;o requisitos   essenciais para que a adapta&ccedil;&atilde;o seja eficaz e justa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Setores estrat&eacute;gicos   e medidas de   adapta&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Alguns setores podem   ser destacados como estrat&eacute;gicos   para adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica   no Brasil. O Plano Clima   Adapta&ccedil;&atilde;o (Minist&eacute;rio do Meio   Ambiente, MMA) contempla   16 setores estrat&eacute;gicos e a   cada um s&atilde;o caracterizadas a   vulnerabilidade, a exposi&ccedil;&atilde;o   e os impactos clim&aacute;ticos. Aqui   destaca-se, como exemplo,   um conjunto de setores que   apresentam elevada sensibilidade  &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas   e desempenham fun&ccedil;&otilde;es   essenciais para o bem-estar   humano, a economia e a resili&ecirc;ncia   territorial. Entre eles, os   recursos h&iacute;dricos: altera&ccedil;&otilde;es   no regime de precipita&ccedil;&atilde;o, o   aumento da frequ&ecirc;ncia e dura&ccedil;&atilde;o   de secas, a redu&ccedil;&atilde;o da   recarga de aqu&iacute;feros e a intensifica&ccedil;&atilde;o   de eventos de   inunda&ccedil;&atilde;o comprometem a   disponibilidade e a qualidade   da &aacute;gua; <b>seguran&ccedil;a alimentar</b>,   enfrenta desafios decorrentes   da redu&ccedil;&atilde;o de produtividade agr&iacute;cola, da necessidade crescente   de irriga&ccedil;&atilde;o e da instabilidade   no fornecimento e acesso   aos alimentos. A adapta&ccedil;&atilde;o   nesse setor requer diversificar   cultivos, o uso de variedades   mais resistentes ao calor e &agrave; seca, e a ado&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas   agron&ocirc;micas sustent&aacute;veis capazes   de preservar o solo,    otimizar recursos e reduzir vulnerabilidades;   <b>sa&uacute;de p&uacute;blica</b>,   a intensifica&ccedil;&atilde;o das ondas de   calor, a expans&atilde;o geogr&aacute;fica   de vetores de doen&ccedil;as, a deteriora&ccedil;&atilde;o   da qualidade do ar   e as amea&ccedil;as &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel   e ao saneamento ampliam a   exposi&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. A   adapta&ccedil;&atilde;o requer sistemas de   vigil&acirc;ncia epidemiol&oacute;gica fortalecidos,   pol&iacute;ticas para mitiga&ccedil;&atilde;o   de ilhas de calor urbano   e estrat&eacute;gias para prote&ccedil;&atilde;o de   grupos vulner&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A <b>infraestrutura</b> e a <b>habita&ccedil;&atilde;o</b> s&atilde;o aspectos cr&iacute;ticos em   espa&ccedil;os urbanos, mas tamb&eacute;m   nos setores produtivos e de   transporte no pa&iacute;s. Edifica&ccedil;&otilde;es,   sistemas de transporte, portos,   rodovias e ferrovias passam   a operar em um ambiente de   maior risco, marcado por chuvas   extremas, ondas de calor   e eleva&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel do mar.   Projetos estruturais mais robustos,   normas adequadas e planejamento   integrado tornam-se fundamentais para reduzir   danos e assegurar continuidade   operacional. A urbaniza&ccedil;&atilde;o   acelerada e desordenada aumenta   a exposi&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es   de baixa renda a enchentes,   deslizamentos e efeitos   da eleva&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel do mar.   A resili&ecirc;ncia urbana depende   do uso de infraestrutura verde,   da amplia&ccedil;&atilde;o de sistemas   de drenagem sustent&aacute;vel e de   instrumentos de planejamento territorial capazes de orientar   ocupa&ccedil;&otilde;es seguras e compat&iacute;veis    com o risco clim&aacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A <b>agricultura</b> e a pecu&aacute;ria   enfrentam desafios decorrentes   do aumento das temperaturas,   da altera&ccedil;&atilde;o nos regimes   de chuvas e da intensifica&ccedil;&atilde;o   de eventos extremos, como   secas prolongadas e tempestades   severas. Esses fatores   afetam diretamente a produtividade   das culturas, a disponibilidade   h&iacute;drica para irriga&ccedil;&atilde;o,   a fertilidade do solo e a prolifera&ccedil;&atilde;o   de pragas e doen&ccedil;as.   A adapta&ccedil;&atilde;o no campo requer   um conjunto articulado de medidas   que incluem o desenvolvimento   e a dissemina&ccedil;&atilde;o de   cultivares mais tolerantes ao   calor e &agrave; seca, a amplia&ccedil;&atilde;o de    sistemas de irriga&ccedil;&atilde;o de alta   efici&ecirc;ncia, a ado&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas   de manejo sustent&aacute;vel do solo   (como plantio direto, integra&ccedil;&atilde;o   lavoura-pecu&aacute;ria-floresta e   aumento da mat&eacute;ria org&acirc;nica)   e o uso de informa&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas   para orientar o planejamento   agr&iacute;cola. Tecnologias   de agricultura de precis&atilde;o,   sistemas agroflorestais, restaura&ccedil;&atilde;o   de vegeta&ccedil;&atilde;o nativa em   propriedades rurais e a diversifica&ccedil;&atilde;o   produtiva tamb&eacute;m   fortalecem a resili&ecirc;ncia, reduzindo   vulnerabilidades e garantindo   seguran&ccedil;a alimentar   em um contexto clim&aacute;tico cada   vez mais incerto.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A <b>biodiversidade e os   ecossistemas naturais</b> representam   tanto um patrim&ocirc;nio   ambiental quanto uma base   essencial de servi&ccedil;os ecossist&ecirc;micos   que sustentam a agricultura,   a regula&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica, a   seguran&ccedil;a h&iacute;drica e a prote&ccedil;&atilde;o   costeira. As mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas   alteram padr&otilde;es de distribui&ccedil;&atilde;o   de esp&eacute;cies, aumentam o risco de extin&ccedil;&atilde;o, intensificam   inc&ecirc;ndios florestais, degradam   recifes de coral e afetam   a conectividade ecol&oacute;gica. A   adapta&ccedil;&atilde;o nesse campo requer   estrat&eacute;gias robustas de conserva&ccedil;&atilde;o   e restaura&ccedil;&atilde;o, cria&ccedil;&atilde;o   de corredores ecol&oacute;gicos que   permitam o deslocamento de   esp&eacute;cies, manejo adaptativo   de &aacute;reas protegidas, prote&ccedil;&atilde;o   de manguezais e recifes como   barreiras naturais contra tempestades,   al&eacute;m da promo&ccedil;&atilde;o   de pr&aacute;ticas produtivas compat&iacute;veis   com a manuten&ccedil;&atilde;o da biodiversidade.   O fortalecimento   desses ecossistemas amplia   a resili&ecirc;ncia socioambiental e   contribui diretamente para o   enfrentamento dos desafios impostos   pelo novo clima.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O Brasil &eacute; caracterizado   pela enorme diversidade territorial,   o que implica perfis distintos   de risco clim&aacute;tico, vulnerabilidades   e capacidades adaptativas. Isso exige que   as estrat&eacute;gias de adapta&ccedil;&atilde;o   sejam contextualizadas e n&atilde;o   meramente replicadas. A plataforma   AdaptaBrasil, ao oferecer   indicadores por munic&iacute;pio,   possibilita essa diferencia&ccedil;&atilde;o.   (<a href="#fig03">Figura 3</a>)</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a08fig03.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica no Brasil:   Governan&ccedil;a,   pol&iacute;ticas e   instrumentos   nacionais</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A governan&ccedil;a da adapta&ccedil;&atilde;o   clim&aacute;tica no Brasil estrutura-se na Pol&iacute;tica Nacional   sobre Mudan&ccedil;a do Clima   (PNMC, Lei n&ordm; 12.187/2009)   e no Comit&ecirc; Interministerial   sobre Mudan&ccedil;a do Clima   (CIM), &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por coordenar e supervisionar a   pol&iacute;tica clim&aacute;tica federal. O    CIM coordena a&ccedil;&otilde;es interministeriais   e monitora a implementa&ccedil;&atilde;o   da PNMC, incluindo   o Plano Nacional sobre   Mudan&ccedil;a do Clima (Plano   Clima). Restaurado em 2023,   o Comit&ecirc; reafirma o compromisso   brasileiro com a agenda   clim&aacute;tica internacional e com   a Contribui&ccedil;&atilde;o Nacionalmente   Determinada (NDC) no &acirc;mbito   do Acordo de Paris.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Com 23 minist&eacute;rios, o   CIM constitui o principal arranjo   de governan&ccedil;a clim&aacute;tica   do pa&iacute;s, assegurando articula&ccedil;&atilde;o   intersetorial. O F&oacute;rum   Brasileiro de Mudan&ccedil;a do   Clima (FBMC) e a Rede Clima   tamb&eacute;m comp&otilde;em sua estrutura,   atuando como inst&acirc;ncias   de di&aacute;logo com a sociedade    civil e comunidade cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O Plano Clima orienta   a&ccedil;&otilde;es nacionais de mitiga&ccedil;&atilde;o   e adapta&ccedil;&atilde;o at&eacute; 2035, definindo   diretrizes e medidas que visam   reduzir emiss&otilde;es de gases   de efeito estufa e aumentar a   resili&ecirc;ncia de sistemas naturais   e humanos. Estrutura-se em   duas estrat&eacute;gias: a Estrat&eacute;gia   Nacional de Mitiga&ccedil;&atilde;o e    a Estrat&eacute;gia Nacional de   Adapta&ccedil;&atilde;o. O plano incorpora planos setoriais &#151; sete de mitiga&ccedil;&atilde;o   e dezesseis de adapta&ccedil;&atilde;o&#151; que operacionalizam as a&ccedil;&otilde;es previstas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Perspectivas e   conclus&otilde;es</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A adapta&ccedil;&atilde;o da sociedade   ao novo clima &eacute; imperativa.   J&aacute; vivemos um contexto   no qual impactos se manifestam   no cotidiano das pessoas   e dos sistemas naturais. No   Brasil, ainda existem lacunas   importantes em capacidade   t&eacute;cnica e institucional, financiamento,   integra&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas    e mobiliza&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria.   Apesar disso, avan&ccedil;os relevantes   podem ser reconhecidos,   como a constru&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas   p&uacute;blicas baseadas na melhor   ci&ecirc;ncia dispon&iacute;vel &#151; e, nesse   contexto, plataformas como   AdaptaBrasil s&atilde;o exemplos importantes  &#151; al&eacute;m do engajamento   de diversos setores da   sociedade que fortalecem o   mapeamento de riscos e contribuem   para a identifica&ccedil;&atilde;o de solu&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A redu&ccedil;&atilde;o dos riscos clim&aacute;ticos   no Brasil depende de   uma transforma&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica.   A governan&ccedil;a multin&iacute;vel deve   incorporar a variabilidade e a incerteza clim&aacute;tica; pol&iacute;ticas   de planejamento urbano, infraestrutura,   recursos h&iacute;dricos,   energia, agricultura e sa&uacute;de   precisam integrar a adapta&ccedil;&atilde;o   como eixo central; e a sociedade   civil deve atuar ativamente   por meio da educa&ccedil;&atilde;o, capacita&ccedil;&atilde;o   e engajamento, bem   como da demanda por inova&ccedil;&atilde;o   local e medidas efetivas no   uso de recursos, ordenamento   territorial e decis&otilde;es estrat&eacute;gicas.   A adapta&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica implica    mudan&ccedil;a de paradigma:   deixar de olhar o clima pelos   limites do passado e, em vez   disso, construir resili&ecirc;ncia, fortalecer   capacidades, reduzir   vulnerabilidades, promover   justi&ccedil;a clim&aacute;tica e garantir um   desenvolvimento sustent&aacute;vel   e inclusivo, mesmo sob condi&ccedil;&otilde;es   clim&aacute;ticas que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o   as mesmas que moldaram o   s&eacute;culo XX.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;1&#93; ADAPTABRASIL-MCTI.   <i>Factsheet AdaptaBrasil-MCTI</i>.   Projeto ProAdapta &#150; Adapta&ccedil;&atilde;o  &agrave; Mudan&ccedil;a do Clima, 2023.   Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.adaptacao.eco.br/_biblioteca/factsheet-adaptabrasil-mcti/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank">https://www.adaptacao.eco.br/_biblioteca/factsheet-adaptabrasil-mcti/?utm_source=chatgpt.com</a>. Acesso em: 9 dez. 2025.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;2&#93; ANDRADE, P. R.; OMETTO, J. P.   H. B.; ALVES, L. M.; ARCOVERDE,   G. F. B.; TOLEDO, P. M.   AdaptaBrasil MCTI: uma plataforma   para an&aacute;lise de impactos das   mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas no Brasil.   <i>Computa&ccedil;&atilde;o Brasil</i>, n. 50, 2023.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;3&#93; ARCOVERDE, G. F. B. <i>et al</i>.   Sustainability assessment of   Cerrado and Caatinga biomes in   Brazil: a proposal for collaborative   index construction in the context of   the 2030 Agenda and the Water-Energy-Food Nexus. <i>Frontiers in   Physics</i>, v. 10, p. 1060182, 2023.   DOI: <a href="https://doi.org/10.3389/fphy.2022.1060182" target="_blank">https://doi.org/10.3389/fphy.2022.1060182</a>.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;4&#93; FONTANETTO, R. Solu&ccedil;&otilde;es   baseadas na natureza podem   inspirar medidas de adapta&ccedil;&atilde;o  &agrave;s mudan&ccedil;as do clima. <i>Revista   Pesquisa FAPESP</i>, ed. 346, 2024.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;5&#93; INTERGOVERNMENTAL PANEL   ON CLIMATE CHANGE (IPCC).   Climate Change 2022: <i>Impacts,   Adaptation and Vulnerability.   Contribution of Working Group   II to the Sixth Assessment Report   of the Intergovernmental Panel   on Climate Change</i>. Cambridge:    Cambridge University Press, 2022.   3056 p.    </font></p>     ]]></body>
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