<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252026000100008</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20260008</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma introdução à matemática e à física das escalas musicais]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pimenta]]></surname>
<given-names><![CDATA[Marcos]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pimenta]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rafael L.]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Minas Gerais Departamento de Física ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Universidade do Estado de Minas Gerais Programa de Pós-Graduação em Artes ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2026</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2026</year>
</pub-date>
<volume>78</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>52</fpage>
<lpage>61</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252026000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252026000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252026000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Neste texto, explicitaremos as relações matemáticas - razões simples entre frequências sonoras - que estruturam as escalas musicais, mostrando que diferentes sistemas escalares e de afinação decorrem de distintas combinações dessas razões. Inicialmente, demonstramos o vínculo entre intervalos simples - como a oitava (2/1), a quinta justa (3/2) e a quarta justa (4/3) - e a série harmônica de uma corda em vibração. Em seguida, mostramos como a escola pitagórica construiu escalas por meio da aplicação sucessiva de quintas, gerando intervalos baseados apenas nas razões de 3/2 e 4/3, e como a escala justa, associada a Ptolomeu, incorporou também a razão 5/4 para a terça maior, produzindo maior consonância em uma tonalidade específica, mas restringindo sua transposição. Demonstramos que o problema da modulação entre tonalidades levou ao desenvolvimento do temperamento igual ou da escala temperada, no qual a oitava é dividida em doze razões intervalares exatamente iguais (), permitindo a execução de uma dada melodia em qualquer tom, sendo a escala temperada uma conciliação entre simplicidade matemática e flexibilidade musical. Por fim, argumentamos que, embora as noções de consonância e dissonância estejam relacionadas à matemática das razões intervalares, sua valorização varia historicamente, evidenciando que a organização da escala musical resulta da interação entre princípios físicos e escolhas culturais.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Escalas musicais]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Razões intervalares]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Temperamento igual]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Série harmônica]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260008</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Uma   introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; matem&aacute;tica e &agrave; f&iacute;sica das escalas musicais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Marcos Pimenta<sup>I</sup>; Rafael L. Pimenta<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor em&eacute;rito do Departamento de F&iacute;sica da Universidade Federal   de Minas Gerais (UFMG). &Eacute; atualmente o coordenador do Instituto Nacional de   Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (INCT) de Nanomateriais de Carbono. &Eacute; membro titular da   Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias e da "The World Academy of Sciences" (TWAS).   Entre 2017 e 2019 foi o presidente da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica.    <br>   <sup>II</sup>Doutorando no Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes, Universidade do   Estado de Minas Gerais e professor da Academia da Orquestra Filarm&ocirc;nica de   Minas Gerais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Neste   texto, explicitaremos as rela&ccedil;ões matem&aacute;ticas – razões simples entre   frequ&ecirc;ncias sonoras – que estruturam as escalas musicais, mostrando que   diferentes sistemas escalares e de afina&ccedil;&atilde;o decorrem de distintas combina&ccedil;ões   dessas razões. Inicialmente, demonstramos o v&iacute;nculo entre intervalos simples –   como a oitava (2/1), a quinta justa (3/2) e a quarta justa (4/3) – e a s&eacute;rie   harm&ocirc;nica de uma corda em vibra&ccedil;&atilde;o. Em seguida, mostramos como a escola   pitag&oacute;rica construiu escalas por meio da aplica&ccedil;&atilde;o sucessiva de quintas,   gerando intervalos baseados apenas nas razões de 3/2 e 4/3, e como a escala   justa, associada a Ptolomeu, incorporou tamb&eacute;m a raz&atilde;o 5/4 para a ter&ccedil;a maior,   produzindo maior conson&acirc;ncia em uma tonalidade espec&iacute;fica, mas restringindo sua   transposi&ccedil;&atilde;o. Demonstramos que o problema da modula&ccedil;&atilde;o entre tonalidades levou   ao desenvolvimento do temperamento igual ou da escala temperada, no qual a   oitava &eacute; dividida em doze razões intervalares exatamente iguais (), permitindo   a execu&ccedil;&atilde;o de uma dada melodia em qualquer tom, sendo a escala temperada uma   concilia&ccedil;&atilde;o entre simplicidade matem&aacute;tica e flexibilidade musical. Por fim,   argumentamos que, embora as no&ccedil;ões de conson&acirc;ncia e disson&acirc;ncia estejam   relacionadas &agrave; matem&aacute;tica das razões intervalares, sua valoriza&ccedil;&atilde;o varia   historicamente, evidenciando que a organiza&ccedil;&atilde;o da escala musical resulta da   intera&ccedil;&atilde;o entre princ&iacute;pios f&iacute;sicos e escolhas culturais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras&#45;chave:</b> Escalas musicais; Razões intervalares; Temperamento igual; S&eacute;rie harm&ocirc;nica</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uma escala   musical &eacute; uma sequ&ecirc;ncia de notas com rela&ccedil;ões   intervalares espec&iacute;ficas. O par&acirc;metro sonoro que varia de uma nota a outra &eacute; a   frequ&ecirc;ncia – o que se diferencia quando distinguimos um som agudo de um som   grave. Especulativamente, podemos conceber diversos conjuntos arbitr&aacute;rios de   notas e nada nos impede de utilizarmos escalas de quatro ou nove sons em uma   composi&ccedil;&atilde;o musical. Nas culturas musicais ao redor do mundo, entretanto, &eacute; mais comum encontrarmos escalas   de cinco e sete sons. H&aacute; tradi&ccedil;ões com grande repert&oacute;rio de melodias em escalas   pentat&ocirc;nicas – como a japonesa, a balinesa, a et&iacute;ope ou do povo Aka da   &Aacute;frica&#45;Central, a t&iacute;tulo de exemplo – e &eacute; ineg&aacute;vel a predomin&acirc;ncia, mundo   afora, das escalas heptat&ocirc;nicas (embora tamb&eacute;m n&atilde;o sejam raras escalas   hexat&ocirc;nicas, encontradi&ccedil;as entre amer&iacute;ndios, por exemplo).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Escalas de   cinco e sete sons s&atilde;o bastante antigas. Em 2009, na Alemanha, arque&oacute;logos   encontraram restos de uma flauta de osso de abutre datada de 35 mil anos atr&aacute;s   – o instrumento mais antigo de que se tem registro. Na reconstitui&ccedil;&atilde;o do   artefato, os pesquisadores identificaram a exist&ecirc;ncia de cinco furos, tendo   sido ele projetado, portanto, para a produ&ccedil;&atilde;o de uma pentat&ocirc;nica.<sup>&#91;1&#93;</sup> Ademais, escava&ccedil;ões realizadas entre as d&eacute;cadas de 1950 e 1970, na antiga   cidade de Ugarite (atual Ras Shamra, na S&iacute;ria), revelaram um corpo de can&ccedil;ões   Hurritas (povo mesopot&acirc;mico) datado de cerca de 1400 anos A.C., em escalas   heptat&ocirc;nicas.<sup>&#91;2&#93;</sup>.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Uma   escala musical &eacute; uma sequ&ecirc;ncia de notas com rela&ccedil;&otilde;es intervalares espec&iacute;ficas."</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Pentat&ocirc;nicas   ou heptat&ocirc;nicas, essas escalas podem ter estruturas intervalares diferentes.   Enfoquemos aquela que, no Brasil e nos dias de hoje, nos &eacute; mais familiar. Na <a href="#fig01">Figura 1</a> est&aacute; representada a escala musical que encontramos na maioria dos   instrumentos musicais modernos, que &eacute; composta por doze notas musicais: as sete   notas D&oacute;, R&eacute;, Mi, F&aacute;, Sol, L&aacute; e Si, que correspondem &agrave;s teclas brancas do   piano, e as cinco notas intermedi&aacute;rias – sustenidos (#) e bem&oacute;is (b) – e que   correspondem &agrave;s teclas pretas do piano.</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Acima do Si,   h&aacute; um outro D&oacute; de frequ&ecirc;ncia mais alta, e o intervalo musical entre as duas   notas de mesmo nome era chamado, na teoria musical da Gr&eacute;cia antiga,   diapas&atilde;o.&#91;3&#93; Na teoria da m&uacute;sica ocidental, dizemos que este outro D&oacute; est&aacute; a uma<b> oitava</b> acima do D&oacute; original, por conta da preval&ecirc;ncia   da organiza&ccedil;&atilde;o dos padrões mel&oacute;dicos em sete notas – mesmo em contextos em que,   por transposi&ccedil;&atilde;o (reprodu&ccedil;&atilde;o do mesmo padr&atilde;o intervalar a partir de notas   diferentes), as dozes notas s&atilde;o utilizadas. Embora a estrutura   heptat&ocirc;nica seja ub&iacute;qua no mundo, h&aacute; culturas que dividem o intervalo diapas&atilde;o   em mais de 12 partes – como &eacute; o caso da &aacute;rabe (que o divide   em 17 partes), da m&uacute;sica indiana (que o divide em 22 partes) ou da m&uacute;sica turca   (em at&eacute; 53 partes).<sup>&#91;4&#93;</sup> Na m&uacute;sica cl&aacute;ssica indiana, embora a base de   suas <i>ragas </i>(termo que designa algo entre melodia e escala) seja de sete   notas – e o nome que d&atilde;o &agrave;s notas nos permite constatar isso (Sa, Re, Ga, Ma,   Pa, Dha e Ni) – h&aacute; ainda 15 <i>srutis</i> ou graus de varia&ccedil;&atilde;o (ornamenta&ccedil;&atilde;o)   que s&atilde;o decodificados na teoria e na pr&aacute;tica musical.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No sistema   ocidental, a escala de 12 notas – a escala crom&aacute;tica, que abarca as notas   brancas e pretas do piano – &eacute; dividida em 12 semitons, sendo um semitom (S) o   intervalo entre, por exemplo, um D&oacute; e um D&oacute;#, como mostrado na <a href="#fig01">Figura 1</a>. Dois   semitons correspondem a um tom (T), como no caso do intervalo entre um D&oacute; e um   R&eacute; – e com esses dois intervalos (tons e semitons) podemos soletrar a estrutura   da <b>escala maior</b> (a escala das notas brancas do piano), de sete sons, a   partir de D&oacute;: T – T – S – T – T – T – S. O intervalo entre um D&oacute; e um Mi   (terceira nota da escala) &eacute; chamado de ter&ccedil;a maior, o intervalo entre um D&oacute; e   um F&aacute; (quarta nota dessa escala) &eacute; chamado de quarta justa e o intervalo entre   um D&oacute; e um Sol (quinta nota) &eacute; chamado de quinta justa. Estes tr&ecirc;s intervalos   est&atilde;o mostrados na parte do alto da <a href="#fig01">Figura 1</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Da Renascen&ccedil;a   aos dias de hoje – e em escala global, j&aacute; que a cultura europeia se difundiu   pelos cinco continentes – &eacute; muito prov&aacute;vel que a escala maior tenha sido aquela   mais empregada no repert&oacute;rio musical. Com base na escala maior, foi elaborada a   maior parte das melodias familiares a um brasileiro, por exemplo – das can&ccedil;ões   infantis (e.g. Ciranda cirandinha; Boi da cara preta), passando pelo repert&oacute;rio   da m&uacute;sica cl&aacute;ssica europeia (e.g. Ode &agrave; alegria, de Beethoven; Prel&uacute;dio em C   Maior de Bach), chegando no choro e no samba (e.g. O mundo &eacute; um moinho, de   Cartola; 1 x 0, de Pixinguinha).</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Os   intervalos musicais e suas respectivas razões num&eacute;ricas s&atilde;o facilmente   percebidos quando tocamos e ouvimos os harm&ocirc;nicos na corda de um viol&atilde;o em   vibra&ccedil;&atilde;o."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Neste texto, vamos discutir as rela&ccedil;ões entre os intervalos da escala   musical com os n&uacute;meros. Para tanto, &eacute; preciso introduzir aqui o conceito de <b>temperamento</b>,   que, de maneira simplificada, &eacute; a maneira de se "afinar" as notas – e,   portanto, as escalas – de um instrumento. Em que pese esse seja um tema que,   contemporaneamente, preocupe um n&uacute;mero reduzido de m&uacute;sicos, te&oacute;ricos da m&uacute;sica   e f&iacute;sicos – dado que um mesmo padr&atilde;o de afina&ccedil;&atilde;o &eacute; hoje adotado globalmente   pelos m&uacute;sicos e pela ind&uacute;stria dos instrumentos musicais –, o fato de uma mesma   escala poder ser afinada de maneiras distintas ensejou, historicamente, muitos   debates e modelos de temperamento alternativos. A t&iacute;tulo de exemplo, O Cravo   Bem Temperado (1720), de Johann Sebastian Bach, obra de enorme import&acirc;ncia para   a m&uacute;sica ocidental, composta por 24 prel&uacute;dios e 24 fugas – uma para cada   tonalidade (12 em escala maior e 12 em escala menor, de D&oacute; a Si) – carrega em   seu t&iacute;tulo a proposta de   um temperamento adequado &agrave; transposi&ccedil;&atilde;o da mesma escala a diferentes   tonalidades. O temperamento bachiano, a maneira como o compositor afinava seus   cravos e clavic&oacute;rdios, embora eficiente para que as qualidades intervalares da   escala maior fossem razoavelmente mantidas em todos os 12 tons, apresentava   diferen&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o ao temperamento que se tornar&aacute; hegem&ocirc;nico a partir dos s&eacute;culos XVIII e XIX.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A seguir,   mostraremos que fra&ccedil;ões de n&uacute;meros inteiros pequenos levam ao chamado   temperamento justo, que &eacute; pr&oacute;ximo daquele que usamos hoje em   dia – o temperamento igual – mas que tem uma tonalidade predominante.   Apresentaremos algumas questões que matem&aacute;ticos da Gr&eacute;cia antiga confrontaram   na afina&ccedil;&atilde;o de uma escala, oferecendo ao leitor o vislumbre dos variados   modelos poss&iacute;veis de temperamento que foram propostos da antiguidade &agrave;   modernidade. Finalmente, mostraremos como &eacute; constru&iacute;da a escala temperada,   aquela verificada nos instrumentos nos dias de hoje, com a qual uma m&uacute;sica pode   ser tocada, preservando&#45;se as mesmas rela&ccedil;ões intervalares, em qualquer   tonalidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Os   Harm&ocirc;nicos de um viol&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um viol&atilde;o &eacute;   um instrumento que nos permite realizar experi&ecirc;ncias bastante simples visando   entender a rela&ccedil;&atilde;o entre os sons da escala musical e os n&uacute;meros. Ele &eacute;   constitu&iacute;do de 6 cordas tensionadas entre duas extremidades. A tens&atilde;o na corda   pode ser variada girando&#45;se a tarraxa na extremidade do bra&ccedil;o do viol&atilde;o,   alterando&#45;se, assim, a nota musical. As cordas t&ecirc;m diferentes di&acirc;metros e s&atilde;o   formadas por diferentes materiais – como nylon e a&ccedil;o – e, assim, submetidas a   tensões diferentes e com di&acirc;metros distintos, cada uma soa uma nota musical   diferente. A parte da frente do bra&ccedil;o do viol&atilde;o &eacute; dividida por barrinhas de a&ccedil;o   encrustadas na madeira, que s&atilde;o chamadas de trastes. A superf&iacute;cie de madeira   onde est&atilde;o acoplados os trastes &eacute; chamada espelho.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os intervalos   musicais e suas respectivas razões num&eacute;ricas s&atilde;o facilmente   percebidos quando tocamos e ouvimos os harm&ocirc;nicos na corda de um viol&atilde;o em   vibra&ccedil;&atilde;o. Os harm&ocirc;nicos de vibra&ccedil;&atilde;o de uma corda tensionada s&atilde;o as maneiras com que ela pode vibrar quando tocada (as   primeiras sete maneiras s&atilde;o mostradas na <a href="#fig02">Figura 2</a>). O primeiro modo de   vibra&ccedil;&atilde;o, aquele do harm&ocirc;nico (ou modo) fundamental, est&aacute; no alto da figura;   ele apresenta um m&aacute;ximo – chamado de ventre – bem no meio da corda e s&oacute; apresenta pontos parados (chamados de n&oacute;s) nas duas   extremidades. O segundo harm&ocirc;nico, logo abaixo do fundamental, apresenta um   ponto parado (n&oacute;) bem no meio da corda. O terceiro harm&ocirc;nico apresenta dois n&oacute;s   em 1/3 e 2/3 do comprimento da corda, o quarto harm&ocirc;nico apresenta tr&ecirc;s n&oacute;s em   1/4, 2/4, 3/4 do seu comprimento, e assim por diante para os harm&ocirc;nicos de   ordem mais alta. Quando a corda do viol&atilde;o &eacute; tocada, embora o harm&ocirc;nico   fundamental seja preponderante, todos os harm&ocirc;nicos de ordem mais alta est&atilde;o tamb&eacute;m   presentes na vibra&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Tendo em   vista as posi&ccedil;ões de seus n&oacute;s, o segundo harm&ocirc;nico pode ser ouvido   quando, ao se colocar a corda em vibra&ccedil;&atilde;o, pousamos levemente o dedo na corda   sobre seu 12º traste, sem que ela encoste no traste, deixando&#45;a   solta para vibrar inteira. O 12º traste corresponde &agrave; metade (1/2)   do comprimento da corda (&agrave; metade da dist&acirc;ncia entre o rastilho e o   cavalete).   O leve apoio do dedo no meio da corda ir&aacute; abafar o modo fundamental, que tem um   ventre de vibra&ccedil;&atilde;o neste ponto, e ir&aacute; fazer com que soe de maneira mais   ressaltada o segundo harm&ocirc;nico, que tem um n&oacute; no meio da corda. De forma geral,   o harm&ocirc;nico de ordem <i>n</i> &eacute; ouvido quando a corda &eacute; levemente abafada em <i>1/n</i> do seu comprimento, j&aacute; que ele ter&aacute; um n&oacute; nesta posi&ccedil;&atilde;o. O terceiro harm&ocirc;nico   de vibra&ccedil;&atilde;o &eacute; ouvido ao se apoiar o dedo levemente   sobre a corda na posi&ccedil;&atilde;o do 7º traste, que corresponde a 1/3 do   comprimento da corda em vibra&ccedil;&atilde;o. O quarto, quinto e sexto harm&ocirc;nicos s&atilde;o   ouvidos apoiando&#45;se o dedo levemente sobre a corda na posi&ccedil;&atilde;o do 5º traste (1/4 da corda), do 4º traste (1/5 da corda), e do 3º traste (1/6 da corda), respectivamente. Esses harm&ocirc;nicos s&atilde;o mais facilmente   ouvidos quando tocamos na corda mais grave do viol&atilde;o. Experimente tocar os   harm&ocirc;nicos em um viol&atilde;o atentando&#45;se a como eles soam diferentes notas   musicais. Tente achar as posi&ccedil;ões em que a corda deve ser apoiada para que   sejam ouvidos o s&eacute;timo, oitavo e nono harm&ocirc;nicos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Como mostrado   na <a href="#fig02">Figura 2</a>, o comprimento de onda do harm&ocirc;nico de ordem <i>n</i> (<i>n</i>&#45;&eacute;simo   harm&ocirc;nico) &eacute; <i>n</i> vezes <b>menor</b> do que   comprimento de onda do harm&ocirc;nico fundamental. A f&iacute;sica mostra que o comprimento   de onda e a frequ&ecirc;ncia de vibra&ccedil;&atilde;o dos harm&ocirc;nicos da corda do viol&atilde;o s&atilde;o <b>inversamente   proporcionais</b>, sendo a constante de proporcionalidade dada pela velocidade   de propaga&ccedil;&atilde;o da onda na corda. Quanto menor for o comprimento de onda, maior   ser&aacute; a frequ&ecirc;ncia. Podemos ent&atilde;o concluir que a frequ&ecirc;ncia de vibra&ccedil;&atilde;o do <i>n</i>&#45;&eacute;simo   harm&ocirc;nico &eacute; <i>n</i> vezes <b>maior </b>do que a frequ&ecirc;ncia do harm&ocirc;nico   fundamental. A frequ&ecirc;ncia do segundo harm&ocirc;nico &eacute; o dobro da frequ&ecirc;ncia do   harm&ocirc;nico fundamental, a frequ&ecirc;ncia do terceiro harm&ocirc;nico ser&aacute; o triplo da   frequ&ecirc;ncia do harm&ocirc;nico fundamental, e assim por diante. Esta rela&ccedil;&atilde;o de   n&uacute;meros inteiros entre as frequ&ecirc;ncias dos diferentes modos de vibra&ccedil;&atilde;o   justifica a escolha da designa&ccedil;&atilde;o de harm&ocirc;nicos para as vibra&ccedil;ões da corda, por   demostrar uma harmonia na natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Vamos agora   comparar o intervalo dos sons entre o harm&ocirc;nico fundamental e o segundo   harm&ocirc;nico. Constatamos que o segundo harm&ocirc;nico corresponde &agrave; mesma nota do   harm&ocirc;nico fundamental, por&eacute;m numa oitava acima. Se a fundamental for um D&oacute;&#45;1, o   segundo harm&ocirc;nico ser&aacute; um D&oacute;&#45;2 da pr&oacute;xima escala. O intervalo musical entre   estas duas notas &eacute; o que os gregos chamavam de diapas&atilde;o, ou o que chamamos de   uma <b>oitava</b> na tradi&ccedil;&atilde;o ocidental. A rela&ccedil;&atilde;o de frequ&ecirc;ncias entre o   segundo harm&ocirc;nico e o fundamental &eacute; de <b>2/1</b>. A mesma rela&ccedil;&atilde;o vale para o   intervalo entre as frequ&ecirc;ncias do quarto harm&ocirc;nico e do segundo harm&ocirc;nico (4/2   = 2/1). Podemos ouvir o quarto harm&ocirc;nico apoiando o dedo sobre o 5º traste, que corresponde a 1/4 do comprimento da corda. A frequ&ecirc;ncia da nota do   quarto harm&ocirc;nico ser&aacute; 4 vezes maior do que a frequ&ecirc;ncia do modo fundamental, e   soar&aacute; como um D&oacute;&#45;3, duas oitavas acima do D&oacute;&#45;1. A frequ&ecirc;ncia do oitavo   harm&ocirc;nico soar&aacute; como um D&oacute;&#45;4, tr&ecirc;s oitavas acima do D&oacute;&#45;1.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O terceiro   harm&ocirc;nico &eacute; obtido abafando levemente a corda na posi&ccedil;&atilde;o do 7º traste do viol&atilde;o, que corresponde a 1/3 do seu comprimento. A frequ&ecirc;ncia de   vibra&ccedil;&atilde;o do terceiro harm&ocirc;nico da corda ser&aacute; 3 vezes a frequ&ecirc;ncia do harm&ocirc;nico   fundamental e, portanto, 3/2 vezes a frequ&ecirc;ncia do segundo harm&ocirc;nico. A   vibra&ccedil;&atilde;o da corda no terceiro harm&ocirc;nico soar&aacute; como uma outra nota musical.   Tocando o segundo harm&ocirc;nico e o terceiro harm&ocirc;nico, ouviremos um intervalo de   uma <b>quinta justa</b>. Se o segundo harm&ocirc;nico for um D&oacute;&#45;2, o terceiro   harm&ocirc;nico ser&aacute; um Sol&#45;2. A raz&atilde;o entre as frequ&ecirc;ncias do terceiro e do segundo   harm&ocirc;nicos &eacute; igual a <b>3/2</b>, e esta &eacute; a fra&ccedil;&atilde;o que associamos a qualquer   intervalo de quinta justa. Partindo de uma nota com determinada frequ&ecirc;ncia,   obt&eacute;m&#45;se a frequ&ecirc;ncia da nota que esteja uma quinta justa acima <b>multiplicando</b> a frequ&ecirc;ncia da primeira por 3/2.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Esta   rela&ccedil;&atilde;o de n&uacute;meros inteiros entre as frequ&ecirc;ncias dos diferentes modos de   vibra&ccedil;&atilde;o justifica a escolha da designa&ccedil;&atilde;o de harm&ocirc;nicos para as vibra&ccedil;&otilde;es da   corda, por demostrar uma harmonia na natureza."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Continuando a   busca sobre as rela&ccedil;ões entre fra&ccedil;ões de n&uacute;meros inteiros e intervalos   musicais, pode&#45;se obter a nota que est&aacute; a uma quinta justa abaixo de uma nota   inicial <b>dividindo</b> a frequ&ecirc;ncia da primeira por 3/2 (ou seja,   multiplicando a frequ&ecirc;ncia por 2/3). Como mostrado na <a href="#fig01">Figura 1</a>, uma quinta   justa corresponde ao intervalo de 7 semitons. Assim, uma quinta justa abaixo do D&oacute;&#45;2 ser&aacute; o F&aacute;&#45;1, que, por sua vez, &eacute; uma quarta justa   acima do D&oacute;&#45;1. A frequ&ecirc;ncia da nota que est&aacute; a uma quinta abaixo do D&oacute;&#45;2 &eacute;   obtida multiplicando 2 por 2/3, ou seja, 4/3. Conclu&iacute;mos assim que a fra&ccedil;&atilde;o <b>4/3</b>,   que &eacute; a raz&atilde;o entre as frequ&ecirc;ncias do F&aacute;&#45;1 e do D&oacute;&#45;1, est&aacute; associada ao   intervalo de uma <b>quarta justa</b>. O intervalo de quarta justa pode ser   escutado tocando&#45;se as notas do terceiro e do quarto harm&ocirc;nicos, apoiando&#45;se o   dedo no 7º traste (1/3 do comprimento) e no 5º traste   (1/4 do comprimento), respectivamente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Escalas   pitag&oacute;ricas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Pit&aacute;goras de   Samos viveu no s&eacute;culo quinto A.C. e, al&eacute;m de formular o famoso teorema sobre os   lados de um tri&acirc;ngulo ret&acirc;ngulo, se dedicou ao estudo de vibra&ccedil;ões em objetos   que emitiam sons, como cordas tensionadas, tubos e garrafas de vidro contendo   diferentes quantidades de &aacute;gua. O trabalho sobre os sons e vibra&ccedil;ões de   Pit&aacute;goras &eacute; um exemplo pioneiro de ci&ecirc;ncia experimental feita na antiguidade.<sup>&#91;5&#93;</sup> Ele criou uma escola na cidade de Croton, no sul da It&aacute;lia e, junto com seus   disc&iacute;pulos, tratou matematicamente a escala musical, baseando&#45;se no estudo de   uma corda dividida em duas, tr&ecirc;s e quatro partes. Eles nomearam o intervalo   correspondente &agrave; fra&ccedil;&atilde;o 3/2 como <i>diapente</i> (intervalo que na teoria   musical contempor&acirc;nea &eacute; a quinta justa) e a fra&ccedil;&atilde;o 4/3 como <i>diateresson</i> (intervalo de quarta justa), desenvolvendo escalas cujas notas s&atilde;o obtidas a   partir das rela&ccedil;ões de quartas e quintas justas. Matematicamente, o   procedimento pitag&oacute;rico para gerar uma escala musical consiste em multiplicar   valores de frequ&ecirc;ncia por 3/2 e por 4/3. Para que os resultados fiquem na mesma   oitava, os valores devem estar entre 1 e 2. Assim, se o valor obtido na   multiplica&ccedil;&atilde;o for maior que 2, a regra &eacute; dividi&#45;lo por 2, o que corresponde a   jogar a nota para a oitava de baixo. Diferentes conjuntos de fra&ccedil;ões e tipos de   escalas musicais s&atilde;o obtidos se considerarmos regras de aplica&ccedil;ões de quintas e   quartas justas. A regra pode ser apenas aplica&ccedil;ões sucessivas de quintas justas   (multiplicar por 3/2), ou pode ser apenas aplica&ccedil;ões sucessivas de quartas   justas (multiplicar por 4/3), ou ainda regras que incluam tanto quartas justas   como quintas justas. Cada uma destas escolhas levar&aacute; a uma escala distinta,   correspondente a um dos modos gregos, como veremos adiante.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como um   exemplo, vamos construir a escala musical considerando a regra de partir dos   intervalos de quarta justa e quinta justa e   gerar notas com intervalos sucessivos de quintas justas acima. Matematicamente   isto equivale a partir das fra&ccedil;ões 3/2 e 4/3, e multiplic&aacute;&#45;las sucessivamente   por 3/2, eventualmente dividindo por 2 se a fra&ccedil;&atilde;o obtida for maior do que 2.   Por exemplo, a quinta justa de uma quinta justa corresponde a multiplica&ccedil;&atilde;o 3/2   x 3/2, que &eacute; igual a 9/4. Mas como a fra&ccedil;&atilde;o 9/4 &eacute; maior do que 2, precisamos   dividi&#45;la por 2, obtendo, assim, a fra&ccedil;&atilde;o <b>9/8 </b>que est&aacute; na oitava de   baixo. Essa fra&ccedil;&atilde;o est&aacute; associada ao intervalo de 1 <b>tom</b>, tamb&eacute;m chamado   de <b>segunda maior</b>. Se a corda estiver afinada em D&oacute;, a nota R&eacute; ter&aacute; a   frequ&ecirc;ncia 9/8 vezes maior do que a frequ&ecirc;ncia do D&oacute;. Continuando o   procedimento, vamos considerar uma quinta justa acima de uma segunda maior, ou   seja, a multiplica&ccedil;&atilde;o 3/2 x 9/8 = <b>27/16</b>. Esta fra&ccedil;&atilde;o corresponde a um   intervalo de <b>sexta maior</b>, e a nota soar&aacute; como um L&aacute;. Aplicando agora um   intervalo de quinta justa sobre a fra&ccedil;&atilde;o 27/16, chegamos agora a 27/16 x 3/2 =   81/32. Como esta &eacute; uma fra&ccedil;&atilde;o maior do que 2, precisamos dividi&#45;la por 2 para   chegarmos a uma nota dentro da primeira oitava, obtendo ent&atilde;o a fra&ccedil;&atilde;o <b>81/64</b>.   Esta fra&ccedil;&atilde;o &eacute;   associada ao intervalo de <b>ter&ccedil;a maior</b> e a nota soar&aacute; como um Mi.   Finalmente, aplicando o intervalo de uma quinta justa sobre a fra&ccedil;&atilde;o 81/64,   chegamos a 3/2 x 81/64 = 243/128, que corresponde a um intervalo de <b>s&eacute;tima   maior</b>, sendo a fra&ccedil;&atilde;o <b>243/128</b> associada a nota Si. O conjunto de   fra&ccedil;ões que chegamos acima considerando a regra de aplica&ccedil;&atilde;o de quintas justas   acima d&aacute; origem &agrave; escala musical mostrada na <a href="#fig03">Figura 3</a>.</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08fig03.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Dividindo a   fra&ccedil;&atilde;o de uma nota pela fra&ccedil;&atilde;o da nota anterior, verificamos que elas est&atilde;o   separadas apenas por dois diferentes intervalos de frequ&ecirc;ncias, que est&atilde;o   representados pelas fra&ccedil;ões em vermelho na <a href="#fig03">figura 3</a>. Repare que existe uma   fra&ccedil;&atilde;o para o tom, que &eacute; igual a 9/8, e a fra&ccedil;&atilde;o que corresponde a um semitom &eacute;   256/243. Repare que o intervalo de dois semitons, ou seja, a <b>multiplica&ccedil;&atilde;o</b> (256/243) x (256/243) = 1,110, &eacute; diferente do intervalo de um tom, ou seja, 9/8   = 1,125. Esta escala &eacute; apropriada para tocar m&uacute;sicas em determinadas   tonalidades, mas n&atilde;o permite a transposi&ccedil;&atilde;o, ou seja, a tocar a mesma m&uacute;sica,   mas num outro tom.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; uma caracter&iacute;stica da   intelig&ecirc;ncia musical humana   distinguir   frequ&ecirc;ncias sonoras e um m&uacute;sico treinado &eacute; capaz de reconhecer intervalos   musicais por reflexo, sem realizar c&aacute;lculos mentalmente. Com base nessa fun&ccedil;&atilde;o   cognitiva humana, a qualidade sonora de uma escala est&aacute; calcada na sequ&ecirc;ncia   intervalar singular de tons (T) e semitons (S) que lhe &eacute; caracter&iacute;stica (como   T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S da escala J&ocirc;nica   mostrada na <a href="#fig03">figura 3</a>, por exemplo). A partir   daqui, &eacute; preciso ter&#45;se em mente tamb&eacute;m que essa sequ&ecirc;ncia depende da   determina&ccedil;&atilde;o de uma nota como inicial ou principal, a nota a qual   considerar&#45;se&#45;&aacute; o 1º grau da escala (a t&ocirc;nica). Nessa opera&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&atilde;o de   uma t&ocirc;nica, sequ&ecirc;ncias de notas s&atilde;o "hierarquizadas", pois a uma delas &eacute; atribu&iacute;da uma   centralidade referencial, enquanto as demais passam a ter qualidades relativas,   vinculadas &agrave;s suas dist&acirc;ncias da t&ocirc;nica. Observe&#45;se, assim, que a   partir de uma escala heptat&ocirc;nica, seis outras podem ser alcan&ccedil;adas por   deriva&ccedil;&atilde;o, por meio da mudan&ccedil;a da nota t&ocirc;nica. Este &eacute; o caso dos chamados modos   eclesi&aacute;sticos ou gregos – repert&oacute;rio escalar de base da m&uacute;sica medieval e   renascentista europeia – que podem ser obtidos a partir do deslocamento da   t&ocirc;nica a partir da sequ&ecirc;ncia intervalar do modo j&ocirc;nio, como pode&#45;se observar   abaixo:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana">J&ocirc;nio – T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">D&oacute;rio – T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">Fr&iacute;gio – S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">L&iacute;dio – T&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;S</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Mixol&iacute;dio – T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">E&oacute;lio – T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T</font></p>       <p><font size="2" face="verdana">L&oacute;crio – S&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; importante comentar que podemos   obter outros conjuntos de fra&ccedil;ões, e, portanto, outras escalas pitag&oacute;ricas, se   considerarmos os intervalos de quartas justas acima, o que corresponde a   multiplicar a frequ&ecirc;ncia de um tom sucessivamente por 4/3 e eventualmente   dividir por 2 se o n&uacute;mero for maior do que 2. Aplicando este procedimento,   obtemos duas novas fra&ccedil;ões, 16/9 e 32/27, e com elas chegamos a uma nova escala   heptat&ocirc;nica representadas pelas fra&ccedil;ões 1, 9/8, 32/27, 4/3, 3/2, 27/16, 16/9 e   2. Dividindo cada um destes n&uacute;meros pelo anterior chegamos &agrave;s fra&ccedil;ões 9/8,   256/243, 9/8, 9/8, 9/8, 256/243, 9/8 que correspondem aos mesmos valores de   tons e semitons da <a href="#fig03">Figura 3</a>, mas com a sequ&ecirc;ncia do modo D&oacute;rio. Ou seja, a   escala pitag&oacute;rica n&atilde;o &eacute; &uacute;nica, mas diferentes regras levam a diferentes   conjuntos de fra&ccedil;ões cujas separa&ccedil;ões intervalares d&atilde;o origem a diferentes   modos gregos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A   escala justa (ou o temperamento justo)</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uma outra   contribui&ccedil;&atilde;o importante vinculada ao desenvolvimento de escalas musicais veio   do astr&ocirc;nomo de Alexandria, Claudius Ptolomeu, que viveu no segundo s&eacute;culo   DC. Um dos livros mais importantes de   Ptolomeu &eacute; chamado <i>Sobre Harm&ocirc;nicos</i> e cont&eacute;m,   entre muitas outras coisas, novas ideias de como compreender as escalas   musicais &#91;Johnston 1989&#93;. As razões da escala ptolomaica s&atilde;o bem pr&oacute;ximas do   temperamento que usamos atualmente. Em particular, ela se deve &agrave; associa&ccedil;&atilde;o de outras fra&ccedil;ões (al&eacute;m de 3/2 e 4/3) a   intervalos musicais, considerando harm&ocirc;nicos de ordem mais alta.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Vamos   considerar o quinto harm&ocirc;nico da corda de um viol&atilde;o, que pode ser escutado   tocando com um dedo levemente apoiado na corda sobre o 4ºtraste do   viol&atilde;o, que corresponde a aproximadamente 1/5 do seu comprimento, mas sem   encostar a corda no traste. A raz&atilde;o entre as frequ&ecirc;ncias do quinto harm&ocirc;nico   (4º traste) e quarto harm&ocirc;nico (5º traste) &eacute;   igual a <b>5/4</b> e o intervalo musical entre as notas que soam estes harm&ocirc;nicos &eacute; de uma <b>ter&ccedil;a   maior</b>. Ou seja, se o quarto harm&ocirc;nico for um D&oacute;&#45;3, o quinto harm&ocirc;nico ser&aacute; um Mi&#45;3.   Repare que este valor 5/4 = 1,25 &eacute; pr&oacute;ximo, por&eacute;m distinto, do valor do   intervalo de ter&ccedil;a maior da escala pitag&oacute;rica discutida acima, 81/64 = 1,266.   Ptolomeu mostrou que a conex&atilde;o entre a l&oacute;gica aritm&eacute;tica e a est&eacute;tica musical   n&atilde;o era &uacute;nica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; interessante notar   que as tr&ecirc;s notas   fundamental, ter&ccedil;a maior (5/4) e quinta justa (3/2) formam   uma tr&iacute;ade maior, que &eacute; o chamado <b>acorde maior</b> comumente usado em   diversas culturas e estilos musicais. Estas tr&ecirc;s notas correspondem de fato aos   sons do quarto, quinto e sexto harm&ocirc;nicos mostrados na <a href="#fig02">Figura 2</a>. Continuando a   investiga&ccedil;&atilde;o dos intervalos musicais e razões entre estes harm&ocirc;nicos, uma pr&oacute;xima   fra&ccedil;&atilde;o que surge &eacute; <b>5/3</b>. O intervalo musical entre as notas do terceiro e   do quinto harm&ocirc;nico pode ser escutado apoiando&#45;se o dedo no 7º traste (terceiro harm&ocirc;nico) e no 4º traste (quinto harm&ocirc;nico), e   corresponde a uma <b>sexta maior</b>. Ou seja, se multiplicarmos a frequ&ecirc;ncia   do D&oacute; por 5/3, obtemos a sexta nota da escala   musical, ou seja, o L&aacute;. Repare   que o valor da sexta maior da escala ptolomaica (5/3 = 1,666) &eacute; pr&oacute;ximo, mas   n&atilde;o exatamente igual, ao valor da sexta maior da escala pitag&oacute;rica discutida   anteriormente (27/16 = 1,688).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Se a corda   estiver afinada em D&oacute;&#45;1, o oitavo harm&ocirc;nico ser&aacute; um D&oacute;&#45;4. Escutando os sons do   oitavo e nono harm&ocirc;nicos podemos constatar que o nono harm&ocirc;nico ser&aacute; um R&eacute;&#45;4.   Assim, a frequ&ecirc;ncia da nota R&eacute; ser&aacute; a frequ&ecirc;ncia da nota D&oacute; multiplicada por <b>9/8</b>, estando esta fra&ccedil;&atilde;o associada ao   intervalo de <b>segunda maior</b>. Finalmente o intervalo de <b>s&eacute;tima maior </b>(e   da nota Si) &eacute; obtido multiplicando a frequ&ecirc;ncia do D&oacute; fundamental pelo   intervalo de uma quinta (3/2) e depois pelo intervalo de uma ter&ccedil;a (5/4), ou   seja, 3/2 x 5/4 = <b>15/8</b>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Chegamos   assim a uma escala com fra&ccedil;ões entre n&uacute;meros inteiros pequenos, que &eacute; a chamada   escala em entona&ccedil;&atilde;o justa, representada na <a href="#fig04">Figura 4</a>. Dividindo a fra&ccedil;&atilde;o de uma   nota pela fra&ccedil;&atilde;o da nota anterior, verificamos que essas notas est&atilde;o separadas   por tr&ecirc;s diferentes intervalos, representados pelas fra&ccedil;ões em vermelho na <a href="#fig04">Figura 4</a>. Repare que existe uma &uacute;nica fra&ccedil;&atilde;o para o semitom, que &eacute; igual a   16/15, mas existem duas fra&ccedil;ões para um tom inteiro, o 9/8 e o 10/9. Como esta   escala foi obtida a partir dos harm&ocirc;nicos de uma nota D&oacute;, ela pode soar bem ao se tocar   uma m&uacute;sica no tom de D&oacute;   maior.   Ela &eacute; assim   designada como escala em entona&ccedil;&atilde;o justa em D&oacute;. No entanto, se nos ativ&eacute;ssemos   &agrave; mesma estrutura de rela&ccedil;ões e reproduz&iacute;ssemos uma mesma melodia partindo de   outro tom (outra nota), essa melodia apresentaria rela&ccedil;ões intervalares   (razões) diferentes daquela elaborada na tonalidade de D&oacute; e soaria   "desafinada".</font></p>     <p><a name="fig04"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08fig04.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute; dois   aspectos cuja import&acirc;ncia deve aqui ser salientada. O primeiro &eacute; que as escalas   s&atilde;o constru&iacute;das a partir de fra&ccedil;ões de n&uacute;meros inteiros pequenos (3/2, 4/3 e   5/4), como vimos. O segundo &eacute; que, a depender de como essas razões s&atilde;o   empregadas para a gera&ccedil;&atilde;o de outras notas, teremos escalas formadas por   propor&ccedil;ões num&eacute;ricas distintas. Ressaltemos que essas diferen&ccedil;as podem se dar   tanto nas sequ&ecirc;ncias de tons e semitons que configuram uma dada escala – por   exemplo, T&#45;T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S, referente ao modo j&ocirc;nio, ou T&#45;S&#45;T&#45;T&#45;T&#45;S&#45;T, referido ao   modo d&oacute;rio – quanto nas razões espec&iacute;ficas dos tons e semitons – o que pode ser   observado na escala justa, com um tom de 9/8 e outro de 10/9, ou na compara&ccedil;&atilde;o   entre ela e a escala pitag&oacute;rica, uma com um semitom de 16/15 e, a outra, com um   semitom de 256/243. Essas diverg&ecirc;ncias (sonoramente) mais sutis entre tons e   semitons s&atilde;o as diferen&ccedil;as entre temperamento, modos de entona&ccedil;&atilde;o: uma mesma   escala pode, portanto, ser afinada de maneiras distintas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A   escala temperada</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Apenas no   s&eacute;culo XVI surgiram as primeiras propostas de solu&ccedil;ões para o problema da   transposi&ccedil;&atilde;o de tonalidades, sobretudo com os trabalhos do chin&ecirc;s Zhu Zaiyu e   do belga Simon Stevin, que deram origem ao desenvolvimento da escala temperada – ou   o temperamento igual –   que &eacute; a escala que usamos hoje. Sua ampla utiliza&ccedil;&atilde;o no ocidente se consolidou   definitivamente apenas em fins do s&eacute;culo XVIII. Na escala temperada, todos os   12 semitons da escala musical correspondem a um mesmo intervalo, ou seja, a <b>raz&atilde;o</b> entre as frequ&ecirc;ncias de um tom e seu semitom anterior &eacute; sempre um mesmo n&uacute;mero, que vamos denominar por <i>f</i>.   As razões de frequ&ecirc;ncias das 12 notas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; nota fundamental s&atilde;o,   portanto, dadas pelas pot&ecirc;ncias de <i>f</i>, ou seja, <i>1, f, f<sup>2</sup>,   f<sup>3</sup>, f<sup>4</sup>, f<sup>5</sup>, f<sup>6</sup>, f<sup>7</sup>, f<sup>8</sup>,   f<sup>9</sup>, f<sup>10</sup>, f<sup>11</sup> </i>e<i> f<sup>12</sup></i>. A   12ª pot&ecirc;ncia de <i>f</i> corresponde ao intervalo de uma oitava, onde a raz&atilde;o das frequ&ecirc;ncias &eacute; igual a 2. Temos,   portanto, que <i>f<sup>12</sup></i> = 2, de onde podemos concluir que:</font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08img01.jpg"></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">O n&uacute;mero <i>f</i> se refere ao intervalo de um semitom. Isto significa que a frequ&ecirc;ncia de um tom   &eacute; <i>f</i> vezes maior do que a frequ&ecirc;ncia de seu semitom anterior. A   frequ&ecirc;ncia do D&oacute;# &eacute; <i>f</i> vezes a frequ&ecirc;ncia do D&oacute; e a frequ&ecirc;ncia do R&eacute; &eacute; <i>f</i> vezes a frequ&ecirc;ncia do D&oacute;#. Portanto, a frequ&ecirc;ncia do R&eacute; &eacute; <i>f<sup>2</sup></i> vezes a frequ&ecirc;ncia do D&oacute;. O intervalo de um tom vale ent&atilde;o <i>f<sup>2</sup></i> = 1,122462. O diagrama da escala temperada est&aacute; mostrado na <a href="#fig05">Figura 5</a>.</font></p>     <p><a name="fig05"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08fig05.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A <a href="#tab01">Tabela 1</a> compara os n&uacute;meros que correspondem &agrave;s razões de frequ&ecirc;ncia para todos os   intervalos musicais, para a escala justa obtida atrav&eacute;s dos harm&ocirc;nicos de uma   corda e para a escala temperada. Repare que o intervalo de quinta justa, que &eacute;   associado &agrave; fra&ccedil;&atilde;o 3/2 = 1,5 na escala justa, corresponde a <i>f<sup>7</sup></i> = 1,498307 na escala temperada. Estes n&uacute;meros s&atilde;o diferentes, mas muito   pr&oacute;ximos, diferindo apenas de 0,11%. Apenas ouvidos bastante musicais conseguem   perceber esta diferen&ccedil;a. O intervalo de quarta justa, que vem da fra&ccedil;&atilde;o 4/3 =   1,333 na escala justa, corresponde a <i>f<sup>5</sup></i> = 1,33484   na escala temperada,   n&uacute;meros pr&oacute;ximos diferindo tamb&eacute;m de apenas 0,11%. O   intervalo de ter&ccedil;a maior, que &eacute; de 5/4 = 1,25 na escala justa vale <i>f<sup>4</sup></i> = 1,259921 na escala   temperada, uma diferen&ccedil;a neste caso de 0,8%. Os demais intervalos est&atilde;o   nomeados na tabela abaixo, onde s&atilde;o mostrados os valores das fra&ccedil;ões associadas   a cada nota musical, assim como os valores das pot&ecirc;ncias do n&uacute;mero <i>f</i> =   1,059463, que correspondem &agrave;s razões de frequ&ecirc;ncias das notas dos   instrumentos musicais que hoje temos a disposi&ccedil;&atilde;o, como, por exemplo, o viol&atilde;o   e o piano</font></p>     <p><a name="tab01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a08tab01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">H&aacute; duas   no&ccedil;ões estreitamente vinculadas &agrave;s rela&ccedil;ões num&eacute;ricas entre os   intervalos musicais: as de conson&acirc;ncia e disson&acirc;ncia. De maneira geral,   tratando das alturas (das notas), podemos dizer que rela&ccedil;ões intervalares   matematicamente mais simples produzem sonoridades mais consonantes e que   aquelas mais complexas geram sons mais dissonantes. A hist&oacute;ria da m&uacute;sica   ocidental e as diferentes tradi&ccedil;ões musicais n&atilde;o ocidentais, estudadas por   etnomusic&oacute;logos, nos evidenciam, entretanto, que as rela&ccedil;ões entre os fen&ocirc;menos   naturais e os culturais n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o diretas. A t&iacute;tulo de exemplo, embora a   quinta e a quarta justas (3/2 e 4/3, respectivamente) tenham sido dois   intervalos privilegiados na alta Idade M&eacute;dia, sobretudo no g&ecirc;nero musical que   ganhou o nome de Organum Paralelum, a partir da Renascen&ccedil;a, em comp&ecirc;ndios de   ensino de contraponto, ver&#45;se&#45;&aacute; a indica&ccedil;&atilde;o de que a quarta justa &eacute; uma   disson&acirc;ncia e que a quinta justa n&atilde;o deve   ser empregada consecutivamente pelas mesmas duas vozes, pois esse encadeamento   era considerado "&aacute;spero". No mesmo contexto renascentista, os intervalos de   ter&ccedil;a (maior e menor, 5/4 e 6/5, respectivamente) s&atilde;o os considerados mais   consonantes, a sonoridade "doce" – como textualmente disse o te&oacute;rico da m&uacute;sica   italiano Gioseffo Zarlino (1517&#45;1590) –, adequada ao gosto da &eacute;poca. &Eacute; poss&iacute;vel que isso se deva a uma ruptura com procedimentos da m&uacute;sica   europeia de s&eacute;culos anteriores – como aquela do Ars Nova. Por outro lado, a   disson&acirc;ncia pode se relacionar ao contraste. Quando ouvimos m&uacute;sicas que   privilegiam determinadas rela&ccedil;ões (digamos, as ter&ccedil;as, por exemplo), um intervalo   diferente se destacar&aacute; pela diferen&ccedil;a. O sistema tonal, que se constitui a   partir do s&eacute;culo XVII, por exemplo, &eacute; baseado em um jogo   contrastivo de tens&atilde;o   e repouso opondo intervalos dissonantes (mormente a quinta diminuta) e   consonantes (a ter&ccedil;a).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;1&#93;   CONARD, Nicholas J.; MALINA, Maria; M&Uuml;NZEL, Susanne C. New flutes document the   earliest musical tradition in southwestern Germany. Nature, Londres, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144052&pid=S0009-6725202600010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;2&#93;   WEST, M. L. The Babylonian musical notation and the Hurrian melodic texts.   Music &amp; Letters, Oxford, 1994.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144054&pid=S0009-6725202600010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;3&#93;   JOHNSTON, Ian. Measured tones: the interplay of physics and music. Bristol;   Philadelphia: IOP Publishing, 1989.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144056&pid=S0009-6725202600010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;4&#93;   YARMAN, Ozan. 79&#45;tone tuning &amp; theory for Turkish maqam music: solution to   the non&#45;conformance between current model and practice. 2008. Tese (Doutorado)   – Institute of Sonology, Istanbul Technical University, Istambul, 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144058&pid=S0009-6725202600010000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;5&#93;   MAOR, Eli. Music by the numbers: from Pythagoras to Schoenberg. Princeton:   Princeton University Press, 2018</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144060&pid=S0009-6725202600010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
<back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[CONARD]]></surname>
<given-names><![CDATA[Nicholas J.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[MALINA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[MÜNZEL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Susanne C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[New flutes document the earliest musical tradition in southwestern Germany]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Nature]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WEST]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Babylonian musical notation and the Hurrian melodic texts]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-loc><![CDATA[Oxford ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Music & Letters]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[JOHNSTON]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ian]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Measured tones: the interplay of physics and music]]></source>
<year>1989</year>
<publisher-loc><![CDATA[Bristol; Philadelphia ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[IOP Publishing]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[YARMAN]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ozan]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[79-tone tuning & theory for Turkish maqam music: solution to the non-conformance between current model and practice]]></source>
<year>2008</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[MAOR]]></surname>
<given-names><![CDATA[Eli]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Music by the numbers: from Pythagoras to Schoenberg]]></source>
<year>2018</year>
<publisher-loc><![CDATA[Princeton ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Princeton University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
