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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260010</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>O   mundo da can&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Luiz Tatit<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor Titular do Departamento de Lingu&iacute;stica da Faculdade de   Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo. &Eacute; compositor, cantor, violonista, e semioticista, com v&aacute;rios livros e &aacute;lbuns lan&ccedil;ados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Subjetividade   inerente</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mais que   outras formas de manifesta&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, a can&ccedil;&atilde;o tende a expor seus autores e   int&eacute;rpretes aos ouvidos e olhares p&uacute;blicos. Mesmo quando os indicadores "eu",   "pra mim", "comigo" ou qualquer outra refer&ecirc;ncia &agrave;   primeira pessoa desaparecem de suas letras, h&aacute; sempre o som da voz nos   lembrando que algu&eacute;m est&aacute; &agrave; frente do processo cancional, expressando opiniões,   sentimentos, atitudes ou simplesmente contando hist&oacute;rias de modo   invariavelmente envolvido. N&atilde;o se pode ser objetivo numa   can&ccedil;&atilde;o, pois a melodia n&atilde;o deixa. Pode&#45;se quando muito diminuir o grau de   subjetividade da letra, falando de assuntos que n&atilde;o se remetem diretamente ao   eu l&iacute;rico, embora, mesmo assim, brotem sinais de uma vis&atilde;o de mundo particular.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um bom   exemplo &eacute; "Lugar Comum" (Jo&atilde;o Donato / Gilberto Gil). Seus versos n&atilde;o fazem   alus&atilde;o expl&iacute;cita ao mundo interior de quem os enuncia, mas a melodia, com seus   motivos quase iguais em descend&ecirc;ncia progressiva ("A &aacute;gua bateu / O vento   soprou / O fogo do sol / O sal do senhor"), assegura a identidade entre esses   temas sonoros e, desse modo, revela a paz interior de quem pode prever no seu   canto o movimento ritual&iacute;stico da natureza. "Prever" &eacute; alimentar a espera e de   certo modo afastar o inc&ocirc;modo das ocorr&ecirc;ncias bruscas e fortuitas. Toda vez que   os contornos mel&oacute;dicos se reiteram, ainda que evoluindo gradativamente para a   regi&atilde;o aguda ou grave do campo de tessitura de uma can&ccedil;&atilde;o, configura&#45;se uma   previs&atilde;o na rota do canto suficientemente concreta para demonstrar a confian&ccedil;a   do int&eacute;rprete no percurso escolhido. Nesse sentido, a melodia em si j&aacute; se   encarrega de expor o universo subjetivo do autor&#45;cantor antes mesmo das   precisões enunciativas trazidas pela letra. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a10fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"No mundo   da can&ccedil;&atilde;o o destino de toda melodia &eacute; se transformar tamb&eacute;m num modo de dizer."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Acontece que   todas as frases mel&oacute;dicas, mesmo as que s&atilde;o concebidas de um &acirc;ngulo   estritamente musical, tornam&#45;se tamb&eacute;m unidades entoativas, com for&ccedil;a   pros&oacute;dica, a partir do instante em que come&ccedil;am a conviver com as frases verbais   propostas pelo letrista. Depois do recorte lingu&iacute;stico, a melodia passa a ser   ouvida de outro jeito: mant&eacute;m suas caracter&iacute;sticas musicais, mas agora seus   contornos inauguram um "modo de dizer" a letra. O processo em si n&atilde;o &eacute; muito   distante do que produzimos diariamente em nossas falas, dado que n&atilde;o h&aacute; frase   oral desprovida de inflex&atilde;o entoativa. Mas enquanto aqui as curvas se   apresentam inst&aacute;veis em suas alturas e dura&ccedil;ões voc&aacute;licas, as melodias   cancionais, em geral, se definem e se estabilizam seguindo par&acirc;metros musicais.   Por isso, podemos dizer que a linha mel&oacute;dica do canto traz sempre um valor   musical associado a um valor entoativo, ou seja, uma forma sonora impregnada de   vigor pros&oacute;dico. Por isso, tamb&eacute;m, todos os falantes de uma l&iacute;ngua natural   est&atilde;o aptos a compreender e desfrutar a linguagem da can&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Por mais   musical que seja o pensamento do melodista, n&atilde;o h&aacute; como evitar a prosodiza&ccedil;&atilde;o   da sua obra depois da a&ccedil;&atilde;o do letrista. Por isso, como j&aacute; destacamos, no mundo   da can&ccedil;&atilde;o o destino de toda melodia &eacute; se transformar tamb&eacute;m num modo de dizer.   Claro que essa transforma&ccedil;&atilde;o pode ser graduada pelo autor da letra. No nosso   exemplo, Jo&atilde;o Donato havia composto sua melodia sem o intuito de convert&ecirc;&#45;la em   can&ccedil;&atilde;o. Tudo indica que Gilberto Gil escreveu seus versos respeitando esse   des&iacute;gnio inicial e fazendo o poss&iacute;vel para n&atilde;o interferir demais no projeto   musical do parceiro. Da&iacute; a dist&acirc;ncia enunciativa cultivada no texto, com um   "eu" quase ausente, apenas pressuposto, e a contempla&ccedil;&atilde;o isenta das flutua&ccedil;ões   da natureza. Ou seja, n&atilde;o podendo dissipar a for&ccedil;a pros&oacute;dica do canto, s&oacute; resta   ao autor amenizar seu envolvimento subjetivo com recursos lingu&iacute;sticos que   evitem remissões diretas &agrave; primeira pessoa. Parece ter sido essa a op&ccedil;&atilde;o de   Gilberto Gil. Nem assim, por&eacute;m, conseguiu libertar a can&ccedil;&atilde;o de seu sujeito. Os   torneios da voz s&atilde;o suficientes para indicar que h&aacute; algu&eacute;m sens&iacute;vel conduzindo   os conte&uacute;dos da letra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">De acordo com   essas observa&ccedil;ões, ainda que o interesse musical seja prevalente numa dada   composi&ccedil;&atilde;o, a obra n&atilde;o se completa sem as figuras enunciativas, ou seja, sem a   impress&atilde;o de que as inflexões mel&oacute;dicas podem ser ouvidas tamb&eacute;m como modos de   dizer de um sujeito, semelhantes aos que conhecemos no dia a dia. S&oacute; a&iacute;   entramos de vez no universo da can&ccedil;&atilde;o. Trata&#45;se, portanto, de uma tend&ecirc;ncia   natural &agrave; subjetiva&ccedil;&atilde;o que, em algumas fases da produ&ccedil;&atilde;o   brasileira, acentuou&#45;se a ponto de o pr&oacute;prio ato de compor confundir&#45;se com   revela&ccedil;ões &iacute;ntimas do enunciador. &Eacute; o que se verificava, por exemplo, na era do   samba&#45;can&ccedil;&atilde;o. Melodia e letra dividiam a responsabilidade pela superexposi&ccedil;&atilde;o   do int&eacute;rprete. Mesmo conservando um comportamento samb&iacute;stico de fundo, a   desacelera&ccedil;&atilde;o geral das obras contribu&iacute;a para que as notas se desagregassem de   seus motivos e se individualizassem como lamentos pontuais dos cantores e ainda   se expandissem pelos vastos campos de tessitura, desenhando trajet&oacute;rias vocais   tradicionalmente associadas &agrave;s buscas afetivas expressas ou sugeridas nas   letras. E essas &uacute;ltimas vinham carregadas de refer&ecirc;ncias &agrave; primeira pessoa, o   que refor&ccedil;ava ainda mais a exposi&ccedil;&atilde;o subjetiva do dono (ou dona) da voz. Essas   caracter&iacute;sticas foram bem captadas por Ruy Castro, quando, em seu excelente "<i>A   Noite do Meu Bem</i>", comenta a atua&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica de Tito Madi nas d&eacute;cadas de   1950 e 1960:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Pela     natureza do samba&#45;can&ccedil;&atilde;o, com seu car&aacute;ter confessional e na primeira pessoa, o     cantor&#45;compositor transcendia o simples int&eacute;rprete. Era como se ele estivesse     se abrindo para o ouvinte, partilhando suas intimidades. E era f&aacute;cil acreditar     no que Tito cantava porque, em pessoa, mesmo sob a luz do palco, ele se parecia     com o personagem de suas letras – um homem que carregava toda a tristeza do     mundo<sup>1&#93;</sup></i></font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Espectro   entoativo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora se   manifeste de maneira exemplar no repert&oacute;rio do samba&#45;can&ccedil;&atilde;o, essa tend&ecirc;ncia   para expor o universo subjetivo &eacute; constitutiva da pr&oacute;pria linguagem cancional,   variando apenas a intensidade com que comparece em cada obra. A subjetiva&ccedil;&atilde;o &eacute;   fruto da necess&aacute;ria depend&ecirc;ncia entre os componentes mel&oacute;dico e lingu&iacute;stico   criada por toda e qualquer composi&ccedil;&atilde;o. Essa depend&ecirc;ncia j&aacute; &eacute; fato   conhecido nos coment&aacute;rios sobre can&ccedil;&atilde;o, mas cremos que nem sempre seja bem   compreendida.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao unir&#45;se a   uma letra a "melodia musical" continua existindo, mas ganha outra fei&ccedil;&atilde;o, pois   passamos a ouvir tamb&eacute;m o seu espectro entoativo. O canto sugere que seus   contornos possam ser ouvidos como curvas pros&oacute;dicas inerentes &agrave;s frases   verbais. Mesmo que nunca coincidam exatamente com uma modula&ccedil;&atilde;o concreta da   linguagem oral, tais contornos – quase sempre inusitados – trazem oscila&ccedil;ões   reconhec&iacute;veis no &acirc;mbito da comunidade em que foram produzidos. Esse   reconhecimento natural por parte dos ouvintes &eacute; um efeito da rela&ccedil;&atilde;o de   depend&ecirc;ncia entre melodia e letra. Ainda que seja de dif&iacute;cil demonstra&ccedil;&atilde;o e   permane&ccedil;a como o grande "segredo" da can&ccedil;&atilde;o, a depend&ecirc;ncia entre os dois   componentes pode ser evidenciada nos casos em que, pela a&ccedil;&atilde;o da letra, as   frases musicais se fundem ou se subdividem em modula&ccedil;ões pros&oacute;dicas com outras   dimensões e outros sentidos.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"O   investimento na oraliza&ccedil;&atilde;o &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica para que as revela&ccedil;&otilde;es e den&uacute;ncias feitas pelos MCs se mostrem eficazes."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Se   cantarolarmos o in&iacute;cio de "Aquele Abra&ccedil;o", famoso samba de Gilberto Gil,   teremos tr&ecirc;s frases musicais que se reiteram quase que integralmente: "O Rio de   Janeiro continua lindo / O Rio de Janeiro continua sendo / O Rio de janeiro,   fevereiro e mar&ccedil;o". A repeti&ccedil;&atilde;o literal das notas do primeiro verso no segundo   permite que se fa&ccedil;a uma audi&ccedil;&atilde;o pros&oacute;dica   igualmente id&ecirc;ntica e que se depreenda pelo descenso final das frases mel&oacute;dicas   a mesma afirma&ccedil;&atilde;o em ambos os versos: o Rio continua lindo e continua sendo (no   sentido de existindo). Nessa orienta&ccedil;&atilde;o, o terceiro verso teria autonomia (n&atilde;o   precisaria do anterior) para agregar novo dom &agrave; cidade maravilhosa: o   de expandir sua hegemonia pelos meses do ver&atilde;o (janeiro, fevereiro e mar&ccedil;o). Mas logo notamos que o Gil&#45;letrista preparou uma   "pegadinha" para o Gil&#45;melodista. As duas &uacute;ltimas frases mel&oacute;dicas adquirem,   com a letra, um &uacute;nico valor pros&oacute;dico que nos permite compreender que "O Rio de   Janeiro continua sendo o Rio de janeiro, fevereiro e mar&ccedil;o". Passamos ent&atilde;o a   ouvir uma unidade entoativa que abarca toda a extens&atilde;o dessa &uacute;ltima frase. Em   outras palavras, uma vez entendida a letra, o nosso ouvido se encarrega de   acomodar os dois &uacute;ltimos segmentos do canto numa &uacute;nica – embora longa – inflex&atilde;o   pros&oacute;dica, perfeitamente plaus&iacute;vel para todos que compartilham conosco os par&acirc;metros inst&aacute;veis da fala.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Isso n&atilde;o   significa que a audi&ccedil;&atilde;o entoativa elimine a audi&ccedil;&atilde;o musical dessas frases.   Ambas seguem agindo nas nossas apreensões cancionais, o que n&atilde;o impede que   surjam os chamados ouvintes especializados. De um lado, aqueles que s&oacute; absorvem   e reproduzem as melodias como contornos insepar&aacute;veis da letra. N&atilde;o conseguem abstra&iacute;&#45;las nem as decorar sem seus respectivos   textos verbais. De outro, aqueles que ignoram as letras. Ali&aacute;s, &eacute; comum   encontrarmos instrumentistas com grande talento musical, mas pouco sens&iacute;veis &agrave;   interfer&ecirc;ncia das letras nas can&ccedil;ões. Para esses, a identifica&ccedil;&atilde;o da harmonia   de fundo, das alturas e dura&ccedil;ões que compõem os fraseados mel&oacute;dicos e &agrave;s vezes   a din&acirc;mica geral da execu&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; mais que suficiente para garantir sua   participa&ccedil;&atilde;o nos arranjos e nos acompanhamentos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Na verdade, o   primeiro caso (dos ouvintes que ouvem a melodia como modo de dizer a letra) &eacute;   muito mais abrangente que o segundo (de boa parte dos instrumentistas   profissionais), pois inclui quase todos os tipos de consumidores de can&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o   apenas os f&atilde;s e aficionados, digamos, militantes, mas sobretudo a imensa   quantidade de ouvintes "silenciosos" que acompanham seus hits pelas emissoras   de r&aacute;dio e televis&atilde;o ou pelas transmissões on&#45;line. Talvez sejam eles os atores   que mais se beneficiam da apreens&atilde;o espont&acirc;nea do que estamos chamando de   depend&ecirc;ncia entre melodia e letra. E talvez ainda sejam eles os respons&aacute;veis   impl&iacute;citos pela constru&ccedil;&atilde;o de um mundo &agrave; parte para os criadores de can&ccedil;&atilde;o.   Sen&atilde;o, vejamos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Musicaliza&ccedil;&atilde;o   e oraliza&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A   musicaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; um dos processos indispens&aacute;veis para se conceber uma obra   cancional. &Eacute; ela que estabiliza as alturas e dura&ccedil;ões do canto e as insere num   quadro harm&ocirc;nico e r&iacute;tmico, abrindo caminho para o acompanhamento instrumental   e para a a&ccedil;&atilde;o dos arranjadores. Acontece que n&atilde;o teremos uma verdadeira can&ccedil;&atilde;o   sem que esse processo seja complementado por segmentos verbais que ofere&ccedil;am uma   abertura para a oraliza&ccedil;&atilde;o, pois, como vimos, a necess&aacute;ria presen&ccedil;a da letra   introduz valores pros&oacute;dicos que moderam o impulso musical. &Eacute; por saberem (ou   viverem) disso que os cancionistas se distinguem dos m&uacute;sicos<i> stricto sensu</i> e renovam uma eterna alian&ccedil;a com seus ouvintes silenciosos, rejeitando as   propostas que os levem a abandonar os recursos caracter&iacute;sticos da linguagem da   can&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Nasciam   tamb&eacute;m os cantores que expunham aos ouvintes uma sensibilidade &iacute;ntima que s&oacute; se   manifesta totalmente quando entra em jogo a express&atilde;o f&iacute;sica da voz. Estava concebido o mundo da can&ccedil;&atilde;o."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Houve tempo,   no esplendor da bossa nova, em que a atra&ccedil;&atilde;o pelo jazz e pela m&uacute;sica popular   instrumental levou alguns artistas a colocarem em xeque a participa&ccedil;&atilde;o da letra   nas cria&ccedil;ões. Em vez de simplesmente abrandarem o eventual teor dram&aacute;tico das   letras ou de valorizar a sonoridade de suas s&iacute;labas, como fizeram os grandes   bossanovistas, alguns compositores trocaram os versos por <i>vocalises</i>,   tentando nivelar a linha do canto aos naipes dos instrumentos. A cantora Leny   Andrade gravou &agrave; &eacute;poca diversas faixas com essas caracter&iacute;sticas.   Claro que a experi&ecirc;ncia de explora&ccedil;&atilde;o dos limites de linguagem &eacute; sempre   bem&#45;vinda e nada impede que se torne refer&ecirc;ncia, ainda que avulsa, no &acirc;mbito de   um determinado g&ecirc;nero. Mas &eacute; f&aacute;cil observar, com o passar do tempo, quais   propostas foram realmente decisivas para a evolu&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica dos seus   seguidores. Hoje podemos dizer com seguran&ccedil;a que o gesto extremo de abandono da   letra n&atilde;o teve nenhuma resson&acirc;ncia no mundo dos cancionistas, at&eacute; porque, em se   tratando de can&ccedil;&atilde;o, a   aus&ecirc;ncia de letra &eacute; t&atilde;o disparatada quanto a aus&ecirc;ncia de melodia. A bossa nova que   prosperou foi a que soube chegar a uma letra adequada aos torneios dissonantes   da melodia e n&atilde;o a que tentou elimin&aacute;&#45;la. Faziam parte dessa adequa&ccedil;&atilde;o a   delicadeza dos conte&uacute;dos tratados (sem dramas...), a valoriza&ccedil;&atilde;o das rimas e   alitera&ccedil;ões e, em alguns casos, at&eacute; a infantiliza&ccedil;&atilde;o dos temas escolhidos.   (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a10fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Como j&aacute;   podemos deduzir dessa necess&aacute;ria participa&ccedil;&atilde;o da letra na linguagem da can&ccedil;&atilde;o,   h&aacute; outro processo, igualmente indispens&aacute;vel, que interage no ato de compor: a   oraliza&ccedil;&atilde;o. J&aacute; vimos insistindo que a partir da cria&ccedil;&atilde;o dos versos surgem as   unidades entoativas e que essas fazem de toda can&ccedil;&atilde;o um modo de dizer. Tal   processo tamb&eacute;m pode ser intensamente acentuado, a ponto de obscurecer os   inevit&aacute;veis recursos musicais que agem em sentido oposto. Isso j&aacute; ocorria de   algum modo nos famosos sambas de breque brasileiros, lan&ccedil;ados entre as d&eacute;cadas   de 1930 e 1960, quando alternavam trechos mel&oacute;dicos musicais com trechos   mel&oacute;dicos entoativos (na verdade, ambos os trechos continham as dimensões   musicais e pros&oacute;dicas, mas com diferen&ccedil;as de domin&acirc;ncia). Pois, essa oraliza&ccedil;&atilde;o,   presente em qualquer can&ccedil;&atilde;o, tornou&#45;se nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas o procedimento de   composi&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia dos artistas que adotaram, com as devidas adapta&ccedil;ões,   o formato do rap norte&#45;americano. De fato, para manifestar insatisfa&ccedil;ões   pessoais e comunit&aacute;rias ou para denunciar injusti&ccedil;as sociais, atitudes t&iacute;picas   do g&ecirc;nero, nada mais eficaz que o uso da linguagem verbal, com sua elasticidade   sem limite e seu pouco comprometimento com m&eacute;tricas ou "grades" mel&oacute;dicas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entretanto, a   proposta de uma oraliza&ccedil;&atilde;o extrema tamb&eacute;m corre o risco de abandonar o mundo da   can&ccedil;&atilde;o e, como dizia Paul Val&eacute;ry,<sup>&#91;2&#93;</sup> "desfazer&#45;se na clareza" da   prosa verbal. A instabilidade sonora de nossas frases cotidianas, com seus   contornos sugeridos, mas n&atilde;o fixados e sua flexibilidade de amplia&ccedil;&atilde;o ou   redu&ccedil;&atilde;o sil&aacute;bica, justifica&#45;se na medida em que tendem a n&atilde;o sobreviver &agrave; sua   pr&oacute;pria compreens&atilde;o. A capta&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do abstrato pelos falantes &eacute;   suficiente para que se descarte o material fon&eacute;tico e entoativo inerente aos   segmentos lingu&iacute;sticos. O melhor ant&iacute;doto para essa efemeridade sonora &eacute; a   musicaliza&ccedil;&atilde;o, processo esse adotado em parte pelos poetas, nas acentua&ccedil;ões   r&iacute;tmicas dos versos e nas recorr&ecirc;ncias rim&aacute;ticas e aliterativas, e em larga   medida pelos cancionistas que, al&eacute;m das repeti&ccedil;ões sonoras no interior das   letras, no geral estabilizam tamb&eacute;m a melodia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O   investimento na oraliza&ccedil;&atilde;o &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica   para que as revela&ccedil;ões   e den&uacute;ncias feitas pelos MCs se mostrem eficazes. No entanto, h&aacute; uma zona   fluida separando a express&atilde;o est&eacute;tica do rap e a express&atilde;o pragm&aacute;tica de um   discurso de reivindica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica ou at&eacute; de um com&iacute;cio. N&atilde;o &eacute; por outra raz&atilde;o   que os rappers j&aacute; mergulhados na oraliza&ccedil;&atilde;o se especializam em buscar recursos   indisfar&ccedil;&aacute;veis de musicaliza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; sintom&aacute;tico que, em vez de compor ou cantar,   esses artistas digam que v&atilde;o "rimar". De fato, a organiza&ccedil;&atilde;o de uma forma   musical inicia&#45;se no interior da letra. Mas precisam igualmente de um aparato   percussivo de peso para frisar e contrapontear suas s&iacute;labas t&ocirc;nicas, al&eacute;m de   padrões r&iacute;tmico&#45;mel&oacute;dicos (<i>riffs</i> e <i>loops</i>) repisados por alguns   instrumentos. Ou seja, assim como a oraliza&ccedil;&atilde;o complementa, com maior ou menor   comedimento, a a&ccedil;&atilde;o musical, esta &uacute;ltima tamb&eacute;m complementa, na condi&ccedil;&atilde;o de   atenuante, a for&ccedil;a de oraliza&ccedil;&atilde;o, mesmo nos casos&#45;limite em que o discurso verbal   merece todo o destaque. S&atilde;o essas atua&ccedil;ões complementares que evitam que os   gestos extremos, de um lado ou de outro, expulsem a obra do &acirc;mbito est&eacute;tico da   linguagem cancional.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Acordo   impl&iacute;cito</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Claro que   estamos nos referindo &agrave;s pr&aacute;ticas espont&acirc;neas exercidas pelos cancionistas   brasileiros e a movimentos (bossa nova e rap) j&aacute; consolidados em nossa cultura   sonora. Nenhum artista programaria com anteced&ecirc;ncia seus projetos extremos e   suas respectivas atenua&ccedil;ões para se ater ao mundo cancional... H&aacute; algo mais   profundo que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, contribui para regular seus impulsos   criativos e seu modo de atua&ccedil;&atilde;o profissional. O fato de encontrarmos algumas   const&acirc;ncias que definem as pr&aacute;ticas de composi&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o de can&ccedil;ões   decorre de um "acordo t&aacute;cito" – express&atilde;o de Tom Z&eacute; <sup>&#91;3&#93;</sup> – entre   autores e p&uacute;blico, acordo este que permite inven&ccedil;ões e ousadias de toda   esp&eacute;cie, mas que, ao mesmo tempo, impede a deteriora&ccedil;&atilde;o da linguagem. Esse   acordo j&aacute; se manifesta nos prim&oacute;rdios da grava&ccedil;&atilde;o em disco e no nascimento do   samba radiof&ocirc;nico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em artigo   anterior,<sup>&#91;4&#93;</sup> mencionamos um epis&oacute;dio que nos parece emblem&aacute;tico na   hist&oacute;ria da can&ccedil;&atilde;o brasileira. No depoimento prestado ao programa <i>Ensaio   Geral</i>,<sup>&#91;5&#93;</sup> de Fernando Faro, Ismael Silva revelou que, embora   fosse fundador e participante da primeira escola de samba do Brasil – "Deixa   Falar", no bairro do Est&aacute;cio de S&aacute; (RJ) – n&atilde;o chegou a ouvir seus sambas   interpretados pela escola. O motivo alegado &eacute; um tanto desconcertante: quando   as escolas iniciaram suas atividades, ele j&aacute; era "profissional", pois possu&iacute;a   sambas "gravados". Na ocasi&atilde;o, apenas formulamos a pergunta: "o que havia de   espec&iacute;fico nessas can&ccedil;ões profissionais, al&eacute;m do eventual aspecto financeiro?"   Talvez, no contexto deste ensaio, possamos equacionar melhor os termos de uma   resposta poss&iacute;vel para a quest&atilde;o. Os sambas gravados j&aacute; eram produtos dirigidos   ao incipiente mercado de discos e &agrave; difus&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio. Em outras   palavras, a atividade de compositor de Ismael Silva, estimulada pelas   frequentes encomendas de Francisco Alves, j&aacute; se pautava pelo gosto dos ouvintes   e se distanciava, assim, da cria&ccedil;&atilde;o pura e desinteressada dos sambistas das   escolas de samba. Nasciam naquele momento, de um lado, o compositor de can&ccedil;ões   de r&aacute;dio e, de outro, a massa silenciosa que gostava de ouvir melodia e letra   como uma s&oacute; obra. Nasciam tamb&eacute;m os cantores que, em virtude de suas emissões   mel&oacute;dicas (ou entoativas), agora devidamente gravadas, expunham aos ouvintes   uma sensibilidade &iacute;ntima que s&oacute; se manifesta totalmente quando entra em jogo a   express&atilde;o f&iacute;sica da voz. Estava concebido o mundo da can&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;1&#93;   CASTRO, Ruy. A Noite do Meu Bem. S&atilde;o Paulo Companhia das Letras: 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144179&pid=S0009-6725202600010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;2&#93;   VAL&Eacute;RY, Paul. Variedades, S&atilde;o Paulo, Iluminuras: 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144181&pid=S0009-6725202600010001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;3&#93;   Z&Eacute;, Tom. Tropicalista Lenta Luta. S&atilde;o Paulo, Publifolha: 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144183&pid=S0009-6725202600010001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;4&#93;   TATIT, Luiz. A Arte de Compor Can&ccedil;ões. Revista USP. S&atilde;o Paulo, n. 111, p.   11&#45;20, 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144185&pid=S0009-6725202600010001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;5&#93;   BOTEZELLI, J. C. Pel&atilde;o &amp; Pereira, Arley. A M&uacute;sica Brasileira deste S&eacute;culo   por seus Autores e Int&eacute;rpretes – 3. S&atilde;o Paulo, Sesc: 2000.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=144187&pid=S0009-6725202600010001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
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