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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260016</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>O   sil&ecirc;ncio sob press&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Priscylla Almeida<sup>I</sup>; Jo&atilde;o F. F. Nogueira<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista e produtora de conte&uacute;do para &aacute;reas de sa&uacute;de e ci&ecirc;ncia,   marketing e publicidade. Apaixonada por filmes, gatinhos e pela rotina din&acirc;mica   que a comunica&ccedil;&atilde;o traz: o contato com gente, a curiosidade de assuntos diversos, a troca.    <br>   <sup>II</sup>Desenvolvedor de software, professor e pesquisador. Transita por   diversos temas, das ci&ecirc;ncias humanas &agrave;s exatas, sempre estudando algo novo. Adora jogar videogame quando n&atilde;o est&aacute; viajando.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Nas cidades   brasileiras, o sil&ecirc;ncio est&aacute; sob press&atilde;o. Mais do que uma condi&ccedil;&atilde;o sensorial   desej&aacute;vel, ele se tornou um recurso raro e profundamente desigual. Em meio ao   tr&aacute;fego constante, &agrave;s obras intermin&aacute;veis, &agrave;s buzinas, sirenes e &agrave; m&uacute;sica   amplificada que vaza de carros, bares e resid&ecirc;ncias, forma&#45;se um pano de fundo   sonoro cont&iacute;nuo que molda comportamentos e rela&ccedil;ões sociais. O que durante   d&eacute;cadas foi tratado como simples inc&ocirc;modo urbano passou a ser reconhecido pela   ci&ecirc;ncia como um problema estrutural de sa&uacute;de p&uacute;blica, com impactos mensur&aacute;veis   sobre o bem&#45;estar, a cogni&ccedil;&atilde;o e a pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o das cidades.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A   polui&ccedil;&atilde;o sonora &eacute; hoje, depois da polui&ccedil;&atilde;o do ar por emissões gasosas e da   polui&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, o tipo de polui&ccedil;&atilde;o que atinge o maior n&uacute;mero de pessoas no   planeta."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para   compreender essa crise, a ci&ecirc;ncia estabelece a distin&ccedil;&atilde;o entre som e ru&iacute;do. O   som &eacute; uma varia&ccedil;&atilde;o de press&atilde;o em meio el&aacute;stico. J&aacute; o ru&iacute;do &eacute; classificado pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS) n&atilde;o apenas pela sua   natureza f&iacute;sica, mas como o «som indesejado» que interfere na sa&uacute;de. N&atilde;o por   acaso. "A polui&ccedil;&atilde;o sonora &eacute; hoje, depois da polui&ccedil;&atilde;o do ar por emissões gasosas   e da polui&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, o tipo de polui&ccedil;&atilde;o que atinge o maior n&uacute;mero de pessoas   no planeta", apontam documentos t&eacute;cnicos da OMS.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A ideia   amplamente difundida de que a popula&ccedil;&atilde;o teria "se acostumado" ao barulho &eacute;, do   ponto de vista cient&iacute;fico, enganosa. O organismo n&atilde;o se adapta ao ru&iacute;do   cr&ocirc;nico: ele reage, silenciosamente, todos os dias. A rela&ccedil;&atilde;o entre a polui&ccedil;&atilde;o   sonora e seu impacto cr&ocirc;nico na sa&uacute;de tamb&eacute;m foi destacada em relat&oacute;rio de 2022 do Programa das   Na&ccedil;ões Unidas Para o Meio Ambiente (PNUMA).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>O corpo n&atilde;o se acostuma ao barulho</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Do ponto de   vista da neuroci&ecirc;ncia e da medicina, o sil&ecirc;ncio n&atilde;o &eacute; a aus&ecirc;ncia total de som,   mas a presen&ccedil;a de condi&ccedil;ões ac&uacute;sticas que permitem ao sistema nervoso se   recuperar. "Podemos achar que nos acostumamos, mas o corpo n&atilde;o 'desliga'",   explica Miguel Hyppolito, m&eacute;dico otorrinolaringologista, doutor em Ci&ecirc;ncias   M&eacute;dicas e professor da Faculdade de Medicina de Ribeir&atilde;o   Preto da USP. Segundo o pesquisador, d&eacute;cadas de estudos mostram que   a exposi&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua ao ru&iacute;do favorece o aumento da press&atilde;o arterial e eleva o   risco de hipertens&atilde;o, infarto e acidente vascular cerebral.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Se   escolas e casas s&atilde;o persistentemente barulhentas, empurramos uma gera&ccedil;&atilde;o inteira para um patamar evit&aacute;vel de estresse e dificuldade de concentra&ccedil;&atilde;o."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mesmo durante   o sono, o c&eacute;rebro permanece atento ao ambiente sonoro. Sons acima de 30   decib&eacute;is j&aacute; fragmentam o descanso, ainda que a pessoa n&atilde;o desperte   completamente. "O ru&iacute;do gera microdespertares inconscientes e ativa respostas   de estresse cr&ocirc;nico", afirma Miguel Hyppolito. Esse estado permanente de alerta   est&aacute; associado a inflama&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica, estresse oxidativo, altera&ccedil;ões   metab&oacute;licas e preju&iacute;zos cognitivos. O ru&iacute;do, portanto, atua como um agente   patog&ecirc;nico ambiental invis&iacute;vel, compar&aacute;vel a outros poluentes amplamente   reconhecidos em efeitos biol&oacute;gicos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Segrega&ccedil;&atilde;o   sonora e injusti&ccedil;a ambiental</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O impacto do   ru&iacute;do, no entanto, n&atilde;o se distribui de forma homog&ecirc;nea no espa&ccedil;o urbano.   Estudos brasileiros e internacionais indicam que   popula&ccedil;ões de menor renda tendem a viver mais pr&oacute;ximas de fontes intensas de   polui&ccedil;&atilde;o sonora, como vias de tr&aacute;fego pesado, corredores log&iacute;sticos, &aacute;reas   industriais e grandes obras de infraestrutura. Esse padr&atilde;o vem sendo descrito   por pesquisadores como uma forma de injusti&ccedil;a ambiental sonora.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Do ponto de   vista pol&iacute;tico&#45;social e com base t&eacute;cnica, faz sentido falar em algo muito   pr&oacute;ximo de uma segrega&ccedil;&atilde;o sonora", afirma Miguel Hyppolito. "Muitos bairros   populares convivem com n&iacute;veis de ru&iacute;do permanentemente acima do que &eacute;   considerado seguro para o sistema auditivo, cardiovascular, para o sono e para   o desenvolvimento infantil. Isso configura uma desigualdade real no acesso ao   repouso e &agrave; sa&uacute;de mental."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Paulo Zannin,   doutor em Ac&uacute;stica e professor da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR),   refor&ccedil;a: "Infelizmente, as classes mais baixas habitam setores das cidades mais   polu&iacute;dos acusticamente e suas moradias n&atilde;o possuem o m&iacute;nimo de isolamento   sonoro. Quem pode pagar por projetos com tratamento ac&uacute;stico certamente ter&aacute;   mais acesso a um ambiente harmonioso e, consequentemente, melhor sa&uacute;de mental e   repouso." O sil&ecirc;ncio, nesse contexto, deixa de ser um bem coletivo e passa a   funcionar como privil&eacute;gio urbano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Crian&ccedil;as   sob press&atilde;o sonora</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os   grupos mais vulner&aacute;veis aos efeitos do ru&iacute;do cr&ocirc;nico est&atilde;o as crian&ccedil;as. Dados da OMS demonstram que   a exposi&ccedil;&atilde;o prolongada a ambientes ruidosos acarreta preju&iacute;zos no   desenvolvimento cognitivo, especialmente em leitura, aten&ccedil;&atilde;o sustentada,   mem&oacute;ria de trabalho e compreens&atilde;o verbal. Dados recentes da Ag&ecirc;ncia Europeia do   Meio Ambiente estimam que mais de meio milh&atilde;o de crian&ccedil;as na Europa   apresentam dificuldades de leitura atribu&iacute;das ao ru&iacute;do ambiental proveniente de   transporte rodovi&aacute;rio, ferrovi&aacute;rio e a&eacute;reo. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a16fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Meta&#45;an&aacute;lises recentes mostram que a exposi&ccedil;&atilde;o   ao ru&iacute;do tem efeito negativo significativo &#151; de magnitude moderada &#151; sobre a   performance cognitiva de crian&ccedil;as e adolescentes. Ambientes escolares ruidosos   est&atilde;o associados a maior fadiga, irritabilidade e dificuldades de autorregula&ccedil;&atilde;o   emocional. "N&atilde;o &eacute; apenas uma quest&atilde;o pedag&oacute;gica, mas ambiental", observa Miguel   Hyppolito. "Se escolas e casas s&atilde;o persistentemente barulhentas, empurramos uma   gera&ccedil;&atilde;o inteira para um patamar evit&aacute;vel de estresse e dificuldade de   concentra&ccedil;&atilde;o."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Paulo   Zannin, o problema ganha contornos sociais mais amplos: "Estamos criando uma   sociedade com d&eacute;ficit de aten&ccedil;&atilde;o induzido pelo ru&iacute;do e pela polui&ccedil;&atilde;o sonora."</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Ac&uacute;stica: ci&ecirc;ncia ou luxo?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No campo da   constru&ccedil;&atilde;o civil, a ac&uacute;stica avan&ccedil;ou como &aacute;rea cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica nas   &uacute;ltimas d&eacute;cadas, mas sua incorpora&ccedil;&atilde;o ao mercado ainda ocorre de forma   desigual. Dinara Xavier da Paix&atilde;o, professora da Universidade Federal de Santa Maria,   respons&aacute;vel pela implanta&ccedil;&atilde;o da gradua&ccedil;&atilde;o em Engenharia Ac&uacute;stica no Brasil e   ex&#45;presidente da Sociedade Brasileira de Ac&uacute;stica (SOBRAC),   destaca o papel das normas t&eacute;cnicas na qualifica&ccedil;&atilde;o dos ambientes constru&iacute;dos.   "A cria&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Especial (CEE&#45;196) e, posteriormente, do Comit&ecirc;   Brasileiro de Ac&uacute;stica, na ABNT, bem como a aplica&ccedil;&atilde;o da NBR 15.575 trouxeram   melhorias no isolamento ac&uacute;stico das edifica&ccedil;ões, especialmente nos grandes   centros urbanos", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Apesar disso,   os padrões m&iacute;nimos brasileiros permanecem distantes daqueles adotados em outros   pa&iacute;ses, e os benef&iacute;cios n&atilde;o chegam a todas as regiões. "Na maioria dos casos, a   ac&uacute;stica n&atilde;o &eacute; vista como artigo de luxo, mas ainda h&aacute; desconhecimento sobre a   exist&ecirc;ncia de profissionais especializados, que poderiam inclusive reduzir   custos se consultados na fase inicial dos projetos", avalia Dinara Paix&atilde;o. Na   pr&aacute;tica, a Norma de Desempenho contribuiu para avan&ccedil;os reais, mas acess&iacute;veis   apenas a determinados grupos sociais, pois ainda n&atilde;o chegou a todos os   munic&iacute;pios brasileiros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Planejar   o sil&ecirc;ncio</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Tratar o   sil&ecirc;ncio como infraestrutura b&aacute;sica de sa&uacute;de &#151; assim como &aacute;gua pot&aacute;vel,   saneamento ou drenagem urbana &#151; implica repensar o planejamento das cidades.   Para Miguel Hyppolito, a prioridade n&atilde;o est&aacute; em solu&ccedil;ões tecnol&oacute;gicas isoladas,   mas em decisões estruturais. "&Eacute; fundamental revisar o zoneamento urbano,   proteger &aacute;reas residenciais do tr&aacute;fego intenso e criar zonas&#45;tamp&atilde;o verdes   entre vias arteriais e bairros", afirma. Experi&ecirc;ncias internacionais mostram   que em parques lineares h&aacute; redu&ccedil;&atilde;o de velocidade e exig&ecirc;ncia de projetos   ac&uacute;sticos em grandes obras para que reduzam de forma mensur&aacute;vel os n&iacute;veis   de ru&iacute;do. "Do mesmo jeito que n&atilde;o se pode jogar esgoto sem tratamento sobre a   cidade, n&atilde;o dever&iacute;amos poder 'jogar ru&iacute;do' sobre bairros inteiros sem   mitiga&ccedil;&atilde;o", resume o pesquisador. "Cada decibel a menos hoje significa menos   estresse, menos infartos, menos ins&ocirc;nia e mais aprendizagem amanh&atilde;." (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a16fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Precisamos   admitir que nossas cidades s&atilde;o acusticamente polu&iacute;das e educar a popula&ccedil;&atilde;o sobre os danos invis&iacute;veis do ru&iacute;do."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Paulo Zannin   enfatiza a necessidade de conscientiza&ccedil;&atilde;o coletiva: "Precisamos admitir que   nossas cidades s&atilde;o acusticamente polu&iacute;das e educar a popula&ccedil;&atilde;o sobre os danos   invis&iacute;veis do ru&iacute;do. Diferentemente da polui&ccedil;&atilde;o do ar ou da &aacute;gua, o som n&atilde;o   deixa cheiro nem vest&iacute;gios, mas seus efeitos permanecem no corpo."</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Sil&ecirc;ncio   como bem comum</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Agrave; medida que   a ci&ecirc;ncia avan&ccedil;a, o sil&ecirc;ncio deixa de ser um luxo subjetivo para se afirmar   como determinante social de sa&uacute;de. Reconhec&ecirc;&#45;lo como bem comum exige pol&iacute;ticas   p&uacute;blicas consistentes, planejamento urbano baseado em evid&ecirc;ncias e o   reconhecimento de que o som (assim como a &aacute;gua e o ar) tamb&eacute;m estrutura   desigualdades. Em um mundo cada vez mais ruidoso, garantir espa&ccedil;os de pausa,   escuta e quietude pode ser uma das estrat&eacute;gias mais eficazes e urgentes para   promover sa&uacute;de, equidade e qualidade de vida nas cidades brasileiras.</font></p>     ]]></body>
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