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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Algoritmos, atenção e mercado: os bastidores científicos da música no século XXI]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260017</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Algoritmos,   aten&ccedil;&atilde;o e mercado: os bastidores cient&iacute;ficos da m&uacute;sica no s&eacute;culo XXI</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Carolina Medeiros<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista pela PUCC, Especialista em Jornalismo Cient&iacute;fico pelo   Labjor/Unicamp, Mestre em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural pelo Labjor/Unicamp e Doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de pela FSP/ USP.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A m&uacute;sica   sempre ocupou um lugar central na vida social, como express&atilde;o art&iacute;stica,   identidade cultural e experi&ecirc;ncia afetiva. Na contemporaneidade, por&eacute;m, o   simples ato de ouvir uma can&ccedil;&atilde;o envolve um complexo ecossistema cient&iacute;fico e   tecnol&oacute;gico que opera de forma quase invis&iacute;vel para o p&uacute;blico. Ao apertar o   bot&atilde;o "<i>play</i>", o ouvinte aciona uma engrenagem composta por algoritmos,   sistemas de an&aacute;lise de dados, mecanismos automatizados de prote&ccedil;&atilde;o de direitos   autorais e modelos econ&ocirc;micos baseados na chamada economia da aten&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A ind&uacute;stria   musical do s&eacute;culo XXI tornou&#45;se um espa&ccedil;o privilegiado de converg&ecirc;ncia entre   ci&ecirc;ncia, tecnologia, economia e cultura. Como observa o pesquisador David   Hesmondhalgh, em "<i>The Cultural Industries</i>"   , as ind&uacute;strias culturais sempre articularam criatividade e mercado, mas as   plataformas digitais intensificaram essa rela&ccedil;&atilde;o ao integrar produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica   e infraestrutura tecnol&oacute;gica em escala global.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Da   ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica &agrave; produ&ccedil;&atilde;o digital</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para   compreender o funcionamento do ecossistema musical contempor&acirc;neo, &eacute; necess&aacute;rio   observar a trajet&oacute;ria hist&oacute;rica da ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica. Segundo o compositor   Claudiney Carrasco, professor do Departamento de M&uacute;sica da Universidade   Estadual de Campinas (Unicamp), o modelo de neg&oacute;cio que estruturou o   mercado musical durante grande parte do s&eacute;culo XX foi marcado por forte   concentra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e tecnol&oacute;gica. "O perfil de com&eacute;rcio da m&uacute;sica tal como   conhecemos hoje come&ccedil;a a se estruturar no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, quando surge o   com&eacute;rcio fonogr&aacute;fico e a m&uacute;sica passa a ser compreendida dentro de uma l&oacute;gica   de mercado", explica. Nesse contexto, o desenvolvimento dos meios de   comunica&ccedil;&atilde;o de massa, especialmente o r&aacute;dio a partir da d&eacute;cada de 1920, per&iacute;odo   decisivo para ampliar a circula&ccedil;&atilde;o das grava&ccedil;ões e consolidar a ind&uacute;stria   musical.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Durante   d&eacute;cadas, a produ&ccedil;&atilde;o fonogr&aacute;fica esteve concentrada nas grandes gravadoras. O   alto custo dos equipamentos tornava praticamente imposs&iacute;vel que artistas   produzissem de forma independente. "Para gravar um disco, era necess&aacute;rio ter   contrato com uma gravadora, que decidia o que seria gravado e distribu&iacute;do",   afirma Claudiney Carrasco. M&aacute;quinas de grava&ccedil;&atilde;o podiam custar entre 50 e 100   mil d&oacute;lares e chegar a pesar uma tonelada, o que limitava o acesso &agrave;s   tecnologias de produ&ccedil;&atilde;o. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a17fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">No Brasil,   grandes est&uacute;dios ligados a conglomerados de m&iacute;dia concentravam parte   significativa da produ&ccedil;&atilde;o musical. Al&eacute;m da grava&ccedil;&atilde;o, os contratos com   gravadoras inclu&iacute;am tamb&eacute;m estrat&eacute;gias de divulga&ccedil;&atilde;o e marketing, consolidando   um sistema altamente centralizado.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Hoje a   caracter&iacute;stica do mercado n&atilde;o &eacute; atingir todo mundo, como na era do r&aacute;dio, mas uma parcela muito espec&iacute;fica do p&uacute;blico, segmentada"</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa   estrutura come&ccedil;ou a mudar na d&eacute;cada de 1980, quando a miniaturiza&ccedil;&atilde;o dos   equipamentos reduziu custos e permitiu o surgimento dos chamados "est&uacute;dios de   garagem". Artistas passaram a gravar de forma independente e a vender discos   diretamente em shows. Movimentos como a chamada Vanguarda Paulista e parte do   rock brasileiro emergiram nesse contexto. "Com essas produ&ccedil;ões independentes,   ampliou&#45;se tamb&eacute;m o contato do p&uacute;blico com diferentes estilos musicais, porque   j&aacute; n&atilde;o eram apenas as gravadoras que determinavam o que seria comercializado",   observa o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A transforma&ccedil;&atilde;o se intensificou nos anos 1990 com a digitaliza&ccedil;&atilde;o da   produ&ccedil;&atilde;o musical. Os sistemas de grava&ccedil;&atilde;o passaram a ser integrados aos   computadores pessoais, dando origem aos chamados home studios. Inicialmente, as   m&uacute;sicas eram produzidas digitalmente, mas ainda distribu&iacute;das em m&iacute;dias f&iacute;sicas.   A virada definitiva ocorre nos anos 2000, com a expans&atilde;o da internet e o   surgimento das plataformas de streaming. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a17fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Segundo   Claudiney Carrasco, esse processo trouxe uma ambival&ecirc;ncia. "Houve uma   democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, porque hoje qualquer artista pode gravar   em casa", afirma. Ao mesmo tempo, surgiram novos desafios econ&ocirc;micos. "A   remunera&ccedil;&atilde;o nas plataformas &eacute; muito pequena. Para que o artista receba algo   significativo, &eacute; necess&aacute;rio um volume muito grande de reprodu&ccedil;ões." Nesse   cen&aacute;rio, os shows continuam sendo uma das principais fontes de renda para   m&uacute;sicos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Segmenta&ccedil;&atilde;o   e intelig&ecirc;ncia artificial</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">De acordo com   Alexei de Queiroz, professor da Faculdade de M&uacute;sica da Universidade   de Bras&iacute;lia (UnB), o mercado musical contempor&acirc;neo se aproxima cada   vez mais da l&oacute;gica das redes sociais. "Hoje a caracter&iacute;stica do mercado n&atilde;o &eacute;   atingir todo mundo, como na era do r&aacute;dio, mas uma parcela muito espec&iacute;fica do   p&uacute;blico, segmentada", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa   segmenta&ccedil;&atilde;o &eacute; sustentada por algoritmos de recomenda&ccedil;&atilde;o, sistemas de   intelig&ecirc;ncia artificial que analisam grandes volumes de dados para sugerir   conte&uacute;dos personalizados. Cada a&ccedil;&atilde;o do usu&aacute;rio, ouvir uma faixa at&eacute; o fim,   interromp&ecirc;&#45;la nos primeiros segundos, repetir uma m&uacute;sica ou adicion&aacute;&#45;la a uma   playlist, transforma&#45;se em dado. Esses registros alimentam modelos matem&aacute;ticos   capazes de identificar padrões de comportamento em escala global.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O pesquisador   Nick Srnicek, em "<i>Platform Capitalism</i>",   descreve esse modelo como caracter&iacute;stico do capitalismo de plataforma, no qual   dados se tornam recurso central de extra&ccedil;&atilde;o de valor. No caso da m&uacute;sica, a   escuta converte&#45;se em informa&ccedil;&atilde;o process&aacute;vel, integrando um dos maiores fluxos   de dados culturais j&aacute; produzidos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Direitos   autorais e rastreamento digital</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A   digitaliza&ccedil;&atilde;o intensificou desafios hist&oacute;ricos relacionados &agrave; propriedade   intelectual. Em um ambiente de circula&ccedil;&atilde;o veloz e global, garantir que   compositores, int&eacute;rpretes e produtores sejam remunerados exige solu&ccedil;ões   tecnol&oacute;gicas sofisticadas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Sistemas de   reconhecimento autom&aacute;tico de &aacute;udio permitem identificar m&uacute;sicas incorporadas a   v&iacute;deos e transmissões em diferentes plataformas, possibilitando o rastreamento   de usos e a distribui&ccedil;&atilde;o de royalties. Tecnologias como blockchain e contratos   inteligentes v&ecirc;m sendo discutidas como alternativas para ampliar a   transpar&ecirc;ncia no licenciamento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O jurista   Lawrence Lessig, em "<i>Free Culture</i>", j&aacute;   apontava, ainda nos anos 2000, que a arquitetura digital redefine as bases do   controle autoral e exige novos equil&iacute;brios entre prote&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o do   conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No modelo de   streaming, a remunera&ccedil;&atilde;o ocorre com base no n&uacute;mero de reprodu&ccedil;ões, combinando   receitas de assinaturas e publicidade. Estudos sobre a economia da m&uacute;sica   digital indicam que esse sistema tende a concentrar rendimentos em artistas de   grande audi&ecirc;ncia, ampliando desigualdades estruturais no setor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A   economia da aten&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No centro   desse arranjo est&aacute; a economia da aten&ccedil;&atilde;o. O cientista pol&iacute;tico Herbert A. Simon   j&aacute; advertia, nos anos 1970, que a abund&acirc;ncia de informa&ccedil;&atilde;o produz escassez de   aten&ccedil;&atilde;o. D&eacute;cadas depois, o ensa&iacute;sta Tim Wu, em "The Attention Merchants",   analisa como empresas competem sistematicamente pela captura desse recurso.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"O algoritmo &eacute; desenhado para ser favor&aacute;vel a quem paga por ele"</b></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A escuta   deixou de ser um momento concentrado para se tornar uma pr&aacute;tica dispersa, integrada a outras atividades do cotidiano"</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na m&uacute;sica,   essa l&oacute;gica se traduz em m&eacute;tricas de engajamento que orientam tanto o design   das plataformas quanto as estrat&eacute;gias de lan&ccedil;amento. Alexei de Queiroz descreve   os algoritmos como "escultores da m&uacute;sica", capazes de influenciar o que ganha   visibilidade. "O algoritmo &eacute; desenhado para ser favor&aacute;vel a quem paga por ele",   afirma, destacando o papel do impulsionamento e das inser&ccedil;ões patrocinadas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A pr&oacute;pria   forma musical passa a refletir esse ambiente. O m&uacute;sico Jack Stauber tornou&#45;se   exemplo de composi&ccedil;ões ultracurtas, com cerca de 30 segundos, ajustadas &agrave;   din&acirc;mica acelerada das redes digitais. Embora criativamente instigante, esse   formato tamb&eacute;m revela a press&atilde;o por reten&ccedil;&atilde;o imediata.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica e media&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Jos&eacute;   Augusto Manni, professor do Instituto de Artes da Unicamp,   a media&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica altera a pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia est&eacute;tica. "A escuta deixou   de ser um momento concentrado para se tornar uma pr&aacute;tica dispersa, integrada a   outras atividades do cotidiano", afirma. Segundo ele, essa transforma&ccedil;&atilde;o   influencia a composi&ccedil;&atilde;o, com introdu&ccedil;ões mais curtas e refrões antecipados,   adequando&#45;se aos padrões de reten&ccedil;&atilde;o medidos em segundos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A reflex&atilde;o   dialoga com an&aacute;lises do soci&oacute;logo Zygmunt Bauman em "Liquid Modernity", ao   discutir a fluidez e a fragmenta&ccedil;&atilde;o das experi&ecirc;ncias culturais na modernidade   tardia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Democratiza&ccedil;&atilde;o   e opacidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As   tecnologias digitais foram frequentemente associadas &agrave; promessa de   democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso. Em tese, qualquer artista pode distribuir sua m&uacute;sica   globalmente. Contudo, como argumenta Shoshana Zuboff em "<i>The Age of Surveillance Capitalism</i>",   plataformas digitais operam sob l&oacute;gicas de captura e monetiza&ccedil;&atilde;o de dados que   tendem &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de poder e &agrave; opacidade decis&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Persistem   desigualdades relacionadas ao acesso a dados, capital e estrat&eacute;gias de   visibilidade algor&iacute;tmica. Pesquisadores alertam para vieses em sistemas de   recomenda&ccedil;&atilde;o, riscos &agrave; privacidade e necessidade de maior transpar&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O paradoxo &eacute;   evidente: nunca foi t&atilde;o f&aacute;cil produzir e distribuir m&uacute;sica, mas nunca os   processos que definem o que ser&aacute; ouvido foram t&atilde;o complexos e pouco   transparentes. Por tr&aacute;s das can&ccedil;ões que embalam o cotidiano, operam sistemas   cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos que redefinem cria&ccedil;&atilde;o, circula&ccedil;&atilde;o e valor simb&oacute;lico.   Compreender esses bastidores &eacute; fundamental para entender n&atilde;o apenas a m&uacute;sica do   nosso tempo, mas as transforma&ccedil;ões mais amplas na rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia,   tecnologia e cultura na sociedade digital.</font></p>      ]]></body>

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