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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>HANNAH ARENDT</b></font></p>     <p><font size=5> <b>U<SMALL>MA AP&Aacute;TRIDA DA CULTURA E DA POL&Iacute;TICA</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Hannah Arendt (1906-75) &eacute; uma das figuras intelectuais    mais significativas e complexas da cultura do s&eacute;culo XX. Judia, fugitiva,    se definiu sempre como uma ap&aacute;trida, desenraizada, uma p&aacute;ria tanto    na pol&iacute;tica quanto na cultura. Testemunha consciente e sens&iacute;vel    dos eventos e da trag&eacute;dia de sua &eacute;poca, estudou na universidade    alem&atilde; do per&iacute;odo de Weimar, com Heidegger e Karl Jaspers. Fugiu    da Alemanha em 1933, na ascens&atilde;o de Hitler, indo residir em Paris. Conheceu    Walter Benjamin, Bertolt Brecht e Raymond Aron. Quando os alem&atilde;es invadem    a Fran&ccedil;a, &eacute; detida como suspeita; solta, foge para Nova York,    onde passa a segunda metade da vida.</font></p>     <p><font size="3">Para Alberto Martinelli, as refer&ecirc;ncias de Hannah Arendt    est&atilde;o simultaneamente em tr&ecirc;s culturas: a alem&atilde;, a hebraica    e a norte-americana, sem, entretanto, identificar-se plenamente com nenhuma    delas, nem com as na&ccedil;&otilde;es que lhes correspondem. A Alemanha era    a l&iacute;ngua-m&atilde;e, a filosofia e a poesia, mas dela veio a indel&eacute;vel    experi&ecirc;ncia de anti-semitismo. Sua rela&ccedil;&atilde;o com o juda&iacute;smo    e com Israel foi mais complexa. Afirmou ter sido "<i>educada com esfor&ccedil;o    e tormento na experi&ecirc;ncia judaica</i>", num processo de reapropria&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica e pol&iacute;tica das pr&oacute;prias origens, mas com plena    autonomia com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; religi&atilde;o hebraica que, como    qualquer religi&atilde;o, n&atilde;o lhe dizia nada. Sua rela&ccedil;&atilde;o    com os Estados Unidos foi menos tensa: encontrou em sua &eacute;poca um pa&iacute;s    multinacional e aberto aos estrangeiros. N&atilde;o foi cega, entretanto, &agrave;s    tend&ecirc;ncias pol&iacute;ticas daquela sociedade, que produziam a ca&ccedil;a    &agrave;s bruxas do macartismo, a intoler&acirc;ncia racial, a delinq&uuml;&ecirc;ncia    juvenil, a voca&ccedil;&atilde;o para a degrada&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Arendt n&atilde;o foi apenas uma mulher de id&eacute;ias, mas    um indiv&iacute;duo atuante no mundo. Colaborou com organiza&ccedil;&otilde;es    sionistas que organizavam a fuga de judeus da Alemanha e recolheu fundos para    formar um ex&eacute;rcito judeu que combatesse ao lado dos aliados contra os    nazistas. Logo depois da guerra, sustentou a tese de que a paz no Oriente M&eacute;dio    e a sobreviv&ecirc;ncia de Israel dependeriam da constitui&ccedil;&atilde;o    de um estado n&atilde;o-confessional que oferecesse a cidadania pol&iacute;tica    aos &aacute;rabes. Essa posi&ccedil;&atilde;o, que a salvava do oportunismo,    valeu-lhe violentas cr&iacute;ticas da comunidade hebraica internacional.</font></p>     <p><font size="3"><b>O MAL &Eacute; BANAL</b> Em 1947 foi como enviada especial    do <i>New Yorker</i> cobrir o julgamento, em Jerusal&eacute;m, do oficial nazista    Adolf Eichmann, encarregado pela log&iacute;stica de exterm&iacute;nio do holocausto.    Com grande coragem, denunciou as retic&ecirc;ncias acerca do fen&ocirc;meno    do colaboracionismo judaico com os nazistas e o tom teatral do processo, que    poderia obscurecer aquilo que era o ponto central, isto &eacute;, a banalidade    do mal. A figura de Eichmann era, na sua atroz normalidade, a express&atilde;o    mais inquietante do nazismo. O tipo social caracter&iacute;stico do totalitarismo    &eacute; o do indiv&iacute;duo atomizado da sociedade de massas, incapaz de    participa&ccedil;&atilde;o na vida civil, que encontra seu lugarzinho numa organiza&ccedil;&atilde;o    que lhe anula o ju&iacute;zo. No totalitarismo, esses indiv&iacute;duos – muitas    vezes bons chefes de fam&iacute;lia - podem inclusive fazer parte de uma m&aacute;quina    de exterm&iacute;nio. Essa posi&ccedil;&atilde;o de Hannah Arendt valeu-lhe,    por dois anos, uma profunda campanha difamat&oacute;ria: de Israel, que queria    fazer do processo um evento exemplar &uacute;til para a legitima&ccedil;&atilde;o    do novo Estado, e da Alemanha, que preferia a imagem de excepcionalidade do    mal perpetrado pelos nazistas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n2/a24fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>AS ORIGENS DO TOTALITARISMO</b> No p&oacute;s guerra, Arendt    p&ocirc;s-se a escrever uma de suas obras mais instigantes: <i>The origin of    totalitarism</i> (1951). Sua tese central &eacute; que o totalitarismo &eacute;    uma forma pol&iacute;tica radicalmente nova e, na ess&ecirc;ncia, diferente    das outras formas historicamente compar&aacute;veis de poder pessoal: o despotismo,    a tirania, a ditadura. Onde se implantou, o totalitarismo destruiu todas as    tradi&ccedil;&otilde;es sociais, pol&iacute;ticas e jur&iacute;dicas, substituindo-as    por formas completamente novas. Um dos resultados dessa opera&ccedil;&atilde;o,    t&atilde;o ao gosto da apolog&eacute;tica modernista, &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o    da sociedade de massas, que transforma as popula&ccedil;&otilde;es em multid&otilde;es    de indiv&iacute;duos intercambi&aacute;veis; os partidos s&atilde;o substitu&iacute;dos    por movimentos de massas; a subordina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das pessoas    amplia-se at&eacute; a invas&atilde;o da esfera privada; o centro do poder &eacute;    transferido para a pol&iacute;cia e o ex&eacute;rcito.</font></p>     <p><font size="3"><b>A CONDI&Ccedil;&Atilde;O HUMANA</b> A produ&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica da Hannah Arendt &eacute; rica e multiforme, abarcando ensaios    de cr&iacute;tica liter&aacute;ria, obras filos&oacute;ficas e importantes contribui&ccedil;&otilde;es    na teoria pol&iacute;tica. Em <i>The human condition</i> (1958) reconstr&oacute;i    a degrada&ccedil;&atilde;o da id&eacute;ia grega de polit&eacute;ia, isto &eacute;,    do Estado e da cidadania no sentido de direito de todos os cidad&atilde;os.    Essa obra indaga: nas condi&ccedil;&otilde;es de bem estar econ&ocirc;mico e    paz civil, qual &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o da liberdade pol&iacute;tica?    Qual &eacute; o espa&ccedil;o consentido para a a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    que n&atilde;o seja apenas a defesa dos interesses materiais ou mero comportamento    exterior para o ritual eleitoral? Nas suas respostas, Arendt indica uma teoria    libert&aacute;ria da a&ccedil;&atilde;o na &eacute;poca do conformismo social.</font></p>     <p><font size="3">Hannah Arendt foi lealmente criticada por alguns fil&oacute;sofos    marxistas, que viram na sua cr&iacute;tica ao totalitarismo um apagamento das    diferen&ccedil;as entre nazismo e socialismo. Os acontecimentos pol&iacute;ticos    posteriores, entretanto, puderam mostrar que esses dois regimes possu&iacute;am    natureza comum, sendo formas esdr&uacute;xulas de acumula&ccedil;&atilde;o de    capital em sociedades historicamente atrasadas. A hist&oacute;ria parece dar    raz&atilde;o ao seu pensamento.</font></p>     <p><font size="3">Hannah Arendt morreu em 1975: foi poupada das formas finiseculares    da estupidez das massas, de Sabra e Chatila, da nossa obscena mis&eacute;ria    cultural, do infinito retorno das guerras &eacute;tnicas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Carlos Eduardo O. Berriel    <BR>   &eacute; professor do Instituto de Estudos    <BR>   da Linguagem, da Unicamp.</i></FONT></p>      ]]></body>
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