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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n3/a03img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n3/a03fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">ANTROPOLOGIA</font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v59n3/a03img02.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Como a sociedade "n&atilde;o" enxerga os invis&iacute;veis    e os surdos</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">"Sou um homem invis&iacute;vel. N&atilde;o, n&atilde;o    sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe... Sou um homem de subst&acirc;ncia,    de carne e osso, fibras e l&iacute;quidos – talvez se possa at&eacute; dizer    que possuo uma mente. Sou invis&iacute;vel, compreendam, simplesmente porque    as pessoas se recusam a me ver". A recusa do olhar do outro como nega&ccedil;&atilde;o    da sua pr&oacute;pria humanidade motivou Ralph Ellison em seu romance <i>Homem    invis&iacute;vel</i>, de 1952, a relatar a experi&ecirc;ncia da discrimina&ccedil;&atilde;o    racial nos Estados Unidos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Inspirado em Ellison e pela id&eacute;ia da invisibilidade,    o filme <i>Um dia sem mexicanos</i> (2004), do diretor mexicano Sergio Arau,    tenta imaginar o que aconteceria com a Calif&oacute;rnia se toda a popula&ccedil;&atilde;o    hisp&acirc;nica residente no estado, repentinamente, desaparecesse. Bastante    criticado por "brincar" com o preconceito, para denunci&aacute;-lo,    o filme acabou inspirando, em maio de 2006, o protesto "Um dia sem imigrantes",    quando boicotes foram realizados em grandes cidades dos Estados Unidos com o    objetivo de paralisar o pa&iacute;s durante 24 horas. O objetivo era demonstrar    o peso do trabalho dos imigrantes na economia americana, num momento em que    o Senado estudava endurecer as leis do pa&iacute;s contra a entrada de estrangeiros    para trabalhar no pa&iacute;s e for&ccedil;ar a regulariza&ccedil;&atilde;o    da situa&ccedil;&atilde;o dos imigrantes ilegais.</font></P>     <p><font size="3"><b>HUMILHA&Ccedil;&Atilde;O SOCIAL</b> O filme e o protesto    exploraram o que pode acontecer quando pessoas socialmente invis&iacute;veis    desaparecem. Mas os invis&iacute;veis existem por conta daqueles que se recusam    a enxergar. O que dizer, ent&atilde;o, dessa rela&ccedil;&atilde;o entre invisibilidade    e cegueira social? Essa &eacute; uma das quest&otilde;es do livro <i>Homens    invis&iacute;veis: relatos de uma humilha&ccedil;&atilde;o social</i> (Editora    Globo, 2004), do psic&oacute;logo Fernando Braga da Costa. Durante nove anos    e pelo menos uma vez por semana, Fernando trabalhou junto com os garis da Universidade    de S&atilde;o Paulo, varrendo cal&ccedil;adas e ruas, recolhendo folhas, pap&eacute;is,    pl&aacute;sticos e sucatas, limpando lixeiras, capinando grama, retirando o    barro acumulado nos canteiros. Por meio dessa conviv&ecirc;ncia com os trabalhadores,    dentro e fora da cidade universit&aacute;ria, p&ocirc;de compartilhar e ouvir    deles o sofrimento vivido nas situa&ccedil;&otilde;es de humilha&ccedil;&atilde;o    social pelas quais passam cotidianamente.</font></P>     <p><font size="3">O autor descreve o "epis&oacute;dio do uniforme".    Na companhia de Ant&ocirc;nio, um dos garis com quem trabalhava, Fernando precisou    passar por dentro do pr&eacute;dio do Instituto de Psicologia, onde fazia o    seu mestrado. Vestindo o uniforme de gari, sua expectativa era a de que seus    colegas de classe e professores o reconhecessem e se surpreendessem. Expectativa    frustrada. A surpresa foi dele. "N&atilde;o fui reconhecido. E as pessoas    pelas quais pass&aacute;vamos n&atilde;o reagiam &agrave; nossa presen&ccedil;a.    Talvez apenas uma ou outra tenha se desviado de n&oacute;s como de obst&aacute;culos,    objetos. Nenhuma sauda&ccedil;&atilde;o corriqueira, um olhar, sequer um aceno    de cabe&ccedil;a. Foi surpreendente. Eu era um uniforme que perambulava: estava    invis&iacute;vel, assim como Ant&ocirc;nio. Saindo do pr&eacute;dio, estava    inquieto; era perturbadora a anestesia dos outros, a percep&ccedil;&atilde;o    social neutralizada". V&aacute;rios outros epis&oacute;dios semelhantes    a esse s&atilde;o narrados por Fernando, que experimenta, assim, uma situa&ccedil;&atilde;o    vivida assiduamente pelos garis.</font></P>     <p><font size="3">Segundo o psic&oacute;logo, a invisibilidade p&uacute;blica    caracteriza a vida de empregadas dom&eacute;sticas, faxineiros, porteiros, garis    e outros trabalhadores subalternos, que deixam de ser vistos como pessoas e    passam a ser tratados como coisas. Aparecem apenas os uniformes e os lugares    varridos e limpos. Sua subjetividade &eacute; totalmente ignorada e, mais do    que isso, a pr&oacute;pria humanidade dessas pessoas, deixa, assim, de ser reconhecida.</font></P>     <p><font size="3">Tanto quanto a invisibilidade e a humilha&ccedil;&atilde;o social    que a acompanha, a cegueira p&uacute;blica deve ser entendida como um fen&ocirc;meno    pol&iacute;tico e, ao mesmo tempo, psicol&oacute;gico, considera o pesquisador.    Pol&iacute;tico porque relacionado &agrave;s desigualdades hist&oacute;ricas    entre classes sociais. Portanto, h&aacute; interesses de classe informando a    cegueira – aqueles que se recusam a ver o outro, trabalhador subalterno, porque    n&atilde;o o reconhecem como um igual. E a cegueira p&uacute;blica, segundo    Costa, tamb&eacute;m &eacute; psicol&oacute;gica, na medida em que participamos    pessoalmente (mesmo que sem o perceber) da sua manuten&ccedil;&atilde;o. Ou    seja, n&atilde;o se trata apenas de uma determina&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica    – a dist&acirc;ncia social entre pessoas de classes distintas. E, nesse caso,    o que vale lembrar &eacute; que ela pode ser superada. Reconhecendo-se, por    exemplo, a presen&ccedil;a do outro atrav&eacute;s de uma genu&iacute;na conversa.    Ao reconhecer o seu direito de falar e ser ouvido, o outro passa a ser visto.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n3/a03fig02.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>EXCLUS&Atilde;O INCLUSIVA</b> Mesmo em contextos que se prop&otilde;em    a ser mais inclusivos, lutar contra a invisibilidade ainda &eacute; um desafio.    Trabalhando como int&eacute;rprete de l&iacute;ngua de sinais (Libras) no curso    de arquitetura e urbanismo da Universidade Paulista (Unip), de Campinas, h&aacute;    3 anos, a pedagoga Vanessa Martins alerta, a partir da sua experi&ecirc;ncia    com alunos surdos que, muitas vezes, a inclus&atilde;o desses estudantes apenas    mascara uma forma mais sutil e discreta de exclus&atilde;o. A acessibilidade    dos alunos surdos ao ensino superior &eacute; garantida por lei, desde 1999    – as universidades s&atilde;o obrigadas a contratar int&eacute;rpretes de Libras    para estudantes surdos. A despeito do int&eacute;rprete presente na sala de    aula, a presen&ccedil;a desses alunos (e dos pr&oacute;prios int&eacute;rpretes)    continua invis&iacute;vel para alunos e professores. </font></P>     <p><font size="3">"A l&iacute;ngua de sinais tem uma gram&aacute;tica diferente    do portugu&ecirc;s. E muitos surdos foram alfabetizados em Libras. A l&iacute;ngua    portuguesa &eacute; sua segunda l&iacute;ngua. Muitos professores n&atilde;o    reconhecem essa diferen&ccedil;a durante a aula e na hora de avaliar seus alunos    surdos, quando exigem uma prova escrita em portugu&ecirc;s, por exemplo",    lembra. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Vanessa conta um epis&oacute;dio em que, na apresenta&ccedil;&atilde;o    de um semin&aacute;rio, um aluno, com o consentimento do professor, apagou as    luzes da sala, ignorando completamente seu colega surdo e a int&eacute;rprete.    "Como, ap&oacute;s tantos meses de contato, esqueceram que minhas m&atilde;os    precisavam das luzes para dialogar com o aluno surdo? Por que o professor aceitou    passivamente a situa&ccedil;&atilde;o; ser&aacute; que ele tamb&eacute;m esqueceu?"</font></P>     <p><font size="3">Para a pedagoga, alunos surdos e n&atilde;o-surdos devem compartilhar    a mesma sala de aula. Mas n&atilde;o se pode ignorar que usam uma l&iacute;ngua    distinta, o que traz uma s&eacute;rie de implica&ccedil;&otilde;es para o seu    aprendizado. "O int&eacute;rprete de sinais, por exemplo, interfere no    conhecimento que est&aacute; sendo transmitido para o aluno. Interpretar n&atilde;o    &eacute; um ato mec&acirc;nico e, por isso, a intera&ccedil;&atilde;o entre    o professor, o int&eacute;rprete e o aluno &eacute; muito importante. Trata-se    de uma quest&atilde;o pedag&oacute;gica e n&atilde;o meramente t&eacute;cnica".    Por&eacute;m, enquanto a din&acirc;mica escolar n&atilde;o for alterada e a    aula continuar a ser pensada para quem ouve e fala, os surdos, embora presentes    na sala, continuar&atilde;o a ser tratados como invis&iacute;veis.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Carolina Cantarino</i></font></P>      ]]></body>
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